sábado, junho 19, 2010

UM TEXTO DE JOSÉ SARAMAGO

O escritor português, ganhador do Prêmio Nobel, que
faleceu na última sexta, aos 87 anos. Abaixo o artigo que
ele publicou, em l8.05.09, no saite http:://caderno.josesaramago.org/



Charlot


Numa destas últimas noites vi na televisão alguns filmes antigos de Chaplin, a saber, dois ou três episódios nas trincheiras da primeira guerra mundial e um filme mais extenso, "The Pilgrim", que retoma, com menos felicidade que noutros casos, o tema recorrente de um Chaplin sem culpas procurado pela polícia. Não sorri nem uma única vez. Surpreendido comigo mesmo, como se tivesse faltado a uma jura solene, dei-me ao trabalho de tentar recordar, tanto quanto me seria possível oitenta anos depois, que risos, que gargalhadas me terá feito soltar Chaplin nos dois cinemas populares de Lisboa que frequentava quando tinha seis ou sete anos. Não recordei grande coisa. Os meus ídolos nessa época eram dois cômicos suecos, Pat e Patachon, que esses, sim, eram, para mim, autênticos campeões da gargalhada.
Continuando a reflectir com os meus botões, sempre bons conselheiros porque em princípio não mudam de casa nem de opinião, cheguei à inesperada conclusão de que Chaplin, afinal, não é um cômico, mas um trágico. Repare-se como tudo é triste, como tudo é melancólico nos seus filmes. A própria máscara chaplinesca, toda ela em branco e negro, pele de gesso, sobrancelhas, bigode, olhos como pingos de alcatrão, é uma máscara que em nada destoaria ao lado das representações plásticas do actor trágico. E há mais. O sorriso de Chaplin não é um sorriso feliz, pelo contrário, aventuro-me a dizer, sabendo ao que me arrisco, que é tão inquietante que ficaria bem na boca de qualquer drácula.
Se eu fosse mulher, fugiria de um homem que me sorrise assim. Aqueles incisivos, demasiado grandes, demasiado regulares, demasiado brancos, assustam. São um esgar no enquadramento rígido dos lábios. Sei de antemão que pouquíssimos vão estar de acordo comigo. O caso é que, uma vez decidido que Chaplin é um actor cômico, ninguém lhe olha para a cara. Creiam no que lhes digo. Olhem-no de frente sem ideias feitas, observem aquelas feições uma por uma, esqueçam por um momento a dança dos pezinhos {sic}, e digam-me depois o que viram. Chaplin levaria todos os seus filmes a chorar se pudesse.

8 comentários:

João Palhares disse...

Grande texto de Saramago, não conhecia... também acho que o Cinema de Chaplin (como o de Keaton, também) só se compreende olhando para os filmes como tragédias e não como comédias...
Parabéns pelo blog, já agora..

tb disse...

Saramago, meu amigo deixou-me um vazio que todas as mortes físicas daqueles que calam fundo em mim, me provocam...
Acho-o um espírito grande daqueles que vivem muito além do seu tempo...
Ainda bem que tive a grande sorte de ter uma das suas obras autografadas por ele. e nesses grandeza muito para além de todas as vozes discordantes.
Obrigada por o trazer aqui.
Beijo terno e agradecido, meu querido amigo

Marco disse...

Olá, caro amigo Sobreira
Lá se foi um grande escritor, uma grande figura humana. Não conhecia este texto, mas gostei muito especialmente por que ele falou de suas antigas ternuras. Quanto a opinião sobre o Chaplin, é, ele está certo. Os filmes do Carlitos eram repletos de humanidade. Faziam rir, mas sempre tinham um travo amargo e sua figura triste contribuía para isso.
Muito bem escolhido.
Carpe Diem. Aproveite o dia e a vida.

Jota Effe Esse disse...

Dizer que Saramago foi uma grande figura é chover no molhado, mas você, amigo, nos trás um José Saramago analista de filmes, atores, cineastas... um conhecedor de comédias e tragédias; foi uma ótima escolha, essa que você fez. Meu abraço.

Mariazita disse...

Querida Francisco
Na qualidade de portuguesa e de grande admiradora de José Saramago, muito obrigada por esta homenagem.
Lamento imenso a morte daquele que considero o segundo maior escritor português, imediatamente a seguir a Eça de Queiroz.
Agora não vou ter mais nenhum livro dele para ler. Como já li toda a sua obra... resta-me reler!

Beijinhos

PS - Estranhei muito ver vc no meu blog LÍRIOS. Vc nunca tinha ido lá... Obrigada pela visita.

Pedra do Sertão disse...

Olá,Sobreira,

suas visitas são muito iluminadas. Também, como em outros comentários, deixo meu sentimento pela perda desse grande escritor. Foi uma bela homenagem! abç

DILERMArtins disse...

Mas bah, Sobreira.
Saramago analista de cinema é novidade para mim, tenho que concordar com sua visão de Chaplin, salientando o lado trágico da obra. Acho que de alguma forma todos reconhecemos que os filmes do Carlitos são tragi-cômicos; ele brincava com as fragiliades do caráter humano e suas mazalas.
Parabéns pela homenagem.
Abração.

Claudinha ੴ disse...

Olá querido amigo, lentamente estou voltando, em meio a bagunças e muitas coisas para arrumar na casa nova. Andei um pouco doentinha, mas acho que é ansiedade. Porém, estou feliz,é claro!
Saramago deixa um legado, uma obra considerável. Seu sucesso recentemente transformado em filme me deixou muito pensativa sobre a natureza humana. Eu não conhecia este texto, mas gostei especialmente por ele citar Chaplin, nosso querido e eterno. Você fez uma bela homenagem.

Um beijo!