sábado, fevereiro 25, 2006

CARNAVAL

Este texto foi publicado neste espaço, por ocasião do carnaval do ano passado. Sai aqu de novoi, por dois motivos: 1) não tenho um assunto novo para hoje, e 2) dar oportunidade a algumas pessoas que não visitavam o meu blogue, na época, o lerem. Mas aqueles que já o conhecem e quiserem comentá-lo, não façam cerimônia. E um bom carnaval para todos.
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Não gosto de carnaval. Nunca gostei. Nunca brinquei. Mas as músicas me fascinavam e ainda hoje cantarolo algumas, principalmente as compostas nas décadas de 1930 e 40, as fases mais criativas daquele gênero musical. Até me casar, a não ser em raras ocasiões, passei o carnaval em Canindé, a cidade onde nasci. Mesmo quando já estava trabalhando, corria pra lá, na época do carnaval. Na infância e adolescência, quando começava o baile no clube, a poucos passos da minha casa, ia fazer parte da turma do "sereno", vendo os foliões pularem ao som das marchinhas e sambas. Alguns deles a gente via chegando, passando pertinho da gente, com as suas fantasias. Estas exerciam sobre mim um grande fascínio. E o lança-perfume? É um cheiro que ainda hoje sinto, apesar de nunca o ter aspirado, se posso confiar na memória. Perto de mim, ali na frente de clube, tantas vezes testemunhei um folião ensopar o lenço de lança-perfume e levá-lo ao nariz. Das fantasias nunca me esqueci das que usava um bloco de 4 ou 5 rapazes. Eles desfilavam à tarde, trepados em um daqueles jipes grandes que não mais se fabricavam nos anos 50, alugado a um médico. E montados nele chegavam ao clube, já cheios de cana. Era "A Turma do Funil", nome tomado de empréstimo a uma marchinha de sucesso.
Sempre que me lembro daqueles modestíssimos carnavais de Canindé, logo me vem à cabeça a figura de Boió. Um mulato baixo e atarracado, que, quando o conheci, tirava a subsistência com a revenda de revistas semanais que ia comprar em Fortaleza. A mais vendida, entre as mulheres, era a "Capricho", por causa das fotonovelas de procedência italiana. (Uma das minhas irmãs era freguesa de Boió e, assim, cheguei a ler muitas daquelas melosas histórias que fizeram grande sucesso naquele período.) Pois esse Boió, um sujeito calmo, trabalhador, humilde, soltava a franga quando chegava o carnaval. Brincava os quatro dias, municiado, claro, de bebida, usando uma fantasia que variava a cada ano, mas das quais só me lembro de uma que imitava úm índio. E o curioso é que brincava o seu carnaval sozinho. Seu quartel-general era a calçada de um extinto posto de gasolina, que, no entanto, conservara a mercearia. Ficava pertinho da minha casa. Do alpendre dava para vê-lo dançando sozinho, sob as vistas dos curiosos. E o mulato tinha um bom jingado. Pobres carnavais da minha infância e adolescência, mas que ficaram para sempre na minha memória.

quarta-feira, fevereiro 22, 2006

TABLADO SURREALISTA


O espaço de hoje deste blogue é ocupado pela poesia do querido amigo Horácio Paiva. São 3 poemas de Horatius (como gosto de chamá-lo na intimidade) , que farão parte do seu próximo livro, os quais constituem uma parte do livro denominada Tablado Surrealista. Ei-los.
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Apocalipse
As geringonças funcionaram mal:
e eis-nos às portas
do Apocalipse.
Extremoz
Extremoz é uma lagoa sagrada
onde os perus do Vaticano
vão matar a sede.
Les Mains Sales
O tempo escorria lentamente
e tudo estava tranquilo...
até Sartre roubar o meu relógio.

sábado, fevereiro 18, 2006

CURIOSIDADES CINEMATOGRÁFICAS


1) Certa vez um jornalista perguntou a Welles o que ele achava de Antonioni. E Welles, com uma cortante ironia, respondeu que nos filmes do cineasta italiano os personagens caminhavam muito. A atriz Jeanne Moreau repetiu o que Welles tinha dito, mas se referindo, especificamente, ao filme A Noite, do qual ela foi protagonista. Vi as declarações de La Moreau num especial sobre ela , apresentado pelo Eurochannel no ano passado. E pelo que ela disse, alguns membros da equipe do filme partilhavam da mesma opinião. Como o filme foi rodado durante a realização das Olimpíadas em Roma, em 1960, as pessoas brincavam com ela, comparando-a a uma maratonista que estivesse particando do evento esportivo. Mas ela recordava isso com um certo humor, sem fazer uma crítica direta a Antonioni. Uma atitude inteiramente diversa da época em que ela terminou A Noite. Numa entrevista ela revelou o seu descontentamento com o método de trabalho de Antonioni, com o seu temperamento, fatores que, segundo ela, criaram um clima pesado e desagradável durante as filmagens. Concluiu afirmando que nunca mais voltaria a trabalhar com Antonioni. E para enfatizar a decisão, disse: "Nem que me oferecessem todo o dinheiro do Banco da Itália".
Os anos foram passando e a gente via que Jeanne mantinha a decisão, embora não seja improvável que Antonioni a tivesse convidado para trabalharem juntos outra vez. No entanto, em 1995, a promessa da atriz foi quebrada. Foi em Além das Nuvens, em que Antonioni, já vitimado por um derrame, dividiu a direção com Wim Wenders. Jeanne tem uma participação especial no filme, ao lado de Marcello Mastroianni, aliás, seu parceiro em A Noite.
2) Existe um ponto em comum nas filmografias de Welles e Chaplin. Ambos só uma vez deixaram de atuar em seus próprios filmes. Em Welles foi Soberba, em Chaplin, Casamento ou Luxo? Por outro lado, se Welles trabalhou em uma infinidade de filmes de outros diretores, Chaplin só atuou nos dele. E Vittorio de Sica, outro diretor-ator, salvo engano, só trabalhou na série Pão, Amor e... entre os filmes que dirigiu.

quarta-feira, fevereiro 15, 2006

VERSO & PROSA

ATRIZ

Nua cavalgavas na tela iluminada
E no escuro da sala eu quis ser tua montaria.


LUA

Uma pequenina foice
À espera de ceifar estrelas?


PRESENÇA

Ficou o perfume
Quando você partiu.
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A QUE CHEGA COM CERTAS MANHÃS

Lia um texto no jornal e a certa altura o autor disse algo que me trouxe uma inesperada alegria.
Uma revelação, mas feita de passagem, talvez porque , para ele, o fato não tivesse o mesmo valor que para mim. Diferentemente de quando você está conversando com um amigo ele diz de alguma coisa que lhe ocorre com certa frequência e você, surpreendido, exclama "mas isso também acontece comigo", e os dois começam a falar daquilo que têm em comum. Não, o autor disse aquilo no meio de uma frase longa, como se fora um parêntese, e, no entanto, senti uma grande alegria por saber que aquele estranho, com quem, certamente, jamais me encontrarei, e eu nos uníamos naquela ocorrência.
É o seguinte. Em certas manhãs acordo e enquanto permaneço deitado por algum tempo, me deixando envolver por um restinho de sono, chega-me, de repente, a lembrança de uma determinada música. E aí está o detalhe: não é uma música de um CD que tenha adquirido há pouco e venha ouvindo com frequência; não, é uma música que fez parte da minha infância ou da minha juventude e que nunca mais ouvi. E agora ela está nos meus ouvidos, como se viesse de um rádio, ou de outro aparelho, ali ao meu lado. Mas, ao contrário do que se a estivesse realmente ouvindo, ela não tem um tempo de duração, pois permanece grudada nos meus ouvidos, quando, enfim, me levanto e vou fazer o asseio matinal e durante uma parte do dia.
Haverá uma explicação para isso? Quem sabe o Dr. Freud tenha? Mas é até melhor que não haja, que o fato permaneça como uma desses indevassáveis mistérios da mente humana. O bom é que essas músicas, que julgava apagadas das minhas lembranças, retornem no alvorecer de alguns dias, deixando-me "ouvi-las" depois de tantos e tantos anos. E já estou pensando em qual será a próxima.

sábado, fevereiro 11, 2006

O Segredo de Brobeback Mountain (Brobeback Mountain/2005


Poucas vezes vi o cinema mostrar um amor tão intenso, que só a morte pode destruir, como o que é mostrado nesse filme de Ang Lee. Um amor nascido quando os dois, sozinhos, trabalhavam para um criador de ovelhas. E que se conserva, mesmo quando são despedidose vão tomar rumos diferentes em suas vidas, inclusive conhecendo as mulheres com as quais se casam. É tão forte o sentimento, reforçado pela atração carnal, que os une, que tanto Ennis Del Mar (Hethg Ledger) quanto Jack Twist (Jake Gyllenhaal) não conseguem amar suas respectivas esposas, mas sequer ter com elas um relacionamento amigável. E se Jack ainda consegue manter o casamento, pelo menos até a sua morte num acidente, Ennis não demora a se divorciar da esposa Alma (Michelle Williams). A incapacidade de os dois homens levarem uma vida mais ou menos feliz, condena-os à solidão, que só pode ser atenuada quando estão juntos em Brokeback Mountain, uma espécie de Pasárgada para ambos. E acho que aí está o dedo do co-roteirista Larry Mc Murtry, o mesmo de A Última Sessão de Cinema, de Peter Bogdanovich, autor também do romance em que aquele filme foi baseado. Para quem não se lembra, um dos temas tratados no filme de Bogdanovich é o da solidão.
E falando de roteiro, é preciso ressaltar a perfeita sintonia existente entre este (que tem a participação de Diane Ossana) e direção em O Segredo de Brobeback Mountain. Uma sintonia que se afirma até no que, talvez, seja o único escorregão do filme, ou seja a dispensável cena (que dá a impressão de ser uma concessão ao grande público) em que Alma surpreende o marido entre beijos e abraços com o amigo, num reencontro depois de quatro anos sem se verem. Ideal seria que Alma fosse assaltada pela suspeita de que as constantes e demoradas reuniões do marido e do amigo ultrapassem os limites de uma simples e pura amizade. Por outro lado, o sofrimento da esposa, que aparece mais de uma vez chorando, é reservado, é guardado só para si mesma. Só uma única vez ela faz um desabafo para Ennis, quando os dois já estão separados e ela está vivendo com outro. E ainda assim, é de passagem que ela toca no relacionamento do ex-marido com Jack, a quem chama de pervertido.
Essa sintinia entre roteiro e direção não significa, no entanto, que o diretor Ang Lee seja um mero administrador do roteiro. De jeito nenhum. Não me lembro de ter visto outro filme desse cineasta nascido em Taiwan e radicado nos Estados Unidos e ele me causou uma boa impressão nesse filme. Sua direção é vigorosa, quando necessário (destaque-se a cena em que Jack impõe a sua autoridade diante do sogro, que procura manobrá-lo como um títere), delicada e sensível quando é preciso. E ele sabe valorizar o silêncio em alguns momentos. Uma qualidade que ele tem, pelo menos em O Segredo de Brobeback Mountain, é a forma de dirigir os atores, extraindo deles uma forte expressividade em seus rostos. Há um momento exemplar disso, já perto do final, quando Ennis telefona à viúva de Jack, depois de saber da morte deste. Há um instante em que Ennis, comovido, fica silencioso, ela pergunta se ele ainda está ao telefone, ele, afinal, responde e se despede. A câmera pega o rosto de Lureen (Anne Hathaway) e a expressão que ela transmite nos dá a sensação de que, pela primeira vez, suspeita do que moveu o relacionamento entre aqueles dois homens.
O Segredo de Brobeback Mountain é um filme muito bom, que, inclusive, serve como um alento para o combalido cinema americano. E quem sabe se mais filmes como esse (não, claro, abordando o mesmo tema) não tirem aquele cinema do atoleiro da pobreza criativa num futuro não muito distante, atoleiro no qual se meteram até cineastas de um passado digno, honroso? Quem sabe?

quarta-feira, fevereiro 08, 2006

CINEMA: Por que gosto tanto dele?


Muitas pessoas já me perguntaram a origem e a causa do meu amor pelo cinema e nunca pude satisfazer-lhes a curiosidade. Porque, simplesmente, não sei explicar. Sou filho de um homem que detestava cinema, que, tenho quase certeza, nunca viu um filme em seus quase oitenta anos de vida. Minha mãe, a mesma coisa. Sim, alguns irmãos mais velhos gostavam, mas não me lembro de ter sido incentivado por nenhum deles a amar o cinema. E a este iam por diversão, como ocorreu comigo até aí pelos vinte anos. E se meus pais não tinham o mínimo interesse por cinema, é natural que proibissem os filhos menores de o frequentarem. Por isso não frequentei, com a assiduidade de meus amigos de infância, o Cine Canindé, da minha cidade, que funcionava três vezes por semana: às quintas, sábados e domingos. Mas, apesar da proibição, eu ia ao cinema na minha infância. Escondido dos meus pais, como se estivesse cometendo um grave pecado. Mas ia. Me lembro dos seriados, dos westerns de Durango Kid e companhia e até de um gênero de filme (geralmente exibido aos domingos) que os meninos chamávamos de "filme de amor".
A memória não me deixa lembrar como conseguia dinheiro para ver os filmes. Pode ser que algumas vezes tenha me socorrido de uma das minhas irmãs, já moça-feita. Ou por um outro meio. Um dos meus amigos era filho do proprietário do cinema, talvez o homem mais rico da cidade. Mas aí a memória é generosa comigo, nunca me atrevi a lhe pedir pra me botar pra dentro do cinema do pai.
Agora, com um riso retrospectivo, menciono um expediente nada honesto para entrar no cinema. Mas isso ocorreu umas cinco, seis vezes, no máximo. Sem um tostão no bolso, sem querer perder o seriado, ou o filme de caubói, olha o que eu fazia. Me postava perto dos degraus que levavam ao porteiro e esperava, entre ansioso e amedrontado, a entrada de um grupo de pessoas. Quando isso ocorria, eu, depressa, me misturava entre elas e, sempre ligeirinho, ia procurar uma cadeira bem longe do porteiro. Uma noite ocorreu um fato engraçado. No momento em que ia entrando, talvez pela pressa, escorreguei e me esborrachei no chão, às vistas do porteiro. Este (Deus o tenha), não fez nada, até riu comedidamente e não impediu que, ao me levantar, eu fosse em frente. Foi a última vez em que entrei "de graça". Na vez seguinte (como me lembro!), apareci, altivo, de ingresso na mão. O pobre porteiro deu um risinho irônico, como quem diz hoje você vai entrar como todos os outros o fazem.
Ao encerrar este texto, em que mais uma vez não consegui explicar como fui acometido pela "doença do cinema" (como diz um personagem de Cinema Paradiso) não posso omitir o incentivo que recebi de alguns companheiros do Cineclube Tirol, . Ao ingressar nele, em 1965, quando cheguei a Natal, fui aprimorando a visão crítica do cinema, graças ao convívio com companheiros, como Gilberto Stabile, Franklin Capistrano, Bené Chaves e, claro, Moacy Cirne.

domingo, fevereiro 05, 2006

O RELÓGIO DA CONSTRUÇÃO



Um relógio existe no edifício em construção:
sem pnnteiros, vidro e algarismos.
Em seu vocabulário restrito e brincalhão,
os operários o chamam de cachorra.
É como uma haste de ferro e no topo se encaixa uma ferradura,
em que se bate com uma varinha também de ferro.
As pancadas das sete horas chamam os homens para o trabalho.
As das onze avisam que devem interrompê-lo para o almoço.
Reiniciam o serviço, quando ressoam pancadas uma hora depois.
O encarregado da cachorra, porém, não a toca,
ao final de mais um dia de trabalho.
E os operários prorrogam o seu horário,
porque o patrão tem pressa em terminar a obra.

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Este poema data de mais de vinte anos. Foi escrito numa época em que tentei experimentar a poesia, tendo chegado a escrever uns 15 poemas, num periodo de poucos. Conservei, apenas, uns 4, que me parecem os menos ruins. Não vai no que digo nenhum sentimento de falsa modéstia. Não, a poesia, para uma usar uma palavra de alguns anos atrás, não é a minha praia. Se publico este, é mais para satisfazer uma amiga da blogosfera, que se queixou, outro dia, que eu nunca publicava poemas de minha autoria. Aí está, amiga. Por fim, informo que O Relógio da Construção foi publicado numa revistinha literária de Teresina (PI) e no jornal cultural O Galo, aqui de Natal, ambos já extintos.

quarta-feira, fevereiro 01, 2006

VALQUÍRIIA E O MENINO


Foi assim de uma hora para outra. Quando a via, olhava para ela de um modo diferente, e sentindo despertar-lhe uma coisa nova que a sua pouca idade não poderia discernir. Às vezes ficava sem vontade de brincar com os amigos na pracinha, só querendo olhar para a moça que se sobressaía diante das amigas pelo jeito festivo, o timbre da voz, a conversa incessante. Aquela moça branca, branca como... Como o quê? Não sabia como comparar a cor da sua pele. Curioso: se não estava perto de Valquíria, não pensava nela. Era quando a encontrava (às vezes durante o dia), que aquilo lhe ocorria. E se punha determinado a não perdê-la de vista quando ela volteava pela pracinha com as amigas.
Uma noite Valquíria não estava acompanhada das amigas. Ficou com uma sensação de perda, como se um amigo lhe tivesse levado o gibi que amava, a bola que o pai lhe presenteara no último aniversário, com a qual dormia abraçado. Qualquer coisa assim. Mas não arredou pé da pracinha. Foi apostar corrida com os amigos. Num dado momento descobriu-a num banco com um rapaz. Parou de correr, num instante. Os amigos o chamavam, o xingavam, e ele ali estático, como se alguém muito forte o prendesse pelos braços. Estava a uma pequena distância de Valquíria e pôde observar que as alvas mãos dela estavam entrelaçadas com as do namorado. Não sabe o que lhe deu, para, de repente, sair da posição estática e se dirigir para o banco. Foi numa reta em direção aos dois. Para que, meu Deus? Ele próprio não saberia explicar o ato impulsivo. Ao chegar bem próximo do casal, olhou para Valquíria, ela olhou para ele e (jamais poderia imaginar a reação dela) lhe sorriu. Os dentes imaculadamente brancos, tal como a pele. Ele se voltou e saiu em disparada.
Deixou de frequentar a pracinha. Os amigos não atinavam com a causa da recusa e ele inventava desculpas que não os convenciam. Mas manteve a decisão. Chegou a ver Valquíria uma ou outra vez na rua (numa delas estava com o namorado, ele com a mão sobre o ombro dela), mas não quis olhar para o seu rosto. Ainda que fosse para receber um sorriso.
E não muito tempo depois, Valquíria foi embora, para nunca mais voltar. Um dia, à hora do almoço, o menino ouviu o pai dizer que o pai de Valquíria ia se transferir para outra cidade. Foi feito um soco na cara do menino. Terminou, às pressas, de comer, foi para o seu quarto, deitou-se na rede. E pensando em Valquíria, cantou, baixinho, uma música que tocava quase todas as noites na amplificadora, em cujos versos um homem revelava o seu amor por uma outra Valquíria.

domingo, janeiro 29, 2006

Truffaut, Brando, Chaplin, Keaton

1) Dentre os cineastas, nenhum, talvez, tenha tido pelo cinema um amor tão intenso e permanente do que François Trauffaut. Um amor iniciado na infância, quando ele gazeava as aulas para ir ao cinema. Era ali que ele , menino e adolescente problemático, se refugiava da sua inadptação aos bancos escolares e ao difícil convívio com a família. E que continuou quando ele já era um cineasta consagrado. Não deixava de ir ao cinema e ainda escrevia sobre certos filmes. Era um diretor-cinéfilo, como não há muitos. Numa entrevista em 1971, constante do livro O Cinema Segundo François Truffat, de Anne Gillain (Nova Fronteira, 1990), eis uma pequena amostra de como o cinema era uma coisa essencial em sua vida. Diz ele. "Gosto tanto de cinema, que mal suporto a companhia de pessoas que não gostam. Certo dia dei carona a um alemão. Falei-lhe de Fritz Lang e ele não reconheceu o nome. Max Ophuls, muito menos. Então, o fiz descer do carro em Lyon, fazendo-o crer que ia parar nessa cidade." Grande Truffaut.
2) Em uma muito longa entrevista ao jornalista francês Michel Ciment, que acabou fazendo parte do livro Hollywood - Entrevistas (Brasiliense, 1988), no qual aparecem entrevistas de mais cinco cineastas, John Huston, a uma certa altura, demonstra a grande admiração que tinha por Marlon Brando. E faz esta surpreendente revelação: "Lembro-me de Júlio César, em que ele representava Marco Antonio. Pois bem, os experientes atores ingleses que o cercavam empalideciam ao lado dele. Fico pasmo de admiração diante de Brando e de sua arte". Esses atores ingleses, que Huston não menciona, são nada menos do que o grande James Mason e o não menos grande John Gielgud. E havia ainda Deborah Kerr e o talentoso e experiente ator americano Edmond O' Brien. Ainda sobre Brando. Segundo o escritor Truman Capote, que o entrevistou no Japão, quando o ator filmava Sayonara, ele não necessitava de menos de quinze minutos numa conversa com alguém a quem era apresentado, para apreender os gestos, um cacoete , a voz desse estranho. E depois imitá-los com perfeição.
3) Foi em Luzes da Ribalta (1952), que Chaplin e Buster Keaton trabalharam juntos pela única vez . Eles contracenavam num esquete que durava uns dez minutos, pouco mais. Nesse encontro dos dois, Orson Welles, não sei por quê, acusou Chaplin de não ter valorizado a participação de Keaton, em benefício dele próprio. Não sei se Welles tinha razão. Ou se era uma acusação infundada. Tenho cá a suspeita de que o diretor de Cidadão Kane não apreciava Chaplin (como pessoa). E, no entanto, quando ele apresentou a Chaplin um argumento, que serviu para a elaboração do roteiro de Monsieur Verdoux, recebeu a expressiva (para a época), importância de cinco mil dólares. Acho até que Chaplin foi generoso com Keaton, que estava praticamente acabado. Nos últimos anos fizera filmes inexpressivos e chegara a se apresentar em circos e fazer comerciais na tevê. E dois anos antes de Luzes da Ribalta, Keaton fizera quase uma ponta em Crepúsculo dos Deuses (Wilder). O que . a meu ver, Welles podia ter reclamado é que a reunião, numa única vez na tela, de dois gênios da comédia tenha ocorrido numa fase em que ambos estavam em declínio, sobretudo Keaton.

domingo, janeiro 22, 2006

QUEM SABE? (Va Savoir, 200l)


A proposta desse filme de Jacques Rivette me parece bastante clara: promover uma interação entre teatro e realidade. A encenação de uma peça de Pirandello em Paris, realizada por uma companhia teatral italiana, em excursão pela Europa, corre paralela às situações vividas por um casal de atores. Os dois perseguem um objetivo diferente, ao deixarem o palco. O de Camille (Jeanne Balibar) é reencontrar Pierre (Jacques Bonnafé), de quem se separara há três anos, quando partira para a Itália. O de Ugo (Sergio Castellitto), que acumula as funções de diretor e de ator, é descobrir o manuscrito de uma peça escrita pelo teatrólogo italiano Carlo Goldoni, que viveu no século 18. O texto nunca foi encenado e fora dado pelo autor, quando morava em Paris, a um amigo. Na busca de seus objetivos, Ugo e Camille irão conviver com mais três pessoas, além de Pierre: a atual amante deste, Sonia (Marianne Basler), Dominique (Hélène de Fongerolles) e Arthur (Bruno Todeschini), irmão de Dominique.
Na reunião desse sexteto afloram sentimentos, atitudes, situações que fazem a "vida real" deles ir adquirindo a feição de personagens de uma peça, que tanto pode ser a de Pirandello, como a de Goldoni, que é descoberta, por acaso, não por Ugo, mas por Dominique, misturada a livros de receitas de bolo. Ugo se sente fortemente atraído por Dominique, a quem conheceu numa biblioteca pública, e em cuja casa existe uma vasta biblioteca; mas Dominique demonstra um comportamento ambíguo em relação ao interesse dele por ela. É ambíguo também o comportamento de Camille, tanto com Pierre (que confessa que ainda a ama), quanto com Ugo. E Sonia tem um relacionamento com Arthur, um mau-caráter, que rouba livros da biblioteca de sua casa e um anel de brilhante de Sonia. Aliás, o roubo do anel e a sua recuperação por Camille (depois de uma noite de amor com Arthur, que também se sente atraído por ela), parecem (propositadamente) inverossímeis. E à medida que a história (real) avança, cada vez mais vai adquirindo a forma de um texto teatral, o qual, ao chegar o final do filme, se instala de vez. A casa de Madame Deprez, mãe de Arthur e Dominique, se transforma num palco, ao qual sobe Sonia, vindo da platéia. Ao encontrar Camille, lhe dá um tapa "teatral", um desejo que ela acalentava há muito tempo, mas num instante se reconcilia com a outra. A última imagem é a de Ugo dançando com Camille e Dominique com Arthur. E assim como começou, é num palco que o filme termina.
Rivette dirige Quem Sabe? com elegância e um certa leveza, ainda que imprima um ritmo lento à narrativa. Fez mais um belo filme, provando que o melhor do cinema francês, em que pese o surgimento de alguns talentos, como Patrice Leconte, continua sendo feito por ele e alguns companheiros da Nouvelle Vague.

quarta-feira, janeiro 18, 2006

UMA INSÓLITA APARIÇÃO DE HITCHCOCK


Todo cinéfilo sabe do hábito de Hitchcock de aparecer em seus filmes. Um hábito que teve início ainda em 1926, com The Lodger. Quando o espectador se acostumou com a presença do rotundo diretor, aguardava-a talvez com a mesma ansiedade que a trama do filme causava nele. E quando ele surgia na tela. eram inevitáveis as risadas. Essa aparição nunca ocorria nos primeiros minutos. mas aí pelos quinze a vinte minutos, no máximo. Um grande diretor, Hitchcock tinha o olho esperto na bilheteria e sacava, como, talvez nenhum dos seus colegas, a "psicologia" dos que iam ao cinema para se divertir. Tinha a vocação para o marketing, numa época em que essa palavra ainda não existia. Sabia "vender" o seu produto.
Não sei se Hitchcock apareceu em todos os filmes, a partir da experiência inicial. É possível que sim. O cinéfilo, especialmente o hitchcockiano, deve se lembrar de muitos desses momentos. Alguns exemplos, ao acaso. Ele dando corda num relógio pousado sobre um móvel em Janela Indiscreta; entrando num trem com um violoncelo (ou contrabaixo) em Pacto Sinistro; conduzindo dois cachorros em Os Pássaros; no corredor de um hotel, em Marnie. E por aí vai.
Pelo visto, eram aparições fáceis de ocorrer. Mas quando ele foi rodar Um Barco e Nove Destinos (1943), a coisa se complicou. A trama do filme é toda desenvolvida dentro de um bote salva-vidas, onde nove sobreviventes de um navio torpedeado vão se refugiar. Hitchcock não podia aparecer, não haveria lugar para ele, a não ser que ele fosse um dos personagens. E como ele disse a Truffaut numa entrevista, ninguém aparece caminhando dentro do mar. Foram momentos dolorosos, confessa na mesma entrevista, pensando numa forma de participar do filme. De tanto pensar, surgiu a idéia. Na época ele passava por uma dieta rigorosíssima, cuja meta era perder nada menos do que 50 quilos. Ele não diz se o conseguiu, mas, sem dúvida, ficou bem menos gordo. Aí posou para uma foto no início do tratamento e para outra no final. Isso feito, fez estampar as fotos num velho jornal, como ilustração do anúncio de um medicamento usado para emagrecimento. Era um remédio fictício, ao qual ele batizou de "Reduco". O jornal foi pregado ao lado do barco. E num dado momento, um dos sobreviventes pega o jornal, desdobra-o e lá aparece, ao lado do anúncio ,as fotos de Hitchcock "antes" e "depois" de usar o remédio. E, assim, embora não fisicamente, o grande gordinho fez a sua costumeira aparição.
P.S. Outros diretores apareceraam em seus filmes, mas uma única vez. Três exemplos me vêm à memória. Buñuel em A Bela da Tarde, num café ao ar livre, na cena em que Catherine Deneuve encontra o viúvo, que a convida a ir à casa dele; Philippe de Broca em Brincando de Amor, na cena de uma festinha; e Huston em O Tesouro de Sierra Madre. Este aparece duas vezes, como o homem de terno branco a quem Bogart pede dinheiro.

domingo, janeiro 15, 2006

A REUNIÃO


A decisão de nosso chefe de marcar a reunião para sábado no Colégio Estadual desagradou a todos nós. Pelo local e mais ainda por ser um sábado, quando só pensamos em esquecer os cinco dias rotineiros que atravessamos. Mas o chefe não aceitou nossas ponderações e ainda nos comunicou que, a partir daquela data, as reuniões não mais se realizariam no nosso Setor. (Ele adora fazer o gênero ditador.) Concordamos com ele quando disse que o tempo gasto em reuniões seria melhor aproveitado no cumprimento das tarefas. Agora achar que, se reunindo fora do Setor, se evitaria que funcionários de outros Setores ficassem conhecendo os nossos problemas de serviço, é uma argumentação no mínimo risível. Tivemos que baixar a cabeça. De nada adiantaria falar com o subgerente, como alguém sugeriu. Íamos só gastar saliva e o homem podia não nos entender.
E no sábado fomos para o vetusto prédio do Colégio Estadual, chateados, mas fomos. Dei carona ao Heráclito, que estava com o carro na oficina. Fomos os últimos a chegar e não sabemos por que não levamos um pito do chefe. Ele pediu que o acompanhássemos à sala onde se daria a reunião. Eu e Heráclito ficamos na rabeira. Como um líder, nosso chefe ia à frente. Ia sem pressa, até muito vagaroso, o que nos surpreendeu, atrasados, como estávamos. E como passássemos pelo salão, onde estão expostos os quadros de formatura, achamos que disporíamos de tempo para procurar o da nossa turma. Não demoramos a achá-lo. Emocionados, recordamos alguns colegas, professores, os grandes momentos. E rimos de nossos retratos: a carranca, o cabelo glostorado, o paletó e a gravata imundos do fotógrafo, que serviram a milhares de formandos. Mas de repente nos entristecemos, ao nos revermos adolescentes, o jeitão sério apenas uma pose para fotografia de concluinte. Problemas, responsabilidades, compromissos - isso existia pra nós naquele tempo? Não tínhamos passado, no futuro não pensávamos, só o presente interessava. Acabamos arrependidos de remexer no passado. Enão, nos lembramos da reunião. Galgamos velozmente a escada que dá acesso às duas alas , que tanto percorremos em outra época. Lá no topo o coração em tempo de pular da boca. Éramos dois velhos - comentei para o Heráclito.
Ficamos parados até recobrar o fôlego. Foi quando nos demos conta de que não sabíamos da sala, onde se daria a reunião. O Heráclito, sempre prestativo, queria se informar na secretaria e na diretoria, mas lhe lembrei de que não iria encontrar ninguém num dia sem aula. A solução era cada um de nós tomar uma ala e percorrer todas as salas. Aquele que localizasse a sala, gritaria pelo outro. Entrei em cada uma das salas, minhas velhas conhecidas, sem perder a esperança de na sala seguinte encontrar os colegas reunidos. Mas em todas apenas as carteiras encardidas (vazias). E não ouvi o grito de Heráclito. Nos reencontramos no topo da escada, cansados, desapontados. Mas o meu amigo teve uma boa idéia: descermos para a secretaria e a diretoria. Conhecendo o nosso chefe, achávamos que ele tinha escolhido uma das salas - talvez a do Diretor. Fomos primeiro para esta e, ao nos aproximarmos, ouvimos vozes. Na mosca. Como conhecíamos o nosso chefe! Entramos à toda, levamos um bruto susto: em vez dos colegas, demos com um grupo de escoteiros. À mesa, o chefe dos garotos parou de falar quando invadimos a sala com um com licença, chefe. Desejando que naquele momento o chão se abrisse e nos tragasse, balbuciamos uma desculpa e saímos. Desanimados. fomos ainda à secretaria - fechada.
Até pegarmos o carro e durante todo o trajeto, não soltamos uma palavra. De vez em quando nos olhávamos, lendo no rosto a certeza de termos desperdiçado o nosso fim de semana. Nada nos iria distrair da ídéia de começarmos a segunda-feira com uma reprimenda do nosso chefe.
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Conto extraído do meu livro Não Enterrarei os Meus Mortos (1980)

quarta-feira, janeiro 11, 2006

SOPRANDO A PRIMEIRA VELINHA


Hoje está fazendo um ano que iniciei este blog. Em 11 de janeiro de 2005 o Luzes da Cidade ingressava no mundo da blogosfera, com uma crítica sobre o filme de Chaplin que inspirou o nome deste espaço. Antecedendo o texto, fiz algumas considerações, entre as quais informava que, apesar do título, o meu blog não iria se dedicar exclusivamente às coisas do cinema, muito embora este fosse ter um maior destaque. E assim tem sido nesses doze meses. E assim será até enquanto ele existir. Mesmo ocupando um espaço menor, tenho divulgado o meu trabalho literário, publicando textos extraídos dos meus livros e também inéditos. Também escrevi sobre outros escritores e publiquei, em pequeno número, é verdade, textos de poetas, consagrados ou não. Andei, ainda, publicando umas poucas crônicas de minha autoria. Mas o cinema continuou sendo o assunto mais relevante.
Curioso é que a minha decisão de editar um blog surgiu de repente, e depressa a levei a cabo. Jamais pensei nessa possibilidade, desde que ingressei na Internet. Me lembro, poucos meses antes, de uma sugestão de Bené Chaves (que já fazia circular o seu O Apanhador de Sonhos) para que eu criasse também o meu. Foi numa reunião que tivemos com Moacy Cirne, numa das vindas deste a Natal. "Quero lá o quê!", reagi de imediato. No entanto, não muito tempo depois... É como aquela história de que nunca se deve dizer que desta água não beberei.
Preciso confessar que, mais do que, talvez, o meu prazer de escrever (a necessidade, diria melhor), a grande satisfação que tive durante esses doze meses foi o ensejo de conhecer pessoas inteligentes, sensíveis e talentosas, além de possuírem uma grande qualidade humana. Elas me gratificaram com palavras amáveis, nas suas visitas, onde não faltou uma boa dose de generosidade; e me proporcionaram momentos preciosos ao visitar os seus blogues. Quero, sem citar nomes, fazer um agradecimento especial àqueles que se mantiveram mais assíduos em suas vindas ao Luzes da Cidade. Mas também agradeço aos que aqui vieram esporadicamente, aos que , assíduos por algum tempo, de repente tomaram um chá de sumiço. Agradeço até mesmo àqueles que me visitaram uma única vez. Como , ao me lerem, dissessem para si mesmos, o diabo é quem vem outra vez por aqui. A todos deixo um grande abraço e os votos de um venturoso ano que está se iniciando.

sábado, janeiro 07, 2006

MEUS ATORES E ATRIZES PREFERIDOS

Sem ordem de preferência.

Atores

Dirk Bogarde
Barry Fitzgerald
James Mason
Alec Guiness
Henry Fonda
Marcello Mastroianni
Bruno Ganz
Al Pacino
Claude Rains
Charles Laughton
Spencer Tracy
Marlon Brando
Robert Ryan
Burt Lancaster
Peter Lorre
Montgomery Clift
Jack Lemmon
Paulo José


Atrizes

Claire Bloom
Isabelle Hupert
Virginia Mayo
Maureen O' Hara
Ornella Muti
Jean Simmons
Alida Valli
Teresa Wright
Audrey Hepburn
Ava Gardner
Catherine Deneuve
Natalie Wood
Sophia Loren
Silvana Mangano
Emmanuelle Béart
Susan Hayward
Anne Bancroft
Lee Remick
Ingrid Thulin
Helen Mirren
Debra Winger
Nicole Kidman

domingo, janeiro 01, 2006

A CHINESINHA

Tomei o primeiro, longo gole de cerveja, degustando o prazer da bebida bem gelada. Em seguida, virei o rosto para a parede à minha direita, onde estava dependurado um quadro emoldurado e envidraçado. A peça, que não parecia (de acordo com os meus modestos conhecimentos de artes plásticas), executada por um verdadeiro artista, representava sete pessoas (4 homens e 3 mulheres), cada uma delas exercendo uma função. Um dos homens portava um instrumento musical, outro montava um cavalo, uma mulher aparecia segurando uma flor, e assim por diante. Um atrás do outro, formando uma fila indiana. Era um quadro chinês, pois o restaurante era chinês. Havia outro quadro na parede à minha esquerda, embaixo do qual se postava a longa mesa onde era exposta a comida para os clientes se servirem. Mas nem sei dizer o que o quadro representava, pois me desinteressei de olhá-lo.
A chinesinha que me atendeu teria, se muito, dezoito anos, era magrinha, como parecem ser todas as chinesas, pelo menos, as jovens. O seio quase inexistente me fez lembrar a expressão "peitinhos de pitomba", de uma música do Chico. Mas bonitinha, com um rabinho-de-cavalo, e se chamava Jini. Havia outra moça, um pouco mais velha, e um homem, esse, sim, gordo, não muito mais alto do que as moças. Devia ser o proprietário. Fiquei por ali só bebendo, pois ia almoçar em casa.
Descobrira o restaurante num desses sábados em que com a minha mulher fui a um shopping fazer compras. Depois das compras, seguimos para a praça da alimentação, para tomarmos umas duas cervejas. Entramos ali sem nem saber que o restaurante era chinês. Só o descobrimos quando a chinesinha nos veio atender e também verificamos a decoração. E não sei por quê (talvez o inusitado do local, com uma chinesa de garçonete), achei agradável o ambiente, e sempre que ia ao shopping, aparecia lá para tomar a minha cerveja.
Os ocidentais acham que as pessoas da raça oriental são todas parecidas no físico. Talvez eles digam o mesmo de nós. Bom, o certo é que teve um dia que eu achei que Jini, a chinesinha, era como estar vendo a bela atriz Gong Li. Só que bem mais nova. E um dia falei a ela da semelhança entre as duas. Jini me olhou admirada e não disse nada. Suspeitei que ela não soubesse quem diabo era Gong Li.
Uma vez fui atendido pela sua companheira. Era também bonitinha, me disse o seu nome, mas não o guardei. Soube que Jini estava adoentada. Doença grave, perguntei. A moça não disse nem sim, nem não. Era atenciosa e mais comunicativa do que Jini. Como a cerveja não estivesse muito gelada, trouxe, sem eu pedir, um balde com cubos de gelo, onde pousou a garrafa. Fiquei por ali, vendo pela milésima vez o quadro, enquanto os primeiros clientes chegavam para almoçar. Dessa vez me deu vontade de comer um pastel.
Voltei alguns dias depois e, de novo, não encontrei Jini. Perguntei à colega se ela tinha melhorado. E, coisa estranha, de novo ela ficou muda. Nem um sim, nem um não. Coisa mais estranha!
Não resisti a perguntar por Jini, na vez seguinte. E o mesmo silêncio da garçonete, mas com uma diferença: além do silêncio, ela esboçou um sorriso, cujo significado não consegui decifrar. A partir daquele dia, desisti de indagar pela chinesinha. Houve uma ocasião, depois de beber três cervejas (habitualmente não passo de duas) , em que senti o impulso de perguntar ao proprietário o que fora feito de Jini. Mas nem cheguei a me levantar. Deixa pra lá, disse pra mim . E, embora continue frequentando o local, apreciando a cerveja bem gelada (quando não está a meu gosto, a garçonete providencia o balde com gelo), confesso que sinto falta da sósia de Gong Li. Onde ela estará? O que terá sido feito dela?

quarta-feira, dezembro 28, 2005

OS MELHORES FILMES VISTOS EM 2005

Hoje eu quis voltar aos meus tempos de cineclubismo, quando, junto com alguns companheiros do Cineclube Tirol, publicava, na imprensa local, a lista dos melhores filmes exibidos durante o ano. A minha lista deste ano atinge o número de 14 filmes. É bem provável que possa ter esquecido um ou outro , pois, ao contrário de Bené e Moacy, não costumo anotar os filmes que vejo. (Acho que, a partir do próximo ano, vou adotar esse procedimento. Não posso mais confiar tanto na memória, que já vai dando sinais de cansaço.) Preciso fazer um esclarecimento a respeito da inclusão de Brinquedo Proibido. Foi com a idade de 12/13 anos que o vi, numa cidade do interior da Paraíba. Na época (será preciso dizê-lo?) não tinha a mínima visão crítica e estética do cinema, além de não me lembrar, ao longo dos anos , de absolutamente nada dele. Assim, ao assisti-lo em DVD, em agosto deste ano, foi como se o visse pela primeira vez. Isso posto, vamos à relação.
1 . A Queda - As Últimas Horas de Hitler (Oliver Hirscbiegel, 2004)
2 . Um Filme Falado (Manoel de Oliveira, 2003)
3 . A Eternidade e Um Dia (Théo Angelopoulos, 1998)
4 . O Silêncio (Bergman, 1963)
5 . L' Age d' Or (Buñuel, 1930)
6 . Sherlock Jr. (Buster Keaton, 1924)
7 . Entr' acte (Clair, 1924)
8 . Nuit e Brouillard (Resnais, 1955)
9 . Rififi (Jules Dassin, 1954)
10, Brinquedo Proibido (René Clément, 1952)
11. O Segredo de Vera Drake (Leigh, 2004)
12. Elefante (Gus Van Saint, 2003)
13. Batman Begins (Christopher Nolan, 2005)
14. O Abraço Partido (Daniel Burman, 2003)

sábado, dezembro 24, 2005

NATAL! U,m soneto, um poema e uma letra da MPB


Soneto de Natal
Machado de Assis

Um homem, _ era aquela noite amiga,
Noite cristã, berço do Nazareno, _
Ao relembrar os dias de pequeno,
E a viva dança, e a lépida cantiga

Quis transportar ao verso doce e ameno
As sensações da sua idade antiga,
Naquela mesma velha noite amiga,
Noite cristã, berço do Nazareno.

Escolheu o soneto... A folha branca
Pede-lhe a inspiração; mas frouxa e manca,
A pena não acode ao gesto seu.

Em vão lutando contra o metro adverso,
Só lhe restou este pequeno verso:
"Mudaria o Natal ou mudei eu?"



Poema de Natal
Carlos Pena Filho

_ Sino, claro sino,
tocas para quem?
_ Para o Deus Menino
que de longe vem.

_ Pois se o encontrares,
traze-o ao meu amor.
_ E que lhe ofereces,
velho pecador?

_ Minha fé cansada,
meu vinho, meu pão,
meu silêncio limpo,
minha solidão.



Boas Festas
Assis Valente

Anoiteceu,
o sino gemeu,
a gente ficou
feliz a rezar.
Papai Noel,
vê se você tem
a felicidade pra você me dar.


Eu pensei que todo mundo
fosse filho de Papai Noel.
Bem assim felicidade
eu pensei que fosse uma brincadeira de papel.
Já faz tempo que pedi,
mas o meu Papai Noel não vem.
Com certeza já morreu,
ou então felicidade
é brinquedo que não tem.







domingo, dezembro 18, 2005

O SEGREDO DE VERA DRAKE (VERA DRAKE/2004)

Vão sendo mostrados os primeiros créditos e quando aparece, em destaque, o título Vera Drake, o lado direito da tela abre-se e vemos uma mulher caminhando. Em seguida, a tela fica cheia e a mesma mulher está numa casa prestando assistência a um velho enfermo. Algum tempo depois, ela é vista no trabalho de induzir uma jovem a abortar, uma cena que se repetirá duas ou três vezes. E à medida que O Segredo de Vera Drake vai se desenrolando, fica patente que o diretor-roteirista Mike Leigh não pretende se posicionar a favor ou contra o aborto. A intenção, clara, é a de destacar a bondade de uma mulher casada, mãe de um casal de filhos, de ajudar mulheres a se livrarem do filho indesejado. Bondade, sim, pois Vera Drake faz esse "serviço", sem receber pagamento. Quem lucra é uma desonesta conhecida dela, encarregada de informá-la das mulheres que querem interromper a gravidez. Como todas as pessoas que praticam o bem (embora , no caso, o aborto seja considerado um crime, pelo menos na Inglaterra de 1950, a época em que se passa a história), Vera é uma ingênua, uma pura, que jamais desconfiou de que estava sendo usada pela outra. E, também, vítima de inveja, no caso da esposa do irmão do seu marido.
Como se vê no início do filme, ela também socorre outras pessoas mais velhas e doentes, levando-lhes algum alimento e tendo sempre para elas uma palavra de conforto. Um personagem assim altruísta, que, apesar das dificuldades financeiras por que passa, junto com o marido, vivendo de fazer faxina nas residências, não reclama da vida e está sempre bem-humorada, tem tudo para se tornar um alvo em potencial da pieguice e do sentimentalismo. Mas Leigh, com o talento já demonstrado em Segredos e Mentiras, sabe como driblar esse perigo e conduz o filme com energia, mas com uma segurança e uma sobriedade elogiáveis. Até mesmo nas cenas em que Vera é confrontada com os policiais e não pode conter a emoção, o filme não descamba para o melodramático. Talvez também porque ele conta com o talento de Imelda Staunton, que tem uma atuação admirável no papel de Vera, sem excessos, sem exageros. E são cenas de forte carga dramática, que, nas mãos de um diretor e de uma atriz de pouco potencial, causariam danos irreparáveis ao filme. Vale aqui ressaltar o momento em que Vera, envergonhada pelo que fez, diante dos policiais, encosta a boca no ouvido do marido e lhe faz a bombástica confissão. Uma cena feita de silêncios, mostrando a expressão de pasmo do companheiro de tantos anos anos, que nunca suspeitara do "segredo" que a esposa guardava em seu íntimo.
É ainda importante que se fale do comportamento dos policiais, entre eles uma mulher. Apesar do empenho em arrancar a confissão de Vera, o sargento não age de forma brutal, com truculência. Embora firme, em nenhum momento ele levanta a voz para a interrogada, um comportamento que não é comum em um policial, principalmente diante de um acusado vindo das camadas mais baixas. É como se ele (e os auxiliares) estivessem cientes de que aquela mulher praticou um delito, sim, mas com a intenção de praticar o bem, tanto que não o fez para ganhar dinheiro. E na penúltima cena, já na prisão, quando Vera vai subindo uma longa escada, a guarda recomenda-lhe cuidado para não cair.
Com mais esse êxito em sua carreira, o inglês Mike Leigh comprova que é um dos cineastas mais interessantes do cinema contemporâneio.

domingo, dezembro 11, 2005

15 GRANDES MOMENTOS DO CINEMA


1 - O ator bêbado recitando o monólogo de Hamlet, trepado em uma mesa de bar, em Paixão dos Fortes (John Ford)
2 - A sequência final de Oito & Meio (Fellini)
3 - A expressão do rosto do vagabundo no final de Luzes da Cidade (Chaplin)
4 - O plano-sequência no início de A Marca da Maldade (Welles)
5 - A sequência em que Cary Grant é perseguido por um avião em Intriga Internacional (Hitchcock)
6 - Gene Kelly dançando e cantando debaixo de um toró, em Cantando na Chuva (Kelly & Stanley Donen)
7 - A sequência final de Sinfonia de Paris, na qual se aliam, de forma admirável, a cor, a dança e a música (Vincente Minelli)
8 - A morte da garota em M, o Vampiro de Dusseldorf (Fritz Lang) , revelada pela bola rolando no solo e o balão pousado num poste de iluminação, brinquedos que o assassino comprara para a vítima.
9 - A sequência na escadaria de Odessa, num primoroso exercício de montagem, em O Encouraçado Potemkin (Eisenstein)
10 - A dança dos pãezinhos, em Em Busca do Ouro , de uma poesia simples, mas cativante (Chaplin). Inesquecível.
11 - A cena em que os amantes se conhecem, em uma festa, em Amor, Sublime Amor (Robert Wise & Harold Robbins)
12 - Os cavalos agonizando no final de uma batalha, em Kagemusha, a Sombra do Samurai (Kurosawa)
13 - A cena da Morte conduzindo as pessoas, em O Sétimo Selo (Bergman)
14 - A gargalhada do velho, reagindo com bom-humor à perda das jazidas de ouro, no final de O Tesouro de Sierra Madre (Huston)
15 - Em Rififi (Jules Dassin). A sequência do assalto a uma joalheria, desde a noite em que os assaltantes saem de casa até à reunião na casa de um deles, já com o produto do roubo. Uma sequência de pouco mais de 30 minutos, sem nenhum diálogo, os personagens se comunicando com gestos ou na expressão facial.
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NOTA - A sequência supracitada de O Encouraçado Potemkin foi reconstituída, como uma homenagem ao filme de Eisenstein, em Os Intocáveis (Brian de Palma). A mesma homenagem foi feita a Em Busca do Ouro em Gilbert Grape - Aprendiz de Sonhador
(Lasse Hallstrom), com o ator Johnny Depp repetindo o gesto de Carlitos.

domingo, dezembro 04, 2005

ALGUNS PERSONAGENS INESQUECÍVEIS DO CINEMA



- Carlitos
- Hulot (Jacques Tati)
- O casamenteiro de Depois do Vendaval (John Ford)
- O ator alcoólatra de Paixão dos Fortes (Ford)
= Will Kane, o xerife de Matar ou Morrer (Fred Zinnemann)
- Gelsomina de Na Estrada da Vida (Federico Fellini)
- Cabiria de Noites de Cabiria (Fellini)
- Norma Desmond de Crepúsculo dos Deuses (Billy Wilder)
- O personagem-título de Dersu Uzala (Akira Kurosawa)
- O velho funcionário de Viver (Kurosawa)
- Alfredo, o projecionista de Cinema Paradiso (Giuseppe Tornatore)
- A prostituta de Nunca aos Domingos (Jules Dassin)
- O chefe daquela família "maluca" de Do Mundo Nada se Leva (Frank Capra)
- O padre de Roma, Cidade Aberta (Roberto Rosselini)
- Stoker, o boxeador de Punhos de Campeão (Robert Wise)
- A velhinha de Quinteto da Morte (Alexander Mackendrick)
- Sinigaglia, o professor de Os Companheiros (Mario Monicelli)
- Alvin Straight de História Real (David Lynch)