domingo, agosto 01, 2010

FILHOS DO PARAÍSO (Bacheha-Ye aseman/1997)




Já em suas imagens iniciais, "Filhos do Paraíso" anuncia o móvel que norteará a sua história: um sapateiro consertando o par de um sapato feminino, a ele levado pelo garoto Ali (Amir Farrokh Ashemiar), pertencente à sua irmã Zahra (Bahare Saddigi). O extravio do sapato, que é recolhido pelo lixeiro na loja em que Ali está para comprar batatas, irá acarretar um grande problema para as duas crianças. Para Zahra, porque, sem o sapato, não poderá frequentar a escola, e , para Ali, responsável involuntário pela perda do objeto, porque teme que a irmã cumpra a ameaça de contar ao pai o sucedido. E a partir daí, os dois irão passar por situações impróprias para a sua idade, vivenciando-as como se já fossem adultos.
Esse precoce rito de passagem da infância para a idade adulta é a principal qualidade desse filme iraniano dirigido e escrito por Majid Majidi. Há o constrangimento inicial de Zahra de usar o tênis do irmão entre suas colegas que usam sapatos próprios do seu sexo, até ela ver que umas poucas também calçam o mesmo sapato e ainda receber o elogio da professora. O problema maior é para Ali, que tem que esperar a volta da irmã da escola, para com ele ir para a escola. Quando Zahra demora, ele chega atrasado para as aulas e é admoestado pelo diretor. Na terceira vez, o diretor não o deixa entrar e é preciso a intervenção de um professor para que ele não volte para casa.
Esse "amadurecimento" dessas duas crianças as torna pessoas tristes, que não brincam, principalmente o garoto. Há uma brincadeira entre elas quando lavam o tênis, divertindo-se com a formação de bolas de água, que, sopradas, se espalham no ar, proporcionando um momento bonito até mesmo plasticamente.
A água, aliás, tem uma presença destacada no filme, exercendo provavelmente uma função simbólica. Ela está no final - um final bem elaborado, com os pés feridos de Ali pela corrida organizada pela escola, da qual ele sai vencedor (um vencedor, paradoxalmente, frustrado porque ele almejava o terceiro lugar, cujo prêmio era um tênis, que iria presentear a irmã) mergulhados na água e tocados pelos peixinhos.
A correria de Ali (sobretudo) e de Zahra, para que o primeiro possa chegar a tempo à escola, é também um elemento simbólico, culminado pela apresentação da corrida. É o esforço físico despendido para superar as suas condições de vida, tanto mais difíceis em países, como o Irã, onde os ricos são mais ricos e os pobres ainda mais pobres (o pai deles sobrevivendo de eventuais serviços, devendo à mercearia e ao proprietário da modestíssima casa). Por sinal, há uma sequencia em que é mostrada essa desigualdade social e econômica, quando Ali e o pai vão de bicicleta à parte de Teerã onde vivem os muito bem sucedidos na vida, à cata de um serviço de jardinagem.
"Filhos do Paraíso" é um filme que emociona, comove, mas que consegue muito bem driblar o sentimentalismo e a pieguice. Afirma a posição do cinema iraniano entre os melhores cinemas do mundo atual, apesar das dificuldades por que passam os seus cineastas para levar adiante os seus projetos. Dificuldades não apenas financeiras, mas também (e certamente a mais grave) motivadas por uma censura vigilante e forte. Mas eles (os diretores) vão em frente, como esse Majid Majidi, que fez um belíssimo filme, com qualidades que incluem a de extrair um grande desempenho do casal infantil. E como se sabe, não é tarefa fácil dirigir criança.

10 comentários:

Claudinha ੴ disse...

Olá querido amigo!
Eu fiquei encantada com sua descrição. Diferenças culturais assim fazem a poesia do filme. Isso me comove, principalmente se há crianças envolvidas, amadurecendo pelo sofrimento. Vou procurar assistir...
Um beijo!

Jota Effe Esse disse...

Amadurecimento precoce de crianças, forçado pela miséria. Que belo tema para ser discutido, analisado, filmado. E não podemos ignorar tua dissertação sobre esse filme. Meu abraço.

pseudo-autor disse...

Fiquei curioso pra assistir. Pela foto do post eu lembrei dos 2 garotos do Caçador de Pipas correndo pelas ruas do afeganistão atrás das arraias. Não conhecia esse Filhos do Paraíso.

Cultura na veia:
http://culturaexmachina.blogspot.com

Marco disse...

Caro amigo Sobreira,
não vi este filme, mas pela sua descrição a gente percebe que é uma grande história maravilhosamente bem contada. Recentemtne, vi um filme (francês) sobre e com crianças que muito me encantou: "O pequeno Nicolau". Eu o recomendo com todas as bênçãos.
Este filme iraniano fez lembrar as obras de Vittorio de Sica, realizadas no tempo do neorealismo italiano.
Na primeira oportunidade, vou a uma locadora para pegar este DVD.
Carpe Diem. Aproveite o dia e a vida.

Lili disse...

Querido Sobreira,
desculpe pela ausência...Mal tenho conseguido postar com a necessária dedicação e alma no blog.
Mas, cada vez que volto por aqui recebo uma lufada de criatividade e determinação para continuar postando.
Tava com saudade das suas ótimas resenhas e das suas doces palavras.
Beijos

Vanuza Pantaleão disse...

Oi, Sobreira!
Assisti esse filme duas vezes e em todas duas surpreendi-me com cenas que deixara escapar.
Mas teve um momento de ternura ali, entre o pai humilde e o filho que não consigo esquecer. O menino, já precocemente amadurecido, ajuda o pai a lidar com o rico dono de uma mansão, algo assim. Ainda vou revê-lo, está na minha lista.
Ótima escolha e uma resenha perfeita.Parabéns!

Obrigada pela visita e por suas palavras tão gentis!!!Bjssss

DILERMArtins disse...

Mas bah, Sobreira.
Assisti ao filme, lembro que me encantou, não saberia descrevê-lo da maneiro como você o fêz, mas gostei, vou revê-lo.
Abração.

Mariazita disse...

Querido Francisco
Não vi este filme (não com este nome, pelo menos, embora o enredo não me seja de todo desconhecido...)
Vou procurar saber como foi intitulado em português, pois despertou a minha curiosidade.
Muito bem descrito, parece ser um filme muito bom.

Boa semana. Beijinhos

Jacinta Dantas disse...

Vou gastar um tempinho para atualizar a leitura por aqui. Mas, aos poucos, vou chegando e apreciando seus escritos.
Grande abraço

nina rizzi disse...

sobreira, que o bom que o filme te chegou às mãos, é mesmo incrível, sabia que gostaria :)

sim, a água é ali um elemento simbólico, a cena final que parece tão melancólica é na verdade otimista: para os muçulmanos a água é sinal de abundância, ainda mais quando estamos imersos...

o seu olhar? belo como o filme.

um beijo.