terça-feira, janeiro 02, 2007

BREVES CONSIDERAÇÕES SOBRE ANGÚSTIA


Em 2006, "Angústia", de Graciliano Ramos, inteirou 70 anos. A poucos dias de encerrar o ano, li uma vez mais esse terceiro romance do escritor alagoano. Um grande livro, sem dúvida. É considerado por muitos leitores e críticos como o maior de Graciliano. Modestamente, discordo. Essa nova leitura fez com que reafirmasse a minha preferência por "São Bernardo" e, em segundo plano, "Vidas Secas". E conforta-me saber que um crítico da estatura de Antonio Candido não se inclui nessee grupo. Nem como uma obra-prima, AC o considera. Ele chega a dizer no primoroso ensaio sobre a obra de Graciliano, intitulado "Ficção e Confissão" (inserido na edição de "São Bernardo" da Livraria Martins Editora/1972) que "há nele partes gordurosas e corruptíveis [o grifo é meu], ausentes em "São Bernardo e "Vidas Secas". Mestre Candido, no entanto, não especifica essas "partes gordurosas e corruptíveis". Arrisco-me à hipótese da presença de algumas situações, como, por exemplo, o momento em que Luís da Silva esbarra na rua em uma mulher grávida, incidente que ocorre poucas páginas antes de ele descobrir a gravidez de Marina; ou quando Luís da Silva está no quarto com a jovem prostituta e, ao meter a mão no bolso, dá com a caixa onde estão a aliança e o relógio destinados a Marina. Mas as restrições do crítico não indicam que ele não veja grandes qualidades em "Angústia". Nada disso. Além de considerar Luís da Silva como o personagem mais dramático da moderna literatura brasileira, escreve, a certa altura: "Defeituoso no conjunto ["Angústia"] , contém trechos que só podem ser qualificados de admiráveis".
Luís da Silva - um personagem que fica para sempre na lembrança do leitor. E que merece uma análise de um estudioso da Psicanálise. Antonio Candido observa que ele se sente um homem sujo, com a consequente obsessão pela água, tanto que , para o crítico, o banheiro do quintal de sua casa representa um papel importante no livro. Eu acrescentaria que essa conciência de sujeira física não se relaciona apenas à sua pessoa. Luís da Silva sente nojo também dos outros. Num certo momento, ele confessa ter "horror às apresentações, aos cumprimentos, em que é necessário apertar a mão que não sei onde andou, a mão que meteu os dedos no nariz, ou mexeu nas coxas de qualquer Marina". Mais até pelo fato de lhe ter roubado Marino, a sua aversão por Julião Tavares o é pela figura deste. O seu ódio pelo rival torna-se uma coisa obsessiva. E, em consequência, a corda é um objeto que gruda no seu pensamento. Tão intensa essa obsessão que a corda pode ter a sua forma assumida pelo jornal que Julião deixa enrolado na mesa do bar, pela gravata deste, pelo cano dágua que passa pelo seu quarto. Seus ouvidos são continuamente perturbados por ruídos de diversas espécies. E quando comete o crime, instala-se nele a paranóia. Na sua mente enferma, o homem que enche dornas e a mulher que lava garrafas, duas figuras humildes que ele vê diariamente, podem estar ali para espioná-lo. O mendigo que bate à sua porta pode ser um policial disfarçado.
As últimas páginas, em que, febril, Luís da Silva é tomado pelo delírio, é um trecho admirável, certamente entre os que Antonio Candido elegeria em "Angústia" .

3 comentários:

Dora disse...

Sobreira. Tenho enorme admiração por Graciliano e não consigo enxergar, entre as obras dele, uma melhor ou pior. Vidas Secas é um primor. São Bernardo, Infância, Insônia, Memórias do Cárcere...como escolher?
Angústia é, talvez, como romance psicológico, o mais aprofundado nos meandros do psiquismo do personagem. Mas, os demais, também sondam os conflitos e os dramas humanos, de outra forma também literariamente perfeita!
Eu não saberia analisar, sem parcialidade, os livros desse mestre. Então, para mim, Angústia é excelente e não tem "senões"...rs
Beijos.
Dora

Dora disse...

Sobreira. Tomei um susto ao ver que meu comentário não apareceu aqui.
Você o reteve? ou não chegou a ler?
beijos.
Dora

Jens disse...

Sobreira, excelente comentário sobre a obra de Graciliano. Obrigado pela visita lá Trincheira. Como aficcionado por livros, gostei muito do teu blog. Aparecerei outras vezes. Vou te linkar para não perder o contato.
Um abraço.