domingo, maio 02, 2010

A MEMÓRIA E SEUS MISTÉRIOS

Quadro " Persistência da Memória", de Salvador Dali.
Fonte: Google



A memória tem seus mistérios. Como explicar que, de repente, aflora em alguém a lembrança de algo que parecia estar inteiramente esquecido? Uma música que você ouvia na infância, no rádio, ou na amplificadora de sua cidade, e que, com a passagem dos anos, não mais a ouviu; uma pessoa, que se não foi sua amiga (às vezes até por uma grande diferença de idades), mas de todo modo fez parte da sua vida, de quem você não se lembra mais, e, como num piscar de olhos, "reaparece". Em relação a essas pessoas, a lembrança inesperada vem acompanhada de uma situação vivida por você e ela, quando não por uma palavra, ou uma expressão, usadas por ela, como se fossem um distintivo da sua personalidade. Assim como alguém carrega no rosto, ou em outra parte do corpo, a cicatriz de um acidente sofrido na infância, ou a de uma antiga cirurgia.
Uma manhã dessas, deitado, naquele estado em que um restinho de sono insiste em prender-nos à cama, lá dos escaninhos da memória assomou a figura de um colega já falecido. E "ouvi" a sua expressão: "É um arrombado". Ele era do Ceará, como eu, e no nosso Estado, a palavra tem a conotação de alguém que conseguiu algo importante, ou que é um sortudo. Minha mulher, também daquelas bandas, quando sabe que uma pessoa conhecida arranjou um bom emprego, ou melhorou de condição financeira, nunca deixa de dizer que "fulano (ou fulana) arrombou".
Já outro dia, também ainda não de todo desperto (curioso que essas lembranças geralmente ocorram nessa hora do dia), quem me surgiu foi aquela enfermeira. Talvez a lembrança inesperada daquela mulher tenha tido a ver com a necessidade de uma pequena cirurgia que terei que fazer. Estava com seis meses de casado quando tive que retirar as amígdalas. Enquanto aguardava a entrada para a sala de operações, ela apareceu. Vinha, parece, para avisar que o cirurgião não demoraria a chegar. E, ao invés de se retirar, ficou ali. E começou a conversar comigo. Conversas que nada tinham a ver com a operação. Até onde me lembro, tinha uma voz serena e suave. Não era nem bonita, nem feia. E a nossa conversa se desenvolveu, sem pausas, até o momento de eu ir para a outra sala. É possível que ela adotasse esse procedimento com todo paciente. É possível. Ou orientada, ou por espontânea vontade. Mas naquele momento, em que estava tenso pela primeira vez em que ia entrar na faca, isso em nada me importou, como continuo a não me importar, agora que, quase 40 anos decorridos, me lembrei daquela doce mulher que tinha o dom de passar tranquilidade. E nunca mais, em outras cirurgias a que tive de me submeter, encontrei outra enfermeira que agisse daquela maneira.
Minha memória, que você continue a me fazer essas surpresas. Mas, por favor, só as que tragam lembranças boas. As amargas, não, como diz o título do livro de memórias de Álvaro Moreyra.

13 comentários:

DILERMArtins disse...

Mas bah, Sobreira.
Parece que as reminicências são frutos desta hora, entre a vigília e sono, pois a mim também costumam aflorar nesses momentos...
E são boas, sempre boas lembranças, afinal as más costumam aparecer na hora do pesadelo! rs.
Abração.

Jacinta Dantas disse...

Relembrar o já vivido e, de preferência, o bem vivido, é bom demais. Melhor ainda é quando essas lembranças surgem no comecinho do dia: um sinal de que todo o dia poderá ser bem vivido, inclusive no dia de enfrentar uma cirurgia.
É Francisco, acho que já não dá para encontrar uma enfermeira como a que você encontrou há 40 anos...É tudo tão corrido na rotina de um hospital que o melhor a fazer é levar alguém para exercer esse papel.
Grande abraço e bom domingo, com muitas lembranças boas.

Ilaine disse...

Lindo! Sou uma arrombada por ter conhecido você. Sim, as lmbranças nos pegam de surpresa constantemente. Eu me lembro de tantas pessoas que já foram minhas amigas em determinadas épocas de minha vida. E nestas hora, muitas vezes nasce um sorriso. Lembro de fatos curiosos e pitorescos. Sim Francisco, apelemos para a Senhora Memória que somente nos avive momentos felizes.

Beijo, escritor.
Um bom domingo para você.

Jota Effe Esse disse...

Engraçado, por dois motivos esse teu post, Francisco. Primeiro porque amanhã vou fazer uma cirurgia de catarata; e se não tiver ninguém para me tranquilizar, já pego carona nessa enfermeira; segundo porque essa palavra "arrombado", no meu lugar e em outros pontos do país tem significado muito perjorativo! Meu abraço.

Claudinha ੴ disse...

Querido amigo, espero que tudo esteja bem com você e que seja só algo simples esta cirurgia.
Aqui por estas bandas a palavra tem uma conotação nada parecida com esta de sortudo, rsrs. São as barreiras da língua, eu passei por muitas confusões por causa de vocabulário e não só de MG para SP, como aqui mesmo no sul de Minas eles falam muito diferente de minha região.
Sobre as memórias, ah como eu sei as peças que ela nos prega! E foi por medo de perdê-las, por causa do meu AVC e da cirurgia cerebral que comecei as minhas Memórias de Borboleta. Engraçado é que depois de 7 anos ainda aparecem do nada coisas das quais nem me lembrava.
Eu tive um médico, ainda muito amigo meu, que foi um anjo da guarda que sempre conversou comigo no período em que fiquei hospitalizada, esperando a cirurgia do cérebro. Eu achava que ia morrer, ele me tranquilizou e me tirou todos os medos. Esta enfermeira é um destes anjos que Deus manda para nos ajudarem na caminhada!
Fique bem, mantenha-nos informados. Vou incluir você em minhas orações.
Beijo grande!

Pedra do Sertão disse...

Caro Sobreira,

adoro quando você traz as boas lembranças do nosso amado Ceará!!!
O bom é que temos uma memória altamente sensitiva: basta um perfume, um acorde, um nadinha de nada e a imagem surge, às vezes (mais do que queremos!), ela nos pega cada peça! Pois é, feliz de quem possui "as boas lembranças". Abraço

Dilberto L. Rosa disse...

'Asa nisi masa', meu caro: tal como em "8 1/2", você nos brindou com aparentemente sem importância, porém mais-que-belas imagens de um passado que às vezes teima em nos mostrar o que já nos esquecemos... Belo texto! Abração!

Dilberto L. Rosa disse...

P.S.: essa estória de "arrombado" teria outra conotação aqui no Maranhão, ré, ré (ficou tão estranho no comentário da ilustra Ilaine... rs)!

Mariazita disse...

Olá
Como no próximo domingo, dia 9 de Maio, se celebra o Dia das Mães no Brasil, resolvi fazer uma pequena homenagem às minha amigas brasileiras, publicando, no SÁBADO, dia 8, um post no meu blog OLHAI OS LÍRIOS DO MACUÁ
Beijinhos
Mariazita
PS - Voltarei para comentar logo que possível.

. fina flor . disse...

ainda bem que eu nunca me lembro de uma cirurgia que fiz na adolescencia, rs*

e por aqui, arrombado é que transou demais, sabia? rs*

beijos, querido

MM.

Mariazita disse...

Querido Francisco
Com um atraso de...quantos dias? Ai esta minha memória, como está fraca! :)))
Gostei muio do seu texto. De facto a memória é qualquer coisa de inexplicável, por vezes.
Quantas vezes nos ocorrem coisas, situações, pessoas... que nada têm a ver com o momento presente!
Mas...como vc diz e muito bem: que as memórias sejam sempre boas - e nos deixem felizes, digo eu.

Beijinhos

Marco disse...

Pois é, caro amigo Francisco... Quando estou estirado no sofá, escutando cabelo crescer, como custumo dizer, também sou tomado por lembranças, em cacos, fiapos, saídos de sei lá que recôndito da memória. Várias destas lembranças, inclusive, já viraram posts do Antigas Ternuras. É muito agradável ler as suas histórias, você tem o dom de nos prender a atenção, e a gente fica lendo como se estivesse ouvindo um causo na beira de um fogão de lenha, comendo broinha de fubá mimoso.
Carpe Diem.

tb disse...

Assim mesmo deve ser... :) guardar o bom e a reter e deitar fora o que não nos torna felizes, ou nos faz, no mínimo, sorrir. :)
Abraço