domingo, junho 27, 2010

O CINEMA E EU

Virginia Mayo (1920-2005), um
dos meus amores cinematográficos.



Eu assistia, no cinemazinho da minha cidade, aos faroestes de Durango Kid, Johnny Mac Brown, Roy Rogers, Rocky Lane, Bill Elliott, entre outros. Eu assistia aos seriados, e por uma semana ficava roendo as unhas à espera do próximo episódio, para saber como o mocinho iria se livrar do perigo. Eu assistia a Jim das Selvas, com o ex-Tarzan Johnny Weissmuller, que substituíra a quase nudez por um silaque. Uma vez ou outra passava um filme romântico, que os meninos chamávamos de "filmes de amor" e os detestávamos, saindo no meio da sessão. Eu assistia, eu assistia...
Chegou a adolescência e fui estudar na capital. Muitas salas de cinema. Nelas a descoberta de outras espécies de filmes. E também de outros atores: Burt Lancaster, Kirk Douglas, James Mason (que elegi o meu ator preferido), Gregory Peck, William Holden, Marlon Brando, Paul Newman e outros, muitos outros. E, sobretudo, a de belas atrizes: Ava Gardner, Virginia Mayo, Audrey Hepburn, Sophia Loren, Brigitte Bardot, Jean Simmons, Claire Bloom, Maureen O'Hara, entre tantas. Algumas amei para sempre e quando uma delas se foi, eu senti a sua perda como a de uma pessoa muito íntima.
Eu era um adolescente que babava, feito uma criancinha, vendo a maioria daqueles filmes, daqueles atores, daquelas atrizes. Com o passar dos anos, no contato com pessoas mais velhas, lendo no jornal críticas sobre filmes, percebi que estes eram feitos não só para a busca do lado lúdico do espectador, nem para explorar-lhe o sentimentalismo. Não, havia um tipo de filme engajado na visão crítica da vida, das pessoas e dos seus sentimentos - um cinema de ideias, como dizia Fellini; e paralelamente a esse conteúdo, havia a preocupação pela forma de narrá-lo, em oposição à dos filmes que tinham a bilheteria como único objetivo. (Verdade que, como me dei conta depois, e isso ocorria sobretudo no cinema americano daqueles tempos, havia filmes que conseguiam conciliar o gosto da crítica e do espectador comum, embora por motivos diferentes.)
Minha visão crítica evoluiu com a minha vinda para Natal, no convívio com alguns sócios do Cineclube Tirol, ao qual me filiei. Também me iniciei na leitura de livros sobre cinema e prossegui na leitura dos grandes críticos dos anos 1960 que escreviam nos jornais do Rio.
Mas ainda vejo (hoje nessa grande invenção que é o DVD) alguns daqueles filmes da minha fase de adolescente. E não deixo de me lembrar das sessões do Cine Canindé. Foi lá que começou o meu amor pelo cinema.

sábado, junho 19, 2010

UM TEXTO DE JOSÉ SARAMAGO

O escritor português, ganhador do Prêmio Nobel, que
faleceu na última sexta, aos 87 anos. Abaixo o artigo que
ele publicou, em l8.05.09, no saite http:://caderno.josesaramago.org/



Charlot


Numa destas últimas noites vi na televisão alguns filmes antigos de Chaplin, a saber, dois ou três episódios nas trincheiras da primeira guerra mundial e um filme mais extenso, "The Pilgrim", que retoma, com menos felicidade que noutros casos, o tema recorrente de um Chaplin sem culpas procurado pela polícia. Não sorri nem uma única vez. Surpreendido comigo mesmo, como se tivesse faltado a uma jura solene, dei-me ao trabalho de tentar recordar, tanto quanto me seria possível oitenta anos depois, que risos, que gargalhadas me terá feito soltar Chaplin nos dois cinemas populares de Lisboa que frequentava quando tinha seis ou sete anos. Não recordei grande coisa. Os meus ídolos nessa época eram dois cômicos suecos, Pat e Patachon, que esses, sim, eram, para mim, autênticos campeões da gargalhada.
Continuando a reflectir com os meus botões, sempre bons conselheiros porque em princípio não mudam de casa nem de opinião, cheguei à inesperada conclusão de que Chaplin, afinal, não é um cômico, mas um trágico. Repare-se como tudo é triste, como tudo é melancólico nos seus filmes. A própria máscara chaplinesca, toda ela em branco e negro, pele de gesso, sobrancelhas, bigode, olhos como pingos de alcatrão, é uma máscara que em nada destoaria ao lado das representações plásticas do actor trágico. E há mais. O sorriso de Chaplin não é um sorriso feliz, pelo contrário, aventuro-me a dizer, sabendo ao que me arrisco, que é tão inquietante que ficaria bem na boca de qualquer drácula.
Se eu fosse mulher, fugiria de um homem que me sorrise assim. Aqueles incisivos, demasiado grandes, demasiado regulares, demasiado brancos, assustam. São um esgar no enquadramento rígido dos lábios. Sei de antemão que pouquíssimos vão estar de acordo comigo. O caso é que, uma vez decidido que Chaplin é um actor cômico, ninguém lhe olha para a cara. Creiam no que lhes digo. Olhem-no de frente sem ideias feitas, observem aquelas feições uma por uma, esqueçam por um momento a dança dos pezinhos {sic}, e digam-me depois o que viram. Chaplin levaria todos os seus filmes a chorar se pudesse.

domingo, junho 13, 2010

É A VIDA, É A VIDA

Foto : Google


Eu os via toda semana num supermercado, empurrando o carrinho, ou de mãos dadas enquanto caminhavam para fazer as compras. Ele muito gordo, estatura mediana, o rosto sisudo que não irradiava simpatia, que parecia se acentuar pelo uso de óculos. Ela nem magra, nem gorda, mais alta do que ele, e, se a boca não estivesse sempre pronta para o riso, não tinha a expressão fechada do marido. Não formavam um casal bonito, mesmo, presumo, de quando jovens, mas a mulher, apesar da passagem dos anos, conservara o porte esbelto ao andar e uma certa elegância, que faltavam a ele. Caminhavam conversando em voz baixa e nunca percebi, mesmo discretamente, que estivessem discutindo por qualquer coisa.
E um dia o vi sozinho. Supus que ela ficara em casa, presa por alguma doença sem gravidade - uma gripe, ou um simples resfriado. Mas já estranhei quando na outra semana ele de novo apareceu sem a companhia da mulher. E assim se sucedeu pelas semanas seguintes.
Um dia, conversando com a minha mulher, soube que a senhora estava sofrendo do Mal de Alzheimer. E aqui preciso dizer que eles moram na rua que passa ao lado da minha. Pela janela do meu quarto muitas vezes vi o homem no portão da casa, barrigão nu, sozinho, ou conversando com alguém. Em diversas ocasiões vi o carro deles entrando ou saindo de casa. Em sua caminhada diária, minha mulher passa em frente da casa deles e quase sempre encontrava a empregada que lhes servia há anos sem conta. Dos cumprimentos iniciais passaram a ter um contato, pois a minha mulher cultiva muito bem a prática da conversa. Foi, portanto, através da empregada, que ela soube da enfermidade da senhora.
E então eu continuei a ver o homem solitário no supermercado, me parecendo ainda mais carrancudo. E, de repente, também ele deixou de aparecer. E pela minha mulher soube que ele estava muito doente (não me lembro de quê), foi internado e lá mesmo no hospital morreu.
E o que vejo hoje em dia da janela do meu quarto? A senhora, que via sempre ao lado do marido, andando com uma certa desenvoltura para a idade, só caminha um trecho da calçada de sua casa se amparada por uma enfermeira. E ontem a vi empurrada numa cadeira de rodas, ela que empurrava, sem dificuldade, o carrinho de compras. Não conhece os filhos, não conhece a velha empregada. Nem tem ideia de que o companheiro de quase toda uma vida partiu para sempre.

domingo, junho 06, 2010

15 FILMES COM UM GRANDE INÍCIO (2) *


O relógio sem ponteiros: uma das imagens do sonho do
velho professor, nos primeiros minutos de "Morangos
Silvestres".




- Laura (Otto Preminger)
- Morangos Silvestres (Ingmar Bergman)
- Matar ou Morrer (Fred Zinnemann)
- Hannah e Suas Irmãs (Woody Allen)
- Amarcord (Federico Fellini)
- Onde Começa o Inferno (Howard Hawks)
- Luzes da Cidade (Charles Chaplin)
- Festim Diabólico (Alfred Hitchcock)
- Eva (Joseph Losey)
- O Homem dos Olhos Frios (Anthony Mann)
- O Homem que Sabia Demais (Hitchcock)
- Manhattan (Allen)
- Domínio de Bárbaros (John Ford)
- Atlantic City (Louis Malle)
- O Trem (John Frankenheimer)

* Sem ordem preferencial.

domingo, maio 23, 2010

UMA MÚSICA PARA DOIS




Ela imediatamente se virou para o piano, quando soaram os primeiros acordes da música. Por um minuto, mais ou menos, permaneceu com o olhar enfocado no piano, depois voltou à posição inicial. Voltou também ao prato, que abandonara por aquele breve tempo. Ela também interrompera a conversa com o homem que a acompanhava. Parecia estar toda concentrada na música. E o homem, que devia ser o marido, pareceu respeitar o silêncio dela, pois não ousou lhe dizer uma só palavra até que a música parasse. E eu que não prestara atenção naquela mulher, que já almoçava quando eu me sentara à mesa, fui, de repente, tomado por uma junção de curiosidade e interesse por ela, a partir do momento em que a sua atenção foi despertada pela música. E o meu olhar se deteve naquele rosto, na tentativa de nele descobrir, por trás dos óculos e em meio a algumas rugas, a jovem que conheci há anos sem conta.
E por que foi a música que, ao envolver a mulher daquela maneira, me fez sentir um interesse súbito por ela? Antes preciso fazer uma revelação. Frequentava diariamente aquele centenário restaurante, com exceção dos sábados e domingos, desde que retornara à minha cidade após uma prolongada ausência por força da minha profissão. Por um mês, talvez nem isso, solicitei a música ao pianista. Decorrido esse tempo, certamente percebendo que me tornara um cliente habitual, ele passou a executá-la com a dispensa do meu pedido, pouco depois que ocupava a mesa reservada para mim.
E naquele dia, ao ouvi-la, e vendo aquela senhora partilhar da minha preferência pela música, me lembrei, de imediato, da jovem com quem tive um namoro mais ou menos duradouro. Ela, a garota, ela, a música, nunca saíram da minha mente em todos esses anos. Os dois a ouvimos no mesmo dia em que iniciamos o namoro.
Tínhamos ido ao Rex, na matinê dos domingos, assistir Suplício de Uma Saudade. Hoje não tenho mais saco pra encarar aquele melodrama, desde que o revi há uns dez anos; mas naquela tarde, ao lado de Loretta, emocionei-me com o romance entre William Holden e Jennifer Jones, tanto quanto a minha primeira namorada, embora, diferentemente dela, consegui resistir às lágrimas quando o filme terminou. Mas talvez como uma lembrança do nosso amor, iniciado com o filme, se não tenho mais disposição para vê-lo, continuo a gostar de sua música.
Parece que agora estou ouvindo Loretta cantar, a boca chiusa, trechos de Love is a many splendored thing, sentados num banco de uma pracinha, a mesma onde sempre nos encontrávamos: às vezes, assobiando-a. E depois cantando em português, quando foi lançada a versão em nosso idioma.
Mesmo depois de encerrada a execução de Love is a many splendored thing, ela permanecera calada, só falando para responder a alguma pergunta ao marido. Umas três ou quatro perguntas, que presumi que tinham a ver com a atitude da esposa.
Eu começara a refeição e só desviava a atenção da mulher quando baixava os olhos para o prato. Em uma dada ocasião, uma só vez, ela, ao se virar, como que se deu conta da minha presença, mas o olhar que me endereçou teve a duração de um flash. Pouco depois o marido se levantou para ir ao banheiro. Passou bem perto de mim e pude verificar que era bem mais velho do que supunha ao vê-lo da minha mesa. Observei-o informar-se do garçom sobre o banheiro e me lembrei da primeira vez que precisei usá-lo. Em vez do usual "Homens", ou "Cavalheiros", o banheiro masculino daquele restaurante exibe um retrato, numa pequena moldura oval, de um senhor de uma época antiga, vestido de paletó e usando um grosso bigode. Já no das mulheres há um retrato de uma senhora também de outros tempos e com o mesmo tipo de moldura.
Continuei com os olhos atentos na mulher, à espera de que a qualquer momento ela virasse o rosto para mim e, dessa vez, me fitasse. E num breve momento acreditei nessa possibilidade. Foi quando um pequenino pássaro surgiu, de forma inesperada, sem ninguém atinar em como tinha entrado ali. A avezinha ficou passeando por aquele pequeno espaço do salão, chamando a atenção de todos que estavam por perto. Até que um garçom se dispôs a apanhá-la, só o conseguindo depois de algum tempo. Os movimentos do homem, a corridinha em perseguição ao pássaro, que fugia ao pressentir a proximidade do homem, provocaram risos nas pessoas, inclusive nela. E o seu riso, a forma, me fizeram, num estalo, lembrar o de alguma pessoa. Não me era estranho aquele riso. Podia não ser o da jovem que namorei, mas de outra mulher que passara pela minha vida. Talvez até o de um amigo de um passado remoto. Impossível identificar. De todo modo, conhecia aquele riso. Foi quando acreditei que ela se virasse para mim, concedendo-me, além do olhar, um sorriso, como alguns presentes o fizera. Nada. A mulher não alterou a posição de todo o tempo enquanto permaneceu à mesa, com exceção da vez em que a música começou a tocar.
Mas a esperança (não dizem?) é a última que morre, e me vali dela para que, ao se levantar para ir embora, a mulher de novo me presenteasse com um olhar, ainda que rápido como uma piscadela. Nem isso. Ergueu-se e deixou a mesa pelo lado oposto ao em que me encontrava. Ao se afastar, atrás do marido, pude notar que era um pouco corcunda.

domingo, maio 16, 2010

PRESENÇA DE ESPÍRITO


Um irmão meu e o papai conversavam na antessala da nossa casa, quando surgiu na calçada uma amiga do meu irmão, Eliete, que vinha de uma visita a alguém que morava na nossa rua. Parou, falou alegremente com os dois, que se levantaram e foram ao encontro dela. Conversaram rapidamente, a moça estava com pressa, nem pôde atender ao convite para sentar um pouco. Quando ela já se despedia, o meu irmão se lembrou de um compromisso que assumira de comparecer a um evento, da qual a amiga participara, e disse, como se desculpando: "era para eu estar lá". Ao que ela disse, em cima da bucha, " mas não estalou". O papai soltou uma risada. E pelos anos a fora repetiu o fato, sempre revelando admiração pela presença de espírito de Eliete.
Há pessoas agraciadas com esse dom, que não tenho. Só muito raramente me acontece replicar algo que um amigo, ou um conhecido, diz de mim na presença de outras pessoas. Muito tempo depois é que me ocorre ter dado a resposta, mas aí Inês já está enterrada. A cantora Aracy de Almeida pertencia a essa categoria. Contam-se algumas histórias a respeito dessa sua presença de espírito, exposta, muitas vezes, de forma mal humorada. Gosto muito de uma dessas histórias. Aracy ia viajar para um compromisso profissional, se não me engano, para São Paulo. No aeroporto, de repente, desistiu da viagem e disse ao amigo, que a acompanharia, que estava com o pressentimento de que o avião iria cair. O amigo procurou dissuadi-la de que não ia acontecer nada de mau no voo, não havia razão pra ela se preoucupar. Aracy se manteve firme na decisão, até que o acompanhante, como último argumento, soltou esta: "Ora, Aracy, pode não ser hoje o dia de você morrer". E Aracy: "É, mas pode ser o dia do piloto".
Há uma de um humorista americano famoso. Não me lembro do nome dele. Estava jantando num restaurante em Nova York. Terminada e paga a refeição, ele se levanta e caminha para a saída. Estava um tanto triscado, pois apreciava um mé. Ao chegar à porta, com a vista prejudicada pela bebida, confundiu o traje de um cliente, que entrava, com o do porteiro. "Me arranje um táxi", ordenou ao homem. Este parou, olhou para o humorista com um ar superior e disse: "Senhor, eu sou um almirante". Resposta do humorista: "Então, me arranje um navio". Pano extremamete rápido, como dizia Millor "Vão Gogo" Fernandes" nos tempos da revista O Cruzeiro.

domingo, maio 09, 2010

MINHA MÃE



Fumando cachimbo
Pintando o cabelo
Pedalando na Singer

A missa diária
O terço noturno
(os joelhos tinham as marcas das rezas)
A cadeira de noite na calçada

O mesmo mel comendo
Os mesmos benditos entoando
O mesmo livro lendo

Batendo boca com meu pai.


NENÉM

Mãe, te chamavam de Neném
E hoje percebo que era teu nome real
Porque neném nunca deixaste de ser.



domingo, maio 02, 2010

A MEMÓRIA E SEUS MISTÉRIOS

Quadro " Persistência da Memória", de Salvador Dali.
Fonte: Google



A memória tem seus mistérios. Como explicar que, de repente, aflora em alguém a lembrança de algo que parecia estar inteiramente esquecido? Uma música que você ouvia na infância, no rádio, ou na amplificadora de sua cidade, e que, com a passagem dos anos, não mais a ouviu; uma pessoa, que se não foi sua amiga (às vezes até por uma grande diferença de idades), mas de todo modo fez parte da sua vida, de quem você não se lembra mais, e, como num piscar de olhos, "reaparece". Em relação a essas pessoas, a lembrança inesperada vem acompanhada de uma situação vivida por você e ela, quando não por uma palavra, ou uma expressão, usadas por ela, como se fossem um distintivo da sua personalidade. Assim como alguém carrega no rosto, ou em outra parte do corpo, a cicatriz de um acidente sofrido na infância, ou a de uma antiga cirurgia.
Uma manhã dessas, deitado, naquele estado em que um restinho de sono insiste em prender-nos à cama, lá dos escaninhos da memória assomou a figura de um colega já falecido. E "ouvi" a sua expressão: "É um arrombado". Ele era do Ceará, como eu, e no nosso Estado, a palavra tem a conotação de alguém que conseguiu algo importante, ou que é um sortudo. Minha mulher, também daquelas bandas, quando sabe que uma pessoa conhecida arranjou um bom emprego, ou melhorou de condição financeira, nunca deixa de dizer que "fulano (ou fulana) arrombou".
Já outro dia, também ainda não de todo desperto (curioso que essas lembranças geralmente ocorram nessa hora do dia), quem me surgiu foi aquela enfermeira. Talvez a lembrança inesperada daquela mulher tenha tido a ver com a necessidade de uma pequena cirurgia que terei que fazer. Estava com seis meses de casado quando tive que retirar as amígdalas. Enquanto aguardava a entrada para a sala de operações, ela apareceu. Vinha, parece, para avisar que o cirurgião não demoraria a chegar. E, ao invés de se retirar, ficou ali. E começou a conversar comigo. Conversas que nada tinham a ver com a operação. Até onde me lembro, tinha uma voz serena e suave. Não era nem bonita, nem feia. E a nossa conversa se desenvolveu, sem pausas, até o momento de eu ir para a outra sala. É possível que ela adotasse esse procedimento com todo paciente. É possível. Ou orientada, ou por espontânea vontade. Mas naquele momento, em que estava tenso pela primeira vez em que ia entrar na faca, isso em nada me importou, como continuo a não me importar, agora que, quase 40 anos decorridos, me lembrei daquela doce mulher que tinha o dom de passar tranquilidade. E nunca mais, em outras cirurgias a que tive de me submeter, encontrei outra enfermeira que agisse daquela maneira.
Minha memória, que você continue a me fazer essas surpresas. Mas, por favor, só as que tragam lembranças boas. As amargas, não, como diz o título do livro de memórias de Álvaro Moreyra.

domingo, abril 25, 2010

"As Corujas" - Conto de Moreira Campos (*)



Ele conversa muito consigo mesmo, repete-se, os olhos no chão e metido no dólmã de brim listrado, os pés redondos nas alpercatas. Resmunga, insistente. Fecha as janelas do velho necrotério. Apanha os pedaços de lona e, com eles, cobre os mortos sobre a lousa. Deixa-lhes apenas os pés de fora. A mulher sem chinelas, com sangue coagulado entre os dedos abertos; as grandes botas gastas e de cadarços do alemão andarilho, que amanheceu morto no oitão do armazém da praia, onde se alojara: o enorme saco e o livro de impressões, folheado por muitos dedos, foram recolhidos à delegacia. É preciso cobrir os mortos, proteger-lhes as cabeças. As corujas descem pela clarabóia. Têm voo brando, impressentido, num cair de asas leves, como num sopro de morte. De repente, dá-se conta de sua presença, das asas de pluma sem ruído. Alteiam-se e pousam sobre o peito dos mortos, arranhando-lhes os olhos parados, que fulgem na noite, divididos no meio.
- Xô, praga!
Os pedaços de lona ficam dobrados a um canto da sala escura, e ele os puxa sempre, curtos, deixando à mostra os pés inertes. Indispensável fazê-lo; depois fechar a luz triste da lâmpada, que desce pelo fio longo com teias de aranha. O facho da lâmpada de pilhas ainda percorre o teto de travejamento antigo. Crescem e oscilam as sombras: as botas de cadarço do alemão contra a parede - umas botas de muitas viagens. As corujas rasgam mortalha a noite toda na copa das altas árvores do terreno. O facho de luz tenta a densidade das folhas, corre cinzentos telhados, passa pela torre da capela, detém, ao longe, na janela de vidro do nosocômio. Em qualquer parte, na noite, estarão as corujas. Elas rasgam mortalha, agourentas, cortam o silêncio, sacudindo a vigília dos doentes. Recolhem-se, de dia, ao sótão da capela, onde pegam os ratos, que guincham nas suas garras. Necessário subir ao sótão, desfazer-lhes os ninhos. Falará com Irmã Jacinta, diretora do nosocômio, quando ela vier para a ala dos indigentes, ativa, tilintando as chaves no bolso do hábito. Ela mandará que Antero, jardineiro, trepe ao sótão. Ele é moço e divertido. Torcerá o pescoço das corujas, com os cabelos cheios de teia de aranha, e as atirará ao pátio do alto da torre, pilheriando com as enfermeiras. É preciso exterminar as malditas, que rasgam mortalha na noite, enquanto o facho de luz as procura na sombra densa das árvores:
- Xô, praga!
Resmunga, conversa sozinho, repete-se. Torna a experimentar as trancas das janelas, teima em ajeitar os pedaços de lona, que modelam saliências rígidas. O pedaço de lono do alemão ficou curto como uma camisa: têm presença apenas as botas. Resmunga. Se pudesse, ele próprio poria uma teia de arame na clarabóia. Já falou a Dr. Joca, que ele trata por você, porque foram criados juntos, e um xinga o outro. O bisturi do Joca corta sem pressa, profissionalmente. Luvas ensaguentadas, bigode branco amarelecido pelo fumo, ele apanha o cigarro com a boca no cinzeiro sobre o peitoril da janela. Secciona pedaços:
- Leva o balde.
O velho o recolhe, e conversa consigo mesmo, o corpo atarracado mal contido no dólmã de mescla.
Quando o homem que chegou do interior e se hospedou no quarto da pensão veio fazer velório ao corpo descarnado do filho, ele lhe deu a lâmpada de pilhas e o advertiu para as corujas. Elas desciam pela clarabóia, mesmo com a luz da lâmpada. Era preciso manter as velas acesas nos castiçais. Só assim as desgraçadas não vinham: temiam queimar as asas nas chamas. Ficavam rasgando mortalha no alto das velhas árvores ou na torre da capela. Sem a presença das velas, elas surgem sempre, impressentidas, como num sopro de mort: alteiam-se leves, pousam sobre o peito dos mortos e com o bico arranham-lhes os olhos, que fulgem parados e indefesos na noite.

(*) O cearense José Maria MOREIRA CAMPOS (1914-1994) é considerado um dos melhores contistas brasileiros. Alguns de seus contos estão traduzidos para o inglês, o francês, o italiano, o espanhol e o alemão. Publicou sete livros de contos: Vidas Marginais (1949), Portas Fechadas (1957), As Vozes do Morto (1963), O Puxador de Terço (1969), Os Doze Parafusos (1978), A Grande Mosca no Copo de Leite (1985) e Dizem que os Cães Veem Coisas (1987). E o livro de poesia, Momentos, de 1976.

- Este conto faz parte da coletânea Contos Escolhidos de Moreira Campos, edição da Imprensa Universitária da Universidade Federal do Ceará, 1971.



domingo, abril 18, 2010

CINE CANINDÉ

Foto de uma sessão do Cine Canindé.
Fonte: kanindecultural.jmdo.com/



Ficava na praça da Basílica (o nome legítimo da praça não lembro, mas era por essa denominação que ela era conhecida). Do lado esquerdo, a duas casas da esquina, onde ficava o bar do Seu Zuil, administrado pelo irmão Nenen. Cine Canindé. Ali começou o meu amor pelo cinema, vendo seriados, banguebangues, Jim das Selvas (com o ex-Tarzan Johnny Weissmuller) e outros gêneros de filme. E me deparei, nas sessões de quarta (ou quinta), sábado e domingo com alguns espectadores curiosos. Uns chatos, como aquele que via o filme lendo as legendas em voz audível , nem sempre usando a pronúncia certa das palavras, como quando dizia dolares. Havia a senhora que morava na casa vizinha e entrava no cinema com o soar do gongo, conduzindo uma cadeira. Alguns que sempre ocupavam a mesma cadeira. E vez por outra um menino tinha visto o filme em Fortaleza, e, ao revê-lo no nosso cinemazinho (provavelmente como uma forma de gabolice por ter conhecido um cinema da capital), antecipava o que ia acontecer numa cena.
Nos créditos da maioria dos filmes aparecia o nome de João Branco, como o responsável pelas legendas. Esse nome era uma garantia para os meninos da boa qualidade do filme. Ah, a ingenuidade, a inocência infantis que os adultos perdem e, por vezes, lhes fazem tanta falta!
A figura mais curiosa, no entanto, do Cine Canindé era o seu proprietário, César Campos. O homem mais rico da cidade. Além do cinema, possuía a melhor loja de Canindé, um posto de gasolina, um bar-restaurante, fazenda, imóveis. Antes de começar a sessão, ficava na escada que dava acesso à sala de projeção. Sozinho, olhando para frente, talvez pensando em negócios. Numa hora invariável da manhã, vinha caminhando da loja até sua casa, que ficava depois da nossa, para almoçar. Caminhava pelo meio da rua, sem cumprimentar ninguém. Talvez um ou outro conhecido, com um leve balançar de cabeça. As pessoas o tinham por orgulhoso, mas hoje creio que não o era. Esquisitão, sim. Ou tímido.
Sua parca comunicabilidade causou, nos primeiros tempos de casado, um sério incômodo em Dona Julinha. Ela chegou a se queixar a um irmão e sócio de César na loja, pedindo-lhe ajuda. (Chico Campos era um antípoda de César. Comunicativo, espirituoso e de uma cortante ironia para com os desafetos.) Chico atendeu ao pedido da cunhada e parece que, depois da conversa que tiveram, o comportamento de César com a esposa melhorou.
Mas, apesar do seu jeitão, César tinha alguns amigos, entre os quais o meu pai, que sempre falava bem dele (no futuro ocorreria um estremecimento nas relações entre os dois, acho que por questão de negócios), até revelando uma faceta insuspeitada do seu temperamento: o senso de humor. Ele tinha um amigo que nascera aqui em Natal, mas chegara a Canindé vindo de outra cidade do Ceará, com o qual ia toda tarde tomar cerveja no bar do Maciel. Sempre a uma determinada hora, como ocorria quando vinha para casa almoçar.
Enquanto morei em Canindé, nunca recebi um cumprimento dele. Tudo bem, era uma criança e se César não cumprimentava a maioria dos habitantes adultos, não iria fazê-lo com uma criança, ainda que fosse filha de um dos seus poucos amigos. Mas o Chico, por exemplo, me cumprimentava e muitos outros homens também.
Mas uma noite, eu já estudando em Fortaleza, entrei numa farmácia, e qual não foi o meu espanto ao encontrar ali o César. Usava um terno (branco, se não me engano), e talvez tivesse vindo de um cinema. Ou indo. Estava recostado ao balcão, esperando Dona Julinha ser atendida. Ao me ver, balançou a cabeça e esboçou um sorriso.

domingo, abril 11, 2010

A MULHER QUE PASSA

Foto: via Google


A janela do quarto está aberta, não muito, e pela fresta sopra um ventinho agradável, e ele sente prazer no ventinho tocando o seu corpo, refrescando-se após um dia de forte calor. A rua lá em baixa está deserta e silenciosa. Um carro trafega lento, sem ruído, como se respeitasse aquele silêncio. Passa muito da meia noite. Estivera lendo por muito tempo, sentiu a vista cansada e pôs o livro de volta à estante. Sem sono, foi para a janela. Sentado com um radinho, o vigia de uma clínica médica é o único habitante da rua.
Vez ou outra ele se demora a observar a luzinha de uma antena, trepada no morro, brincando de acender e apagar, acender e apagar. A espaços meio longos, um carro passa pela outra rua.
De repente, lembrou-se da mulher. Fora pela manhã, no centro da cidade. Encontrara um amigo, sentado em um banco. Começaram a conversar. Os assuntos costumeiros de quando se encontravam: cinema, literatura, um pouco de futebol, e - como um intruso, cuja presença se quer evitar, mas não se consegue - a situação política. Depois apareceu um amigo comum, que não quis sentar. Estava apressado, pouco ficou, foi embora junto com o bonezinho de uma marca comercial. O outro amigo, que duas vezes já olhara o relógio, o deixou quase em seguida.
Sozinho, estendeu os braços no encosto do banco e sem nada em que pensar, pôs-se a observar as pessoas que passavam, quase todas com pressa. Às suas costas o barulho de ônibus e carros. Em dado momento virou o rosto para a direita. Diferentemente da maioria dos transeuntes, uma mulher caminhava em passos lentos, como se estivesse passeando. Talvez por querer se concentrar em alguma coisa, permaneceu nessa posição, observando a mulher vindo em sua direção. E foi então que ocorreu o inesperado. Ao chegar perto dele, a mulher o olhou. Não como quem olha por um segundo para uma pessoa e logo desvia o rosto. O olhar da mulher foi um pouco demorado (pareceu-lhe até que ela tenha parado, mas, talvez, fosse mais um desejo seu que isso tivesse acontecido). Demorado e penetrante. E ele sustentou a firmeza daquele olhar, não desviando o seu. Chegou a cogitar de abrir um sorriso, mas se conteve. Afinal ela virou o rosto e seguiu a caminhada, sempre em lentidão. Vendo-a se afastar, disse para si mesmo, se ela se virar, eu vou ao seu encontro. Mas a mulher seguiu em frente. E o seu pensamento passou a se concentrar naquela estranha. Uma mulher não muito nova, uns trinta e cinco anos, um pouco mais, um pouco gorda, mas o corpo bem-feito, o rosto bonito, a pele alva, cheia de cor - e aquele olhar verde (azul?) que lhe ofereceu.
Permaneceu por muito tempo ali. Não sabia por que, mas tinha a certeza de que a mulher voltaria, de novo o olharia daquela maneira, e ele a convidaria a sentar. Conversariam e depois iriam almoçar. Ficou por muito tempo esperando por ela, em vão. Afinal, levantou-se e foi para um bar próximo tomar uma cerveja, para aliviar-se do calor.
Olha para a calçada da clínica e só vê a cadeira do vigia. Deve ter entrado para ir ao banheiro. Naquele momento a rua está inteiramente deserta. Continua sem sono, mas resolve ir se deitar. E, rápido, lhe vem a esperança de, se dormir, a mulher lhe aparecerá em sonho, pois sente que não a encontrará outra vez .

domingo, abril 04, 2010

RASHOMON (1950)



Para lembrar os 100 anos do nascimento do diretor Akira Kurosawa (1910/1998), em 23 de março, estou publicando, com pequenas alterações, um artigo sobre Rashomon, que saiu neste blogue já há algum tempo. Ei-lo.


De forma admirável, Rashomon expõe e analisa a fragilidade moral do ser humano, quando posto diante de uma situação que exige a coragem de assumir a verdade de um fato. No incidente envolvendo a esposa, o marido e o bandido, durante um passeio do casal pela floresta, vê-se que quando essas pessoas prestam depoimento à autoridade policial, cada uma o faz apresentando uma versão diferente do fato, visando a não se comprometer. Impossível saber qual é a verdadeira, pois cada um dos depoentes falseia o ocorrido, para tirar proveito dele. Nem na versão do marido morto pode-se confiar, porque ela é divulgada por intermédio de uma pessoa viva - um medium. Ou seja, alguém suscetível às fraquezas do ser humano.
Rashomon, assim, seria uma obra totalmente cética em relação à natureza humana, ao revelar que o homem carece da disposição de assumir a verdade sobre uma ocorrência em que estiver envolvido. Se digo "seria" é porque, depois de revelar os depoimentos, o filme, no final, faz um sinal otimista, um sinal de esperança na recuperação do homem. E nada melhor que esse aceno seja feito pelo lenhador, que, mesmo já com muitos filhos, resolve adotar o recém-nascido deixado pela mãe num imóvel desabitado, do qual um vagabundo roubara os panos que o cobriam. É bom dizer, aliás, que esse final otimista foi elaborado por Kurosawa e seu corroterista Shinobu Hashimoto. Ele inexiste nos dois contos (do escritor Ryonosuke Akutagawa, que cometeu suicídio aos 35 anos) em que o filme se baseia. Com 40 anos na época, Kurosawa ainda podia ter ilusões em relação ao homem. Se o filme fosse feito muitos anos depois, tenho cá minhas dúvidas que ele o encerrasse dessa maneira.
Saindo do aspecto temático, Rashomon se apresenta como uma mais do que bem-sucedida combinação de fatores que o tornam um filme extraordinário. As imagens das cenas na floresta não contêm apenas a beleza plástica, como aquela em que o sol aparece por entre as árvores. Além da beleza plástica, elas fazem inserir um elemento poético, aliado a um quê de onirismo: o marido conduzindo pela rédea o cavalo, em que a mulher, usando um chapéu e um véu brancos, está montada.
A música de Fumio Hayasaka, que, segundo o crítico Antônio Moniz Vianna, é inspirada em muitas passagens do Bolero, de Ravel, é outro ponto a destacar, sobretudo quando acompanhada pelo toque de tambores.
No tocante ao comportamento do elenco, cabe uma menção especial o desempenho dos três atores centrais. A atuação extrovertida de Toshiro Mifune (que, este ano, estaria completando 90 anos), no papel do bandido, a qual privilegia os gestos exuberantes e o gargalhar constante, contrapõe-se à de Masayuki Mori (o marido). É uma interpretação trabalhada muito mais na expressão facial, compondo uma máscara muda e gélida, que pode exprimir a ironia e o desprezo em relação à mulher. Quando a esta, é vivida por Machiko Kio, cujo momento alto se dá quando ela leva as mãos crispadas aos olhos, para não ver a expressão de desdém do marido. Uma imagem em que se casam a beleza visual do close e a dramaticidade da interpretação.
Ganhador do Festival de Veneza e do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro (ambos os prêmios em 1951), Rashomon abriu as portas do Ocidente para Akira Kurosawa, que, com os filmes seguintes, consolidou o seu nome como um dos maiores diretores do cinema.


MEUS KUROSAWA PREFERIDOS

Rashomon (1950)
Viver (1952)
Dersu Uzala (1975)
Kagemusha (1980)
Os Sete Samurais (1954)
Sonhos de Kurosawa (1990
Homem Mau Dorme Bem (1960)
Ran (1985)

domingo, março 28, 2010

O PUXÃO NO NARIZ

Foto: fockhead com



Eu estava num banco de praça quando o vi levantar-se e caminhar na minha direção. Estacou em frente a mim e fez a pergunta:
"Você é o Andrezinho, filho do Seu Moacir"?
"Ele mesmo".
Deu um risinho, depois falou:
"Eu tinha certeza que era você. Estava sentado naquele banco quando lhe vi chegar e disse pra mim mesmo aquele ali é o Andrezinho. Então, não está me reconhecendo"?
Olhei bem para o estranho de pele de um moreno acentuado, rosto rugoso, cabelos grisalhos, sem descobrir nenhum sinal que me levasse a identificá-lo. O timbre de voz não me soava familiar, e, enquanto o examinava, procurei nele um gesto característico, algo como um cacoete, em vão. Envergonhado, tive que lhe confessar que não o estava reconhecendo.
"Puta merda, eu estou velho mesmo".
"Não é nada disso. Eu que sou um péssimo fisionomista".
Outro risinho.
"Posso sentar"?
"À vontade".
Deu o terceiro risinho (me ocorreu, então, que o riso fácil fosse um cacoete, que a falta de convívio entre nós me tivesse feito esquecer completamente) e disse:
"Eu sou o Viliam".
Voltei a olhar atentamente para ele, buscando descobrir algum traço da pessoa que conhecera no passado. Nenhum traço. Em todo caso, a menção do seu nome me fez lembrar dele. Em meninos, fomos vizinhos, separados por quatro ou cinco casas e pela rua, e se não chegamos a ser amigos, fomos, pelo menos, companheiros de brincadeiras. Ele mais velho uns dois ou três anos.
"Está aposentado, Andrezinho?"
"Estou. Você também?"
"Quem dera."
"Faz o quê?"
"Trabalho em rádio. Setor esportivo. Sou o encarregado do plantão, o cara que dá informações sobre os resultados dos jogos. Será que não me ouviu algumas vezes?"
"Não sou ligado em esportes."
"Não me diga. Me lembro que você jogava bola até bem."
A conversa ia rolando, muito mais por iniciativa de Viliam. Eu me limitava praticamente a responder às suas perguntas. E enquanto ele soltava a língua, eu puxava pela memória, buscando desentranhar lembranças ligadas a ele. E fui me lembrando de Dona Marieta, sua mãe. Feia, de tudo fazendo para parecer bonita, pele amarelada, cabelo frisado, de um louro visivelmente artificial, falava mais do que o homem da cobra. Temperamento forte, com vocação para a prepotência, exercida principalmente sobre o marido - um barriga branca assumido. (Um detalhe, na aparência, insignificante, revela bem quem mandava na casa de Viliam. Era comum quando alguém nomeava algum menino acrescentar o nome do pai. Mas se era Viliam, a pessoa dizia filho de Dona Marieta e nunca filho de Seu George.) E aproveitando uma pausa na taramelice de Viliam, me ouvi a perguntar pela mãe dele.
"E Dona Marieta? Ainda está viva?"
"Viva até demais. E mais sadia do que eu. Come de tudo. Só está um pouco esquecida. Mora comigo desde que o papai faleceu."
"Seu George morreu?"
"Tem mais de dez anos. Mas eu ia dizendo..."
Pobre do Seu George. Deve ter chegado um momento em que não pôde mais suportar a convivência com a "caríssima" metade. E imaginava o que não estaria passando o filho ao lado daquela mãe autoritária, de convívio ainda mais difícil com a chegada da velhice. Mas ao mesmo tempo ponderava se Viliam já não não se amoldara ao temperamento da mãe, virado um submisso, feito o pai.
Mesmo porque, lembrava-me bem, Viliam não era um menino de cabelo na venta, que pudesse incutir nos outros meninos o medo de lhe pregarem uma peça para não receberem o troco. Fazíamos brincadeiras pesadas com ele, algumas de deixá-lo ferido e choramingando, e, no outro dia, lá estava o abestalhado de novo com a gente, como se nada tivesse acontecido.
"Sabe do que me lembrei agora (disse Viliam de repente e mais uma vez com aquele sorrisozinho)? Daquela vez que a velha deu um puxão no teu nariz. Tá lembrado?"
"Como não?"
"É, a Dona Marieta não era fácil. Ainda hoje não é, apesar da idade. Você sabe o que ela aprontou num dia desses?"
Começou a contar a mais recente truculência cometida pela mãe, mas as suas palavras entravam-me num ouvido e saíam no outro. O meu pensamento estava concentrado no episódia que ele acabara de lembrar. Aquele puxão de Dona Marieta no meu nariz, na presença da minha mãe e da minha irmã mais velha. E na minha própria casa.
"Isso é pra você nunca mais fazer arte com o meu filho."
As palavras da megera chegavam bem sonoras aos meus ouvidos, como se ditas naquele momento. E o estranho é que não me lembrasse da causa que a levara a fazer aquilo. Me lembrava vagamente que brincávamos, eu, Viliam e outros garotos, de cinturão queimado. Em dado momento da brincadeira, Viliam foi se queixar de mim a Dona Marieta e ela levantou-se da cadeira e me deu aquele puxão no nariz.
E de súbito, enquanto Viliam continuava falando para o vento, me fiz aquela pergunta: será que ele sabia que eu me vingara da agressão (sim, porque eu tinha dado o troco a Dona Marieta, fazendo-a passar por uma situação de extremo ridículo)?
Que ele presenciou o vexame da mãe, disso tenho certeza. Foi na festa de casamento da filha de uma amiga comum de mamãe e de Dona Marieta e Viliam lá estava junto com alguns dos nossos companheiros habituais de brincadeiras. Qualquer um daqueles meninos poderia ser o autor da peça de que Dona Marieta foi vítima, testemunhada por todos ali presentes, embora somente eu tivesse um motivo para armá-la. Mesmo assim não acho possível que Viliam me convertesse no principal suspeito, ele que, me lembro bem, não resistiu ao riso, tanto quanto a maioria dos convidados, ao ver a mãe debatendo-se para se levantar da cadeira, gritando por socorro, e as pessoas tentando erguer Dona Marieta, uma puxando-lhe um braço, outra o outro braço, mais alguém o pescoço, mais gente para prender a cadeira no chão, e, finalmente, depois de muito suor e muito esforço físico, Dona Marieta sai do suplício , mas sem se livrar do toque final, o requinte do derradeiro ato da suprema humilhação a que foi submetida: o ruído, semelhante ao de um grande peido, do vestido se rasgando. E a bruxa, aos berros, ai se eu pegar o moleque que fez isso, sendo escoltada até a um quarto da casa, enquanto o marido corria em busca de outro vestido.
"Tá vendo como a Dona Marieta ainda está em forma?"
Apenas retribuí o sorriso de Viliam, não ouvira uma palavra do seu relato. Ele se calara, para certamente descansar um pouco a garganta, tão ativa naquele nosso reencontro. Enquanto isso, me debatia na dúvida entre lhe lembrar ou não o incidente ocorrido com Dona Marieta. Tinha vontade de tocar no assunto, e ao mesmo tempo não tinha, e o curioso na minha dúvida era o temor de que Viliam revelasse que sempre soubera que fora eu o autor da brincadeira e me encostasse contra a parede, deixando-me sem argumentos para contestar. E era meu desejo manter silêncio sobre a autoria da peça. Um ponto de honra? Sei lá. Só sei que nunca abri a boca para me vangloriar do feito. E relutava em fazê-lo, justamente ao filho da bruxa.
"Bem, Andrezinho, tá na hora de tirar o time de campo."
De repente, Viliam punha um fim na minha dúvida. Estirou a mão, deu um último sorriso e foi embora.

domingo, março 21, 2010

15 FILMES COM UM GRANDE INÍCIO (1) *

A cunhada de Ethan Edwards (John Wayne) observa o
regresso dele, após anos de ausência: uma das primeiras
imagens de Rastros de Ódio.




- A Marca da Maldade (Orson Welles)
- Cidadão Kane (Welles)
- Hiroshima, Meu Amor (Alain Resnais)
- Vertigo/Um Corpo que Cai (Alfred Hitchcock)
- Oito e Meio (Federico Fellini)
- Rastros de Ódio (John Ford)
- O Baile (Ettore Scola)
- O Bebê de Rosemary (Roman Polanski)
- A Noviça Rebelde (Robert Wise)
- A Morte num Beijo (Robert Aldrich)
- Amor, Sublime Amor (Wise e Jerome Robbins)
- M... O Vampiro de Dusseldorf (Fritz Lang)
- A Bela da Tarde (Luís Buñuel)
- Era uma Vez... no Oeste (Sergio Leone)
- Ama-me Esta Noite (Rouben Mamoulian)

* Sem ordem preferencial.


domingo, março 14, 2010

UM MENINO ESCREVE UM LIVRO.


Foto via Google



Ele ainda brincava de criança e já escrevia relatos (crônicas? contos? as duas coisas?) que o pai mandou publicar em livro. Nunca me esqueci do título: "Sonhos e Conquistas". Li-o ao descobrir um exemplar no meio de antigos livros que mofavam na minha casa, mas, adolescente , ainda levaria muito tempo para adquirir a capacidade de avaliar um livro. Não tinha, evidentemente, valor literário, mas quem sabe um leitor arguto, sensível, não tivesse vislumbrado em alguns trechos a promessa de um futuro escritor? Promessa que jamais se cumpriria: o menino veio a tornar-se funcionário do Banco do Brasil, onde fez uma brilhante carreira. Dele mesmo, numa roda de pessoas em que eu estava presente, ouvi certa vez referir-se, de passagem, e de forma depreciativa, ao livro, deixando-me a impressão de que se arrependera de tê-lo escrito. Como se houvesse praticado uma má ação, cuja lembrança, talvez, o tivesse perseguido pelo resto da vida.
O pai é que sempre se orgulharia daquele feito do filho. E ainda hoje lhe dou razão. Um feito, sim, não importa a qualidade literária de "Sonhos e Conquistas", se levarmos em conta que o autor tinha apenas onze anos à época da publicação do livro, a qual coincidiu com o ano do meu nascimento. Com essa idade, nenhum dos grandes mestres da literatura mundial escreveu uma obra-prima. Com o dobro dela, ou mais, houve os que não foram tão bem sucedidos na estreia e um ou outro chegou até a renegar o seu primeiro livro. É verdade que há o exemplo da genialidade precoce de Rimbaud, mas mesmo ele despontou já perto dos vinte anos.
Maurício se chamava esse menino e era meu irmão. Já não está entre nós há quase nove anos.



domingo, março 07, 2010

SÃO FRANCISCO DOS POMBOS PALACIANOS


Crônica de Manoel Onofre Jr. *



Magro, com um riso alvo a destacar-se no pretume da pele, Azulão é funcionário da Casa Civil do Governo do Estado. Função principal: prestar toda assistência aos seus "irmãos menores", os pombos, que, desde que foram expulsos das sacadas da Prefeitura, escolheram o Palácio Potengi como residência.
Em Veneza, na praça São Marcos, é o turista quem alimenta os pombos, característicos daquele lugar. Mas, aqui em Natal, à falta de turistas, o Governo do Estado resolveu cuidar das pequenas aves, dando-lhes casa e comida, ou melhor, pombal e ração de milho diária. Esta mesma teve de ser reduzida, como diz Azulão com bom humor, em face da situação dramática das finanças estaduais.
Antigamente, os pombos moravam nas sacadas do Palácio Felipe Camarão, sede do executivo municipal. Sempre foram assim, dados ao convívio de coisas e gentes oficiais. Dali saíam para passeios na praça Sete de Setembro, em frente ao Palácio Potengi, onde faziam ponto num dos canteiros. Diariamente recebiam a ração de milho das mãos de um funcionário da Prefeitura, ornitólogo frustrado. Mas, certo dia, o Prefeito resolver cortar o milho dos pombos. Estes protestaram, e a prova é que - fato ainda lembrado - "sujaram", meticulosamente, por várias vezes, os brancos ternos de linho do Prefeito e dos assessores. Certo é que o protesto nada adiantou. O alcaide manteve-se firme em sua decisão de não mais dar milho às aves. Cansadas de protestar, elas optaram pela alternativa mais sensata: se mudaram para o Palácio Potengi. Um velho pombo filosofou: "Não há males que não venham para o Bem". E em seguida comandou: "Quem for pombo, que me siga. Todos ao Palácio"!
Foi uma revoada bonita, aquela; as aves em formação aérea, deixando a Prefeitura rumo ao Palácio do Governo. Pena que ninguém tenha notado nada.
Naquele tempo governava o Estado um homem bom que se interessou pelos pombos, dando-lhes pombais nos galhos dos ficus que ficavam em frente ao Palácio. Aqui encerra-se o que se poderia denominar de "período heróico" na história daqueles pombos. Os bichinhos puderam viver, a partir de então, no que sua imagem simboliza: paz.
Paz e água fresca. Para isso muito contribui o Sr. Jorge Berto, mais conhecido por Azulão, que é encarregado de não deixar faltar milho para os "donos" da praça Sete de Setembro.

- Azulão, qu'é que você conversa com eles?
- Eles quem?
- Os pombos, naturalmente.
- Conversa de mesmo não converso não. Mas a gente se entende tão bem que conversa não faz falta. Todo dia de manhã e de tarde, eu boto milho para eles, e eles vêm e até sentam nos meus ombros, sobem na minha cabeça. Gosto dos bichinhos.

* Manoel Onofre Jr nasceu em Santana do Matos (RN), em 1943. Seguindo a carreira jurídica, aposentou-se como Desembargador. É autor de cerca de 20 livros, englobando os mais variados gêneros, inclusive a ficção. Membro da Academia Norterriograndense de Letras. Esta crônica faz parte do livro "O Caçador de Jandaíra" (Edições Sebo Vermelho/2006).


domingo, fevereiro 28, 2010

UM NOEL ROSA HERMÉTICO

Fonte: Google



Em 1997 o compositor e cantor Ivan Lins lançou o CD triplo "Viva Noel". Do disco 1 faz parte o samba "Cor de Cinza", composto por Noel em 1933. É úma música que se pode dizer que aparece como um corpo estranho na obra do compositor, por causa do feitio da letra, em que os versos contêm impressões e imagens que aparentam não ter uma relação entre si, tendo como resultado um "texto" hermético, mas dotado de grande beleza. Por sinal que, segundo escreve o crítico João Máximo (autor, junto com Carlos Didier, do livro "Noel Rosa, Uma Biografia) no encarte do disco, o poeta e cronista Paulo Mendes Campos considerava esse samba "o mais belo e hermético poema impressionista do nosso cancioneiro popular".
João Máximo toca na obscuridade dos versos do compositor, "cujo mistério não há como desvendar: a história morreu com ele". E informa que a música só foi gravada em 1955, por Aracy de Almeida, portanto, 18 anos depois da morte de Noel.
Assim, com apenas duas gravações (contando a de Ivan Lins), "Cor de Cinza" é também uma música muito pouco conhecida de Noel (cujo centenário de nascimento ocorre este ano), entre as mais de 250 que ele compôs.
A seguir a letra.


Com seu aparecimento
Todo o céu ficou cinzento
E São Pedro zangado
Depois um carro de praça
Partiu e fez fumaça
Com destino ignorado

Não durou muito a chuva
E eu achei uma luva
Depois que ela desceu
A luva é um documento
Com que provo o esquecimento
Daquela que me esqueceu

Ao ver um carro cinzento
Com a cruz do sofrimento
Bem vermelha na porta
Fugi impressionado
Sem ter perguntado
Se ela estava viva ou morta

A poeira cinzenta
Da dúvida me atormenta
Nem sei se ela morreu
A luva é um documento
De pelica e bem cinzento
Que lembra quem me esqueceu.



domingo, fevereiro 21, 2010

O BAILE (Le Bal/1983)






O Baile, de Ettore Scola (Um Dia Muito Especial) não é o maior musical já realizado, mas, certamente é o mais original. Afastando-se do modelo padronizado pelo musical americano, não tem uma única fala e toda a história do filme é narrada através da música e da dança. E deve-se também falar em história com h maiúsculo, pois O Baile reconstitui o período francês, que vai de 1936, com a formação da Frente Popular, estendendo-se pela ocupação nazista, a libertação, a invasão do "rock" nos anos 1950, os anos 1960, até 1983. Além das músicas e das danças, todo o período é assinalado pela moda do vestuário masculino e feminino.
O filme começa em 1983, com os personagens-dançarinos, quarenta e sete anos mais velhos, entrando em um salão de um bar. É um ótimo início. Ao som de uma música, aparecem, primeiro, as mulheres, uma de cada vez. A câmera focaliza, com detalhes, a chegada delas. Há a de óculos escuros, que escancara a boca para examinar os dentes com os dedos, há outra que traz um frasco de comprimidos, uma terceira que, ao sentar, exibe parte de uma coxa, enquanto ajeita a saia de baixo, mais outra, de óculos de grau, que não irá dançar, preferindo ver uma revista de cinema. Já os homens entram juntos, em fila indiana, e vão se recostar ao balcão. Como ocorria nos bailes de antigamente, as mulheres aguardam que eles as convidem para dançar.
O roteiro, do qual Scola é um dos quatro autores, parece dar um pouco mais de destaque a dois desses homens. Aquele cheio de tiques (Marc Berman) e o grandalhão, feio e corcunda, que, talvez, por lhe faltarem atrativos físicos, dança apenas uma vez e rapidamente, sendo logo preterido pela parceira em favor de outro. É interpretado por Jean-François Perrier, que voltaria a trabalhar com o diretor no encantador a Viagem do Capitão Tornado (1990). Aliás, o personagem de Marc Berman proporciona o momento mais engraçado de O Baile. Na pele de um aristocrata, usando monóculo, ele chega ao baile acompanhado da amante. Sozinho à mesa, enquanto a mulher dança com outro, os monóculos (pois ele possui mais de um) caem no copo cheio de vinho. Por outro lado, ele aparece, em outra ocasião, como um personagem desprezível: o de colaboracionista, servindo de pajem para o oficial alemão (o mesmo Perrier)
Sendo uma adaptação de um espetáculo montado pelo Théatre du Campagnol, de Paris, encenado por Jean-Claude Penchenet, que também atua no filme e é mais um dos roteiristas, O Baile corria o risco de se tornar apenas a filmagem de um espetáculo musicado e dançado. O risco é evitado porque Scola, ao aderir à dança e à música, o faz com o seu tirocínio e talento cinematográficos, do que resulta um equilíbrio perfeito na aliança de três artes.
Curioso que um cineasta, sem experiência no gênero, tenha realizado um dos quatro ou cinco maiores musicais de todos os tempos, e dele a sua obra-prima. O cinema (como a vida) tem dessas coisas.



MEUS DEZ MELHORES MUSICAIS


- Cantando na Chuva (Stanley Donen/Gene Kelli/1952)
- Sinfonia em Paris (Vincente Minelli/1951)
- Amor, Sublime Amor (Robert Wise/Jerome Robbins/1961)
- O Baile
- Ama-me Esta Noite (Rouben Mamoulian/1932)
- Cabaret (Bob Fosse/1971)
- Os Guarda-Chuvas do Amor (Jacques Demy/1964)
- Marujos do Amor (George Sidney/1945)
- Um Dia em Nova York (Donen/Kelly/1949)
- Minha Bela Dama/My Fair Lady (George Cukor/1964)

domingo, fevereiro 14, 2010

22 GRANDES MÚSICAS DE CARNAVAL (*)

João de Barro, o Braguinha, foi o maior dos compositores de
músicas de carnaval. Nesta foto, em que ele é o primeiro da
frente, aparecem, entre outros, Chico, Caetano, Tom e Vi-
nicius.

Foto: www.lastfm.com.br/



- Evocação nr. 1 (Nelson Ferreira)
- Atire a Primeira Pedra (Ataulfo Alves/Mário Lago)
- O Cordão dos Puxa-Saco (Roberto Martins/Frazão)
- Pierrô Apaixonado (Noel Rosa/Heitor dos Prazeres)
- Florisbela (Nássara/Frazão)
- Dama das Camélias (João de Barro/Alcyr Pires Vermelho)
- Balzaquiana (Nássara/Wilson Batista)
- Anda Luzia (João de Barro)
- Se a Lua Contasse... (Custódio Mesquita)
- Ô Abre Alas (Chiquinha Gonzaga)
- Taí (Joubert de Carvalho)
- A Jardineira (Benedito Lacerda/Humberto Porto)
- Alá Lá Ô (Haroldo Lobo/Nássara)
- Estrela do Mar (Marino Pinto/Paulo Soledade)
- As Pastorinhas (João de Barro/Noel Rosa)
- Touradas em Madri (João de Barro/Alberto Ribeiro)
- Chiquita Bacana (João de Barro)
- Máscara Negra (Pereira Matos/Zé Kéti)
- O Teu Cabelo Não Nega (Lamartine Babo/Irmãos Valença)
- Grau Dez (Ary Barroso/Lamartine Babo
- É Com Esse Que Eu Vou (Pedro Caetano)
- Lata D'Água (Luís Antônio/Jota Junior)

(*) Sem ordem de preferência.

domingo, fevereiro 07, 2010

PEQUENAS LEMBRANÇAS DE UMA CERTA FORTALEZA



Fortaleza, anos 1950: trecho da rua Guilherme Rocha, cen-
tro da cidade, a qual desemboca na praça do Ferreira.
Foto: Google


No meu tempo de estudante em Fortaleza havia uma casa comercial que se diferençava das demais pelo tipo de propaganda que fazia. Na verdade, uma anti-propaganda, pois era anunciada por cobrar os preços mais altos da cidade, os seus produtos eram de baixa qualidade e não tinham garantia. Havia ainda a Casa Bicho, que tinha esse nome porque o seu proprietário se chamava José Bicho.
Pequenas lembranças de uma Fortaleza que não existe mais, que ficaram para sempre na minha memória. Tais como as matinês, aos domingos, do Cine Rex, ali na rua General Sampaio, a poucos metros da praça José de Alencar. Lá se reuniam os adolescentes de ambos os sexos, para ver um filme acessível à sua faixa etária. Não era raro encontrar um ou outro colega do Liceu. Numa ocasião vi o Jorge, que estudava na minha classe. Estávamos na fila para compra do ingresso, ele um pouco atrás de mim. Acompanhado de um amigo, ele lia, em voz alta, uma carta que uma namorada lhe enviara. Ria com alguns trechos da carta, aqueles em que a jovem demonstrava mais a atração que tinha por ele. Presenciando aquele exibicionismo de Jorge, eu, que já não era seu amigo, passei a detestá-lo a partir desse seu comportamento reprovável.
Um fato curioso no Rex era o preço da meia entrada: Cr$ 2,40. Por que, como os seus concorrentes, não era cobrado o preço de Cr$ 2,50? E, geralmente, ficava por esse preço, pois a bilheteira não dispunha de dez centavos. Nunca entendi isso.
Lá eu assisti A Princesa e o Plebeu. Fiquei ao lado de duas mocinhas, uma das quais não parava de falar. E uma vez em que Gregory Peck caminhava com uma mão no bolso da calça, ela disse à amiga que o homem que assim procedia era um liso.
Lembranças. Lembranças. Os programas de auditório na Rádio Iracema e na Ceará Rádio Clube, nas tardes de sábado. Talvez o mais popular de todos fosse o de Irapuan Lima, "o Chacrinha do Norte", na primeira delas. O auditório lotado de pessoas de diversas idades. Quando um cantor, ou cantora, de expressão nacional, vinha se apresentar num clube de Fortaleza, comparecia a esses programas. Num deles apareceu Elizeth Cardoso, que , na época, ainda não era chamada de "A Divina".
Um cunhado de um dos meus irmãos trabalhava na Dragão do Mar. Um dia ele me convidou para conhecer a rádio. Era uma tarde de um dia qualquer. Na ocasião estava sendo gravada uma novela. Embora fosse narrador esportivo, ele participava da novela (talvez por uma emergência) , fazendo um pequeno papel. Conseguiu com que eu assistisse à gravação. Reconheci o galã da novela, Oliveira Filho, que morava no meu bairro. E conheci um casal de atores que trabalhava em teatro. E tive uma tremenda decepção com a atriz que formava o par romântico com Oliveira Filho. Uma vez ou outra, eu acompanhava algum capítulo de rádio-novela. Morava na casa de outro irmão e a minha cunhada gostava de rádio-novela. Quando estava em casa, e se não estivesse estudando, ouvia essas novelas, ou parte delas. Então, havia uma atriz (não me lembro do nome) que me atraía pela voz suave, bonita, algo sensual, o que me levava a imaginar que fosse uma mulher bonita. Pois bem. Nesse determinado dia, lá estava ela. Não chegava a ser feia, mas estava muito longe do padrão de beleza que imaginava possuir.
E aquela funcionária bonitinha de uma loja de variedades? Aparentava ser um pouco mais velha do que eu. Estava quase sempre à frente da loja, quando eu por lá passava. Iniciamos um flerte (assim se chamava a paquera naquele tempo) e daí evoluímos para o namoro. Só que ela nunca soube que namoramos.




A ALMA DAS CIDADES
Poema de Horácio Paiva/RN




A cidade passou
antes de mim.
E não houve adeus.
Perdeu-se
no caos incontrolável
da impermanência.

Não a cidade onde nasci,
é óbvio,
mas a que aprendi a amar depois.

E quando vi que passara,
retirei-me.
Sem olhar para trás...

Anjos
- que não sabem que são anjos -
vieram ao meu encontro
e serviram-me.

Ainda não morri,
concordo,
mas a alma de minha cidade
não existe mais.