domingo, dezembro 17, 2006

VOLVER (2006)


O filme se inicia num cemitério, onde as irmãs Raimunda (Penelope Cruz) e Sole (Lola Dueñas) estão visitando o túmulo da mãe, acompanhadas da filha da primeira, Paula (Yolanda Cobo). Lá encontram a amiga Agustina (Blanca Portillo), que vai cuidar do próprio túmulo. Um costume cultivado naquela região da Espanha, conforme a mãe informa à filha, que estranha o fato. Com esse início e as mortes, não muito tempo depois, da velha tia das irmãs e do marido de Raimunda, Paco (Antonio de la Torre), assassinado por Paula, ao se defender de um assédio sexual dele, além da descoberta de Agustina de que está com câncer, fica patente que a morte é o elemento principal de "Volver". Mas a sua presença não inibe a intromissão do humor, já que se trata de Almodóvar, um diretor que se nos últimos anos dirigiu a atenção para o drama, não abdicou de todo do humor. Só que este já não aparece (ou aparece pouco) da forma muitas vezes grosseira e vulgar dos seus primeiros filmes. Até nesse particular é evidente a sua evolução.
"Volver" é também um filme feminino, a exemplo de "Tudo Sobre Minha Mãe". O relevo dado à mulher na história, dentre outras expressões, está a de valor quantitativo. Já a participação do homem, além de reduzida, é apresentada de forma desfavorável, como a de Paco, querendo seduzir Paula. Ou a do pai de Raimunda e Sole, cuja memória é maculada pela revelação de que teve uma relação incestuosa com Raimunda, como se não bastasse a traição frequente à esposa.
Apesar da força da narrativa, que prende a atenção, da direção de Almodóvar, que se faz sentir até na atuação das atrizes (todas muito bem) , "Volver" não chega ao nível de um grande filme, como "Fale com Ela", provavelmente o melhor dele. Acho que a causa está em certas situações do roteiro, que , apesar destas, é de boa qualidade, o que mostra, mais uma vez, o talento de Almodóvar também nesse setor. Um dos pontos altos do roteiro (talvez o mais alto) é o artifício usado por ele para pegar de surpresa o espectador a respeito da aparição de Irene (Carmen Maura, um tanto gorda, mas ainda bonita) , um personagem vital da trama.
Enfim, se "Volver" não chega a empolgar o espectador mais exigente, consegue fazer com que ele o veja com interesse, atenção e até um certo prazer. O que não é pouco tratando-se da maioria dos filmes atuais.
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10 ANOS SEM MARCELLO
No próximo dia 19 se completam 10 anos da morte de Marcello Mastroianni. Foi uma grande perda para a arte de representar, pois Marcello foi um dos grandes atores. O maior de todos, na opinião de Philippe Noiret, que trabalhou com ele em "A Comilança" e "Touchez Pas La Femme Blanche". Noiret, morto no mês passado, afirma isso num depoimento, que quase o leva às lágrimas. que integra o documentário sobre o colega ("Marcello, Uma Doce Vida", dirigido por Mario Canale e Antonello Branca) . Há outros depoimentos no filme, feitos pelas filhas Barbara e Chiara (que revelam que as coisas que o pai mais amava eram sapatos e telefonemas), Claudia Cardinale, Anouk Aimée e os diretores Ettore Scola e Giuseppe Tornatore. E sobre Scola, uma curiosidade. Quando dirigiu Marcello em "Ciúme à Italiana" (por cujo papel ele ganhou o prêmio de Melhor Ator no Festival de Cannes) , a mãe do ator reclamou ao diretor por este ter transformado o filho num homem "feio, sujo e malvado".
Marcello trabalhou com inúmeros cineastas do seu país, desde os do primeiro time (Antonioni, Visconti, Fellini, com este em vários filmes) , aos do segundo, como Germi, Monicelli, Scola. Fez 15o filmes! E vejam só. Com essa quantidade de filmes, ainda era considerado um preguiçoso . Grande, inesquecível ator.

Um comentário:

Marcos A. Felipe disse...

Gostei bastante de Volver, com destaque para Penelope Cruz e o segredo que envolve os personagens e a suposta entrada de Almodovar em um gênero longe de seu hábito. Um dos melhores de sua fase melodramática - ao lado de Carne Trêmula e Tudo Sobre Minha Mãe.