terça-feira, março 31, 2009

TANTOS ANOS


Foto A Máscara, de Marco Ricca,
in 1000 imagens.

Este conto já saiu aqui em out/07. Republico-o
para avaliação daqueles que, na época, não visi-
tavam este blogue e reavaliação de quem o
leu.

* * * * * * * * * * * * * * *

Fazia uns dois a três minutos que estavam calados. Aquele silêncio que num dado momento, assim de repente, baixa numa conversa entre duas pessoas. Como se os assuntos comecem a faltar, depois de um período longo e ininterrupto de conversa. O olhar do homem não se fixava em nenhum ponto, parecia não encontrar nada que o interessasse, enquanto a mulher curvara um pouco a cabeça. Até que um casal de jovens, num banco próximo, despertou a atenção dele. O rapaz, pernas estiradas, fazendo de cavalgadura para a namorada, os rostos e bocas colados. Olhou para a mulher, que também observava a cena. Ela disse, virando o rosto para ele: "Era tão diferente na nossa juventude". "Pois é"... E retornaram à mudez.
Estavam ali, vindos de uma loja próxima. Ela já ia saindo, com uma sacola, enquanto ele ia entrando, para ir à seção de dvd e cd. Passaram um pelo outro, como dois desconhecidos, até que ele a ouviu perguntar: "É o Carlinhos"? Ele se virou imediatamente, respondeu sim e aproximou-se da mulher de óculos escuros, um pouco gorda, o rosto moreno bem conservado. "Não está me reconhecendo"? Ele examinou o rosto atentamente, não disse palavra, nem precisava dizê-la. Ela levantou os óculos até o início dos cabelos e ali os pousou. Ele continuou o exame e, de repente, como se iluminado por uma luz vinda de um passado distante, a reconheceu. "Letícia, irmã de Leila, não"? Ela sorriu e repôs os óculos. "Tantos anos que não nos vemos". "Tantos". Ele estendeu a mão para ela, que foi recebida com um aperto e uma duração que lhe pareceram além do normal. Com as mãos livres, cada um perguntou como ia o outro e foi aí que ele se lembrou de que ouvira falar em Letícia não fazia muito tempo, ao encontrar um amigo à saíde de um banco. "Soube que perdeu o marido, aceite os meus pêsames". E logo se arrependeu do que dissera, pois, detrás dos óculos, vieram lágrimas de Letícia, e o tom de voz se alterou. Embaraçado, percebendo que as suas palavras foram inoportunas, pousou-lhe uma mão no braço e se sentiu na obrigação de se desculpar. "Tudo bem", ela disse ainda com a voz chorosa e, depressa, ele buscou um assunto.
Era um entra-e-sai de pessoas, sempre apressadas, algumas esbarrando neles, uma ou outra sem pedir desculpa. "Está com pressa, Letícia"? "Não, já fiz as compras". "Que tal ficarmos um pouco naquela pracinha"?
E ali estavam há bem uma hora. Letícia ficara sabendo que ele se separara da primeira esposa e vivendo com outra mulher. "Naturalmente uma mais nova do que a primeira". Ele deu um sorriso e achou por bem dizer um gracejo: "Cavalo velho, capim novo". "Vocês homens"... "Vocês também não estão ficando atrás. Não vê aquela atriz da televisão que está casada com um homem que tem idade pra ser filho dela"? "Direitos iguais, meu filho". "Ah, o velho feminismo". Surpreendeu-se com a risada de Letícia. Achava que ela iria replicar e iniciar a defesa da igualdade dos direitos do homem e os da mulher, mas ela se limitara a rir. Pensou que talvez tenha sido a maneira como falara. Houve esses momentos de descontração. Mas houve outro momento mais embaraçoso do que aquele em que Carlinhos tocara na morte do marido. Ele tinha
terminado de falar outra vez sobre Leila, quando Letícia falou um tanto ríspida. "Leila, Leila, Leila. Até parece que não foi você que terminou o noivado. Aliás, ainda hoje é um mistério por que você a largou às vésperas do casamento". Ele não soube o que dizer e, por um momento, ficaram mais uma vez calados. Foi ela que retomou a conversa. "Você nunca notou, não, Carlinhos"? Ele a olhou e de novo o olhar fixo por trás dos óculos. E ele percebeu o sentido da pergunta, sem a necessidade de uma única palavra.
"Eu era apaixonada por você. Sabe que quando você terminou com a Leila, eu fiquei feliz? Cheguei a pensar que você também estava apaixonado por mim e por isso tinha tomado aquela decisão. Meu Deus, como fui ingênua e burra. E fui a única pessoa da minha família a não recriminar você. E todos lá de casa ficaram possessos com a sua atitude. E, convenhamos, com razão. Um dos meus irmãos disse que se o encontrasse, lhe dava uma surra de você nunca esquecer".
Carlinhos ouvia calado e já sem olhar para Letícia. Às vezes olhava para o casal de jovens, que continuava na mesma posição. Alguns transeuntes sorriam, outros olhavam a cena com indiferença - um fato que se tornara rotineiro, banal. Depois da confissão de Letícia, não tinha coragem de olhar pra ela. Não sabia se ela estava virada para ele, ou se curvara um pouco a cabeça, como há pouco tempo. Uma olhadela rápida no relógio. "Já está ficando tarde. Acho que tenho que ir, Letícia". Desviou o rosto para ela. E foi ela que se levantou primeiro. Ele se levantou e então os seus olhos se encontraram. Aqueles óculos muito escuros o fitavam de uma maneira que o deixou perturbado. (Já na loja, eles tinham lhe provocado a mesma reação.) "Até logo, Letícia". Estendeu-lhe a mão (impossível lhe passar pela cabeça a ideia de dar-lhe um beijinho formal) e acrescentou prazer em rever você. "Igualmente", ela disse e não prendeu a sua mão, como ele chegou a pensar.
E os dois se afastaram em direções opostas.

6 comentários:

Mariazita disse...

Querido Francisco
Ontem estive todo o dia sem PC.
Ele andava muito lento, e o meu filho (meu assistente técnico), como está de férias, resolveu formatá-lo. Mas as coisas não correram tão bem como o previsto...e acabou por demorar mais horas do que seria de esperar.

Não conhecia o seu conto "Tantos anos". Em 2007 eu ainda não tinha nascido...como bloguista. Tenho apenas treze meses e meio...
Gostei muito. Retrata os tão frequentes encontros e desencontros da vida. Muito bom!

Beijinho carinhoso
Mariazita

Mariazita disse...

Querido Francisco
Venho agradecer a sua visita à Casa.
Sou mesmo màzinha, não???
Talvez por isso uma conterrânea sua (Gisele - Gi) me apelidou de Má...
Mas me diga: está ansioso por saber o final da história? Olhe que ainda vai demorar um pouquito...
Não se esqueça que a história relata cerca de 50 anos da vida de Anita...

Beijinho carinhoso
Mariazita

PS - ESQUECI-ME DE LHE DIZER QUE INAUGUREI ONTEM O MEU BLOG "HISTÓRIAS DE ENCANTAR".
Embora ontem tenha sido dia da mentira, isto que lhe disse é verdade...vá conferir.
+ beijito

BOTINHAS disse...

Amigão Francisco
Quem não escreveu, de certeza, fui eu! Mas tenho pena, pois acho o texto muito bem escrito. É claro que os termos utilizados não serão muito canónicos; o assunto versado também não é dos mais limpos e cheirosos, mas...já o encontrei prontinho (não acrescentei nem alterei nada); encontrei-o em

http://www.pensador.info/autor/Luis_Fernando_Verissimo/4/

Pode conferir.

Como este comentário é ao assunto do post anterior e não a este, calculo que tenha sido posto aqui por engano.
É isso, certo?

Abraço fraterno
Botinhas

PA - PARABÉNS PELO SEU CONTO. GOSTEI MUITO.

Deia disse...

Francisco,

Querido!

Duas coisas: A primeira é para falar de seu texto!
Admiravelmente atual, coerente! Penso que tenho um Carlinhos... e penso que sou como Letícia... e muitas vezes como o Carlinhos... ai, que confusão!!! rs

A segunda coisa: Obrigada pelo comentário no meu blog...
Foi mesmo um desnudamento... alma exposta, alma curada, não é mesmo?
Um grande beijo no seu coração!

Paz e Bem!

Com Deus!

Mariazita disse...

Querido amigo
Passando para agradecer a sua visita e comentário a "Toque de Silêncio".
É interessante verificar que algumas pessoas (tal como você) consideram esta música triste.
Eu não a acho triste, mas sim comovente, muito comovente.
E achei também interessante o comentário da Maria João que diz que logo aos primeiros acordes se sente impulsionada ao recolhimento e silêncio.
Gosto de apreciar a diversidade de sentimentos das pessoas...

Boa semana

Beijinho carinhoso
Mariazita

PS - ESTOU SENTINDO A SUA FALTA NO "HISTÓRIAS DE ENCANTAR"...
QUALQUER DIA MARCO-LHE FALTA INJUSTIFICADA, E ARRISCA-SE A PERDER O ANO...
+ 1 BEIJITO

Marco disse...

Um conto interessantíssimo, caro amigo Sobreira. Tem inclusive brecha para ser adaptado para teatro ou cinema, visto que tem situações de conflito dramatúrgico bem interessante. A gente até fica imaginando que, depois da revelação de Letícia, os dois iriam se embolar num beijo, num abraço. Mas você nos levou para um outro lado. Surpreendeu e isso é bom em literatura. Parabéns. Carpe Diem.