terça-feira, março 18, 2008

A SEMANA SANTA DA MINHA INFÂNCIA

Quadro Cristo Morto, de Andrea Mantegna (1431-1506).

Todos os anos, quando chega a Semana Santa, eu me lembro da minha infância naquele período. As lembranças se acumulam, principalmente as da Sexta-Feira Santa: as imagens de santos cobertas por um pano preto ou roxo (não me recordo com precisão), o sacristão percorrendo o pátio da Basílica, em intervalos de quinze a vinte minutos, se muito, carregando a matraca e fazendo-a soar um ruído alto e enervante; a imagem de Cristo deitado, exposta no centro da igreja para receber o ósculo dos fiéis, ordenados em fila indiana; a procissão à tarde, com a Verônica, representada por uma moça, exibindo em um pano a face ensanguentada de Jesus.

Me lembro, ah, se me lembro, de que em uma certa hora (a memória não me deixa dizê-la), anunciada pelo relógio da Basílica, minha mãe, a voz alterada pela emoção, afirmava que naquele momento começava a agonia de Jesus.

Muitas pessoas, especialmente as mais humildes, não tomavam banho naquele dia, um hábito talvez ainda preservado nas cidades mais atrasadas deste imenso país. E as rádios só tocavam músicas fúnebres.

Já o Sábado de Aleluia era outro dia, e não apenas no sentido cronológico. À tarde uma multidão se reunia na praça do mercado público para ouvir de alguém a leitura do testamento de Judas. A cada objeto legado por Judas a um habitante da cidade, as risadas explodiam. (Um dos meus irmãos, que não perdia por nada esse espetáculo, ao voltar para casa, relembrava alguns desses legados e os respectivos herdeiros.)

No outro dia era o Domingo da Páscoa, da ressurreição de Cristo. Terminava a Semana Santa e na segunda-feira os cristãos voltavam a "pecar".


5 comentários:

Jacinta disse...

Ei Sobreira,
pois é, Semana Santa. Na adolescência, por vários anos, uns cinco ou seis, não me recordo, fui a Verônica durante a via sacra pelas ruas. Cantava um lamento e me emocionava com a recordação da morte de Jesus. Depois, no sábado à noite, a celebração do fogo, simbolicamente, trazia de volta a alegria. Das farras do Judas não me era permitido participar.
Abração e Feliz Páscoa

TMara disse...

amigo, sobre sua questão: é um único poema.
Há outro novo, no http://fragmomentosii.blogspot.com/
se quiser passar lá... ;))

Boa e Feliz Páscoa com os seus. Abraço e xi-coração
Luz epaz em seu caminhar e ao seu redor

eremita disse...

Amigo, apropósito do jogo das 12 Plavras nunca ficaria magoado, triste, melindrado, sei lá, o que quer que fosse. a ideia é divertirmo-nos com impensadas plavras "ditadas" por 4 pessoas e, a partir daí, fazer um pequeno texto ou poema.
Creio que será engraçado ver as diferentes linhas que surgirão e como com as mesmas 12 palavras podemos fazer construções tão diversas.
Podes inscrever-te em qualquer altura - se o quiseres desde que a adesão não seja de tal monta que eu não dê vazão, mas se quiseres aderir desde já não é vinculativo escrever sempre um texto a partir das palavras que forem seleccionadas. Podemos não ter incpiração, tempo, disponibilidade interior, etc, etc...Cada um escreverá quando sentir que sim e que pode. Mas serás smepre bem-vindo, seja para participar ou para ler e comentar os produtos a que chegarmos.
fraterno abraço e desejo que o teu astral suba e voe acima de todas as nuvens
fraterno abraço.

eremita disse...

em tempo: se quiseres podes divulgar entre teus amigos- daí e de cá. Serão bem-vindos pois sei que serão de qualidade e só nos enriquecerão.
abraço

Vieira Calado disse...

O pano era roxo. Nunca estudei para padre, mas sei.
Um abraço