quarta-feira, janeiro 02, 2008

UMA VELHA FOTO



Futebol , quadro de Portinari.

No dia de Natal recebi um telefonema do Quinca. É aquele amigo de infância que em uma noite de 2005 me telefonou, depois de mais de quarenta anos sem termos contato, e não quis se identificar, esperando que eu lhe descobrisse a identidade com o lançamento de pistas, o que acabou acontecendo. (Relatei o fato neste espaço.) Desta vez ele me ligou mais para me desejar um feliz ano novo, mas, em meio à breve conversa, Quinca revelou que possuía uma foto em que ele está comigo e mais três meninos. Também tenho essa foto, disse a ele. E, rapidamente, falamos sobre os outros fotografados. A foto foi tirada antes de um jogo de futebol. Não foi uma pelada, mas uma partida "oficial", pois estamos de camisa. Se não estou enganado, foi um jogo no campo do convento dos frades franciscanos, contra os alunos internos. Curioso o fato de estarem ali apenas os atacantes. Eu estou agachado, as mãos pousadas na bola, ladeado pelo Nei e Tonico. De pé, o Quinca e o Boroca, este com uma mão apoiada no meu ombro. Ao fundo aparece uma árvore frondosa. Nei, dos quatro, o menino com quem tive menos contato, era filho de uma professora, dona Nilda, uma mulher alta e muito simpática e comunicativa. Tonico, filho de Raimundo Marreiro, proprietário de uma casa comercial no mercado de Canindé. Embora me desse com ele, era mais amigo de um dos seus irmãos, o Marreirinho. Tonico tinha mais dois irmãos e uma irmã. A mãe, dona Laura, sofria de uma doença mental e vivia enclausurada em casa. Boroca era um pretinho, de uma família de uma situação financeira razoavelmente boa, pois o pai (Zé de Lima) era dono de uma agência de passagens de ônibus. Zé de Lima tinha as unhas das mãos muito crescidas, quase do tamanho das do cineasta José Mojica Marins. Era um tanto pernóstico e, por causa disso, fazia parte do anedotário da cidade. Boroca era o melhor de nós cinco e, talvez, o melhor de todos os seus companheiros de peladas. Me lembro do seu domínio de bola, dos seus belos dribles, dos seus lançamentos. Tinha futuro como jogador. Mas deve ter optado por outra profissão, pois não ingressou num time da capital, como era de se esperar. Não sei que fim levou. Vou procurar saber notícias dele, quando me encontrar com o Quinca, provavelmente ainda este semestre em Fortaleza.

Esse foi um dos raros jogos "oficiais" que fizemos. Jogávamos mesmo era pelada, que, naquela época, não tinha esse nome. Todo "santo dia" eu jogava. E quase sempre saía com os pés feridos. E à noite, antes de dormir, a mamãe passava Asseptol nos pés, sempre reclamando do meu "vício" e ameaçando contar sobre ele ao papai. Mas acho que o papai sabia que eu jogava, mas fingia que não sabia. Por conta do futebol, levei umas duas surras da mamãe, uma delas de ficar na memória.

De tanto jogar, tive um dia um problema muito grave em um dos joelhos. Não sei em qual dos dois. É capaz de ter sido no esquerdo, onde sofro de uma artrose que me aporrinha há mais de 20 anos. Mas como dizia, foi um problema grave. O joelho doía e eu andava mancando. É possível que a mamãe tenha me levado ao doutor Aramis, o médico da cidade, que, como os médicos daquela época, tinham que entender de todo tipo de enfermidade. Ele chegou a se eleger prefeito. Sei que tomei remédio em cima de remédio e nada. Já estava preocupado e a mamãe também. A preocupação dela era ainda maior porque combinada com o medo de o papai descobrir a causa da doença. Ele deve ter me perguntado alguma vez por que eu andava mancando e eu, certamente instruído pela mamãe, inventei uma história. Até que um dia apareceu lá em casa uma mulher pobre, que morava um pouco longe da cidade. Parece que a mamãe era madrinha de um filho dela. Pois essa mulher humilde foi que acabou curando o meu mal. Ouvindo mamãe relatar, já aflita, o meu caso, recomendou o uso de um tipo de planta, cujo nome não me lembro. Fazia-se uma infusão dessa planta, que essa senhora trazia. E toda noite a mamãe aplicava a infusão no meu joelho. Não me lembro quantas vezes usei o "remédio". Só sei que, em poucos dias, ele começou a surtir efeito. Até desaparecerem a dor e a dificuldade de caminhar. E já não era sem tempo, tanta a falta que sentia do meu jogo diário. E apesar da advertência da minha mãe, que não queria que eu voltasse a jogar, logo que me vi curado, voltei aos campinhos de areia. E haja Asseptol!

5 comentários:

Lylilyn@ disse...

Uau! Você escreve hein!
Hoje passei no teu blog dei uma olhada geral, sabe, eu nunca estou conformada com o meu blog, fico pensando que posso melhora-lo olhando blogs legais...é isso ai! Bonne Année!
Liz

van disse...

legal seu blog.curte muito cinema.vi e revi o Traidos pelo desjo" escrevi uma cronica a ressepito.O amor aparece de forma inseperada.sempre é um tema que me atrai e comove:as dores,as perplexidades do amor...as contradiçoes.sabemos amar???O filme é lindo. Preciso voltar a sua terra que é muito linda.Sou do Rio de janeiro.

Demetrius Marreiro disse...

Que mundo pequeno. Sou filho de um amigo seu, o Tonico Marreiro. Revirando como de costume a internet, me deparo com um conto interessante e tenho a grata surpresa de saber que o autor é filho de Canindé. gostaria muito de ver essa foto.
Um grande abraço.

Demetrius Marreiro

demetriusm@gmail.com

Anônimo disse...

Meu nome: José de Arimatéa. Também gostava de futebol e por vezes andei me machucando. Sou filho do Mestre Wilson, sapateiro. Hoje sou casado com Aurora Marreiro, irmã do Tonico, a quem você se refere na crônica. Tudo pra dizer que gostei. Gostei de saber que temos um conterrâneo escritor. Reclamo muito das potencialidades da terra e das poucas publicações sobre Canindé. Meu abraço canindeense.

Euclides disse...

Rapaz, eu sou canindeense como você, sou Filho de um personagem deste conto.Raimundo Marreiro.Moro no Rio de janeiro, talvez vc nem saiba da minha existencia, pois sou filho da "segunda" mulher do Raimundo Marreiro.Parabens vc escreve muito bem, e vc se refer ao Marreirinho, que o destino quis tirar a vida nos meus braços nesta cidade de idiotas violentos.
um abraço, de seu mais novo fã
kid