domingo, agosto 13, 2006

A JANELA DA FRENTE (La Finestra di Fronte/2003)


Convalescendo de um acidente, um fotógrafo em "Janela Indiscreta" (Hitchcock/1954) preenche a ociosidade observando o que ocorre com os vizinhos de apartamento. E nesse voyeurismo forçado termina por descobrir um crime praticado por um locatário contra sua mulher. Em "A Janela da Frente" , a dona de casa Giovanna (Giovanna Mezzogiorno) gosta de observar o vizinho solteiro Lorenzo (Raoul Bova), quando este se torna visível através da janela que fica defronte ao seu apartamento. Mais do que curiosidade, existe um interesse por ele, talvez por consequência da situação do seu casamento com Filippo (Filippo Nigro), marcado por desentendimentos e discussões constantes. Ela não sente mais desejo pelo marido, como é demonstrado numa cena em que ele a procura, após vários dias sem fazerem sexo, e Giovanna alega estar cansada para atendê-lo. A aparição de um velho desmemoriado, que eles encontram na rua e Filippo leva para casa, irá agravar a crise conjugal, porque ela não concorda com a atitude do marido.
É o grande personagem de "A Janela da Frente" esse velho. Por ele, aliás, é que Giovanna e Lorenzo se encontram num café, quando ela vai levá-lo à delegacia de polícia, para tentar descobrir o endereço dele. A partir do encontro no café, Giovanna e Lorenzo travam contato, que culmina com um breve ato sexual no apartamento do rapaz. É depois do ato que ocorre o melhor momento do filme. Depois de ele revelar que também a observava do seu apartamento, Giovanna vai até à janela que ele lhe indicara e de lá olha o seu apartamento e vê o marido e os dois filhos. Em silêncio, pensativa, ela repete a experiência do vizinho, mas, evidentemente, com um outro significado. Significado que a expressão dessa boa atriz deixa no ar. Um sentimento de culpa? Ou a constatação dos obstáculos para levar adiante o envolvimento com o vizinho? E quando se descobre que o velho, na juventude, teve uma relação homossexual, fica a impressão de que o filme pretende estabelecer uma analogia entre o caso dele e o de Giovanna e Lorenzo. Dois amores proibidos e que não têm continuidade, porque um dos parceiros é obrigado a partir. Simone, o do velho (aliás, uma relação que ficou de tal modo gravada na memória do velho, que
este, não conseguindo se lembrar do próprio nome, apodera-se do nome do parceiro) para um campo de concentração nazista e Lorenzo para ir trabalhar em outra cidade. Essa impressão é reforçada na cena da dança, sem música, do velho com Giovanna. É outro bom momento de "A Janela da Frente": enquanto dança com Giovanna, o velho se recorda de uma festinha em que ele e Simone dançam cada um com uma moça, mas trocando olhares. As duas cenas se intercalam, o passado convivendo com o presente, num bem-sucedido trabalho de montagem.
Esse velho é interpretado por Massimo Girotti, um dos grandes atores italianos, que trabalhou com Visconti (em mais de um filme, inclusive em Ossessione, o primeiro do diretor), Antonioni, Pasolini, entre outros cineastas do segundo escalão. Já muito doente, ele faleceu antes de as filmagens de "A Janela da Frente" terminarem. O filme, por sinal, é a ele dedicado.
Dirigido por Ferzan Ozpetek, um turco radicado na Itália desde 1978, "A Janela da Frente" , se náo é excepcional (o roteiro, apesar de bom, dá uma ou outra escorregadela), é um filme a que se assiste com atenção e interesse que não se perdem depois do final, que é bem interessante, ao mostrar um grande close dos olhos de Giovanna. O que não é pouco no momento de pouca criatividade que o cinema italiano atravessa, tão diferente do que ocorria nas décadas de 1940 a 1970.
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"TÁ NA PEIA"
Havia um narrador esportivo em Fortaleza que se comunicava com o torcedor durante a partida, no momento de informar o placar. Vamos supor que o "!Fortaleza" estivesse vencendo o "Ceará" por 1X0. Ele, então dizia, "o Fortaleza tem 1 e o "Ceará"? Aí os torcedores do "Fortaleza' respondiam: "Tá na peia". Pois bem. Se me perguntassem como vai a programação de cinema em Natal, eu responderia "tá na peia". Depois de "O Novo Mundo", de Terrence Malick, aí pelo finalizinho de maio, não apareceu mais nenhum filme que valha a pena para o cinéfilo que não aprecie as bobagens que as duas redes de cinemas (Praia Shopping e Midway) vêm exibindo há mais de dois meses. A do segundo ainda não mostrou nada que prestasse. E vou repetir o que disse outro dia. O gerente, ou qualquer outro nome que se diga, dos cinemas do Midway prometeu, num dos jornais locais, promover numa das salas a exibição de filmes considerados artísticos. Isso foi dito há vários meses e até agora nada. Ele deve ser como um candidato em época de campanha política. Promete o céu para o eleitor e, quando eleito, lhe dá o inferno. Oremos, como dizia um colega meu, que, aliás, não era religioso. Oremos.

Um comentário:

Claudinha disse...

Tentei postar este comentário no Haloscan e não deu certo, então vai aqui neste outro sistema!

Olá Sobreira! Adorei o filme, mesmo sem tê-lo visto. Gosto deste tipo de histórias, que intrigam, que tratam os personagens como reais. Vou procurar assistir e passar a dica pro meu Pai. Aproveito para desejar um feliz (todo dia) dia dos pais para você, que tanto considero, junto da família! Beijão!