domingo, março 28, 2010

O PUXÃO NO NARIZ

Foto: fockhead com



Eu estava num banco de praça quando o vi levantar-se e caminhar na minha direção. Estacou em frente a mim e fez a pergunta:
"Você é o Andrezinho, filho do Seu Moacir"?
"Ele mesmo".
Deu um risinho, depois falou:
"Eu tinha certeza que era você. Estava sentado naquele banco quando lhe vi chegar e disse pra mim mesmo aquele ali é o Andrezinho. Então, não está me reconhecendo"?
Olhei bem para o estranho de pele de um moreno acentuado, rosto rugoso, cabelos grisalhos, sem descobrir nenhum sinal que me levasse a identificá-lo. O timbre de voz não me soava familiar, e, enquanto o examinava, procurei nele um gesto característico, algo como um cacoete, em vão. Envergonhado, tive que lhe confessar que não o estava reconhecendo.
"Puta merda, eu estou velho mesmo".
"Não é nada disso. Eu que sou um péssimo fisionomista".
Outro risinho.
"Posso sentar"?
"À vontade".
Deu o terceiro risinho (me ocorreu, então, que o riso fácil fosse um cacoete, que a falta de convívio entre nós me tivesse feito esquecer completamente) e disse:
"Eu sou o Viliam".
Voltei a olhar atentamente para ele, buscando descobrir algum traço da pessoa que conhecera no passado. Nenhum traço. Em todo caso, a menção do seu nome me fez lembrar dele. Em meninos, fomos vizinhos, separados por quatro ou cinco casas e pela rua, e se não chegamos a ser amigos, fomos, pelo menos, companheiros de brincadeiras. Ele mais velho uns dois ou três anos.
"Está aposentado, Andrezinho?"
"Estou. Você também?"
"Quem dera."
"Faz o quê?"
"Trabalho em rádio. Setor esportivo. Sou o encarregado do plantão, o cara que dá informações sobre os resultados dos jogos. Será que não me ouviu algumas vezes?"
"Não sou ligado em esportes."
"Não me diga. Me lembro que você jogava bola até bem."
A conversa ia rolando, muito mais por iniciativa de Viliam. Eu me limitava praticamente a responder às suas perguntas. E enquanto ele soltava a língua, eu puxava pela memória, buscando desentranhar lembranças ligadas a ele. E fui me lembrando de Dona Marieta, sua mãe. Feia, de tudo fazendo para parecer bonita, pele amarelada, cabelo frisado, de um louro visivelmente artificial, falava mais do que o homem da cobra. Temperamento forte, com vocação para a prepotência, exercida principalmente sobre o marido - um barriga branca assumido. (Um detalhe, na aparência, insignificante, revela bem quem mandava na casa de Viliam. Era comum quando alguém nomeava algum menino acrescentar o nome do pai. Mas se era Viliam, a pessoa dizia filho de Dona Marieta e nunca filho de Seu George.) E aproveitando uma pausa na taramelice de Viliam, me ouvi a perguntar pela mãe dele.
"E Dona Marieta? Ainda está viva?"
"Viva até demais. E mais sadia do que eu. Come de tudo. Só está um pouco esquecida. Mora comigo desde que o papai faleceu."
"Seu George morreu?"
"Tem mais de dez anos. Mas eu ia dizendo..."
Pobre do Seu George. Deve ter chegado um momento em que não pôde mais suportar a convivência com a "caríssima" metade. E imaginava o que não estaria passando o filho ao lado daquela mãe autoritária, de convívio ainda mais difícil com a chegada da velhice. Mas ao mesmo tempo ponderava se Viliam já não não se amoldara ao temperamento da mãe, virado um submisso, feito o pai.
Mesmo porque, lembrava-me bem, Viliam não era um menino de cabelo na venta, que pudesse incutir nos outros meninos o medo de lhe pregarem uma peça para não receberem o troco. Fazíamos brincadeiras pesadas com ele, algumas de deixá-lo ferido e choramingando, e, no outro dia, lá estava o abestalhado de novo com a gente, como se nada tivesse acontecido.
"Sabe do que me lembrei agora (disse Viliam de repente e mais uma vez com aquele sorrisozinho)? Daquela vez que a velha deu um puxão no teu nariz. Tá lembrado?"
"Como não?"
"É, a Dona Marieta não era fácil. Ainda hoje não é, apesar da idade. Você sabe o que ela aprontou num dia desses?"
Começou a contar a mais recente truculência cometida pela mãe, mas as suas palavras entravam-me num ouvido e saíam no outro. O meu pensamento estava concentrado no episódia que ele acabara de lembrar. Aquele puxão de Dona Marieta no meu nariz, na presença da minha mãe e da minha irmã mais velha. E na minha própria casa.
"Isso é pra você nunca mais fazer arte com o meu filho."
As palavras da megera chegavam bem sonoras aos meus ouvidos, como se ditas naquele momento. E o estranho é que não me lembrasse da causa que a levara a fazer aquilo. Me lembrava vagamente que brincávamos, eu, Viliam e outros garotos, de cinturão queimado. Em dado momento da brincadeira, Viliam foi se queixar de mim a Dona Marieta e ela levantou-se da cadeira e me deu aquele puxão no nariz.
E de súbito, enquanto Viliam continuava falando para o vento, me fiz aquela pergunta: será que ele sabia que eu me vingara da agressão (sim, porque eu tinha dado o troco a Dona Marieta, fazendo-a passar por uma situação de extremo ridículo)?
Que ele presenciou o vexame da mãe, disso tenho certeza. Foi na festa de casamento da filha de uma amiga comum de mamãe e de Dona Marieta e Viliam lá estava junto com alguns dos nossos companheiros habituais de brincadeiras. Qualquer um daqueles meninos poderia ser o autor da peça de que Dona Marieta foi vítima, testemunhada por todos ali presentes, embora somente eu tivesse um motivo para armá-la. Mesmo assim não acho possível que Viliam me convertesse no principal suspeito, ele que, me lembro bem, não resistiu ao riso, tanto quanto a maioria dos convidados, ao ver a mãe debatendo-se para se levantar da cadeira, gritando por socorro, e as pessoas tentando erguer Dona Marieta, uma puxando-lhe um braço, outra o outro braço, mais alguém o pescoço, mais gente para prender a cadeira no chão, e, finalmente, depois de muito suor e muito esforço físico, Dona Marieta sai do suplício , mas sem se livrar do toque final, o requinte do derradeiro ato da suprema humilhação a que foi submetida: o ruído, semelhante ao de um grande peido, do vestido se rasgando. E a bruxa, aos berros, ai se eu pegar o moleque que fez isso, sendo escoltada até a um quarto da casa, enquanto o marido corria em busca de outro vestido.
"Tá vendo como a Dona Marieta ainda está em forma?"
Apenas retribuí o sorriso de Viliam, não ouvira uma palavra do seu relato. Ele se calara, para certamente descansar um pouco a garganta, tão ativa naquele nosso reencontro. Enquanto isso, me debatia na dúvida entre lhe lembrar ou não o incidente ocorrido com Dona Marieta. Tinha vontade de tocar no assunto, e ao mesmo tempo não tinha, e o curioso na minha dúvida era o temor de que Viliam revelasse que sempre soubera que fora eu o autor da brincadeira e me encostasse contra a parede, deixando-me sem argumentos para contestar. E era meu desejo manter silêncio sobre a autoria da peça. Um ponto de honra? Sei lá. Só sei que nunca abri a boca para me vangloriar do feito. E relutava em fazê-lo, justamente ao filho da bruxa.
"Bem, Andrezinho, tá na hora de tirar o time de campo."
De repente, Viliam punha um fim na minha dúvida. Estirou a mão, deu um último sorriso e foi embora.

domingo, março 21, 2010

15 FILMES COM UM GRANDE INÍCIO (1) *

A cunhada de Ethan Edwards (John Wayne) observa o
regresso dele, após anos de ausência: uma das primeiras
imagens de Rastros de Ódio.




- A Marca da Maldade (Orson Welles)
- Cidadão Kane (Welles)
- Hiroshima, Meu Amor (Alain Resnais)
- Vertigo/Um Corpo que Cai (Alfred Hitchcock)
- Oito e Meio (Federico Fellini)
- Rastros de Ódio (John Ford)
- O Baile (Ettore Scola)
- O Bebê de Rosemary (Roman Polanski)
- A Noviça Rebelde (Robert Wise)
- A Morte num Beijo (Robert Aldrich)
- Amor, Sublime Amor (Wise e Jerome Robbins)
- M... O Vampiro de Dusseldorf (Fritz Lang)
- A Bela da Tarde (Luís Buñuel)
- Era uma Vez... no Oeste (Sergio Leone)
- Ama-me Esta Noite (Rouben Mamoulian)

* Sem ordem preferencial.


domingo, março 14, 2010

UM MENINO ESCREVE UM LIVRO.


Foto via Google



Ele ainda brincava de criança e já escrevia relatos (crônicas? contos? as duas coisas?) que o pai mandou publicar em livro. Nunca me esqueci do título: "Sonhos e Conquistas". Li-o ao descobrir um exemplar no meio de antigos livros que mofavam na minha casa, mas, adolescente , ainda levaria muito tempo para adquirir a capacidade de avaliar um livro. Não tinha, evidentemente, valor literário, mas quem sabe um leitor arguto, sensível, não tivesse vislumbrado em alguns trechos a promessa de um futuro escritor? Promessa que jamais se cumpriria: o menino veio a tornar-se funcionário do Banco do Brasil, onde fez uma brilhante carreira. Dele mesmo, numa roda de pessoas em que eu estava presente, ouvi certa vez referir-se, de passagem, e de forma depreciativa, ao livro, deixando-me a impressão de que se arrependera de tê-lo escrito. Como se houvesse praticado uma má ação, cuja lembrança, talvez, o tivesse perseguido pelo resto da vida.
O pai é que sempre se orgulharia daquele feito do filho. E ainda hoje lhe dou razão. Um feito, sim, não importa a qualidade literária de "Sonhos e Conquistas", se levarmos em conta que o autor tinha apenas onze anos à época da publicação do livro, a qual coincidiu com o ano do meu nascimento. Com essa idade, nenhum dos grandes mestres da literatura mundial escreveu uma obra-prima. Com o dobro dela, ou mais, houve os que não foram tão bem sucedidos na estreia e um ou outro chegou até a renegar o seu primeiro livro. É verdade que há o exemplo da genialidade precoce de Rimbaud, mas mesmo ele despontou já perto dos vinte anos.
Maurício se chamava esse menino e era meu irmão. Já não está entre nós há quase nove anos.



domingo, março 07, 2010

SÃO FRANCISCO DOS POMBOS PALACIANOS


Crônica de Manoel Onofre Jr. *



Magro, com um riso alvo a destacar-se no pretume da pele, Azulão é funcionário da Casa Civil do Governo do Estado. Função principal: prestar toda assistência aos seus "irmãos menores", os pombos, que, desde que foram expulsos das sacadas da Prefeitura, escolheram o Palácio Potengi como residência.
Em Veneza, na praça São Marcos, é o turista quem alimenta os pombos, característicos daquele lugar. Mas, aqui em Natal, à falta de turistas, o Governo do Estado resolveu cuidar das pequenas aves, dando-lhes casa e comida, ou melhor, pombal e ração de milho diária. Esta mesma teve de ser reduzida, como diz Azulão com bom humor, em face da situação dramática das finanças estaduais.
Antigamente, os pombos moravam nas sacadas do Palácio Felipe Camarão, sede do executivo municipal. Sempre foram assim, dados ao convívio de coisas e gentes oficiais. Dali saíam para passeios na praça Sete de Setembro, em frente ao Palácio Potengi, onde faziam ponto num dos canteiros. Diariamente recebiam a ração de milho das mãos de um funcionário da Prefeitura, ornitólogo frustrado. Mas, certo dia, o Prefeito resolver cortar o milho dos pombos. Estes protestaram, e a prova é que - fato ainda lembrado - "sujaram", meticulosamente, por várias vezes, os brancos ternos de linho do Prefeito e dos assessores. Certo é que o protesto nada adiantou. O alcaide manteve-se firme em sua decisão de não mais dar milho às aves. Cansadas de protestar, elas optaram pela alternativa mais sensata: se mudaram para o Palácio Potengi. Um velho pombo filosofou: "Não há males que não venham para o Bem". E em seguida comandou: "Quem for pombo, que me siga. Todos ao Palácio"!
Foi uma revoada bonita, aquela; as aves em formação aérea, deixando a Prefeitura rumo ao Palácio do Governo. Pena que ninguém tenha notado nada.
Naquele tempo governava o Estado um homem bom que se interessou pelos pombos, dando-lhes pombais nos galhos dos ficus que ficavam em frente ao Palácio. Aqui encerra-se o que se poderia denominar de "período heróico" na história daqueles pombos. Os bichinhos puderam viver, a partir de então, no que sua imagem simboliza: paz.
Paz e água fresca. Para isso muito contribui o Sr. Jorge Berto, mais conhecido por Azulão, que é encarregado de não deixar faltar milho para os "donos" da praça Sete de Setembro.

- Azulão, qu'é que você conversa com eles?
- Eles quem?
- Os pombos, naturalmente.
- Conversa de mesmo não converso não. Mas a gente se entende tão bem que conversa não faz falta. Todo dia de manhã e de tarde, eu boto milho para eles, e eles vêm e até sentam nos meus ombros, sobem na minha cabeça. Gosto dos bichinhos.

* Manoel Onofre Jr nasceu em Santana do Matos (RN), em 1943. Seguindo a carreira jurídica, aposentou-se como Desembargador. É autor de cerca de 20 livros, englobando os mais variados gêneros, inclusive a ficção. Membro da Academia Norterriograndense de Letras. Esta crônica faz parte do livro "O Caçador de Jandaíra" (Edições Sebo Vermelho/2006).


domingo, fevereiro 28, 2010

UM NOEL ROSA HERMÉTICO

Fonte: Google



Em 1997 o compositor e cantor Ivan Lins lançou o CD triplo "Viva Noel". Do disco 1 faz parte o samba "Cor de Cinza", composto por Noel em 1933. É úma música que se pode dizer que aparece como um corpo estranho na obra do compositor, por causa do feitio da letra, em que os versos contêm impressões e imagens que aparentam não ter uma relação entre si, tendo como resultado um "texto" hermético, mas dotado de grande beleza. Por sinal que, segundo escreve o crítico João Máximo (autor, junto com Carlos Didier, do livro "Noel Rosa, Uma Biografia) no encarte do disco, o poeta e cronista Paulo Mendes Campos considerava esse samba "o mais belo e hermético poema impressionista do nosso cancioneiro popular".
João Máximo toca na obscuridade dos versos do compositor, "cujo mistério não há como desvendar: a história morreu com ele". E informa que a música só foi gravada em 1955, por Aracy de Almeida, portanto, 18 anos depois da morte de Noel.
Assim, com apenas duas gravações (contando a de Ivan Lins), "Cor de Cinza" é também uma música muito pouco conhecida de Noel (cujo centenário de nascimento ocorre este ano), entre as mais de 250 que ele compôs.
A seguir a letra.


Com seu aparecimento
Todo o céu ficou cinzento
E São Pedro zangado
Depois um carro de praça
Partiu e fez fumaça
Com destino ignorado

Não durou muito a chuva
E eu achei uma luva
Depois que ela desceu
A luva é um documento
Com que provo o esquecimento
Daquela que me esqueceu

Ao ver um carro cinzento
Com a cruz do sofrimento
Bem vermelha na porta
Fugi impressionado
Sem ter perguntado
Se ela estava viva ou morta

A poeira cinzenta
Da dúvida me atormenta
Nem sei se ela morreu
A luva é um documento
De pelica e bem cinzento
Que lembra quem me esqueceu.



domingo, fevereiro 21, 2010

O BAILE (Le Bal/1983)






O Baile, de Ettore Scola (Um Dia Muito Especial) não é o maior musical já realizado, mas, certamente é o mais original. Afastando-se do modelo padronizado pelo musical americano, não tem uma única fala e toda a história do filme é narrada através da música e da dança. E deve-se também falar em história com h maiúsculo, pois O Baile reconstitui o período francês, que vai de 1936, com a formação da Frente Popular, estendendo-se pela ocupação nazista, a libertação, a invasão do "rock" nos anos 1950, os anos 1960, até 1983. Além das músicas e das danças, todo o período é assinalado pela moda do vestuário masculino e feminino.
O filme começa em 1983, com os personagens-dançarinos, quarenta e sete anos mais velhos, entrando em um salão de um bar. É um ótimo início. Ao som de uma música, aparecem, primeiro, as mulheres, uma de cada vez. A câmera focaliza, com detalhes, a chegada delas. Há a de óculos escuros, que escancara a boca para examinar os dentes com os dedos, há outra que traz um frasco de comprimidos, uma terceira que, ao sentar, exibe parte de uma coxa, enquanto ajeita a saia de baixo, mais outra, de óculos de grau, que não irá dançar, preferindo ver uma revista de cinema. Já os homens entram juntos, em fila indiana, e vão se recostar ao balcão. Como ocorria nos bailes de antigamente, as mulheres aguardam que eles as convidem para dançar.
O roteiro, do qual Scola é um dos quatro autores, parece dar um pouco mais de destaque a dois desses homens. Aquele cheio de tiques (Marc Berman) e o grandalhão, feio e corcunda, que, talvez, por lhe faltarem atrativos físicos, dança apenas uma vez e rapidamente, sendo logo preterido pela parceira em favor de outro. É interpretado por Jean-François Perrier, que voltaria a trabalhar com o diretor no encantador a Viagem do Capitão Tornado (1990). Aliás, o personagem de Marc Berman proporciona o momento mais engraçado de O Baile. Na pele de um aristocrata, usando monóculo, ele chega ao baile acompanhado da amante. Sozinho à mesa, enquanto a mulher dança com outro, os monóculos (pois ele possui mais de um) caem no copo cheio de vinho. Por outro lado, ele aparece, em outra ocasião, como um personagem desprezível: o de colaboracionista, servindo de pajem para o oficial alemão (o mesmo Perrier)
Sendo uma adaptação de um espetáculo montado pelo Théatre du Campagnol, de Paris, encenado por Jean-Claude Penchenet, que também atua no filme e é mais um dos roteiristas, O Baile corria o risco de se tornar apenas a filmagem de um espetáculo musicado e dançado. O risco é evitado porque Scola, ao aderir à dança e à música, o faz com o seu tirocínio e talento cinematográficos, do que resulta um equilíbrio perfeito na aliança de três artes.
Curioso que um cineasta, sem experiência no gênero, tenha realizado um dos quatro ou cinco maiores musicais de todos os tempos, e dele a sua obra-prima. O cinema (como a vida) tem dessas coisas.



MEUS DEZ MELHORES MUSICAIS


- Cantando na Chuva (Stanley Donen/Gene Kelli/1952)
- Sinfonia em Paris (Vincente Minelli/1951)
- Amor, Sublime Amor (Robert Wise/Jerome Robbins/1961)
- O Baile
- Ama-me Esta Noite (Rouben Mamoulian/1932)
- Cabaret (Bob Fosse/1971)
- Os Guarda-Chuvas do Amor (Jacques Demy/1964)
- Marujos do Amor (George Sidney/1945)
- Um Dia em Nova York (Donen/Kelly/1949)
- Minha Bela Dama/My Fair Lady (George Cukor/1964)

domingo, fevereiro 14, 2010

22 GRANDES MÚSICAS DE CARNAVAL (*)

João de Barro, o Braguinha, foi o maior dos compositores de
músicas de carnaval. Nesta foto, em que ele é o primeiro da
frente, aparecem, entre outros, Chico, Caetano, Tom e Vi-
nicius.

Foto: www.lastfm.com.br/



- Evocação nr. 1 (Nelson Ferreira)
- Atire a Primeira Pedra (Ataulfo Alves/Mário Lago)
- O Cordão dos Puxa-Saco (Roberto Martins/Frazão)
- Pierrô Apaixonado (Noel Rosa/Heitor dos Prazeres)
- Florisbela (Nássara/Frazão)
- Dama das Camélias (João de Barro/Alcyr Pires Vermelho)
- Balzaquiana (Nássara/Wilson Batista)
- Anda Luzia (João de Barro)
- Se a Lua Contasse... (Custódio Mesquita)
- Ô Abre Alas (Chiquinha Gonzaga)
- Taí (Joubert de Carvalho)
- A Jardineira (Benedito Lacerda/Humberto Porto)
- Alá Lá Ô (Haroldo Lobo/Nássara)
- Estrela do Mar (Marino Pinto/Paulo Soledade)
- As Pastorinhas (João de Barro/Noel Rosa)
- Touradas em Madri (João de Barro/Alberto Ribeiro)
- Chiquita Bacana (João de Barro)
- Máscara Negra (Pereira Matos/Zé Kéti)
- O Teu Cabelo Não Nega (Lamartine Babo/Irmãos Valença)
- Grau Dez (Ary Barroso/Lamartine Babo
- É Com Esse Que Eu Vou (Pedro Caetano)
- Lata D'Água (Luís Antônio/Jota Junior)

(*) Sem ordem de preferência.

domingo, fevereiro 07, 2010

PEQUENAS LEMBRANÇAS DE UMA CERTA FORTALEZA



Fortaleza, anos 1950: trecho da rua Guilherme Rocha, cen-
tro da cidade, a qual desemboca na praça do Ferreira.
Foto: Google


No meu tempo de estudante em Fortaleza havia uma casa comercial que se diferençava das demais pelo tipo de propaganda que fazia. Na verdade, uma anti-propaganda, pois era anunciada por cobrar os preços mais altos da cidade, os seus produtos eram de baixa qualidade e não tinham garantia. Havia ainda a Casa Bicho, que tinha esse nome porque o seu proprietário se chamava José Bicho.
Pequenas lembranças de uma Fortaleza que não existe mais, que ficaram para sempre na minha memória. Tais como as matinês, aos domingos, do Cine Rex, ali na rua General Sampaio, a poucos metros da praça José de Alencar. Lá se reuniam os adolescentes de ambos os sexos, para ver um filme acessível à sua faixa etária. Não era raro encontrar um ou outro colega do Liceu. Numa ocasião vi o Jorge, que estudava na minha classe. Estávamos na fila para compra do ingresso, ele um pouco atrás de mim. Acompanhado de um amigo, ele lia, em voz alta, uma carta que uma namorada lhe enviara. Ria com alguns trechos da carta, aqueles em que a jovem demonstrava mais a atração que tinha por ele. Presenciando aquele exibicionismo de Jorge, eu, que já não era seu amigo, passei a detestá-lo a partir desse seu comportamento reprovável.
Um fato curioso no Rex era o preço da meia entrada: Cr$ 2,40. Por que, como os seus concorrentes, não era cobrado o preço de Cr$ 2,50? E, geralmente, ficava por esse preço, pois a bilheteira não dispunha de dez centavos. Nunca entendi isso.
Lá eu assisti A Princesa e o Plebeu. Fiquei ao lado de duas mocinhas, uma das quais não parava de falar. E uma vez em que Gregory Peck caminhava com uma mão no bolso da calça, ela disse à amiga que o homem que assim procedia era um liso.
Lembranças. Lembranças. Os programas de auditório na Rádio Iracema e na Ceará Rádio Clube, nas tardes de sábado. Talvez o mais popular de todos fosse o de Irapuan Lima, "o Chacrinha do Norte", na primeira delas. O auditório lotado de pessoas de diversas idades. Quando um cantor, ou cantora, de expressão nacional, vinha se apresentar num clube de Fortaleza, comparecia a esses programas. Num deles apareceu Elizeth Cardoso, que , na época, ainda não era chamada de "A Divina".
Um cunhado de um dos meus irmãos trabalhava na Dragão do Mar. Um dia ele me convidou para conhecer a rádio. Era uma tarde de um dia qualquer. Na ocasião estava sendo gravada uma novela. Embora fosse narrador esportivo, ele participava da novela (talvez por uma emergência) , fazendo um pequeno papel. Conseguiu com que eu assistisse à gravação. Reconheci o galã da novela, Oliveira Filho, que morava no meu bairro. E conheci um casal de atores que trabalhava em teatro. E tive uma tremenda decepção com a atriz que formava o par romântico com Oliveira Filho. Uma vez ou outra, eu acompanhava algum capítulo de rádio-novela. Morava na casa de outro irmão e a minha cunhada gostava de rádio-novela. Quando estava em casa, e se não estivesse estudando, ouvia essas novelas, ou parte delas. Então, havia uma atriz (não me lembro do nome) que me atraía pela voz suave, bonita, algo sensual, o que me levava a imaginar que fosse uma mulher bonita. Pois bem. Nesse determinado dia, lá estava ela. Não chegava a ser feia, mas estava muito longe do padrão de beleza que imaginava possuir.
E aquela funcionária bonitinha de uma loja de variedades? Aparentava ser um pouco mais velha do que eu. Estava quase sempre à frente da loja, quando eu por lá passava. Iniciamos um flerte (assim se chamava a paquera naquele tempo) e daí evoluímos para o namoro. Só que ela nunca soube que namoramos.




A ALMA DAS CIDADES
Poema de Horácio Paiva/RN




A cidade passou
antes de mim.
E não houve adeus.
Perdeu-se
no caos incontrolável
da impermanência.

Não a cidade onde nasci,
é óbvio,
mas a que aprendi a amar depois.

E quando vi que passara,
retirei-me.
Sem olhar para trás...

Anjos
- que não sabem que são anjos -
vieram ao meu encontro
e serviram-me.

Ainda não morri,
concordo,
mas a alma de minha cidade
não existe mais.







domingo, janeiro 31, 2010

MÉXICO DOS MEUS AMORES




- Este conto faz parte do meu livro O Tempo Está Dentro De Nós (1989) . Foi mantida a ortografia da época em que o texto foi escrito.


Há mais de meia hora estava ali sentado, aguardando, ansioso, que a sessão começasse. Saíra cedo de casa, para evitar fila. Mas esse não fora o único motivo para chegar ao cinema com tanta antecedência. Mais forte era a ansiedade que o dominara a partir do momento em que, ao passar pelo Rio Grande, vira anunciada a exibição do filme. No primeiro instante, não acreditou nos olhos. Teve que ler o cartaz mais de uma vez, para se convencer de que não estava sofrendo de alucinação.
Há trinta anos aquele filme lhe deixara funda impressão, levando-o a vê-lo três vezes. Sim, ele gostara do filme e o incluía entre os seus favoritos. Mas, além dos próprios atrativos, o filme continha um significado sentimental. À ocasião do seu lançamento na cidade, ele conhecera a moça que viria a se tornar sua esposa. Com Ivone fora três vezes ao cinema, para ver o mesmo filme. Ela confessara não entender a razão daquela estranha assiduidade, pois não costumava rever um filme, por mais que dele tivesse gostado. E ele não disse nada, mas, bem no íntimo, achava que o mérito não pertencia somente ao filme e isso deixou-o jubiloso.
Encontrou a mulher agarrada à vassoura, suada, correndo de um lado para outro da casa.
- Ivone, você não adivinha o filme que vai passar hoje no Rio Grande.
Ela não falou nada, nem, ao menos, desviou o rosto para o marido, e prosseguiu com a varredura. Ele repetiu as palavras, podia ser que, absorta no encargo doméstico, não o tivesse escutado.
- Ora, Hermínio, eu preciso me virar em dez, para dar conta da casa. Não tenho tempo pra conversar agora, não - ela respondeu num tom de voz mal-humorado.
Ele apenas sorriu diante do desinteresse da mulher. Mas o sorriso logo desapareceu e, em seguida, o que sentiu foi pena de vê-la fazendo um trabalho pesado, sem ninguém para ajudá-la, já sem poder contar com a força e a agilidade da juventude. Ademais, não haveria nada que lhe roubasse a felicidade em que estava, o anúncio do filme imunizara-o de qualquer agressão que sofresse naquele dia. Imperturbável, retirou-se e foi tomar um banho.
No almoço, notando Ivone mais calma, voltou a fazer a pergunta.
- Ivone, você sabe qual é o filme que vai passar hoje no Rio Grande?
- Não faço a menor idéia.
E ele eufórico, como se anunciasse a conquista de um grande prêmio:
- México dos Meus Amores, Ivone.
- É?
Dessa vez, melindrou-se um pouco com a indiferença dela ante a notícia da reexibição de um filme que tivera uma decisiva participação em suas vidas. Num átimo, sentiu-se tentado a encerrar o assunto, mas ele lhe era muito importante.
- É. Depois de tantos anos, esse filme aparece de novo. Que tal irmos assistir?
- E você não tinha deixado de ir a cinema?
- Deixei. Mas vou abrir uma exceção para esse. Só pra esse. Eu gostei demais desse filme. E você também. Hem? Que tal a gente ir revê-lo?
- Eu já vi três vezes, Hermínio. É o bastante. E não estou com disposição pra sair de casa. Agora sem empregada, vou ter que cuidar de tudo. Mas você deve ir.
Finalmente na tela o ansiado. Começaram a desfilar os nomes de Yvonne de Carlo, Pier Angeli, Cyd Charisse, atrizes que, há tantos anos sumiram das telas (a segunda até já morreu); Ricardo Montalban, que ele, às vezes, via exibindo a canastrice num seriado de televisão; Vittorio Gassman, o talentoso italiano, o único ainda em atividade no cinema, na época trabalhando em Hollywood. Num instante, lembrou-se de um filme que fizera com Elizabeth Taylor. Um dos inesquecíveis.
A história do filme evoluía e voltavam-lhe as mesmas emoções de há trinta anos. O amor proibido de Gassman (este acaba cegando) e Yvonne; o amor (também proibido, mas sem o estigma da tragédia do outro, até contendo elementos humorísticos) de Pier Angeli e Montalban; Cyd Charisse dançando no topo de uma montanha, envolta por coloridos véus, um momento de magia e sensualidade.
Paralela à ficção na tela, seguia a história do amor dele e de Ivone. Revendo o filme, também revia os momentos ao lado da moça graciosa, assistindo àquele mesmo filme. Conheceram-se poucos dias antes, durante a festa da padroeira da cidade. Ivone volteava pela praça com uma amiga. Ele parado sobre o meio-fio entre um grupo de rapazes, que observava a passagem das moças, dirigindo-lhes galanteios. Tímido, ele apenas as olhava e ria, comedido, quando alguém do grupo soltava um gracejo para as moças. Algumas riam. Outras fechavam a cara. E ainda havia as que respondiam ao galanteador. Como Ivone. Ela virou o rosto em direção aos rapazes e deu uma resposta enérgica ao autor da brincadeira. Hermínio já a vinha observando com interesse. E, naquele rápido momento, os seus olhos se encontraram. Para sempre.
O gênio de Ivone, revelado naquela ocasião, não se modificou ao longo da união. De início, causou lesões ao relacionamento, quase provocando a morte do amor. É que ele demorou a conhecer a pessoa com quem passara a conviver. Quando descobriu que o fogo que nela ardia nos momentos de raiva, não passava, no fundo, de fagulhas, ocorreu o entendimento e aí o casamento pôde ser salvo.
Ah, como gostaria de tê-la ao seu lado. Como tantas vezes estiveram diante de uma tela - fada generosa que transporta as pessoas para um mundo mágico, embora a permanência neste não dure mais que duas horas. Mas também não foram poucas as ocasiões em que tivera de viajar sozinho a esse mundo. Ivone privava-se de sair, se as crianças não estivessem entregues a uma babá que inspirasse confiança. Ela mesma estimulava-o a ir ao cinema, ele já trabalhava demais e precisava se distrair. Quase a mesma frase da hora do jantar, quando voltara a convidá-la para o cinema.
- Vá, meu velho (ultimamente vinha tratando-o assim e ele achava engraçado, pois ainda estava na faixa dos cinqüenta), você gostou tanto desse filme. Ele representou muito para você.
Representara também para ela: dúvida nenhuma disso. Por que , então, não quisera ir? Cansaço? Talvez. Vinha fazendo todo o trabalho de casa, à exceção da lavagem de roupa. Os anos, por seu turno, já lhe haviam diminuído o vigor de antes, embora não tivessem acabado com a disposição para as tarefas domésticas. Mas, bolas, eles tinham o carro que os deixaria à porta do cinema. Por que, então? Não fazia nenhuma idéia. Que maravilhoso não seria se estivessem juntos, como há trinta anos. Ivone rindo nas cenas engraçadas, chorando nos momentos dramáticos. Não lhe importava que o ardor do amor tivesse arrefecido com a passagem do tempo, como acontece a toda união, por mais forte que seja. Bastava tê-la ao seu lado, naquele instante.
O filme já atingira a segunda metade. De repente, sentiu uma sensação comparável à de um peso oprimindo-lhe o peito. Não se importou e manteve a atenção no filme. Pouco depois foi sacudido por um espasmo de dor localizada no estômago. Acreditou que fosse um sintoma de uma aerofagia crônica. No entanto, os espasmos recrudesceram e uma dor fina atingiu um dos braços. Enquanto a opressão sobre o peito tornou-se mais intensa. Ainda assim, seguia, mas já com dificuldade, o que se desenrolava na tela. Faltaram-lhe forças para gargalhar, como o restante da platéia, com uma situação hilariante. Foi, então, que uma dor violentíssima, como se fosse despedaçar o corpo inteiro, lançou-o estrondoso contra um braço da poltrona. Uma dor que podia romper-se num grito. E da garganta de um personagem o grito explodiu no cinema.


sábado, janeiro 23, 2010

JEAN SIMMONS (1929-2010)




Jean Simmons, que faleceu ontem, fez parte de um grupo de atrizes que descobri na minha adolescência, as quais nunca deixei de amar. E cada vez que uma delas se foi, eu senti como se fosse uma amiga ou uma pessoa da minha família.
O primeiro filme que vi de Jean foi "O Manto Sagrado", do ruim Henry Koster, em que ela contracenava com Richard Burton e Victor Mature, um dos grandes canastrões do cinema, que marcou época nos anos 50 do século passado. Com 23 para 24 anos, ela tinha já uma bagagem bem razoável no cinema, pois a sua estreia na tela se dera em 1944, com "Give Us the Moon", quando ainda morava na Inglaterra, onde nasceu em 31 de janeiro de 1929. Ainda no seu país trabalhou em "Grandes Esperanças (1946), de Lean, adaptação do romance homônimo de Dickens, o seu primeiro trabalho importante, a que se seguiu o "Hamlet", dirigido e interpretado por Sir Lawrence Olivier. No papel de Ofélia, ela recebeu a primeira das duas únicas indicações para o "Oscar"; a outra ocorreu 22 anos depois, com "Tempo para Amar, Tempo para Esquecer," dirigido por Richard Brooks, então seu marido (antes ela fora casada com o ator Stewart Granger, tendo um filho de cada casamento). Duas indicações em mais de 60 anos de carreira e ficou de mãos abanando, o que vem mais uma vez confirmar que esse prêmio não é mesmo para ser levado a sério.
Em Hollywood a partir de 1950, 51, a bonita e elegante Jean se esteve em alguns filmes que não mereciam o seu talento, também fez filmes de boa e ótima qualidade: "Spartacus", de Kubrick, "Da Terra Nascem os Homens", de Wyler, "Entre Deus e o Pecado", de Brooks, entre mais uns poucos. O seu período áureo se deu nos anos 50 e nos primeiros anos de 60. Na década de 70 ela dedicou-se quase totalmente à televisão, trabalhando ocasionalmente no cinema. Foi, aliás, na televisão que ela participou, com certo destaque, de "Pássaros Feridos", que obteve grande sucesso. Mas foi no cinema em que ela fez o seu último trabalho, "Shadows in the Sun", de 2009.
Nos anos 80 sofreu uma forte dependência ao álcool, o que a levou a uma clínica para superar o vício. Parece que o conseguiu e continuou o seu trabalho até o ano passado.
É mais uma das atrizes que marcaram a minha adolescência e juventude que se vai. Delas, se não estou enganado, só restam Maureen O'Hara, que está chegando aos 90, e Claire Bloom, por quem me apaixonei desde que a vi em "Luzes da Ribalta", de Chaplin, beirando os 80.
Querida Jean, que a terra te seja leve!




domingo, janeiro 17, 2010

DUAS OU TRÊS COISAS QUE SEI DE SHIRLEY TEMPLE




Comecei o ano ganhando um presente do amigo Anchieta Fernandes, um dos mais destacados intelectuais do Rio Grande do Norte. Um calendário, que ele mandou fazer, para comemorar os 70 anos do filme "O Pássaro Azul" (The Blue Bird/1940), de Walter Lang e estrelado por Shirley Temple. O calendário traz uma foto da atriz, também com um pássaro pousado na mão, quase a mesma que está nesta postagem. Não conheço "O Pássaro Azul", que é uma adaptação de uma peça homônima do dramaturgo belga Maurice Maeterlinck; aliás, só conheço de Shirley Temple "Sangue de Heróis" (Fort Apache) , de John Ford, em que ela era filha de Henry Fonda e namorava John Agar, então seu marido na vida real. Foi seu segundo filme com Ford, pois já trabalhara com ele em "A Queridinha do Vovô" (1937), contracenando com Victor McLaglen, um dos vários integrantes da "troupe" do diretor.
Shirley foi um desses fenômenos produzidos por Hollywood nos seus anos dourados. Foi, de longe, o maiorl de todos os atores mirins. Estreou no cinema aos 3 anos de idade e, aos 5, já cantava e dançava. Graças a ela, a Fox se livrou da falência, naquele período econômico e social vivido pelos Estados Unidos chamado de Depressão. Dizem que chegava a receber cerca de duas mil cartas por semana. Era a escolhida para interpretar a garota de "O Mágico de Oz", mas a Fox recusou-se à emprestá-la à Metro e o papel ficou com Judy Garland.
Um fenômeno que durou até Shirley atingir a idade adulta. Moça feita, o prestígio e a popularidade despencaram. Fez poucos filmes, dos quais, talvez, o único memorável seja o de Ford, em que tinha um papel pequeno. Depois de fazer seu último filme em 1949("A Kiss for Carliss), tentou a televisão, onde demorou pouco tempo. E aí decidiu abandonar a carreira de atriz.
Nos anos 1970 foi embaixadora dos Estados Unidos em Gana e na extinta Tchecolosváquia, tendo, anteriormente, assumido o cargo de delegado da ONU. Hoje é uma esquecida velha senhora, perto de completar 82 anos (nasceu em 23 de abril de 1928).

A seguir, transcrevo um pequeno trecho do conto de Autran Dourado, "Queridinha da Família", que faz parte do seu livro "Imaginações Pecaminosas" (Editora Record/1981).

"Ah, Shirley Temple das nossas aflições, das nossas alegrias, dos nossos pecados! Quem nunca assistiu, no devido tempo, Olhos Encantadores, Queridinha da Familia, A Nossa Garota, Mascote do Regimento, A Pequena Órfã e A Pequena Rebelde; quem não viu O Anjo do Farol e Pobre Menina Rica, Queridinha do Vovô, Heidy e A Princesinha, não sabe de nada. As fitas esfuziantes da garota mais prodígio (e com o perdão da má palavra, a mais chata, dizia o dr. Viriato para quebrar o encantamento e destruir o mito) que já houve, e que os adultos, a meninada menos (no princípio mais por causa dos pais que os levavam, depois eles, e principalmente elas, colecionariam recortes de jornais e revistas, os fabulosos álbuns; eles usavam os retratos para se inspirarem na sublime arte de Onã), se babavam de ver várias vezes, as lágrimas nos olhos, o riso no coração. Ah, o brilho e a maravilha das músicas e dos incríveis, imponderáveis passos! Ela contracenando (dançando, meu Deus, com Fred Astaire!) com Adolfo Menjou e Dorothy Dell, Leonel Barrymore e Evelyn Venable, Gary Cooper e Carole Lombard.! Ah, quem vive hoje não pode saber o que era a emoção que Shirley Temple provocava na tela e na platéia
como mascote querida do regimento colonial! Quem não apreciou ela cantar On the Good Ship Lollipot; quem não chorou as mais mais sentidas lágrimas e não vibrou com aquelas músicas todas, com todas aquelas histórias, não sabe de nada. Os vestidinhos curtos, pregueados ou plissados, feitos especialmente para facilitar a dança e mostrar as coxinhas, os passos corridos e aéreos. Ah, as pernas e as coxas! diziam os mais taladinhos e safados, já no vício da masturbação".

terça-feira, janeiro 12, 2010

"A LONGA DESPEDIDA DA DITADURA", POR LEANDRO FORTES

No flagrante, Brilhante Ustra, símbolo de
uma época que implora para deixar de existir.



Ainda não surgiu, infelizmente, um ministro da Defesa, capaz de tomar para si a única e urgente responsabilidade do titular da pasta sobre as forças armadas brasileiras, desconectar uma dúzia de gerações de militares, sobretudo as mais novas, da história da da ditadura militar brasileira. A omissão de sucessivos governos civis, de José Sarney a Luiz Inácio Lula da Silva, em relação à formação dos militares brasileiros tem garantido a perpetuação, quase intacta, da doutrina de segurança nacional dentro dos quartéis nacionais, de forma que é possível notar uma triste sintonia de discurso - anticomunista, reacionário e conservador - do tenente ao general, obrigados, sabe-se lá por que, a defender o indefensável. Trata-se de uma lógica histórica perversa que se alimenta de factóides e interpretações de má fé, como essa de que, ao instituir uma Comissão Nacional da Verdade, o governo pretende rever a Lei de Anistia, de 1979.
Essa Lei de Anistia, sobre a qual derramam lágrimas de sangue as viúvas da ditadura em rituais de loucura no Clube Militar do Rio de Janeiro, não serviu para pacificar o país, mas para enquadrá-lo em uma nova ordem política ditada pelos mesmos tutores que criaram a ditadura, os Estados Unidos. A sucessão de desastres sociais e econômicos, o desrespeito sistemático aos Direitos Humanos e a distensão política da Guerra Fria obrigaram os regimes de força da América Latina a ditarem, de forma unilateral, uma saída honrosa de modo a preservar instituições e pessoas envolvidas na selvageria que se seguiu aos golpes das décadas de 1960 e 1970. Não foi diferente no Brasil.
Uma coisa, no entanto, é salvaguardar as Forças Armadas e estabelecer um expediente de perdão mútuo para as forças políticas colocadas em campos antagônicos, outra é proteger torturadores. Essas bestas-feras que trucidaram seres humanos nos porões, alheios, inclusive, às leis da ditadura, não podem ficar impunes. Não podem ser tratados como heróis dentro dos quartéis e escolas militares e, principalmente, não podem servir de exemplo para jovens oficiais e sargentos das Forças Armadas. Comparar esses animais sádicos aos militantes da esquerda armada é uma maneira descabida e sórdida de manipular os fatos em prol de uma camarilha, à beira da senilidade, que ainda acredita ter vencido uma guerra em 1964.
Assim, ao se perfilarem num jogo de cena melancólico em favor dessas pessoas, o ministro Nelson Jobim e os comandantes militares prestam um desserviço à sociedada brasileira. Melhor seria se Jobim determinasse aos mesmos comandantes que pedissem desculpas à nação, em nome das Forças Armadas, pelos crimes da ditadura, como fizerem os militares da Argentina e do Chile, ponto de partida para a depuração de uma época terrível que, no entanto, não pode ser esquecida. Jobim faria um grande favor ao país se, ao invés de dar guarda a meia dúzia de saudosistas dos porões, fizesse uma limpeza ideológica e doutrinária na Escola Superior de Guerra, de onde emanam os ensinamentos adquiridos na antiga Escola das Américas, mantidas pelos EUA, onde militares brasileiros iam aprender a torturar e matar civis brasileiros.
A criação do Ministério da Defesa, em 1999, pelo presidente Fernando Henrique Cardoso, deu-se por um misto de necessidade política e operacional. O Brasil era, então, um dos pouquíssimos países a ter um ministro fardado para cada força militar, o que fazia de cada uma delas - Marinha, Exército e Aeronáutica - um feudo administrativo indevassável e obrigava o presidente a negociar no varejo assuntos que diziam respeito ao conjunto de responsabilidades gerais das Forças Armadas. Do ponto de vista de gerenciamento da segurança nacional, aquele modelo herdado da ditadura era, paradoxalmente, um desastre. Ainda assim, apesar de ter havido alguma resistência na caserna, o Ministério da Defesa foi montado, organizado e colocado em prática.
Faltou, no entanto, zelo na indicação de nomes para a pasta. Desde o governo FHC, o Ministério da Defesa serviu para abrigar políticos desempregados ou servidores públicos sem qualquer ligação e conhecimento de políticas de defesa e realidade militar. A começar pelo primeiro deles, o ex-senador Élcio Álvares, do ex-PFL, acusado de colaborar com o crime organizado no Espírito Santo. Defenestrado, foi substituído, sem nenhum critério, pelo então advogado-geral da União, Geraldo Quintão, praticado obrigado a aceitar o cargo por absoluta falta de outros interessados. No governo Lula, já foram quatro os ministros da Defesa: o diplomata José Viegas Filho, o vice José de Alencar e o ex-governador da Bahia Waldir Pires, além do atual, Nelson Jobim.
Todos, em maior ou menor grau, gastaram tempo e energia em cima das mesmíssimas discussões sobre salários e equipamentos, mas ninguém ousar tratar da questão doutrinária e de novos parâmetros para a educação e a formação dos militares brasileiros. Na Estratégia de Defesa Nacional, elaborada por Jobim e pelo ex-ministro de Assuntos Estratégicos Mangabeira Unger, em 2008, o tema é abordado, simplesmente, em um mísero parágrafo. A saber:
"As instituições de ensino das três Forças ampliarão nos seus currículos de formação militar disciplinas relativas a noções de Direito Constitucional e de Direitos Humanos, indispensáveis para consolidar a identificação das Forças Armadas com o povo brasileiro".
A polêmica sobre a possibilidade ou não de revisão da Lei de Anistia é um reflexo direto do descolamento quase que absoluto dos quartéis da chamada sociedade civil brasileira, que, a partir de 1985, cometeu o erro de relegar os militares a uma quarentena política aparentemente infindável, da qual eles só se arriscam a sair de quando em quando, mesmo assim, de forma envergonhada e, não raras vezes, desastrada. Basta dizer que, para reivindicar melhores salários, recorrem os nossos homens de farda às mulheres, normalmente, esposas de oficiais de baixa patente e de praças subalternos, a se lançarem em panelaços e acampamentos públicos a fim de sensibilizar os generais. Estes mesmos generais que se mostram tão irritados com a possibilidade de instalação, aliás, tardia em relação a toda América Latina, da Comissão Nacional da Verdade, prevista no Plano Nacional de Direitos Humanos.
Mas, afinal, por que se irritam os generais e, com eles, o ministro Nelson Jobim? Com a possibilidade de, finalmente, o Estado investigar e nomear um bando de animais que esfolaram, mutilaram, estupraram e assassinaram pessoas às custas do contribuinte? Por que diabos o Ministério da Defesa se coloca ao lado de uma escória com a qual sequer existe, hoje, em dia, uma mínima ligação geracional na caserna?
O Brasil precisa se livar da ditadura militar, mas não antes de dissecá-la e neutralizar-lhe as sementes. Os militares de hoje não podem ser obrigados a defender gente como o coronel Brilhante Ustra, o carniceiro do DOI-CODI de São Paulo, nem o capitão Wilson Machado, vítima mutilada pela própria bomba que pretendia explodir, em primeiro de maio de 1981, durante um show de música no Riocentro, onde milhares de pessoas comemoravam o Dia do Trabalho. Um Exército que dá guarida e, pior, se orgulha de gente assim não precisa de mais armamento. Precisa de ar puro.

- Extraído do blogue http://brasiliaeuvi.wordpress.com/ e aqui publicado com autorização do editor, sr. Leandro Fortes.

terça-feira, janeiro 05, 2010

TRIO




1) Num sábado de dezembro, à noite, estava vendo no canal Futura "O Grande Ditador", de Chaplin. Me impressionou, ainda, depois de tanto tempo que assistira ao filme pela última vez, a cena em que Hynkel (que é Hitler, personificado por Chaplin) faz malabarismos com o globo terrestre, até que este estoura nas suas mãos. É o grande momento do filme, maior mesmo do que o discurso no final, aí feito pelo barbeiro judeu, sósia de Hynkel. E grande, sobretudo, porque encerra um sentido profético (o filme é de 1940, quando a Segunda Guerra estava no início), ou seja, o de que Hitler podia "brincar" com o mundo, mas jamais o dominaria.
Mas, enquanto via "O Grande Ditador", me lembrei de que havia algo em comum entre aqueles dois homens tão diferentes: a mesma idade, com uma diferença de apenas 4 dias a separá-los. Hitler nasceu em 20 de abril de 1889, Chaplin em 16 de abril de 1889.

2) Era um apaixonado por futebol Dom Marcolino Dantas, Bispo de Natal e seu primeiro Arcebispo. Um amigo meu, que está pertinho dos noventa, me contou uma particularidade dessa paixão de Dom Marcolino. Domingo de manhã, ele via no jornal a escalação dos dois times que iriam se enfrentar à tarde - presumo que times do Rio. Pegava uma folha grande de papel e para este transpunha os nomes dos jogadores pertencentes a cada equipe. No desenrolar do jogo, folha na mão, acompanhava a narração do locutor. Fantasiava a sua presença no estádio, vendo a bola se movimentando entre os jogadores.

3) Ele não para. Faz um filme atrás do outro e quase sempre com qualidade. Viaja. Em novembro passado esteve no Brasil, para receber o título de Doutor Honoris Causa, que lhe foi outorgado pela Universidade Federal de Minas Gerais, onde fez uma palestra. Estamos falando do cineasta português Manoel de Oliveira, que, no dia 11 de dezembro passado, chegou aos 101 anos. 101 anos, é isso mesmo. No cinema, alguém pode ter atingido essa idade, até a superado (e não falo só dos que estão atrás da câmera), mas duvido que tivesse se mantido em atividade. Às vezes penso que esse bom velhinho vai morrer num set de filmagem. Uma forma de morrer que, certamente, seria a ideal para ele.

terça-feira, dezembro 29, 2009

MELHORES FILMES VISTOS E REVISTOS EM 2009

Um ato de reverência à morte: A Partida



Todos os filmes aqui citados foram vistos em DVD. É indispensável fazer a menção, porque pode causar estranheza a ausência de alguns filmes estreados este ano. (Acho que já disse que não tenho mais saco pra assistir filme em shoppings. Talvez seja o caso daquele tipo criado por Chico Anysio, que, desolado, dizia: "É, é a idade"...) Só "Os Falsários" foi visto em sala de cinema, no Espaço (ou Centro?) Cultural Dragão do Mar, de Fortaleza, mas não gostei o suficiente para incluí-lo entre os melhores do ano. Isso dito, passemos às duas listas, que estão em ordem preferencial.

FILMES INÉDITOS

-
A Partida (Yojiro Takita/2008)
- Verão Violento (Valerio Zurlini/1959)
- O Passo Suspenso da Cegonha (Theo Angelopoulos/1991)
- O Céu de Suely (Karim Ainouz/2006)
- A Marquesa d'O (Eric Rohmer/1976)
- Gaviões e Passarinhos (Pier Paolo Pasolini/1965)
- Dúvida (John Patrick Shanley/2008)
- A Troca (Clint Eastwood/2008)
- Sangue de Pantera (Jacques Torneur/1942)
- O Diabo Disse Não (Ernst Lubitsch/1943)


FILMES REVISTOS

-
Violência e Paixão (Luchino Visconti/1974)
- De Punhos Cerrados (Marco Bellocchio/1965)
- Vidas Secas (Nelson Pereira dos Santos/1963)
- A Embriaguez do Sucesso (Alexander Mackendrick/1957)
- Pickpocket (Robert Bresson/1959)
- Não Amarás (Krzysztof Kieslowski/1988)
- Pacto Sinistro (Alfred Hitchcock/1951)
- O Condenado (Carol Reed/1947)
- Ginger e Fred (Federico Fellini/1983)
- Bola de Fogo (Howard Hawks/1941)

terça-feira, dezembro 22, 2009

NATAL, PAPAI NOEL E ESPÍRITO NATALINO


Foto in : www. fotopg. com.br/



Ainda não terminara o mês de novembro e o meu neto de sete anos já havia escrito a carta ao Papai Noel, incluindo o pedido para o irmão mais novo, que ainda vai levar alguns anos para aprender a escrever. E eu fiquei pensando no dia em que lhe ocorrer a descoberta do mito do velho de vermelho e barba branca, que emite aquele ridículo som de ô, ô, ô, ô, que deve ser o primeiro golpe na inocência da criança. Outros lhe serão desferidos com o passar dos anos, à medida que a infância é deixada para trás, e ele, especialmente se for dotado de muita sensibilidade e consciência crítica, irá se confrontar com um mundo tão diferente daquele de quando era menino.
Imagino o meu neto daqui a alguns anos se deparando com a realidade do Natal. Um acontecimento que deveria ser um exemplo de amor entre as pessoas, mas amor de verdade, não esse amor de fachada, esse amor falso. O Natal transformado em um apelo intenso ao consumismo desenfreado, dirigido pela televisão para engordar ainda mais a conta bancária dos comerciantes e industriais.
E atrelado a essa febre de vendas dos shoppings, onde Papai Noel fica de plantão, vem esse tal de espírito natalino. Não vou ser injusto, não vou generalizar. Há pessoas que vivem de fato esse espírito de amor ao seu semelhante, de caridade (não apenas a prática da caridade de dar um dinheiro e ficar com a consciência tranquila), sim, existe gente assim. Existem até os que são tocados por esse espírito natalino durante todo o ano. Isso deveria ser a celebração do Natal, a sua essência de um evento religioso. Mas existem, e são a maioria, os hipócritas, os que estendem a mão ao outro, o abraçam, lhe desejam um Feliz Natal apenas cumprindo uma convenção social. (E entre esses, não poderiam faltar os políticos, que ocupam a tevê para levar a sua mensagem aos cidadãos.)
Trabalhei em banco por quase trinta anos e experimentei isso, convivi com isso. Os funcionários do mais alto grau de hierarquia, com umas poucas exceções, sabiam explorar bem o seu cargo no que se refere ao tratamento que dispensavam aos subalternos, ao relacionamento com eles, em especial àqueles no último grau de inferioridade profissional. Autoritários, grosseiros, o rei nas barrigas, como por um milagre, se "humanizavam" às vésperas do Natal. E aí saíam de seus postos para dar-lhes a mão e o abraço de tartufo. E para completar toda a "encenação", ainda promoviam um encontro de confraternização.
Pois é, Renan. Tudo isso você vai sentir quando for um homem maduro, e, então, vai ter saudade do tempo em que acreditava que o Papai Noel era um velho pródigo e generoso que lhe dava um presente a cada Natal.

terça-feira, dezembro 15, 2009

O BAÚ

Foto in Google




De uns meses já, vinha observando que a situação estava mudando. Apreensivo, sentia o Supremo Mandatário perder, gradativamente, a sua autoridade, embora a sua Guarda Policial se mantivesse ativa na repressão. E nas prisões aumentasse cada vez mais o número de contestadores. No entanto, as manifestações de protesto se sucediam: nas passeatas, nos jornais, nas realizações artísticas. Sentia que, mesmo entre os membros do Colegiado, havia vozes divergentes. Outro grave sintoma da crise por que estava passando o Regime: o líder do único Partido, responsável pela assunção ao poder do Supremo Mandatário, tinha repentinamente silenciado. Sua ausência nas últimas solenidades oficiais era motivo de especulações. O Grande Chefe (como era tratado pelos seus liderados) teria caído em desgraça e estaria fazendo companhia, na prisão, aos inimigos do Regime. Ou estaria refugiado no exterior, ao abrigo da justiça dos futuros detentores do poder.

Um belo dia o Regime caiu. Previu a queda, três dias antes. Despiu-se do uniforme do Partido, retirou da parede do quarto os retratos do Grande Chefe e do Supremo Mandatário, e, de sob a fronha, a bandeira do Partido, com que se cobria ao dormir. Atirou tudo num baú velho. Na madrugada, carregou o baú para o quintal da casa. Próximo a um limoeiro, cavou uma vala profunda, onde o enterrou. Num papel, demarcou o local. Dia seguinte fugiu para um outro país.

Durante o tempo que lá permaneceu, acompanhou atentamente a nova situação do seu país. Com ódio, mas com esperança. Esperou muito tempo, mas não em vão. Um dia, a situação voltou ao que era antes de sua fuga. O Grande Chefe fora de novo o responsável pela volta ao poder, não mais da pessoa do antigo Supremo Mandatário, que esse fora passado pelo fuzis, mas de um seu filho. Quando regressou, sua primeira providência foi ir ao quintal, munido do papel que conservara em seu poder. Desenterrou o baú e abriu-o ali mesmo: tudo intacto. No mesmo dia mandou lavar e passar o uniforme e a bandeira. Limpou carinhosamente os retratos. Uniformizado e conduzindo em cada mão um retrato, saiu às ruas para comemorar a vitória. Ao voltar para casa, pendurou os retratos na parede e despiu o uniforme, que guardou. Depois foi dormir, enrolado com a bandeira, como não fazia há muitos anos.


NATAL (1977)


- Extraído do meu livro de contos Não Enterrarei os Meus Mortos (1980).

terça-feira, dezembro 08, 2009

MÚSICAS E LEMBRANÇAS



Já contei aqui o fato. No lançamento do livro de um autor local havia a presença de um violonista. Na fila de autógrafos uma senhora acompanhada do marido, ambos nos seus presumíveis sessenta e poucos anos. Quando o músico começou a tocar "Velho Realejo", valsa de Custódio Mesquita e Sady Cabral, gravada por Sílvio Caldas, ela, incontinenti, deixou a fila, foi até ele e lhe pediu que não tocasse a música. O homem a atendeu e ela voltou para o seu lugar. É evidente que aquela música não lhe trazia uma boa recordação. Qualquer que fosse a recordação, só o marido deve saber.
Acontece com todos nós lembranças relacionadas com algumas músicas. Na maioria dos casos, trata-se de boas lembranças, mas há as dolorosas, como se dá com aquela senhora. Inúmeras delas que compõem os meus CDs me trazem lembranças, sempre que as ouço, da minha infância, as quais pertenciam ao acervo do serviço de alto-falante da minha cidade e do Cine Canindé. A discoteca do cinema era pequena e não se renovava, assim as mesmas músicas eram tocadas todas as noites em que havia sessão.
Mas se uma música pode proporcionar uma lembrança doce, ou amarga, pode também trazer à tona um momento engraçado, para quem a ouve. No meu caso, por exemplo, das músicas que fizeram parte da minha infância, duas me transportam a dois momentos divertidos, sempre que as ponho para tocar. Uma é "Respeita Januário", de Luiz Gonzaga. É impossível não deixar de sorrir no trecho da letra que diz "Luiz, respeita os oito baixos do teu pai", pois ele me faz lembrar da minha mãe (uma grande fã do cantor e compositor pernambucano), que, nas suas primeiras audições da música, em vez de "oito baixos", entendia "sovaco": "Luiz, respeita o sovaco do teu pai".
Já o bolero "Malagueña", faz-me ver, como se num filme, três de meus irmãos, já rapazes, cantando-o naquela língua que não conhecia, mas parecida com o português, como se formassem um trio - um trio, é bom dizer, sem o mínimo talento vocal para seguir a carreira artística. Estranhava especificamente a frase "que bonitos ojos tienes", por causa da palavra "ojos", que eu entendia como "ovos". Com meus oito, nove anos, já sabia que ela era usada como sinônimo de testículo. Então, eu ficava sem entender como podiam ser bonitos os testículos de alguém.

terça-feira, dezembro 01, 2009

15 FILMES DE GRANDE FINAL (2) *



... ó Carlito, meu e nosso amigo, teus sapatos e teu bigode
caminham numa estrada de pó e esperança.

Carlos Drummond de Andrade
("Canto ao Homem do Povo Charlie Chaplin")



- Hiroshima, Meu Amor (Alain Resnais)
- Casablanca (Michael Curtiz)
- Depois do Vendaval (John Ford)
- Um Rosto na Noite ** (Luchino Visconti)
- Tempos Modernos (Charles Chaplin)
- Zorba, o Grego (Michael Cacoyannis)
- A Estrada da Vida (Federico Fellini)
- Segredo das Jóias (John Huston)
- O Céu de Suely (Karim Arnouz)
- Doutor Fantástico (Stanley Kubrick)
- O Terceiro Homem (Carol Reed)
- Fahrenheit 451 (François Truffaut)
- A Carruagem de Ouro (Jean Renoir)
- História Real (David Lynch)
- Pai e Filha (Yasujiro Ozu)

* Ordem não preferencial.
** No lançamento em DVD, o filme tem o título de "Noites Brancas".

terça-feira, novembro 24, 2009

LIVRARIA UNIVERSITÁRIA



Dentre as boas lembranças que guardo dos meus primeiros anos de Natal está a Livraria Universitária. Era lá nas manhãs de sábado, depois das nove horas, que me encontrava com os amigos e conhecidos de perto, entre eles alguns colegas do Cineclube Tirol. Mas deixem-me abrir um breve parêntese: esses encontros só começaram quando a sessão do Cinema de Arte, promovido pelo Cineclube Tirol, que ocorria aos sábados de manhã, foi transferida para o domingo, ainda em 1965, se a memória não estiver me pregando uma peça. Parêntese fechado, volto ao assunto. Ficávamos na calçada da livraria, conversando sobre cinema, principalmente, literatura, futebol, MPB e o que desse na telha de cada um. Política era um assunto perigoso pelo momento em que vivíamos, mas, tomando precauções, também falávamos sobre ela. Enquanto conversávamos, víamos chegar algum literato já respeitado, que entrava e ia ver os livros novos. E não deixávamos de apreciar a passagem de alguma moça que chamasse a atenção pelo corpo bem feito. Vinha, às vezes, acompanhada de outra, que merecia, ou não, o mesmo interesse. Permanecíamos até pelas onze horas, quando alguns de nós iam à procura de um bar para prolongar o papo, mamando uma geladíssima cerveja.

A Livraria Universitária reinou absoluta em Natal até meados dos anos 1980. Por aí. Instalada em 1959, conforme informação do escritor e pesquisador Anchieta Fernandes, foi, portanto, durante mais de vinte anos, não só uma forma de referência para os literatos e intelectuais da cidade, mas também um ponto de encontro entre eles. Lá, na livraria de Seu Walter Pereira, um comerciante que sabia ser um gentleman, era o local escolhido pelos escritores para lançarem os seus livros, sempre aos sábados de manhã. Com discursos do apresentador do autor e deste. Até eu, que tenho pavor de falar em público, tive que dizer algumas palavras, decoradas nos dias que antecederam o lançamento do meu segundo livro, "A Noite Mágica". Era o costume da época, felizmente abolido. No entanto, naqueles anos sessenta e até os oitenta publicavam-se poucos livros em Natal. Hoje, a cada semana se fazem dois, três lançamentos. Em um mês vêm à luz bem mais livros do que em um ano inteiro daqueles tempos.

"Rabisco" estas linhas tendo perto de mim os dois volumes da "História do Cinema Mundial", de Georges Sadoul. As páginas amarelecidas e manchadas pelo tempo, mas bem viva e legível na primeira página a letra do meu nome e da data da compra: 31 de julho de 1965. O primeiro livro adquirido na Livraria Universitária. Em um sábado, por coincidência, no dia seguinte à minha chegada a Natal. Ele serve como testemunha de um local que não existe mais (não sei em que a livraria de Seu Walter se transformou, nem se o imóvel ainda pertence aos seus herdeiros) e que me traz saudades. Mas não é assim na vida? Tudo tem o seu fim.

terça-feira, novembro 17, 2009

RAPIDINHAS (2)

Foto da cidade de Copenhague. Em Google




- Um conhecido meu é muito apegado a certas coisas. Apegou-se tanto a um dinheiro que lhe emprestrei há décadas, que até hoje não o devolveu.

- "O elevador é o único transporte gratuito e igualitário da cidade". (Aníbal Machado, no conto "O Ascensorista").

- O cantor Cyro Monteiro estava no velório do compositor Geraldo Pereira (*). Eis que chega um crioulinho, vestido modesta mas decentemente, vai até ao caixão, examina rapidamente o cadáver e faz aquele indefectível movimento de cabeça. Em seguida se dirige a Cyro e lhe diz: "Seu Cyro, que coincidência"! O cantor olha, espantado, para ele, sem entender o motivo daquela "coincidência". Na verdade, o que o crioulinho queria dizer era "catástrofe".

- "Parapeito é aquilo que quando a pessoa senta nele, muda de nome". (Millor Fernandes).

- Um humorista americano (não lembro o nome), apreciador de um copo, ia deixando o restaurante e ordenou para um senhor que entrava, que, pela indumentária, julgou ser o porteiro: "Me arranje um táxi". Empertigado, o homem respondeu enfático que era um almirante. Aí o humorista emendou": "Então, me arranje um navio".

- Final de uma conversa entre dois homens, em um ônibus.
"Por tudo isso que lhe disse, não devo mesmo amá-la"
"Então, não pague".

- Com a cobertura maciça que as tevês brasileiras deram a Copenhague, onde foi realizada a escolha para a sede dos Jogos Olímpicos de 2016, é possível que os responsáveis por um dicionário geográfico, que consultei numa livraria, tenham aprendido que é ela a capital da Dinamarca. E não Oslo, como lá está.

- A respeito dessa bobagem de politicamente correto, um amigo criou esta expressão para designar o corno: "Terceirizador de serviços conjugais.

- Contam que quando foi lançado "Sansão e Dalila", de Cecil B. de Mille, Groucho Marx disse que não iria ver um filme em que Sansão (Victor Mature) tinha os peitos maiores do que Dalila (Hedy Lamarr).

- Quando se começou a falar na possibilidade de as mulheres apitarem jogos de futebol, um jornal de Natal fez uma matéria com várias pessoas ligadas a esse esporte. Entre elas, o irreverente João Machado, presidente da FNF (Federação Norte-Rio-Grandense de Futebo), que se disse favorável à ideia, porque, nessa coisa de regra, quem entende mesmo é a mulher.


(*) Geraldo Pereira compôs, entre vários sambas de sucesso, "Falsa Baiana", gravado pela primeira vez pelo próprio Cyro. Foi assassinado pelo famoso homossexual conhecido por Madame Satã.