domingo, dezembro 03, 2006

MOMENTOS PARA SEMPRE

Um personagem de Cidadão Kane recorda um momento inesquecível da sua juventude. Uma atraente mulher que encontrou um dia, na rua. Nunca mais a reviu, mas a imagem da mulher ficou para sempre gravada em sua memória. Até o fim de seus dias, nele permanecerá aquela visão de um momento de sua vida.
Cada pessoa guarda dentro de si um momento como o pesonagem do filme de Welles. Não um só, mas alguns. Momentos a que outras pessoas podem não dar a mínima importância, impermeáveis à sua compreensão, mas para a pessoa que os viveu têm um significado especial, de uma forma a jamais lhe sairem da lembrança. Eu tive, entre tantos momentos maravilhosos (e, muitos ruins, que o melhor é deixar pra lá, "as amargas, não") , estes três que vou relatar.
1. Uma tarde, em Fortaleza, ia atravessar uma rua, quando surge um carro dirigido por uma mulher. Ia começar a atravessar, quanto notei que a motorista parou o carro para me deixar passar. Mas em vez de me beneficiar da sua gentileza, parei e sinalizei para ela seguir. Ela retomou a marcha e no instante em que o carro passava ao meu lado, virou-se pra mim, sorriu, fez um aceno com a mão e foi embora. Era uma jovem e bonita morena e no banco de trás estavam duas crianças. Foram, o quê?, 2, 3, 5 segundos no máximo, decorridos entre o sorriso e o aceno, mas esse brevíssimo tempo dura até hoje.
2. Já estava em Natal, casado de pouco, quando fui me submeter a uma cirurgia de amidalite. Não consigo esquecer a enfermeira que me aplicou o anestésico. Não porque fosse bonita, como a jovem senhora do carro. Mas tinha um rosto que inspirava bondade. Um pouco gorda. O que tornou inesquecível a sua imagem foi a conversa que mantivemos enquanto estive acordado. Tinha um jeito calmo, sereno, a voz baixa, pausada. Não me lembro nada do que conversamos. Banalidades, acredito. E tenho a sensação de que ela teve a iniciativa daquele papo por me achar tenso, intranquilo, pela primeira vez indo me deitar em uma mesa de operação. Talvez fosse um procedimento habitual nela. Não importa. Importa, e muito, o nosso diálogo, que me trouxe um pouco de tranquilidade. Nos dissemos os nomes e o dela guardei durante algum tempo, e, numa oportunidade em que fui ao mesmo hospital (mas por outro motivo) , procurei-a, para agradecer-lhe por aqueles momentos que antecederam a cirurgia, mas ela já não trabalhava lá. E, tal como a mulher de Fortaleza, nunca mais a vi.
3. O terceiro momento ocorreu com uma celebridade. Já o contei neste espaço. Um encontro brevíssimo com Nara Leão, a quem fui pedir o autógrafo num elepê dela. Foi depois de sua apresentação no Teatro Alberto Maranhão, em Natal. Havia algumas pessoas ao redor dela, próximo a uma das entradas para o palco. Quando me vi frente a frente com a mulher que admirava não apenas como intérprete (menos pela voz, mais pelo bom gosto do repertório) , mas pela inteligência e sensibilidade e, principalmente, pela posição corajosa assumida diante do regime militar, apresentei-lhe o disco, cuja capa mostrava-a envolta em um véu. Ela me recebeu com o sorriso que expunha os dentes ressaídos. Ao ouvir o meu nome, sorriu de novo e revelou que tinha um filho que também se chamava Francisco. E escreveu uma curta dedicatória em uma letra bonita - um autógrafo que conservo com zelo e carinho. Agradeci e saí do teatro como se estivesse nas nuvens. Nara voltou a Natal, mas não fui vê-la dessa vez. Por um amigo soube que passara mal em sua estada aqui. Já devia carregar o tumor cerebral que a matou não muito tempo depois.

Um comentário:

ana maria costa disse...

Que coisa linda Francisco uma verdadeira doçura de escrita.
descritiva e amante passeia nos nossos olhos com o calor do vosso país!
ternura boa!