quarta-feira, julho 05, 2006

O MANUSCRITO DO PRÍNCIPE ( Il Manoscritto del Principe/2000)



O Príncipe é Giuseppe Tomasi di Lampedusa. O manuscrito é do seu livro Il Gattopardo. Publicado depois de ele morto, o livro alcançou grande sucesso de crítica, e, adaptado para o cinema por Visconti, converteu-se em uma das obras-primas do cineasta italiano. Apesar do título, o filme coloca em plano inferior o trabalho do Príncipe no romancc: apenas alguns trechos são lidos por ele e o jovem Marco Pace (Paolo Briguglia),, que descobre o manuscrito em uma das visitas ao Príncipe (Michel Bouquet) , além da informação deste a Guido Lanza (Giorgio Lapano) que o original foi recusado por uma editora. O verdadeiro propósito de "O Manuscrito do Príncipe" é o de narrar a relação entre o Príncipe e os dois jovens, Marco e Guido. E no bojo dessa relação a disputa entre os para ser o preferido da atenção do Príncipe, o homem mais importante da região da Sicília, não apenas pela linhagem nobre (ainda que em fase de decadência), mas pela vasta cultura de que é dotado. Apesar de o Príncipe se oferecer a Marco para lhe dar lições sobre a língua e literatura inglesas, fica evidente que ele dedica mais atenção a Guido, e a razão talvez esteja no fato de ambos pertencerem à mesma classe. A atitude do Príncipe, embora não afete a amizade dos dois jovens, provoca, no entanto, uma ciumeira, um sentimento de inveja em Marco. O filme não o explica, mas aí talvez esteja o motivo por que, ao partir da cidade, Marco desfaz a relação com Guido. E evita encontrar-se com o ex-amigo, quando este vai procurá-lo em Roma, muitos anos depois, quando eles já estão caminhando para a velhice. O último plano do filme parece confirmar a suspeita. Depois de ler a carta que Guido introduz por baixo da porta do apartamento de Marco, vemos este ao piano. A câmera caminha até a estante, onde em uma prateleira está afixada uma foto dos três. O Principe , entre eles, está com os olhos fixos em Guido, enquanto a expressão de Marco é de quem se sente preterido pela atenção (ou a amizade) do Príncipe.
Mesmo concentrando-se na relação entre três pessoas, o filme, como não poderia deixar de ser, revela traços da personalidade do Príncipe, mostra o seu cotidiano e o convívio formal com a Princesa Alessanda Wolf, a "Licy". Vivida por Jeanne Moreau, ela se dedica à Medicina, recebendo os pacientes na própria casa.
Outro aspecto obscuro no roteiro envolve a mãe de Marco. Ela parece uma pessoa doente, nas poucas vezes em que aparece, mas fica-se sem saber qual é o tipo da enfermidade e, consequentemente, a causa da sua morte. Arrisco a hipótese de se tratar de um problema
psíquico, baseado nas condições em que ela é vista. (Numa cena , ela é encontrada na rua pelo filho, em meio a uma forte chuva, dando a impressão de estar desorientada.) E ela quase não fala. Recebe o Príncipe, na única vez em que este vai visitar Marco, com apatia, sem demonstrar um mínimo de efusão por uma visita tão ilustte. Apesar disso e da causa do rompimento entre os dois amigos, não acho que o filme sofra um prejuízo no seu resultado final.
"O Manuscrito do Príncipe" é dirigido pelo desconhecido Roberto Andò, nascido em 1959. Na sua biografia consta que ele foi assistente de direção de Fellini, Francesco Rosi, Cimino e Coppola. Curiosamente, o seu estilo lembra o de Visconti, sem, é claro, o brilho do mestre. Isso se evidencia na forma de alguns enquadramentos, no ritmo lento e numa certa elegância. E, como Visconti, Andò é também diretor teatral. Um detalhe: a produção é de Giuseppe Tornatore, o diretor do belo "Cinema Paradiso".

Nenhum comentário: