terça-feira, outubro 13, 2009

O MAIOR AMOR DE CAMÕES


Folha de rosto da primeira edição de "Os Lusíadas"
Foto em www.unicamp.br/



* * * * * * * * * * * *

Sabem aquele belo e conhecidíssimo soneto de Camões que começa com os versos "alma minha gentil que te partiste, tão cedo desta vida descontente"? Pois bem, há uma história por trás dele. A mulher a quem ele se dirige não só existiu, como é considerada o maior amor do poeta, que os teve muitos. Tantos que, para o escritor cearense Airton Monte (*), comparado com ele, Vinicius de Moraes" é o mais casto dos seminaristas".
O fato assim aconteceu. Nomeado pelo rei de Portugal da época, Camões foi trabalhar na Ásia, em uma região onde é hoje o Vietnam de amarga lembrança para os americanos do Norte. Chefiava um órgão que administrava os casos de heranças sem a existência de herdeiros. Consta que problemas financeiras levaram o poeta a meter a mão no dinheiro que pertencia ao reino ao qual servia, e, por conta disso, foi intimado a regressar a Portugal para se explicar e se defender. Embarcou levando uma bela asiática que conquistara enquanto ficou na região. Além da mulher, levou o manuscrito de "Os Lusíadas". No meio da viagem, abateu-se uma tempestade, que faria o navio naufragar. E aí o poeta confrontou-se com uma luta interior, tão intensa quanto a fúria do mar: ou se salvava (e com ele o manuscrito), ou salvava o seu grande amor. Não é preciso dizer qual foi a sua decisão. Mais tarde compõe o soneto em que, na medida em que chora a perda da amada, expõe o remorso pela culpa da morte dela.
O ato de Camões dá ensejo a uma questão. Uma obra literária, por maior que seja, é mais importante do que a vida de uma pessoa? E mais ainda se se tratava de alguém que ele tanto amava, a ponto de levá-la para Portugal? Não é exagero, nem impróprio, considerá-lo um criminoso. Por outro lado, o poeta (e, por extensão, o artista), é um ser diferente dos demais mortais, não é uma pessoa "normal", é alguém que vê e sente as coisas de um outro ponto de vista. A sua obra é o que mais lhe importa. Não deveria ser assim, mas, infelizmente, é assim. Pode haver exceções, mas, no geral, o homem a quem foi dado o dom de criar coisas belas e imorredouras, é assim.
E se existe algo que, não digo possa absolvê-lo, mas que seja uma atenuante para o seu ato, é que o que ele preservou foi uma obra da grandiosidade de "Os Lusíadas"; e, de quebra, ele produziu esse soneto belíssimo em homenagem à mulher que mais amou. Muito mais grave seria se tivesse acontecido algo idêntico a Sarney, para que não se perdessem os originais daquele tal de "Marimbondos de Fogo".

* * * * * * * * * * * *

(*) O fato aqui narrado, com alterações de linguagem, foi extraído da crônica "Ninguém é Perfeito", publicada por Airton Monte no jornal "O Povo", de Fortaleza (CE), em 23.9.09.

Um comentário:

Lili disse...

Camões deixou uma obra de arte para a posteridade...Ele bem sabia e, talvez por isso, tenha se empenhado tanto em salvá-la.
Muito boa essa história...
Beijo carinhoso para vc.