terça-feira, setembro 15, 2009

NOMES



Quando ela disse que se chamava Meiriely (com ípsilon no final, fez questão de frisar), um risinho de mofa, impossível de ser contido, assomou aos lábios dele. Essas donas nunca dizem o nome verdadeiro, pensou. Mas além de não acreditar que a mulher tinha esse nome, achou-o tão incomum, exótico até, que ficou curioso. Por que se chama assim? Hi, todo mundo pergunta isso. A mamãe diz que viu num livro. Sua mãe gosta de ler? Virgem Maria! Aquela ali parece que nasceu com um livro nas mãos. Ele ficou matutando em qual livro a mãe dela tinha visto aquele nome. Tinha a mania pelos nomes próprios inusitados, que só eram dados a uma pessoa. Não poderia existir outra mulher com o nome de Meiriely, ou que viesse a existir. E você, qual é o seu nome? Ah, o meu nome é tão usado, que é capaz de você adivinhar. Ela pensou um instante e disse José? Tá vendo como é fácil de saber? Mas como você é chamado? Zequinha. Mas podia ser Zezinho, Zeca, Zé, e até Juca (tem alguns Josés que são chamados de Juca). Mas nem a sua família lhe chama de José (ela estava ficando curiosa)? Só os meus pais. E você? Todo mundo lhe chama de Meiriely? Positivo. Ele sorriu, ela perguntou por quê. Não é nada com você. É que me lembrei de uma namorada que tive. Devia ser um nome muito engraçado. Ele voltou a sorrir. Sabe como ela se chamava? Sim? Primitiva. Primitiva? e soltou uma risada que chamou a atenção de algumas pessoas sentadas próximas à mesa deles. Primitiva, ela repetiu e riu, mas dessa vez com comedimento. Francamente! Era pelo menos bonita? O pior é que não era. E por que, Zequinha, você foi justo namorar essa Primitiva? Sei lá. Mas era boa gente. Até fiquei com pena quando terminei com ela, ela chorou. Bem, com um nome desse, o que você tinha mesmo era que terminar o namoro. Mas era boa gente, tão boa gente que ficou minha amiga. Ah, bom. E você? Nunca namorou um cara com um nome assim? Nunca. Ele interrompeu de repente a conversa, para pedir outra cerveja. Enquanto isso, ela ficou pensativa, como se estivesse querendo se lembrar de algum homem de nome estranho que passara pela sua vida. Mas não disse nada. Ele voltou à conversa e perguntou se podia chamá-la só de Meiri. Se você quer assim, que assim seja, mas não ia gostar. Ele sorriu, tá bem, que seja Meiriely. E eu fico lhe chamando de José, tá bem? Você que sabe. Se quiser pode ser Zequinha, como você me chamou há pouco, eu já não me importo mais, mas olhe, vamos virar o disco. Virar o disco? Mudar de assunto, esse papo já tá pra lá de Marrakesh, como diz aquela música do Caetano. Puxa, essa expressão deve ser do tempo da minha mãe. Eu sou do tempo da sua mãe.
Despertou com o ronco dela. Estava de costas para ele. O lençol não cobria todo o seu corpo e uma parte da bunda estava exposta. Uma bunda bonita, ele já a tinha visto inteira, antes mesmo de irem para a cama, quando ela se despira na frente dele. Ficou algum tempo olhando praquele lado, em certo momento tentou, com cuidados para não acordá-la, afastar mais o lençol, mas não conseguiu. Um pensamento lhe veio de repente. Levantou-se silenciosamente, com passos de lã foi até onde ela deixara a roupa e a bolsa. Remexeu na bosa, até encontrar a carteira. Achou o RG e pôs os olhos no nome dela. Tomou um susto: ela se chamava mesmo Meiriely. Não era, então, um nome de guerra, como as outras faziam. Foi para o banheiro.
Ela acordou, olhou para o lado e não o viu. Logo ouviu o ruído da água do chuveiro. Espreguiçou-se e, tão de repente como ocorrera com ele, veio-lhe o mesmo pensamento. Levantou-se, também nua, apesar da temperatura do ar condicionado. Foi também para o local onde ele depositara a roupa. Quando olhou a carteira de identidade dele, teve vontade de explodir numa gargalhada. Mas riu baixinho, para não ser ouvida. Voltou para a cama e ficou na mesma posição em que ele a vira. Mas não recuperou o sono. Ficou pensando no nome dele e rindo baixinho, enquanto repetia o nome Meirelaz.

Um comentário:

Lili disse...

Todo nome normalmente tem uma história... e é interessante saber a verdadeira história dos nomes, de onde vieram os nomes.
Ás vezes, por conta de um nome a gente já nasce predestinado a um monte de coisas...
Muito bom o conto!
Beijo pra vc!