quarta-feira, novembro 30, 2005

O MASCARADO

Estava, com alguns amigos, no velório de uma pessoa de nossas relações. Num dado momento, percebemos que algo inusitado estava ocorrendo, por causa de uma certa agitação das pessoas mais afastadas de nós. Pude observar que alguns dos presentes não conseguiam manter a compostura exigida para a ocasião e riam. De nada valeram as minhas palavras de censura a curiosidade dos amigos era mais forte e logo e logo o nosso grupo estava desfeito. Acabei levado por eles. Qual não foi o meu espanto, quando descobri a razão de todo o alvoroço: perto do caixão, conversando com a viúva e outros parentes do morto, vi um homem vestido de preto e cujo rosto estava encoberto por uma máscara. Usava uma máscara preta, para combinar com o terno, imaginei, e que se adequava à lugubridade da ocasião. Pelo menos, a mim me pareceu, mas somente a mim, pois as demais pessoas ali presentes (inclusive as que formavam a roda em que estava e que há bem pouco tempo falavam compungidamente da morte do amigo) viam na presença do mascarado motivo para diversão. Os próprios familiares do morto devem ter mantido, à custa de muito esforço, a compostura da ocasião. Eu estava movido por uma indominável curiosidade a respeito daquele estranho, e, quando ele se retirou, alvejado por olhares e risos sarcásticos, andei perguntando por ele, mas ninguém o conhecia. Realmente eu fiquei muito impressionado com o homem. A visão de sua soturna máscara não me saía da cabeça. A todo momento ela surgia à minha frente, impedia-me de me concentrar no meu trabalho, na leitura, num programa de tevê. Falei do caso a diversas pessoas, na esperança de alguma delas conhecesse o homem e a razão de ele usar a máscara, em vão - de todas ouvi a mesma resposta de que nunca o viram, invariavelmente acompanhada de uma boa risada. Disse para mim mesmo que nunca mais o veria, mas a sua imagem ficaria retida na memória, do mesmo modo que, por uma impressão diversa, conservamos a imagem de uma bela mulher, a quem vemos uma única vez na vida.
Felizmente me enganava. Uma tarde o reencontreu num banco. Eu estava numa fila quilométrica, aguardando impacientemente a vez de ser atendido, quando percebi que, de repente, as pessoas das outras filas tinham desviado a atenção para o lado da minha fila. Devia estar ocorrendo algo muito engraçado, as pessoas não olhavam apenas com um vivo interesse, mas estampavam um sorriso zombeteiro nos lábios. Impelido por uma curiosidade natural, virei-me em direção ao final da fila, e quem estava lá? Ninguém menos do que o estranho homem que encontrara no velório. Apesar de olhar com discrição, pude observar que não usava a mesma máscara. Usava dessa vez uma colorida, de feição inspirada na forma do rosto de um palhaço. Cada vez mais impressionado pelo comportamento do homem, perguntei aos vizinhos próximos sobre ele, mas nenhum deles o conhecia. É um doido a mais nesta cidade já cheia de doidos, comentou o primeiro a quem consultei. Depois de ser atendido, saí por entre a minha fila e a vizinha, curioso para ver o mascarado de perto. É obvio que não podia ver-lhe o rosto, para fazer uma avaliação de sua idade, mas, não sei por quê, supus que não fosse mais jovem. Tinha um porte elegante, a cabeça ereta, o que, quando sentado, podia dar às pessoas a falsa impressão de ser alto. Essa sua postura conferia-lhe um ar de altivez, que o fazia ignorar os olhas zombeteiros.
Nosso terceiro encontro aconteceu numa festa de aniversário, à qual não queria ir, por não conhecer o aniversariante, mas um amigo tanto insistiu que acabei sendo levado por ele. Como das vezes anteriores, o mascarado apareceu bem depois de mim e, do mesmo modo, sua chegada provocou um alvoroço nos convidados.Por estar num ambiente festivo, estava bastante alegre. Passou a maior parte do tempo num pequeno grupo, do qual participava o anfitrião, conversando e rindo, empunhando um uísque, parecendo íntimo de todos. Estava usando uma máscara azul-celeste e me ocorreu que lera, não sabia onde, que o azul tem uma conotação de alegria e satisfação, indicando que, se alguém o escolhe, é por estar de bem com o mundo e os seus semelhantes. Contei ao amigo que já o encontrara num velório e num banco, cada vez com uma máscara diferente, como se a colocasse de acordo com o ambiente ou a natureza do evento. Revelei a minha curiosidade em saber a razão daquilo, mas ninguém, a quem perguntei, conhecia o homem. Se quiser, eu te levo ao Edmundo, quando ele estiver só, e você pergunta a ele, ofereceu-se o meu amigo. Eu falei tá legal e, logo depois, ele se afastou em direção a um outro grupo. Continuei no meu canto, a observar o mascarado.
Em dado momento, vi-o deixar o grupo e caminhar para o lado em que me encontrava. Passou perto de mim e me cumprimentou, tudo bem? Me virei e acompanhei-o até desaparecer da minha vista. Supus que ia ao banheiro e fiquei na mesma posição, aguardando que ele retornasse.Um pouco antes tinha decidido satisfazer a intensa curiosidade com o próprio mascarado. Ansioso, vi-o andar de novo na minha direção e, ao chegar perto de mim, perguntei-lhe se podia me dar a sua atenção por um minuto. Por uma hora, se for preciso, amigo, respondeu , afável, o que reforçou a minha disposição. Comecei me desculpando pela inconveniência de estar invadindo a sua intimidade, para satisfazer uma enorme curiosidade. (Estava tão perto dele que poderia tocá-lo, olhando fixamente nos olhos restringidos pela máscara, e pareceu-me ver neles um ar de gravidade que denunciaria a reprovação do homem à minha bisbilhotice.) É que desde a primeira vez que o vira num velório, não tinha deixado de pensar um só instante na sua figura. Tentara me valer dos amigos, mas nenhum o conhecia, desse modo, embora constrangido, me via obrigado a dirigir-me a ele. Ele se incomodaria em atender a minha curiosidade? A respeito de quê? Senti um tom animoso na voz, o que confirmava a censura que julgara ver-lhe nos olhos. Mas não podia mais recuar e disse que gostaria de saber por que usava máscara. E o sr por que não a usa? Foi com essa pergunta que respondeu à minha, e, com um pedido de licença, retirou-se e foi reunir-se com os amigos.
Fiquei meio estonteado com a reação do homem. Esperava até mesmo uma grosseria, depois que o percebi aborrecido com a minha intromissão - algo do gênero de por que o sr não se importa com a sua própria vida e deixa a dos outros em paz? Jamais aquelas palavras: e o sr por que não a usa? O curioso é que não fiquei aborrecido, e nem mesmo frustrado, por continuar ignorando a razão da conduta daquele excêntrico, tão inesperada fora a sua reação. Permaneci um pouco no mesmo lugar, a observá-lo. Ele recuperara a alegria e o humor perdidos durante o nosso breve encontro. Depois resolvi circular um pouco pela casa. Antes de sairmos, o amigo voltou a se oferecer para me levar ao anfitrião, a fim de me informar sobre o mascarado, mas disse-lhe que não estava mais interessado. E com o tempo foi me arrefecendo o interesse por ele e hoje, quando o encontro, a sua figura não me chama mais a atenção.
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Extraído do meu livro "Clarita" (1993) , este conto foi reduzido para se adequar às dimensões desta página. Acredito que a redução não tenha prejudicado o texto.

domingo, novembro 27, 2005

HISTÓRIA REAL


Este texto foi publicado há mais de um ano em um site sobre cinema (o nome não me ocorre, no momento), quando eu ainda não tinha blogue. E é apresentado do mesmo modo como saiu naquela página.
Nesse filme de 1999, disponível em DVD, David Lynch conta a história verídica de Alvin Straight, um homem velho e doente, que viaja centenas de quilômetros, dirigindo um carrinho cortador de grama, para visitar o irmão convalescente de um acidente vascular, com o qual está de relações cortadas há mais de dez anos. É uma história plena de calor humano, em que participam valores , como a amizade, a solidariedade, a bondade e uma certa ternura, mas tudo isso exposto de maneira comedida e sóbria, sem exageros. E aí vale perguntar o que fez Lynch se interessar por um assunto tão estranho ao seu universo temático e estilístico. Onde aqui o diretor de O Homem Elefante, Veludo Azul e Coração Selvagem, que levava o espectador ao mal-estar, ao incômodo, à perturbação, ao mostrar o grotesco, o horrendo, a crueldade e a violência em doses cavalares? Em nenhum momento. Ou, talvez, na cena em que uma mulher atropela mortalmente um veado. É uma cena dramaticamente muito forte, que expõe o descontrole emocianal da mulher. Seu desabafo à beira do histerismo chega a incomodar (fazendo lembrar um pouco o Lynch de outros carnavais), mas, ao encerrá-lo, ficamos sabendo do seu amor por aquela espécie de animal e acabamos sendo compassivos com ela.
O filme, repetimos, respira calor humano através de seus personagens, mas sem forçar a barra para conquistar a cumplicidade do espectador. Como acontece com as grandes obras, tudo é feito sem abuso de gestos e de expressões faciais, com exceção da cena acima citada, e com delicadeza e sensibilidade. Essa contenção, esse comedimento se espalham pelos diálogos, sobretudo quando intervém Alvin, que conta com a boa interpretação de Richard Farnsworth. Quando, por exemplo, ele retorna do exame médico a que se submeteu, a filha Rose (Sissy Spacek) lhe pergunta o que o médico achou dele. Alvin responde: "Ele achou que eu estou bem". Na verdade, ele não está bem, mas prefere não se estender sobre o assunto.
E que personagem esse Alvin Straight! Teimoso, obstinado, às vezes, rude, mas sensível, como o demonstra no diálogo com aquele outro velho, também combatente na Segunda Grande Guerra, e no encontro com a moça grávida que está fugindo de casa. Vive com a filha, a quem trata com a brandura e a tolerância de quem lida com uma pessoa que sofre de um certo retardo mental e que, ainda por cima, perdeu a guarda dos filhos para o Estado, por causa de um acidente doméstico, do qual, no entanto, não teve culpa. Sua obstinação em visitar o irmão doente e promover a reconciliação entre eles é comovente, sem que Lynch precise esfregar-nos isso na cara.
E o reencontro de Alvin com Lyle (Harry Dean Stanton) é mostrado sem arroubos, sem lágrimas, sem qualquer sombra de melodrama ou de sentimentalismo. Apenas se vê Alvin, do lado de fora da casa, gritar o nome do irmão, que lhe responde de dentro da casa. A imagem final mostra os dois sentados à varanda da casa, mudos, contemplando as estrelas, como tantas vezes o fizeram quando eram jovens.

quarta-feira, novembro 23, 2005

O DECLÍNIO DO IMPÉRIO AMERICANO - Uma revisão


O lançamento em DVD , já há alguns meses, de O Declínio do Império Americano (1986), seguindo-se ao de As Invasões Bárbaras (2003), dá ao espectador a oportunidade de ver, ou rever, os principais personagens dos dois filmes, a uma distância de quase vinte anos. E, é claro, de estabelecer um paralelo entre as duas obras. É possível perceber uma diferença entre ambas, baseada no comportamento de Rémy, Alain, Claude, Dominique e Diane, que, em As Invasões Bárbaras, mais velhos e diante do estado terminal de Rémy, deixam aflorar um travo de amargor em suas vidas atuais, apesar de continuarem cultivando a irreverência, o deboche e o cinismo. É que a vida passou para quatro deles e está terminando para Rémy.
O Declínio do Império Americano se inicia com um pequeno trecho de uma aula dada por Alain (Daniel Briére) e depois corta para um longo traveling que atravessa o saguão de uma estação até alcançar, no fundo, as personagens Diane (Louise Portal) e Dominique (Dominique Michel), a primeira entrevistando a segunda. A sequência seguinte mostra o mesmo Alain e mais Rémy (Rémy Gerard), Claude (Yves Jacques) e um jovem amigo deles, reunidos em uma casa à beira de um lago. A partir daí há uma alternância de cenas das conversas entre os homens e as mulheres, com Louise (Dorothée Berryne), mulher de Rémy, e a jovem amante de Alain juntando-se a Diane e Dominique numa academia de ginástica. (E, talvez, o propósito do diretor Denys Arcand, em mostrar as mulheres em atividade física e os homens bebendo e conversando, tenha sido o de estabelecer uma diferença entre os cuidados delas com o corpo e o relaxamento deles com o corpo.) Os homens falando de mulheres, as mulheres falando de homens. As confissões de relacionamentos sexuais (ilustradas por flashbacks ), dão um toque humorístico à narrativa.
Há, pois, um clima de descontração na reunião dos dois grupos, que é alterado por duas ocorrências, quando as mulheres vão se juntar aos homens. A primeira é de pouca importância, apenas o mal-estar durante o jantar, causado pela chegada de Mário, o intratável e arrogante amante de Diane, que, felizmente, pouco se demora. Já a segunda é de suma gravidade. A confissão de Dominique, em meio a uma conversa normal, de que já dormira com Rémy (e também Alain), provoca um atrito na relação do primeiro com sua mulher, que, sem conseguir explicações do marido, quando vão se deitar, busca consolo no homossexual Claude.
Os derradeiros minutos do filme não têm diálogos. Os personagens dispersos pela casa, na mahã seguinte, com Louise e a amante de Alain tocando piano, observados por Rémy e Alain da sacada, enquanto Dominique e o jovem se acariciam na cozinha. As marcas do incidente da noite anterior ainda estão estampadas nos rostos de Louise (de óculos escuros) e de Rémy, mas não permanecerão por muito tempo. Será? Em As Invasões Bárbaras eles aparecem separados.
O Declínio do Império Americano e As Invasões Bárbaras são dois grandes filmes, sem que se possa dizer que um seja a continuação do outro, apesar de apresentarem os mesmos principais personagens, desse canadense Denys Arcand, um cineasta importante, entre os poucos que se destacam no cinema atual. Dele ainda conheço Jesus de Montreal, outro grande filme.

sábado, novembro 19, 2005

MEUS DOIS AVÔS




Cícero era o nome do meu avô paterno. Os netos não o chamavam de vovô, mas de Pai Cícero. Estive com ele apenas duas vezes, já que morávamos em cidades muito distantes uma da outra. (Meu outro avô também morava noutra cidade longínqua, aliás, vizinha à de Pai Cícero.) Mas nunca me saiu da lembrança a visão de Pai Cícero trabalhando, com paciência e habilidade, na feitura de palitos. Fazia aquilo como hobby, não como ofício, que este era exercido num cartório. Os palitos eram usados na sua própria casa e eram dados aos parentes. Quando voltávamos para a nossa cidade, os levávamos em quantidade razoável. Gostava de ler. Não tenho idéia dos autores que lia, mas tenho quase certeza, por sua pouca instrução, que não eram dos maiores da literatura. E gostava de que os netos lessem para ele. Fazia-o, disso tenho certeza, para avaliar a capacidade do neto. Fui "testado" uma vez. Eu tinha uns nove para dez anos. Um tanto amedrontado diante daquele homem mirrado, mas que impunha autoridade, mesmo involuntariamente, que, na cabeça daquele menino, devia ter uns duzentos anos, peguei o livro e comecei a ler o trecho que ele indicou. Não me lembro se o trecho era longo, mas não devo ter lido menos do que dez minutos. A uma certa altura ele me mandou parar, pediu o livro e disse que me retirasse. Me afastei sem saber o que o Pai Cícero tinha achado da minha leitura. Só quando já estávamos de novo em casa é que ouvi do papai como tinha me saído no "teste". Pai Cícero tinha gostado, sim. Segundo ele, de todos os seus netos, da minha idade, eu era o que lia melhor. Foi o primeiro elogio que recebi na minha vida. E dos mais sinceros, creio.
Já no físico - alto, magro, mas não muito, espigado - o meu avô materno era muito diferente de Pai Cícero. Um traço marcante de vovô Pirajá era a sua extremada religiosidade. Ao rezar o terço de todas as noites, o fazia ajoelhado sobre caroços de milho (ou feijão, não me lembro com precisão). Se ouvisse alguém dizer, por exemplo, "ô vento danado", a advertência vinha em cima da bucha: "não diga isso, que o vento é de Deus". Já o conheci muito pobre, vivendo de uma modestíssima venda de gêneros alimentícios, mas possuíra bens imóveis, que foram se acabando por uma falta de tino para os negócios e, também diziam, pela doação de parte deles à Igreja. Um homem bom, honesto, às vezes, doce, mas que, fácil, perdia as estribeiras. E, zangado, era outro homem, embora mantivesse o controle do uso de palavrões. Em uma de suas visitas à nossa casa, ele soube que uma das minhas irmãs, que fizera um casamento desastroso, levara uma surra do cafajeste do marido. Ah, pra que foram dizer a ele! Indignado ao último grau, vovô Pirajá queria, por fina força, ir à casa da neta tomar satisfação com o marido dela. Foi um custo para o papai demovê-lo da idéia. E, na época, já estava aí pelos setenta.
Mas se o papai conseguiu dissuadi-lo daquela vez, de outra vez foi por ele dissuadido, numa ocorrência em que o envolvido era eu. Foi no mesmo dia da chegada do vovô. Eu tinha feito uma traquinagem qualquer e o papai ia me bater e foi aí que o vovô se meteu. Primeiro, ele pediu que o papai não me surrasse. Depois, como o genro se mostrasse inflexível, ele mudou de atitude e disse ao meu pai que não o deixaria fazer aquilo comigo. O papai recuou, atendeu ao sogro, e, se bem me lembro, me disse que agradecesse ao meu avô por não levar uma pisa. À noite, no meu quarto, antes de dormirmos, vovô me aconselhou a não contrariar mais o meu pai, para não ser punido. Quando ele foi embora, fiquei com medo de que a surra tivesse sido apenas adiada. Mas a raiva do meu pai já tinha passado e a travessura ficou por isso mesmo. Obrigado, vovô Pirajá.

domingo, novembro 13, 2005

CURIOSIDADES CINEMATOGRÁFICAS




1) Não, não foi em A Aventura (1959) que começou a parceria de Michelangelo Antonioni com a atriz Monica Vitti, mas em O Grito (1957). Só que neste Monica Vitti não trabalhou como atriz. Ela dublou Dorian Gray, que fez o papel de Virginia, a proprietária da bomba de gasolina. Antonioni não gostou da voz da intérprete escolhida e pediu a um de seus auxiliares que procurasse alguém com uma voz que ele achasse adequada para a da personagem. Descoberta trabalhando numa peça teatral, Monica Vitti foi testada´pelo diretor e aprovada. Daí teve início uma parceria que resultou em cinco filmes, quatro deles dos maiores realizados pelo grande mestre italiano. A colaboração no cinema estendeu-se à ligação amorosa, que durou alguns anos. Outra curiosidade: Monica Vitti é um nome artístico. O verdadeiro nome da atriz é Maria Luisa Ceciarelli.
2) Há uma muito extensa relação de pessoas de uma mesma família trabalhando no cinema. Vamos a alguns exemplos. Maurice e Jacques Tourneur, Luís Buñuel e Jean-Louis Buñuel, Francis e Sofia Coppola Ingmar e Daniel Bergman (pais e filhos diretores). Luchino Visconti tem um sobrinho também diretor, chamado Eriprando Visconti. No caso de atores, a lista é enorme. Continuemos com uns poucos exemplos. John, Leonel e Etlhel Barrynore (irmãos). John Barrymore Junior e Drew Barrymore (pai e filha). Henry, Jane e Peter Fonda (pai e filhos). Peter e Bridget Fonda (pai e filha). Charles, Geraldine e Sidney Chaplin (pai e filhos). Catherine Deneuve e Francoise Dorleac (irmãs, a segunda, falecida prematuramente num acidente de carro). John e Patrick Wayne (pai e filho). Alec, Daniel, William e Stephen Baldwin (irmãos). Ingrid Bergman e Isabella Rosselinni (mãe e filha, esta, fruto da união de Ingrid com o diretor Roberto Rosselinni). Brigitte e Mijanou Bardot (irmãs). Marlon e Jocelyn Brando (irmãos). Marcello e Chiara Mastroianni (pai e filha, esta , nascida do casamento de Marcello com Catherine Deneuve). Douglas Fairbanks e Douglas Fairbanks Juioir. Michael, Vanessa e Lynn Redgrave (pai e filhas). Por fim, quatro casos de irmãos diretores: Bernardo e Giuseppe Bertolucci, Henry e Louis King, Vittorio e Paolo Taviani , Joel e Ethan Coen.

segunda-feira, novembro 07, 2005

UMA MULHER CHORANDO

Três vezes perguntara por que ela estava tão calada. E ela sempre a responder que não era nada. Na terceira vez, quando perguntou se estava ressentida com algo que ele lhe fizera, Helena denotou, no tom ríspido de voz, um começo de irritação com a inquirição dele. Sentindo a reação dela, Ramiro achou prudente parar com aquelas perguntas. O certo seria buscar algum assunto, por mais trivial que fosse, para tirá-la daquele mutismo que o desconfortava. Como tinha sido o dia dela no trabalho? Bem, ela respondeu, lacônica. Afinal convencido de que não podia arrancar mais nenhuma palavra de Helena, ele resolveu também se calar. Assim mudos passaram o restante do jantar, um só abrindo a boca para pedir um prato que estivesse mais ao alcance do outro.
Ao deixarem a mesa, Helena foi escovar os dentes, enquanto ele foi ligar a televisão. Depois ela iria para junto dele. Era assim todas as noites, até mesmo quando iam sair. Mas naquela noite, quando voltou do banheiro, ela disse que tinha "um horror" de provas para corrigir e não podia perder tempo. "Mas não dá pra você ficar nem um pouco"? "Não dá. Eu tenho que devolver as provas amanhã". A atitude dela deixou-o ainda mais preocupado. Ela nunca procedera daquela maneira. Algum problema a estava perturbando, mas ela não queria revelá-lo. E enquanto as imagens do telejornal iam passando à sua frente, ele não se dava conta do que elas mostravam, nem ouvia direito as falas, pois o pensamento se concentrara na busca de um ato seu, um gesto, uma palavra àspera, que a tivessem magoado. Vasculhou a mente, tentando rememorar fatos do dia, da noite anterior, até mesmo quando estavam na cama nos momentos de amor. Em vão. Nada. O melhor é esperar até amanhã, talvez ela me diga o que está acontecendo. E continuou vendo, sem ver, o que se passava na televisão.
Ao entrar no quarto, Helena trancou a porta, mas não foi para o birô. Dirigiu-se para a janela. Mas, como o marido diante da tevê, ela não "via" a profusão de luzes iluminando aquela pequena parte da cidade. Meditava sobre a sua vida. A bem dizer, continuava uma meditação que começara já já algum tempo. E a cada dia que passava, mais tomava consciência da falta de sentido em que a sua vida se transformou com a irrealização de sonhos por tantos anos acalentados, a morte das ilusões, a perda da esperança. E o pior: sem vislumbrar um aceno sequer de mudança. E o casamento? Todos os conhecidos, amigas, familiares colocavam Ramiro num altar, ela tirara a sorte grande ao encontrar um homem de tantas qualidades: trabalhador, bem-educado, excelente profissional e, por cima, sempre apaixonado pela esposa. Sim, Ramiro podia ser tudo isso, mas havia algo nele que Helena não sabia discernir (e nem eram os pequenos defeitos que toda pessoa, mesmo as melhores, tem)., que a fazia não se sentir a mulher tão invejada. Quem sabe se a culpa não seria dela? E das outras coisas era também culpada? Da profissão que já não a satisfazia, da falta de estímulo para continuar lecionando? Do convívio com a maioria dos colegas e das amigas? Teria ela toda a culpa por não encontrar mais naquelas pessoas o que buscava para uma existência mais fácil de ser levada?
Tudo isso tinha se incrustado à vida de Helena, como uma dor persistente, e nesses últimos dias ela vinha se sentindo cada vez mais infeliz, embora procurasse disfarçar, sobretudo de Ramiro, todo o sofrimento. Mas naquela noite nem a ele conseguira enganar. Que assim seja, disse para si mesma. E, de repente, enquanto olhava a parte da cidade inundada de luz, voltou-lhe à lembrança um fato que presenciara na sua adolescência Um fato ocorrido há tantos anos na vida de uma pessoa, que nunca saíra da sua mente. Vez por outra se via a recordá-lo e não foram poucas as pessoas, através dos anos, às quais contou o sucedido. Até a Ramiro ela contou.
Era uma mulher da sua cidade. Uma fina doceira. Seus doces, das mais variadas espécies, eram motivo de comentários não só naquela cidade, mas nas cidades vizinhas. Até à capital do Estado a sua fama havia chegado. Solteira, devia ter, na época, quarenta e poucos anos. A família de Helena era, como as demais da mesma classe social, freguesa de Amália. E uma tarde a mãe de Helena mandou-a à casa de Amália, para comprar o doce de leite de que o marido tanto gostava. Lá chegando, Helena bateu palmas três vezes, ninguém apareceu. Nem Amália, nem uma sobrinha que morava com ela, tampouco a empregada. A porta da frente estava só encostada. Helena, acostumada a frequentar a casa, para visitar a sobrinha de Amália, foi entrando, enquanto dizia sou eu, Amália. Tão logo pôs os pés dentro da casa, deparou-se com uma cena que a deixou entre chocada e penalizada. À mesa das refeições estava Amália. A cabeça curvada, as mãos tapando quase todo o rosto (só os olhos descobertos), a doceira chorava. E o choro não era silencioso - a mulher chorava como uma criança quando apanha. De tão intenso o choro, os braços tremiam. "Amália, o que foi que houve"? Helena chegou para perto dela e repetiu a pergunta, mas Amália parecia não dar pela presença dela e continuava no choro. "Aconteceu alguma coisa com Eliane"? E Amália sem responder, continuando a chorar. Helena pôs a mão sobre a cabeça dela e fez um afago. Durante um minuto ou mais manteve a mão sobre a cabeça de Amália, como se a leve pressão da mão pudesse aliviar a dor da mulher. Depois foi saindo devagarinho, olhando para a pobre mulher, a quem sempre vira alegre e tão disposta.
E ao recordar, mais uma vez, a cena lastimável, Helena pôde compreender, depois de tantos anos, o sofrimento daquela mulher numa tarde longínqua. E sentiu-se na pele de Amália, a fina doceira, a mulher tão elogiada e respeitada pela sua arte na culinária. Então, de repente, veio-lhe, incontrolável, a vontade de repetir o ato de Amália. E lágrimas lhe vieram aos olhos. Helena chorava. Mas, ao contrário do choro de Amália, o seu era silencioso. E assim ficou por muito tempo deixando as lágrimas banharem-lhe o rosto.

quarta-feira, novembro 02, 2005

BREVE ANTOLOGIA DE VERSOS DA MPB



- "Tu pisavas nos astros, distraída". - Chão de Estrelas (Sílvio Caldas/Orestes Barbosa)- "Eu era feliz e não sabia". Meus Tempos de Criança (Ataulfo Alves)
- ""As rosas não falam/Simplesmente as rosas exalam/o perfume que roubam de ti". - As Rosas Não Falam (Cartola)
- "Quem acha, vive se perdendo". - Feitio de Oração (Noel Rosa/Vadico)
- "Tire o seu sorriso do caminho/que eu quero passar com a minha dor". - A Flor e o Espinho (Nelson Cavaquinho/Guilherme de Brito)
- "A feia fumaça que sobe, apagando as estrelas" - Sampa (Caetano Veloso)
- "Na boiada já fui boi, mas um dia me montei". - Disparada (Geraldo Vandré/Théo de Barros))
- "Eu pensei que todo mundo fosse filho de Papai Noel". - Boas Festas (Assis Valente)
- "Maria, o teu nome principia na palma da minha mão". Maria (Ari Barroso/Luiz Peixoto)
- "A felicidade procurada, corre". - Coração (Synval Silva)
- "Quando o verde dos teus oio se espraiá na prantação". - Asa Branca (Luiz Gonzaga/Humberto Teixeira)
- "Que a vida dura só um dia, Luzia/E não se leva nada deste mundo". - Anda Luzia (João de Barro, o Braguinha)
- "Cuidado, que a morte abriu a janela/Ainda hoje eu passei por ela/E vim depressa te dizer" - Maresia (Ednardo)
- "Que a noite é criança/Que o samba é menino/E a dor é tão velha que pode morrer". - Olê, Olá (Chico Buarque)
- "Eu não sou água pra me tratares assim/Só na hora da sede é que procuras por mim". - A Fonte Secou (Monsueto Menezes/Tufi Lauar/Marcléo)
- "A felicidade é como a gota de orvalho numa pétala de flor/Brilha tranquila/Depois de leve oscila/E cai como uma lágrima de amor". A Felicidade (Tom Jobim/Vinicius de Morais)

terça-feira, outubro 25, 2005

REVISTA INGLESA ELEGE O MAIOR FILME DE TODOS OS TEMPOS

Quase caí das nuvens. O que, para Machado, é melhor do que cair de um determinado andar ( não me lembro de qual seja). Foi uma matéria que vi hoje no site do Estadão, falando de uma votação realizada por críticos da revista inglesa "Total Film", para escolher os maiores filmes da história do cinema. A notícia não informa o número de filmes, mas suponho que seja de cem, já que Casablanca ficou em 98.o lugar. E se vocês imaginam que o vencedor foi um desses monumentos cinematográficos, estão muito enganados. O primeiro lugar coube a Os Bons Companheiros (Scorcese, 1990). O segundo colocado, Vertigo/Um Corpo que Cai (Hitchcock). E o terceiro e o quarto? Nada mais, nada menos do que Tubarão (Spielberg) e Clube da Luta, que, confesso, não sei de quem é. Do quinto ao décimo, entre "preciosidades" do tipo de O Império Contra Atraca e a trilogia O Senhor dos Anéis (oitavo e nono, respectivamente), há, para salvar a honra dos grandes autores, Cidadão Kane (sexto) e Era Uma Vez em Tóquio (Ozu, sétimo). Há, ainda, O Poderoso Chefão II em quinto e Jejum de Amor (Hawks) em décimo. Quer dizer, o filme de Welles, que, em 1941, revolucionou a técnica, a narrativa, a linguagem cinematográficas, perdeu para um Tubarão e um Clube da Luta.E Vertigo, se é um das 2 ou 3 obras-primas de Hitchcock, ainda assim não merece figurar nem entre os vinte melhores. E Jejum de Amor, uma boa comédia de Hawks, perde feio para, pelo menos Onde Começa o Inferno e Rio Vermelho, dois dos melhores westerns já realizados. E até para Scarface. os 3 do mesmo diretor. E quanto ao filme vencedor, não é, a meu juízo, o melhor de Scorcese. Embor goste dele, prefiro Taxi Driver( que, aliás, figurou em 14.o) e até o kafkiano Depois de Horas.
Seria bom que tivessem sido informados todos os filmes, para se saber se outras barbaridades foram cometidas nessa discutível(para dizer o mínimo) votação, seja na inclusão de filmes de qualidade duvidosa, seja na omissão de obras-primas que vêm se mantendo íntegras ao longo de décadas. Alguns outros filmes : Chinatown (Polanski, 12.o), Manhattan (Woody Allen, 14.o), A Felicidade Não se Compra (Capra, 15.o), Janela Indiscreta (Hitchcock, 24.o) e Crepúsculo dos Deuses (Wilder, 25.o). Todos esses cinco são filmes importantes; para mim, sobretudo, o de Hitchcock (que prefiro ao Vertigo) e o de Wilder, mas numa votação feita por pessoas com uma maior vivência de cinema e uma indispensável visão crítica, o que não parece ser o caso de, pelo menos, uma parte dos críticos dessa revista, ficariam numa posição bem abaixo
Não sei se foi essa mesma revista que há poucos meses elegeu Spielberg o maior diretor de cinema de todos os tempos, em mais uma votação entre "especialistas" em cinema. São barbaridades desse tipo, e ocorridas num país de grande tradição cinematográfica, que deixam revoltadas pessoas que, mesmo cometendo erros de avaliação crítica, encaram o cinema com a seriedade que grandes artistas o tornaram merecedor. Escolhas, selecções, listas dessa espécie nos levam a uma destas duas reações. Ou arrancar, de indignação , os cabelos (e eu que já os tenho tão escassos, para assim proceder), ou dar aquela sonora e longa gargalhada do personagem de Walter Huston, no final de O Tesouro de Sierra Madre. Que, talvez, tenha ficado fora da lista.

sábado, outubro 22, 2005

UM DIA... OS MESMOS DIAS

Assim que acordou, olhou o relógio. Gesto mecânico, que o faria sorrir, se pudesse sorrir. Tinha tomado a decisão, noite passada. Não.Foi quando chegou ao trabalho, no turno da tarde. O encarregado lhe cobrou explicação por ter faltado pela manhã, ele disse que estivera adoentado. O caso teria morrido aí, o superior alertando-o, cordato, para avisá-lo quando não pudesse comparecer ao expediente matutino. Mas o homem tinha de representar o tiranete para uma platéia o seu tanto numerosa: esbravejou, espezinhou, ameaçou. Ele sem força para revidar. Aniquilado, arrastou-se para a mesa de trabalho. Tarde péssima. A mais comprida de toda a sua vida, os ponteiros do relógio tartarugando pelos números.
O que houve à noite, em casa, foi um restinho de dúvida alfinetando-o. Mas quando ouviu a opinião da mulher, concluiu que não mais devia hesitar. E tu vai viver de vento, Eduardo? Largar um emprego tão bom por uma besteira dessa. Será que tu esquece que tem filhos e mulher pra sustentar? Homem, aprenda a viver.
Aquele incidente fora o impulso que lhe faltava para despencar na fossa. O serviço há muito o deixara de interessar. Embora trabalhasse com certa desenvoltura e uma correção que lhe valiam, vez por outra, um elogio, recebido com indiferença. Chocava-se, acima de tudo, com a disciplina, a submissão ao relógio, controlando a hora de chegar, a hora de sair, a hora de descansar. Quando se atrasava no intervalo entre o fim do primeiro turno e o início do segundo, era o banho só pra molhar o corpo, o almoço engolido, o carinho sonegado aos filhos. Impossível também aceitar os métodos utilizados para se fazer carreira. Para se galgar o menor d menor dos cargos, o que menos contava era a eficiência no serviço: o sujeito tinha de beijar os pés do superiores e até, sendo necessário, apontar algum companheiro em falta. E ele obrigado a conviver com esse tipo de gente, dar bom dia a esses abanadores, receber ordens deles.
E agpra aqiela implicância do encarregado. Um baba-ovo querendo bancar autoridade. Lutava pra não pensar na figurinha, mas os olhos só viam o rosto balofo do homem, e nos ouvidos zuniam as palavras que o encarregado aprendera nos cursos da Fábrica. Tenaz perseguição, de que não podia escapar. Ainda vendando os olhos e arrolhando os ouvidos.
Eduardo, não tã na hora de se levantar, não? Não respondeu. Será que a mulher pensava que recuara da decisão^Que se dobrara à maneira vulgar dela de protestar? De uma vez por todas: a mulher não o comprendia. As vezes que lhe explicou por que não adaptava ao trabalho! Perda de tempo. Ela via a Fábrica como um deus generoso que havia dado tudo ao marido: a casa, o carro, a mesa farta, os filhos calçados e vestidos. Nem por um instante parou para pensar que ele havia dado muito mais do que recebera.
Outra vez o relógio. Mas que mania essa de olhar o relógio, não precisando mais dele! Sete e quinze. Todo dia a essa hora estava saindo do banho. Se penteava, se vestia, comia, corria para o emprego. Trabalhava até às dez, voltava, brincava um pouco com as crianças, se banhava, se vestia, almoçava, fumava, corria para a Fábroca. E a tarde tão comprida Mais de dez anos nisso. E a mulher ainda vinha achar que devia continuar nessa vida. Ela não tinha nada que botar os filhos na história. Tinha sido grossura demais falar aquilo. Precisava ser um desnaturado para deixar os filhos passarem fome. Arranjaria outro emprego, ganhando menos, mas onde não houvesse tanta sujidade. Podia arranjar qualquer coisa. Tivesse que viver mais simples do que vivia, venderia o carro, tomaria o ônibus.
Sete e meia (terceira vez que olhava o relógio). Já devia estar no banho. Depois do café , ia conversar com a mulher. (O trivial.) A cara do encarregado reapareceu, a bocona - atirando ameaça. Da próxima vez que você faltar pela manhã, sem me comunicar, não precisa vir de tarde. Terá falta pelo dia todo. Isso aqui não é cu-de-mãe joana pra todo mundo fazer o que bem entende. Tá com alguma coisa, Eduardo? Silêncio. A mulher se afastou. Os filhos se achegaram, pularam sobre ele, fazendo-lhe brincadeiras. Ele chegou a rir. Então, num repente, saltou da cama, correu para o banheiro. Ela: eu posso mandar passar o café? Ele: mudo,só lhe adiantando gritar. Um grito de mil decibéis. Asseou-se e vestiu-se acelerado. Entrou no carro, faltando dez minutos para começar o expediente. Iria voando, para não chegar atrasado.
Este conto faz parte do meu livro de título homônimo, de 1983. É aqui republicado em forma integral, apenas com mínimas alterações na linguagem.

quarta-feira, outubro 19, 2005

OS MAIORES FILMES DE ANTONIONI E DE LANG



Michelangelo Antonioni

1. A Aventura (1959)
2. Blow-Up/Depois Daquele Beijo (1967)
3, O Grito (1957)
4. O Eclipse (1961)
5. O Passageiro: Profissão Repórter (1975)
6. Il Deserto Rosso/O Dilema de uma Vida (1963)
7, A Noite (1960)


Fritz Lang

1. M, o Vampiro de Dusseldorf (1931)
2. Metropolis (1926)
3. Fúria (1936)
4. O Diabo Feito Mulher (1951)
5. Os Corruptos (1953)
6. Vive-se Só Uma Vez (1937)

sábado, outubro 15, 2005

FEDERICO FELLINI

Este texto foi por mim publicado no blog O Apanhador de Sonhos, de Bené Chaves, no ínicio deste ano. É republicado aqui, não só por não dispor de um assunto novo, mas, principalmente, pelo ensejo de mais um aniversário da morte de Fellini no próximo dia 31.
Em meu primeiro contato com o cinema de Fellini, eu não tinha a menor idéia de quem ele era. Aliás, na época eu ignorava o nome de qualquer diretor. Adolescente, com quatorze para quinze anos, entrava num cinema atraído pelo nome dos atores e das atrizes, pelo título do filme, ou, ainda, pelo gênero (sendo faroeste, então, pouco me importava quem fosse o ator). O que me atraiu em Na Estrada da Vida foi a presença de Anthony Quinn no elenco, ainda que esse ator não fosse um dos meus preferidos; pelo contrário, antipatizava-o por sempre fazer o vilão. Dos outros atores do filme, eu jamais ouvira falar. E, então, caí na estrada... O filme não me agradou, nem desagradou. A impressão que tive dele foi de algo diferente de tudo quanto visto de cinema até aquela data. É muito provável que a uma certa altura tenho querido abandonar a sala, tão acostumado estava aos filmes que via na época, alem de ser privado de um mínimo de visão crítica de cinema. Houve, no entanto, uma cena que me chamou a atenção. Na verdade, foi uma frase dita pelo personagem conhecido por O Louco, numa conversa com Gelsomina. Ao tentar convencer aquela coitada (um dos maiores personagens criados pelo cinema) de que ela não é uma ínutil (e, portanto, o bruto Zampanó precisa dela), ele apanha do chão uma pedrinha e diz que até uma coisinha daquelas tem uma utilidade na vida, só que ele não sabe qual é.
Muitos anos se passaram até que eu voltasse a ter contato com o cinema de Fellini. Já estava morando em Natal, a minha visão de cinema já evoluíra, sobretudo por integrar o Cineclube Tirol. Este exibia uma sessão de arte uma vez por semana, num dos cinemas da cidade, e foi nessas sessões que assisti Oito & Meio, Os Boas Vidas, Noites de Cabíria e Abismo de um Sonho. O último não consegui ir além da metade, mais ou menos. Não, o filme não é ruim, o caso é que a energia pifou durante a projeção e não foi restabelecida pelo resto da manhã. E, assim, passei quase quatro décadas sem conhecer integralmente o primeiro filme solo de Fellini, o que só ocorreu no ano passado. via DVD. E passei a acompanhar, pelo circuito comercial, os filmes que esse grande artista realizou depois de 1965.
Ah, Fellini. Em seu recém-lançado Um Filme por Dia, o crítico Moniz Vianna diz de Buñuel que este não terá seguidores. Digo o mesmo de Fellini. Seu universo temático, com suas fantasias (não raro, delirantes), suas reminiscências infantis, suas confissões, seus tipos bizarros, seu humor que, às vezes, beira o vulgar, o mau gosto, e aquele ritmo peculiar (no que é muito ajudado pela música de Nino Rota), faz dele um cineasta singular. E talvez o seja, sobretudo, por ser o mais autobiográfico dos diretores. Ele próprio reconhece isso, ao declarar numa entrevista: "se um dia fizer um filme sobre um peixe, acabarei falando de mim mesmo".
Qual o seu maior filme? Acho que tem alguns. Oito & Meio, A Doce Vida (embora deste ache que umas duas ou três sequências poderiam ser menos longas), Na Estrada da Vida, E la Nave Va, Amarcord, o último, seguramente, o seu filme mais "delicioso", que, nesse aspecto, está para a sua obra, como Depois do Vendaval está para a de Ford. Dele só não gosto de Casanova, Cidade das Mulheres e A Voz da Lua. Os dois primeiros ainda têm alguns bons momentos, como o ritmo bastante acelerado nos minutos iniciais do segundo e, no primeiro, sobretudo, o final. (Falando em final, Fellini tem alguns antológicos. Há na preferência dos cinéfilos quase um consenso sobre o de A Doce Vida. É de fato notável a imagem da garota de rosto angelical chamando por um nauseado e fatigado Marcello Mastroianni, em que o diretor nos acena com um pouco de esperança, mas ainda prefeiro o final de Oito & Meio: a imaginação de Guido, o diretor, promove a reunião de todos os personagens, de mãos dadas, sobre uma plataforma, enquanto lá embaixo o garoto (Guido-Fellini) forma com três palhaços um lírico e nostálgico quarteto musical. Devem ser também lembrados os de Noites de Cabíria e de Na Estada da Vida.) Mas A Voz da Lua , seu último filme, é sem-graça, sem inspiração, e com momentos de humor em que 0 limite do vulgar é ultrapassado. Ele não merecia encerrar uma bela carreira num nível de qualidade tão iinferior aos seus maiores momentos.

terça-feira, outubro 11, 2005

FILMES DUBLADOS



Quem gosta de cinema, mesmo não tendo interesse pela sua estética, há de concordar comigo que não existe nada mais irritante e aborrecido do que a dublagem de um filme. E a isso vem juntar-se, para os que assistem a um filme como um elemento de realização artística, a indignação pelo dano que a dublagem causa. Porque a voz do ator (principalmente se for um grande ator), com a inflexão, a dicção, o tom para exprimir os mais diversos estados da alma, etc., é parte indissociável do contexto de um filme e, por isso, não pode ser substituída pela voz de um dublador. Mas vamos admitir que um dublador tenha a capacidade, ou o talento, de imitar a voz do ator, dela absorvendo todas as nuanças; pois bem, ainda que ele atinja esse grau de perfeição, lhe faltará o mais importante: a sua participação na criação do filme, a sua interação com o diretor e com os demais intérpretes. Ele não passará da função de um "medium", incorporando apenas a voz do ator.
Não sei se ainda está vigorando uma lei que obriga as emissoras de televisão a exibirem, pelo menos, um filme legendado por dia. A lei visa a proteger os deficientes auditivos. Mas se ela ainda existe, não é respeitada, como, aliás, ocorre neste país, onde as leis, de um modo geral, existem para não ser cumpridas, a não ser quando o interessado é o governo. Tenho quase certeza que só a TV Bandeirantes cumpre essa lei, mas não o faz como ela é determinada, pois exibe um filme legendado em toda a semana , o que ocorre na madrugada de domingo para segunda. A Globo, com a soberba de quem está acima de tudo e de todos, até há poucos anos fazia o mesmo que a Bandeirantes, mas hoje, como as demais, não tem a mínima consideração pelos que não ouvem.
E a coisa poderia está pior. Nos anos 70 do século passado. um desses parlamentares que vão para Brasília só com o intento de causar malefícios à população, para cuidar dos seus interesses e do seu grupinho (e eles, infelizmente, formam a maioria) apresentou um projeto que implantava a dublagem dos filmes exibidos nos cinemas. Houve uma grita na imprensa (me lembro de uma reportagem na Veja insugindo-se contra a pretensão desse político) e no próprio Congresso deve ter havido vozes contrárias, e, para nossa sorte, o projeto foi arquivado. Ainda bem.

sábado, outubro 08, 2005

MARQUES REBELO


Marques Rebelo (1907-1973) escreveu romances, contos, novelas ,crônicas, literatura infantil, um
estudo sobre Manuel Antônio de Almeida, o autor de Mémorias de um Sargento de Milícias, e para o teatro. Foi ainda tradutor (entre outras obras, de A Metamorfose , Kafka). Seu romance A Estrela Sobe foi adaptado para o cinema (Bruno Barreto) e a novela Vejo a Lua no Céu para a televisão. Tinha uma língua tão grande quanto o seu talento, destilando veneno contra muitos de seus pares. Por causa dela criou inúmeras inimizades. Ele mesmo chegou a declarar-se "um colecionador de desafetos". Quando ele morreu, Carlos Drummond de Andrade escreveu uma bela crônica que começava assim: "Era um diabo miudinho, de língua solta e coração escondido". E mais adiante: "Arrasava um livro, um poema, um quadro, um disco, um atleta com uma frase. Matava um escritor - matou quantos - com uma epígrafe. Depois ressuscitava o morto". Talvez esse lado iconoclasta tenha lançado uma sombra sobre o seu talento literário, concorrendo para torná-lo pouco lembrado nos dias de hoje. Embora ele tenha merecido figurar naquela coleção "Perfis do Rio", levada a cabo pela Editora Relume Dumará. O livro sobre ele foi escrito pelo jornalista e escritor Luciano Trigo e lançado em 1994.
Marques Rebelo projetara escrever uma grande obra intitulada O Espelho Partido, dividida em 7 volumes. Concebida para homenagear o seu Rio de Janeiro, que seria o personagem principal, a obra, no entanto, como assinalou Edilberto Coutinho, foi também evoluindo para "a autobiografia, a memória, o cronograma histórico, o cine-jornal e o documentário, e ganhou a forma de um diário". Mas o escritor só conseguir escrever os 3 primeiros volumes, intitulados O Trapicheiro (1959), A Mudança (1963) e A Guerra Está em Nós (1968). Os três cobrem o período de 1936 a 1944.
Muitos dos personagens são inspirados em escritores, críticos literários, pintores e até jornalistas. Quase todos podem ser identificados por quem leu o citado livro de Luciano Trigo. Este afirma que o próprio Marques Rebelo, em carta ao Sr. Paulo Mendes de Almeida (que Trigo não informa de quem se trata), confirmou o fato e deu nome aos bois. Como curiosidade, eis alguns dos retratados, com o nome do personagem em parêntese. Jorge Amado (Antenor Palmeiro), Tristão de Athayde (Martins Procópio), Augusto Frederico Schmidt (Altamirano Azevedo), José Lins do Rego (Júlio Melo), Álvaro Lins (Lucas Barros), Rachel de Queiroz (Débora Feijó), Carlos Lacerda (Julião Tavares) e o editor José Olympio (Vasco Araújo). Manuel Bandeira e Gilberto Freyre não foram nominados, sendo apresentados, respectivamente, por "o poeta" e "o famoso sociólogo", este sempre dizendo coisas óbvias. Já Carlos Drummond de Andrade e Mário de Andrade aparecem com seus próprios nomes e sempre elogiados por um ou outro personagem, como Joaquim Borba (o escritor Cyro dos Anjos). Trigo acrescenta que, embora na carta Marques Rebelo tenha se escusado de informar a fonte de outros personagens, pessoas que viveram na época em que transcorre a ação dos 3 romances conseguiram identicar Guimarães Rosa no "afetado escritor-diplomata Magalhães Braga" e o pintor e capista Santa Rosa no "mulatófilo Mário Mora".
Marques Rebelo era torcedor ardoroso do América. Certa vez declarou que o dia mais feliz de sua vida foi o de 13 de dezembro de 1960. Justamente o dia em que o América conquistou o título de campeão carioca (em cima do Fluminense), depois de um jejum de 25 anos. Marques Rebelo era um pseudônimo. Seu nome de batismo era Edy Dias da Cruz. Nada eufônico para um escritor, conforme disse numa entrevista dada a Clarice Lispector.

quarta-feira, outubro 05, 2005

AS MANGAS



Este pequeno ccnto foi publicado num jornal de um amigo aqui de Natal, há cerca de 15 anos. Depois resolvi inseri-lo num conto longo que fez parte do meu livro Grandes Amizades, de 1995. Sai aqui com mínimas alterações na linguagem.
Sábado, fim de tarde, ele bebia em um bar que descobrira da primeira vez que estivera naquela cidade. Encantara-se com o ambiente , ao ar livre, duas frondosas mangueiras na entrada, a área suficientemente espaçosa para quem (era o seu caso) desejasse isolar-se dos outros clientes. Não frequentara outro bar, durante a sua permanência na cidade, e, ao voltar, após muito tempo, procurou-o e ficou feliz por vê-lo ainda funcionando.
O ambiente (mas sobretudo a hora, quando diminuía bastante o número de frequentadores) estimulava nos solitários a meditação. e ele estava absorvido por pensamentos que se sucediam em uma grande celeridade, como se o próprio cérebro se recusasse a reter cada um deles por mais de uns dois minutos. De repente, foi arrancado de seus pensamentos por um barulho de vozes. E o que lhe despertou a atenção é que o barulho não era igual ao de pessoas envolvidas em uma altercação, tão comum em mesa de bar. O tom das vozes era alegre, de animação, mais identificado com a bulha de crianças quando estão brincando. Percebeu que as vozes procediam do lugar onde se erguiam as mangueiras, e, impressionado, deixou a mesa e caminhou para lá. Ao se aproximar, teve uma enorme surpresa: três marmanjos atiravam pedras nos frutos pendentes de uma das mangueiras, tentando derrubá-los. Três homens de meia-idade brincando feito crianças em um lugar para adultos. Imaginou que eles, talvez, ainda há pouco estivessem a ponto de se digladiar em uma estéril e desgastante discussão sobre os políticos e, de repente, tinham-na abandonado, ao descobrirem aquelas mangas maduras oferecendo-se para serem colhidas.
A cena, insólita, era capaz de atiçar a zombaria, mas, ao mesmo tempo, havia nela um componente de nostalgia da infância que lhe calou fundo. Observando aqueles homens de idades batendo mais ou menos com a sua, que tentavam, talvez inconscientemente, recuperar uma pequena parte do tempo de meninos, ele se viu também menino, galgando muros proibidos para roubar mangas, subindo em árvores, atirando pedras nos frutos. E, então, veio-lhe intensa a vontade de reunir-se aos coroas, pegar uma pedra para acertar as mangas. Depois de derrubá-las, as juntaria em um saco plástico e as levaria para o quarto do hotel. Mas o receio de uma aproximação com os estranhos prevaleceu sobre a vontade e ele, resignado, voltou para a mesa e os pensamentos.

sábado, outubro 01, 2005

OS MAIORES FILMES DE CHAPLIN E DE RENOIR



CHARLES CHAPLIN (apenas os longas)

1. Luzes da Cidade (1931)
2. Em Busca do Ouro (1925)
3. Tempos Modernos (1936)
4. O Grande Ditador (1940)
5. O Circo (1928)
6. O Garoto (1921)
7. Monsieur Verdoux (1947)


JEAN RENOIR

1. A Grande Ilusão (1937)
2. A Regra do Jogo (1939)
3. A Besta Humana (1938)
4. Toni (1934)
5. As Estranhas Coisas de Paris (1956)
6. Boudu Salvo das Águas (1932)

OBSERVAÇÃO - Não conheço Le Carrosse d' Or (1952), que, muito provavelmente, faria parte dessa relação. E também O Rio Sagrado (1950), feito na Índia, que, talvez, fosse incluído.

NOTA - Ontem, 30 de setembro, completaram-se 30 anos da morte de James Dean. A quem interessar, há, no site No Mínimo, um artigo do jornalista e crítico de cinema Sérgio Augusto sobre o assunto.

sábado, setembro 24, 2005

DOIS POETAS


O anugo Horácio Paiva enviou-me um poema do espanhol Antonio Machado (1875-1939), e outro dele próprio . Os dois textos ocuparão, hoje, este espaço. Vamos a eles.

O LIMOTEIRO LÂNGUIDO SUSPENDE

O limoeiro lânguido suspende
uma rama pálida, poeirenta
sobre o encanto dessa fonte límpida
e submersos sonham nela
os frutos de ouro.
É uma tarde clara,
quase de primavera,
morna tarde de março
que o hálito de abril próximo leva:
estou sozinho no pátio silencioso,
buscando uma ilusão cândida e velha,
alguma sombra sobre o branco muro,
uma lembrança no peitoril de pedra
da fonte adormecida, ou, no espaço,
o vaguear de uma túnica ligeira.
Flutua no ambiente dessa tarde
esse aroma de ausência,
que diz à alma luminosa: nunca,
e ao coração: espera.
Esse aroma evocativo dos fantasmas
das fragrâncias virginais e já desfeitas.
Oh, sim, recordo-te, tarde alegre e clara,
quase de primavera,
tarde sem flores, quando me trazias
o bom perfume da hortelã-pimenta
e da boa alfavaca
que em vasos minha mãe tinha à nossa beira.
Que viste eu mergulhar minhas mãos puras
nessa água serena,
para alcançar os frutos encantados
que hoje sonham na fonte que os espelha...
Sim, conheço-te, tarde alegre e clara,
quase de primavera.

ANTONIO MACHADO
Tradução de José Bento


ALMAS

"Animula, vaguka, blandula"
(Adriano)

podem dizer o que quiserem
dessas almas cansadas
sobretudo aquelas
que não se deixam conhecer
chegam de repente
e num átimo somem
e logo recuam
à infância deserta

podem dizer o que quiserem
mas não as quero perder
elas talvez me expliquem
em que mundo vivi
em que horizontes deixei
secar a memória

viveram tão pouco
e ficaram à deriva
neguei-lhes o corpo
que sem forças pediam

de sua vida breve
entre malvões e papoulas
lembro só o perfume
cada vez mais distante
mas outras têm o cheiro
de algum brinquedo antigo

como deixei que seguissem
sozinhas e sem rumo
se ainda para elas
havia a esperança?

...

vejo-as cansadas
e já não assustem
com a sua aura fria
de gastos desafios

HORÁCIO PAIVA
(Do seu livro Navio Entre Espadas - O SOM IMÓVEl, a sair)






domingo, setembro 18, 2005

A QUEDA - As Últimas Horas de Hitler


A Queda (Der Untergang/2004), começa e termina com um curto depoimento de Traudl Junge, que foi a secretária de Hitler, ainda viva à época das filmagens, no qual ela faz um mea culpa sobre o seu envolvimento com o denominado Terceiro Reich. Às suas´palavras iniciais se segue a cena da sua chegada, juntamente com três jovens, a um quartel localizado na Prússia, no meio de uma floresta, onde está Adolf Hitler. As quatro vão se submeter a um teste com o Fuhrer, que irá escolher uma delas para ser sua secretária. Ainda do lado de fora, o rosto de Traudl Junge (Alexandra Maria Lara) é iluminado por um holofote. Esse detalhe, reforçado pelo depoimento de Traudl, revela a importância que o filme dá à sua pessoa, que só é inferior à do próprio Hitler. De fato, quando a ação de A Queda se instala no bunker em Berlim, onde Hitler está refugiado em abril de 1945, a presença de Traudl é constante. Às vezes com o seu patrão, ela é uma testemunha e uma observadora das últimas horas dele e de seu império, com a invasão das tropas russas. Ela manifesta simpatia por Hitler (Bruno Ganz, numa notável interpretação , em que, dentre outro méritos, há o de ter absorvido o sotaque de Hitler e o tremor da mão esquerda, provocado pelo Mal de Parkinson) numa conversa rápida que tem com Eva Braun (Juliane Kohller). Ela fala da diferença que existe entre Hitler no contato com ela e o homem que diz palavras agressivas a seus oficiais. Ao que Eva retruca que ele só age deste modo quando está na condição de Fuhrer.
Esse comportamento de Hitler com a secretária é mostrado já no teste de datilografia a que ela é submetido. Ele se mostra cordial, chega a fazer uma piada sobre a inteligência de sua cadela, superior, segundo ele, à de alguns dos seus generais. E quando ela fica apavorada por cometer um erro na carta que lhe está sendo ditada, Hitler age com delicadeza, dizendo que essas coisas acontecem e pede que ela retome o teste. Ela, inclusve, é merecedora de um gesto afetuoso de Hitler, na cena em que ele mostra a Eva Braun a droga que os matará. Pede a mesma droga a ele e Hitler apanha-a na gaveta de um móvel, leva-a até ela, Com um afago na mão de Traudl, ele lhe entrega a droga e se lamenta por não poder dar a ela um presente valioso.
E aquele "monstro" tão conhecido, responsável pela morte de seis milhões de judeus, e aquele megalomaniaco que queria construir um novo mundo, é mostrado, algumas vezes, como um homem capaz de gestos afetuosos e delicados, como o afago num garoto , por sua coragem em conter a invasão russa.
Por essa forma de mostrar uma imagem mais humana de Adolf Hitler, A Queda desagradou a muitos espectadores e foi repudiado pela comunidade judaica. Mas o que ocorre é que o filme não pretendeu ser simpático à figura do Fuhrer. Ao lado desse lado humano de Hitler (é preciso mencionar, ainda, o fato de ele ser visto à mesa de refeições com seus auxiliares humildes, como a secretária e uma serviçal), o filme exibe também a sua figura de líder supremo do Terceiro Reich, agredindo e humilhando os seus liderados, a sua megalomania, o delírio de reverter uma derrota a poucas horas de se consumar, não faltando, inclusive, a manifestação do seu ódio aos judeus, numa conversa que ele tem com um dos oficiais. O que ocorre é que o filme evita o lugar-comum de todos os filmes sobre o nazismo, seja feito por cineastas do nível de Chaplin e de Lubitsch, ou por aqueles menores, ou inexpressivos, de expor ao ridículo a figura de Hitler. Isso A Queda não faz. Se em alguns momentos, o espectador, principalmente o da nova geração, pode ficar tentado a sentir uma certa compaixão de Hitler, na maioria das vezes a exposição de cenas de uma forte crueza, de violência, de destruição, não deixa dúvida quanto à confirmação de que ele foi responsável por um dos períodos mais negros da história da humanidade.
A Queda alterna cenas do interior do bunker (estas mais numerosas) com cenas externas, onde duas batalhas são travadas. Enquanto, externamente, observa-se o ataque das tropas russas às
portas de Berlim, lá dentro há a batalha íntima de Hitler, conferenciando com seus comandados, expondo planos que, talvez, nem ele mesmo acredite na sua eficácia, oficiais que tentam, sem sucesso, convencê-lo a deixar a cidade. O diretor Oliver Hirchbiegel, um jovem nascido em 1957, dirige muito bem esse seu terceiro filme feito para o cinema (tem vários trabalhos para a televisão). Mostra muita força e segurança. Apesar do impacto e da crueza de certas cenas, ele quase sempre emprega a elipse para sugerir o suicídio de pessoas. Dois exemplos: o suicídio duplo de Hitler e Eva e o daquele oficial que morre com a mulher e os filhos. Neste se vê o oficial manipulando duas granadas por baixo da mesa de refeições, há um corte para a fachada do prédio, a seguir a explosão e a boneca da filha menor caída no chão. Contando com um roteiro afiado de Bernd Elchinger, cujas fontes são a elogiada biografia de Hitler, escrita por Joachim Fest, e os livros da própria Traudl Junge e de Melissa Muller, ele realizou um filme que nos permite ficar na expectativa de suas próximas realizações.

terça-feira, setembro 13, 2005

CURIOSIDADES CINEMATOGRÁFICAS

1) Por duas vezes John Ford começou um filme e não o terminou. Os filmes foram Mister Roberts (Idem, 1955) e O Rebelde Sonhador (Young Cassidy, 1964), nos quais ele foi substituído, respectivamente, por Mervin Leroy e Jack Cardiff. Os motivos? Bem, no caso de Mister Roberts, foi uma questão de divergência com Henry Fonda, a respeito da concepção do filme. Fonda, que atuara na peça encenada na Broadway, e que fora escalado para trabalhar na adaptação dela para o cinema, tinha uma visão diferente da de Ford. Conforme relata João Lepiane numa matéria sobre o ator na revista Cinemin número 92, de abril/1992, os dois travaram acaloradas discussões durante as filmagens, ao ponto de Ford se aborrecer, pegar o boné e ir embora. E não foi só isso. O desentendimento entre Ford e Fonda resultou no rompimento de uma longa amizade entre eles. Eles jamais se reconciliaram e, evidentemente, nunca mais trabalharam juntos, desfazendo uma parceria formada em 6 filmes, entre os quais o clássico Paixão dos Fortes, de 1946.
Já em O Rebelde Sonhador o afastamento de Ford foi por motivo de doença. Ele trabalhou apenas duas semanas. Me lembro que algum depois do término das filmagens li um depoimento da atriz Julie Christie sobre o filme, em que ela se lamentava pela saída de Ford. E não apenas pelo que este representava na história do cinema, mas porque, segundo ela, o filme foi muito prejudicado pela conduta do seu parceiro Rod Taylor durante as filmagens. Julgando-se uma estrela, Taylor passou o tempo todo dando pitaco na direção de Jack Cardiff, que, passivamente, aceitava a interferência do ator. A bela Julie Christie (na época, muito solicitada pelos produtores) afirmava que isso não teria ocorrido, se Ford tivesse continuado na direção. E ela tem razão. Com o grande Ford, esse Rod Taylor não tirava a conta certa. É bom lembrar que, em ambos os filmes, Ford foi creditado como co-diretor.
2) Em Rashomon, a obra-prima de Akira Kurosawa, entre tantas imagens belas, há aquela do sol aparecendo por entre as árvores. Pois bem. Há uns 4/5 anos li uma matéria no Estadão, escrita pelo crítico e jornalista Sérgio Augusto, na qual este sustenta que essa mesma imagem aparecia no filme O Espadachim, de 1947; portanto, 3 anos antes de ela aparecer no filme do mestre japonês. O filme é dirigido por Joseph H. Lewis, sobre o qual um cinéfilo da nova geração, que me estiver lendo, poderá perguntar quem é esse cara? Pois saiba que esse Joseph H. Lewis foi um diretor de talento, a julgar pelo que dele dizem o próprio Sérgio Augusto (aliás, a citada matéria é sobre ele), Antônio Moniz Vianna (em seu livro Um Filme Por Dia, ele faz uma crítica elogiosa do filme do diretor, Reinado do Terror, 1958 ) e Francisco Luiz de Almeida Salles. Este último, na crítica ao filme A Mulher sem Nome, de 1950, no seu livro Cinema e Verdade, chega a fazer, entre outros elogios ao diretor o seguinte: "Pode-se afirmar, sem nenhuma dúvida, que Joseph Lewis já é agora um dos valores mais indiscutíveis do moderno cinema norte-americano". Dele só conheço Mortalmente Perigosa, (1949), que vi não tem muito tempo na televisão, e pude comprovar que o homem realmente tinha valor.
3) Em entrevista ao crítico francês Michel Ciment, o cineasta Joseph L. Mankiewick se gaba de ter sido pioneiro no uso da imagem congelada. Isso em A Malvada, 1950. Menas a verdade. Quatro anos antes o recurso já fora utilizado em A Felicidade não se Compra. Das duas uaa. Ou Mankiewicz não conhecia o filme de Frank Capra (o que acho pouco provável; muito provável é Kurosawa não conhecer o filme de Lewis), ou mentiu descaradamente.

sábado, setembro 10, 2005

A FOTO



José (nem sei se é esse o teu nome, não guardei o que saiu no jornal, vou, então, te chamar de José), percorreste todos os recantos da cidade, batendo em cerradas portas, usando a tua voz que não podia chegar a ouvidos surdos. À casa regressavas não apenas esfalfado, no rosto os sinais da desilusão, na alma a angústia por não entreveres uma tênue esperança de sair do túnel em que penetraste. Daí advinham as agressões mútuas com a esposa (através de quem entrava o único e magro dinheiro na casa). Das agressões morais vocês passaram às agressões físicas, assistidas pelos filhos, já crescidos. Ela, a tua mulher, com quem deves ter tido horas de um amor que julgavam eterno. Ela, a tua mulher, te culpava pela perda do emprego. No começo tiveste paciência para esclarecer que a expressão "despedido por justa causa", que constava da carta de demissão, não passava de um artifício usado pelos patrões para reduzir o quadro de funcionários. Não foste o único, sempre acrescentavas. No começo. Ela, no entanto, não entendia, ou não queria entender. Deixaste de dar explicações ( a ouvidos encerados, como os dos patrões aos quais pedias emprego), e passaste a devolver as palavras amargas. Tão amargas quanto a cachaça que tresaandavas ao voltar de mais uma peregrinação em busca de trabalho.
E a bebida terminou por subjugar-te. O teu trajeto passou a ser da casa para o botequim, do botequim para a casa. Surrupiavas do parco salário da tua mulher para te embebedares. A tua vida foi caminhando para o abrigo em que afinal despencaste. A casa transformando-se num palco, cujos atores não tinham vocação para representar cenas de tragédia. E sofreste a humilhação suprema de seres preso por interferência de teus próprios familiares.
A tua infância - revelou a carta amarfanhada encontrada num bolso da calça - foi a de um menino pobre, mas feliz. Teu pai não foi um homem rico, ao contrário. Mas não deixou que os filhos passassem privações. As três refeições, pelo menos, não faltavam na tua casa de menino, embora a mesa não fosse farta. Farto o quintal do vizinho, em cujas árvores se dependuravam as mangas, as goiabas, os mamões e os cajus, que ajudavam a complementar a alimentação doméstica. E à fome do momento juntava-se o prazer lúdico de penetrar em propriedade alheia, da qual, por sinal, foste corrido algumas vezes. Mas isso era previsto e fazia parte do brinquedo.
Eras feliz: disseste com tua linguagem escassa e numa caligrafia tortuosa de quem não podia mais dominar os nervos. Mas só o soubeste quando te tornaste um adulto infeliz. E não foste o primeiro - nem serás o último - a ter consciência dessa felicidade numa quadra da vida em que se é deliciosamente irresponsável. Têm-na principalmente os artistas: os grandes e os pequenos.
José, "despedido por justa causa" do emprego, humilhado, faminto, alcoólatra, desamparado pela família e pelos amigos. José, não te restava outra saída. Mas antes de decidires jogar-te do alto daquele edifício, olhaste para o teu passado de menino. A mão trepidante deu o testemunho.
Acompanhava a carta uma foto em que aparecias, sorridente, ao lado da tua mãe. Não sei por que, mas acho, José, que a contemplaste antes de saltares para a morte. E que esse instantâneo da tua infância te devolveu um pouco da perdida felicidade.
- Do meu livro Um Dia.. Os Mesmos Dias, 1983.

terça-feira, setembro 06, 2005

UM CHORINHO PARA VOCÊ


Há mais de um ano publiquei o texto abaixo no Balaio Vermelho, do amigo Moacy Cirne (na época eu nem imaginava em criar um blog). Ele é aqui republicado por não ter, no momento, nenhum assunto novo. Ei-lo.
Na Canindé dos anos cinquenta havia um cinema que funcionava às quintas, sábados e domingos, numa única sessão. A programação era feita, se é que posso confiar na memória, da seguinte maneira: às quintas passava um seriado, complementado, ou por um filme B americano, ou por um western daqueles do Durango Kid e similares; aos sábados e domingos era, geralmente, exibido o mesmo filme, quase sempre do gênero aventura (um exibido com uma certa frequência era Jim das Selvas, com o ex-Tarzan Johnyny Weissmuller), mas, às vezes, aparecia um melodrama, ou uma comédia romântica, que os meninos detestávamos, rotulando-os de "filmes de amor".
Comecei falando da programação do Cine Canindé, mas, na verdade, quero falar é de uma música que, entre outras (poucas, pois a discoteca do cinema era pequena), tocava-se enquanto aguardávamos o início da sessão. Ela conservou-se em minha memória durante décadas, juntamente com outra, intitulada Como os Rios que Correm para o Mar, um samba-canção de Custódio Mesquita e Evaldo Ruy, na voz de Sílvio Caldas. Mas, enquanto com esta música não levei muitos anos para descobrir-lhe o título e os autores, com a primeira (uma composição instrumental) isso só veio a ocorrer há bem pouco tempo.
Pois eu cresci, arranjei trabalho, casei, os filhos vieram, depois os netos, me aposentei, e aquela música não me saía da lembrança, e cadê a oportunidade de voltar a ouvi-la, se não sabia o seu título? Uma vez, faz uns dez anos, cheguei a pensar que a tivesse reencontrado. Ao sintonizar um canal de tevê, estava sendo tocada uma música que me pareceu ser ela, mas nem houve tempo para que tivesse a confirmação, a execução encerrou-se logo depois.
Foi, então, que, no ano passado, assisti a uma apresentação de Paulo Moura num desses canais a cabo. Tive sorte em ligar o televisor um pouquinho antes da apresentação, porque ele a iniciou com nada mais, nada menos do que a música que ansiei voltar a ouvir por tantos e tantos anos. Quase não acreditava no que via, ou melhor, ouvia. E, afinal, fui saber o título e o compositor: Um Chorinho para Você, do pernambucano Severino Araújo, o criador da longeva Orquestra Tabajara, ainda vivo e caminhando para os noventa anos. É possível que a minha satisfação fosse completa se tivesse me reencontrado com esse chorinho na gravação original, que fico pensando se não é da própria Tabajara. Mas é como se diz: não se pode ter tudo na vida. O que importa é que pude gravar a música, na grande interpretação de Paulo Moura, quando o programa foi reprisado uns dois dias depois, e ela está à minha disposição, sempre que sentir saudades daqueles tempos da minha infância. Quando não havia Padre Marcelo, nem Preta Gil, nem Xitãozinho e Xororó, entre tantos outros "cantores".