domingo, março 25, 2007

MINHA IRMÃ TERESINHA

Outro dia falando aqui sobre a vovó Bilinha, mencionei, de passagem, a minha irmã Teresinha, vendo-a rir das conversas da mãe de minha mãe. Gostava de rir a mais velha das minhas três irmãs. E ela tinha motivos de sobra pra ser uma pessoa triste, sisuda, mal-humorada. A vida não foi boa com ela. A causa de todos os percalços e dores e humilhações por que passou foi a má sorte de ter se apaixonado por um homem que não a merecia. Um sujeito com nome de flor, mas que era um cafajeste, que batia nela, gostava de beber e ia atrás de outras mulheres. Quando ela se apaixonou por esse canalha eu ainda mijava na rede. Mas quando crescidinho, comecei a ouvir histórias sobre o namoro dos dois. O papai fizera tudo para impedi-lo, porque sabia que aquele homem não prestava. Mandou-a, na esperança de que a minha irmã esquecesse o namorado, para a casa da vovó Bilinha. De nada adiantou essa providência. Quando Teresinha voltou, os dois fugiram e , em seguida, se casaram.
Tiveram vários filhos, dos quais apenas três sobreviveram. Já era grandinho o último que morreu, vítima de uma enfermidade que o deixou em cima de uma cama por muito tempo. Eu já não morava em Canindé, mas, de longe, pude acompanhar o sofrimento da minha irmã e do filho. Alguém lá de casa me contou, numa carta, que seu enterro foi acompanhado por um grande número de pessoas. Talvez o fato tenha dado um pouco de consolo para a coitada da mãe.
Guardarei até o dia de morrer uma lembrança horrível (não me ocorre agora um qualificativo mais adequado, ou até mais de um) da vida de Teresinha e seus filhos. É o tipo da lembrança
que eu daria tudo para vê-la apagada da memória. Não posso esquecer a minha irmã passando fome junto com os filhos e por causa de uma atitude radical do meu pai. Um aborrecimento que teve com a filha, do qual não me lembro, fez com que meu pai proibisse a presença dela em nossa casa, quando ele estivesse por lá, e, o pior, a recusa a qualquer ajuda a ela. E, então, depois que almoçávamos papai ia cochilar numa cadeira de balanço. Instruída por mamãe, Teresinha ia para os fundos da casa receber o prato de comida que dividia com os filhos. Um prato de comida! Minha irmã passando por uma mendiga. Acho que nem tocava no prato, deixando o pouco de comida para os filhos mais famintos do que ela.
Mas vá entender a mente (e o coração) das pessoas! Quando Teresinha passou uns dias comigo aqui em Natal confessou à minha mulher que sempre quisera mais bem ao pai do que à mãe. Na sua estada em minha casa, uma coisa me incomodou. Devo (não tenho certeza) ter "brigado" com ela pelo fato de ela se recusar a usar um dos nossos dois banheiros, preferindo o da empregada. Não sei o que a levava a fazer isso. Me lembro bem que reclamei da sua atitude ao filho caçula de Teresinha. Manifestei-lhe a desconfiança de que ela se arrependera da longa viagem que fizera, mas o sobrinho me tranquilizou: de todos os sete irmãos dela, eu fui o único em cuja casa ela quis passar alguns dias. E eu fiquei envaidecido por isso.
Quando os filhos cresceram e arranjaram emprego, a vida de Teresinha melhorou. Um dos filhos era funcionário do Banco do Brasil, que, naquela época, pagava um salário digno, e, graças, principalmente a esse (o caçula), aqueles dias de privações terminaram. Mas até para morrer, a minha irmão comeu o pão que o diabo amassou. Passou dois anos ou mais prostrada numa cama, na casa de um dos filhos, só pele e ossos. Até o dia em que descansou finalmente de todos os sofrimentos por que passou em vida. Minha irmã pertenceu àquela categoria de pessoas que vêm ao mundo para sofrer. E, no entanto, era alegre, risonha, gostava de contar casos engraçados com os habitantes da nossa cidade. Assim são as pessoas. Assim é a vida.

2 comentários:

Dora disse...

Sobreira! Tentar entender a existência é tarefa inútil...eu acho...Mas, eu fiquei tentando entender sua irmã, sempre tão sofrida, e cheguei à conclusão de que ela deveria ter um caráter forte e íntegro. Ela poderia optar por uma vida menos rigorosa, mas, foi fiel à própria escolha e às conseqüências dela advindas. Admirável mulher eu achei!
Meu aplauso vai para ela!
E para você que tão bem soube descrevê-la!
Beijo meu.
Dora

Anônimo disse...

Caro Sobreira,

Sou canindeense e sei bem de quem você está falando. Conheci algum de seus irmãos e fui aluno do Bosco e da estima professoara Zênia. Conheço bem seus sobrinhos e o drama da dona Terezinha. Admiro muito sua coragem de expor este drama familiar que todo Canindé(daquela época) conheceu. O nome de flôr continua vivo, conta-se que comteu alguns homicídios em outras terras e, de dominio público, algumas lesões, mas vem escapando de prisão. Mesmo com mais de 80 anos ainda é extremamente mau. Está porém, bem decadente, é uma espécie de moribundo condenado a vida, se é que se pode chamar aquilo de vida..