terça-feira, outubro 06, 2009

UM APELIDADOR DIFERENTE



Em Canindé havia um rapaz chamado Wilson Monteiro. Sua grande paixão era o futebol. Torcedor do Flamengo. Chegou a formar um time de garotos. Algumas vezes reunia em torno dele, num banco da praça da Basílica, um grupo de meninos, entre eles eu, para falar de futebol. Houve uma noite em que ocupou o serviço de alto-falantes para assumir a função de um narrador esportivo (quem sabe se não era essa a sua vocação?). Tinha ocorrido no dia anterior uma partida de dois times de Canindé, esses de adultos. Ele narrou os gols, desde o início da jogada até à entrada da bola na rede.
Mas não quero destacar aqui o grande apaixonado pelo futebol, mas o seu talento especial para colocar apelidos. Um apelidador diferente de todos que conhecemos. No apelidar, não usava o recurso de se valer de um defeito físico da pessoa, de um hábito, uma mania esquisitos que ela tivesse, ou ainda um tique nervoso. Essas formas perversas que provocam a ira dos apelidados, como se a eles não bastasse o estigma de ter uma anomalia, principalmente no corpo.
O método de Wilson Monteiro era o de alterar o nome da pessoa, identificando-o com o de outra pessoa famosa ou prestigiada. Assim. Edmundo Soares (de quem já falei aqui uma vez) era por ele chamado de Macedo, por causa de uma figura de projeção nacional, o Edmundo Macedo Soares. Um meu companheiro de infância, Batista, era o Luzardo, numa analogia com o político e embaixador gaúcho Batista Luzardo. Já o meu irmão Haroldo foi apelidado de Juaçaba, nesse caso a fonte foi um muito conceituado médico de Fortaleza, Haroldo Juaçaba, que faleceu recentemente aos 90 anos.
E por aí ia. Mas ele não punha apelido em todo mundo. Aliás, não era muito grande o número de apelidados. Talvez ele não o fizesse por uma falta de intimidade com a pessoa. E também houvesse dificuldade para conseguir essa conciliação de nomes.
Outro irmão meu tinha um apelido, mas não me lembro qual era. Já eu "escapei", talvez por ele não saber que não me chamo apenas Francisco, mas Francisco de Paula. O nome de um santo italiano, o mesmo do presidente da República Rodrigues Alves. Não teria sido apelidado de Rodrigues Alves? Ou Rodrigues?
Wilson Magalhães Monteiro - grande figura.

Um comentário:

Lili disse...

Que delícia de narrativa!
Os apelidos normalmente revelam muito de uma pessoa! Eu, por exemplo, sou muito mais Lili do que Eliane. Só que eles vão tendo corruptelas, no meu caso,uns me chamam Lily, Lila, Liloca, Lilôca, Lilith, Lili Braun, Lili Marlene ...ao gosto do fregues.
Gostei de saber o seu nome: Francisco de Paula! Bem bonito. Bom fim de semana!!