sexta-feira, maio 27, 2005

A Paixão de Joana D' Arc




Os olhos esbugalhados de Joana. Uma lágrima escorrendo por um das faces. Uma mosca que pousa no seu rosto. O olhar, ora assustado, ou amedrontado, ora iluminado pela fé que a move, e, às vezes, exprimindo sofrimento. A verruga de um dos juízes. As rugas de outro. A astúcia, o sarcasmo, a falsidade, a coação dos seus algozes expressos num olhar. A Paixão de Joana D' Arc, que o dinamarquês Carl Dreyer rodou na França em 1928, é um filme quase todo construído de closes, principalmente de rostos. Essa opção narrativa necessitava do suporte de uma fotografia que atendesse o desejo do diretor. E Dreyer a conseguiu com o polonês Rudolph Maté, que realizou um trabalho não apenas primoroso, do ponto de vista técnico, mas revelador de uma "audácia fotográfica", conforme escreveu o crítico André Bazin. Maté ainda trabalharia com Dreyer no filme seguinte deste (Vampyr) e, muitos anos depois, já em Hollywood, trocaria a carreira de fotógrafo excepcional pela de diretor medíocre.
O roteiro é inspirado nas minutas do processo do julgamento de Joana D' Arc, que a condenou à fogueira. A história transcorre num único dia e é quase toda ambientada no interior do tribunal, com exceção duas ou três cenas exteriores. O já citado Bazin definiu A Paixão de Joana D' Arc como uma "tragédia espiritual". De fato. Uma tragédia vivida por uma jovem pobre e humilde, que sequer sabe assinar o nome, mas que defende a sua fé com convicção e obstinação, diante de juízes e teólogos ardilosos e empenhados em levar o processo às últimas consequências. Apenas um dos monges esboça uma inócua tentativa de desafiar a disposição condenatória dos julgadores, quando exclama que sente que naquela jovem indefesa se encontra uma santa e se prostra aos seus pés.
Curioso nesse filme de intensa espiritualidade, transmitida pela forte expressividade dos rostos (não só o de Falconetti, que vive a trágica Joana, mas o dos demais atores), é a linha do realismo traçada por Dreyer; realismo sem adjetivos (o poético, se o coubesse, seria pela orquestração das belíssimas imagens em close ). Ao lado da sucessão de closes de rosto, ou de partes dele, há as cenas de um realismo cru, às vezes impactante (a sangria em Joana, a tosquia de seus cabelos, o instrumento da tortura que lhe é infligida a girar com intensa velocidade, entre outras ). E na busca desse realismo, o diretor não poupou imposições: os cabelos de Falconetti foram realmente cortados, as cabeças dos monges tiveram que ser raspadas e não foi permitido o uso de maquilagem nos atores.
A Paixão de Joana D' Arc não é apenas a obra-prima de um grande cineasta, que fez apenas quatorze filmes no longo período de 1919 a 1964. É também uma das maiores da história do cinema. Um filme para ser exibido num templo sagrado, para que os espectadores o assistam de joelhos, com as mãos postas.

Um comentário:

Helder Lucio Ganacin disse...
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