quarta-feira, setembro 13, 2006

MAIS ALGUNS MOMENTOS CHOCANTES DO CINEMA


- A patética imitação do cantar do galo pelo velho professor de "O Anjo Azul" (Josef Von Sternberg/1930)
- O "delirium tremens" do alcoólatra em "Farrapo Humano" (Billy Wilder/1945)
- Um macaco pregado numa cruz conduzida por anões em "Também os Anões Começaram Pequenos" (Werner Herzog/1970)
- Em "A Marca da Maldade" (Orson Welles/1958) : despertada, num quarto de hotel, de um sono induzido por substância tóxica, Janet Leigh vê o rosto aterrorizante do homem morto pendurado à cabeceira da cama.
- O corpo do adolescente morto é atirado junto ao lixo acumulado num terreno descampado em "Os Esquecidos" (Luis Buñuel/1950)
- Em "Gritos e Sussurros" (Ingmar Bergman/1973) : Ingrid Thulin fere a vagina com um caco de vidro e, na cena seguinte, deitada na cama, lambuza o rosto com sangue, com uma expressão provocadora para o velho marido de pé no quarto.
- Ed Harris tirando os óculos e exibindo para o dono do restaurante a horrenda cicatriz em torno do olho em "Marcas do Passado" (David Cronenberg/2005)
- Lou Castel debatendo-se no chão, como um inseto pisado, vítima de um ataque epilético, enquanto uma vitrola toca "La Traviata", no final de "De Punhos Cerrados" (Marco Bellochio/1965)
- O sacrifício de uma criancinha pelo beato de "Deus e o Diabo na Terra do Sol" (Glauber Rocha/1963)
- A prostituta escorraçando do quarto, com um chicote, o escritor, que, com o rosto cortado, foge para a rua, tropeçando no lixo ("Eva", Joseph Loseuy/1962)
NOTA SOBRE "O MAIOR AMOR DO MIUNDO"
Numa primeira visão, tive uma ótima impressão desse último filme de Cacá Digegues , em cartaz no Praia Shopping e no Midway. Um astrofísico brasileiro (José Wilker, numa boa atuação)vivendo nos Estados Unidos há muitos anos, vem ao seu país para receber uma condecoração do governo, num momento em que está se despedindo da vida, vítima de um tumor cerebral. Em visita ao pai, numa clínica geriátrica, fica sabendo que a sua mãe biológica não é a esposa do pai , e, de repente, vem-lhe o interesse de colher informações sobre ela. A narrativa dessa busca alterna presente e passado. O contato com o presente é chocante para aquele homem que vive "no ar", com uma dedicação não só exclusiva, mas obsessiva à profissão (ele sequer se interessa por sexo, resistindo ao assédio da secretária e tem a primeira relação com uma jovem e atraente negra da favela), ao se deparar com com uma realidade de miséria e violência. Experiente e hábil, Diegues não cai na armadilha de querer transformar esse personagem (mesmo com os dias contados) num revoltado e num crítico, se já na juventude, durante a vigência da ditadura militar, demostrava desinteresse pela realidade do país. O maior amor do mundo é o do pai (Sérgio Brito) por Flora, a filha de uma empregada de sua casa. Ela morre ao dar à luz o filho, por falta de socorro médico, e no dia em que o Brasil perde para o Uruguai. O filho desconfia que seja por isso que os dois sempre tentam tido um relacionamento frio, distante. (A cada aniversário seu, o pai lhe narra, com detalhes, a derrota do Brasil.) "O Maior Amor do Mundo" tem muito mais elementos para se discutir, que não caberiam numa simples Nota. Mesmo sem conhecer os últimos filmes de Diegues (mas baseado em referências críticas) creio poder dizer que é o seu melhor filme em muitos anos. Merece ser visto.

sábado, setembro 09, 2006

UM CASO REAL E UM FILME

Há poucos dias a mídia noticiou a fuga de uma jovem austríaca da casa onde fora mantida prisioneira, pelo seu sequestrador, durante um longo período. Uns sete, oito anos, por aí. Ainda não atingira a adolescência quando o sequestro ocorreu. Ao retomar a liberdade já era uma moça-feita, conforme vimos pela televisão. Ao ser entrevistada, entre outras revelações, uma chamou mais a atenção: durante o tempo em que esteve nas mãos do sequestrador, os dois costumavam sair de casa para uns passeios e que ela aproveitava o contato com as pessoas para fazê-las entender que ali estava na companhia do sequestrador. Fazia para alguém um movimento com os olhos, que, no entanto, nunca foi percebido. Até que um dia ela conseguiu escapar (não me lembro de que maneira) e agora estava sã e salva.
O insólito nesse sequestro é que o rapaz nunca pediu dinheiro à familia da moça para libertá-la. E, pelo aspecto da jovem, ela não sofreu maus-tratos e, parece, que não foi obrigada a manter relações com o sequestrador. Tudo indica que o rapaz tinha um amor platônico por ela e que devia sofrer de algum distúrbio mental ou psíquico. Tanto que se matou, quando se viu privado da convivência com ela.
Esse caso me fez lembrar de O Colecionador, um filme de William Wyler, 1965, e um dos pontos mais altos da carreira do cineasta. É a história de um rapaz solitário, que colecionava borboletas, e que se apaixona por uma moça. Impedido pela timidez de tentar um relacionamento saudável com a moça, ele a sequestra e a mantém presa em sua casa por algum tempo. O móvel do sequestro é o de ter aquela jovem em sua companhia para sempre e, pela demonstração do seu amor, aliada à convivência, conquistar um dia o coração dela. Em vão. O final do filme difere do final do caso real. Confesso que não me lembro bem, decorridos quase quarenta anos que o vi. Sei que a moça morre, parece que de morte natural. Tampouco me lembro do que aconteceu ao sequestrador (Bené e Moacy talvez possam me esclarecer) ; se ele, a exemplo do sequestrador da jovem austríca, se suicidou, ou se foi apanhado pela polícia. Esse belo filme bem que poderia ser lançado em DVD. O sequestrador é interpretado por Terence Stamp, naquela época gozando de um grande prestígio, que o levou a trabalhar com Pasolini (Teorema), Fellini (Toby Dammitt, um média-metragem) e Losey (Modesty Blaise). A jovem era vivida por Samantha Eggar, que esteve longe de ter o mesmo sucesso de Stamp e que desapareceu sem deixar rastros. Nem sei se ainda está entre nós.

quarta-feira, setembro 06, 2006

A GUERRA IDEOLÓGICA DOS RATOS, DE BERILO WANDERLEY

Os ratos lá de casa não tiveram mais o que fazer, intelectualizaram-se e, além do mais, como recomenda o processo da história, firmaram suas ideologias políticas que estão defendendo com unhas e dentes, principalmente dentes. Comecei a desonfiar dessas últimas tendências quando o meu volume de "O Capital", de Marx, amanheceu com várias páginas roídas. No dia seguinte, em contra-ataque, a prateleira onde alinhei a literatura norte-americana acordou quase inteiramente devorada. Um grupo de ratos vermelhinhos não gostara, decerto, da guerra dos ratos antiianques (sic) sobre Marx e fez a investida, e, no final das contas, sem Organização das Nações Unidas para ter a quem apelar, saiu o dono dos livros com a carga do prejuízo.
Mas a guerra fria não cessou aí. Houve, é certo, um armistício que durou mais de uma semana e que me animou bastante. Julguei que os contendores tivessem decidido, nalguma conferência dos Grandes, votar pelo desarmamento, a bem de uma melhor digestão deles próprios contendores, resolvendo retornar às aprazíveis colinas das cozinhas e dos armários, onde a vida é mais mansa à noite e as guerras ideológicas não têm sentido. Mas esta semana, não sei que reviravolta aconteceu, pois o grupo reacionário resolveu quebrar o tratado de paz, ou, simplesmente, o armistício tentado na última conferência. Dois romances de Leon Tolstoi, meu caro e barbudo Tolstoi, despertaram roídos. Desconfio que essas barbas é que atiçaram a ignorância dos ratinhos antiamericanistas. Tolstoi jamais sonhou com a revolução cubana, quando deixou crescer suas respeitáveis barbas brancas que, mansamente cofiadas, o ajudaram a bem escrever a "Guerra e Paz". Mas os ratos, decerto maus alunos de literatura, desconheciam tanto Tolstoi como a isenção política de suas barbas brancas, e largaram os dentes contra os dois romances, os quais traziam o retrato do velhote russo nas primeiras páginas. Ando assustado e já me decidi por algumas medidas urgentes, para evitar uma Grande Guerra. Encaixotei o resto de Tolstoi, mais Dostoiewsky, mais Pusckyn, inclusive Pudovski e Eisenstein e tudo mais que é russo. Para outro lado do quarto, meti noutro caixão os norte-americanos, de Melville a Faulkner, de Poe a Frost. Sempre que possível, devemos evitar as guerras. Face ao meu gesto, um dia um conselho de ratos sábios e serenos saberá outorgar-me o Prêmio Nobel da Paz. Que já comecei a esperar, com vaidade.
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O norte-rio-grandense Berilo Wanderley (1934-1979) foi cronista, crítico de cinema e poeta. Em vida, publicou o livro de poemas "Telhado do Sonho" (1956) , Em julho passado, mês de aniversário de seu falecimento, publiquei neste espaço duas crônicas dele, as quais, como esta bem-humorada crônica, foram retiradas do livro "Revista da Cidade" (EDUFRN/1994), organizado por sua viúva.

sábado, setembro 02, 2006

ALGUNS MOMENTOS CHOCANTES DO CINEMA


- O tiro na palma da mão de James Stewart em "Um Certo Capitão Lockhart" (Anthony Mann/1955)
- O café quente atirado por Lee Marvin no rosto de Gloria Grahame em "Os Corruptos" (Fritz Lang/1953)
- Richard Widmark empurrando uma velhinha paralítica do alto de uma escada em "O Beijo da Morte" (Henry Hathaway/1947)
- Cavalos agonizando no final de uma batalha em "Kagemusha" (Akira Kurosawa/1980)
- Uma navalha cortando um olho em "Um Cão Andaluz" (Luis Buñuel/1928)
- O assassinato de Janet Leigh no banheiro em "Psicose" (Alfred Hitchcock/1960)
- Um cão com a mão de uma pessoa presa na boca em "Sanjuro" (Kurosawa/1962)
- O cavalo que aparece morto na cama do produtor de cinema, que solta um grito lancinante, em "O Poderoso Chefão I" (Francis Ford Coppola/1972)
- O palhaço carregando a esposa nua, depois de ela tomar banho no rio com oficiais militares em "Noites de Circo" (Ingmar Bergman/1953)
- A prostituta, deitada num sofá, puxando com um pé o dinheiro atirado pelo homem em "A Aventura" (Michelangelo Antonioni/1959)
GLENN FORD
Em maio último falei nesta página sobre Glenn Ford, que no primeiro dia daquele mês completara 90 anos. Quase quatro meses depois, ele se vai. Glenn Ford foi um ator de talento (me lembro de um artigo de Paulo Francis em que, de passagem, ele mencionava uma expressão no rosto de Ford, que só ele sabia fazer), mas não foi bem aproveitado pelo cinema de Hollywood. Não foram muitos os seus filmes memoráveis: "Gilda", o mais cultuado de sua filmografia (mas não o melhor), "Os Corruptos", "Sementes da Violência", "Como Nasce um Bravo", "Desejo Humano" (em que trabalhou de novo com Lang, uma espécie de refilmagem de "A Besta Humana", de Renoir), "Cimarron", "Escravas do Medo", um interessante thriller de Blake Edwards, diretor mais especializado em comédia. Talvez uns dois ou três mais. Além de "Gilda", fez mais 4 filmes com Rita Hayworth. Casou quatro vezes, a primeira vez com a atriz e dançarina Eleanor Powell, com quem teve seu único filho, Peter. Pouca gente talvez saiba que não nasceu nos Estados Unidos, mas no Canadá. Seu nome de batismo era Gwyllyn Samuel Newton Ford. Com a sua morte, só resta Kirk Douglas como um dos 3 atores nascidos em 1916 e que iniciaram a carreira nos anos 1940. O outro era Gregory Peck.

domingo, agosto 27, 2006

VELHO REALEJO


O caso é verídico, me foi contado por um amigo. Ocorreu, recentemente, no lançamento de um livro. Uma grande quantidade de pessoas ali presentes, o autor é muito conceituado em Natal pela competência profissional e a cultura literária. Até o Prefeito estava lá. O editor do livro contratara um violonista, para animar mais o evento. As músicas executadas eram de boa qualidade. Tudo ia correndo bem, o burburinho de vozes das pessoas estimuladas pelo vinho, aqui e ali umas risadas. É assim nos lançamentos de livros. Tudo, pois, corria bem. Até que a rotina desses eventos foi, de repente, alterada. Na longa fila de espera para receber o autógrafo do escritor, estava um casal aí pela casa dos sessenta. Eles estavam calados, como, em geral, ocorre com os casais que vivem há muitos anos, que quase não têm mais o que conversar. Nenhum amigo, ou conhecido, perto deles, para lhes fazer soltar a língua. E aí aconteceu. O violonista começa a tocar uma música antiga. Uma valsa. Então, de súbito, a senhora deixa o seu lugar e se dirige ao músico. Ao chegar a ele, lhe pede que pare de tocar a música. Como se não ouvisse o apelo da mulher, ou não lhe desse atenção (o meu amigo opta pela segunda alternativa) , o violonista segue tocando. A mulher insiste no pedido. Nada. Ela está muito alterada, parece que vai logo cair num pranto. Aí o marido, que acompanhava a cena, sai do seu posto e, chegando ao músico, lhe diz: "Por favor, moço, pare essa música. A minha senhora tem um trauma por causa dessa música". Só então o violonista atende o pedido e emenda outra música. O homem agradece e, pousando a mão no ombro da esposa, volta com ela para a fila. Sob os olhares curiosos e atentos dos presentes. E o lançamento voltla à normalidade. Suponho que alguém que me esteja lendo queira saber qual era a música. Pois bem. É a valsa "Velho Realejo", composta por Custódio Mesquita e Sady Cabral, lançada em 1940 na voz do grqnde Sílvio Caldas. E, para quem se interessar, publico a letra a seguir.
"Naquele bairro afastado
Onde em criança vivias
A remoer melodias
De uma ternura sem par
Passava todas as tardes
Um realejo risonho
Passava como num sonho
Um realejo a cantar.
Depois tu partiste
Ficou triste
A rua deserta.
Na tarde fria e calma
Ouço ainda o realejo a tocar;
Ficou a saudade
Comigo a morar.
Tu cantas alegre e o realejo
Parece que chora
Com pena de ti".
OS 70 ANOS DE "ANGÚSTIA"
Soube ontem, lendo o site da Folha, ou do Estadão, que este agosto assinala os 70 anos do lançamento de "Angústia". Para comemorar a data, a Editora Record está relançando esse terceiro romance de Graciliano Ramos. Nada mais justo. É um grande livro. Mas gosto menos dele do que de "São Bernardo" e de "Vidas Secas". Deste último me agrada, principalmente, o estilo, a linguagem, que se adequam perfeitamente à temática. ´Graciliano, aliás, não gostava de "Angústia", chegando a classificá-lo de "um livro infeliz" num trecho de "Memórias do Cárcere". Ele achava que o livro continha alguns defeitos que ele não teve tempo de eliminar, porque foi preso antes de os originais serem enviados à editora. Por sinal que o crítico Antônio Cândido" vê algumas gorduras em "Angústia", conforme diz no brilhante ensaio que faz na edição do livro pela extinta Livraria Martins Editora. Com alguns defeitos ou não, é um grande livro. Mas, repito, prefiro "São Bernardo" e "Vidas Secas".

quarta-feira, agosto 23, 2006

O NOVO MUNDO (The New World/2005)


Terrence Malick parece ter do cinema a mesma visão que tinha o seu colega Albert Lewin ("O Retrato de Dorian Gray", "Os Amores de Pandora") : das outras artes é o cinema a que mais se aproxima da pintura. Em "O Novo Mundo", lançado em DVD três meses após ser exibido nos cinemas, como já ocorrera em "Cinzas no Paraíso", há uma profusão de imagens de uma beleza plástica, as quais em alguns momentos nos dão a sensação de estarmos diante de uma tela de um pintor. (Aliás, essa ligação do cinema com a pintura pode ser observada até por este pequeno detalhe: o objeto através do qual a obra pictórica e a obra cinematográfica são veiculadas tem o mesmo nome de tela.) No entanto, com a lucidez de quem entende, antes de tudo , estar fazendo cinema, Malick não deixa que a beleza imagística (que pode ser admirada mesmo nas limitações da tela pequena) se sobreponha à narrativa e à "mensagem" que quer passar. E fica bem caracterizada, em "O Novo Mundo", a tensão entre o estrangeiro (representado pelos ingleses) e o nativo americano, na Virgínia dos primeiros anos do século XVII. Uma tensão da qual não escapa nem mesmo o amor entre o Capitão Smith (Colin Farrell) e a índia (Q'Oranka Kilchen). Embora Smith seja o único da expedição a ter consciência da diferença de princípios entre os exploradores e os nativos, ele próprio se recrimina por a índia, na sua pureza e no amor que lhe dedica, não suspeitar que ele é o mesmo homem que sempre foi. Esse contato de Smith com a índia e com aquela terra virgem o leva até a pensar que o que está vivendo não é uma realidade, mas um sonho.
A narrativa de "O Novo Mundo" privilegia o tratamento na primeira pessoa. Ora ela é feita por Smith, ora pela índia, e ainda por John Rolfe (Christian Bale) , com quem ela se casa quando é informada da morte (falsa) de Smith, que regressa à Inglaterra a chamado do Rei para comandar uma expedição às Índias. Já antes do casamento, a nativa se transforma (ou melhor, é transformada) numa "inglesa", sob a orientação de uma mulher da Corte. Até o seu nome é mudado para Rebeca. E nessa transformação fica explícito o poder do colonizador. Por sinal, num pequeno detalhe se vê como a nativa é também colonizada, não apenas na mudança do nome, do vestuário, da maneira de andar, do comportamento. É quando, já cortejada por Rolfe, baixa o vestido que deixa aparecer um pouco da coxa, o que não ocorria na sua relação com Smith, quando ela não se preocupava em esconder partes do corpo.
E se o filme tem parantesco com a pintura, também não lhe faltam momentos de poesia, captadas pelas próprias imagens. E nas brincadeiras entre os dois jovens enamorados, brincadeiras que Rebeca repete com o filme, infiltram-se momentos de ternura.
Belo, poético, delicado algumas vezes, "O Novo Mundo" é mais um triunfo desse diretor que filma tão pouco (quatro títulos em mais de 20 anos de carreira) . Uma pena, numa época em que não são muitos os cineastas com o seu talento. Para finalizar, por uma questão de justiça, não poderia omitir o nome do fotógrafo: Emmanuel Lubezki, que fez um trabalho tão bom quanto o de Nestor Almendros em "Cinzas no Paraíso".
UMA NOTA SOBRE "O LIBERTINO"
Sem um mínimo da beleza visual de "O Novo Mundo", "O Libertino" , ora em exibição no Praia Shopping, é um filme de um forte impacto em seu conteúdo. O primeiro filme de Laurence Dunmore provoca, instiga o espectador, não o deixa indiferente e desinteressado, com um bom roteiro e uma forte interpretação de Johnny Deep no papel do Conde de Rochester. Muito interessante a relação ambivalente entre ele e o Rei Charles II (vivido por um John Malkovich até certo ponto discreto) . O diretor demonstra familiaridade com o cinema, em duas cenas em que utiliza um alucinante travelling. Pela estréia, é um nome a ser observado nas próximas realizações.

domingo, agosto 20, 2006

AQUELE ENCONTRO NO SHOPPING


Naquela manhã de sábado não havia ainda muita gente na praça da alimentação, e quem ali chegasse podia escolher o lugar que melhor lhe conviesse. Ele preferiu uma mesa localizada no início da área, perto de uma coluna. Às suas costas estavam algumas lojas situadas já fora do espaço da praça da alimentação e os cinemas geminados. Somente depois de o garçom trazer o chope e ele sorver o geladíssimo gole que queimou a garganta e o fez estalar de prazer a língua, é que começou a observar os fregueses espalhados pelo centro da área. Na grande maioria, pessoas mais ou menos da geração dele, poucos os adolescentes, que gostavam mais de aparecer à tarde, que ocupavam, praticamente, o espaço da praça da alimentação. Foi então que notou aquela mulher. A mesa dela estava em uma posição um pouco enviesada em relação à dele. Ao seu lado um garoto de seus oito a dez anos, que devia ser seu filho. O menino usava um bonezinho e vestia uma dessas camisetas com inscrições em inglês. Os dois tomavam um refrigerante e comiam batatinhas fritas.
Na primeira vez que olhou para a mulher, ela estava com o rosto curvado para o prato de batatinhas. O homem não tirava os olhos da mesa, fitando a mulher com atenção e um interesse que não passariam despercebidos a qualquer um ali presente que se prestasse a observá-lo. Ele bem que podia ser um desses paqueradores que frequentam os lugares públicos, à caça dessas mulheres solitálrias, ou porque o casamento está arruinado, ou se dissolveu. E como um homem dessa espécie, não lhe passaria pela cabeça que aquela mulher não se incluísse em nenhuma dessas classificações, que ali estivesse com o filho aguardando o marido fazer umas compras. Não, ele jamais seria levado a admitir que ela não fosse mais um nome a ser escrito no caderninho de conquistas amorosas.
E como se fosse um indicativo de que não se enganara, a mulher levantou o rosto do pratinho e olhou para ele. Um olhar que não durou mais de um segundo, mas que significou muito para ele. Ele, o sedutor, tinha certeza de que a mulher repetiria, tantas vezes lhe recomendasse a arte da paquera, aquele gesto. De fato, não demorou muito e ela voltou a olhar para ele, ainda que tão rápido quanto da primeira vez, mas que o fez abrir um sorriso de contentamento.
Na terceira vez que a mulher o fitou, ele percebeu uma mudança no seu gesto, pois ela demorou um pouco mais para baixar a vista. Antes de isso acontecer, ele arriscou um sorriso, a que ela correspondeu. Ele ergueu o indicador e apontou-o para o copo vazio. O garçom não tardou em trazer outro chope e só depois de o homem beber o primeiro gole é que a mulher tornou a olhar para ele. Como da última vez, não desviou rapidamente o rosto, ele arriscou outro sorriso, ela sorriu também. Vitória!
Logo depois ele sentiu o braço ser tocado. Virou-se como se tivesse sofrido um choque elétrico e deu com um garoto franzino lhe mostrando um jornal seguro pela mão, sem dizer uma palavra. Em um segundo leu a manchete em destaque na primeira página e despediu o jornaleiro. Estava informado da notícia que ele quisera lhe vender. À noite passada, na tevê, ouvira um delegado de polícia revelar a suspeita de que dois homicídios, ocorridos em um intervalo de pouco mais de um mês, fossem obra de um serial killer. Segundo o policial, os crimes apresentavam algumas características coincidentes: a arma utilizada (uma faca), o local onde o assassino se livrara do corpo (o rio) e a apropriação de valores pertencentes ao morto. Mas para o paquerador não seria aquela para se ocupar do perigoso homicida e só fizera, assim mesmo num breve espaço de tempo, porque estava sugestionado, como parte da população, pelo destaque que a mídia vinha dando àqueles crimes. Com aquela mulher atraente, ainda jovem, e dando provas de estar também interessada nele, não tinha outra coisa a fazer, senão dirigir a ela toda a atenção. Observou que ela e o menino tinham terminado de comer e que ela chamava o garçom para tirar a conta. De repente ficou apreensivo, ela poderia ir embora sem propiciar a oportunidade de um contato entre eles. E quem podia garantir que a encontraria de novo. Por um momento ficou quase em desespero, imaginando a oportunidade não aparecer, e sem atinar no que estava fazendo, indagou a mulher, por meio de uma mímica, se podia ir até à sua mesa. Viu-a corar, sorrir sem graça e baixar os olhos. A negativa tácita da mulher deixou-o irado, além de tudo. De imediato lhe ocorreram duas alternativas de reação: ir ao encontro dela, ou pagar a conta e sair. Mas enquanto se debatia entre as alternativas, ela levantou o rosto e o fitou com uma intensidade de que até então não fora capaz. Um olhar aceso de desejo, anunciador de promessas, aquele olhar o desarmou. E ela fez mais: com um gesto de mão instruiu-o a seguila. Depressa ele chamou o garçom para tirar a despesa, a mulher se levantou, pegou a mão do menino e foi saindo devagarinho. Quando ele se levantou, a mulher mal tinha deixa a praça da alimentação, pois andava lentamente, e ele a foi seguindo, também sem pressa. Pela primeira vez notava que ela vestia uma calça jeans cinza um tanto justa, ao ponto de lhe fazer modelar as nádegas. Possuía um corpo bem-feito, nem gordo, nem magro, Preto, o cabelo no seu tamanho exibua também uma medianidade, nem longo nem curto. Em dado momento, percebeu-a parar, curvar-se e falar no ouvido do menino, e depois o garoto correr para as escadas rolantes. Ela se aproximou de uma coluna e nesta ficou recostada. Então, ele apressou o passo e ao chegar junto à mulher, disse olá, ela se virou e disse olá. Tudo bem, ele perguntou. Tudo bem, ela respondeu. E o garoto? Está subindo e descendo na escada rolante, ele adora fazer isso. Ela riu, ele também. Eu sou Adolfo. E eu sou Julieta. A do Romeu? ele brincou. Sem Romeu, ela disse rindo. Conversaram mais amenidades, até que ele sugeriu saírem para um lugar tranquilo. Ela acedeu, mas com a condição de que fossem se encontrar longe dali, que precisava deixar o menino na casa de uma amiga. Combinaram o local do encontro, ao qual ele devia chegar dentro de uns quarenta minutos. Despediram-se. Ele ficou olhando-a subir a escada com o menino, até ela desaparecer. Olhou o relógio. Teria que passar mais de vinte minutos ali, antes de ir ao encontro. Achou que aproveitaria melhor o tempo se fosse ouvir música no carro. Pela escada rolante subiu para o piso superior e de lá buscou a saída. Ao abrir a porta de saída, esbarrou em um palhaço, tomando um tremendo susto.
Encontrou-a na calçada, recostada a um poste. Era uma ruazinha desertas, embora distasse a poucos metros de uma avenida de muito movimento de veículos. Ela entrou no carro e trocou beijinhos com ele. Ele quis saber se ela preferia algum lugar, ela disse que era melhor irem para a casa dela. Ele foi tomado de surpresa: e o maridão? Não tem mais o maridão, ela respondeu sorrindo. Era separada. E acrescentou que estava. sozinha, dera folga à empregada. Ele já ria intimamente de satisfação, antegozando os momentos sublimes que ia passar na cama com ela.
Curioso, ou apenas talvez para passar o tempo, quis se informas por que ela tinha se separado, mas a mulher disse que preferia não tocar no assunto. Ele disse que a compreendia e buscou outros assuntos. Ao conversas, virava às vezes o rosto para ela, mas logo precisava desviá-lo para o volante. Que bom se pudesse passasr horas admirando aquele rosto de uma beleza serena, plácida, os olhos negros, um dos quais sofria de estrabismo, mas tão sutil que só seria percebodp com um exame atento. E era com atenção, mas também com desejo, e até com um certo deslumbramento, que olhava para a mulher. Com aquelas características do seu rosto e mais o jeito tranquilo, suave, uma certa candura, ela lhe transmitia uma sensação de paz, de serenidade, de bem-estar, que, aliada à atração física, fazia-o atingir quase a felicidade. Com esses atributos todos, eral-lhe difícil entender por que o casamento dela fracassara. Em dado momento ela avisou que estavam próximos de sua casa e não seria conveniente chegaarem juntos. Ela saltaria , e passado algum tempo, ele entraria na casa. Mas que não fosse com o carro. Não tem perigo de roubarem o carro, ele perguntou. Esta hora não. Eles foram penetrando em um terreno baldio, de onde se via um trecho do rio que atravessava a cidade. Antes de descer, a mulher ensinou a localização da casa e o instruiu a se fazer passar por um vendedor, quando ela o fosse atender no portão. Ele a chamou de bichinha esperta, ela sorriu com aquele jeito ruborizado e outra vez trocaram beijinhos. Ela desceu, ele olhou-a caminhar com aquela lentidão de quando deixava a praça da alimentação, admirando-lhe o corpo.
Ela entrou na casa e foi direto para um dos quartos. Um homem estava deitado na cama, lendo uma revista. Ela chegou perto dele, beijou-o e deitou-se ao seu lado. E aí, perguntou o homem. O babaca tá vindo, ela respondeu. Pegou ele onde? No shopping. É barão? Tem um carrão de luxo importado. O homem calou-se, quis retomar a leitura, ele tomou a revista da mão dele e a jogou no chão. Ele não protestou, mas ficou imóvel. Depois do que fiz, acho que mereço pelo menos um chamego. Toda vez você diz isso, o homem falou com uma voz neutra. Ela não se sentiu desestimulada, virou-se para o homem e começou a beijá-lo e a lhe fazer carícias. O homem, mesmo sem o ardor dela, retribuía aqueles carinhos. Nisso, ouviram bater palmas. É o cara, disse o homem. Vai fazer hora com ele, depois eu chego lá. Droga, esse babaca não demorou nada, ela explodiu. Levantou-se, fez um rápido exame na roupa, ensacou bem a camiseta, que tinha saído um pouco da calçpa, e foi ao espelho. Antes de deixar o quarto, atirou um beijo para o homem. Ele pegou de novo a revista e ficou lendo durante uns quinze minutos. Depois saltou da cama e foi para um birô. Abriu uma gaveta, de onde retirou uma faca.A mão esquerda segurando a faca, com a direita pôs-se a alisar um lado da lâmina, em toda a sua extensão. Em seguida, fez o mesmo com o outro lado da lâmina. Finalmente, tocou na ponta da faca. Ergueu-se ainda com a arma na mão e guardou-a num bolso da calça. Então, em passos lentos, mas decididos, saiu do quarto em direção à sala.
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Conto extraído do meu livro "Crônica do Amor e do Ódio" (1997)

quarta-feira, agosto 16, 2006

TRÊS ASSUNTOS


1) Depois de ser escolhida para a capa do Almanaque Pirelli de 2006, Sophia Loren foi eleita, na semana passada, "A Maior Beleza Natural". Foi numa pesquisa promoviva pelo site "Dare to Be Awards", contemplando homens e mulheres do "show business" , na qual votaram 1.578
internautas. O segundo lugar ficou com o ator George Clooney, seguido pela cantora britânica Charlotte Church, Catherine Zeta-Jones, Johnny Depp. Kate Winslet, Gwinett Paltrow, Jack Black (quem é?), Cameroz Diaz e Gail Porter (de novo, quem é?) . Como se vê, às vesperas de completar 72 anos, a grande Sophia continua em alta. Imagine se a enquete fosse feita há, pelo menos, 20 anos atrás. Ela costuma dizer, quando perguntada pela conservação da sua beleza, que o segredo é o amor à vida e ao espaguete. E ainda banhos com zzeite de oliva. Olhem aí, queridas amigas que frequentam esta página.
2) Faz poucos dias terminei a leitura de um livrinho (pelo tamanho) delicioso: "Cartas de Viagem e Outras Crônicas", de Campos de Carvalho (José Olímpio Editora/2006). São textos que Campos de Carvalho ("A Lua Vem da Ásia", "Vaca de Nariz Sutil", entre os 6 romances que publicou), escreveu para "O Pasquim". Você bola de rir das cartas que ele escreve de Londres (quase todas) e de Paris. Um fino humorista, Campos de Carvalho é um escritor singular, que me parece sem paralelo na literatura do nosso país, pela temática e pelo estilo. Mas eu queria falar, especificamente, de uma curiosa revelação que ele faz sobre Guimarães Rosa. Segundo diz CC numa crônica, o escritor mineiro foi enterrado com os seus óculos. Sem dizer o motivo, Campos de Carvalho escreve: "enterraram João Guimarães Rosa de óculos, sobre os argutos olhos para sempre fechados, como a significar a insignificância da visão humana diante da vida e diante da morte: um par de óculos tendo o mesmo efeito que os óculos de um cego ou um par de antolhos, na escuridão mais espessa que envolve o mundo". E já que falei em Sophia, numa carta Campos de Carvalho escreve que "um soutien de Sophia Loren também serve como um pára-quedas".
3) Outro dia escrevi um texto sobre Fritz Lang("M, o Vampiro de Dusseldorf", "Os Corruptos"), no ensejo dos 30 anos de sua morte. Volto a lalar desse grande cineasta para revelar um detalhe curioso em seus filmes. Trata-se do plano de uma mão, que não é de nenhum ator. Mas do próprio Lang. Ele confirmou isso numa entrevista dada aqui no Brasil, quando veio para uma edição do Festival de Cinema do Rio (se não estou enganado, para presidir o júri) , ao ser perguntado por um dos entrevistadores sobre essa curiosidade. Só que o jornalista não perguntou o motivo, nem Lang se prestou a revelá-lo. Provavelmente uma excentricidade dele, a exemplo do que fazia Hitchcock, este aparecendo nos seus filmes de corpo inteiro.
E ONTEM COMEÇOU A PROPAGANDA ELEITORAL NA TELEVISÃO. HAJA SACO!

domingo, agosto 13, 2006

A JANELA DA FRENTE (La Finestra di Fronte/2003)


Convalescendo de um acidente, um fotógrafo em "Janela Indiscreta" (Hitchcock/1954) preenche a ociosidade observando o que ocorre com os vizinhos de apartamento. E nesse voyeurismo forçado termina por descobrir um crime praticado por um locatário contra sua mulher. Em "A Janela da Frente" , a dona de casa Giovanna (Giovanna Mezzogiorno) gosta de observar o vizinho solteiro Lorenzo (Raoul Bova), quando este se torna visível através da janela que fica defronte ao seu apartamento. Mais do que curiosidade, existe um interesse por ele, talvez por consequência da situação do seu casamento com Filippo (Filippo Nigro), marcado por desentendimentos e discussões constantes. Ela não sente mais desejo pelo marido, como é demonstrado numa cena em que ele a procura, após vários dias sem fazerem sexo, e Giovanna alega estar cansada para atendê-lo. A aparição de um velho desmemoriado, que eles encontram na rua e Filippo leva para casa, irá agravar a crise conjugal, porque ela não concorda com a atitude do marido.
É o grande personagem de "A Janela da Frente" esse velho. Por ele, aliás, é que Giovanna e Lorenzo se encontram num café, quando ela vai levá-lo à delegacia de polícia, para tentar descobrir o endereço dele. A partir do encontro no café, Giovanna e Lorenzo travam contato, que culmina com um breve ato sexual no apartamento do rapaz. É depois do ato que ocorre o melhor momento do filme. Depois de ele revelar que também a observava do seu apartamento, Giovanna vai até à janela que ele lhe indicara e de lá olha o seu apartamento e vê o marido e os dois filhos. Em silêncio, pensativa, ela repete a experiência do vizinho, mas, evidentemente, com um outro significado. Significado que a expressão dessa boa atriz deixa no ar. Um sentimento de culpa? Ou a constatação dos obstáculos para levar adiante o envolvimento com o vizinho? E quando se descobre que o velho, na juventude, teve uma relação homossexual, fica a impressão de que o filme pretende estabelecer uma analogia entre o caso dele e o de Giovanna e Lorenzo. Dois amores proibidos e que não têm continuidade, porque um dos parceiros é obrigado a partir. Simone, o do velho (aliás, uma relação que ficou de tal modo gravada na memória do velho, que
este, não conseguindo se lembrar do próprio nome, apodera-se do nome do parceiro) para um campo de concentração nazista e Lorenzo para ir trabalhar em outra cidade. Essa impressão é reforçada na cena da dança, sem música, do velho com Giovanna. É outro bom momento de "A Janela da Frente": enquanto dança com Giovanna, o velho se recorda de uma festinha em que ele e Simone dançam cada um com uma moça, mas trocando olhares. As duas cenas se intercalam, o passado convivendo com o presente, num bem-sucedido trabalho de montagem.
Esse velho é interpretado por Massimo Girotti, um dos grandes atores italianos, que trabalhou com Visconti (em mais de um filme, inclusive em Ossessione, o primeiro do diretor), Antonioni, Pasolini, entre outros cineastas do segundo escalão. Já muito doente, ele faleceu antes de as filmagens de "A Janela da Frente" terminarem. O filme, por sinal, é a ele dedicado.
Dirigido por Ferzan Ozpetek, um turco radicado na Itália desde 1978, "A Janela da Frente" , se náo é excepcional (o roteiro, apesar de bom, dá uma ou outra escorregadela), é um filme a que se assiste com atenção e interesse que não se perdem depois do final, que é bem interessante, ao mostrar um grande close dos olhos de Giovanna. O que não é pouco no momento de pouca criatividade que o cinema italiano atravessa, tão diferente do que ocorria nas décadas de 1940 a 1970.
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"TÁ NA PEIA"
Havia um narrador esportivo em Fortaleza que se comunicava com o torcedor durante a partida, no momento de informar o placar. Vamos supor que o "!Fortaleza" estivesse vencendo o "Ceará" por 1X0. Ele, então dizia, "o Fortaleza tem 1 e o "Ceará"? Aí os torcedores do "Fortaleza' respondiam: "Tá na peia". Pois bem. Se me perguntassem como vai a programação de cinema em Natal, eu responderia "tá na peia". Depois de "O Novo Mundo", de Terrence Malick, aí pelo finalizinho de maio, não apareceu mais nenhum filme que valha a pena para o cinéfilo que não aprecie as bobagens que as duas redes de cinemas (Praia Shopping e Midway) vêm exibindo há mais de dois meses. A do segundo ainda não mostrou nada que prestasse. E vou repetir o que disse outro dia. O gerente, ou qualquer outro nome que se diga, dos cinemas do Midway prometeu, num dos jornais locais, promover numa das salas a exibição de filmes considerados artísticos. Isso foi dito há vários meses e até agora nada. Ele deve ser como um candidato em época de campanha política. Promete o céu para o eleitor e, quando eleito, lhe dá o inferno. Oremos, como dizia um colega meu, que, aliás, não era religioso. Oremos.

quarta-feira, agosto 09, 2006

AQUELE CASAL


Todos os dias, no finzinho da tarde, eu os via passar. Ele alto, musculoso, mas com um excesso de banhas na barriga e na bunda, que comprometia a perfeição do corpo. Ela miudinha, o biótipo do anão, em que se sobressaíam as pernas curtas, mais para magra do que para gorda. Ambos, morenos, tinham um rosto não só comum, mas também desprovido de beleza, o homem com uma venta enorme, cujas narinas viviam cheirando o lábio superior, enquanto a da mulher era curta e em forma de uma batata. Ninguém na minha rua resistia à atenção que aquele casal díspar despertava, e a passagem dos dois reunia um grande número de curiosos. Era inevitável que surgissem as brincadeiras. Alguém os apelidou (impropriamente, como se vê) de Tarzan e a macaca Chita. Outro disse uma vez que o homem podia tomar a companheira pelas mãos e, com ela, surrar os filhos, não precisando de relho para isso.
A descomunal diferença física daquele casal, por si só, já seria bastante para atiçar a curiosidade de todos nós. Mas além dela, existia um outro atrativo que tornava a passagem deles aguardada com ansiosa expectativa. Era o bate-boca entre os dois, uma coisa tão certa de acontecer como a noite suceder ao dia. Assim foi durante todo o tempo (uns poucos anos) que os vimos passar pela nossa rua. Era uma coisa divertida e ao mesmo tempo enigmática. Qual era o motivo da discussão? Ou haveria cada dia um motivo? Ouvíamos apenas umas poucas palavras, pois eles andavam ligeiros e numca paravam. Afastados um do outro, ele à frente, ela um pouco atrás, passavam por nós envolvidos numa altercação. Em mais de uma ocasião, eu vi a anãzinha soltar uma risada sarcástica, provocada por algo dito pelo grandalhão. Espantoso ver a coragem dela, enfrentando aquele gigante, de cabeça erguida e sem se calar um só instante.
Outro enigma que permaneceu indecifrado foi o de sempre aparecem juntos por nossa rua, àquela hora. Somente aos sábados e domingos não os víamos passar, daí termos deduzido que os dois vinham do trabalho. Mas será que trabalhavam na mesma empresa? Ou a mulher ia buscar o marido todos os dias? Não sei, ninguém jamais soube.
Via-os apontar entre cinco e quinze e cinco e meia da tarde, uma hora em que o bar estava vazio e eu podia ficar na calçada para observá-los. As calçadas vizinhas ficavam tomadas pelos curiosos habituais e aqueles que viam a cena pela primeira vez e passariam a integrar o grupo. Essa pontualidade do casal terminou por transmitir às pessoas do nosso meio uma referência temporal, que se revelou muito útil nas questões em que era necessário estabelecer uma verdade horária. Se alguém assegurava que a ocorrência se dera a determinada hora (ou antes, ou depois da passagem do casal), a discussão era imediatamente encerrada.
A rotina gruda-se na vida de todos nós de uma tal maneira, que não temos força para nos livrar dela. Ficamos tão acostumados à passagem daquele casal, que sentíamos a sua ausência nos sábados e domingos. Quando chegava a segunda-feira, ficávamos aguardando a hora de eles aparecerem, numa nervosa ansiedade. É, pois, compreensível a nossa preocupação quando, de repente, o casal deixou de aparecer. Foi numa quinta-feira (o fato de me lembrar, com exatidão do dia , revela a atenção que dedicávamos àquele casal) que notamos a ausência deles. Atribuímo-la a um desses acidentes que ocorrem no cotidiano das pessoas - uma doença sem gravidade, por exemplo - que obrigara o homem a faltar ao trabalho, e esperamos que no dia seguinte eles aparecessem. A sexta-feira chegou, expectantes nos postamos nas calçadas, e eles não passaram. Do mesmo modo nos dias úteis que se sucederam.
Às vezes ponho-me a pensar em como a vida da gente começa, de repente, sem a gente esperar, a sofrer influência de uma pessoa, ou de algo qualquer - até de um objeto. A ausência daquele casal começou a mexer-nos os nervos. Cada dia amanhecíamos na esperança de que naquela tarde, finalmente, eles reapareceriam, íamos para a calçada quando se aproximava a hora e só nos restava o desapontamento. Ao completarem três semanas, começamos a perder as esperanças e a temer que algo de muito sério acontecera. Só pensávamos em duas hipóteses: na morte de um deles, ou numa separação. No entanto, poucos dias depois estava atendendo no caixa, quando um papudinho habitual do bar surgiu na porta e gritou chega seu Ernani vem ver aqueles dois. Larguei o caixa e corri para a calçada, onde já encontrei muita gente. E lá vinham eles. O homem à frente, a mulher um pouco atrás, empenhando-se em acompanhá-lo, os dois discutindo. Em cada um de nós ressurgiu o riso de alegria, há muitos dias desaparecido.
A rotina voltou - mas era uma rotina que não nos pesava, porque a visão diária daquele par excêntrico, sempre em guerra, tornara-se necessária às nossas vidas. Todas as tardes, às cinco horas, corria para a calçada, à espera do casal. Via os vizinhos também em suas calçadas, presas da mesma expectativa. Era vermos os dois apontar, e os rostos de todos nós se iluminavam. Quase sempre nos comportávamos com discrição, mas, às vezes, alguém mais extrovertido soltava uma risada, que eu temia que enfurecesse o gigante, o que, felizmente, nunca aconteceu. Tenho para mim que o assunto em discussão prendia-lhes toda a atenção e nada mais importava para eles.
Muito tempo depois da reaparição do casal eu adoeci e precisei fechar o bar por alguns dias. Preso em casa, intermitentemente pensava nos dois. E era inelutável, quando chegava a hora de eles passarem, rever mentalmente a cena que se repetia todas as tardes. Quando voltei a trabalhar, a primeira coisa que fiz foi saber notícias dos dois. O papudinho me informou que eles não apareciam há varios dias, para ser preciso, desde o dia em que fora para casa doente. Levei na brincadeira: vá ver que eles souberam que eu estava doente e tiveram a gentileza de não me privar da presença deles. Mas os dias foram passando e nada do casal. A exemplo daquela vez em que eles tinham sumido, começamos a ficar preocupados. A preocupação evoluiu para quase desespero, quando vimos ser ultrapassado o prazo que tacitamente determinamos para o retorno do casal, ou seja, o mesmo tempo em que eles tinham desaparecido na primeira vez, e continuaram ausentes. Perguntei a inúmeras pessoas por notícias deles, mas ninguém sabia onde moravam ou trabalhavam - todos os que viviam ou trabalhavam naquela área só os conheciam de vista. Os dias foram passando e com eles instalou-se em nós a certeza de que nunca mais botaríamos os olhos naquele casal. Começamos a lutar por nos conformar àquela perda. Agora, aquele casal estranhíssimo passaria a viver na memória de todos nós, até chegar o dia em que se deixaria de falar nele.
Quando foi numa tarde de sábado levei um susto daqueles ao ver entrar no bar a mulher. Sentou-se e pediu ao garçom uma coca e um sanduíche. Lá do caixa fiquei observando a nanica.O tempo todo de cabeça curvada para a mesa, como se estivesse procedendo a um exame acurado da toalha. O garçom trouxe o dinheiro da despesa e lhe disse que eu mesmo entregaria o troco. Ao lhe passar o dinheiro, perguntei pelo companheiro. Sem me olhar, ela disse ele morreu. Morreu? repeti como um eco. Ela deve ter achado desnecessário acrescentar alguma informação e foi se erguendo rapidamente da cadeira. Estávamos frente a frente, a mulherzinha virou-se para ir embora, sem levantar os olhos. Notei que esquecera o troco na mesa e avisei-a. Ela voltou-se, apanhou o dinheiro e, antes de sair, fitou-me, como se fosse me agradecer, mas não disse uma palavra. E pude ver que seus olhos estavam úmidos.
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Conto extraído meu livro Clarita (1993)

domingo, agosto 06, 2006

FRITZ LANG

Há trinta anos, em Beverly Hills, California, morria Fritz Lang. Encerrara uma carreira de perto de 50 filmes em 1960 , com Os Mil Olhos do Doutor Mabuse. Lang saía de cena retomando um personagem que criara na década de 1920, no filme Doutor Mabuse, o Jogador - um ente diabólico que usa os seus talentos, inclusive hipnóticos, para semear o mal - que aparecia em mais dois filmes.
Com o nome de Friedrich Christian Anton Lang, ele nasceu em 1890 em Viena, onde também nasceram Josef Von Sternberg, Billy Wilder, Fred Zinnemann e Otto Preminger, todos os cinco terminando por fazer carreira no cinema americano. Mas bem antes de chegar aos Estados Unidos, Lang construiu uma sólida carreira no cinema alemão, tornando-se um dos mais expressivos nomes do Expressionismo, inaugurado em 1919 com O Gabinete do Doutor Caligari, de Robert Wiene, em cujo roteiro dizem que colaborou.
Quando fez M..., o Vampiro de Dusseldorf (1931), o prestígio de Lang atingira o topo. Sua destacada posição não passou despercebida ao governo alemão (já com Hitler afiando as garras), que, através de Goebbels, Ministro da Propaganda, convidou-o para dirigir o cinema do país. Este é um fato já contado um milhão de vezes. Lang finge-se honrado com o convite, aceita-o, mas, ao sair da audiência, arruma as malas e foge para a França e depois para os Estados Unidos, onde adquire a cidadania daquele país. Thea Von Harbou, sua mulher e colaboradora, adepta do governo de Hitler, não o quis acompanhar.
Embora tenha feito filmes importantes, inclusive em Hollywood, não resta dúvidas que "M"... é o maior de todos. E dos maiores do cinema. Na enquete que Moacy Cirne promoveu recentemente no seu Balaio Vermelho, consultando mais de 60 cinéfilos sobre os 20 maiores filmes de todos os tempos, o de Lang figurou entre eles, recebendo, inclusive, o voto do cineasta Luiz Rosemberg Filho (Assuntina das Américas). É o seu primeiro filme falado. Ele levou quatro anos para aderir ao som, e, nesse período, realizou dois filmes mudos. Esse fato, contudo, não indica uma atitude misoneísta de Lang em relação à inovação técnica; inclusive, não se sabe de nenhuma opinião dele desfavorável ao emprego do som. Ao contrário de René Clair e, principalmente, de Chaplin, Lang viu certamente no som mais um recurso à disposição para os fins pretendidos; e se não o experimentou na primeira hora é porque, talvez, tivesse preferido antes avaliar as suas potencialidades para, então, usá-lo como um elemento que servisse à linguagem. E de fato em "M"... o som foi utilizado de uma forma não apenas criativa, mas, para a época, revolucionária. Eis o que escreveu Luiz Nazário em seu livro De Caligari a Lili Marlene (Global Editora, 1983) a esse respeito: "Pela primeira vez no cinema uma frase dita no final de uma cena era prolongada no começo da outra, acelerando o ritmo da narrativa e reforçando dramaticamente as associações de idéias contidas nas cenas seguintes".
No cinema desse diplomado em Arquitetura, que, também, experimentou a pintura, combatente na Primeira Guerra Mundial (na qual perdeu a visão do olho direito), o indivíduo luta em vão contra forças aparentemente superiores e invencíveis (no caso do personagem de "M"..., a enfermidade, que o leva a estuprar e assassinar crianças). Ele próprio confessou em entrevista que o tema com esse indivíduo está presente em toda a sua obra. "É uma obsessão minha, mais do que um tema recorrente", acrescentou.
Depois de se aposentar, Lang apareceu como ator em O Desprezo (Godard), interpretando a si mesmo. Estreou no cinema em 1919, com Halbblut. E no cinema americano com Fúria (1936), um dos seus melhores trabalhos em Hollywood. Admirado por alguns dos seus pares, como Buñuel e Hitchcock, Fritz Lang, nas palavras do francês Jean Tulard, "nos deu uma grande aula de cinema".

quarta-feira, agosto 02, 2006

O PRIMEIRO LEITOR


Deve acontecer também com algumas pessoas. É quando adquiro um livro num sebo. Ao ler o livro, e se ele está me agradando, começo a pensar se o primeiro leitor também gostou daquela obra, se foi tocado pelo prazer enquanto a lia, se sentiu a mesma emoção que estou sentindo diante da história criada pelo autor, de algumas passagens do livro, da linguagem, formando palavras e frases de grande beleza, se tudo isso o encantou tanto quanto a mim. Ontem terminei de ler As Três Marias . Não conhecia esse livro de Rachel de Queiroz, lançado em 1939, o quarto de sua bibliografia. Gostei. Rachel foi uma escritora de peso, um dos nossos melhores autores (não faço distinção entre livros escritos por homens ou por mulheres). Não vou falar do romance, até porque penso que alguns dos meus fiéis visitantes o conhecem. Prefiro falar da pessoa que o leu antes de mim.
Me chamou a atenção, principalmente, a forma que ela utiliza ao demonstrar o gosto, ou a admiração , ou até a estranheza, por uma palavra. Em vez de sublinhar por inteiro a palavra, ela põe um tracinho sob ela. E, curiosamente, até a umas certas páginas , o traço é marcado pela cor verde, sendo depois substituído pelo marrom. E a marca nas palavras termina na página 127. Depois daí, até à pagina 200, que encerra o livro, não há mais um único tracinho. Por quê? Taí uma coisa que me encucou. Será que esse primeiro leitor de As Três Marias abandonou aí a leitura? Ou será que não encontrou mais nenhuma palavra que a interessasse? Pode-se escolher a primeira alternativa, pelo fato de o livro ter ido parar num sebo. Mas muitas vezes é um familiar do leitor, com a morte deste, que vende o livro. (Os sebistas costumam dizer que, mal o corpo do marido baixa à sepultura, a viúva aparece oferecendo a biblioteca do extinto.) E há ainda aquele tipo de leitor, não muito comum, que, depois de ler um livro, por mais que tenha gostado dele, não deseja conservá-lo.
Uma última coisinha. Fiquei com a sensação de que o primeiro leitor do livro de Rachel seja uma mulher. A história se passa, até perto da metade, num internato de freiras. E uma curiosidade. Numa hora em que, de passagem, é mencionado o nome da aluna Maria do Carmo Silva, há um traço vertical, um pouco grande, sob o qual está escrito "Carminha". Uma amiga da provável leitora? E terá esta frequentado o mesmo internato de Fortaleza? Quem sabe?
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O CENTENÁRIO DE MÁRIO QUINTANA
Em 30 de julho, se ainda estivesse entre nós, Mário Quintana teria chegado aos cem anos. Em Porto Alegre já começaram as comemorações pela data. Que devem se estender por outras capitais do país. Porque parece que, afinal, Quintana é hoje reconhecido como um grande poeta. Isso não ocorria há até alguns anos, até mesmo entre seus pares. Apesar da admiração de sua poesia por Carlos Driummond de Andrade e Manoel Bandeira, além do cronista (e poeta bissexto) Rubem Braga. Este, aliás, na época em que foi editor (Editora do Autor, junto com Fernando Sabino e não sei se mais algum outro escritor) foi o primeiro, de fora do Rio Grande do Sul, a publicar um livro de Quintana. Vi num site, no mesmo dia do seu centenário, que João Cabral também o admirava. Francamente, sou cético quanto a isso. Não existem dois poetas tão diferentes, na temática, no estilo, até no temperamento, quanto o gaúcho e o pernambucano. Não sei. Pode ser, mas sou cético. Bom, o que importa é que a poesia de Quintana está aí, viva, reconhecida. Uma poesia simples, mas daquela simplicidade profunda, não simplória. E muitas vezes perpassada pelo humor, quase sempre de natureza irônica, sarcástica. Outro dia vi (ouvi) num canal por assinatura um menino de oito anos declamar aquele conhecidíssimo "Poema do Contra": "Todos esses que aí estão/Atravancando o meu caminho/Eles passarão/Eu passarinho"! Há quem assegure que esse poema foi feito depois de ele perder, pela terceira vez, a eleição para o ingresso na Academia Brasileira de Letras. Pior para a Academia.
Mário Quintana foi também um grande tradutor, tendo traduzido, entre outros, Marcel Proust, Virginia Woolf e Maupassant. Faleceu em 5 de maio de 1994.

domingo, julho 30, 2006

FORMIGA CRIANDO ASAS


O espelho reflete o rosto subitamente meditativo de Jussara. Ele é expressivo em sua beleza arranhada pelas marcas que, mais que o tempo, lhe gravaram as asperezas do cotidiano. E para disfarçá-las, ela estivera até há pouco fazendo aplicação de cosméticos. Estendido na cama, o vestido que irá usar. Os sapatos ao pé da cama. No espelho, os olhos gatescos se destacam entre a espessa maquilagem do rosto. Ouve o choro do cacula, mas não se preocupa. Coisas de criança. Mas há bem pouco tempo ela correria de onde estivesse para consolar o filho. Nas madrugadas, já não se levanta para verificar se os filhos estão agasalhados e se têm o pijama umedecido. Quando vai ao vaso, não mais consulta o relógio por ver o lugar do marido ainda vazio. Bem que ela se transformara com a entrada de Humberto em sua vida. Humberto-meteoro, e que a ajudou, sem querer, a lutar contra a antivida que levava.
O fracasso em que redundara o seu casamento: tinha consciência disso, muito antes de Humberto aparecer. Na verdade, Marcílio não demorou para se revelar que a queria como um objeto de inestimável valor utilitário, podendo servir inclusive ao seu apetite sexual, nas noites em que não encontrasse outra parceira. Sofria com essa relação de senhor-escrava que existia no seu casamento, mas preferira a resignação à revolta. A revolta era guardada no coração e apenas levemente comunicada a Vera, a amiga com quem às vezes se abria. A amiga compartiu do drama que viveu ao conhecer Humberto, indecisa entre cair-lhe nos braços, ou permanecer leal a um homem que não a honrava, nem aos filhos. Alívio de suas dores conugais, nâo pôde, no entanto, ajudá-la a se decidir. Tu tens que decidir por você mesma, repetia Vera todas as vezes em que lhe pedia uma opinião. E pensar muito, acrescentava.
E ela não fez outra coisa. Foram dias e dias de tensão, de noites insones, em que se sentiu mais só e mais frágil. Humberto ligando pra ela a toda hora, para cobrar uma resposta favorável a sua proposta, a apreensão em que a deixavam os telefonemas, o pavor de que Marcílio se inteirasse do caso. Uma noite o marido resolve ficar em casa (não deve ter conseguido uma nova parceira) e vai procurá-la. Filha, vamos fazer um amorzinho, diz como uma ordem, nunca um convite. A escrava se deixa penetrar pelo seu senhor. Saciado, ele lhe vira as costas e logo depois ouve-se o ronco de quem tem a consciência de uma criança. Violentada (uma vez mais) em sua sensibilidade, Jussara deita-se com a insônia. No dia seguinte, vai ao encontro de Humberto.
É bruscamente interrompida pela aparição do caçula, que vem se queixar do irmão. Ela lhe faz um leve afago e promete castigar o faltoso quando voltar. Agora ele deve se retirar para mãeinha trocar de roupa. "Eu quero ir com mãeinha". "Mãeinha vai pro médico. Não pode levar você". "Ah, eu quero ir. Eu quero ir, mãeinha". "Não pode, filhinho. Outro dia eu lhe levo. Olha, fica aqui quietinho, sem dar trabalho a Ismênia, que eu vou trazer um presente jóia pra você. Tá certo? Agora saia pra mãeinha mudar de roupa".
Jussara toca a nudez que o espelho lhe revela. Sente um certo prazer em tatear o corpo despido - território fértil que Humberto palmilhara com a sede de curiosidade do explorador. Humberto-descobridor. Humberto-meteoro. (Humberto-mágico.)
Jussara dirigiu-se para a sala de cima. Tomou uma poltrona da última fileira, que estava vazia. Podiam-se contar as pessoas que ocupavam as demais fileiras. Esperou pouco tempo para que a sessão começasse. Logo depois de as luzes apagarem, viu um vulto apontar. Veio em sua direção e sentou-se a seu lado. Pousou-lhe a mão no ombro. Em seguida os rostos se colaram. Beijaram-se. Daí a uma meia hora ele deixou o cinema. Jussara esperou quinze minutos e saiu.
Três quadras adiante a porta de um carro tragou-a.
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Conto extraído do meu livro Um Dia... Os Mesmos Dias (1983).

quarta-feira, julho 26, 2006

O MÉDICO E O MONSTRO, GUARNIERI


1) Esta versão da obra de Robert Louis Stevenson, datada de 1931 ( os dicionários de cinema de Rubens Ewald Filho e do francês Jean Tulard a colocam como sendo de 1932, mas nos créditos do filme consta o ano de 1931) , realizada por Rouben Mamoulian, diretor de origem georgiana radicado em Hollywood, foi lançada , há uns dois anos, num DVD duplo, que tem no outro lado a versão do mesmo filme de 1941, dirigida por Victor Fleming (E o Vento Levou ) . O fato de o mesmo disco conter duas versões do livro de Stevenson oferece-nos a oportunidade de fazer uma comparação entre ambas. Isso feito, sai ganhando o filme de 1931, e essa superioridade deve-se à criatividade da direção de Rouben Mamoulian, que apresenta alguns achados de linguagem. Dois, pelo menos, chamam a atenção. 1) A cena em que o Dr. Jekill, ao caminhar em direção à casa da namorada, a fim de pedi-la em casamento, pára num parque e fica a observar um passarinho pousado numa árvore. É impressionante a mudança de comportamento do médico, jubiloso com a presença do passarinho (o que o leva a recitar um trecho de um poema) , e logo em seguida, quando a avezinha é devorada por um gato, assoma a sua satisfação pelo ato criminoso, legitimada com a sua transformação no horrendo e perverso Mister Hyde. 2) Na cena da transformação de Hyde em Jekill, na presença de um amigo, um plano mostra a vela já bem menor e com uma grande quantidade de cera derramada no castiçal, e então a câmera se afasta e a vela assume a aparência de uma cruz, colocada entre os dois homens.
Também digna de nota a agilidade na passagem de uma cena para outra, ao mostrar no mesmo quadro a cena que está terminando e a outra que se inicia. Um ponto negativo do filme talvez esteja em alguns excessos na interpretação (no geral, boa) de Fredric March. (Já Spencer Tracy me parece melhor na outra versão, e esse detalhe deve ser o único ítem em que o filme de Fleming pode superar o de Mamoulian.) Enfim, uma boa surpresa para quem não conhecia esse filme, o que vem comprovar que o diretor Mamoulian foi um destaque naqueles anos de ouro de Hollywood, ao realizar filmes como "Ama-me Esta Noite", "O Cântico dos Cânticos", entre outros. Fez cerca de vinte filmes, encerrando a carreira com menos de 60 anos, com o bem-sucedido "Meias de Seda" (1957), uma versal musical de "Ninotcka", de Lubitsch.
2) Era grande admirador de Gianfrancesco Guarnieri, esse italiano de Milão, que aqui chegou com três anos de idade. Admirava o seu trabalho como ator e como dramaturgo. Nessa segunda faceta de seu talento, Guarnieri foi o primeiro teatrólogo a levar o operário a subir ao palco em "Eles Não Usam Black-Tie", obra que marcou o teatro brasileiro na década de 1950. Talvez seja a sua peça mais cultuada, mas ele escreveu outras de grande nível, como "Um Grito Parado no Ar", para citar apenas uma. Foi também autor de letras para músicas, como "Upa, Neguinho!", em parceria com Edu lobo, imortalizada na voz de Elis Regina.
Infelizmente, trabalhou pouco no cinema. Dez filmes, apenas. Estreou em "O Grande Momento", de Roberto Santos (1958) , um excelente filme, influenciado pelo Neo-Realismo. Quando "Eles Não Usam Black-Tie" foi adaptada (e muito bem) para a tela por Leon Hirzsman, Guarnieri, que também atuara na peça, atuou também no filme. Só que em papéis diferentes. Mais de vinte anos depois, ele não poderia mais interpretar o jovem fura-greve, cabendo-lhe o papel de pai deste, tendo como esposa Fernanda Montenegro. Guarnieri morreu poucos dias depois de Raul Cortez. E tinham quase a mesma idade. Duas perdas inestimáveis para a arte brasileira.

domingo, julho 23, 2006

UM TEXTO DE HORÁCIO PAIVA

Já apresentei aqui o meu amigo Horácio Paiva como poeta. Hoje é a vez do prosador. Trata-se de um comovente texto de Horácio sobre o seu amigo, o também poeta GILBERTO AVELINO, no transcurso do quarto aniversário da morte deste, ocorrida em 21.07.02.
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GILBERTO, NO CORAÇÃO
Contava-me o meu irmão Daltro que o poeta Esmeraldo Siqueira, seu professor no velho Atheneu, costumava dizer que nunca lhe faltavam interlocutores para uma boa conversa. Quando precisava de sua companhia, naqueles instantes mais necessários ao alimento da alma - que busca respostas no conhecimento e na afirmação filosófica, religiosa, ou estética - ia à sua biblioteca e, diante da plêiade de autores consagrados, escolhia um deles, "puxava-o pela orelha", e lia-o avidamente no silêncio do seu recolhimento.
Com Gilberto Avelino posso dizer que o meu diálogo continua mesmo após a sua morte. Não apenas na agradável e emocionada de sua obra lírica, mas também - sobretudo - no arranjo da memória, no hábil e sentimental exercício da evocação e manuseio diário das lembranças, colocando-as em movimento, removendo-lhes o pó do tempo, polindo-as constantemente para preservar-lhes a atualidade, a pureza da vida.
É que
"a saudade bate no peito
como armadilha
no coração
remove o pó do tempo
aquece
como um frêmito de sol as veias
geladas do passado".
Às vezes quero oferecer-lhe alguma coisa, ou escutar, por exemplo, a sua opinião sobre algum poema que escrevo. E a memória aquecida me dá essa resposta.
Às vezes trago-lhe a lembrança lírica de remotas passagens de sua própria infância, que, com prazer, me contava. E então o vejo criança, à noite, já deitado em sua rede, mas ainda sem dormir, e, assim, o ouço dizer à sua mãe:
- "Mamãe, quero água". E a imagem terna da mãe, que se levanta, pega o canequinho de alumínio, enche-o com a água fria da quartinha - pousada à janela, para melhor assimilar a frieza da noite - e dá-lhe de beber.
Ou ainda poderia oferecer-lhe a singularidade de suas visões proféticas, como nos três curiosos exemplos, a seguir narrados.
Em recente artigo, Ticiano Duarte, nosso amigo comum - e que hoje ocupa , na Academia Norte-riograndense de Letras, a cadeira que fora do poeta - conta de sua reconciliação com Gilberto, ainda na juventude, a partir de um sonho dele, Gilberto sonhara com o pai, já falecido, de Ticiano, e aquele o recomenda procurar o grande amigo e reconciliar-se com ele. Cumpriu o
sonho, dando continuidade à longa amizade.
Na mesma semana de sua morte, Gilberto sonhou com o meu pai, (já falecido à época) a quem muito estimava e admirava, e a quem seguira politicamente em Macau. Dizia-lhe o meu pai que precisava de sua presença, de sua assessoria, para tratar de assunto que requeria urgência. Era uma premonição. Não se evidenciava a certeza, e Gilberto contou-me repetidamente esse sonho, embora sem ares de tragédia e de forma até divertida.
Profetizou esses belos versos, retirados de seu último livro publicado em vida, "Os Tercetos e um Canto às Vozes do Mar", e que compõem o último poema dos Tercetos .
"Amada Amiga, não devo dizer-te agora,
entende a voz dos ventos. Chama-me o mar.
Embarcar irei. A madrugada, a vaga
é tranquila. Digo-te, perenizo os instantes.
Nas tuas lembranças, pois, sempre aportarei.
Ao mar. É o caminho, a minha saga e sina".
Eis que ressurge Gilberto! E, afinal, há um poema que quero, agora, oferecer-lhe, intitulado "Gilberto Avelino". Não é meu. Veio-me pelo poeta e caro amigo Diógenes da Cunha Lima. O seu autor, João Batista Pinto, descendente de Martins Ferreira, um dos fundadores de Macau, conseguiu, em elaborada síntese, em belo resultado estético, ao evocar a imagem de nosso querido Gilberto:
"Foste o sol e o sal
Na planície salina.
O vento que varreu os sonhos,
A sombra clara e amena,
A brisa morna e azul,
O espectro da luz do Alagamar".
E mais oferenda maior seria, enfim, a hora de relembrar a sua declaração de amor a Macau, nesses versos inesquecíveis:
"Esta é a terra que amo.
De rio em preamar sereno,
onde, entre ferrugens e sombras,
descansam âncoras e navegam
fantasmas de barcos cinzentos".
NOTA - Os primeiros versos, que aparecem neste texto, são do próprio Horácio.

quarta-feira, julho 19, 2006

VOCÊ SE LEMBRA DO SEU PRIMEIRO FILME?

O cineasta francês Jean Renoir (1894-1979) tinha oito anos quando teve o seu primeiro contato com o cinema. Foi numa manhã de domingo, quando, no internato em que ele estudava, apareceu um homem com um cinematógrafo, para , no local, promover uma sessão de cinema. Segundo relata no livro Exercícios sobre Cinema (Nova Fronteira/1990), foi a partir daquele dia que ele começou a amar o cinema. E acrescenta que nunca esqueceu o programa apresentado naquele remoto domingo e que "daria tudo para poder revê-lo".
Entre 1992 e 1993, num período de uns seis meses, mantive uma coluna semanal sobre cinema num jornal de Natal. Num dado momento, resolvi fazer entrevistas com alguns cinéfilos da cidade. Bené Chaves, editor do blogue O Apanhador de Sonhos, foi um dos escolhidos, creio que encabeçando a lista, se não me engano. Eram feitas sete perguntas. Um delas puxava pela memória do cinéfilo, querendo saber qual o primeiro filme que ele vira. Para minha surpresa, todos eles (se a memória não estiver me pregando uma peça) se lembravam da primeira vez que se viram diante de uma tela. Claro que se lembravam vagamente, mas se lembravam, e alguns chegaram a informar que tinham sido levados por um determinado parente. Se digo que fiquei surpreso é porque eu não consigo me lembrar do meu primeiro filme. Sem dúvida que o vi no cinema da minha cidade. E que foi ou um seriado, ou um faroeste daqueles que, nos Estados Unidos, são chamados de westerns Z , ( Durango Kid e similares) , pois esses gêneros de filmes dominavam a programação do Cine Canindé. Mas qual foi ele, não tenho a mínima idéia. E você, caro amigo, cara amiga, que me dão a honra de visitar este espaço, se lembra do seu primeiro filme?
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O FENÔMENO MANOEL DE OLIVEIRA
Em dezembro próximo o cineasta português Manoel de Oliveira completará 98 anos. Já seria um feito para ele estar chegando aos cem anos, se estivesse recolhido em casa, doente e inativo. Mas, em vez disso, Oliveira, com essa idade, continua trabalhando. Há pouco tempo concluiu Belle Toujours, uma sequência de Belle de Jour, de Buñuel. E já esta filmando Os Invisíveis. E o mais importante é o nível de qualidade que mantém em seus filmes. No ano passado vi O Cinema Falado (2003) , o seu melnor filme dos apenas quatro dele que conheço. Manoel de Oliveira estreou no cinema em 1931. São, portanto, 75 anos de carreira. Sem medo de errar, digo que é um caso único no cinema. Tenho para mim que o bom velhinho vai morrer num set de filmagens, o que, para ele, seria a morte ideal. Eta, velho macho!
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LUTO NA ARTE DE INTERPRETAR
A arte de interpretar no Brasil está de luto. Ontem, à noite, morreu o ator Raul Cortez. Ele foi um dos nossos gtandes intérpretes, atuando no cinema (em menor número), teatro e televisão. No cinema , me lembro dele em "O Caso dos Irmãos Naves", um bom filme de Luís Sérgio Person, já falecido. Acho que foi o seu único filme que vi . Não conheço "Lavoura Arcaica" (ao que parece, seu útlimo trabalho no cinema), mas , quem o viu, diz que ele, como quase sempre, está muito bem. Tinha 73 anos.

sábado, julho 15, 2006

E LA NAVE VA (1983)


Nesse que é seu último grande filme, Fellini reverencia o cinema em sua forma de fabricante da imaginação, da ilusão, da ficção. "E la Nave
Va" foi todo rodado em estúdio e Fellini faz questão de tornar o espectador ciente de sua opção, quando, antes da cena final, abre para o espectador o set de filmagem, pondo à mostra os equipamentos utilizados. (Já numa cena do filme, ele sugere a realização de "E la Nave Va" em estúdio, através de um personagem que, ao comtemplar o sol se pondo, diz que este parece não ser real.) Uma reverência que pode soar irônica, pois feita por um cineasta de um país que foi o primeiro a fazer as filmagens saírem dos estúdios e ganharem as ruas. Essa homenagem ao cinema em sua fase juvenil se faz nos primeiros minutos de "E la Nave Va": o preto-e-branco é usado , assim como a falta de som, com a inserção de subtítulos. Não falta, inclusive, a imitação de um personagem cômico (talvez Carlitos, sem o bigodinho), feita por um personagem. Só quando os passageiros sobem a escada do navio é que a cor se instala, junta com o som.
Já no interior da nave, ficamos sabendo o objetivo daquela viagem, realizada em 1914, quando a Primeira Guerra Mundial ja fora deflagrada. Os passageiros estão acompanhando as cinzas da cantora lírica Edmea Tetua (Janet Szuman), que serão depositadas numa ilha onde ela nasceu. Ou seja, a viagem é como se fosse um enterro da cantora, que, não fosse a sua vontade, teria se realizado num cemitério. Quem nos deixa a par disso é Orlando (Freddie Jones), um jornalista, que assume a condição de alter ego de Fellini. É ele que nos apresenta os demais personagens, fornecendo informações, verdadeiras, ou não, sobre suas personalidades, defeitos, esquisitices, etc etc. É quando nos deparamos com o Fellini de sempre, em uma das premissas básicas do seu universo temático; ou seja, o desfile de personagens os mais exóticos, extravagantes e bizarros saídos da mente de um cineasta. O maior deles é um rinoceronte, que exala um odor fétido. Não se sabe o significado da presença do animal. E é trabalho inútil procurá-lo, do mesmo modo que o fazer com a presença de certos elementos nos filmes de Buñuel Não deve passar de uma brincadeira de Fellini. O que pode ser confirmado na última fala do filme. Com o ar de quem vai fazer uma importante revelação, a mão tapando um lado da boca, como se prevenindo para não ser escutado por alguém, o jornalista afirma que, segundo dizem, o rinoceronte "dá um leite formidável".
É o Fellini irônico, irreverente, iconoclasta, às vezes, cruel, às vezes beirando o vulgar, de outros tantos carnavais. Mas há uma exceção: a jovem Dorothy, de beleza suave e tranquila, o rosto de anjo, que nos remete à lembrança daquela garota de "A Doce Vida".
NOTA - E a programação cinematográfica dos dois shoppings de Natal continua uma titica. A do Midway , então, é sem comentários. Há uns meses o gerente, ou algo parecido, da rede de cinemas daquele shopping informou que estava sendo programada a exibição de filmes de arte numa das salas de exibição. Pelo visto, ficou só na promessa. E ainda há quem nos reprove quando vamos nos socorrer das vídeolocadoras. Será que esses caras estão sabendo que os espectadores de filmes em DVD (são daos estatísticos) estão superando, em muito, mas em muito mesmo, os dos que vão ao cinema? Ah, que saudades da década de de 196o!

quarta-feira, julho 12, 2006

UM CONTISTA DO CEARÁ


Hoje abro este espaço para o contista cearense PEDRO RODRIGUES SALGUEIRO. Um dos valores mais expressivos do conto cearense, surgidos nos anos 1990, PRS publicou os livros "O Peso do Morto" (1995), "O Espantalho "1996), "Brincar com Armas" (2000) e "Dos Valores do Inimigo" (2005). Participou de antologias, e vários dos seus contos foram publicados em revistas do país. O conto aqui publicado foi extraído do livro "Brincar com Armas". prefaciado por Rachel de Queiroz, Manda ver, Pedrão
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AUSÊNCIA
Desde que a mulher morreu, ele pouco sai do quarto - tornando-se difícil até a limpeza feita às escondidas pela filha mais nova, que aproveita a hora das refeições para enfiar-se na penumbra do velho quarto do casal e espaná-lo rapidamente, tendo o cuidado de não retirar nada do lugar.
Quando a esposa era viva, eles pouco se falavam: um resmungo aqui, outro acolá. Fazia anos que não conversavam, como se houvessem esgotado todos os assuntos, e davam a impressão de um ligeiro rancor (mais presente nos olhos e no balançar de cabeça, usados no lugar das palavras).
Sempre dividiram a sombra larga do benjamim da calçada, sentados nas antigas cadeiras de balanço. Durante o dia entretinham-se com os afazeres de casa - ela catava o feijão na cozinha, depois terminava o almoço, aproveitando enquanto as panelas estavam no fogão para varrer de novo a casa; ele espantava os meninos que roubavam goiabas no quintal, aguava as roseiras novamente, resmungando sempre os mesmos insultos aos demônios que teimavam em pular o muro - e somente de tardezinha sentavam-se à calçada, obedecendo a um hábito antigo, de quando os filhos ainda não eram casados e moravam todos em casa.
Nem à noite, quando se recolhiam ao quarto no fundo do corredor, ouvia-se alguma conversa entre eles. Agora. porém, que ela morrera, ele adquiriu uma tristeza imensa - comportando-se como se houvesse morrido também. Não sai do cômodo escuro, nem quando a filha mais velha aparece depois de longa ausência. O tabuleiro de damas continua empoeirado em cima do armário, as pedras gastas minuciosamente arrumadas num saquinho ao lado; o almanaque velho, que ele sempre consultava para saber a posição da lua e o santo do dia, hoje permanece esquecido na sala de jantar; e até as cadeiras de balanço foram relegadas a um canto da sala.
A filha mais nova ainda aproveita a hora do almoço e do jantar para uma ligeira arrumação, e sai às pressas quando ouve o roçar leve da caneca de alumínio no beiço do pote, não sem antes repor o velho penico de ágata no seu canto certo, embaixo da cama. Depois ele então recolhe-se, para só aparecer depois de um novo chamado vindo da cozinha.
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domingo, julho 09, 2006

A NUDEZ DE SOPHIA


A atriz Sophia Loren foi a escolhida para aparecer na capa do Calendário Pirelli, quando este está completando, em 2006, quarenta anos de circulação A notícia vinha acompanhada da informação de que Sophia tinha posado sem roupa. Mas logo veio o desmentido, não sei se do editor do famoso Calendário, ou do agente da atriz: ela vai aparecer usando uma lingerie preta e envolta em um lençol. Não li a primeira notícia. Se tivesse lido, não teria acreditado. O motivo? Ora, se Sophia, quando jovem, nunca posou nua para uma revista, e, no cinema, apenas mostrou as mamas em "Duas Noites com Cleópatra", quando ainda era uma ilustre desconhecida, não seria agora, perto de completar 72 anos, que iria exibir suas partes íntimas. E sou levado a acreditar que o convite para posar nua nem tenha lhe sido feito, se não por respeito à idade de Sophia, mas pela certeza de que ela não iria aceitá-lo. Nem por todo o dinheiro do Banco da Itália. E fã ardoroso da atriz, desde quando a vi pela primeira vez no cinema, em "A Mulher do Rio" , fico feliz em saber que, já na casa dos 70, ela é a escolhida para a capa da quadragésima edição do Calendário Pirelli, desbancando mulheres com idade para serem suas filhas ou até netas. Grande Sophia! Vou também, hoje, te prestar a minha homenagem, torcendo para que a Seleção do teu país conquiste o título da Copa do Mundo. Apesar de ser também fã do mágico futebol do francês Zinedine Zidane.
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Agora vou dizer uma palavrinha sobre um colega de Sophia, ambos nascidos em 21 de setembro. Esta semana revi "Flores Partidas" e "Encontros e Desencontros". Continuo gostando desses 2 filmes, que, por coincidência, são estrelados por Bill Murray. É curioso como esse ator que começou a carreira fazendo comédias (a única exceção no período, me parece, foi "O Fio da Navalha"), tornou-se um ator dramático de forte expressividade,, como o atestam os seus últimos trabalhos. Nos dois filmes, Murray exibe, na maior parte das vezes, um ar "blasé", aliado a uma expressão irônica, os quais, na medida em que assumem uma postura crítica diante da vida e de certas pessoas, demonstram nele um grau de inteligência e sensibilidade que o tornam um dos grandes atores do atual cinema americano.

quarta-feira, julho 05, 2006

O MANUSCRITO DO PRÍNCIPE ( Il Manoscritto del Principe/2000)



O Príncipe é Giuseppe Tomasi di Lampedusa. O manuscrito é do seu livro Il Gattopardo. Publicado depois de ele morto, o livro alcançou grande sucesso de crítica, e, adaptado para o cinema por Visconti, converteu-se em uma das obras-primas do cineasta italiano. Apesar do título, o filme coloca em plano inferior o trabalho do Príncipe no romancc: apenas alguns trechos são lidos por ele e o jovem Marco Pace (Paolo Briguglia),, que descobre o manuscrito em uma das visitas ao Príncipe (Michel Bouquet) , além da informação deste a Guido Lanza (Giorgio Lapano) que o original foi recusado por uma editora. O verdadeiro propósito de "O Manuscrito do Príncipe" é o de narrar a relação entre o Príncipe e os dois jovens, Marco e Guido. E no bojo dessa relação a disputa entre os para ser o preferido da atenção do Príncipe, o homem mais importante da região da Sicília, não apenas pela linhagem nobre (ainda que em fase de decadência), mas pela vasta cultura de que é dotado. Apesar de o Príncipe se oferecer a Marco para lhe dar lições sobre a língua e literatura inglesas, fica evidente que ele dedica mais atenção a Guido, e a razão talvez esteja no fato de ambos pertencerem à mesma classe. A atitude do Príncipe, embora não afete a amizade dos dois jovens, provoca, no entanto, uma ciumeira, um sentimento de inveja em Marco. O filme não o explica, mas aí talvez esteja o motivo por que, ao partir da cidade, Marco desfaz a relação com Guido. E evita encontrar-se com o ex-amigo, quando este vai procurá-lo em Roma, muitos anos depois, quando eles já estão caminhando para a velhice. O último plano do filme parece confirmar a suspeita. Depois de ler a carta que Guido introduz por baixo da porta do apartamento de Marco, vemos este ao piano. A câmera caminha até a estante, onde em uma prateleira está afixada uma foto dos três. O Principe , entre eles, está com os olhos fixos em Guido, enquanto a expressão de Marco é de quem se sente preterido pela atenção (ou a amizade) do Príncipe.
Mesmo concentrando-se na relação entre três pessoas, o filme, como não poderia deixar de ser, revela traços da personalidade do Príncipe, mostra o seu cotidiano e o convívio formal com a Princesa Alessanda Wolf, a "Licy". Vivida por Jeanne Moreau, ela se dedica à Medicina, recebendo os pacientes na própria casa.
Outro aspecto obscuro no roteiro envolve a mãe de Marco. Ela parece uma pessoa doente, nas poucas vezes em que aparece, mas fica-se sem saber qual é o tipo da enfermidade e, consequentemente, a causa da sua morte. Arrisco a hipótese de se tratar de um problema
psíquico, baseado nas condições em que ela é vista. (Numa cena , ela é encontrada na rua pelo filho, em meio a uma forte chuva, dando a impressão de estar desorientada.) E ela quase não fala. Recebe o Príncipe, na única vez em que este vai visitar Marco, com apatia, sem demonstrar um mínimo de efusão por uma visita tão ilustte. Apesar disso e da causa do rompimento entre os dois amigos, não acho que o filme sofra um prejuízo no seu resultado final.
"O Manuscrito do Príncipe" é dirigido pelo desconhecido Roberto Andò, nascido em 1959. Na sua biografia consta que ele foi assistente de direção de Fellini, Francesco Rosi, Cimino e Coppola. Curiosamente, o seu estilo lembra o de Visconti, sem, é claro, o brilho do mestre. Isso se evidencia na forma de alguns enquadramentos, no ritmo lento e numa certa elegância. E, como Visconti, Andò é também diretor teatral. Um detalhe: a produção é de Giuseppe Tornatore, o diretor do belo "Cinema Paradiso".

domingo, julho 02, 2006

DUAS CRÔNICAS DE BERILO WANDERLEY.


Berilo Wanderley (1934-1979) foi o melhor cronista do Rio Grande do Norte. No mês em que se completa mais um aniversário de sua morte prematura, este blogue presta-lhe uma homenagem, com a publicação de duas crônicas, retiradas do seu livro póstumo "Revista da Cidade" ( EDUFRN/1994). BW foi também um brilhante crítico de cinema. Em vida, publicou o livro de poesia "Telhado de Sonho".
CHEIRO DE CHUVA
As madrugadas jão estão mais frias e as manhãs nos assaltam com um céu cinzento entrando pela janela. No pombal, os pombos amanhecem inquietos e festivos e o macho faz prosa arredondada de namorador em torno de sua fêmea. Há sinais de chuva pelo ar. As largas folhas das bananeiras acordam orvalhadas e os bogaris, a um canto do jardim, tomam jeito de véu de noiva, leves e rendados. Aspira-se um cheiro de chuva que, antes de vir, manda recados com boas notícias, que chegam através das plantas e das aves.
E as mulheres se tornam amantes mais ternas e atentas aos apelos dos seus homens, e nos gestos e na fala põem alguma coisa que as revela como aptas para as surpresas sempre renovadas do amor. Jeito de mulher acarinhar o homem traz prenúncio de inverno e só os maus amantes, ou aqueles homens dados ao capricho estranho de não gostar de mulher, ignoram esta verdade límpida.
Madrugadinha. Céu pesado de nuvens. Olha ali um bem-te-vi- me saudando lá daquele galho do pé de azeitona-da-terra!
A LUA
Um amigo nos chama a atenção para a lua, que ainda não tínhamos notado, mas que já andava, há quase uma semana, sobre os telhados da nossa cidade. Malditas obrigações que nos fazem esquecer uma lua! Mas, ontem, procuramos vê-la. Estava detrás de u'a mangueira e já vai muito grande e muito vermelha, o que é sinal que está a caminho do quarto minguante, ou de outro qualquer.
Lua por detrás de mangueira dá o que pensar. Parece que tem mais encanto do que se apresentando no alto do céu, completamente nua, despudorada. Também u'a mulher sem roupa, se esgueirando matreira por detrás de uma folhagem, chama a atenção dos nossos olhos mais do que se aparecesse sem mistérios, no meio da rua, cruazinha. É a mesma coisa. Lua escondida por detrás de mato é como mulher, idem, idem.
Outra beleza de lua escondida é a renda que ela forma pelo chão. A areia parece uma toalha estendida, toda rendada, feita de linha branca, de linha que desce em fios, das folhas das árvores, das palhas do coqueiro lá de frente.
Ai se não fosse essa lua! Tem razão em dizer isso o velho Drummond. Se não fosse essa lua, como é que os seresteiros de nossa cidade se iam arranjar, para sair de noite pelas janelas afora, entoando loas às donzelas e à lua, que é também donzela, embora nua?
E os namorados, que conversas teriam, sem uma lua assim, numa noite assim? E os poetas, os bissextos e os de todos os dias, os novos e os do parnaso, sempre contemporâneos?
Ah, se não fosse essa lua! Sintamos e gozemos este luar, mesmo sem casa de chá e sem agosto.

sexta-feira, junho 30, 2006

OS DEZ MELHORES FILMES DO SEMESTRE


Eis, na minha opinião, segundo o meu gosto , os dez melhores filmes deste semestre. Dois esclarecimentos. 1) A lista está em ordem alfabética. 2) Embora não fosse inédito para mim, incluí "Noites de Circo", porque não me lembrava nada dele, de quando o vi, no cinema, nos anos 1960.
- Almas Perversas (Fritz Lang/1945)
- Boa Noite e Boa Sorte (George Clooney/2005)
- Cinzas e Diamantes (Andrzej Wajda/1959)
- Flores Partidas (Jim Jarmush/2005)
- Marcas da Violência (David Cronenberg/2005)
- Noites de Circo (Ingmar Bergman/1953)
- Quem Sabe? (Jacques Rivette/2001)
- O Processo de Joana D' Arc (Robert Bresson/1962)
- O Segredo de Brakeback Mountain (Ang Lee/2005)
- A Vida no Paraíso (Kay Pollac/2005)

terça-feira, junho 27, 2006

ALMAS PERVERSAS (Scarlett Street/1945)

Inspirado, o que muitas vezes não ocorre, o título em português desse filme de Fritz Lang ("M, o Vampiro de Dusseldorf") , agora lançado em DVD. A perversidade, a maldade, até mesmo a crueldade, estão entranhadas nos personagens, e não apenas nos principais. Se o casal Katherine "Kitty" March (Joan Bennett) e Johnny Prince (Dan Duryea) explora, como pode, Chris Cross (Edward G. Robinson), que, como iisso não bastasse, é casado com uma megera, que o humilha e hostiliza a toda hora, este também não é nenhum mártir. Chris esconde de Kitty a sua profissão (caixa de um estabelecimento comercial), se fazendo passar por pintor, quando, na verdade, só exercita a pintura como um lazer na folga dos domingos. E acaba sendo levado a assassinar Kitty, depois de ser cruelmente humilhado e insultado por ela, ao descobrir sua forte ligação com Johnny.

"Almas Perversas" é uma grata surpresa para quem não o conhece. Subestimado na época do lançamento, revela-se, hoje, como um dos grandes filmes de Lang da sua fase americana. É um filme noir, aderindo às principais características do gênero, entre as quais a presença da femme fatale, à qual Joan Bennett se entrega com uma força e uma determinação admiráveis. O seu momente mais marcante é quando ela tem Chris aos seus pés, curvado (denotando o amor, que atinge o servilismo, por aquela mulher) , pintando-lhe as unhas. A expressão do rosto é a própria imagem da vamp, coroada por uma frase ambígua que diz naquele momento: "Isso vai ser uma obra-prima". Ela pode tanto estar se referindo ao fato de ter as unhas pintadas por um artista, como ao golpe que aplicou, instigada pelo amante/gigolô, assinando os quadros de Chris e, com isso, ganhando dinheiro, além de obter o reconhecimento da crítica.

Mas se Lang se apossa, com o brilh9 quase sempre presente na sua obra, das diretrizes do gênero noir, não deixa de retornar às suas raízes expressionistas, contando, para isso, com a estimável colaboração da fotografia de Milton Krasner. Isso ocorre perto do final, quando Chris, no quarto de um hotel barato, começa a ter alucinações, "ouvindo" frases do casal que o explorara. Como observou A.C. Gomes de Matos, no livro "O Outro Lado da Noite - O Filme Noir" (Editora Rocco/2001) , aí "Lang usa a técnica expressionista com toda a força, para mostrar o delírio do protagonista, dando a idéia de como soube combinar a imagem e o som". É o grande diretor fazendo lembrar alguns momentos de "M", sua obra máxima.

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Aproveitando a oportunidade, convido os visitantes deste blogue, residentes em Natal, para o sarau sobre minha obra literária, a ser realiizado amanhã (dia 28), na livraria Siciliano, do Shopping Midway, a partir das 19 horas. Ficarei honrado com a presença dos que comparecerem.