terça-feira, fevereiro 03, 2009

PICKPOCKET E O CINEMA DE ROBERT BRESSON




O cinema, que ele chamava de cinematógrafo, idealizado por Bresson transformou-o num solitário no universo da arte que ele adotou, tão solitário quanto o ladrão de "Pickpocket" (1959), filme que sucedeu a "Um Condenado à Morte Escapou" (1956). Um cinema, pelo menos, a partir de "Diário de um Pároco de Aldeia", 1950, despojado, seco, antipsicológico, desdramatizado. Esse último aspecto denotava a intenção de Bresson de desvincular o cinema da influência do teatro. E para alcançar esse fim, ele tinha que contar com a disposição, o empenho e, principalmente, a submissão dos atores, dos quais queria que não expressassem "a imitação de diferentes rostos, gestos e vozes", buscando "levá-los ao automatismo que acho que ocupa uma grande parte na nossa vida", conforme afirma em entrevista a um casal de jornalistas, reproduzida nos Extras do DVD de "Pickpocket". Daí a sua decisão, tomada já a partir de "Diário de um Pároco de Aldeia", de só trabalhar com atores não profissionais, já que estes, ao contrário dos profissionais, eram mais receptivos às suas exigências.
Na mesma entrevista, Bresson diz que prefere que, antes de entender um filme seu, o espectador o sinta, que acha mais importante que "os sentidos antecedam a inteligência". Ou seja, a emoção em lugar da razão. No caso específico de "Pickpocket", pretendia dos espectadores que "sentissem essa atmosfera que envolve o ladrão, essa atmosfera que faz as pessoas se sentirem angustiadas e perturbadas". E, de fato, sem ser necessário recorrer a gestos e expressões característicos da dramatização, o "modelo" (assim ele chamava os atores e atrizes de seus filmes, e me pergunto se essa denominação não traía, consciente, ou inconscientemente, o pintor que ele pretendia ser, antes de optar pelo cinema) Martin Lasalle passa-nos a sensação de um perturbado, de um amedrontado, sentindo o assédio do policial, essa situação desconfortável que envolve o seu personagem Michel, um batedor de carteiras.
De um modo geral, o cineasta francês é associado ao jansenismo. Esse movimento católico que leva o nome do seu criador, o teólogo e bispo holandês Cornélio Jansênio (1585-1638) pregava a ideia da predestinação quanto ao destino do homem, que não tinha como mudar esse destino. O homem não teria livre-arbítrio, liberdade, estando destinado a fazer o que lhe acontecia na vida. É o que ocorre com Michel. Um jovem que se vê impelido a se tornar um assaltante, sem ter a vocação e o talento para tal, tanto que é apanhado pela polícia no primeiro roubo que pratica. É apenas interrogado, mas, a partir daí, inicia-se o assédio do policial chefe. Mesmo quando lhe aparece um verdadeiro profissional que lhe ensina os truques para o bom desempenho da "profissão" (e com quem, além de um conhecido deste, passa a agir), percebe-se que ele não nasceu para ladrão. E, no entanto, prossegue nessa "aventura", segundo a definição de Bresson numa espécie de "nota" antes de se iniciarem os créditos. Até ser de novo apanhado e dessa vez fica preso.
Ao filme não interessa revelar o destino do personagem daí pra frente, até por não se tratar de um filme policial, como esclarece Bresson no início da "nota". E, sim, mostrar que, na cadeia, recebendo visitas de Jeanne (Marika Green), a jovem vizinha da sua mãe (presumivelmente viúva, esta vive sozinha, pois o filho mora em um pequeno e modestíssimo apartamento), Michel desperta para o fato de que existe um amor entre eles. Um sentimento que o faz chegar até ela só depois de ele ter percorrido um "estranho caminho". Tarde demais. Os planos da cena final pertencem à antologia do cinema. Michel e Jeanne separados pela grade buscam se beijar e se tocar, em vão. E a derradeira imagem (Michel de frente, Jeanne de perfil, um pouco inclinada, unidos e ao mesmo tempo separados pela barreira da prisão) contém uma beleza e uma funcionalidade pictóricas, dando razão a Truffaut quando disse que o cinema de Bresson se aproxima mais da pintura do que da fotografia.

7 comentários:

Lili disse...

Caro amigo,
Por conta da sua resenha, eu que nunca vi um filme de Bresson, fui pesquisar sua filmografia. E achei coisas muito interessantes sobre sua concepção estética, do trabalho dos atores e sobre as releituras que ele fez de clássicos da literatura mundial, como Diderot, Dostoievski e Tolstoi.
Vou qualquer hora dessas pegar pra ver "O Processo de Joana D´Arc", que foi baseado unicamente em documentos históricos, e também é considerado outra obra-prima de Bresson.
É que eu amo a trajetória dessa heroína francesa.
Boa semana pra vc!

françois disse...

ha, pickpocket é impressionante! A sequência da estação de trem devia estar na lista das coisas mais geniais do século XX!

Mariazita disse...

Querido amigo Francisco
Confesso a minha ignorância, ou, pelo menos, o pouco conhecimento em relação a cinema, nomeadamente ao cinema francês.
A sua resenha está óptima, e quase posso dizer que vi o filme...
Não vi, mas "visualizei" todas as cenas que você tão bem descreve.
Consigo até imaginar, perfeitamente, a cena final, da tentativa de beijo através das grades da prisão...

Uma coisa que chamou a minha particular atenção - o jansenismo.
Sabe que eu sou um pouco jansenista?
Eu acredito muito no destino. O próprio livre arbítrio, a meu ver, está subordinado ao destino de cada um de nós.
Mas...isto está fora da agenda de trabalhos-:)))
Não é para aqui chamado, tem razão!

Até breve, boa semana.

Abraço carinhoso e beijinhos
Mariazita

Zeca disse...

Sobreira,
não ví esse filme e, talvez, nenhum outro de Bresson. Mas como sempre, seus textos acabam nos transportando para a obra comentada, como se a conhecessemos. Se houver em alguma das nossas locadoras daqui, vou alugar. Todos os filmes que procurei a partir das suas resenhas foram bons e enriqueceram meus poucos conhecimentos sobre cinema.
Abraços.

Claudinha ੴ disse...

Olá Sobreira!
Como sempre você nos incita a ver os filmes e conhecer diretores. procurei saber sobre ele e descobri que foi prisioneiro de campo de concentração, o que por si só deve explicar influências em sua obra.
Bela análise!
Beijos!

loba disse...

Ah Sobreira, vc já sabe da minha ignorância quase completa em relação à sétima arte. Talvez por isso, assim que li sua resenha, pus-me a pensar no quanto falta à maioria de nós a cultura desta arte. Por falta de oportunidades, por falta de interesse, por falta de condições.
Me sinto privilegiada por estar aqui e por estar sendo apresentada a mais uma obra de arte.
E saio com esta imagem final que não vi, mas refiz na imaginação.
Beijo!

Mariazita disse...

Querido amigo
Como não sei se costuma ir ler as respostas aos seus comentários (eu vou sempre ver...) transcrevo para aqui a minha resposta ao seu último comentário lá na minha casa.

Bom fim de semana

beijinho carinhoso
Mariazita

Querido amigo Francisco
Sabe o que tenho andado a pensar?
Nao publicar os "finalmentes".
É que tremo à lembrança da sentença que me espera -:)))

Um resto de tarde e de semana óptimos.

Abraço carinhoso e
beijinhos
Mariazita

5 de Fevereiro de 2009 16:51