domingo, janeiro 31, 2010

MÉXICO DOS MEUS AMORES




- Este conto faz parte do meu livro O Tempo Está Dentro De Nós (1989) . Foi mantida a ortografia da época em que o texto foi escrito.


Há mais de meia hora estava ali sentado, aguardando, ansioso, que a sessão começasse. Saíra cedo de casa, para evitar fila. Mas esse não fora o único motivo para chegar ao cinema com tanta antecedência. Mais forte era a ansiedade que o dominara a partir do momento em que, ao passar pelo Rio Grande, vira anunciada a exibição do filme. No primeiro instante, não acreditou nos olhos. Teve que ler o cartaz mais de uma vez, para se convencer de que não estava sofrendo de alucinação.
Há trinta anos aquele filme lhe deixara funda impressão, levando-o a vê-lo três vezes. Sim, ele gostara do filme e o incluía entre os seus favoritos. Mas, além dos próprios atrativos, o filme continha um significado sentimental. À ocasião do seu lançamento na cidade, ele conhecera a moça que viria a se tornar sua esposa. Com Ivone fora três vezes ao cinema, para ver o mesmo filme. Ela confessara não entender a razão daquela estranha assiduidade, pois não costumava rever um filme, por mais que dele tivesse gostado. E ele não disse nada, mas, bem no íntimo, achava que o mérito não pertencia somente ao filme e isso deixou-o jubiloso.
Encontrou a mulher agarrada à vassoura, suada, correndo de um lado para outro da casa.
- Ivone, você não adivinha o filme que vai passar hoje no Rio Grande.
Ela não falou nada, nem, ao menos, desviou o rosto para o marido, e prosseguiu com a varredura. Ele repetiu as palavras, podia ser que, absorta no encargo doméstico, não o tivesse escutado.
- Ora, Hermínio, eu preciso me virar em dez, para dar conta da casa. Não tenho tempo pra conversar agora, não - ela respondeu num tom de voz mal-humorado.
Ele apenas sorriu diante do desinteresse da mulher. Mas o sorriso logo desapareceu e, em seguida, o que sentiu foi pena de vê-la fazendo um trabalho pesado, sem ninguém para ajudá-la, já sem poder contar com a força e a agilidade da juventude. Ademais, não haveria nada que lhe roubasse a felicidade em que estava, o anúncio do filme imunizara-o de qualquer agressão que sofresse naquele dia. Imperturbável, retirou-se e foi tomar um banho.
No almoço, notando Ivone mais calma, voltou a fazer a pergunta.
- Ivone, você sabe qual é o filme que vai passar hoje no Rio Grande?
- Não faço a menor idéia.
E ele eufórico, como se anunciasse a conquista de um grande prêmio:
- México dos Meus Amores, Ivone.
- É?
Dessa vez, melindrou-se um pouco com a indiferença dela ante a notícia da reexibição de um filme que tivera uma decisiva participação em suas vidas. Num átimo, sentiu-se tentado a encerrar o assunto, mas ele lhe era muito importante.
- É. Depois de tantos anos, esse filme aparece de novo. Que tal irmos assistir?
- E você não tinha deixado de ir a cinema?
- Deixei. Mas vou abrir uma exceção para esse. Só pra esse. Eu gostei demais desse filme. E você também. Hem? Que tal a gente ir revê-lo?
- Eu já vi três vezes, Hermínio. É o bastante. E não estou com disposição pra sair de casa. Agora sem empregada, vou ter que cuidar de tudo. Mas você deve ir.
Finalmente na tela o ansiado. Começaram a desfilar os nomes de Yvonne de Carlo, Pier Angeli, Cyd Charisse, atrizes que, há tantos anos sumiram das telas (a segunda até já morreu); Ricardo Montalban, que ele, às vezes, via exibindo a canastrice num seriado de televisão; Vittorio Gassman, o talentoso italiano, o único ainda em atividade no cinema, na época trabalhando em Hollywood. Num instante, lembrou-se de um filme que fizera com Elizabeth Taylor. Um dos inesquecíveis.
A história do filme evoluía e voltavam-lhe as mesmas emoções de há trinta anos. O amor proibido de Gassman (este acaba cegando) e Yvonne; o amor (também proibido, mas sem o estigma da tragédia do outro, até contendo elementos humorísticos) de Pier Angeli e Montalban; Cyd Charisse dançando no topo de uma montanha, envolta por coloridos véus, um momento de magia e sensualidade.
Paralela à ficção na tela, seguia a história do amor dele e de Ivone. Revendo o filme, também revia os momentos ao lado da moça graciosa, assistindo àquele mesmo filme. Conheceram-se poucos dias antes, durante a festa da padroeira da cidade. Ivone volteava pela praça com uma amiga. Ele parado sobre o meio-fio entre um grupo de rapazes, que observava a passagem das moças, dirigindo-lhes galanteios. Tímido, ele apenas as olhava e ria, comedido, quando alguém do grupo soltava um gracejo para as moças. Algumas riam. Outras fechavam a cara. E ainda havia as que respondiam ao galanteador. Como Ivone. Ela virou o rosto em direção aos rapazes e deu uma resposta enérgica ao autor da brincadeira. Hermínio já a vinha observando com interesse. E, naquele rápido momento, os seus olhos se encontraram. Para sempre.
O gênio de Ivone, revelado naquela ocasião, não se modificou ao longo da união. De início, causou lesões ao relacionamento, quase provocando a morte do amor. É que ele demorou a conhecer a pessoa com quem passara a conviver. Quando descobriu que o fogo que nela ardia nos momentos de raiva, não passava, no fundo, de fagulhas, ocorreu o entendimento e aí o casamento pôde ser salvo.
Ah, como gostaria de tê-la ao seu lado. Como tantas vezes estiveram diante de uma tela - fada generosa que transporta as pessoas para um mundo mágico, embora a permanência neste não dure mais que duas horas. Mas também não foram poucas as ocasiões em que tivera de viajar sozinho a esse mundo. Ivone privava-se de sair, se as crianças não estivessem entregues a uma babá que inspirasse confiança. Ela mesma estimulava-o a ir ao cinema, ele já trabalhava demais e precisava se distrair. Quase a mesma frase da hora do jantar, quando voltara a convidá-la para o cinema.
- Vá, meu velho (ultimamente vinha tratando-o assim e ele achava engraçado, pois ainda estava na faixa dos cinqüenta), você gostou tanto desse filme. Ele representou muito para você.
Representara também para ela: dúvida nenhuma disso. Por que , então, não quisera ir? Cansaço? Talvez. Vinha fazendo todo o trabalho de casa, à exceção da lavagem de roupa. Os anos, por seu turno, já lhe haviam diminuído o vigor de antes, embora não tivessem acabado com a disposição para as tarefas domésticas. Mas, bolas, eles tinham o carro que os deixaria à porta do cinema. Por que, então? Não fazia nenhuma idéia. Que maravilhoso não seria se estivessem juntos, como há trinta anos. Ivone rindo nas cenas engraçadas, chorando nos momentos dramáticos. Não lhe importava que o ardor do amor tivesse arrefecido com a passagem do tempo, como acontece a toda união, por mais forte que seja. Bastava tê-la ao seu lado, naquele instante.
O filme já atingira a segunda metade. De repente, sentiu uma sensação comparável à de um peso oprimindo-lhe o peito. Não se importou e manteve a atenção no filme. Pouco depois foi sacudido por um espasmo de dor localizada no estômago. Acreditou que fosse um sintoma de uma aerofagia crônica. No entanto, os espasmos recrudesceram e uma dor fina atingiu um dos braços. Enquanto a opressão sobre o peito tornou-se mais intensa. Ainda assim, seguia, mas já com dificuldade, o que se desenrolava na tela. Faltaram-lhe forças para gargalhar, como o restante da platéia, com uma situação hilariante. Foi, então, que uma dor violentíssima, como se fosse despedaçar o corpo inteiro, lançou-o estrondoso contra um braço da poltrona. Uma dor que podia romper-se num grito. E da garganta de um personagem o grito explodiu no cinema.


sábado, janeiro 23, 2010

JEAN SIMMONS (1929-2010)




Jean Simmons, que faleceu ontem, fez parte de um grupo de atrizes que descobri na minha adolescência, as quais nunca deixei de amar. E cada vez que uma delas se foi, eu senti como se fosse uma amiga ou uma pessoa da minha família.
O primeiro filme que vi de Jean foi "O Manto Sagrado", do ruim Henry Koster, em que ela contracenava com Richard Burton e Victor Mature, um dos grandes canastrões do cinema, que marcou época nos anos 50 do século passado. Com 23 para 24 anos, ela tinha já uma bagagem bem razoável no cinema, pois a sua estreia na tela se dera em 1944, com "Give Us the Moon", quando ainda morava na Inglaterra, onde nasceu em 31 de janeiro de 1929. Ainda no seu país trabalhou em "Grandes Esperanças (1946), de Lean, adaptação do romance homônimo de Dickens, o seu primeiro trabalho importante, a que se seguiu o "Hamlet", dirigido e interpretado por Sir Lawrence Olivier. No papel de Ofélia, ela recebeu a primeira das duas únicas indicações para o "Oscar"; a outra ocorreu 22 anos depois, com "Tempo para Amar, Tempo para Esquecer," dirigido por Richard Brooks, então seu marido (antes ela fora casada com o ator Stewart Granger, tendo um filho de cada casamento). Duas indicações em mais de 60 anos de carreira e ficou de mãos abanando, o que vem mais uma vez confirmar que esse prêmio não é mesmo para ser levado a sério.
Em Hollywood a partir de 1950, 51, a bonita e elegante Jean se esteve em alguns filmes que não mereciam o seu talento, também fez filmes de boa e ótima qualidade: "Spartacus", de Kubrick, "Da Terra Nascem os Homens", de Wyler, "Entre Deus e o Pecado", de Brooks, entre mais uns poucos. O seu período áureo se deu nos anos 50 e nos primeiros anos de 60. Na década de 70 ela dedicou-se quase totalmente à televisão, trabalhando ocasionalmente no cinema. Foi, aliás, na televisão que ela participou, com certo destaque, de "Pássaros Feridos", que obteve grande sucesso. Mas foi no cinema em que ela fez o seu último trabalho, "Shadows in the Sun", de 2009.
Nos anos 80 sofreu uma forte dependência ao álcool, o que a levou a uma clínica para superar o vício. Parece que o conseguiu e continuou o seu trabalho até o ano passado.
É mais uma das atrizes que marcaram a minha adolescência e juventude que se vai. Delas, se não estou enganado, só restam Maureen O'Hara, que está chegando aos 90, e Claire Bloom, por quem me apaixonei desde que a vi em "Luzes da Ribalta", de Chaplin, beirando os 80.
Querida Jean, que a terra te seja leve!




domingo, janeiro 17, 2010

DUAS OU TRÊS COISAS QUE SEI DE SHIRLEY TEMPLE




Comecei o ano ganhando um presente do amigo Anchieta Fernandes, um dos mais destacados intelectuais do Rio Grande do Norte. Um calendário, que ele mandou fazer, para comemorar os 70 anos do filme "O Pássaro Azul" (The Blue Bird/1940), de Walter Lang e estrelado por Shirley Temple. O calendário traz uma foto da atriz, também com um pássaro pousado na mão, quase a mesma que está nesta postagem. Não conheço "O Pássaro Azul", que é uma adaptação de uma peça homônima do dramaturgo belga Maurice Maeterlinck; aliás, só conheço de Shirley Temple "Sangue de Heróis" (Fort Apache) , de John Ford, em que ela era filha de Henry Fonda e namorava John Agar, então seu marido na vida real. Foi seu segundo filme com Ford, pois já trabalhara com ele em "A Queridinha do Vovô" (1937), contracenando com Victor McLaglen, um dos vários integrantes da "troupe" do diretor.
Shirley foi um desses fenômenos produzidos por Hollywood nos seus anos dourados. Foi, de longe, o maiorl de todos os atores mirins. Estreou no cinema aos 3 anos de idade e, aos 5, já cantava e dançava. Graças a ela, a Fox se livrou da falência, naquele período econômico e social vivido pelos Estados Unidos chamado de Depressão. Dizem que chegava a receber cerca de duas mil cartas por semana. Era a escolhida para interpretar a garota de "O Mágico de Oz", mas a Fox recusou-se à emprestá-la à Metro e o papel ficou com Judy Garland.
Um fenômeno que durou até Shirley atingir a idade adulta. Moça feita, o prestígio e a popularidade despencaram. Fez poucos filmes, dos quais, talvez, o único memorável seja o de Ford, em que tinha um papel pequeno. Depois de fazer seu último filme em 1949("A Kiss for Carliss), tentou a televisão, onde demorou pouco tempo. E aí decidiu abandonar a carreira de atriz.
Nos anos 1970 foi embaixadora dos Estados Unidos em Gana e na extinta Tchecolosváquia, tendo, anteriormente, assumido o cargo de delegado da ONU. Hoje é uma esquecida velha senhora, perto de completar 82 anos (nasceu em 23 de abril de 1928).

A seguir, transcrevo um pequeno trecho do conto de Autran Dourado, "Queridinha da Família", que faz parte do seu livro "Imaginações Pecaminosas" (Editora Record/1981).

"Ah, Shirley Temple das nossas aflições, das nossas alegrias, dos nossos pecados! Quem nunca assistiu, no devido tempo, Olhos Encantadores, Queridinha da Familia, A Nossa Garota, Mascote do Regimento, A Pequena Órfã e A Pequena Rebelde; quem não viu O Anjo do Farol e Pobre Menina Rica, Queridinha do Vovô, Heidy e A Princesinha, não sabe de nada. As fitas esfuziantes da garota mais prodígio (e com o perdão da má palavra, a mais chata, dizia o dr. Viriato para quebrar o encantamento e destruir o mito) que já houve, e que os adultos, a meninada menos (no princípio mais por causa dos pais que os levavam, depois eles, e principalmente elas, colecionariam recortes de jornais e revistas, os fabulosos álbuns; eles usavam os retratos para se inspirarem na sublime arte de Onã), se babavam de ver várias vezes, as lágrimas nos olhos, o riso no coração. Ah, o brilho e a maravilha das músicas e dos incríveis, imponderáveis passos! Ela contracenando (dançando, meu Deus, com Fred Astaire!) com Adolfo Menjou e Dorothy Dell, Leonel Barrymore e Evelyn Venable, Gary Cooper e Carole Lombard.! Ah, quem vive hoje não pode saber o que era a emoção que Shirley Temple provocava na tela e na platéia
como mascote querida do regimento colonial! Quem não apreciou ela cantar On the Good Ship Lollipot; quem não chorou as mais mais sentidas lágrimas e não vibrou com aquelas músicas todas, com todas aquelas histórias, não sabe de nada. Os vestidinhos curtos, pregueados ou plissados, feitos especialmente para facilitar a dança e mostrar as coxinhas, os passos corridos e aéreos. Ah, as pernas e as coxas! diziam os mais taladinhos e safados, já no vício da masturbação".

terça-feira, janeiro 12, 2010

"A LONGA DESPEDIDA DA DITADURA", POR LEANDRO FORTES

No flagrante, Brilhante Ustra, símbolo de
uma época que implora para deixar de existir.



Ainda não surgiu, infelizmente, um ministro da Defesa, capaz de tomar para si a única e urgente responsabilidade do titular da pasta sobre as forças armadas brasileiras, desconectar uma dúzia de gerações de militares, sobretudo as mais novas, da história da da ditadura militar brasileira. A omissão de sucessivos governos civis, de José Sarney a Luiz Inácio Lula da Silva, em relação à formação dos militares brasileiros tem garantido a perpetuação, quase intacta, da doutrina de segurança nacional dentro dos quartéis nacionais, de forma que é possível notar uma triste sintonia de discurso - anticomunista, reacionário e conservador - do tenente ao general, obrigados, sabe-se lá por que, a defender o indefensável. Trata-se de uma lógica histórica perversa que se alimenta de factóides e interpretações de má fé, como essa de que, ao instituir uma Comissão Nacional da Verdade, o governo pretende rever a Lei de Anistia, de 1979.
Essa Lei de Anistia, sobre a qual derramam lágrimas de sangue as viúvas da ditadura em rituais de loucura no Clube Militar do Rio de Janeiro, não serviu para pacificar o país, mas para enquadrá-lo em uma nova ordem política ditada pelos mesmos tutores que criaram a ditadura, os Estados Unidos. A sucessão de desastres sociais e econômicos, o desrespeito sistemático aos Direitos Humanos e a distensão política da Guerra Fria obrigaram os regimes de força da América Latina a ditarem, de forma unilateral, uma saída honrosa de modo a preservar instituições e pessoas envolvidas na selvageria que se seguiu aos golpes das décadas de 1960 e 1970. Não foi diferente no Brasil.
Uma coisa, no entanto, é salvaguardar as Forças Armadas e estabelecer um expediente de perdão mútuo para as forças políticas colocadas em campos antagônicos, outra é proteger torturadores. Essas bestas-feras que trucidaram seres humanos nos porões, alheios, inclusive, às leis da ditadura, não podem ficar impunes. Não podem ser tratados como heróis dentro dos quartéis e escolas militares e, principalmente, não podem servir de exemplo para jovens oficiais e sargentos das Forças Armadas. Comparar esses animais sádicos aos militantes da esquerda armada é uma maneira descabida e sórdida de manipular os fatos em prol de uma camarilha, à beira da senilidade, que ainda acredita ter vencido uma guerra em 1964.
Assim, ao se perfilarem num jogo de cena melancólico em favor dessas pessoas, o ministro Nelson Jobim e os comandantes militares prestam um desserviço à sociedada brasileira. Melhor seria se Jobim determinasse aos mesmos comandantes que pedissem desculpas à nação, em nome das Forças Armadas, pelos crimes da ditadura, como fizerem os militares da Argentina e do Chile, ponto de partida para a depuração de uma época terrível que, no entanto, não pode ser esquecida. Jobim faria um grande favor ao país se, ao invés de dar guarda a meia dúzia de saudosistas dos porões, fizesse uma limpeza ideológica e doutrinária na Escola Superior de Guerra, de onde emanam os ensinamentos adquiridos na antiga Escola das Américas, mantidas pelos EUA, onde militares brasileiros iam aprender a torturar e matar civis brasileiros.
A criação do Ministério da Defesa, em 1999, pelo presidente Fernando Henrique Cardoso, deu-se por um misto de necessidade política e operacional. O Brasil era, então, um dos pouquíssimos países a ter um ministro fardado para cada força militar, o que fazia de cada uma delas - Marinha, Exército e Aeronáutica - um feudo administrativo indevassável e obrigava o presidente a negociar no varejo assuntos que diziam respeito ao conjunto de responsabilidades gerais das Forças Armadas. Do ponto de vista de gerenciamento da segurança nacional, aquele modelo herdado da ditadura era, paradoxalmente, um desastre. Ainda assim, apesar de ter havido alguma resistência na caserna, o Ministério da Defesa foi montado, organizado e colocado em prática.
Faltou, no entanto, zelo na indicação de nomes para a pasta. Desde o governo FHC, o Ministério da Defesa serviu para abrigar políticos desempregados ou servidores públicos sem qualquer ligação e conhecimento de políticas de defesa e realidade militar. A começar pelo primeiro deles, o ex-senador Élcio Álvares, do ex-PFL, acusado de colaborar com o crime organizado no Espírito Santo. Defenestrado, foi substituído, sem nenhum critério, pelo então advogado-geral da União, Geraldo Quintão, praticado obrigado a aceitar o cargo por absoluta falta de outros interessados. No governo Lula, já foram quatro os ministros da Defesa: o diplomata José Viegas Filho, o vice José de Alencar e o ex-governador da Bahia Waldir Pires, além do atual, Nelson Jobim.
Todos, em maior ou menor grau, gastaram tempo e energia em cima das mesmíssimas discussões sobre salários e equipamentos, mas ninguém ousar tratar da questão doutrinária e de novos parâmetros para a educação e a formação dos militares brasileiros. Na Estratégia de Defesa Nacional, elaborada por Jobim e pelo ex-ministro de Assuntos Estratégicos Mangabeira Unger, em 2008, o tema é abordado, simplesmente, em um mísero parágrafo. A saber:
"As instituições de ensino das três Forças ampliarão nos seus currículos de formação militar disciplinas relativas a noções de Direito Constitucional e de Direitos Humanos, indispensáveis para consolidar a identificação das Forças Armadas com o povo brasileiro".
A polêmica sobre a possibilidade ou não de revisão da Lei de Anistia é um reflexo direto do descolamento quase que absoluto dos quartéis da chamada sociedade civil brasileira, que, a partir de 1985, cometeu o erro de relegar os militares a uma quarentena política aparentemente infindável, da qual eles só se arriscam a sair de quando em quando, mesmo assim, de forma envergonhada e, não raras vezes, desastrada. Basta dizer que, para reivindicar melhores salários, recorrem os nossos homens de farda às mulheres, normalmente, esposas de oficiais de baixa patente e de praças subalternos, a se lançarem em panelaços e acampamentos públicos a fim de sensibilizar os generais. Estes mesmos generais que se mostram tão irritados com a possibilidade de instalação, aliás, tardia em relação a toda América Latina, da Comissão Nacional da Verdade, prevista no Plano Nacional de Direitos Humanos.
Mas, afinal, por que se irritam os generais e, com eles, o ministro Nelson Jobim? Com a possibilidade de, finalmente, o Estado investigar e nomear um bando de animais que esfolaram, mutilaram, estupraram e assassinaram pessoas às custas do contribuinte? Por que diabos o Ministério da Defesa se coloca ao lado de uma escória com a qual sequer existe, hoje, em dia, uma mínima ligação geracional na caserna?
O Brasil precisa se livar da ditadura militar, mas não antes de dissecá-la e neutralizar-lhe as sementes. Os militares de hoje não podem ser obrigados a defender gente como o coronel Brilhante Ustra, o carniceiro do DOI-CODI de São Paulo, nem o capitão Wilson Machado, vítima mutilada pela própria bomba que pretendia explodir, em primeiro de maio de 1981, durante um show de música no Riocentro, onde milhares de pessoas comemoravam o Dia do Trabalho. Um Exército que dá guarida e, pior, se orgulha de gente assim não precisa de mais armamento. Precisa de ar puro.

- Extraído do blogue http://brasiliaeuvi.wordpress.com/ e aqui publicado com autorização do editor, sr. Leandro Fortes.

terça-feira, janeiro 05, 2010

TRIO




1) Num sábado de dezembro, à noite, estava vendo no canal Futura "O Grande Ditador", de Chaplin. Me impressionou, ainda, depois de tanto tempo que assistira ao filme pela última vez, a cena em que Hynkel (que é Hitler, personificado por Chaplin) faz malabarismos com o globo terrestre, até que este estoura nas suas mãos. É o grande momento do filme, maior mesmo do que o discurso no final, aí feito pelo barbeiro judeu, sósia de Hynkel. E grande, sobretudo, porque encerra um sentido profético (o filme é de 1940, quando a Segunda Guerra estava no início), ou seja, o de que Hitler podia "brincar" com o mundo, mas jamais o dominaria.
Mas, enquanto via "O Grande Ditador", me lembrei de que havia algo em comum entre aqueles dois homens tão diferentes: a mesma idade, com uma diferença de apenas 4 dias a separá-los. Hitler nasceu em 20 de abril de 1889, Chaplin em 16 de abril de 1889.

2) Era um apaixonado por futebol Dom Marcolino Dantas, Bispo de Natal e seu primeiro Arcebispo. Um amigo meu, que está pertinho dos noventa, me contou uma particularidade dessa paixão de Dom Marcolino. Domingo de manhã, ele via no jornal a escalação dos dois times que iriam se enfrentar à tarde - presumo que times do Rio. Pegava uma folha grande de papel e para este transpunha os nomes dos jogadores pertencentes a cada equipe. No desenrolar do jogo, folha na mão, acompanhava a narração do locutor. Fantasiava a sua presença no estádio, vendo a bola se movimentando entre os jogadores.

3) Ele não para. Faz um filme atrás do outro e quase sempre com qualidade. Viaja. Em novembro passado esteve no Brasil, para receber o título de Doutor Honoris Causa, que lhe foi outorgado pela Universidade Federal de Minas Gerais, onde fez uma palestra. Estamos falando do cineasta português Manoel de Oliveira, que, no dia 11 de dezembro passado, chegou aos 101 anos. 101 anos, é isso mesmo. No cinema, alguém pode ter atingido essa idade, até a superado (e não falo só dos que estão atrás da câmera), mas duvido que tivesse se mantido em atividade. Às vezes penso que esse bom velhinho vai morrer num set de filmagem. Uma forma de morrer que, certamente, seria a ideal para ele.

terça-feira, dezembro 29, 2009

MELHORES FILMES VISTOS E REVISTOS EM 2009

Um ato de reverência à morte: A Partida



Todos os filmes aqui citados foram vistos em DVD. É indispensável fazer a menção, porque pode causar estranheza a ausência de alguns filmes estreados este ano. (Acho que já disse que não tenho mais saco pra assistir filme em shoppings. Talvez seja o caso daquele tipo criado por Chico Anysio, que, desolado, dizia: "É, é a idade"...) Só "Os Falsários" foi visto em sala de cinema, no Espaço (ou Centro?) Cultural Dragão do Mar, de Fortaleza, mas não gostei o suficiente para incluí-lo entre os melhores do ano. Isso dito, passemos às duas listas, que estão em ordem preferencial.

FILMES INÉDITOS

-
A Partida (Yojiro Takita/2008)
- Verão Violento (Valerio Zurlini/1959)
- O Passo Suspenso da Cegonha (Theo Angelopoulos/1991)
- O Céu de Suely (Karim Ainouz/2006)
- A Marquesa d'O (Eric Rohmer/1976)
- Gaviões e Passarinhos (Pier Paolo Pasolini/1965)
- Dúvida (John Patrick Shanley/2008)
- A Troca (Clint Eastwood/2008)
- Sangue de Pantera (Jacques Torneur/1942)
- O Diabo Disse Não (Ernst Lubitsch/1943)


FILMES REVISTOS

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Violência e Paixão (Luchino Visconti/1974)
- De Punhos Cerrados (Marco Bellocchio/1965)
- Vidas Secas (Nelson Pereira dos Santos/1963)
- A Embriaguez do Sucesso (Alexander Mackendrick/1957)
- Pickpocket (Robert Bresson/1959)
- Não Amarás (Krzysztof Kieslowski/1988)
- Pacto Sinistro (Alfred Hitchcock/1951)
- O Condenado (Carol Reed/1947)
- Ginger e Fred (Federico Fellini/1983)
- Bola de Fogo (Howard Hawks/1941)

terça-feira, dezembro 22, 2009

NATAL, PAPAI NOEL E ESPÍRITO NATALINO


Foto in : www. fotopg. com.br/



Ainda não terminara o mês de novembro e o meu neto de sete anos já havia escrito a carta ao Papai Noel, incluindo o pedido para o irmão mais novo, que ainda vai levar alguns anos para aprender a escrever. E eu fiquei pensando no dia em que lhe ocorrer a descoberta do mito do velho de vermelho e barba branca, que emite aquele ridículo som de ô, ô, ô, ô, que deve ser o primeiro golpe na inocência da criança. Outros lhe serão desferidos com o passar dos anos, à medida que a infância é deixada para trás, e ele, especialmente se for dotado de muita sensibilidade e consciência crítica, irá se confrontar com um mundo tão diferente daquele de quando era menino.
Imagino o meu neto daqui a alguns anos se deparando com a realidade do Natal. Um acontecimento que deveria ser um exemplo de amor entre as pessoas, mas amor de verdade, não esse amor de fachada, esse amor falso. O Natal transformado em um apelo intenso ao consumismo desenfreado, dirigido pela televisão para engordar ainda mais a conta bancária dos comerciantes e industriais.
E atrelado a essa febre de vendas dos shoppings, onde Papai Noel fica de plantão, vem esse tal de espírito natalino. Não vou ser injusto, não vou generalizar. Há pessoas que vivem de fato esse espírito de amor ao seu semelhante, de caridade (não apenas a prática da caridade de dar um dinheiro e ficar com a consciência tranquila), sim, existe gente assim. Existem até os que são tocados por esse espírito natalino durante todo o ano. Isso deveria ser a celebração do Natal, a sua essência de um evento religioso. Mas existem, e são a maioria, os hipócritas, os que estendem a mão ao outro, o abraçam, lhe desejam um Feliz Natal apenas cumprindo uma convenção social. (E entre esses, não poderiam faltar os políticos, que ocupam a tevê para levar a sua mensagem aos cidadãos.)
Trabalhei em banco por quase trinta anos e experimentei isso, convivi com isso. Os funcionários do mais alto grau de hierarquia, com umas poucas exceções, sabiam explorar bem o seu cargo no que se refere ao tratamento que dispensavam aos subalternos, ao relacionamento com eles, em especial àqueles no último grau de inferioridade profissional. Autoritários, grosseiros, o rei nas barrigas, como por um milagre, se "humanizavam" às vésperas do Natal. E aí saíam de seus postos para dar-lhes a mão e o abraço de tartufo. E para completar toda a "encenação", ainda promoviam um encontro de confraternização.
Pois é, Renan. Tudo isso você vai sentir quando for um homem maduro, e, então, vai ter saudade do tempo em que acreditava que o Papai Noel era um velho pródigo e generoso que lhe dava um presente a cada Natal.

terça-feira, dezembro 15, 2009

O BAÚ

Foto in Google




De uns meses já, vinha observando que a situação estava mudando. Apreensivo, sentia o Supremo Mandatário perder, gradativamente, a sua autoridade, embora a sua Guarda Policial se mantivesse ativa na repressão. E nas prisões aumentasse cada vez mais o número de contestadores. No entanto, as manifestações de protesto se sucediam: nas passeatas, nos jornais, nas realizações artísticas. Sentia que, mesmo entre os membros do Colegiado, havia vozes divergentes. Outro grave sintoma da crise por que estava passando o Regime: o líder do único Partido, responsável pela assunção ao poder do Supremo Mandatário, tinha repentinamente silenciado. Sua ausência nas últimas solenidades oficiais era motivo de especulações. O Grande Chefe (como era tratado pelos seus liderados) teria caído em desgraça e estaria fazendo companhia, na prisão, aos inimigos do Regime. Ou estaria refugiado no exterior, ao abrigo da justiça dos futuros detentores do poder.

Um belo dia o Regime caiu. Previu a queda, três dias antes. Despiu-se do uniforme do Partido, retirou da parede do quarto os retratos do Grande Chefe e do Supremo Mandatário, e, de sob a fronha, a bandeira do Partido, com que se cobria ao dormir. Atirou tudo num baú velho. Na madrugada, carregou o baú para o quintal da casa. Próximo a um limoeiro, cavou uma vala profunda, onde o enterrou. Num papel, demarcou o local. Dia seguinte fugiu para um outro país.

Durante o tempo que lá permaneceu, acompanhou atentamente a nova situação do seu país. Com ódio, mas com esperança. Esperou muito tempo, mas não em vão. Um dia, a situação voltou ao que era antes de sua fuga. O Grande Chefe fora de novo o responsável pela volta ao poder, não mais da pessoa do antigo Supremo Mandatário, que esse fora passado pelo fuzis, mas de um seu filho. Quando regressou, sua primeira providência foi ir ao quintal, munido do papel que conservara em seu poder. Desenterrou o baú e abriu-o ali mesmo: tudo intacto. No mesmo dia mandou lavar e passar o uniforme e a bandeira. Limpou carinhosamente os retratos. Uniformizado e conduzindo em cada mão um retrato, saiu às ruas para comemorar a vitória. Ao voltar para casa, pendurou os retratos na parede e despiu o uniforme, que guardou. Depois foi dormir, enrolado com a bandeira, como não fazia há muitos anos.


NATAL (1977)


- Extraído do meu livro de contos Não Enterrarei os Meus Mortos (1980).

terça-feira, dezembro 08, 2009

MÚSICAS E LEMBRANÇAS



Já contei aqui o fato. No lançamento do livro de um autor local havia a presença de um violonista. Na fila de autógrafos uma senhora acompanhada do marido, ambos nos seus presumíveis sessenta e poucos anos. Quando o músico começou a tocar "Velho Realejo", valsa de Custódio Mesquita e Sady Cabral, gravada por Sílvio Caldas, ela, incontinenti, deixou a fila, foi até ele e lhe pediu que não tocasse a música. O homem a atendeu e ela voltou para o seu lugar. É evidente que aquela música não lhe trazia uma boa recordação. Qualquer que fosse a recordação, só o marido deve saber.
Acontece com todos nós lembranças relacionadas com algumas músicas. Na maioria dos casos, trata-se de boas lembranças, mas há as dolorosas, como se dá com aquela senhora. Inúmeras delas que compõem os meus CDs me trazem lembranças, sempre que as ouço, da minha infância, as quais pertenciam ao acervo do serviço de alto-falante da minha cidade e do Cine Canindé. A discoteca do cinema era pequena e não se renovava, assim as mesmas músicas eram tocadas todas as noites em que havia sessão.
Mas se uma música pode proporcionar uma lembrança doce, ou amarga, pode também trazer à tona um momento engraçado, para quem a ouve. No meu caso, por exemplo, das músicas que fizeram parte da minha infância, duas me transportam a dois momentos divertidos, sempre que as ponho para tocar. Uma é "Respeita Januário", de Luiz Gonzaga. É impossível não deixar de sorrir no trecho da letra que diz "Luiz, respeita os oito baixos do teu pai", pois ele me faz lembrar da minha mãe (uma grande fã do cantor e compositor pernambucano), que, nas suas primeiras audições da música, em vez de "oito baixos", entendia "sovaco": "Luiz, respeita o sovaco do teu pai".
Já o bolero "Malagueña", faz-me ver, como se num filme, três de meus irmãos, já rapazes, cantando-o naquela língua que não conhecia, mas parecida com o português, como se formassem um trio - um trio, é bom dizer, sem o mínimo talento vocal para seguir a carreira artística. Estranhava especificamente a frase "que bonitos ojos tienes", por causa da palavra "ojos", que eu entendia como "ovos". Com meus oito, nove anos, já sabia que ela era usada como sinônimo de testículo. Então, eu ficava sem entender como podiam ser bonitos os testículos de alguém.

terça-feira, dezembro 01, 2009

15 FILMES DE GRANDE FINAL (2) *



... ó Carlito, meu e nosso amigo, teus sapatos e teu bigode
caminham numa estrada de pó e esperança.

Carlos Drummond de Andrade
("Canto ao Homem do Povo Charlie Chaplin")



- Hiroshima, Meu Amor (Alain Resnais)
- Casablanca (Michael Curtiz)
- Depois do Vendaval (John Ford)
- Um Rosto na Noite ** (Luchino Visconti)
- Tempos Modernos (Charles Chaplin)
- Zorba, o Grego (Michael Cacoyannis)
- A Estrada da Vida (Federico Fellini)
- Segredo das Jóias (John Huston)
- O Céu de Suely (Karim Arnouz)
- Doutor Fantástico (Stanley Kubrick)
- O Terceiro Homem (Carol Reed)
- Fahrenheit 451 (François Truffaut)
- A Carruagem de Ouro (Jean Renoir)
- História Real (David Lynch)
- Pai e Filha (Yasujiro Ozu)

* Ordem não preferencial.
** No lançamento em DVD, o filme tem o título de "Noites Brancas".

terça-feira, novembro 24, 2009

LIVRARIA UNIVERSITÁRIA



Dentre as boas lembranças que guardo dos meus primeiros anos de Natal está a Livraria Universitária. Era lá nas manhãs de sábado, depois das nove horas, que me encontrava com os amigos e conhecidos de perto, entre eles alguns colegas do Cineclube Tirol. Mas deixem-me abrir um breve parêntese: esses encontros só começaram quando a sessão do Cinema de Arte, promovido pelo Cineclube Tirol, que ocorria aos sábados de manhã, foi transferida para o domingo, ainda em 1965, se a memória não estiver me pregando uma peça. Parêntese fechado, volto ao assunto. Ficávamos na calçada da livraria, conversando sobre cinema, principalmente, literatura, futebol, MPB e o que desse na telha de cada um. Política era um assunto perigoso pelo momento em que vivíamos, mas, tomando precauções, também falávamos sobre ela. Enquanto conversávamos, víamos chegar algum literato já respeitado, que entrava e ia ver os livros novos. E não deixávamos de apreciar a passagem de alguma moça que chamasse a atenção pelo corpo bem feito. Vinha, às vezes, acompanhada de outra, que merecia, ou não, o mesmo interesse. Permanecíamos até pelas onze horas, quando alguns de nós iam à procura de um bar para prolongar o papo, mamando uma geladíssima cerveja.

A Livraria Universitária reinou absoluta em Natal até meados dos anos 1980. Por aí. Instalada em 1959, conforme informação do escritor e pesquisador Anchieta Fernandes, foi, portanto, durante mais de vinte anos, não só uma forma de referência para os literatos e intelectuais da cidade, mas também um ponto de encontro entre eles. Lá, na livraria de Seu Walter Pereira, um comerciante que sabia ser um gentleman, era o local escolhido pelos escritores para lançarem os seus livros, sempre aos sábados de manhã. Com discursos do apresentador do autor e deste. Até eu, que tenho pavor de falar em público, tive que dizer algumas palavras, decoradas nos dias que antecederam o lançamento do meu segundo livro, "A Noite Mágica". Era o costume da época, felizmente abolido. No entanto, naqueles anos sessenta e até os oitenta publicavam-se poucos livros em Natal. Hoje, a cada semana se fazem dois, três lançamentos. Em um mês vêm à luz bem mais livros do que em um ano inteiro daqueles tempos.

"Rabisco" estas linhas tendo perto de mim os dois volumes da "História do Cinema Mundial", de Georges Sadoul. As páginas amarelecidas e manchadas pelo tempo, mas bem viva e legível na primeira página a letra do meu nome e da data da compra: 31 de julho de 1965. O primeiro livro adquirido na Livraria Universitária. Em um sábado, por coincidência, no dia seguinte à minha chegada a Natal. Ele serve como testemunha de um local que não existe mais (não sei em que a livraria de Seu Walter se transformou, nem se o imóvel ainda pertence aos seus herdeiros) e que me traz saudades. Mas não é assim na vida? Tudo tem o seu fim.

terça-feira, novembro 17, 2009

RAPIDINHAS (2)

Foto da cidade de Copenhague. Em Google




- Um conhecido meu é muito apegado a certas coisas. Apegou-se tanto a um dinheiro que lhe emprestrei há décadas, que até hoje não o devolveu.

- "O elevador é o único transporte gratuito e igualitário da cidade". (Aníbal Machado, no conto "O Ascensorista").

- O cantor Cyro Monteiro estava no velório do compositor Geraldo Pereira (*). Eis que chega um crioulinho, vestido modesta mas decentemente, vai até ao caixão, examina rapidamente o cadáver e faz aquele indefectível movimento de cabeça. Em seguida se dirige a Cyro e lhe diz: "Seu Cyro, que coincidência"! O cantor olha, espantado, para ele, sem entender o motivo daquela "coincidência". Na verdade, o que o crioulinho queria dizer era "catástrofe".

- "Parapeito é aquilo que quando a pessoa senta nele, muda de nome". (Millor Fernandes).

- Um humorista americano (não lembro o nome), apreciador de um copo, ia deixando o restaurante e ordenou para um senhor que entrava, que, pela indumentária, julgou ser o porteiro: "Me arranje um táxi". Empertigado, o homem respondeu enfático que era um almirante. Aí o humorista emendou": "Então, me arranje um navio".

- Final de uma conversa entre dois homens, em um ônibus.
"Por tudo isso que lhe disse, não devo mesmo amá-la"
"Então, não pague".

- Com a cobertura maciça que as tevês brasileiras deram a Copenhague, onde foi realizada a escolha para a sede dos Jogos Olímpicos de 2016, é possível que os responsáveis por um dicionário geográfico, que consultei numa livraria, tenham aprendido que é ela a capital da Dinamarca. E não Oslo, como lá está.

- A respeito dessa bobagem de politicamente correto, um amigo criou esta expressão para designar o corno: "Terceirizador de serviços conjugais.

- Contam que quando foi lançado "Sansão e Dalila", de Cecil B. de Mille, Groucho Marx disse que não iria ver um filme em que Sansão (Victor Mature) tinha os peitos maiores do que Dalila (Hedy Lamarr).

- Quando se começou a falar na possibilidade de as mulheres apitarem jogos de futebol, um jornal de Natal fez uma matéria com várias pessoas ligadas a esse esporte. Entre elas, o irreverente João Machado, presidente da FNF (Federação Norte-Rio-Grandense de Futebo), que se disse favorável à ideia, porque, nessa coisa de regra, quem entende mesmo é a mulher.


(*) Geraldo Pereira compôs, entre vários sambas de sucesso, "Falsa Baiana", gravado pela primeira vez pelo próprio Cyro. Foi assassinado pelo famoso homossexual conhecido por Madame Satã.





terça-feira, novembro 10, 2009

GINGER E FRED ( 1985)





"Ginger e Fred" começa com um trem chegando a Roma, onde desembarcam pessoas que vão participar de um programa de televisão, e termina com outro trem deixando a cidade. O trem, para quem pertence à minha geração e às anteriores, é um emblema da nostalgia, que dá o tom ao filme de Fellini. Uma nostalgia que nos leva a supor que seja do diretor, que, na época, caminhando para os setenta anos e a oito anos da sua morte, não visse mais atrativos na vida contemporânea, e o remédio é queixar-se, é sentir falta do passado. Como faz o empregado do hotel, onde se hospedam os que irão participar do programa, fazendo um desabafo para Ginger/Amelia Bonetti (Giulieta Masina) de que a Itália não tem mais os grandes jogadores de outros tempos (está passando na televisão um jogo da seleção do seu país). Ou como a própria Amelia ao dizer que Roma já foi uma cidade melhor.
Também a homenagem que Fellini presta ao cinema da sua adolescência e juventude é mais um ingrediente que compõe essa nostalgia. Uma homenagem feita através do resgate da memória de dois ícones do filmusical, revivendo-os através de uma dupla de dançarinos italianos que fez sucesso nos anos 1930 e começo dos 40, que eram chamados de Ginger e Fred. Pois essa homenagem, essa evocação a Ginger Rogers e Fred Astaire torna-se uma coisa triste, até patética, pela presença do Fred italiano, de nome Pippo Botticella (Marcelo Mastroianni), que aparece bem envelhecido, com problemas de saúde, embora demonstrando uma certa vivacidade e muito bom humor. E a decadência física dele (que, talvez, possa se estender à extinção do cinema de tempos idos) é emblematizada no tombo que ele leva quando se apresenta com a sua antiga parceira diante das câmeras de televisão.
E paralela ao elemento nostálgico caminha a crítica à televisão. Fellini escolhe um desses programas que se veem tanto nos nossos canais, para por a nu o objetivo da televisão que é o de atrair as massas, oferecendo-lhes produtos que ela julga que irão atraí-las. Um programa em que são mostradas figuras exóticas, extravagantes, curiosas (anões dos dois sexos, um transexual, um milionário em greve de fome em protesto pela matança de aves, sósias de Kafka, Proust, Clark Gable e Woody Allen e até um mafioso). E no meio dessa fauna, Ginger, que diz não atender o convite para participar de um programa junto àquela gente, e Fred. Mas é possível que, ao colocar os dois, Fellini tivesse em mente promover um confronto entre a televisão e o cinema. Como também é possível que ele, amargurado e saudoso, visse nesse "duelo" o predomínio da primeira sobre o segundo, no que se refere à conquista de público.
"Ginger e Fred", se não está entre os maiores filmes de Fellini, tem daqueles algumas qualidades e mostra o cineasta ainda em boa forma naquele ano de 1985. Com ele, bem poderia ter encerrado a sua carreira, no mínimo, de uma forma digna, sem a necessidade de fazer "Entrevista" e "A Voz da Lua", seus dois últimos trabalhos, que nada acrescentaram à sua obra.

segunda-feira, novembro 02, 2009

NÃO ENTERRAREI OS MEUS MORTOS


Tinhas operado os olhos. Eu ia ver as novidades na livraria, como faço todos os sábados, quando te avistei na outra calçada. Incontinenti, atravessei a rua, tomei a calçada e fui ao teu encalço. Estavas com pressa, o teu andar nervoso, os braços balançando como se praticasses um exercício corporal. Te achei engraçado e pensei em fazer uma brincadeira. Ao chegar perto de ti, prendi-te os braços. Te viraste entre assustado e irritado, mas, ao me veres, teu rosto se alegrou e nos demos um grande abraço. Te felicitei pelo êxito da operação, começamos a conversar sobre os assuntos habituais no início dos encontros, depois sugeri entrarmos num bar, para prolongarmos o papo. Até parece que estavas esperando o convite - aceitaste-o de pronto. Fomos para um bar sossegado, lá ficamos uma tarde inteira.
Como falaste naquela tarde! A bem dizer, um monólogo. Eu te ouvia deslumbrado. Começavas a descobrir o mundo, ao modo da criança que vai tomando consciência das coisas que a rodeiam. E a descoberta te fazia feliz. Falaste das cores do dia, da beleza das pessoas. Afirmaste que agora conhecias os livros pelos teus olhos, sem ser preciso que a tua sobrinha te emprestasse os olhos dela. E isso para ti era duplamente gratificante. Mais de uma vez ficaste receoso de estares bancando o chato só falando de ti, mas não te ouvia só por delicadeza, mas porque participava da tua felicidade. Não me cansaste. Com prazer ouvia as tuas palavras, que falavam da beleza das coisas e das pessoas. Como aquela mulher na sala de espera do teu médico, cuja beleza quase te deixou hipnotizado. E a tua emoção quando falaste sobre o cinema! Naquela semana tinhas conhecido Bergman e Antonioni, e a descoberta desses dois artistas maiores te deixou feliz. Mas o teu maior desejo era conheceres Carlitos - o pai de todos nós. (Meses depois, um cinema local promoveu um festival de Chaplin e então disseste que já podias morrer.) Depois foste apresentado a Fellini, Welles, Losey, Buñuel e tantos outros que conferiram uma dimensão artística ao cinema.

Passei uma tarde inesquecível naquele sábado. Nunca mais tivemos um encontro como aquele. Nos vimos algumas vezes, geralmente aos sábados na livraria. No começo ainda te chamava para beber, mas, como sempre recusavas, de uma forma delicada, deixei de te convidar. Nunca me disseste: mas estou certo que querias recuperar o tempo perdido pela privação da tua visão. Os teus olhos tinham ainda tanta beleza a te revelar, não podias te esconder num bar tardes inteiras. Foram rápidos os nossos encontros, estavas sempre com pressa. Mas ainda falávamos de literatura, cinema, música e, às vezes, de política. Voltavas para casa, enquanto ia meu reunir com outros amigos.

E num desses sábados entro no "Glacial", à procura de amigos, quando te encontro sozinho numa mesa. Não eram ainda doze horas e já tinhas bebido muito. Não estavas nada bem, vi logo pelo teu olhar. Fazia uns dois anos que tínhamos bebido naquele mesmo bar. Mas não foste o mesmo daquele longínqüo sábado. Naquela vez não ousei interromper, por um instante que fosse, as tuas palavras deslumbradas diante do mundo que se abria a teus olhos. Te ouvia embevecido, feliz por conhecer alguém sensível e inteligente como tu. Mas dessa outra vez, vendo-te deprimido, tão chocado diante do que teus olhos tinham visto até então, não pude deixar de intervir, para te levantar o espírito. Infelizmente não o consegui. A tua imagem era a de um nauseado. E confessaste: teus olhos, que haviam te mostrado a beleza, tinham também te revelado a fealdade.Testemunhaste: a hipocrisia, a violência, a fome, a miséria, a opressão, o egoismo, a subserviência, a delação. Claro, não ignoravas nada disso, quando teus olhos viviam fechados, mas, ao conquistarem a luz, precenciaste muitas dessas mazelas bem de perto. E isso te chocou, por seres lúcido e tão sensível. Confessaste: não havias perdido a capacidade para admirar a beleza, mas sofrias quando te deparavas com uma obra de arte que punha à mostra as chagas do nosso cotidiano. Sabias (como sabias!) que a arte não deve escamotear a realidade, e, no entanto, sofrias. Ah, meu amigo, estavas deprimido demais! E como é horrível ver-se um amigo nesse estado e não se poder melhorar-lhe o ânimo. Eu bem que tentei te convencer que a vida é assim mesmo, que não vale a pena levá-la muito a sério. Porque há os momentos bons, verdade que cada vez mais raros, que nos ajudam a suportá-la. Os sensíveis, como tu e eu, são os mártires da vida, mas, em compensação, são gratificados de uma forma que é negada aos demais mortais. Fui impotente e não me posso perdoar. Saí do bar arrasado. E apreensivo por causa do teu estado.

Fui a tua casa no dia seguinte, mas não quiseste me receber. No outro dia trabalhei muito e não pude te visitar, mas telefonei e não quiseste me atender. Julguei que fosse uma crise passageira. Mas na terça tua sobrinha me telefonou para dizer que havias dado um tiro no coração. Bati o fone e soltei um grito que ainda ecoa nos meus ouvidos. Um grito como aquele que encerra "Teorema", filme que tanto nos emocionou. Lembras? E lembras daquela crônica de Clarice (a santa Clarice, como a chamavas) sobre um amigo que havia morrido? No final, ela afirmava que não tinha ido enterrá-lo, porque nem todos morrem. Alguém deve ter dito a mesma coisa quando ela morreu. Por isso, meu amigo, não fui ao cemitério.

Natal (1976)


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Este conto, já publicado aqui em 30.04.05, faz parte do meu livro de título homônimo, de 1980, edição da Fundação José Augusto, Natal.




terça-feira, outubro 27, 2009

A DITADURA E A PARANÓIA



Já se disse que o maior dano causado pela ditadura militar foi o de ter introduzido a paranóia na mente das pessoas. Qualquer estranho, que aparecesse no meio de um agrupamento de pessoas, era visto com suspeita. Era assim na nossa Faculdade, era assim em qualquer outro local fechado. (Lembro Nélio me contando que alguns de seus companheiros do Cine Clube Tirol estavam com o pé atrás em relação a um sócio recém-admitido, vindo de outro Estado. Só depois de alguns meses verificaram que o coitado era inocente.) Nas ruas, nos bares, ficava-se incomodado com a presença, por perto, de alguém que estivesse sozinho. Mas, como naquele caso contado por Nélio, muitas a suspeita era infundada.
Por uma dessas ironias de que a vida está cheia, fui eu em certa ocasião também vítima desse tipo de suspeita. Logo eu que procurava estar sempre atento à presença desses informantes em nosso meio. Foi num sábado, fim de tarde. Estava sentado no batente da entrada do meu edifício, à espera de um colega de turma. Ele vinha me apanhar para jantar em sua casa e em seguida estudaríamos a matéria da qual faríamos exame na segunda-feira. O final do ano letivo se aproximava.
Vizinho ao edifício funcionava um café, assim chamado, mas que servia também bebidas. Café da Mocidade era o nome nem um pouco inspirado do estabelecimento. Além de, conforme ouvi um cliente dizer certa vez ao proprietário, conter esse nome o risco de afugentar os fregueses que já tivessem passado pela juventude. Ao que o dono (um sujeito magrinho, risonho e que desmunhecava um pouco) replicou que, ao contrário, aquele nome seria um chamariz para atraí-los ao seu café, por lhes dar a ilusão de que ainda eram jovens. Quando fui morar no edifício, ali funcionava uma marcenaria, onde, aliás, mandei fazer uma pequena estante, logo depois de ocupar o apartamento.
Três homens estavam bebendo à primeira mesa localizada à esquerda de quem penetrava no café. Um deles era presença assídua nos bares, sempre dava com ele, ao entrar num. Ocupava uma cadeira ao lado da parede, de frente para um dos acompanhantes, enquanto o outro ficara à sua esquerda, na cabeceira. Ficando a mesa logo à entrada do café, era possível a quem estivesse na posição em que me encontrava, ver aquele papudinho, bastando-lhe apenas virar o rosto para o interior do bar. Ele, por sua vez, poderia me ver com nitidez, desde que se interessasse em olhar na minha direção.
Ali sozinho, aguardando o colega, de vez em quando, para me distrair, olhava na direção do sujeito. Olhava um pouco e voltava o rosto para a rua. Nas primeiras vezes ele não pareceu dar pela minha presença. Até que numa hora em que olhava em sua direção, ele, de repente, virou o rosto para mim e me encarou, obrigando-me a desviar o rosto.Pela reação estampada no olhar do papudinho, percebi que ele não tinha gostado nada de me ver ali por perto. Assim, o melhor a fazer era parar de olhar o sujeito. Mas o que devia ter feito era simplesmente ter dado o fora dali. Eu teria sido poupado de ouvir as palavras duras e feias do papudinho, que não foram dirigidas a mim diretamente, mas era como se tivesse sido, já que ele falou bem alto para que eu pudesse escutar. Ele me confundira com um informante, um dedo-duro. Falava aos companheiros de mesa, como se fosse comigo. Um deles, foi o que pressenti, pois continuava com o rosto virado para o outro lado, veio até à porta e ficou me observando. O destempero verbal daquele desgraçado acabou chamando a atenção do proprietário do café, que, ao ficar sabendo do que se tratava, livrou a minha cara. Eu estava ali porque morava no edifício. Ele tinha me visto sentado no batente, numa ocasião em que apareceu na entrada do café, e até me cumprimentara. Apesar do esclarecimento do dono do café, fiquei arrasado. Precisei desabafar com o colega, que chegou logo depois.
Ao contar o episódio a Laura no dia seguinte, ao nos encontrarmos no Cinema de Arte, mostrei a ela a que grau de paranóia as pessoas haviam chegado. Até um sujeito como aquele, que levava o tempo a freqüentar os bares, se sentira espionado.

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- Trecho do meu romance A Venda Retirada, EDUFRN, 1998.
- Mantive a forma ortográfica da época em que o livro foi publicado.

terça-feira, outubro 20, 2009

15 FILMES DE GRANDE FINAL (*)


A fotografia, a cor, a pintura, a poesia: final de Gritos e Sussurros


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- Oito e Meio (Federico Fellini)
- A Doce Vida (Fellini)
- Rastros de Ódio (John Ford)
- Crepúsculo dos Deuses (Billy Wilder)
- Luzes da Cidade (Charles Chaplin)
- Blow-Up (Michelangelo Antonioni)
- Lola Montés (Max Ophuls)
- O Tesouro de Sierra Madre (John Huston)
- Deus e o Diabo na Terra do Sol (Glauber Rocha)
- O Leopardo (Luchino Visconti)
- Shane/Os Brutos Também Amam (George Stevens)
- Cinema Paradiso (Giuseppe Tornatore)
- Pickpocket ( Robert Bresson)
- De Punhos Cerrados (Marco Bellocchio)
- Gritos e Sussurros (Ingmar Bergman)

(*) Ordem não preferencial.

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LIVRO SOBRE O CINEMA BRASILEIRO

Hoje, a partir das 16 horas, no auditório do Departamento de Enfermagem do campus da UFRN., ocorrerá o lançamento do livro "CENAS BRASILEIRAS - O cinema em perspectiva multidisciplinar (1928-1988)" - Sessenta anos de cinema brasileiros analisados através de filmes comentados por vários cinéfilos/críticos. Este blogueiro é um dos participantes, como também Moacy Cirne, do blogue Balaio Porreta, e Bené Chaves, do desativado blogue O Apanhador de Sonhos. Aliás, Bené é um dos organizadores da coletânea, juntamente com Marcos Silva, potiguar que leciona na USP. A edição do livro é da EDUFRN.










terça-feira, outubro 13, 2009

O MAIOR AMOR DE CAMÕES


Folha de rosto da primeira edição de "Os Lusíadas"
Foto em www.unicamp.br/



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Sabem aquele belo e conhecidíssimo soneto de Camões que começa com os versos "alma minha gentil que te partiste, tão cedo desta vida descontente"? Pois bem, há uma história por trás dele. A mulher a quem ele se dirige não só existiu, como é considerada o maior amor do poeta, que os teve muitos. Tantos que, para o escritor cearense Airton Monte (*), comparado com ele, Vinicius de Moraes" é o mais casto dos seminaristas".
O fato assim aconteceu. Nomeado pelo rei de Portugal da época, Camões foi trabalhar na Ásia, em uma região onde é hoje o Vietnam de amarga lembrança para os americanos do Norte. Chefiava um órgão que administrava os casos de heranças sem a existência de herdeiros. Consta que problemas financeiras levaram o poeta a meter a mão no dinheiro que pertencia ao reino ao qual servia, e, por conta disso, foi intimado a regressar a Portugal para se explicar e se defender. Embarcou levando uma bela asiática que conquistara enquanto ficou na região. Além da mulher, levou o manuscrito de "Os Lusíadas". No meio da viagem, abateu-se uma tempestade, que faria o navio naufragar. E aí o poeta confrontou-se com uma luta interior, tão intensa quanto a fúria do mar: ou se salvava (e com ele o manuscrito), ou salvava o seu grande amor. Não é preciso dizer qual foi a sua decisão. Mais tarde compõe o soneto em que, na medida em que chora a perda da amada, expõe o remorso pela culpa da morte dela.
O ato de Camões dá ensejo a uma questão. Uma obra literária, por maior que seja, é mais importante do que a vida de uma pessoa? E mais ainda se se tratava de alguém que ele tanto amava, a ponto de levá-la para Portugal? Não é exagero, nem impróprio, considerá-lo um criminoso. Por outro lado, o poeta (e, por extensão, o artista), é um ser diferente dos demais mortais, não é uma pessoa "normal", é alguém que vê e sente as coisas de um outro ponto de vista. A sua obra é o que mais lhe importa. Não deveria ser assim, mas, infelizmente, é assim. Pode haver exceções, mas, no geral, o homem a quem foi dado o dom de criar coisas belas e imorredouras, é assim.
E se existe algo que, não digo possa absolvê-lo, mas que seja uma atenuante para o seu ato, é que o que ele preservou foi uma obra da grandiosidade de "Os Lusíadas"; e, de quebra, ele produziu esse soneto belíssimo em homenagem à mulher que mais amou. Muito mais grave seria se tivesse acontecido algo idêntico a Sarney, para que não se perdessem os originais daquele tal de "Marimbondos de Fogo".

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(*) O fato aqui narrado, com alterações de linguagem, foi extraído da crônica "Ninguém é Perfeito", publicada por Airton Monte no jornal "O Povo", de Fortaleza (CE), em 23.9.09.

terça-feira, outubro 06, 2009

UM APELIDADOR DIFERENTE



Em Canindé havia um rapaz chamado Wilson Monteiro. Sua grande paixão era o futebol. Torcedor do Flamengo. Chegou a formar um time de garotos. Algumas vezes reunia em torno dele, num banco da praça da Basílica, um grupo de meninos, entre eles eu, para falar de futebol. Houve uma noite em que ocupou o serviço de alto-falantes para assumir a função de um narrador esportivo (quem sabe se não era essa a sua vocação?). Tinha ocorrido no dia anterior uma partida de dois times de Canindé, esses de adultos. Ele narrou os gols, desde o início da jogada até à entrada da bola na rede.
Mas não quero destacar aqui o grande apaixonado pelo futebol, mas o seu talento especial para colocar apelidos. Um apelidador diferente de todos que conhecemos. No apelidar, não usava o recurso de se valer de um defeito físico da pessoa, de um hábito, uma mania esquisitos que ela tivesse, ou ainda um tique nervoso. Essas formas perversas que provocam a ira dos apelidados, como se a eles não bastasse o estigma de ter uma anomalia, principalmente no corpo.
O método de Wilson Monteiro era o de alterar o nome da pessoa, identificando-o com o de outra pessoa famosa ou prestigiada. Assim. Edmundo Soares (de quem já falei aqui uma vez) era por ele chamado de Macedo, por causa de uma figura de projeção nacional, o Edmundo Macedo Soares. Um meu companheiro de infância, Batista, era o Luzardo, numa analogia com o político e embaixador gaúcho Batista Luzardo. Já o meu irmão Haroldo foi apelidado de Juaçaba, nesse caso a fonte foi um muito conceituado médico de Fortaleza, Haroldo Juaçaba, que faleceu recentemente aos 90 anos.
E por aí ia. Mas ele não punha apelido em todo mundo. Aliás, não era muito grande o número de apelidados. Talvez ele não o fizesse por uma falta de intimidade com a pessoa. E também houvesse dificuldade para conseguir essa conciliação de nomes.
Outro irmão meu tinha um apelido, mas não me lembro qual era. Já eu "escapei", talvez por ele não saber que não me chamo apenas Francisco, mas Francisco de Paula. O nome de um santo italiano, o mesmo do presidente da República Rodrigues Alves. Não teria sido apelidado de Rodrigues Alves? Ou Rodrigues?
Wilson Magalhães Monteiro - grande figura.

terça-feira, setembro 29, 2009

NO TEMPO DAS DILIGÊNCIAS, 70

Realizado em 1939, "No Tempo das Diligências" ("Stagecoach) está completando 70 anos neste 2009. Para assinalar a data, divulgo aqui, com algumas alterações, um artigo que publiquei no Diário de Natal na década de 1990, quando o filme foi lançado em VHS. Ei-lo.
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À época do surgimento de "No Tempo das Diligências", o "western" já estava com 36 anos. Adulto na idade cronológica, não o era na idade intelectual e artística. Até então, os exemplares do gênero, ou se enquadravam na categoria de produções modestas, servindo de veículo para os caubóis populares da época (Tom Mix, Buck Jones, Hopalong Cassidy, entre outros), ou na de produções caras, como "Aliança de Aço", de Cecil B. De Mille. O filme de Ford, apesar de este já ser um nome respeitado em Hollywood, com um Oscar na bagagem, não tinha um alto orçamento, nem uma única estrela no elenco (John Wayne era um ator pouco menos que obscuro, e sua escolha para o principal papel masculino, dizem, foi uma conquista que Ford obteve depois de uma luta árdua com o produtor Walter Wanger), e apresentava uma proposta temática não convencional. Sim, é verdade que, como observa J.L. Rieupeyrout em seu "O Western, ou o Cinema Americana por Excelência", o filme "respeitava todos os elementos consagrados pelo uso, conservando os tiroteios e as galopadas, e, em suma todos os temas dramáticos do gênero", mas, por outro lado, o autor ressaltava, "enriquecia-os com um conteúdo moral, social e psicológico que, sem desnaturá-los, lhes confere uma dignidade intelectual e artística, com a qual até então o "western" não se preocupava.
"No Tempo das Diligências", de fato, à medida que procedia ao desnudamento dos passageiros de uma viagem de diligências, representando diversas categorias sociais (que sofrem um ataque de índis, o qual propicia uma sequência que entraria para a antologia das maiores do cinema), tocava em questões, como o farisaísmo, a discriminação social, a dignidade humana e profissional de pessoas postas na marginalidade.
O roteiro de Dudley Nichols e Ben Hecht (este não creditado) inspirou-se no conto (ou novela?) "Bola de Sebo", de Maupassant. Essa identificação com a obra do escritor francês torna-se acentuada na importância que é dada à figura da prostituta Dallas (Claire Trevor). É o personagem principal. Ela acaba revestida de uma dimensão humana, que a coloca em posição superior às beatas que a expulsaram da cidade e à jovem esposa do oficial de Exército, que lhe torcera o nariz empinado durante a viagem. E não por acaso, a afinidade que se estabelece entre ela e Ringo Kid (Wayne) é originada por ele ser também um pária social, já que é um pistoleiro que acabara de cumprir pena na prisão. A segregação que sofrem dos demais passageiros, com exceção do médico alcoólatra (na primeira parada da diligência, ficam separados dos outros durante a refeição), os conduz a essa afinidade que evolui para o amor.
Essa simpatia, essa generosidade por pessoas ou etinias postas à margem do Sistema é um dos temas caros a John Ford. Recorde-se, a propósito, que foi ele o primeiro diretor a dar voz ativa ao índio em "Fort Apache", isso em 1948.
Outro tema sempre presente em sua obra é a amizade. Em "No Tempo das Diligências", esse sentimento, que Jorge Luis Borges definiu como uma das formas assumidas pelo amor, aflora entre o médico (Thomas Mitchell, por sinal, ganhador do Oscar pelo papel, juntamente com Claire Trevor) e o xerife (George Bancroft). E a imagem final, com os dois caminhando em direção ao bar, leva-nos a pensar se não inspirou a que encerra "Casablanca", em que aparecem, também andando juntos, Humphrey Bogart e Claude Rains.
"No Tempo das Diligências", pois, mantém-se ainda hoje de pé por suas diversas qualidades , ao mesmo tempo que se firma, cada vez mais, como desbravador de uma trilha temática pela qual transitaram inúmeros "westerns" que o sucederam, ajudando o gênero a adquirir o status artístico.

terça-feira, setembro 22, 2009

ISADORA, CARMEM E MARILYN VISTAS POR EDUARDO GALEANO

Foto in Google

ISADORA

Descalça, despida, envolvida apenas pela bandeira argentina, Isadora Duncan dança o hino nacional.

Comete esta ousadia numa noite de 1916, num café de estudantes em Buenos Aires, e na manhã seguinte todo mundo sabe: o empresário rompe o contrato, as boas famílias devolvem suas entradas ao Teatro Colón e a imprensa exige a expulsão imediata desta pecadora norte-americana que veio à Argentina para macular os símbolos pátrios.

Isadora não entende nada. Nenhum francês protestou quando ela dançou A Marselhesa com um xale vermelho como traje completo. Se é possível dançar uma emoção, se é possível dançar uma ideia, por que não se pode dançar um hino?

A liberdade ofende. Mulher de olhos brilhantes, Isadora é inimiga declarada da escola, do matrimônio, da dança clássica e de tudo aquilo que engaiole o vento. Ela dança porque dançando goza, e dança o que quer, quando quer e como quer, e as orquestras se calam frente à música que nasce de seu corpo.

CARMEM

Toda brilhosa de lantejoulas e colares, coroada por uma torre de bananas, Carmem Miranda ondula sobre um fundo de paisagem tropical de cartolina.

Nascida em Portugal, filha de um fígaro pobretão que atravessou o mar, Carmem é hoje em dia o principal produto de exportação do Brasil. O café vem depois.

Esta baixinha safada tem pouca voz, e a pouca voz que tem desafina, mas ela canta com as cadeiras e as mãos e com o piscar dos olhos, e com isso tem de sobra. É a mais bem paga de Hollywood; possui dez casas e oito poços de petróleo.

Mas a empresa Fox se nega a renovar seu contrato. O senador Joseph MacCarty denunciou-a como obscena, porque durante uma filmagem, em plena dança,um fotógrafo delatou intoleráveis nudezas debaixo de sua saia voadora. E a imprensa revelou que já em sua mais tenra infância Carmem tinha recitado para o rei Alberto da Bélgica, acompanhando os versos com descarados gestos e olhares que provocaram escândalo nas freiras e uma prolongada insônia no monarca.

MARILYN

Como Rita, esta moça foi corrigida. Tinha pálpebras gordas e papada, nariz de ponta redonda e dentes demasiados: Hollywood cortou a gordura, suprimiu cartilagens, limou seus dentes e transformou seus cabelos castanhos e bobos numa maré de ouro fulgurante. Depois os técnicos a batizaram de Marilyn Monroe e lhe inventaram uma patética história de infância para que ela contasse aos jornalistas.

A nova Vênus fabricada em Hollywood já não precisa se meter em cama alheia para conseguir contratos para papéis de segunda em filmes de terceira. Já não vive de salsichas e café, nem passa frio no inverno. Agora é uma estrela, ou seja: uma pessoinha disfarçada que gostaria de recordar, mas não consegue, certo momento em que simplesmente quis ser salva da solidão.

- Textos do livro "Mulheres" (L&PM POCKET/2009, tradução de Eric Nepomuceno).