domingo, abril 08, 2007

NOITES CANINDEENSES


A noite em Canindé terminava às dez e meia. Era a hora em que a luz apagava. Às dez e quinze ocorria o que os canindeenses chamavam de "sinal": a luz sumia por uns poucos segundos, à guisa de aviso de que, com mais quinze minutos, a cidade mergulharia nas trevas. Quem estivesse na rua, tinha que ir correndo para casa, com exceção de uns poucos boêmios e seresteiros. E as famílias se preparavam para dormir.
Na praça da Basílica, moças e rapazes e meninos se reuniam todas as noites. Os meninos, quando não estavam apostando corrida, sentavam nos bancos para conversar sobre futebol, cinema e gibis. Aqueles já se abeirando da adolescência, dirigiam olhares para as moças. Estas, se não tinham um namorado, ficavam dando voltas, em grupos (às vezes, de duas em duas), recebendo galanteios dos rapazes mais afoitos, parados já perto das ruas que circundavam a larga praça. Era o lugar mais frequentado da cidade, até mais do que o Cine Canindé, que funcionava apenas três vezes por semana, às quartas (ou quintas, não estou bem certo), sábados e domingos. E quando a sessão terminava, muitos rapazes ficavam na praça.
Além da praça e do cinema, ocorria, não raro, um baile na casa de uma família. Moças e rapazes iam lá para dançar. Fui algumas vezes a essas festinhas familiares pajeando a minha irmã mais nova, Sônia, que era uma ótima dançarina. Ela tentou me ensinar a dançar, mas a minha falta de jeito superava o talento dela. Me lembro de uma vez em que me meti a besta num desses bailes e o que ganhei foi a mangofa de alguns presentes, inclusive da Zênia, outra irmã.
Quase me esquecia do serviço de alto-falante da Prefeitura que embalava as noites canindeenses. Ficava a poucos passos da praça. Funcionava por uma hora e meia, ou duas. Por aí. Tinha uma discoteca limitada e que não se renovava. Toda noite a gente ouvia as mesmas músicas. Músicas de todos os gêneros. E havia as mensagens musicais. Um rapaz, "um certo alguém", oferecia uma música a uma moça, cujo nome era por vezes mencionado, por vezes não. Quando o nome da moça não era citado, a sua identificação era feita pelo vestido que estava usando, ou pela inicial do seu nome, ou ainda por algum outro detalhe (cor do cabelo, cor dos olhos, cor da pele, e por aí ia). Cheguei a entrar muitas vezes naquela sala pequena, examinando os discos e vendo o locutor usar o microfone. Um deles, me vendo uma vez manusear os discos, me advertiu que tivesse cuidado para não quebrá-los. Apesar do seu jeito sério (para o qual contribuía o uso de óculos de lentes grossas), do ar carrancudo, não acreditei que aqueles discos eram feitos de cera de carnaúba e facilmente destruíveis. Até sorri. Algum tempo depois tive a confirmação das palavras daquele locutor. Um irmão me mandou pegar um disco na casa de alguém, fui na minha bicicleta, e, ao recebê-lo, acomodei-o na garupa da bicicleta. Ao retornar, o disco se partira ao meio.
O Cine Canindé a a praça da Basílica perdiam parte dos seus frequentadores quando chegava um circo na cidade. Circos mambembes, mas que divertiam os espectadores, principalmente o palhaço. Suas piadas continham sempre um bordão, que algumas pessoas usavam à exaustão, mesmo depois de o circo ir embora. Ou durante os dias de festa do padroeiro de Canindé, São Francisco de Assis (mais comumente chamado São Francisco das Chagas), quando, depois das bandeiras (as procissões noturnas) e da queima de fogos de artifício (um espetáculo deslumbrante), muita gente se deslocava para o largo, que viraria uma praça, em frente ao Mercado Público. Ali se instalavam a roda-gigante, os carrosséis e muitos outros atrativos.
Assim eram as noites canindeenses na minha infância e adolescência.

Um comentário:

Cesar Magalhães disse...

Presado Sobreira,

Sou canindeense e moro ainda na minha terra. Pesquisando aleatoriamente deparei com suas crônica que muito gostei. Seu estilo é impecável.
A propósito, sou autor de um livro de 340 páginas, intitulado "VIAGEM PELA HISTÓRIA DE CANINDÉ", edição esgotada, mas quero enviar-lhe um de presente.
Estou agora empenhado em escrever um livro de crônicas sobre canindeeneses, já escrevi sobre uns tipos populares que você deve ter conhecido "Expedito da Caridade", "Pedro da Nêga", entre outros e gostaroa de remeter à sua apreciação. Se puder entrat em contato comigo, meu e-mail é:
augustocesaroficial@hotmail.com

um abraço do conterrâneo,


Cesar Magalhães