domingo, agosto 08, 2010

AS IRMÃS SOBRAL


Eram sete irmãs: Filó, Joaninha, Naninha, Francisquinha, Mercês, Maria e Belinha, as duas últimas não alcancei. E dois irmãos, Manoelzinho, que também não conheci, e João. Ou mestre João Sobral, como alguns o chamavam, por fazer parte da banda de música da cidade, aliás, o líder, o chefe. Todas morreram solteiras, como também o Manoelzinho. João parecia fadado a ter o mesmo destino das irmãs e do irmão, mantendo um namoro que se arrastava por anos sem conta, até que um dia decidiu casar. Já passara dos cinquenta, mas, graças a ele, a família Sobral não morreu sem deixar herdeiros.
A minha família e as Sobrais estabeleceram um vínculo duradouro, iniciado pelo fato de serem vizinhas durante muitos anos. As duas casas ficavam na rua do Fogo (assim chamada, ao invés do nome oficial, que nem lembro qual era) e lá aquelas solteironas moraram a vida inteira. Dentre elas, no entanto, foi a Filó quem teve uma relação mais forte com a minha família, baseada na afeição que teve com a Sônia, a mais nova das minhas três irmãs, desde que esta nasceu. Contou-me um irmão, bem mais velho do que eu .que, até aí pelos sete anos da Sônia, era a Filó que a colocava para dormir, balançando a rede e cantando até fazê-la cair no sono.
Filó era, delas todas, a que mais dava motivos para o divertimento das pessoas. O principal desses motivos era o seu desejo de casar, que, parece, não era compartilhado pelas irmãs, pelo menos de forma manifesta. Houve dois casos que mais atiçaram os brincalhãos: o assédio por ela feito a dois rapazes que vieram morar em Canindé, com uma diferença de alguns anos. Os dois acabaram se casando com outra. E no caso do segundo, a frustração da Filó deve ter sido pior, pois a escolhida foi uma moça já trintona, que talvez já tivesse perdido a esperança de não sair do caritó. Pobre Filó, que queria tanto bem à minha irmã, como a uma filha! Além da idade avançada, faltavam-lhe atributos de beleza e, para piorar, entremeava as conversas com um desagradável fungado.
Por ser muito criança, não me lembro da fase em que as irmãs Sobral se viciaram no jogo do bicho, soube disso por esse mesmo irmão, que recheou o fato com detalhes, como o da circulação de uma quadrinha anônima, que dizia assim: "As Sobrais não rezam mais/Não se lembram mais de Deus/De manhã, 'que bicho dá'?/De tarde, 'que bicho deu' "? E ele, se aproveitando da minha pouca idade, me instruiu a responder à Naninha, quando ela me pediu certa manhã um palpite sobre qual o bicho que ia dar naquele dia, que seria o rato, um animal que não existia no jogo do bicho. Naninha parece que, delas, era a mais vulnerável ao vício. Era meio antipática, algo irritadiça e tinha no rosto um sinal preto e um tanto volumoso.
A minha Sobral preferida era a Joaninha, que era a mais bonita delas. Quero crer que gostava dela porque ela se afeiçoou a mim, desde que nasci, tal como aconteceu com a Filó em relação à minha irmã. Já mais crescido, aparecia no seu local de trabalho e ela sempre tinha algum mimo pra me dar, às vezes, até um dinheirinho. Quando rapaz, já trabalhando, quando ia a Canindé nunca deixava de visitá-la. Calma, falava baixo e pausado, tão diferente da Filó.
As irmãs Sobral se destacaram na paisagem humana da minha cidade, como tantas e tantas outras, das quais a gente se lembra com saudade.

9 comentários:

Jota Effe Esse disse...

E que saudade nos dão histórias como essa! Você as conta com uma graça e riqueza de detalhes que a gente vivencia o dia a dia de cada personagem. Meu abraço.

Jacinta Dantas disse...

Caramba!
Quantas mulheres juntas em sua memória! Mais um de seus belos relatos testemunhados pelo seu olhar.
Abraço e bom domingo.

Mariazita disse...

Querido Francisco
É tão agradável ler estas recordações!
Você tem o condão de nos fazer acompanhar os acontecimentos à medida que os vai descrevendo.
Até parece que eu conheci a família Sobral :)))
Gostei muito.

Boa semana. Beijinhos

Claudinha ੴ disse...

Querido amigo, memórias são fantásticas. Gosto de fechar os olhos e imaginar a cena, os dias e os detalhes que descreve. Em nosso rol de lembranças guardadas, sempre há um lugar para estas de pessoas que de alguma forma marcaram nossas vidas. Por estes dias, descobri no orkut, um rapaz (era na época) que eu observava quando criança. Era amigo de meu pai e era advogado. Hoje, desembargador, me enriqueceu com fotos e mais fotos de lugares que já citei no blog, lugares dos caminhos por onde andei. Mexeram realmente comigo, assim como as irmãs Sobral com suas lembranças!
Um beijo e nem preciso lembrar que adoro quando escreve assim.

DILERMArtins disse...

Mas bah, Francisco.
Quando narra suas recordações, não raro, me dá mais que o prazer de ler e conhecer essa gente que povoa suas memórias; provoca reminiscências também...Bati o olho neste texto e imediatamente lembrei das "Sete Evas", era assim que nós chamávamos as sete irmãs do nosso bairro. Diferentes das suas essas eram lindas, cada uma mais bonita que a outra, mas havia um boato de que a mais velha era bruxa(por serem sete filhas mulheres), tinha também a versão de que a bruxa seria a mais nova...Se eram bruxas não sei, mas que encantavam, ah! Encantavam!
Abração e boa semana.

Fernanda disse...

Caí aqui de para-quedas!

Vim atrás de textos raros de José Saramago, li e gostei muitíssimo.
Volto para me familiarizar com os seus demais posts.

Gostava de lhe dizer que, temos amigos/as comuns.
A Mariazita é uma delas...

Mais importante ainda, gostaria muito que se tornasse membro do "Club do Rogério" - "Um milhão de Saramagos", escrevendo um texto por semana de ou sobre José Saramago.
http://conversavinagrada.blogspot.com/

Abraço
Ná - Na Casa do Rau

Ilaine disse...

Francisco, amigo! Saudades daqui e de suas histárias. Perdoe a demora. Beijo

Marco disse...

Ah, caro Sobreira... Você sempre se manifesta quando abordo assuntos ou temas de sua preferência lá no Antigas Ternuras. Pois também tenho minhas preferências aqui na sua página. Gosto de tudo o que você escreve, as resenhas de filmes, seus contos, é tudo feito com muito talento e competência. Mas quando voc~e conta seus causos de infância... Aí eu me espalho! Como é bom ouvir histórias de antanho! Conte, conte mais!
Coitadas moças Sobral. Todas no caritó. Elas eram muito feias, do tipo dragão de São Jorge, ou havia poucos homens na cidade para fazer frente a grande oferta?
Carpe Diem. Aproveite o dia e a vida.

tb disse...

E nós as lemos como quem saboreia um pitéu, devagarinho degustando tudo o que a nossa imaginação vai fabricando, nesse contar....
Meu querido amigo, posso andar ausente de sua casota, mas saiba que nunca distante. :) um grande beijo afectuoso