Luzes da Cidade

Terça-feira, Novembro 17, 2009

RAPIDINHAS (2)

Foto da cidade de Copenhague. Em Google




- Um conhecido meu é muito apegado a certas coisas. Apegou-se tanto a um dinheiro que lhe emprestrei há décadas, que até hoje não o devolveu.

- "O elevador é o único transporte gratuito e igualitário da cidade". (Aníbal Machado, no conto "O Ascensorista").

- O cantor Cyro Monteiro estava no velório do compositor Geraldo Pereira (*). Eis que chega um crioulinho, vestido modesta mas decentemente, vai até ao caixão, examina rapidamente o cadáver e faz aquele indefectível movimento de cabeça. Em seguida se dirige a Cyro e lhe diz: "Seu Cyro, que coincidência"! O cantor olha, espantado, para ele, sem entender o motivo daquela "coincidência". Na verdade, o que o crioulinho queria dizer era "catástrofe".

- "Parapeito é aquilo que quando a pessoa senta nele, muda de nome". (Millor Fernandes).

- Um humorista americano (não lembro o nome), apreciador de um copo, ia deixando o restaurante e ordenou para um senhor que entrava, que, pela indumentária, julgou ser o porteiro: "Me arranje um táxi". Empertigado, o homem respondeu enfático que era um almirante. Aí o humorista emendou": "Então, me arranje um navio".

- Final de uma conversa entre dois homens, em um ônibus.
"Por tudo isso que lhe disse, não devo mesmo amá-la"
"Então, não pague".

- Com a cobertura maciça que as tevês brasileiras deram a Copenhague, onde foi realizada a escolha para a sede dos Jogos Olímpicos de 2016, é possível que os responsáveis por um dicionário geográfico, que consultei numa livraria, tenham aprendido que é ela a capital da Dinamarca. E não Oslo, como lá está.

- A respeito dessa bobagem de politicamente correto, um amigo criou esta expressão para designar o corno: "Terceirizador de serviços conjugais.

- Contam que quando foi lançado "Sansão e Dalila", de Cecil B. de Mille, Groucho Marx disse que não iria ver um filme em que Sansão (Victor Mature) tinha os peitos maiores do que Dalila (Hedy Lamarr).

- Quando se começou a falar na possibilidade de as mulheres apitarem jogos de futebol, um jornal de Natal fez uma matéria com várias pessoas ligadas a esse esporte. Entre elas, o irreverente João Machado, presidente da FNF (Federação Norte-Rio-Grandense de Futebo), que se disse favorável à ideia, porque, nessa coisa de regra, quem entende mesmo é a mulher.


(*) Geraldo Pereira compôs, entre vários sambas de sucesso, "Falsa Baiana", gravado pela primeira vez pelo próprio Cyro. Foi assassinado pelo famoso homossexual conhecido por Madame Satã.





Terça-feira, Novembro 10, 2009

GINGER E FRED ( 1985)





"Ginger e Fred" começa com um trem chegando a Roma, onde desembarcam pessoas que vão participar de um programa de televisão, e termina com outro trem deixando a cidade. O trem, para quem pertence à minha geração e às anteriores, é um emblema da nostalgia, que dá o tom ao filme de Fellini. Uma nostalgia que nos leva a supor que seja do diretor, que, na época, caminhando para os setenta anos e a oito anos da sua morte, não visse mais atrativos na vida contemporânea, e o remédio é queixar-se, é sentir falta do passado. Como faz o empregado do hotel, onde se hospedam os que irão participar do programa, fazendo um desabafo para Ginger/Amelia Bonetti (Giulieta Masina) de que a Itália não tem mais os grandes jogadores de outros tempos (está passando na televisão um jogo da seleção do seu país). Ou como a própria Amelia ao dizer que Roma já foi uma cidade melhor.
Também a homenagem que Fellini presta ao cinema da sua adolescência e juventude é mais um ingrediente que compõe essa nostalgia. Uma homenagem feita através do resgate da memória de dois ícones do filmusical, revivendo-os através de uma dupla de dançarinos italianos que fez sucesso nos anos 1930 e começo dos 40, que eram chamados de Ginger e Fred. Pois essa homenagem, essa evocação a Ginger Rogers e Fred Astaire torna-se uma coisa triste, até patética, pela presença do Fred italiano, de nome Pippo Botticella (Marcelo Mastroianni), que aparece bem envelhecido, com problemas de saúde, embora demonstrando uma certa vivacidade e muito bom humor. E a decadência física dele (que, talvez, possa se estender à extinção do cinema de tempos idos) é emblematizada no tombo que ele leva quando se apresenta com a sua antiga parceira diante das câmeras de televisão.
E paralela ao elemento nostálgico caminha a crítica à televisão. Fellini escolhe um desses programas que se veem tanto nos nossos canais, para por a nu o objetivo da televisão que é o de atrair as massas, oferecendo-lhes produtos que ela julga que irão atraí-las. Um programa em que são mostradas figuras exóticas, extravagantes, curiosas (anões dos dois sexos, um transexual, um milionário em greve de fome em protesto pela matança de aves, sósias de Kafka, Proust, Clark Gable e Woody Allen e até um mafioso). E no meio dessa fauna, Ginger, que diz não atender o convite para participar de um programa junto àquela gente, e Fred. Mas é possível que, ao colocar os dois, Fellini tivesse em mente promover um confronto entre a televisão e o cinema. Como também é possível que ele, amargurado e saudoso, visse nesse "duelo" o predomínio da primeira sobre o segundo, no que se refere à conquista de público.
"Ginger e Fred", se não está entre os maiores filmes de Fellini, tem daqueles algumas qualidades e mostra o cineasta ainda em boa forma naquele ano de 1985. Com ele, bem poderia ter encerrado a sua carreira, no mínimo, de uma forma digna, sem a necessidade de fazer "Entrevista" e "A Voz da Lua", seus dois últimos trabalhos, que nada acrescentaram à sua obra.

Segunda-feira, Novembro 02, 2009

NÃO ENTERRAREI OS MEUS MORTOS


Tinhas operado os olhos. Eu ia ver as novidades na livraria, como faço todos os sábados, quando te avistei na outra calçada. Incontinenti, atravessei a rua, tomei a calçada e fui ao teu encalço. Estavas com pressa, o teu andar nervoso, os braços balançando como se praticasses um exercício corporal. Te achei engraçado e pensei em fazer uma brincadeira. Ao chegar perto de ti, prendi-te os braços. Te viraste entre assustado e irritado, mas, ao me veres, teu rosto se alegrou e nos demos um grande abraço. Te felicitei pelo êxito da operação, começamos a conversar sobre os assuntos habituais no início dos encontros, depois sugeri entrarmos num bar, para prolongarmos o papo. Até parece que estavas esperando o convite - aceitaste-o de pronto. Fomos para um bar sossegado, lá ficamos uma tarde inteira.
Como falaste naquela tarde! A bem dizer, um monólogo. Eu te ouvia deslumbrado. Começavas a descobrir o mundo, ao modo da criança que vai tomando consciência das coisas que a rodeiam. E a descoberta te fazia feliz. Falaste das cores do dia, da beleza das pessoas. Afirmaste que agora conhecias os livros pelos teus olhos, sem ser preciso que a tua sobrinha te emprestasse os olhos dela. E isso para ti era duplamente gratificante. Mais de uma vez ficaste receoso de estares bancando o chato só falando de ti, mas não te ouvia só por delicadeza, mas porque participava da tua felicidade. Não me cansaste. Com prazer ouvia as tuas palavras, que falavam da beleza das coisas e das pessoas. Como aquela mulher na sala de espera do teu médico, cuja beleza quase te deixou hipnotizado. E a tua emoção quando falaste sobre o cinema! Naquela semana tinhas conhecido Bergman e Antonioni, e a descoberta desses dois artistas maiores te deixou feliz. Mas o teu maior desejo era conheceres Carlitos - o pai de todos nós. (Meses depois, um cinema local promoveu um festival de Chaplin e então disseste que já podias morrer.) Depois foste apresentado a Fellini, Welles, Losey, Buñuel e tantos outros que conferiram uma dimensão artística ao cinema.

Passei uma tarde inesquecível naquele sábado. Nunca mais tivemos um encontro como aquele. Nos vimos algumas vezes, geralmente aos sábados na livraria. No começo ainda te chamava para beber, mas, como sempre recusavas, de uma forma delicada, deixei de te convidar. Nunca me disseste: mas estou certo que querias recuperar o tempo perdido pela privação da tua visão. Os teus olhos tinham ainda tanta beleza a te revelar, não podias te esconder num bar tardes inteiras. Foram rápidos os nossos encontros, estavas sempre com pressa. Mas ainda falávamos de literatura, cinema, música e, às vezes, de política. Voltavas para casa, enquanto ia meu reunir com outros amigos.

E num desses sábados entro no "Glacial", à procura de amigos, quando te encontro sozinho numa mesa. Não eram ainda doze horas e já tinhas bebido muito. Não estavas nada bem, vi logo pelo teu olhar. Fazia uns dois anos que tínhamos bebido naquele mesmo bar. Mas não foste o mesmo daquele longínqüo sábado. Naquela vez não ousei interromper, por um instante que fosse, as tuas palavras deslumbradas diante do mundo que se abria a teus olhos. Te ouvia embevecido, feliz por conhecer alguém sensível e inteligente como tu. Mas dessa outra vez, vendo-te deprimido, tão chocado diante do que teus olhos tinham visto até então, não pude deixar de intervir, para te levantar o espírito. Infelizmente não o consegui. A tua imagem era a de um nauseado. E confessaste: teus olhos, que haviam te mostrado a beleza, tinham também te revelado a fealdade.Testemunhaste: a hipocrisia, a violência, a fome, a miséria, a opressão, o egoismo, a subserviência, a delação. Claro, não ignoravas nada disso, quando teus olhos viviam fechados, mas, ao conquistarem a luz, precenciaste muitas dessas mazelas bem de perto. E isso te chocou, por seres lúcido e tão sensível. Confessaste: não havias perdido a capacidade para admirar a beleza, mas sofrias quando te deparavas com uma obra de arte que punha à mostra as chagas do nosso cotidiano. Sabias (como sabias!) que a arte não deve escamotear a realidade, e, no entanto, sofrias. Ah, meu amigo, estavas deprimido demais! E como é horrível ver-se um amigo nesse estado e não se poder melhorar-lhe o ânimo. Eu bem que tentei te convencer que a vida é assim mesmo, que não vale a pena levá-la muito a sério. Porque há os momentos bons, verdade que cada vez mais raros, que nos ajudam a suportá-la. Os sensíveis, como tu e eu, são os mártires da vida, mas, em compensação, são gratificados de uma forma que é negada aos demais mortais. Fui impotente e não me posso perdoar. Saí do bar arrasado. E apreensivo por causa do teu estado.

Fui a tua casa no dia seguinte, mas não quiseste me receber. No outro dia trabalhei muito e não pude te visitar, mas telefonei e não quiseste me atender. Julguei que fosse uma crise passageira. Mas na terça tua sobrinha me telefonou para dizer que havias dado um tiro no coração. Bati o fone e soltei um grito que ainda ecoa nos meus ouvidos. Um grito como aquele que encerra "Teorema", filme que tanto nos emocionou. Lembras? E lembras daquela crônica de Clarice (a santa Clarice, como a chamavas) sobre um amigo que havia morrido? No final, ela afirmava que não tinha ido enterrá-lo, porque nem todos morrem. Alguém deve ter dito a mesma coisa quando ela morreu. Por isso, meu amigo, não fui ao cemitério.

Natal (1976)


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Este conto, já publicado aqui em 30.04.05, faz parte do meu livro de título homônimo, de 1980, edição da Fundação José Augusto, Natal.




Terça-feira, Outubro 27, 2009

A DITADURA E A PARANÓIA



Já se disse que o maior dano causado pela ditadura militar foi o de ter introduzido a paranóia na mente das pessoas. Qualquer estranho, que aparecesse no meio de um agrupamento de pessoas, era visto com suspeita. Era assim na nossa Faculdade, era assim em qualquer outro local fechado. (Lembro Nélio me contando que alguns de seus companheiros do Cine Clube Tirol estavam com o pé atrás em relação a um sócio recém-admitido, vindo de outro Estado. Só depois de alguns meses verificaram que o coitado era inocente.) Nas ruas, nos bares, ficava-se incomodado com a presença, por perto, de alguém que estivesse sozinho. Mas, como naquele caso contado por Nélio, muitas a suspeita era infundada.
Por uma dessas ironias de que a vida está cheia, fui eu em certa ocasião também vítima desse tipo de suspeita. Logo eu que procurava estar sempre atento à presença desses informantes em nosso meio. Foi num sábado, fim de tarde. Estava sentado no batente da entrada do meu edifício, à espera de um colega de turma. Ele vinha me apanhar para jantar em sua casa e em seguida estudaríamos a matéria da qual faríamos exame na segunda-feira. O final do ano letivo se aproximava.
Vizinho ao edifício funcionava um café, assim chamado, mas que servia também bebidas. Café da Mocidade era o nome nem um pouco inspirado do estabelecimento. Além de, conforme ouvi um cliente dizer certa vez ao proprietário, conter esse nome o risco de afugentar os fregueses que já tivessem passado pela juventude. Ao que o dono (um sujeito magrinho, risonho e que desmunhecava um pouco) replicou que, ao contrário, aquele nome seria um chamariz para atraí-los ao seu café, por lhes dar a ilusão de que ainda eram jovens. Quando fui morar no edifício, ali funcionava uma marcenaria, onde, aliás, mandei fazer uma pequena estante, logo depois de ocupar o apartamento.
Três homens estavam bebendo à primeira mesa localizada à esquerda de quem penetrava no café. Um deles era presença assídua nos bares, sempre dava com ele, ao entrar num. Ocupava uma cadeira ao lado da parede, de frente para um dos acompanhantes, enquanto o outro ficara à sua esquerda, na cabeceira. Ficando a mesa logo à entrada do café, era possível a quem estivesse na posição em que me encontrava, ver aquele papudinho, bastando-lhe apenas virar o rosto para o interior do bar. Ele, por sua vez, poderia me ver com nitidez, desde que se interessasse em olhar na minha direção.
Ali sozinho, aguardando o colega, de vez em quando, para me distrair, olhava na direção do sujeito. Olhava um pouco e voltava o rosto para a rua. Nas primeiras vezes ele não pareceu dar pela minha presença. Até que numa hora em que olhava em sua direção, ele, de repente, virou o rosto para mim e me encarou, obrigando-me a desviar o rosto.Pela reação estampada no olhar do papudinho, percebi que ele não tinha gostado nada de me ver ali por perto. Assim, o melhor a fazer era parar de olhar o sujeito. Mas o que devia ter feito era simplesmente ter dado o fora dali. Eu teria sido poupado de ouvir as palavras duras e feias do papudinho, que não foram dirigidas a mim diretamente, mas era como se tivesse sido, já que ele falou bem alto para que eu pudesse escutar. Ele me confundira com um informante, um dedo-duro. Falava aos companheiros de mesa, como se fosse comigo. Um deles, foi o que pressenti, pois continuava com o rosto virado para o outro lado, veio até à porta e ficou me observando. O destempero verbal daquele desgraçado acabou chamando a atenção do proprietário do café, que, ao ficar sabendo do que se tratava, livrou a minha cara. Eu estava ali porque morava no edifício. Ele tinha me visto sentado no batente, numa ocasião em que apareceu na entrada do café, e até me cumprimentara. Apesar do esclarecimento do dono do café, fiquei arrasado. Precisei desabafar com o colega, que chegou logo depois.
Ao contar o episódio a Laura no dia seguinte, ao nos encontrarmos no Cinema de Arte, mostrei a ela a que grau de paranóia as pessoas haviam chegado. Até um sujeito como aquele, que levava o tempo a freqüentar os bares, se sentira espionado.

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- Trecho do meu romance A Venda Retirada, EDUFRN, 1998.
- Mantive a forma ortográfica da época em que o livro foi publicado.

Terça-feira, Outubro 20, 2009

15 FILMES DE GRANDE FINAL (*)


A fotografia, a cor, a pintura, a poesia: final de Gritos e Sussurros


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- Oito e Meio (Federico Fellini)
- A Doce Vida (Fellini)
- Rastros de Ódio (John Ford)
- Crepúsculo dos Deuses (Billy Wilder)
- Luzes da Cidade (Charles Chaplin)
- Blow-Up (Michelangelo Antonioni)
- Lola Montés (Max Ophuls)
- O Tesouro de Sierra Madre (John Huston)
- Deus e o Diabo na Terra do Sol (Glauber Rocha)
- O Leopardo (Luchino Visconti)
- Shane/Os Brutos Também Amam (George Stevens)
- Cinema Paradiso (Giuseppe Tornatore)
- Pickpocket ( Robert Bresson)
- De Punhos Cerrados (Marco Bellocchio)
- Gritos e Sussurros (Ingmar Bergman)

(*) Ordem não preferencial.

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LIVRO SOBRE O CINEMA BRASILEIRO

Hoje, a partir das 16 horas, no auditório do Departamento de Enfermagem do campus da UFRN., ocorrerá o lançamento do livro "CENAS BRASILEIRAS - O cinema em perspectiva multidisciplinar (1928-1988)" - Sessenta anos de cinema brasileiros analisados através de filmes comentados por vários cinéfilos/críticos. Este blogueiro é um dos participantes, como também Moacy Cirne, do blogue Balaio Porreta, e Bené Chaves, do desativado blogue O Apanhador de Sonhos. Aliás, Bené é um dos organizadores da coletânea, juntamente com Marcos Silva, potiguar que leciona na USP. A edição do livro é da EDUFRN.










Terça-feira, Outubro 13, 2009

O MAIOR AMOR DE CAMÕES


Folha de rosto da primeira edição de "Os Lusíadas"
Foto em www.unicamp.br/



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Sabem aquele belo e conhecidíssimo soneto de Camões que começa com os versos "alma minha gentil que te partiste, tão cedo desta vida descontente"? Pois bem, há uma história por trás dele. A mulher a quem ele se dirige não só existiu, como é considerada o maior amor do poeta, que os teve muitos. Tantos que, para o escritor cearense Airton Monte (*), comparado com ele, Vinicius de Moraes" é o mais casto dos seminaristas".
O fato assim aconteceu. Nomeado pelo rei de Portugal da época, Camões foi trabalhar na Ásia, em uma região onde é hoje o Vietnam de amarga lembrança para os americanos do Norte. Chefiava um órgão que administrava os casos de heranças sem a existência de herdeiros. Consta que problemas financeiras levaram o poeta a meter a mão no dinheiro que pertencia ao reino ao qual servia, e, por conta disso, foi intimado a regressar a Portugal para se explicar e se defender. Embarcou levando uma bela asiática que conquistara enquanto ficou na região. Além da mulher, levou o manuscrito de "Os Lusíadas". No meio da viagem, abateu-se uma tempestade, que faria o navio naufragar. E aí o poeta confrontou-se com uma luta interior, tão intensa quanto a fúria do mar: ou se salvava (e com ele o manuscrito), ou salvava o seu grande amor. Não é preciso dizer qual foi a sua decisão. Mais tarde compõe o soneto em que, na medida em que chora a perda da amada, expõe o remorso pela culpa da morte dela.
O ato de Camões dá ensejo a uma questão. Uma obra literária, por maior que seja, é mais importante do que a vida de uma pessoa? E mais ainda se se tratava de alguém que ele tanto amava, a ponto de levá-la para Portugal? Não é exagero, nem impróprio, considerá-lo um criminoso. Por outro lado, o poeta (e, por extensão, o artista), é um ser diferente dos demais mortais, não é uma pessoa "normal", é alguém que vê e sente as coisas de um outro ponto de vista. A sua obra é o que mais lhe importa. Não deveria ser assim, mas, infelizmente, é assim. Pode haver exceções, mas, no geral, o homem a quem foi dado o dom de criar coisas belas e imorredouras, é assim.
E se existe algo que, não digo possa absolvê-lo, mas que seja uma atenuante para o seu ato, é que o que ele preservou foi uma obra da grandiosidade de "Os Lusíadas"; e, de quebra, ele produziu esse soneto belíssimo em homenagem à mulher que mais amou. Muito mais grave seria se tivesse acontecido algo idêntico a Sarney, para que não se perdessem os originais daquele tal de "Marimbondos de Fogo".

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(*) O fato aqui narrado, com alterações de linguagem, foi extraído da crônica "Ninguém é Perfeito", publicada por Airton Monte no jornal "O Povo", de Fortaleza (CE), em 23.9.09.

Terça-feira, Outubro 06, 2009

UM APELIDADOR DIFERENTE



Em Canindé havia um rapaz chamado Wilson Monteiro. Sua grande paixão era o futebol. Torcedor do Flamengo. Chegou a formar um time de garotos. Algumas vezes reunia em torno dele, num banco da praça da Basílica, um grupo de meninos, entre eles eu, para falar de futebol. Houve uma noite em que ocupou o serviço de alto-falantes para assumir a função de um narrador esportivo (quem sabe se não era essa a sua vocação?). Tinha ocorrido no dia anterior uma partida de dois times de Canindé, esses de adultos. Ele narrou os gols, desde o início da jogada até à entrada da bola na rede.
Mas não quero destacar aqui o grande apaixonado pelo futebol, mas o seu talento especial para colocar apelidos. Um apelidador diferente de todos que conhecemos. No apelidar, não usava o recurso de se valer de um defeito físico da pessoa, de um hábito, uma mania esquisitos que ela tivesse, ou ainda um tique nervoso. Essas formas perversas que provocam a ira dos apelidados, como se a eles não bastasse o estigma de ter uma anomalia, principalmente no corpo.
O método de Wilson Monteiro era o de alterar o nome da pessoa, identificando-o com o de outra pessoa famosa ou prestigiada. Assim. Edmundo Soares (de quem já falei aqui uma vez) era por ele chamado de Macedo, por causa de uma figura de projeção nacional, o Edmundo Macedo Soares. Um meu companheiro de infância, Batista, era o Luzardo, numa analogia com o político e embaixador gaúcho Batista Luzardo. Já o meu irmão Haroldo foi apelidado de Juaçaba, nesse caso a fonte foi um muito conceituado médico de Fortaleza, Haroldo Juaçaba, que faleceu recentemente aos 90 anos.
E por aí ia. Mas ele não punha apelido em todo mundo. Aliás, não era muito grande o número de apelidados. Talvez ele não o fizesse por uma falta de intimidade com a pessoa. E também houvesse dificuldade para conseguir essa conciliação de nomes.
Outro irmão meu tinha um apelido, mas não me lembro qual era. Já eu "escapei", talvez por ele não saber que não me chamo apenas Francisco, mas Francisco de Paula. O nome de um santo italiano, o mesmo do presidente da República Rodrigues Alves. Não teria sido apelidado de Rodrigues Alves? Ou Rodrigues?
Wilson Magalhães Monteiro - grande figura.