sábado, outubro 08, 2005

MARQUES REBELO


Marques Rebelo (1907-1973) escreveu romances, contos, novelas ,crônicas, literatura infantil, um
estudo sobre Manuel Antônio de Almeida, o autor de Mémorias de um Sargento de Milícias, e para o teatro. Foi ainda tradutor (entre outras obras, de A Metamorfose , Kafka). Seu romance A Estrela Sobe foi adaptado para o cinema (Bruno Barreto) e a novela Vejo a Lua no Céu para a televisão. Tinha uma língua tão grande quanto o seu talento, destilando veneno contra muitos de seus pares. Por causa dela criou inúmeras inimizades. Ele mesmo chegou a declarar-se "um colecionador de desafetos". Quando ele morreu, Carlos Drummond de Andrade escreveu uma bela crônica que começava assim: "Era um diabo miudinho, de língua solta e coração escondido". E mais adiante: "Arrasava um livro, um poema, um quadro, um disco, um atleta com uma frase. Matava um escritor - matou quantos - com uma epígrafe. Depois ressuscitava o morto". Talvez esse lado iconoclasta tenha lançado uma sombra sobre o seu talento literário, concorrendo para torná-lo pouco lembrado nos dias de hoje. Embora ele tenha merecido figurar naquela coleção "Perfis do Rio", levada a cabo pela Editora Relume Dumará. O livro sobre ele foi escrito pelo jornalista e escritor Luciano Trigo e lançado em 1994.
Marques Rebelo projetara escrever uma grande obra intitulada O Espelho Partido, dividida em 7 volumes. Concebida para homenagear o seu Rio de Janeiro, que seria o personagem principal, a obra, no entanto, como assinalou Edilberto Coutinho, foi também evoluindo para "a autobiografia, a memória, o cronograma histórico, o cine-jornal e o documentário, e ganhou a forma de um diário". Mas o escritor só conseguir escrever os 3 primeiros volumes, intitulados O Trapicheiro (1959), A Mudança (1963) e A Guerra Está em Nós (1968). Os três cobrem o período de 1936 a 1944.
Muitos dos personagens são inspirados em escritores, críticos literários, pintores e até jornalistas. Quase todos podem ser identificados por quem leu o citado livro de Luciano Trigo. Este afirma que o próprio Marques Rebelo, em carta ao Sr. Paulo Mendes de Almeida (que Trigo não informa de quem se trata), confirmou o fato e deu nome aos bois. Como curiosidade, eis alguns dos retratados, com o nome do personagem em parêntese. Jorge Amado (Antenor Palmeiro), Tristão de Athayde (Martins Procópio), Augusto Frederico Schmidt (Altamirano Azevedo), José Lins do Rego (Júlio Melo), Álvaro Lins (Lucas Barros), Rachel de Queiroz (Débora Feijó), Carlos Lacerda (Julião Tavares) e o editor José Olympio (Vasco Araújo). Manuel Bandeira e Gilberto Freyre não foram nominados, sendo apresentados, respectivamente, por "o poeta" e "o famoso sociólogo", este sempre dizendo coisas óbvias. Já Carlos Drummond de Andrade e Mário de Andrade aparecem com seus próprios nomes e sempre elogiados por um ou outro personagem, como Joaquim Borba (o escritor Cyro dos Anjos). Trigo acrescenta que, embora na carta Marques Rebelo tenha se escusado de informar a fonte de outros personagens, pessoas que viveram na época em que transcorre a ação dos 3 romances conseguiram identicar Guimarães Rosa no "afetado escritor-diplomata Magalhães Braga" e o pintor e capista Santa Rosa no "mulatófilo Mário Mora".
Marques Rebelo era torcedor ardoroso do América. Certa vez declarou que o dia mais feliz de sua vida foi o de 13 de dezembro de 1960. Justamente o dia em que o América conquistou o título de campeão carioca (em cima do Fluminense), depois de um jejum de 25 anos. Marques Rebelo era um pseudônimo. Seu nome de batismo era Edy Dias da Cruz. Nada eufônico para um escritor, conforme disse numa entrevista dada a Clarice Lispector.

Um comentário:

Roland disse...

Fiquei feliz com o achado. Aprecio Marques Rebelo desde 1974, quando, por intermédio do filme de Bruno Barreto, travei conhecimento com o autor. Da Estrela Sobe para o resto de sua obra foi mera questão de tempo, tanto que, muito tempo depois, Rebelo foi motivo para minha dissertação de mestrado na UFRGS. Hoje, Rebelo volta a meus focos de interesse porque há um doutorado em jogo e ele se mantém como meu objeto analítico. Por favor, caso alguém fique interessado em meu interesse, mande-me e-mails para mariantefurtado@hotmail.com, uma vez que ando atrás do encontrável sobre Marques Rebelo, objeto reforçar meu dossiê a respeito do autor, além de desejar também uma correspondência com quem goste dele e de sua obra. Antônio Augusto