terça-feira, fevereiro 01, 2005

CARNAVAL

Não gosto de carnaval. Nunca gostei. Nunca brinquei. Mas as músicas me fascinavam e ainda hoje cantarolo algumas, principalmente as compostas nas décadas de 1930 e 40, as fases mais criativas daquele gênero musical. Até me casar, a não ser em raras ocasiõies, passei o carnaval em Canindé, a cidade onde nasci. Mesmo quando já estava trabalhando corria pra lá, na época do carnaval. Na infância e adolescência, quando começava o baile no clube, a poucos passos da minha casa, ia fazer parte da turma do "sereno", vendo os foliões pular ao som das marchinhas e dos sambas. Alguns deles a gente via chegando, passando pertinho da gente, com as suas fantasias, que gostava de ver. E o lança-perfume? É um cheiro que sinto até hoje, apesar de nunca o ter aspirado, se posso confiar na memória. Perto de mim, ali na frente do clube, testemunhei muitas vezes um folião ensopar o lenço de lança-perfume e levá-lo ao nariz. Na minha memória ficaram para sempre guardadas as fantasias usadas por um um bloco de 4 ou 5 rapazes.Desfilavam à tarde, trepados em um daqueles jipes grandes, que, já nos anos 50, não se fabricavam mais, alugado a um médico. E montados nele chegavam ao clube, já cheios de cana. Era "A Turma do Funil", nome tomado de empréstimo a uma marchinha que fez grande sucesso.
Sempre que me lembro daqueles modestíssimos carnavais de Canindé logo me vem à cabeça a figura de Boió. Um mulato baixo e atarracado, que, quando o conheci, tirava a subsistência com a revenda de revistas semanais que ia comprar em Fortaleza. A mais vendida, entre as mulheres, era a Capricho, por causa das fotonovelas de procedência italiana. Uma das minhas irmãs era freguesa de Boió e, assim, cheguei a ler muitas daquelas melosas histórias que faziam um grande sucesso na época. Pois esse Boió, um sujeito calmo, trabalhador, humilde, soltava a franga quando chegava o carnaval. Brincava os quatro dias, municiado, claro, de bebida, usando uma fantasia condizente com os seus recursos financeiros e em que o bom gosto passava longe. Fantaisa que variava a cada ano. Uma delas, me lembro bem, imitava um índio. E o curioso é que brincava sozinho. Seu quartel-general era a calçada de um extinto posto de gasolina, que, no entanto, conservara a mercearia. Ficava pertinho da minha casa. Do alpendre dava para vê-lo dançando solitário, sob as vistas dos curiosos. E o mulato tinha um bom gingado.
Há outra figura que associo ao carnaval. Mas não era da minha cidadezinha, nem festejava o carnaval. Pelo contrário. Era um padre de Fortaleza, que não cheguei a conhecer, nem sequer lhe guardei o nome. Quem me falou dele foi um outro padre, quando eu trabalhava no interior do Ceará. Não pude, pois, testemunhar o que vou contar sobre ele, mas confio na veracidade das palavras do seu colega de batina, que, por ser um ministro de Deus, não iria mentir. (Será mesmo que não?)
Esse padre fazia parte daquele grupo de viventes que parecem viver à procura de um ficcionista, que os coloque como personagens de seus romances e contos. Quando ele ia dar a comunhão, se entre os presentes estivesse um figurão da cidade (um político de renome, um médico conceituado, um professor brilhante, etc.), antes de pôr a hóstia na boca do fulano, parava com a hóstia na mão e dizia, em alto e bom som, para todos os preserem ouvirem: "vejam que exemplo está dando o... (e pronunciava o nome do medalhão). Uma figura de renome e aqui ajoelhado para receber o Corpo de Cristo". Se o sujeito fosse um pavão (p. ex., um poeta aqui de Natal), subia ao céu. Mas se fosse alguém avesso aos holofotes, pedia a Deus que o chão se abrisse para ele desaparecer dali.
E num domingo de carnaval ele dedicou o sermão a investir contra a "festa profana". Não sei se os padres de hoje agem assim, tanto eles mudaram, alguns até viraram cantores. Mas naqueles tempos era um fato comum, e o padre naquele domingo, do alto do púlpito, fazia a condenação ao carnaval, conclamando os presentes a fugirem dele. Quis usar uma palavra para qualificá-lo adequadamente, já perto de encerrar a sua diatribe, e a palavra não apareceu. Tentou umas três vezes, mas o o diabo do substantivo não lhe ocorria. Desistiu e continuou o sermão. Ocorreu que, algum tempo depois de encerrado o sermão, de frente para o altar, a palavra (aleluia!) veio em em seu socorro. Ele não vacilou um segundo, interrompeu a missa, virou-se para os fiéis e disse: "meus irmãos, a palavra que eu queria dizer naquela hora era bacanal. O carnaval é uma bacanal". E retornou à celebração da missa.
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E abaixo a letra de um clássico de uma música de carnaval, composta por João de Barro (Braguinha), para o carnaval de 1947.
ANDA LUZIA
Anda Luzia,
pega um pandeiro
e vai pro carnaval.
Anda Luzia,
que essa tristeza te faz muito mal.
Apronta tua fantasia,
alegra o teu olhar profundo.
A vida dura só um dia, Luzia,
e não se leva nada deste mundo.

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