quarta-feira, maio 07, 2008

"POEMA À MÃE"


Foto in Google, autoria desconhecida.
Em uma homenagem ao Dia das Mães, a ser celebrado no próximo domingo, aqui vai um poema de Eugénio de Andrade, poeta português (1923-2005) , de título acima mencionado, o qual me foi enviado pelo amigo e poeta Horácio Paiva.
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No mais fundo de ti,
eu sei que traí, mãe.
Tudo porque já não sou
o menino adormecido
no fundo dos teus olhos.
Tudo porque tu ignoras
que há leitos onde o frio não se demora
e noites rumorosas de águas matinais.
Por isso, às vezes, as palavras que te digo
são duras, mãe,
e o nosso amor é infeliz.
Tudo porque perdi as rosas brancas
que apertava junto ao coração
no retrato da moldura.
Se soubesses como ainda amo as rosas,
talvez não enchesses as horas de pesadelo.
Mas tu esqueceste muita coisa;
esqueceste que as minhas pernas cresceram,
que todo o meu corpo cresceu,
e até o meu coração
ficou enorme, mãe!
Olha - queres ouvir-me? -
às vezes ainda sou o menino
que adormeceu nos teus olhos;
ainda aperto contra o coração
rosas tão brancas
como as que tens na moldura;
ainda oiço a tua voz
Era uma vez uma princesa
no meio de um laranjal...
Mas - tu sabes - a noite é enorme,
e todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura,
dei às aves os meus olhos a beber.
Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te as rosas.
Boa noite. Eu vou com as aves.

2 comentários:

Sandra Fonseca disse...

Maravilhoso e intenso como só poderia o Eugénio de Andrade.
O que poderia dar uma mãe à um filho?
Raízes e asas!
Beijo.

Zeca disse...

Sobreira,

tenho a felicidade de conhecer os poemas do Eugénio de Andrade, que acho maravilhosos. É sempre uma alegria enorme relê-los. Principalmente nesta bela homenagem às mães.

Abraço.