quarta-feira, fevereiro 21, 2007

A POESIA DE CONCEIÇÃO EUGENIO

Reservo hoje este espaço à poesia da amiga portuguesa Conceição Eugenio, que, com a generosidade e a gentileza que lhe são inerentes, me presenteou 3 dos seus livros publicados. Os poemas aqui mostrados foram tirados dos livros "Falar Mulher" (Editora Sol XXI, 1997), e "As Tarefas Transparentes" (mesma editora, 1998) . O primeiro desses livros tem uma parte de prosa. Conceição Eugenio tem outros livros, e é editora de 3 blogues (ou casotas, como ela gosta de dizer ): http://estranhosdias.blogspot.com/ ; http://balaodeensaio.blogspot.com/ e http://fragmomentos.blog.com . Eis os poemas.
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A mulher
podou
o rosto
de fresco
esperando
(quem sabe...)
novas madrugadas.
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Tenho uma tristeza
tão profunda e tão real
como se fosse coisa física.
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Pego-lhe com as mãos
e coloco-a num móvel
à minha frente.
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E observo-a tão espantada
quanto a noite
por tal coisa existir em mim.
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Tão grande e tão funda.
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E retirando-a eu de mim,
com as mãos, ela continuar
(ainda assim) presente.
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Uma criança corria na berna da estrada
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Como tão dentro da própria alegria
que parecia alada.
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Corria solta.
Mensageira das boas novas.
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Alheada da seca e queimada paisagem
corria.
O alcatrão quente não a queimava
pois corria
como quem pisa a matéria
de que são feitos os sonhos...
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corria tão dentro da própria alegria,
num estado de pureza total,
que o seu rosto lembrava uma estrela
refulgindo de êxtase e puro contentamento.
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Entre o nojo e a tristeza
os campos
verdes de pedra parecem
dizer a deus
os mortos a funda(e)m-se
e emergem erectas
pedras que crescem
para os céus
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os vivos dobram-se
sobre a terra na espinha
curva e caem esquecidos.

Um comentário:

zuladairam disse...

Obrigada pela partilha do trabalho poético de Conceição Eugénio.