quarta-feira, maio 17, 2006

A M/AE E O FILHO



Lygia Fagundes Telles tem um conto em que a mãe vai ao cinema com o filho pequeno. Pouco depois de iniciado o filme, um homem senta ao lado da mulher. Ele não é um estranho, que ocupou por acaso aquela poltrona. Aos cochichos, começam uma conversa, com brevíssimas pausas. Parece, não tenho certeza, há tantos anos li esse conto já meio antigo, que os dois chegam a entrelaçar as mãos. E teria a mão dele repousado, em algum momento, no ombro dela? É possível, mas não não descarto a intenção da memória de também ela praticar uma traição.
O filho está muito atento ao que se passa na tela, mas, em dado momento, percebendo o interesse da mãe em conversar com aquele homem, começa a estranhar a atitude dela. O interesse pelo filme é diminuído, e o garoto vai alternando a atenção entre o filme e o que se passa ao seu lado. Mesmo na sua pouca idade, sente que há algo errado na atenção que a mãe dispensa ao seu vizinho. Este se retira um pouco antes de terminar a sessão. Na volta para casa, a mãe diz ao filho para não contar ao pai o que ocorreu no cinema. Não me lembro se lhe promete um presente, ou o ameaça com um castigo , em troca do silêncio. O garoto promete, mas, ao entrar em casa, vai ao encontro do pai e lhe dá um abraço apertado, comovido abraço, exclamando, se não me engano, papai, papai. Não lhe diz nada. Nem a autora também. É suficiente a reação do menino. E assim termina esse belo conto de LFT.
Há poucos dias me lembrei desse conto, ao testemunhar um caso semelhante na praça de alimentação de um supermercado. Estava bebendo chope, enquanto esperava minha mulher fazer umas compras. A uma mesa defronte à minha, uma mesa separando as nossas, uma jovem mulher e o filho pequeno almoçavam. Era uma mulher pouco atraente, um pouco gorda, de óculos. Mas era jovem e exibia um decote que, anos atrás, se classificava de generoso. Percebi que comia apenas legumes com arroz, devia estar se submetendo a um regime para perder alguns quilinhos. O garoto, de costas pra mim, comia com vontade. Devia ter uns 8 a 10 anos, vestia uma calça comprida e era espigadinho. Logo observei um rapaz almoçando sozinho, a uma mesa na mesma fileira da mesa da mulher, a uma pequena distância dela. Ele comia com o mesmo gosto do garoto, mas, embora concentrado no prato, aqui, acolá, dava uma olhadela para a mulher, que parecia não perceber. E aí ocorreu o inesperado: ele largou a refeição, levantou-se e dirigiu-se para a mesa da mulher. O local estava quase lotado, havia um burburinho de vozes, então, não pude ouvir o que o rapaz, de pé, dizia à jovem, mas me pareceu que ele a achara muito parecida com outra mulher e lhe perguntava se eram parentes. O rapaz era alto, um pouco corpulento, e se não era especialmente bonito, possuía um certo charme. Era atraente. (Gostaria de dizer que a mulher era mais bonita do que ele, mas o que fazer? Estou relatando um fato real, não estou escrevendo um texto de ficção.) Ele deve ter perguntado se podia ocupar a mesa, e ela deu permissão, pois, de repente, voltou à sua mesa, pegou o prato e o suco e foi sentar ao lado do garoto. E o rapaz e a jovem senhora começaram a conversar animadamente e sem darem descanso às línguas. E foi então que notei. Notei que o menino espigadinho, com frequência começou a desviar os olhos do prato para dirigi-los ora à mãe, ora ao rapaz. Como se, repentinamente, achasse que alguma coisa não batia bem naquela conversa. (Preciso dizer que a mãe conversava com os olhos fixos no interlocutor, que, certamente, fazia o mesmo.) E a conversa continuou até quando terminaram de comer. Não sei quanto tempo os três ficaram ali, pois logo depois a minha mulher apareceu, terminei o chope, já pela metade, paguei a despesa e fomos embora.
Mas desde então fiquei pensando no garoto. Será que lhe aconteceu o mesmo que ao garoto do conto? A mãe lhe teria pedido que não dissesse ao pai sobre a presença do rapaz na mesa?Teria ele também abraçado o pai, quando chegou em casa? Como se sabe, a vida, muitas vezes, imita a arte. Mas são apenas hipóteses. Talvez a mãe seja separada. Ou viúva, apesar de nova. Não se sabe. Mas, confesso, senti pena do menino.

Um comentário:

Manoel Carlos disse...

Sim, por vezes a vida imita a arte que imitou a vida.