segunda-feira, novembro 02, 2009

NÃO ENTERRAREI OS MEUS MORTOS


Tinhas operado os olhos. Eu ia ver as novidades na livraria, como faço todos os sábados, quando te avistei na outra calçada. Incontinenti, atravessei a rua, tomei a calçada e fui ao teu encalço. Estavas com pressa, o teu andar nervoso, os braços balançando como se praticasses um exercício corporal. Te achei engraçado e pensei em fazer uma brincadeira. Ao chegar perto de ti, prendi-te os braços. Te viraste entre assustado e irritado, mas, ao me veres, teu rosto se alegrou e nos demos um grande abraço. Te felicitei pelo êxito da operação, começamos a conversar sobre os assuntos habituais no início dos encontros, depois sugeri entrarmos num bar, para prolongarmos o papo. Até parece que estavas esperando o convite - aceitaste-o de pronto. Fomos para um bar sossegado, lá ficamos uma tarde inteira.
Como falaste naquela tarde! A bem dizer, um monólogo. Eu te ouvia deslumbrado. Começavas a descobrir o mundo, ao modo da criança que vai tomando consciência das coisas que a rodeiam. E a descoberta te fazia feliz. Falaste das cores do dia, da beleza das pessoas. Afirmaste que agora conhecias os livros pelos teus olhos, sem ser preciso que a tua sobrinha te emprestasse os olhos dela. E isso para ti era duplamente gratificante. Mais de uma vez ficaste receoso de estares bancando o chato só falando de ti, mas não te ouvia só por delicadeza, mas porque participava da tua felicidade. Não me cansaste. Com prazer ouvia as tuas palavras, que falavam da beleza das coisas e das pessoas. Como aquela mulher na sala de espera do teu médico, cuja beleza quase te deixou hipnotizado. E a tua emoção quando falaste sobre o cinema! Naquela semana tinhas conhecido Bergman e Antonioni, e a descoberta desses dois artistas maiores te deixou feliz. Mas o teu maior desejo era conheceres Carlitos - o pai de todos nós. (Meses depois, um cinema local promoveu um festival de Chaplin e então disseste que já podias morrer.) Depois foste apresentado a Fellini, Welles, Losey, Buñuel e tantos outros que conferiram uma dimensão artística ao cinema.

Passei uma tarde inesquecível naquele sábado. Nunca mais tivemos um encontro como aquele. Nos vimos algumas vezes, geralmente aos sábados na livraria. No começo ainda te chamava para beber, mas, como sempre recusavas, de uma forma delicada, deixei de te convidar. Nunca me disseste: mas estou certo que querias recuperar o tempo perdido pela privação da tua visão. Os teus olhos tinham ainda tanta beleza a te revelar, não podias te esconder num bar tardes inteiras. Foram rápidos os nossos encontros, estavas sempre com pressa. Mas ainda falávamos de literatura, cinema, música e, às vezes, de política. Voltavas para casa, enquanto ia meu reunir com outros amigos.

E num desses sábados entro no "Glacial", à procura de amigos, quando te encontro sozinho numa mesa. Não eram ainda doze horas e já tinhas bebido muito. Não estavas nada bem, vi logo pelo teu olhar. Fazia uns dois anos que tínhamos bebido naquele mesmo bar. Mas não foste o mesmo daquele longínqüo sábado. Naquela vez não ousei interromper, por um instante que fosse, as tuas palavras deslumbradas diante do mundo que se abria a teus olhos. Te ouvia embevecido, feliz por conhecer alguém sensível e inteligente como tu. Mas dessa outra vez, vendo-te deprimido, tão chocado diante do que teus olhos tinham visto até então, não pude deixar de intervir, para te levantar o espírito. Infelizmente não o consegui. A tua imagem era a de um nauseado. E confessaste: teus olhos, que haviam te mostrado a beleza, tinham também te revelado a fealdade.Testemunhaste: a hipocrisia, a violência, a fome, a miséria, a opressão, o egoismo, a subserviência, a delação. Claro, não ignoravas nada disso, quando teus olhos viviam fechados, mas, ao conquistarem a luz, precenciaste muitas dessas mazelas bem de perto. E isso te chocou, por seres lúcido e tão sensível. Confessaste: não havias perdido a capacidade para admirar a beleza, mas sofrias quando te deparavas com uma obra de arte que punha à mostra as chagas do nosso cotidiano. Sabias (como sabias!) que a arte não deve escamotear a realidade, e, no entanto, sofrias. Ah, meu amigo, estavas deprimido demais! E como é horrível ver-se um amigo nesse estado e não se poder melhorar-lhe o ânimo. Eu bem que tentei te convencer que a vida é assim mesmo, que não vale a pena levá-la muito a sério. Porque há os momentos bons, verdade que cada vez mais raros, que nos ajudam a suportá-la. Os sensíveis, como tu e eu, são os mártires da vida, mas, em compensação, são gratificados de uma forma que é negada aos demais mortais. Fui impotente e não me posso perdoar. Saí do bar arrasado. E apreensivo por causa do teu estado.

Fui a tua casa no dia seguinte, mas não quiseste me receber. No outro dia trabalhei muito e não pude te visitar, mas telefonei e não quiseste me atender. Julguei que fosse uma crise passageira. Mas na terça tua sobrinha me telefonou para dizer que havias dado um tiro no coração. Bati o fone e soltei um grito que ainda ecoa nos meus ouvidos. Um grito como aquele que encerra "Teorema", filme que tanto nos emocionou. Lembras? E lembras daquela crônica de Clarice (a santa Clarice, como a chamavas) sobre um amigo que havia morrido? No final, ela afirmava que não tinha ido enterrá-lo, porque nem todos morrem. Alguém deve ter dito a mesma coisa quando ela morreu. Por isso, meu amigo, não fui ao cemitério.

Natal (1976)


* * * * * * * * * * * *
Este conto, já publicado aqui em 30.04.05, faz parte do meu livro de título homônimo, de 1980, edição da Fundação José Augusto, Natal.




3 comentários:

Mariazita disse...

Belíssimo conto, meu querido amigo.
Emocionou-me.
Pessoas demasiado sensíveis têm, por vezes, dificuldade em aceitar as coisas (muito!) feias que a vida nos reserva.

Uma boa semana

Beijinhos
Mariazita

PS - Mudou o seu dia de postagem ou esta semana é excepção?

DILERMArtins disse...

Mas bah, Sobreira.
Que lindo conto! Nossa sensibilidade é muitas vêzes, atropelada e me pergunto, como aguentamos? Como não explodimos?
Depois me acalmo e penso, é a vida, a renovação, cada nascimeto traz a esperança de que as coisas vão mudar, mesmo não tendo enterrado nossos mortos...

Lili disse...

Lindo conto!!!
Interessante que ao começar a ler me lembrei do livro 'Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres' de Clarice Lispector. Quando segue-se um diálogo no qual Lóri e Ulisses conversam sobre o amor, vida e sexo. E ao final, vc cita Clarice!!
Querido, um bom fim de semana para vc, com alegrias e pequenas grandezas!!