terça-feira, outubro 07, 2008

HOMENAGEANDO MANUEL BANDEIRA


Foto do sítio www.overmundo.com.br/
Neste ano dos centenários de morte e de nascimento de Machado de Assis e Guimarães Rosa, completam-se ainda, no próximo dia 13, os 40 anos do falecimento de Manuel Bandeira (1886-1968) . Pernambuco de Recife, Bandeira, além de poeta (um dos maiores da língua portuguesa), foi também cronista, crítico de arte e literatura e tradutor. Como uma homenagem à data, este espaço é hoje ocupado por um texto dele. Não um poema, mas uma crônica, uma saborosa crônica em que ele exercita o humor, uma das facetas do seu temperamento, como atestam os que o conheceram. Ei-la.
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FRASES
Dos vendedores ambulantes que freqüentavam a Rua da União, dois me interessavam particularmente: a preta das bananas, com o seu vistoso xale de pano da Costa, e o homem dos sapatos. Este chegava com o seu grande baú de folha-de-flandres, abria-o na saleta de entrada e ficava esperando pela freguesia, que eram as senhoras de casa e da vizinhança. Eu gostava de olhar aquela confusão de borzeguins, chinelas e sapatos rasos. Mas, um dia o sujeito, que era robusto e falava grosso, me interpelou: Já vai ao colégio? Estuda Geografia? Qual é a Capital do Espírito Santo?
Embatuquei, e o sapateiro tripudiou: - Ignora?
O que eu esperava, o que eu ouvia dizer em tais ocasiões era - "Não sabe?" Aquele "ignora", que eu jamais ouvira, soou-me duro. Senti-me insultado, afastei-me do baú, nunca mais me aproximei do homem. E até hoje implico com esse inocente verbo "ignorar", sobretudo no singular do presente do indicativo.
Outro dia foi meu tio Antonico que me surpreendeu, dizendo ao amigo Fiúza:
- Quando você ia colher os cajus, eu já voltava com as castanhas!
Surpresa maior, porém, foi o que disse à minha avó uma sua amiga, ouvindo-lhe queixas de achaques que não cediam aos remédios.
- Minha Dona França, deixe a natureza obrar!
Essas foram frases ouvidas na infância e então me soaram insólitas e inexplicáveis. Adulto, ouvi outras, sem nenhum mistério, mas igualmente surpreendentes. Assim, a de uma dessas pretinhas de Copacabana, cabelizadas e maquiladas, que tratava emprego com a senhora:
- A que horas a senhora janta?
- Às oito horas.
- Não pode ser às sete?
- Quem marca o horário das refeições em minha casa sou eu, não a cozinheira.
A pretinha então, muito gentil:
- Claro, não leve a mal que eu pergunte: não vê que eu sou mulher da vida e tenho de noite o meu trabalho lá fora?
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- Crônica extraída do livro "Colóquio Unilateralmente Sentimental" (Distribuidora Record/1968).


domingo, setembro 28, 2008

PAUL NEWMAN



Paul Leonard Newman, que faleceu na última sexta-feira, aos 83 anos (nascido em 26.1.1925), estreou no cinema em 1954, em O Cálice Sagrado, de Victor Saville, um daqueles produtos históricos e bíblicos que Hollywood fabricava em série nos anos 1950. Essa bobageira que vi, creio, em 1956 (mas na época, com meus quatorze anos, em não tinha consciência disso) marcou profundamente o ator, que relutou muito em atuar nela. E muitos anos depois, quando ele soube que O Cálice Sagrado ia ser exibido na televisão, fez circular nos principais jornais dos Estados Unidos um pedido às pessoas para que não fossem assistir ao filme.
Mas Newman esteve em filmes que talvez tivessem (ou chegassem próximo) o mesmo nível do filme da sua estréia, como Inferno na Torre, por exemplo. Aliás, não foi em grande quantidade os filmes importantes dele e nenhum atingiu o status de obra-prima. Seus melhores, na minha visão, foram: Marcado pela Sarjeta (no qual só trabalhou devido à morte de James Dean, o ator escolhido para o papel de Rocky Graziano), Um de Nós Morrerá, Gata em Teto de Zico Quente, Desafio à Corrupção, Doce Pássaro da Juventude, Butch Cassidy and Sundance Kid, Golpe de Mestre, O Indomado, O Veredicto, Harper, o Caçador de Aventuras, Hombre, A Cor do Dinheiro (em que retomou o personagem já bem maduro de Desafio à Corrupção), A Roda da Fortuna. Devo ter esquecido um ou outro e posso acrescentar Estrada da Perdição, sua derradeira aparição no cinema, em 2002. Mas aquele que deveria ser o ponto mais alto da sua filmografia, ele não pôde fazer - A Doce Vida, de Fellini. Era o preferido para interpretar o jornalista, porém a questão salarial tornou inviável a sua contratação, e o papel foi parar nas mãos de Marcelo Mastroianni. Será que ele não chegou também a se arrepender de não ter trabalhado com Fellini, como se arrependeu em relação ao seu primeiro filme?
Tinha muito talento. No entanto, durante os primeiros anos de carreira cultivou alguns maneirismos (até o cacoete de de coçar muito a cabeça, bem como a forma de andar, que o crítico Sérgio Augusto chamou certa vez de pendular), adquiridos, certamente, na sua passagem pelo Actor's Studio, que comprometiam às vezes a sua interpretação. Com o passar dos anos foi se livrando desses vícios e cresceu ainda mais como ator.
Experimentou a direção, já em 1961, com On the Harmfulness of Tobacco, um média metragem adaptado de uma peça de Tchecov, segundo informa Rubens Ewald Filho no seu Dicionário de Cineastas. Foram 7 filmes, pelo menos cinco com Joanne Woodward, sua companheira de cinquenta anos, um dos quais para a tevê. Deles só conheço Rachel, Rachel, de que gostei moderadamente quando o vi nos anos 1960, e Uma Lição para não Esquecer. Neste ele começou só como ator, ao lado de Henry Fonda, mas em meio às filmagens assumiu a direção, substituindo Richard A. Colla, e assim fica difícil saber até que ponto ele imprimiu a sua marca no filme. Não posso, portanto, avaliar Newman por trás da câmera. Mas há quem ache que ele foi tão bom diretor quanto ator. A conferir, se possível.












terça-feira, setembro 23, 2008

SOCIEDADE DOS POETAS MORTOS (Dead Poets Society/1989)



Esta crítica foi publicada em junho de 1990 no jornal Tribuna do Norte, de Natal. É apresentada aqui com pouquíssimas alterações em relação ao texto original.

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É possível fazer-se duas leituras do roteiro de Sociedade dos Poetas Mortos, recentemente exibido pelo Nordeste. A primeira remete ao princípio da fruição da vida pelas pessoas, baseada na interpretação figurada da expressão latina Carpe Diem. Esse princípio é enunciado - e, mais do que isso, incentivado - aos alunos de uma conservadora escola norte-americana, no final dos anos 50, pelo jovem professor de Literatura.
Não é a primeira vez, no cinema, que vemos a chegada de um estranho a uma comunidade operar uma profunda transformação na maneira de viver das pessoas, e acodem-me imediatamente à memória os exemplos ilustres de Shane e Teorema. Infelizmente, essa brusca alteração no modus vivendi dos nativos não é feita sem a ausência de traumas, que as marcarão para sempre. Com seu anticonvencional método pedagógico, o professor John Keating (Robin Williams) escorraça a sensaboria das aulas, tornando, por exemplo, a temida abordagem da poesia de Shakespeare uma sessão de brincadeiras, entre estas a imitação que ele faz das vozes de Marlon Brando e John Wayne.
Ao mesmo tempo, alguns dos alunos vêem despertar em si o desejo de realizar seus sonhos. Seja o de seguir a carreira de ator, no caso de Neil (Robert Sean Leonard), de problemática realização, porque ele precisará vencer a forte oposição do pai, seja o de de um seu colega, relativamente mais fácil, já que se trata de conquistar o coração de uma jovem comprometida. Em ambos os casos, o que se destaca é a disposição que eles sentem de lutar por algo por algo que consideram importante em suas vidas, embora, no caso de Neil, ele saia derrotado.
A segunda leitura é a demonstração dos obstáculos que se erguem a todo homem que se apresenta com idéias novas no seio de uma sociedade conservadora. O professor John Keating chega a uma secular escola, da qual fora aluno (e, já nessa condição, tendo manifestado um espírito rebelde e inovador, a ele devendo-se a criação de uma "Sociedade dos Poetas Mortos", que seria reativada pelos seus discípulos), e, em pouco tempo, a sua inusitada maneira de ensinar entra em colisão com os colegas e a direção do colégio. Não é pra menos. Para os padrões rígidos e tradicionais da instituição, é impossível admitir que um dos seus mestres ordene aos (também) escandalizados alunos que destruam as páginas de um livro, por conterem uma interpretação que ele considera falsa da arte poética. Que esse mesmo professor os faça subirem a sua mesa, como uma forma de adquirirem uma visão diferente das coisas. Ou ainda que incentive os rapazes a recitar seus próprios versos fora da sala de aula, utilizando os movimentos dos corpos, para, com isso, irem perdendo a inibição.
Previsivelmente, no instante em que o comportamento dos alunos começa a ir de encontro à disciplina militarizada da escola, o professor é responsabilizado pela situação. E quando Neil comete suicídio, o pai, o verdadeiro responsável, procura transferir a culpa para Keating, e este, delatado por um um acovardado aluno, é despedido.
Essa história de lutas, sonhos e frustrações, em que também se toca na inevitabilidade da morte, mas como forma de conferir um valor inestimável ao ato de viver, é dirigida com freqüente sensibilidade, e quase sempre com brilho, por Peter Weir, esse talentoso cineasta de origem australiana. Jà tendo visto outros filmes dele, julgo encontrar nos mesmos uma identidade, ou sejja, a simpatia que ele manifesta por personagens que se tornam outsiders do seu próprio meio. Esse John Keating é irmão do policial de A Testemunha, que é forçado a se refugiar numa comunidade de adeptos da seita Amish, para não ser morto pelo seu corrupto superior, e do herói de A Costa do Mosquito.
Mas o roteiro de Tom Schulman, premiado pelo Oscar, é, a meu ver, passível de duas ressalvas, Uma é a de sonegar informações sobre a vida particular de Keating. Em conseqüência, ficamos sem saber por que está separado de uma mulher (numa cena em que ele aparece escrevendo-lhe uma carta é lançada apenas uma vaga pista, insuficiente para esclarecer a questão), nem o grau de envolvimento com ela. A outra é no suicídio de Neil, e aí a montagem tem o seu quinhão de responsabilidade. A seqüência deveria ter terminado no momento em que o pai ouve o som do disparo da arma. Se já havíamos visto Neil pegar o revólver, tornou-se dispensável, após o disparo, mostrar o pai percorrendo a casa, até localizar o corpo do filho no chão. A montagem é um dos componentes importantes de um filme (no cinema soviético de Eisenstein e companhia ela era supervalorizada), até para suprimir cenas supérfluas, as quais, acima de tudo, podem passar a idéia de que a inteligência do espectador está sendo subestimada.





quarta-feira, setembro 17, 2008

A VOZ DO VIZINHO

O soldado dormia esparramado na cadeira.Roncava alto, o corpo remexia-se como sob ação de descarga elétrica, o homem que vinha denunciar ficou observando-o divertido (e o homem tinha muita pressa em denunciar). Quando se achou satisfeito, foi acordar o soldado, primeiro chamando por ele, a seguir gritando e batendo na mesa. O soldado não acordava, o homem que vinha denunciar fez um canudo de papel e foi cocegar a orelha do dorminhoco. Este deu um pulo, assustado, a mão logo puxando o revólver da cartucheira, mas o homem gritou é de paz e o soldado recuou em tempo. Endireitou-se na cadeira, passou os os dedos nos olhos sonolentos e perguntou o que o homem queria.
- Desejava falar com o senhor Delegado.
- O senhor Delegado está recolhido à cela.
- É possível ser recebido por ele?
- É muito importante? Porque o senhor Delegado deu ordem para não ser incomodado com assunto que não seja de suma importânci.a
- O assunto que venho tratar não é apenas de muita importância, mas igualmente da maior urgência.
O homem que vinha denunciar disse isso com tanta convicção que o soldado saltou lépido da cadeira em busca do telefone. (A rapidez do gesto espantou o homem, que não o imaginava capaz numa pessoa que há dois minutos dormia daquele jeito.) Do outro lado demoraram a atender. O soldado ainda não estava inteiramente desperto, voltou a dormir ali mesmo em pé. Em dado momento acordou, outra vez assustado, na certa por um berro da pessoa do outro lado. Devia ser o Delegado, o soldado perfilou-se, falou manso, todo servil. Quando desligou, pediu ao homem para o acompanhar.
Penetraram logo num corredor curto, depois pegaram um outro, esse longo e largo. Tão silencioso àquela hora, o homem que vinha denunciar teve a impressão que todas as celas estavam desocupadas. Andaram um bom pedaço até chegar à cela do Delegado, que era a última do lado direito. Um homem fardado esperava atrás das grades. O soldado perfilou-se, bateu continência e apresentou o acompanhante. O Delegado lhe ordenou que abrisse a cela. Fechou-a, bateu continência, saiu correndo, por certo para não deixar fugir o sonão interrompido.
O Delegado foi para junto do birô com o homem. Não parecia ter saído do sono, como o soldado. Ou tivera o cuidado de escorraçar o sono com um jato dágua na cara.
De relance o homem que vinha denunciar descobriu uma cama no fundo da cela e uma porta que julgou dar para um banheiro. O Delegado havia juntado as mãos, como se rezasse, e assim contrito perguntou ao homem a razão da visita.
- Senhor Delegado, peço-lhe que me perdoe por incomodá-lo a esta hora, mas é que tenho uma denúncia... uma denúncia muito grava para fazer.
- Um momento, por favor. Queira declarar o nome e o endereço.
- É estritamente necessário, senhor Delegado? Porque desejava permanecer incógnito.
- Apenas uma formalidade. Na verdade, o senhor não terá qualquer responsabilidade assim que pôr os pés fora desta Casa.
Tranquilizado, o homem declarou o nome e o endereço que o Delegado anotou num livro que retirou da gaveta.
- A quem o senhor deseja denunciar?
- Ao meu vizinho.
- O nome do seu vizinho.
- O senhor vai me perdoar outra vez, mas não sei como se chama o meu vizinho. Até agora não consegui saber. Aliás, isso faz parte do procedimento esquisito do meu vizinho.
- No entretanto, torna-se imperioso que o senhor dê uma indicação mais precisa a respeito do seu vizinho. Digamos assim: é o seu vizinho do lado direito ou do lado esquerdo?
- Do lado direito, senhor Delegado.
O Delegado anotou no livro.
Muito bem. Que espécie de denúncia o senhor deseja fazer contra o seu vizinho do lado direito?
- O meu vizinho não fala, senhor Delegado. Isto é, eu nunca ouvi a voz dele em quase um ano que somos vizinhos.
- O senhor nunca ouviu a voz do seu vizinho do lado direito? Nunca o ouviu assim ralhar com o filho, ou mesmo pedir algo dentro de casa? Um par de meias para calçar, por exemplo?
- Nada, senhor Delegado. Para o senhor ter uma idéia de que o meu vizinho não fala, basta que lhe diga que nas poucas vezes que nos encontramos, nem um bom-dia me deu.
- Não se tratará de um mudo?
Não, senhor Delegado, mudo é que ele não é. Eu mesmo cheguei a pensar nessa possibilidade até o dia em que soube por um outro vizinho que ele é um professor. O senhor acha que ele poderia ser mudo sendo um professor?
O Delegado não respondeu, baixou a vista para o livro. Escreveu, escreveu, escreveu. Quando terminou, ficou pensando, de mãos juntas, parecia não perceber a presença do denunciante, que o tempo todo não despregou os olhos do rosto do Delegado. Afinal falou.
- Realmente é bem estranho o procedimento do seu vizinho do lado direito. O senhor acaba de fazer uma denúncia muito grave. Algo aqui me diz que se trata de um indivíduo sumamente perigoso. Amanhã mesmo darei ordem para que todos os passos desse indivíduo sejam fiscalizados. E quanto ao senhor, cabe-me agradecer por haver prestado um serviço de grande valia. Muito obrigado, senhor.
Ora, senhor Delegado, não há de que agradecer. A nossa obrigação de cidadão é ajudar as autoridades no combate ao mal. Só desejaria que o senhor confirmasse a promessa de que o meu nome permanecerá afastado do processo de sindicância sobre o meu vizinho.
- Não tenha o menor receio, senhor. Nada lhe acontecerá, eu dou-lhe a minha palavra de honra.
E trancou a boca. Certamente dava a entender ao denunciante que nada mais o retinha ali. O denunciante percebeu-o, falou que já estava na hora de ir-se. Um instante só, o Delegado pediu a ele, e discou o telefone.
- O meu soldado está a todo o sono - disse mais para si, nem havia impaciência em sua voz. O denunciante é que não podia desperdiçar a oportunidade de dar chocalho à língua.
- Notei que o soldado é um bocado dorminhoco.
- Todos os meus homens dormem bem. Eu os faço ingerir sempre uma quantidade razoável de soporíferos. Tenho por princípio o seguinte: o homem dormido vale por dez.
- Um princípio muito válido, não tenha a menor dúvida, senhor Delegado.
O soldado chegou, bateu continência, abriu a cela, o denunciante saiu, fechou a cela, bateu continência. E o Delegado, o Soldado e o Denunciante foram dormir com muita paz.
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- Conto extraído do meu livro A Noite Mágica (Ática/1979)

quarta-feira, setembro 10, 2008

OS 70 ANOS DE VIDAS SECAS


Reprodução da capa da primeira edição de Vidas Secas,
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Em 1938 vinha à luz Vidas Secas. Era o quarto e acabou por se tornar o último romance escrito por Graciliano Ramos. Vidas Secas se distingue dos outros romances do mestre alagoano em mais de um aspecto. Em primeiro lugar, a narrativa é feita na terceira pessoa e não mais na primeira pessoa, como ocorre com Caetés, São Bernardo e Angústia. Não parece apenas um detalhe sem importância, uma opção de gosto pessoal. No seu ensaio "Valores e Misérias das Vidas Secas", inserido na 30a. edição do livro (Livraria Martins Editora/1972), o crítico Álvaro Lins se faz esta pergunta: "Não será isto um sinal de que antes {o romancista} deixava os personagens entregues à própria sorte, enquanto agora se identifica com os desgraçados nordestinos de Vidas Secas"? Identificação essa que, na visão do crítico, torna Vidas Secas o mais humano e comovente dos livros de Graciliano, "o que contém maior sentimento da terra nordestina, daquela parte que é aspera, dura e cruel, sem deixar de ser amada pelos que a ela estão ligados teluricamente". E a atitude tomada por Graciliano em relação a Fabiano, Sinha Vitória e os dois filhos pequenos é acrescida de um elemento, se não solitário, pelo menos, incomum, na literatura, ou seja, a humanização da cachorrinha Baleia, que é tratada como um membro daquela miserável família. Além de dedicar um capítulo inteiro à morte dela (um dos melhores da obra), em algumas ocasiões Graciliano a faz agir como se da espécie humana fosse.
Muito usado nos livros anteriores, principalmente São Bernardo e Caetés, o diálogo inexiste em Vidas Secas. O que há são interjeições, palavras e frases isoladas, mesmo quando um personagem não está sozinho. E assim mesmo elas não ocorrem com muita freqüência.
Mas certamente o que mais diferencia Vidas Secas dos livros precedentes é a forma da sua construção. Os capítulos possuem uma autonomia, que faz com que cada um deles possa ser lido como um conto, conforme observou Álvaro Lins no citado ensaio. E aí surge a questão se se trata rigorosamente de um romance. No ensaio "Ficção e Confissão", que integra a 18a. edição de São Bernardo (mesma editora, 1972), Antonio Candido afirma que Vidas Secas "pertence a um gênero intermediário entre romance e livro de contos". E revela que alguns dos capítulos (que ele chega a chamar de episódios e de quadros) eram originariamente contos e como tal tinham sido publicados em revistas. Já o nosso maior cronista, Rubem Braga, define Vidas Secas de uma maneira que me parece a mais apropriada, ao chamá-lo de "romance desmontável".
Essa construção que pode ser um dos defeitos que tanto Álvaro Lins, quanto Antonio Candido, apontam no livro, é um defeito apenas na forma, no sentido de que alguns capítulos passam a impressão de ser "histórias incompletas" (Antonio Candido) e não no conteúdo. É que existe uma interligação entre os capítulos (ou contos, ou ainda quadros), em que é acompanhada a vivência daqueles desvalidos da sorte (no mínimo, há a presença de ao menos Fabiano, como em 3 ou 4), o que acaba por dar uma unidade ao livro. Com sua maestria, Graciliano soube armá-los de maneira a conferir-lhes uma harmonia (observe-se, por exemplo, que Vidas Secas começa e termina com a fuga dos personagens provocada pela seca).
Quanto ao estilo, Lins, se elege Angústia o melhor Graciliano, considera que, nesse aspecto, Vidas Secas supera os demais. "Em nenhum outro dos seus livros encontramos tanta beleza e tanta harmonia na construção verbal", diz ele, para acrescentar a descoberta de um elemento estranho na linguagem do autor: "E somente aqui este autor, de espírito tão pouco poético, consegue atingir às vezes um estado de poesia".
Vinte e cinco anos depois de lançado, Vidas Secas chegou ao cinema. Pelas mãos de Nelson Pereira dos Santos, que soube traduzir em imagens o espírito e a essência do livro. Se Vidas Secas não for o melhor livro de Graciliano (mas existem os que acham que sim), é o melhor filme de Nelson. E forma com Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha, realizado na mesma época, os dois maiores filmes do Cinema Novo.

quarta-feira, setembro 03, 2008

ALGUNS DOS MAIORES ANTI-HERÓIS DO CINEMA


(Sem ordem preferencial)
1 - William Holden, em Crepúsculo dos Deuses (Billy Wilder)
2 - Humphrey Bogart, em O Tesouro de Sierra Madre (John Huston)
3 - Lamberto Maggiorani, em Ladrões de Bicicleta (Vittorio De Sica)
4 - James Mason, em O Condenado (Carol Reed)
5 - Jean-Paul Belmondo, em O Acossado (Jean-Luc Godard)
6 - Montgomery Clift, em Um Lugar ao Sol (George Stevens)
7 - Steve Cochran, em O Grito (Michelangelo Antonioni)
8 - Maurice Ronet, em Trinta Anos Esta Noite (Louis Malle)
9 - Marlon Brando, em O Último Tango em Paris (Bernardo Bertolucci)
10 - Peter Lorre, em M, O Vampiro de Dusseldorf (Fritz Lang)
11 - Gregory Peck, em O Matador (Kenry King)
12 - Dustin Hoffman, em Perdidos na Noite (John Schlesinger)
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Na foto acima, James Mason em uma cena de O Condenado

terça-feira, agosto 26, 2008

UM EPISÓDIO DA INFÂNCIA DE CONY



Todas as manhãs, bem cedo, o menino Carlos Heitor Cony saía de casa para ajudar a missa das seis e meia. Pegava um bonde e dele saltava em frente ao botequim Ponto de Cem Réis, que ainda existia, e com o nome preservado, quando o escritor e jornalista escreveu a crônica em que relata um marcante episódio ocorrido na sua infância. De lá ia caminhando até a igreja, que ficava perto. No lado oposto havia outro botequim. Era o local preferido de alguns rapazes que varavam a noite bebendo e cantando acompanhados por violões - "ovelhas negras que infelicitavam o rebanho, segundo o vigário local que me esperava para começar a missa".

O menino passava em frente, olhava rapidamente a cena diária e seguia. Até que numa manhã, por razão ignorada, um dos rapazes, deixou o violão, pegou uma tampinha de de cerveja Cascatinha (ao que parece muito consumida no Rio naqueles anos trinta do século passado) e a arremessou "com força" na direção do garoto, atingindo de raspão a orelha, que sofreu um arranhão, do qual saía sangue Não satisfeito com a irrazoável agressão, acresceu-a gritando estas palavras: "Lá vai o filho do padre ajudar a missa". Cony correu para a igreja e, na sacristia, mostrou ao padre a orelha ferida.
É nessa parte da crônica que Cony usa da sua peculiar ironia, que pode atingir o sarcasmo. O sacerdote o chamou de mártir. Fala da "compunsão" que pairou sobre a missa daquele dia, em que "as beatas pisavam de leve o chão de velhos ladrilhos que o vigário desejava reformar". Naquele momento ele se sentiu um santo precoce, com um lugar assegurado no Céu. Já o seu agressor iria se queimar nas chamas do Inferno. E ali mesmo que ficou sabendo da identidade do rapaz. Compunha uns "sambinhas" e estudava medicina. Noel Rosa ele se chamava.
Após a missa, o menino voltou ao local, já vazio. E se pôs a procurar a tampinha, pois, sem saber a razão, "tinha a suspeita de que devia guardá-la", Cony, porém, não revela se a encontrou.
A crônica faz parte do livro Os Anos Mais Antigos do Passado (Record/1998) e tem por título "O Mártir de Vila Isabel". E eu confesso que, ao começar a lê-la, tive a certeza de que o "mártir" era uma referência a um dos cinco ou seis maiores compositores da nossa música popular.


quarta-feira, agosto 20, 2008

NUNCA TE VI... SEMPRE TE AMEI (84 Charing Cross Road/1987)


Relevemos a intenção do apelo comercial percebível no título em português. E assistamos ao filme desarmados desse aspecto que objetiva o interesse do espectador brasileiro. Isso feito, o espectador irá se deparar com um filme delicado, terno e agradável, enfim um filme que já no seu lançamento se diferençava da esmagadora maioria dos realizados pelo cinema americano. Imagine hoje, quando já se passaram mais de vinte anos.
O título original refere-se ao endereço, em Londres, de uma livraria especializada em obras antigas e raras, à qual a leitora de roteiros para a televisão Helene Hanff (a excelente Anne Bancroft, que, infelizmente, já não está entre nós), residente em Nova York, se dirige para adquirir alguns dos livros que não consegue encontrar em sua cidade. É uma correspondência que atravessa duas décadas, trocada entre ela e o funcionário mais graduado da livraria, Frank Doel (Anthony Hopkins, outro grande intérprete), e esse longo contato epistolar faz aflorar uma amizade entre os dois que vai se convertendo num interesse amoroso. Este, no entanto, é insinuado, jamais declarado por nenhum dos correspondentes. Da parte de Frank, quando mostra algo diferente na expressão contemplativa do rosto em um ou outro momento. Já Helene, em uma ou duas ocasiões, é vista fitando o retrato emoldurado de um homem com um uniforme da marinha, que se supõe seja o seu marido, mas não há nenhuma fala no filme que informe a sua condição de viúva ou divorciada. Aliás, no livro não há nenhuma menção ao seu estado civil, igualmente no livro "A Duquesa de Bloomsbury", que é um relato da estada de Helene Hanff na Inglaterra, os dois formando um só volume na edição brasileira, o que nos leva a crer que Helene era solteira. A presença da foto do homem, assim, seria uma situação armada pelo roteiro para também insinuar de alguma forma o interesse dela por Frank.
Mas o que o filme destaca mesmo é o amor pelo livro, através de Helene, uma voraz leitora. Com ela, sentimos o que um livro representa para o amante da leitura, o seu prazer diante de um exemplar, até tátil, na maneira de tê-lo entre as mãos, "acariciando" a capa e as folhas, como se se tratasse de uma jóia (o que não deixa de sê-lo, principalmente se raro). E sem cometer uma impropriedade, pode-se dizer que esse amor ao livro se estende também até a Frank, mesmo sendo ele um profissional.
Essa Helene Hanff existiu de fato e a correspondência mantida com Frank Doel foi por ela reunida em um livro de sucesso, que tem o mesmo título do filme e é dedicado a ele. Anne Bancroft foi uma das inúmeras pessoas que se comoveram com o livro e pediu a Mel Brooks, seu então marido, dono de uma produtora, que o transpusesse para o cinema.
"Nunca te Vi... Sempre te Amei" se inicia com Helene a bordo de um avião, com destino a Londres. Nas cenas seguintes a vemos num táxi, rumando para a livraria, que já fechara as portas. (Aliás, durante a realização do filme, uma loja de discos ocupava o local da livraria e, por isso, esta foi recriada em estúdio.) A câmera capta a expressão de prazer e de alegria de Helene ao se deparar com alguns locais que vira através de filmes, um desses o maravilhoso "Desencanto", de David Lean. E termina na livraria, na qual ela entra, e pôe-se a observar os lugares vazios outrora povoados de livros, as mesas onde se sentaram o "seu" Frank, falecido no ano em que a correspondência entre eles atingia os vinte anos, e os demais funcionários. E após inspecionar o local, que desejava conhecer em atividade, Helene diz com um meio-sorriso que, na verdade, expressa um misto de tristeza, saudade, frustração: "Aqui estou, Frankie. Finalmente".
Já estou no final e vejo que ainda não disse o nome do diretor: David Jones, um inglês, também ligado ao teatro, e esse é o seu segundo filme. Nem o do roteirista, Hugh Whitemore, que fez um roteiro muito bom, que Jones soube valorizar com talento e sensibilidade.

quarta-feira, agosto 13, 2008

UM CONTO DE BARTOLOMEU CORREIA DE MELO (RN)

DA JANELA



Hei de morrer,

cantando teus louvores,

qual rouxinol

que expira ao por-do-sol

Bendito de nossa Senhora

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VEM passando. Debaixo do foguetório, carro-de-som puxa rosário:

"Ave Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco..."

Rua afora e janelas adentro, choramingo da bandinha e latomia dos fiéis:

"Santa Maria mãe de Deus rogai por nós pecadores..."


No quarto-do-meio daquele sobrado, Salete e Dorinha...

- Chega, mulher! Mazinho já dobrou a esquina, com a cruz-do-divino.

- Peraí, estou indo; não acho meu trancelim. Quede a loção?

- Vem todo espigado, o semostrador; mesmo terninho curto, todo ano.

- Enjoei desse fresco besta; mais parece uma porta-estandarte!...

- Tanto que te arrumas, só pra sair na janela? Avia, lerdeza!

- Vê se me ajudas nesse colchete. Será que engordei?

- Vixe, menina, estás mascarada! Deixa tirar...

- Mudei o pó-de-arroz. Esse agora rende mais.

"Santa Maria mãe de Deus rogai por nós pecadores..."

- Escutas a voz de Zabé Capela no meio-do-mundo?

- Respostando a oração arriba da multidão.

- Mas não é? Eita, magrela gasgita! Fhum!

- Indo pro céu, vai deixar Jesus mouquinho!

"Santa Maria mãe de Deus rogai por nós pecadores..."

- Ah, os anjinhos, mulher, que lindeza!

- Lembras do nosso tempo de anjo? Eram asas mais bem feitas.

- A mais bonita é Tininha, não?

- Pois que bem puxou a bênção das tias dela.

- Aquela maiorzinha até que passou da idade de anjo.

- Virando capetinha... Repara os peitinhos já brotando.

"Santa Maria mãe de Deus rogai por nós pecadores..."

- Eita! João da Loja vem melado; tombando fora da fila.

- Bêbado indecente, finda tangido da igreja, feito cachorro!

-Triste devoto de Nossa Senhora das Garrafas! Fhum!

- Será por chifre-de-noiva, faz-que-tempo, levado?...

- Rhum! Não sinto remorsos! Bem que foi merecido!

"Santa Maria de Deus rogai por nós pecadores..."

- Quem é aquela de fita azul, atrás de Ceição Batata?

- Maria Rita de Neco Souza. Por que indaga?

- Espia bem pra barriga... Aposto que buliram com ela.

- Coitada, quanta vergonha! E isso é Filha-de-Maria!...

"Santa Maria mãe de Deus rogai por nós pecadores..."

- Dona Coló, mesmo caduca, não perde função nem obrigação.

- E largam a velha sozinha, variando no meio do povaréu...

- Diz-que a briga pela herança já começou, ela inda viva!

- Com tamanha carolice, capaz de deixar tudim pra Santa.

- Ah, magino a cara chocha dos parasitas!...

- Fhum! Será bom demais pra gargalhar.

"Santa Maria mãe de Deus rogai por nós pecadores..."

- Quem disse que Paulim Meia-Garrafa agüenta carregar andor?

- Naquele tamanhico, só atrapalha os outros!

- Espia; chega vai esguiado, na pontinha dos pés!

- Finda derrubando a Santa, que Deus me perdoe!

- Cadê o sacristão, que não ajeita isso?

- Lá na torre, tocando no sino e nos meninos...

"Santa Maria mãe de Deus rogai por nós pecadores..."

- Ai, Saletinha, me arrupio todinha, quando avisto essa pessoa!

- Onde, onde? Ah, já avistei, na banda-de-música.

- Tocando bombardão... Que fôlego, que bochechas!

- Parece que melhor tocava os taróis de quem conheço...

- Ah, nem me fales... Se não me olhar, hoje não durmo!

- Sossega o facho mulher, faz trinta anos!

- Quando enviuvar, casa comigo; Mãe Jupira prometeu.

"Santa Maria mãe de Deus rogai por nós pecadores..."

- Vigia ali, a presepada que vem vindo!

- Tibes! Seu Agenor de novo amor!... Uma criança!

- Bonitinha, a forasteira. Mais parece bisnete desse ridículo.

- Ah, cabrita entojada! Ventinha pra riba, procurando catinga.

- Ele todo ancho, mostrando a quenguinha.

- Ora, que amostre! Que outro uso daria pra dita-cuja?...

- Nem a poder de catuaba! Mata o velho! Fhum!

"Santa Maria mãe de Deus rogai por nós pecadores..."

- E as irmãs Vasconcelos sempre estreando roupas novas...

- Não as entendo... Como se arrumam?

- A decadência guarda mistérios, comem nobreza e educação.

- Falam de encontros marcados nas altas horas...

- Com tais feiúras, não acredito! Haja língua ruim!

- He, he! Aumento, mas não invento.

"Santa maria mãe de Deus rogai por nós pecadores..."

- Olha, Zazá mais o trouxa dela. Não tira o olho dos rapagões.

- Diz-que o de agora é Biuzim de Creuza.

- Mesmo? Aquele frangote botador d'água? Não brinques!

- Bem reparando, ficou troncudo, bom de abraçar.

- Mulher, te comporta!

"Santa Maria mãe de Deus rogai por nós pecadores..."

- Vigia só, o infeliz do Gavião! Deus nos livre!

- Solto de novo? Ah, desgraçado!

- Capaz de bater a carteira do padre!...

- Hi, olhou pra gente, disfarça!

- Diz-que,além de ladrão, é tarado.
- Oxente! Larga de léria!
- Foi pego brechando Janilza no banho.
- Até que nem tão tão malencarado como pintam...
"Santa Maria mãe de Deus rogai por nós pecadores..."
- Cada dia mais magrinho, Padre Afonso...
- Falam naquela doença, tadinho.
- Doença-do-mundo?
- Não, maldosa, doença-do-peito!
- Vôtes, isso pega?
"Santa Maria mãe de Deus rogai por nós pecadores..."
Breque da banda, bem floreado. Daí, esbarra o andor perante o casarão. Rachões na calçada, paredes descascando, mas janelas adornadas por toalhas de labirinto. Entre papocos, aplausos e pétalas de rosas, brada o carro-de-som:
"Esta estação simboliza o quinto punhal cravado no coração de Maria. Rogamos a Deus pelos dessa casa, a família do saudoso Dr. Peixoto."
A banda tascou o hino da Padroeira.
"Viva Nossa Senhora das Dores!"
"Vivaaa!"
Da janela-do-meio, dignas como a Santa, elas sorriam e agradeciam.

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quarta-feira, agosto 06, 2008

A METAMORFOSE ANUAL DE SEU OLAVO

Todos em São Januário já conheciam aquele ruído e, ao ouvi-lo, identificavam o autor: é o Seu Olavo. E alguém da casa ia receber a correspondência. Seu Olavo era o carteiro. Não se anunciava pela voz, como Ariston, o seu substituto. Correio, gritava Ariston. Seu Olavo adotava o método de bater com a palma de uma mão sobre o volume de cartas empilhadas na palma da outra mão, e tão forte era o som produzido que se podia ouvir pela casa toda. Punha tanta habilidade em seu método que o ruído era escutado mesmo que Seu Olavo trouxesse na mão uma única mensagem. O som, nesse caso, percutia de forma cava.
Essa maneira de se anunciar, sem a voz, condizia com o temperamento de Seu Olavo, um homem caladão, sisudo, que não apreciava uma boa conversa. Alto, seco de carnes, um bigode grosso, bem tratado, olhos que mal fitavam as pessoas, como não ousasse encará-las. Seria de esperar que usasse óculos, e os seus eram de lentes muito grossas, o que realçava mais ainda o ar sério.
Seu Olavo e a mulher formavam um casal que timbrava pelo contraste de temperamentos. Vendo-os, podia-se acreditar naquela máxima de que os opostos se atraem, pois até no físico eram diferentes. Dona Zizinha era baixa e gorda e apreciava uma conversa, tanto quanto o marido evitava-a. Tinha uma língua maior do que o corpo, com mais peçonha que uma cascavel, e, como se fosse pouco o veneno que destilava, gostava de colocar apelido nas pessoas. Imagino como seria o convívio entre aqueles dois. Dona Zizinha falando sem descanso, Seu Olavo só escutando. E é de se supor que suportasse numa boa a língua de camelô da esposa, porque só saía de casa para o trabalho, a missa aos domingos, ou para fazer alguma compra. Sem um único amigo, Seu Olavo não era visto num bar ou nas esquinas, ou na praça, em um animado papo. Jamais.
Imagino como seria difícil para alguém de passagem por São Januário, ao ouvir um nativo falar a respeito de Seu Olavo, crer que ocorresse uma extraordinária transformação nos hábitos e na conduta daquele homem quando chegava o carnaval. Eu mesmo quando atingi a idade em que o homem descobre que a natureza humana é pródiga em mistérios impenetráveis, sentia-me perplexo diante do espetáculo oferecido por Seu Olavo no período momesco. Durante aqueles quatro dias o que víamos era um homem do qual não restava qualquer vestígio daquele a que nos acostumáramos a ver nos demais dias do ano.
O homem que vivia de boca fechada durante quase o ano inteiro, abria-a no carnaval para cantar as marchinhas e os sambas; o abstêmio dos outros dias, incapaz de pôr os pés num bar, no carnaval bebia da garrafa que trazia no boso; o homem sempre vestido com roupas sóbrias, no carnaval usava uma fantasia, diferente a cada ano. E a cada ano, à medida que se aproximava a chegada do carnaval, crescia a expectativa dos januarenses em relação à fantasia que Seu Olavo iria usar. Era o segredo mais bem guardado de todo o planeta. Nem o mais scherlockiano dos homens de São Januário seria capaz de descobri-lo. Calado e discreto como era, Seu Olavo não o revelaria nem mesmo à esposa, mesmo que ela não tivesse a língua solta. É quase certo que ele a mandava confeccionar na Capital. Em São Januário não era, todo mundo saberia.
É certo que mesmo naqueles quatro dias, ainda que desvelando a alma de folião, Seu Olavo conservava o segregacionismo social. (Este o único traço de sua personalidade que permanecia imutável.) Nada de se misturar aos outros foliões, como integrante de um bloco, ou comparecendo aos bailes do clube 4 de Outubro. Também no carnaval, Seu Olavo era o solitário dos outros dias. Fazia questão de manter-se separado dos outros foliões. E certamente para inibir algum intruso de querer acompanhá-lo, Seu Olavo todo ano aparecia trazendo numa mão um pedaço de pau, que numa ponta tinha pregada uma tabuleta com a inscrição "Bloco do Eu Sozinho".
Falei, falei e não disse ainda onde Seu Olavo brincava o carnaval. Porque havia um local, o mesmo em todos os anos. Era o Posto Azul, de propriedade do Horácio Flores. Originariamente um posto de gasolina, acrescido de uma mercearia, com o tempo as duas bombas foram retiradas, mas a mercearia ficou, bem como o nome de Posto Azul. A mercearia passou a vender também bebidas, e na área cimentada, antes reservada às bombas, foram fincados três bancos de madeira, em que se sentavam fregueses, ou não, para conversar. Nesse espaço, entre os bancos, que circundava a mercearia, Seu Olavo fazia o seu carnaval.
Chegava ao Posto Azul pela manhã, depois das nove horas, e saía no começo da noite. Tortuoso o caminho de volta para casa, com Seu Olavo moído de cansaço, a cabeça rodando pela bebida. Mal se sustendo em pé, ele se arrastava apoiando-se nas paredes das residências, até chegar à sua. Por sorte a casa ficava perto do Posto Azul. Mal entrava em casa, caía na cama, só acordando no dia seguinte. E assim ia até a terça-feira. Mas na quarta-feira lá estava ele percorrendo as residências e estabelecimentos comerciais, entregando correspondência. Voltava a ser o caladão, o sisudo, o abastêmio, o recluso do resto do ano.
Morreu num daqueles carnavais. Em São Januário há quem assegure que foi a espécie de morte que pediu a Deus. Não que Seu Olavo tenha feito essa confidência - ele lá seria capaz disso. Mas por simples especulação. E tudo porque ele gostava muito de cantar um samba em que o autor revelava o desejo de morrer no carnaval. Seu Olavo nunca deixou de cantar essa música, durante os anos em que se exibiu no Posto Azul. Mas se tinha esse desejo, levou-o para o túmulo.
E suposições - isso é só o que nos resta, pobres de nós, que jamais conseguiremos decifrar o enigma daquela esfinge.

terça-feira, julho 29, 2008

25 ANOS SEM BUÑUEL

Luis Buñuel como ator numa célebre cena de "Um Cão Andaluz" (1928).

Nascido com o século vinte, o espanhol Luis Buñuel foi um cineasta dos mais importantes. E o mais singular, segundo a opinião do crítico Moniz Vianna, formulada na década de 1960, para quem Buñuel não iria deixar herdeiros (eu incluiria Fellini). Adesista de primeira hora do Surrealismo, Buñuel, na verdade, se manteve fiel ao movimento até o fim da vida. Claro que o Surrealismo, e não podia ser de outra forma, aparece bem mais diluído em meio aos temas que ele aborda a partir de uma certa parte de sua carreira, mas não deixa de ser visível, por exemplo, num filme como O Fantasma da Liberdade, o penúltimo de sua obra. Numa entrevista aos críticos franceses André Bazin e Jacques-Donioel Valcroze, concedida nos anos 50 do século passado, Buñuel, ao responder à observação do primeiro de que ainda conservava vínculos com o Surrealismo, diz que é verdade e aproveita a oportunidade para reconhecer a sua dívida com ele. E por falar em Bazin, este inclui Buñuel na lista dos diretores que fazem "o cinema da crueldade", ao lado de Dreyer, Kurosawa, Hitchcock, Stroheim e Preston Sturges.

Examinando-se os filmes de Buñuel sob o prisma da narrativa e da linguagem, observa-se, se não um desprezo, pelo menos um desinteresse pelo cuidado, o apuro da forma. Ou seja, interessa-lhe é a comunicação da mensagem ao espectador, a intensidade, o impacto que ela possa ter sobre este. Mas, às vezes, ele sonega a comunicação ao espectador. Como se quisesse bulir com o espectador, levando-o a dar tratos à bola sobre o significado de um plano, até de uma cena. Outras vezes, ele nem revela o detalhe de uma cena, como acontece, por exemplo, em A Bela da Tarde, quando se fica sem conhecer o conteúdo de uma caixinha que o cliente oriental mostra às moças da casa de encontros amorosos frequentada por Catherine Deneuve.

É o antípoda de Visconti, que, mesmo quando mostra uma cena "forte", também de impacto, jamais abdica do seu estilo requintado, do apuro visual-plástico, da elegância formal. Não há parentesco com o despojamento de Bresson, nem com o de Rosselinni; não, é o toque de Buñuel, como existe o toque de Welles, o de Fellini, o de Hitchcock, o de Ford, enfim, dos grandes cineastas. Ele disse, certa vez, destestar o que chamou de "angulos complicados". E também não gostava do uso da música no cinema, conforme afirmou na citada entrevista.

Voltando ao tema da crueldade na obra de Buñuel. Esse enfoque dado ao seu cinema o desagradava muito e, aparentemente, ele desconhecia a opinião de Bazin. Pelo menos, não faz referência ao crítico e ensaísta francês na autobiografia "Meu Último Suspiro" (Nova Fronteira/1982) . Nesse livro, indispensável para se conhecer o cineasta e, principalmente, o homem, Buñuel comenta a tristeza que sentiu ao ler este slogan escrito sobre o cartaz de um de seus filmes, exposto num cinema de Paris: " O metteur-en-scène mais cruel do mundo".

E o pior é que essa "crueldade" era associada a sua pessoa. Um pouco mais adiante de quando menciona esse fato, ele conta a impressão causada em Vittorio De Sica por Viridiana. De Sica assistiu ao filme na Cidade do México, ao lado de Jeanne, esposa de Buñuel. Saiu do cinema "horrorizado", "sufocado" e depressa tomou um táxi, junto com Jeanne, para ir a um bar. No trajeto, perguntou a ela se o marido era um monstro dentro de casa e se chegava a bater nela. Resposta de Jeanne: "Quando é preciso matar uma barata, ele me chama".

O homem era tão digno de interesse quanto o cineasta. Tinha as melhores idéias quando estava solitário num bar, degustando um bom vinho. Adorava usar disfarces que o deixavam irreconhecível. Ele conta a peça que pregou so set de filmagens de Viva Maria, de Louis Malle. Entrou ali usando uma peruca, passou um tempão pra lá e pra cá, olhando a câmera, fitando os atores, e todo mundo se perguntava quem era aquele estranho velhinho, que parecia ser alguém enviado pelo produtor. Nem Jeanne Moreau, que trabalhara com ele há pouco tempo, o reconheceu. Muito menos o próprio filho, Jean Louis, que trabalhava como assistente de Malle.

Esse era Don Luis, assim tratado, que faleceu em 29 de julho de 1983, há exatos 25 anos.


quarta-feira, julho 23, 2008

KAFKA






Este texto foi publicado em junho de 1993 em um jornal de Natal, onde eu escrevia semanalmente. Resolvi divulgá-lo aqui, por ter visto o filme recentemente na tevê e conservado a mesma impressão sobre ele quando o vi há 15 anos. Ei-lo.


* * * * * * * * * * * *


Há de se sentir logrado o leitor de Frank Kafka que alugar a fita, acreditando que irá ver a cinebiografia do autor de A Metamorfose. É verdade que este é personagem da história, sim, mas desvinculado do seu universo de escritor, bem como da sua condição de homem envolvido em problemas íntimos e familiares, com os quais, basicamente, alimentou a sua obra. É certo também que, ao longo da narrativa, esse leitor irá encontrar uma ou outra informação sobre Kafka. Como na cena em que alguém pergunta se ele está desenvolvendo algum projeto literário e Kafka responde, lacônico, que está escrevendo sobre um homem que um dia acorda transformado num inseto. Mas não fosse por essas esparsas referências a Kafka, ele nem precisava ser personagem da história, bastando que o roteirista criasse um outro de sua própria imaginação. É é de supor que dotasse esse personagem fictício da credibilidade improvável em um homem que, pelo temperamento tímido, e ainda mais tendo os pulmões arruinados pela tuberculose, jamais poderia meter-se numa aventura arriscada que exigiria a compleição quase de um atleta.

O artifício de se valer de um escritor real como personagem não é novidade no cinema. Só na década de 80 podem-se citar dois exemplos: Hammett, de Wim Wenders, onde Dashiel Hammett se mete numa trama policial em muitos pontos semelhante às que ele punha no papel; e A Ùltima Dança de Salomé, de Ken Russell, com Oscar Wilde aparecendo como espectador de sua peça Salomé, encenada num bordel. E se em ambos o resultado foi, no mínimo, satisfatório, o foi sobretudo por Hammett e Wilde se apresentarem de maneira verossímil.

Por sua vez, o espectador que viu Sexo, Mentiras e Videotape ficará desapontado com este segundo filme de Steven Soderbergh. Ele nem se sai bem no propósito de realizar algo diferente do que seria uma simples biografia (e é de lamentar a chance que jogou fora, com um material rico como a vida de Kafka) , nem cria nada em termos de narrativa. Ao invés de acender as próprias luzes, Soderbergh prefere tomá-las emprestadas do Expressionismo alemão, lançando mão de seus recursos estilísticos (câmera inclinada, sombras humanas, close de rostos exóticos ou grotescos). Ainda que possa se tratar de uma homenagem, como quer um crítico, o diretor deveria ter dado um pouco de si mesmo, como faz Brian Di Palma, que não se limita a copiar Hitchcock. E no fato de ele mesclar o preto-e-branco e o colorido, Soderbergh não só não foi original, como fez uma coisa para a qual não vejo explicação.

Mas, afinal, depois de tudo o que foi dito, sobra algo de positivo em Kafka ? Sim. Um ou outro momento inspirado, a fotografia, apesar do seu débito com o Expressionismo, e sobretudo o elenco, repleto de sotaques de várias nacionalidades. Jeremy Irons faz o que pode para parecer com o Kafka que conhecemos de informações, Alec Guiness exibe a classe habitual num pequeno papel, Ian Holm idem, como o sinistro Dr. Murnau (uma homenagem ao cineasta?). Mas a melhor atuação é de Joel Grey (o inesquecível mestre de cerimônias de Cabaret) , vivendo uma espécie de fiscal de funcionários de uma empresa de seguros, onde trabalha Kafka.

terça-feira, julho 15, 2008

PODEM ALGUNS NOMES TER UMA CARGA NEGATIVA?

Minha caçula está grávida do segundo filho. Depois de descobrir o sexo do feto, ela e o marido iniciaram o difícil processo de escolher um nome. Todo casal passa por esse problema. Até surgir um nome que agrade aos dois passam-se muitos dias, até meses. No passado, quando o sexo do filho só era conhecido quando este nascia, a coisa era mais complicada, já que tinha de se escolher um nome masculino e outro feminino. Um dos nomes discutidos foi o de Diego, mas a minha filha logo o descartou ao se dar conta de ser o prenome de Maradona, um usuário de drogas, que, por mais de uma vez, esteve perto da morte. Talvez se ela gostasse de futebol e admirasse o gênio do argentino no trato com a bola, pudesse ter relevado o vício dele.
E aí me voltou a pergunta que me faço já faz muito tempo: alguns nomes podem conter uma carga negativa, que seja nociva à pessoa que com ele foi batizada? Não tenho muitos exemplos (na verdade, só tenho um) para seguir me fazendo essa pergunta. Trata-se do nome Edmundo.
Na minha Canindé conheci três Edmundos (não me lembro se havia outros mais) que me parece atingidos por uma marca do nome que receberam. Há pouco tempo publiquei um conto neste blogue, integrante de um antigo livro meu, em que falava do Seu Edmundo, um dentista. Um homem respeitado, estimado, boa aparência, que, a partir de um determinado momento, começou a beber sem moderação, terminando por se tornar um alcoólatra. Abandonou a profissão e foi abandonado pela esposa, que não pôde agüentar a vida que ele levava. Transformou-se em um desmazelado, motivo de chacota, até morrer, de repente, com pouco mais de 50 anos.
E havia o Edmundo, que devia ter uns vinte anos, um pouco mais, quando eu era um pré-adolescente. Era um prato feito para as brincadeiras (algumas pesadas) dos outros, por ter uma boca muito grande. Além disso, esse Edmundo, que, aparentemente, não ligava para as chacotas de que era vítima, tinha a mania de querer falar "difícil", fornecendo, assim, mais munição para os gozadores. Mas o pior é que, a exemplo do seu homônimo, acabou por tornar-se um alcoólatra. Já morava em outra cidade, onde arranjara um emprego. Um homem bom, afável, incapaz de matar uma barata, mas que, quando bêbado, ficava furioso. Se não batia na esposa, quebrava objetos da casa. Também morreu relativamente novo, de ataque cardíaco, tal como o dentista.
Já o terceiro Edmundo não tinha quase a ver com os outros dois. Ou, talvez, tivesse alguma "afinidade" com o segundo, pois era um tanto tolo, que falava muita besteira, e, ainda por cima, não tinha a afabilidade do Edmundo do defeito bucal.
Tenho pra mim que passei a pensar na influência negativa do nome Edmundo por causa do jogador que surgiu no Vasco e onde joga atualmente, após atuar em outros times. Foi um grande jogador (escrevo no tempo passado porque ele está em final de carreira, não rendendo, talvez, metade do que apresentou até há poucos anos), que alternou o seu desempenho nos gramados com graves problemas motivados por seu temperamento. Chegou a sair na página policial dos jornais por conta de um acidente automobilístico ocorrido depois de uma farra, o qual causou a morte de uma pessoa, ou mais de uma. Nunca foi punido por esse delito, a não ser ter ficado preso por alguns dias. É possível que o processo contra ele já tenha prescrito.
É claro que houve e há outros Edmundos que levaram e levam uma vida sem grandes percalços - se saíram bem na vida. E os que citei aqui teriam passado pelas mesmas atribulações, a sua vida teria sido conduzida da mesma forma se tivessem outro nome. O peso não seria do nome. E os adeptos do Espiritismo poderão argumentar com o tal do carma. Mas que continuarei pensando da mesma maneira, 0u, dizendo melhor, me fazendo aquela pergunta, isso continuarei. Pelos quatro exemplos que tenho.

quarta-feira, julho 09, 2008

AMOR À FLOR DA PELE (2000)







Um filme triste este do chinês Kar-Wai Wong. Triste e amargurado, porque os personagens centrais, Chow (Tony Leung) e Su Linzhen (Maggie Cheung), que é sempre chamada por Mrs. Chan, sobrenome do marido, não conseguem transformar em amor a atração que sentem um pelo outro. A não-consumação desse amor ocorre por causa da mulher, mas a razão não é explicada, apenas ela chega a dizer uma vez "não devemos fazer como eles", que são o marido dela e a esposa dele, que têm um caso. Assim, não vão uma única vez para a cama no seu curto relacionamento, não se fazem carinhos, ainda que estejam quase sempre juntos, até em um quarto de hotel. É como se fossem dois amigos (embora, segundo Borges, a amizade é uma das formas que o amor assume), solitários pela constante ausência dos outros dois parceiros, dois carentes em busca de um amor, já que fracassou o legitimado pelo casamento. Em resumo, não é um filme de amor, mas da impossibilidade de um amor, e, nessa particularidade, "Amor à Flor da Pele" faz lembrar o universo temático de Antonioni, dentro, contudo, de um outro contexto.

O diretor enfatiza bem essa impossibilidade ao reunir os dois algumas vezes à frente de uma grade, cujas barras se assemelham à de uma prisão. E como se fosse um contraponto à falta de entrega total, avassaladora a esse amor, a trama é pontuada em algumas ocasiões pela voz de Nat King Cole interpretando boleros.

Um detalhe a ser destacado é que os dois adúlteros não são vistos pelo espectador. Ouve-se em raras ocasiões a voz deles, ou com Chow, ou com Chan, mas a câmera os "esconde", só mostrando o rosto ou o corpo destes. (Na verdade, há um plano em que a mulher de Chow é vista chorando, depois que o amante lhe diz que vai encerrar o caso, mas de uma forma em que não se distingue com nitidez o rosto dela.) Não interessa ao diretor apresentá-los ao espectador, pois, ainda que os dois sejam os desencandeadores da aproximação e, conseqüentemente, do sofrimento de Chow e Chan, estes, sim, são os personagens que lhe importam, os seus sentimentos, a sua dor.

Wong prova com este filme porque é um dos cineastas prestigiados pela crítica. Sabe produzir imagens de grande beleza, sabe revelar o drama daquele casal unido (e ao mesmo tempo desunido) pelo amor em planos que dispensam as palavras (uma das cenas mais belas e expressivas é a da lágrima caindo do olho de Chan quando ela está sozinha em um quarto, enquanto Chow está em outro quarto) e tem o pulso forte, mas sensível, na condução dessa história triste, como também no desempenho dos atores centrais.
E que linda mulher essa Maggie Cheung!



quarta-feira, julho 02, 2008

BICICLETA



Foto tirada de www.fotosearch.com.br

Via os amigos pedalando as bicicletas, nos rostos a expressão de felicidade. E ainda sem poder discerni-la, a inveja instilava-se em seu coraçãozinho. A raiva, sim. A raiva de se ver privado daquele brinquedo que fazia parte também dos adultos. Ah, como desejava montar numa bicicleta e andar com ela pelas ruas, devagarinho, às vezes, como para fruir a conta-gotas o prazer de sabê-la sua, não precisando recorrer à de um amigo, que a emprestava por pouquinho tempo e sempre o advertindo cuidado, não vá arranhar a minha bicicleta; e em outras vezes, fazendo-a correr, apostando corrida com alguém, pra ver quem chegava antes a um determinado ponto.

Não tinha coragem para pedir ao pai. Sempre recomendando à esposa para economizar na administração dos encargos domésticos, os negócios não iam bem, a seca, outros motivos de queixa que ele ouvia e não entendia.

Sim, havia os dois padrinhos. Talvez com eles fosse menos difícil o pedido. Um era rico, dono de fazenda, de gado, tinha até carro, com motorista. Só que morava longe, aparecia raramente, mas quando vinha à cidade era certo almoçar em sua casa. Difícil era falar com ele, os dois compadres sempre juntos, acompanhados das esposas. Além disso, os raros e pequenos presentes que ganhara dele confirmavam os comentários ouvidos em casa que o padrinho era assim, ó (fechava bem a mão).

O outro padrinho, por coincidência, era também fazendeiro, mas um pequeno fazendeiro. Não tinha carro, ia de cavalo à cidade, e, não sabia a razão, nunca almoçava em sua casa, visitava o compadre na casa comercial. Estava por lá numa dessas visitas, a mando de sua mãe para pegar dinheiro para uma compra. Tomou a bênção ao padrinho, que lhe fez um afago e sacou do bolso uma pequena importância, pra você comprar de bombom. (E não é que ele seguiu ao pé da letra a recomendação?)

Não, daquelas duas tocas não sairia coelho algum.

Um dia em que estava no seu quarto ouviu o pai gritar por ele. Ao chegar, quase correndo, à presença do pai, encontrou-o com o rosto mais vermelho do que o natural, tão irado estava. Segurava numa mão o boletim escolar. A voz alterava o tom à medida que lhe passava uma descompostura, a mão chegava a tremer. Ele ali calado, cabisbaixo, já com medo de apanhar. Nem sabe quanto tempo durou a cena até a mãe chegar e pedir calma ao marido, os vizinhos já deviam estar de ouvidos colados naquela gritaria raivosa. O pai foi se acalmando, de repente calou-se e sentou na cadeira de balanço. Ele aproveitou para sair, mas o pai o chamou de novo, a voz ainda irada, mas baixa. E então lhe disse: "Escute bem o que vou lhe dizer. Se você passar de ano, vou lhe dar uma bicicleta; agora, se você não passar, vai levar uma surra que nunca vai esquecer. Ouviu bem"?

Reconheceu, já sozinho, que errara ao neglicenciar os estudos, como um ato de rebeldia por não ter a bicicleta de que se julgava merecedor. Agira sem avaliar a forma dessa rebeldia, que só teria como efeito a ira do pai podendo chegar ao limite. Fosse pelos percalços nos negócios, fosse por temperamento, ou as duas coisas, o pai perdia fácil o controle e isso repercutia no trato com a esposa e os filhos.

Mas espera aí, o pai não lhe prometera uma bicicleta, se ele passasse de ano? Estava mal em todas as matérias, poucos meses restavam para o final do ano letivo. Mas iria se empenhar - reduziria as brincadeiras, renunciando a algumas, queimaria as pestanas, para não ser reprovado. E surra é uma coisa muito dolorosa. Mais na alma, certas vezes, do que no corpo.

quarta-feira, junho 25, 2008

CANTANDO NA CHUVA (Singin' in the Rain/1952)


Este texto foi aqui publicado em março de 2005. Resolvi republicá-lo como uma homenagem à atriz e dançarina Cyd Charisse, falecida na semana passada, que tem uma participação pequena, mas importante, no musical dos musicais Cantando na Chuva.
* * * * * * * * * *
Cantando na Chuva, de Stanley Donen & Gene Kelly, é o maior musical da história do cinema. Críticos e cinéfilos, creio, não têm dúvida quanto a essa afirmativa. Uma sucessão de belas músicas (principalmente a que dá título ao filme) e uma primorosa coreografia formam uma união
perfeita. Se não tivesse outros momentos inspirados de dança e música, Cantando na Chuva ainda assim se manteria no topo dos filmusicais, graças a duas sequências antológicas. A primeira, mais lembrada, é aquela em que Don Lockwood (Gene Kelly) canta e dança sob a chuva, que é uma das maiores seqüências já realizadas pelo cinema. A segunda, menos famosa, mas de grande brilho, é a dança de Kelly com a bela e sensual Cyd Charisse. É uma dança, inclusive, a que não falta um ingrediente de erotismo, não só por alguns movimentos, como pelo corpo da dançarina.
É preciso ressaltar, no entanto, que a grandeza de Cantando na Chuva deve-se também à sua adesão à comédia, até mesmo à comédia pastelão, na cena em que Katty Selden (Debbie Reynolds) atira uma torta no rosto de Lina Lamont (Jean Hagen), mas que era destinada a Lockwood. E entre os momentos mais engraçados está na pré-estréia do primeiro filme sonoro pelo estúdio onde trabalham Lockwood e Lamont. Aliás, na exibição do filme infiltra-se outro elemento que transcende o gênero musical, ou seja, as dificuldades e problemas enfrentados nos primeiros momentos em que o cinema começou a falar. Entre esses se destaca a voz de Lina Lamont, tão inadequada ao cinema sonoro que ela precisa ser dublada por Katty Selden. (A título de curiosidade: alguns atores do cinema mudo, por causa da voz, não se adaptaram ao cinema falado, sendo o caso mais célebre o de John Gilbert, que teve que abandonar a carreira, falecendo pouco depois.)
O elemento crítico estende-se ao cinema na sua função de magia, de ilusionismo, de escamoteação da realidade (observem-se a seqüência em que Don Lockwood leva Katty Selden para conhecer um "set" de filmagem, e a outra em que Lockwood e Lamont ensaiam uma cena de amor, em meio a um clima de hostilidade entre os dois.
Nessa junção de musical, comédia e crítica satírica ao cinema, Cantando na Chuva ultrapassa os limites do gênero e inscreve-se entre os maiores filmes de todos os tempos, realizado numa época em que o cinema americano, mesmo sem perder de vista o objetivo comercial, vivia uma grande fase criativa, tão distante do que acontece hoje em dia.

quarta-feira, junho 18, 2008

OS FILMES E SEUS MOMENTOS INESQUECÍVEIS

Woody Allen e Diane Keaton em Noivo Neurótico, Noiva
Nervosa (Annie Hall/1977)

Nos filmes a que assistimos guardamos deles momentos inesquecíveis. Pode acontecer que até um filme ruim contenha uma cena, um momento, um gesto de um ator, uma frase de humor, ou qualquer outra coisa, que nos fiquem para sempre na lembrança. Muitas vezes, a lembrança é reforçada por algo semelhante que vemos ou praticamos na vida real. Uma situação, um objeto, uma gargalhada, um rosto de uma pessoa que se pareça com o de um ator pouco conhecido, tudo isso e muito mais contribui para que um determinado filme (mesmo, repito, que não possua qualidades) se perpetue em nossa memória.

Todos os dias quando me levanto da cama, antes de fazer os asseios matinais, vou para a janela do quarto e fico um pouco olhando pessoas praticando o seu Cooper. Vêm algumas em grupos de três ou quatro, outras sozinhas, algumas trotando, até as que formam um casal. E é impossível não me lembrar de Noivo Neurótico, Noiva Nervosa, de Woody Allen. Numa cena, Woody e Diane Keaton estão num local, me parece que num parque, enquanto algumas pessoas fazem a sua caminhada diária. E Woody se dirige à noiva, comentando, em tom de ironia, sobre algumas delas, no modo de praticarem aquele exercício, não poupando nem os idosos, pelo empenho em preservarem a saúde e, com isso, fazerem retardar a chegada da morte.

Em O Selvagem da Motocicleta (Rumble Fish /1983), de Coppola, há uma cena em que o personagem de Mickey Rourke observa um aquário numa loja. Ao jovem irmão, que o ocompanha, ele se manifesta contra a situação dos peixinhos, aprisionados naquele espaço limitado, apartados do seu habitat. E à noite ele penetra na loja fechada para libertar os animaizinhos e devolvê-los à imensidão do mar, mas é flagrado pela polícia e acaba morrendo.

Pois bem. Durante um certo tempo freqüentei uma pizzaria, onde existe um aquário. Sempre ficava perto do aquário e cheguei uma vez ou outra a me sentar à mesa encostada a ele. E observando os peixinhos, me lembrava da cena e do personagem daquele filme.

Acontece, não raro, você encontrar no dia-a-dia uma pessoa que o faça lembrar um personagem de um filme. E nem é preciso que haja entre ambos uma semelhança física. Na década de 1960 passou em Natal Servidão Humana, de Ken Hughes/1964, baseado no romance de Somerset Maugham. Estrelado por Kim Novak e Lawrence Harvey, era a terceira versão realizada daquela obra. Havia aqui um homem de seus trinta e tantos anos (deve ter morrido, ou mudou de cidade, pois nunca mais o vi), que sofria de um problema numa perna, que o levava a andar mancando. O personagem de Lawrence Harvey carregava o mesmo aleijão. Fora isso, não havia a mínima semelhanca entre o ator e o homem comum. Mas o defeito físico de ambos fazia com que um amigo meu se lembrasse de Harvey (e, claro, do filme) e comentasse o fato comigo toda vez que encontrávamos o coitado, o que ocorria com freqüência.




quarta-feira, junho 11, 2008

TUDO PASSA - E DEPRESSA

Este espaço é hoje ocupado pelo jornalista e crítico de cinema potiguar Valério Andrade. Valério é um nome conhecido nacionalmente pelos cinéfilos da minha geração por ter trabalhado durante muitos anos no Correio da Manhã e na Manchete. Na década de 1980 voltou para Natal, onde escreve na imprensa local. É o criador e o organizador do Festival de Cinema de Natal, que já passou da vigésima edição. O artigo, com o título acima citado, foi publicado no Jornal de Hoje e, a pedidos, na Tribuna do Norte, e sai aqui com a sua autorização. Ei-lo.
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Ao ser perguntado por que estava tão feliz no dia do seu aniversário, o velho chinês respondeu: "Porque estou um ano mais perto da minha morte". Em um de nossos últimos encontros, Roberto Campos resumiu numa frase curta o drama da idade: "A velhice é um naufrágio". E poderia ter acrescentado: inadiável, inevitável, sem sobreviventes.
Alguém já observou que a "juventude é um dom precioso demais para ser desperdiçado pelos jovens". Ao ver o marido afundado numa poltrona e incapaz de evitar a incontinência urinária, Simone de Beauvoir teve a certeza de que para Jean-Paul Sartre a cerimônia do adeus havia começado.
A fugacidade do tempo é uma realidade que apesar de estar ao alcance de nossos olhos, somente costumamos perceber quando já adentrou por nossas vidas. Aí, então, vemos a verdade das frases tipo "a vida passa depressa". Ou da advertência: "aproveite enquanto é tempo". Mas, aí, também já e tarde demais.
A velhice é o pior dos castigos a que o homem é submetido antes da visita da Dama de Negro. É doloroso ver na tela da televisão ou do cinema a destruição física da beleza. Estátuas de carne e osso cobiçadas por homens e mulheres, despojadas da antiga sedução carnal e ostentando na face e no corpo as cicatrizes do tempo. O recurso da cirurgia plástica é um refúgio mais ilusório do que real, que, às vezes, em vez de ocultar, acentua os estragos da idade. Veja as nossas atrizes das telenovelas - com seus rostos de boneca plastificados.
No mundo fantasioso das idealizações românticas, Vicente Serejo[jornalista norte-rio-grandense] elegeu duas musas: Greta Garbo e Sônia Braga. A esfinge sueca, numa atitude tão drástica quanto inusitada, retirou-se de cena na plenitude física dos 40 anos, sem passar pelos tormentos da decadência física e do declínio artístico. Sônia Braga, cuja imagem eternizou-se através da Gabriela, erotização juvenil da beleza brasileira, fez uma reaparição deprimente no programa de Daniel Filho. Chocante, não por estar envelhecida, mas, ao contrário, por causa da artificialidade rejuvenescedora de cirurgias e da utilização de botox.
Recomendo a Serejo que não vá ver a Sônia que vi na televisão. É melhor para a mente e o coração, imaginá-la como ela já foi. Afinal, já que não podemos dar adeus às ilusões da vida real, evitemos a despedida dos mitos físicos de nossa juventude. O castigo dos deuses não se limita à sentença da velhice. É extensivo às cabeças pensantes e às celebridades políticas. Como esquecer a imagem de Jânio Quadros, esquelético, entrevado, aparentemente senil, sendo carregado nos braços por um enfermeiro? Ou saber que Franklin Roosevelt, vítima de apagões da memória, às vezes falava com um membro do governo sem identificá-lo. Ou Roberto Campos, ainda na plenitude intelectual, emudecido e impossibilitado de escrever.
Esse vendaval de lembranças veio à tona por ocasião do meu aniversário. Entretanto, como não tenho como deter a descida do tempo ladeira abaixo, a comemoração serviu de pretexto para reencontrar os amigos, o que para nós, fordianos, que cultivamos e priorizamos a amizade, é o que melhor sobrou dos tempos idos e vividos.

quarta-feira, junho 04, 2008

AS TARDES DE DOMINGO FORAM FEITAS PARA LEMBRANÇAS?

Foto tirada de olhares.aeiou.pt


O domingo se arrasta monótono e quente. Estirado na rede, conservo o hálito do vinho e do peixe saboreados no almoço. A televisão está ligada no Santo Sílvio. O rádio do vizinho transmite um jogo de futebol. Não sinto ânimo para fazer coisa alguma. Apenas ficar deitado, ouvindo os ruídos de uma tarde de domingo. No jornal da manhã li a notícia da morte de um colega de escola. E não sei explicar por que a morte de Pirrita não me saiu da cabeça.Talvez pela forma trágica de que morreu: num tiroteio com a polícia. Seu nome e retrato freqüentavam quase diariamente as páginas policiais. Até que lhe chegou o fim violento. Deve ter sido por isso que lamentei tanto a sua morte, já que, no colégio, nem chegamos a ser amigos. Tornara-se traficante de drogas e era caçado há muito tempo pela lei.
Porque, por exemplo, quando morreu o Doca Cunha eu senti - menino e senti. Mas Doca Cunha foi um dos heróis da minha infância, por seu destemor. Um bravo que se acabou por uma bala traiçoeira do Zé Feitosa, ao meio-dia de um domingo. Estava numa mercearia do mercado público, onde, uma vez, agredira um cunhado. Contam que a irmã lhe rogara uma praga, de que ele teria o seu fim naquele mesmo local.
Uma morte que por muito tempo vivificou em minha memória e em meu coração. O mesmo, acho, aconteceu aos meus amigos. Ela era um assunto predominante em nossos papos.E afirmava-se - alguns quase chegando a jurar - que o seu filho Amauri lhe vingaria a morte quando se tornasse adulto. Que maus profetas! Amauri, rapaz, tornou-se assassino, não do matador do pai, mas do próprio irmão.
Já era adulto quando Seu Edmundo morreu. Conheci-o já corroído pela bebida, mas ainda um bonito homem. Acompanhei, penalizado, a progressiva decadência física e moral de um homem respeitado e querido. De uma viagem que fiz em sua companhia nunca me esqueci. Foi há tanto tempo, eu era garoto, mas me lembro bem dele, bêbado, importunando o motorista e ironizando a história de um livrinho que trazia comigo. Era bem chato quando bebia. Numa manhã, na fazenda de um amigo, contava uma história quando o coração parou.
Toinho Jacinto o vi um dia desses. Mal vestido, fedendo a álcool, cantando uma putinha. Uma caricatura do Toinho saudável, elegante nas proporções de sua condição financeira e da nossa cidadezinha. Toinho, o craque de futebol que jogava de uma maneira que dava gosto ver. Não compreendíamos por que nunca foi atraído para um time da capital. Hoje me parece mais fácil entender a razão: naquela época abundavam os grandes jogadores, ao contrário do que ocorre atualmente. Talvez ele até hoje ignore que nos tenha propiciado momentos de felicidade, no dia em que participou de uma pelada com a minha turma.
O momento não estimula a ação. Sem vontade de deixar a rede, sequer para ir ao banheiro, só me resta relembrar as figuras que me enriqueceram a infância. Ah! o velhinho Vitorino. Um homem sempre bem humorado, apesar de a vida o ter tratado com desprezo. Parece-me que o estou vendo de rosto escancarado para alardear a amabilidade e a simpatia de Juscelino e compondo uma carranca com que arremedava a sisudez de Juarez. E reproduzindo os sons dos instrumentos da bandinha de música. Ao morrer, terá sido velado com a mesma abnegação com que velava os corpos dos indigentes? Penso que não. Pior para os que nunca puderam apreender a sua beleza espiritual. Mas meu avô, também da linhagem dos simples, descobriu-lhe a riqueza humana logo no primeiro contato entre os dois. Tendo acontecido ser apresentado pela mamãe, na mesma ocasião, a um figurão da cidade, confessou à filha que gostara bem mais do humilde Vitorino.
Era sargento. Hoje não sei a sua patente. Por isso continuarei a chamá-lo de Sargento Adauto. Revi-o um outro dia. Velho, quase surdo, mas ainda conservando o vozeirão aprimorado nas instruções aos recrutas. Um soldado em quem a vivência na caserna não embotou os princípios de urbanidade, nem o enquadrou na disciplina que rege o relacionamento entre superiores e subalternos. Dele não posso esquecer (viva mil anos) arrancando-me a tempo de ser pisado pelas rodas de um carro. Correra do papo com os amigos - uma reunião na calçada do hotel - para me salvar da morte buzinante.
O rádio do vizinho solta um grito de gol. Não ouço euforia no homem. Talvez o gol seja do time adversário; talvez o vizinho não seja dado a rompantes de alegria. Até a mim chega a risada televisiva do Sílvio. Não recobrei o ânimo. O vinho e o peixe ainda pesam. Não só eles: a rede também. Como se todos os meus heróis tivessem se deitado comigo.
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Conto do meu livro "Um Dia... os Mesmos Dias" (1983) , publicado aqui com pequenas alterações na linguagem original.