quarta-feira, fevereiro 28, 2007

NA RODA DA FORTUNA ( Hudsucker Proxi/1994)

O comentário abaixo foi publicado no Diário de Natal na década de 1990, quando naquele jornal eu mantinha uma coluna semanal sobre cinema. Tendo visto o filme em DVD na semana passada (com o título em português "A Roda da Fortuna") , aproveito a oportunidade para lançar o texto neste blogue. Ei-lo.
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Semana retrasada, ao falar nesta coluna sobre o cineasta espanhol Pedro Almodóvar, mencionei, de passagem, a falta de graça e de criatividadedas comédias americanas atuais, com exceção de uma ou outra. Foi bom ter feito a ressalva, pois, do contrário, teria hoje que fazê-la, depois de assistir, em vídeo, a uma comédia engraçada e inteligente, que faz lembrar o período em que o gênero era bem explorado pelo cinema americano.
Trata-se de "Na Roda da Fortuna," dos irmãos Joel e Ethan Coen (direção do primeiro, roteiro dos dois e mais Sam Raimi), que, aliás, já haviam tido uma experiência bem-sucedida com "Arizona Nunca Mais." Diferentemente deste, a ação de "Na Roda da Fortuna" passa-se na década de 50, na época da invenção do bambolê, que tem uma participação importante na trama. Época também em que os Estados Unidos eram governados pelo general Eisenwouer, que, por sinal, aparece numa cena falando com o personagem Norville Barnes ao telefone, por obra de um efeito de montagem.
Parece que os irmãos Coen tiveram o propósito de resgatar o espírito daquelas comédias dos anos 30 e 40, ainda que a história se situe em fins da década de 50. É a impressão que se tem, ao identificar o caráter e o comportamento inerentes aos personagens de tantas comédias daqueles dois períodos. E ao recorrer aos filmes daqueles decênios, o nome de Frank Capra soa bastante familiar. Noville Barnes (que tem em Tim Robbins um excelente intérprete) é um típico personaagem de Capra, aquele homem ingênuo e puro, que atrai a atenção e o interesse dos mal-intencionados. O mesmo se pode dizer de Amy Archer (Jennifer-Jason Leigh), que não só por ser uma jornalista, mas também por causa da mudança que se opera em sua conduta em relação a Barnes, faz lembrar o personagem de Barbara Stanwick em "Adorável Vagabundo."
Esse Barnes é promovido, da noite para o dia, de mensageiro a presidente de uma empresa, como resultado de uma artimanha preparada pelo maligno diretor Sidney Mussburger (Paul Newman). O objetivo é um só: tornar a empresa desacreditada no mercado financeiro, vendendo à opinião pública a idéia de que o presidente é um perfeito idiota, com isso forçando a baixa das ações, para serem adquiridas por esse diretor e seus cúmplices.
Só que eles não contavam com a impressionante reação do consumidor ao lançamento de um brinquedo projetado por Barnes, antes mesmo de ele ingressar na empresa. Criado para as crianças, ele começa a receber a adesão de adultos, e, em pouco tempo, se transforma numa mania nacional. Não apenas as vendas aumentam, como o inventor se torna famoso e querido em todo o país.
É principalmente quando satiriza os efeitos da bambolemania nas pessoas (até num casamento os noivos não deixam de usar o bambolê, mesmo tendo cada um deles dificuldade para encaixar a aliança no dedo do outro), que "Na Roda da Fortuna" cumpre a sua função de fazer rir, como nas comédias de Capra e de outros pesos pesados do gênero no cinema americano de outras épcas. No final, a tentativa de suicídio de Barnes reforça a semelhança com "Adorável Vagabundo." No entanto, o fato de isso ocorrer na véspera do Ano Novo e de aparecer um anjo para dissuadir Barnes de praticar o ato (o seu antecessor na presidência da empresa, que se atirara do alto do edifício no último dia do ano), amplia a semelhança com Capra, mas dessa vez com "A Felicidade não se Compra", outro filme daquele diretor, de ambos "Na Roda da Fortuna" se apropriando do final feliz.
Em todo caso, , é bom atentar para um detalhe que encerra "Na Roda da Fortuna," onde ele sai um pouquinho da órbita de Capra. É no comentário cínico (à Billy Wilder?) do velho empregado negro que controla o gigantesco relógio da empresa, rematado por uma (hustoniona?) gargalhada.

domingo, fevereiro 25, 2007

INJUSTIÇADOS DO OSCAR.

Logo mais acontece a cerimônia de entrega do "Oscar". Aproveitando o ensejo, republico um
texto saído neste espaço há exatos dois anos. Vamos lá.
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Acessando o site da "Folha de São Paulo", um mês atrás, deparei-me com um texto informando sobre uma votação feita na Inglaterra, entre internautas, para a escolha dos maiores injustiçados pelo prêmio Oscar, incluindo diretores e atores. Hitchcock ficou no topo da lista dos diretores, enquanto Kubrick figurou em terceiro lugar. Hitchcock e Kubrick. Dois dos maiores expoentes da direção foram ignorados, esnobados pela Academia de Hollywood. E no caso de Hitchcock, o fato é mais surpreendente, porque os seus filmes, mesmo possuindo qualidade artística. atraíam a massa de espectadores que vão a cinema para se entreter, rendendo grandes bilheterias, que é o único foco de interesse dos produtores de Hollywood. Mas outros grandes cineastas jamais receberam aquela feia estatueta por um filme seu. Houve casos como os de Welles, Hawks e Chaplin, que receberam um Oscar honorário pela sua obra, numa atitude dos acadêmicos de repararem uma injustiça sem tamanho. (Esse negócio de prêmio honorário é como menção honrosa em concurso literário.) Aliás, sobre o prêmio concedido a Chaplin, o crítico e jornalista Sérgio Augusto afirmou, com uma precisão cirúrgica, que foi "um Oscar cravejado de vergonha e hipocrisia." E antes que me esqueça. O segundo colocado na lista foi Martin Scorcese, que, ainda vivo e atuante, poderá, enfim, empalmar a estatueta. Talvez até na festa de amanhã. já que é um dos indicados ao prêmio de Melhor Diretor.
Samuel L. Jackson encabeçou a lista dos atores injustiçados. E aí houve uma tremenda injustiça cometida pelos internautas. Como não esquecer Montgomery Clift (será que foi votado?), indicado muitas vezes e que morreu sem levar o prêmio? E James Mason, esse extraordinário ator inglês, que foi algumas vezes indicado, mas também ficou de mãos abanando? Richard Widmar, ótimo ator, que, parece, foi indicado apenas uma vez?
Paul Newman levou 30 anos para sair vencedor. Se tivesse morrido há uns 20, teria tido a mesma sorte de Clift e de Mason e de outros de quem não me lembro agora. Foi só há poucos anos que Al Pacino ganhou o Oscar, depois de concorrer várias vezes.
E mesmo quando a Academia fez justiça a um ator, aconteceu de não ser por sua melhor interpretação. Vou citar só o exemplo de Humphrey Bogart. Ele ganhou por "Uma Aventura na África" (Huston, 1951) por um desempenho inferior ao de outros filmes. ("O Tesouro de Sierra Madre",um exemplo isolado, do mesmo diretor.) E é bom ressaltar que, quando saiu vencedor, Bogart concorreu com nada menos que Marlon Brando ("Uma Rua Chamada Pecado"), Fredric March ("A Morte do Caixeiro Viajante") e o coitado do Montgomery Clift ("Um Lugar ao Sol"), três atores de maior estatura do que Bogart, não desmerecendo o talento dele.
E como diretor, há que citar John Ford. Ganhou 4 Oscar (o recordista, até hoje, entre os diretores) , mas em nenhum deles foi por um dos seus "westerns." Ora, Ford foi o maior artista do gênero, elevando-o, a partir de "No Tempo das Diligências," 1939, à categoria de arte. Ah, Hollywood. Ah, Academia.
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NOTA - Mais uma vez Martin Scorcese estará na briga hoje e é apontado como o favorito para empalmar a estatueta de Melhor Diretor. Talvez, finalmente, ele saia vencedor, mas será por um filme inferior a outros pelos quais concorreu, como, por exemplo, "Touro Indomável" e "Taxi Driver."

quarta-feira, fevereiro 21, 2007

A POESIA DE CONCEIÇÃO EUGENIO

Reservo hoje este espaço à poesia da amiga portuguesa Conceição Eugenio, que, com a generosidade e a gentileza que lhe são inerentes, me presenteou 3 dos seus livros publicados. Os poemas aqui mostrados foram tirados dos livros "Falar Mulher" (Editora Sol XXI, 1997), e "As Tarefas Transparentes" (mesma editora, 1998) . O primeiro desses livros tem uma parte de prosa. Conceição Eugenio tem outros livros, e é editora de 3 blogues (ou casotas, como ela gosta de dizer ): http://estranhosdias.blogspot.com/ ; http://balaodeensaio.blogspot.com/ e http://fragmomentos.blog.com . Eis os poemas.
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A mulher
podou
o rosto
de fresco
esperando
(quem sabe...)
novas madrugadas.
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Tenho uma tristeza
tão profunda e tão real
como se fosse coisa física.
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Pego-lhe com as mãos
e coloco-a num móvel
à minha frente.
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E observo-a tão espantada
quanto a noite
por tal coisa existir em mim.
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Tão grande e tão funda.
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E retirando-a eu de mim,
com as mãos, ela continuar
(ainda assim) presente.
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Uma criança corria na berna da estrada
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Como tão dentro da própria alegria
que parecia alada.
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Corria solta.
Mensageira das boas novas.
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Alheada da seca e queimada paisagem
corria.
O alcatrão quente não a queimava
pois corria
como quem pisa a matéria
de que são feitos os sonhos...
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corria tão dentro da própria alegria,
num estado de pureza total,
que o seu rosto lembrava uma estrela
refulgindo de êxtase e puro contentamento.
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Entre o nojo e a tristeza
os campos
verdes de pedra parecem
dizer a deus
os mortos a funda(e)m-se
e emergem erectas
pedras que crescem
para os céus
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os vivos dobram-se
sobre a terra na espinha
curva e caem esquecidos.

quarta-feira, fevereiro 14, 2007

MINHA MÃE


Fumando cachimbo
Pintando o cabelo
Pedalando na Singer


A missa diária
O terço noturno
(os joelhos tinham as marcas das rezas)
A cadeira de noite na calçada.


O mesmo mel comendo
Os mesmos benditos entoando
O mesmo livro lendo.


Batendo boca com meu pai.

sábado, fevereiro 10, 2007

TRIO


1) Era um programa sobre literatura na TV Futura, do qual participavam o poeta Afonso Romano de Santana e dois escritores da nova geração, não lhes guardei o nome. A apresentadora fazia a mesma pergunta aos três. Uma das últimas perguntas, se não a última, foi sobre a importância, o valor, a perenidade dos grandes mestres da literatura. Com quase a mesma opinião, os entrevistados reconheceram o legado que aqueles deixaram para os autores que lhe sucederam, que atravessou os séculos e chegou aos dias de hoje. Mas Afonso Romano de Santana acrescentou uma informação, para reforçar que a grande obra propicia a descoberta de elementos a cada releitura, entre eles o estilo do autor. Uma informação que contém um leve ingrediente humorístico. Ele falou que Jorge Luís Borges "lia" com muita frequência trechos de "Dom Quixote". E ao ser fechado o livro, exclamava para o outro leitor: "CERVANTES ESTÁ ESCREVENDO CADA VEZ MELHOR."
2) De novo Afonso Romano de Santana. Ele está naquele rol de escritores que são constantemente entrevistados. (Não é uma crítica. Afonso tem o que dizer e sabe dizê-lo.) Numa entevista a outro canal de televisão ele relatou um engraçado caso envolvendo a escritora Clarice Lispector. Era um debate sobre literatura numa instituição cultural do Rio de Janeiro. Afonso fazia parte da mesa, enquanto Clarice estava na platéia. O debate seguia um curso normal. A uma certa altura, Clarice se levanta e deixa o auditório. A começar por Afonso, todos os presentes estranharam a retirada de Clarice. Mas Afonso ficou preocupado. Será que Clarice saíra por não estar gostando do debate? Ficara aborrecida a um certo momento? O debate prosseguiu mas o poeta e cronista não conseguia afastar a pulga na orelha.
No dia seguinte ligou pra Clarice, pra saber o que tinha acontecido. E com grande surpresa ouviu dela porque deixara repentinamente o local. Não tinha nada a ver com o debate. Até estava gostando. O que houvera é que sentira uma vontade incontrolável de comer o frango que a esperava em casa.. Tão irresistível que a impeliu a sair, mesmo sabendo que estava cometendo um ato reprovável. Ah, Clarice...
3) Grande cineasta, Billy Wilder era também um grande gozador. São famosas as suas piadas no meio cinematográfico. Uma delas foi sobre o filme "Acorrentados", de Stanley Kramer, 1958. Vi há quase cinquenta anos esse filme que conta a história de dois presidiários que fogem da prisão, acorrentados um ao outro. Um personagem é branco (Tony Curtis) e o outro negro (Sidney Poitier). A piada que Wilder fez circular por Hollywood aludia à escolha do ator que ia interpretar o branco. Segundo Wilder, três atores foram convidados, antes de Curtis, sem sucesso, pelos seguintes motivos. Marlon Brando só admitiu fazer o filme se interpretasse o negro. Robert Mitchum nem quis conversa: "O quê? Eu trabalhar com um negro?" Mas complicado mesmo foi quando Kirk Douglas foi sondado. Ele topava, sim, fazer o papel, mas com uma condição: o de fazer também o do negro. Kirk queria interpretar ambos os personagens.
É claro que esse fato jamais aconteceu. Foi uma piada e uma piada inventada por aquele irreverente, anárquico, irônico e gozador Wilder.

quarta-feira, janeiro 31, 2007

A CHINESINHA

Este conto saiu neste blogue na primeira postagem de 2006, portanto, há mais de um ano. É republicado, não apenas por não dispor de um assunto novo, mas para quem não o tiver lido naquela ocasião. E para os que o leram, poderem fazer uma reavaliação dele.
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Tomei o primeiro longe gole de cerveja, degustando o prazer da bebida bem gelada. Em seguida virei o rosto para a parede, à minha direita, onde estava dependurado um quadro em moldura e envidraçado. A peça, que não parecia (de acordo com os meus modestos conhecimentos de artes plásticas) executada por um verdadeiro artista, representava sete pessoas (quatro homens e três mulheres), cada uma delas exercendo uma função. Um dos homens portava um instrumento musical, outro montava um cavalo, uma mulher segurava uma flor, e assim por diante. Um atrás do outro, formando uma fila indiana. Era um quadro chinês, pois o restaurante era chinês. Havia outro quadro na parede à minha esquerda, embaixo do qual se postava a longa mesa onde era exposta a comida para os clientes se servirem. Mas nem sei dizer o que o quadro representava, pois me desinteressei de olhá-lo.
A chinesinha que me atendeu teria, se muito, dezoito anos, era magrinha, como parecem ser todas as chinesas, pelo menos as jovens. O seio quase inexistente me fez lembrar a expressão "peitinhos de pitomba", de uma música do Chico. Mas bonitinha, com um rabinho-de-cavalo, e se chamava Jini. Havia outra moça, um pouco mais velha, e um homem, esse, sim, gordo, não muito mais alto do que as moças. Devia ser o proprietário. Fiquei por ali só bebendo, pois ia almoçar em casa.
Descobri o restaurante num desses sábados em que com a minha mulher fui a um shopping fazer compras. Depois das compras seguimos para a praça da alimentação, para tomarmos umas duas cervejas. Entramos ali sem saber que o restaurante era chinês. Só o descobrimos quando a chinesinha nos veio atender e também verificarmos a decoração. E não sei por quê (talvez o exótico do local), com uma chinesa de garçonete), achei agradável o ambiente, e sempre que ia ao shopping, aparecia lá para tomar a minha cerveja.
Os ocidentais acham que as pessoas da raça oriental são todas parecidas no físico. Talvez eles achem o mesmo de nós. Bom, o certo é que teve um dia que eu achei que Jini, a chinesinha, era como estar vendo a bela atriz Gong Li. Só que bem mais nova. E um dia falei a ela da semelhança entre as duas. Jini me olhou admirada e não disse nada. Suspeitei que ela não soubesse quem diabo era Gong Li.
Uma vez fui atendido pela sua compatriota. Era também bonitinha, me disse o seu nome, mas não o guardei. Soube que Jini estava adoentada. Doença grave, perguntei. A moça não disse nem sim, nem não. Era atenciosa e mais comunicativa do que Jini. Como a cerveja não estivesse muito gelada, trouxe, sem eu pedir, um balde com cubos de gelo, onde pousou a garrafa. Fiquei por ali, vendo pela milésima vez o quadro, enquanto os primeiros clientes chegavam para almoçar. Dessa vez me deu vontade de comer um pastel.
Voltei alguns dias depois e, de novo, não encontrei Jini. Perguntei à colega se ela tinha melhorado. E, coisa estranha, de novo ela ficou muda. Nem um sim, nem um não. Coisa mais estranha!
Não resisti a perguntar por Jini, na vez seguinte.E o mesmo silêncio da garçonete, mas com uma diferença: além do silêncio, ela esboçou um sorriso, cujo significado não consegui decifrar. A partir daquele dia, desisti de indagar pela chinesinha. Houve uma ocasião, depois de beber três cervejas (habitualmente não passo de duas),, em que senti o impulso de perguntar ao proprietário o que fora feito de Jini. Mas nem cheguei a me levantar. Deixa pra lá, disse pra mim. E embore continue frequentando o local, apreciando a cerveja bem gelada (quando não está a meu gosto, a garconete providencia o balde com gelo), gostando do ambiente, confesso que sinto falta da sósia de Gong Li. Onde ela estará? O que terá sido feito dela?
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Por motivo de viagem do editor, esta página só voltará a ser atualizada no final da próxima semana. Até lá.

sábado, janeiro 27, 2007

AS INVASÕES BÁRBARAS (Les Invasions Barbares/2003)

Este texto sai aqui pela primeira vez, acrescido de pequenas alterações de quando foi publicado no Balaio Porreta (http://www.balaioporreta1986.blogspot.com/), de Moacy Cirne, em março de 2004, quando eu ainda ainda não possuía este blogue.
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É, especialmente, da amizade, um dos valores mais caros na filmografia de Ford (mas num outro contexto), que trata este filme do diretor canadense Denys Arcand; a amizade entre cinco pessoas (três homens e duas mulheres) que resiste ao tempo e à separação ditada pelas circunstâncias da vida. Após muitos anos eles voltam a se reunir, em razão da extrema gravidade da doença de um deles, e percebe-se que não transparece nenhuma arranhadura no relacionamento entre eles, nem mesmo entre o enfermo Remy (Remy Girard) e as duas amigas que, eventualmente, foram suas amantes. Por uns poucos dias os cinco amigos parecem voltar ao tempo de jovens, revisitando o passado, e o fazem utilizando um humor irreverente que confina com o cinismo e o deboche. É uma atitude consciente, tacitamente deliberada como uma fuga à situação do doente.
Há que considerar ainda a amizade, em outro nível, que se inicia entre Remy e a jovem viciada em heroína Nathalie (Marie-Josée Croze), contratada por Sébastien (Stephane Rousseau), filho de Remy para adquirir a droga e também aplicá-la no enfermo, aliviando-o das dores sobre as quais os remédios já não conseguem atuar. Em outro nível, porque, primeiro, é um relacionamento que já nasce condenado à efemeridade. depois, porque envolve duas pessoas separadas por uma enorme diferença de idades, as quais, por fim, estão vivendo situações-limite, mas também diferentes. Ou seja, Remy está se despedindo da vida e, por apegar-se a esta, não se conforma com o fato (embora, como Nathalie o faz ver, não é a sua vida presente que ele não quer perder, mas a sua vida passada); já Nathalie conduz a sua vida como uma forma de buscar a morte, praticando um suicídio lento e doloroso. Mas a atitude dela pode ser também uma inadaptação à vida atual (observe-se como ela ouve com muita atenção Remy, já na casa de um dos amigos, recordar um momento do passado, e o seu ato de jogar no fogo o inseparável celular de Sébastien).
Nessa breve convivência dos dois, Nathalie chega a se tornar confidente de Remy; é a ela, e não aos seus amigos de longa data, que ele faz um desabafo sereno sobre o que sente de irrealizado em sua carreira de professor, por culpa própria e de seus superiores. E, no final, Nathalie se transforma no anjo da morte de Remy, ao lhe aplicar a overdose fatal.
Interessante observar que Nathalie vai ocupar o apartamento de Remy, depois que este morre, local reservado para o encontro dele com as amantes. Ao chegar ali, acompanhada por Sébastien, este lhe faz um assédio, que, a custo, ela repele. Ao terminar o filme, com a imagem de Sébastien e a noiva no avião, seguida da bonita canção, ocorre-nos a pergunta: será que ele e Nathalie se tornarão amantes, e Nathalie, assim, através de Sébastien, repetirá a relação da mãe com Remy?
Com "As Invasões Bárbaras", Denys Arcand fez, talvez o seu melhor filme até aqui, sem que se deixe de apontar a importância de "O Declínio do Império Americano" e "Jesus de Montreal". Dele conhecendo apenas esses três filmes, creio, no entanto, poder incluí-lo entre os diretores mais destacados do cinema de hoje. Que não são muitos, como num passado não muito distante.

terça-feira, janeiro 23, 2007

LYGIA E A ANDORINHA, CLARICE E A CARTOMANTE

Lygia Fagundes Telles despertou, de repente, sentindo uma presença estranha no quarto. Estava em Marília (SP), para um Curso de Literatura na Universidade daquela cidade. Ainda estava escuro, acendeu a luz e viu uma andorinha. Coisa mais estranha a avezinha ali, como entrara ali, se a janela estava fechada. Abriu a janela e tentou enxotá-la, mas a andorinha não queria sairi. Primeiro pousou no lustre, onde demorou algum tempo, em seguida na trave dos pés da cama. Lygia ficou observando-a , suave lhe disse que ela estava livre, podia deixar o quarto, mas a avezinha parecia querer ficar em sua companhia. Até que , depois de um certo tempo, voou em direção a janela e se foi. O dia já estava nascendo e Lygia verificou que não dispunha de muito tempo para chegar à Universidade. Quando lá chegou, uma jovem estudante veio ao seu encontro e lhe disse que acabara de ouvir no rádio que Clarice Lispector falecera na noite passada. Lygia ficou um momento sem fala, depois abraçou a moça e disse eu já sabia, eu já sabia.
Na verdade, o que ela sabia era que a grande amiga de muitos anos estava muito mal, numa informação, por telefone, que lhe dera o crítico Leo Gilson Ribeiro, na véspera de viajar para Marília. Depois do o telefonema, começou a recordar a viagem que fizeram à Colômbia para particparem de um Encontro de Escritores. Recordou um problema durante o vôo, quando, de repente, o avião começou a se desgovernar. Apavorada, Lygia tentou disfarçar (ou distrair) o medo, escondendo o rosto num jornal. Mas o medo não deixou de ser percebido por Clarice, que parecia tranquila, pois riu quando buscou o braço da amiga e apertou-o. E lhe falou: "Fique tranquila porque a minha cartomante já avisou, não vou morrer em nenhum desastre". Ao ouvir o argumento de Clarice, Lygia não pôde conter o riso. "A cartomante, Clarice?" Clarice não disse mais nada e logo em seguida, como num passe de mágica, o vôo voltou ao normal e a viagem transcorreu tranquila até chegarem ao destino.
Lygia relata esses dois fatos no seu livro de crônicas Durante Aquele Estranho Chá (Editora Rocco/2002). título de um texto em que narra o único encontro que teve com Mário de Andrade, ela no frescor e na beleza dos 21 anos e ele já pertinho de morrer. Ainda sobre Clarice, transcreve uma entrevista concedida à amiga para um jornal carioca.
DUAS OU TRÊS COISAS SOBRE "HIROSHIMA, MEU AMOR"
O que mais se destaca em "Hiroshima, Meu Amor", que revi há poucos dias em DVD, é a união perfeita entre o cinema e a literatura. E é por achá-lo muito literário que alguns críticos não gostam dessa obra-prima que Alain Resnais realizou em 1959. Mas se é "literário", "Hiroshima" é também cinema e cinema de alto nível. Inovador. A narrativa mistura presente e passado, às vezes num pisca-pisca na memória da francesa (Emmanuelle Riva), artifício que foi muito utilizado depois de "Hiroshima". (Continua sendo utilizado.) Resnais acertou em cheio quando convidou a escritora Marguerite Duras para escrever o roteiro. As falas são de grande qualidade, que só podiam ser escritas por alguém do talento de Duras. De uma grande beleza, até de uma beleza musical, que encontraram em Emmanuelle uma intérprete ideal para dizê-las. Há musicalidade na voz da atriz, como bem observou o crítico Luís Carlos Merten, em depoimento sobre o filme contido nos "Extras" do disco.
É uma bela e trista história de amor. Mas é também um libelo contra a guerra. Impressionante a cena que abre o filme, Os amantes no ato do amor aparecem como se fossem corpos atingidos pela bomba atirada sobre Hiroshima. Só depois é que os corpos são vistos em condição normal e aí "Hiroshima", no diálogo entre a mulher francesa e o homem japones (Eiji Okada), assume uma forma de documentário, para depois entrar a história de amor entre a jovem francesa e um soldado alemão, durante a ocupação nazista na França. Quero chamar a atenção para o que , a meu ver, é a melhor fala do filme. Num restaurante, os amantes estão numa mesa e alguém põe uma antiga música num toca-discos. Ao ouvir os primeiros acordes, a mulher, quase gritando, num comovente desabafo diz: "Ah, eu fui jovem um dia".
Nestas leves impressões sobre um filme que já foi tão dissecado, analisado, elogiado e atacado, por pessoas bem mais autorizadas do que este beradeiro de Canindé, concluo dizendo que gostei ainda mais de "Hiroshima" nessa revisão. Na minha opinião, o melhor Resnais, embora haja os que prefiram "Ano Passado em Marienbad". Enfim, cada um tem os seus gostos, as suas preferências.

sábado, janeiro 20, 2007

PERDAS E DANOS (DAMAGE/1992)

Esta semana revi Perdas e Danos, de Louis Malle, em DVD. A minha impressão sobre o filme manteve-se inalterada, desde que o vi em vídeo há mais de 10 anos. Em vista disso, divilgo aqui o comentário escrito sobre ele num jornal local, naquela ocasião. Ei-lo, com pequeninas alterações.
Não é difícil, para quem acompanha a carreira de Louis Malle, descobrir o que o atraiu no livro de Josephine Hart. A paixão de um homem de meia-idade (Jeremy Irons), ministro do governo inglês, pela noiva do filho, é uma verdadeira caixa de marimbondos em que ele já mostrou, ao longo de sua filmografia, gostar de mexer. Malle sempre revelou uma queda para o ousado, o polêmico, o chocante, desde Os Amantes , quando, no distante ano de 1958, mostrou uma variante do ato sexual, salvo engano pela primeira vez no cinema, que escandalizou o puritanismo da época.
Em Perdas e Danos , subjacente ao tema da paixão entre sogro e nora, há o do incesto, velho conhecido do cineasta, que o abordou em Sopro do Coração (1970), daquela vez entre a mãe e o filho adolescente. Agora a relação é entre Anna Barton e o irmão, de que o espectador toma conhecimento pelo relato que ela faz a Stephen, o sogro. A propósito de Anna Barton, ela me parece o personagem mais interessante do filme. Trata-se de uma mulher, que, contra a sua vontade, leva à destruição ou à morte os homens que se sentem atraídos por ela. Uma espécie de viúva-negra, o que no filme é reforçado pela sua preferência pela cor preta no uso do vestuário. Ninguém mais ideal do que ela para representar o incognoscível na natureza humana, com a aparência frágil, o jeito calmo e sereno e o rosto triste e cândido. E nenhuma outra atriz poderia representar esse personagem como Juliette Binoche.
Mas no personagem de Stephen, também nele, existe um lado secreto, ocultado por trás da aparência externa. Coabitando com aquele homem frio, seco, formal, há um outro que se revela quando ele não consegue resistir a paixão pela nora. É preciso que o filho morra (o filho que reclama uma vez do temperamento do pai), para que ele libere esse lado escuro de sua personalidade (a cena em que Stephen, despido, desce as escadas ao encontro do filho morto, possui uma clara conotação simbólica).
Eu não gostaria de num filme que oferece tantas coisas boas ao espectador, a começar pelo elenco (embora me pareça equivocada a escolha de Miranda Richardson , apenas por sem jovem demais para fazer a mãe de Martyn/Rupert Graves), precisar apontar alguns defeitos, mas, infelizmente, não me resta outra alternativa. É pena que o roteiro tivesse que recorrer a certas "facilidades", com o endosso da direção, para aliciar o espectador menos exigente, fazendo com que se torne previsível a ação de personagens. Como exemplos: a ênfase com que a câmera focaliza o rosto perscrutador da filha adolescente de Stephen, e o close da chave esquecida no lado de fora da porta do apartamento de Anna, quando Stephen vai ao encontro dela e , em seguida, Martyn. No primeiro caso, o espectador é levado à expectativa de que será a garota a primeira pessoa a desconfiar daquela relação secreta; no segundo, de que Martyn chegará ao apartamento da noiva. São defeitos que, se não chegam a prejudicar o filme, retiram-lhe um pouco da força criativa.

quarta-feira, janeiro 17, 2007

CINECLUBE TIROL


Quando cheguei a Natal em 30 de julho de 1965, o Cineclube Tirol tinha quatro anos de existência. Funcionava no salão paroquial da igreja Santa Teresinha, na Av. Rodrigues Alves, a uns 6 quarteirões do centro. Sabendo por um conterrâneo de que havia um cineclube na cidade, me interessei logo em ingressar nos seus quadros. O aspirante a sócio, ao chegar à sua sede, tinha que preencher um questionário composto de umas 7 perguntas. Ou eram 5? Por aí. Era apenas uma formalidade. Das respostas dadas não dependia o seu ingresso no Cineclube Tirol.
O Cineclube Tirol mantinha, desde 1963, uma sessão de cinema semanal numa das salas exibidoras de Natal. Na minha chegada, a sessão era no Rex, aos sábados pela manhã. Pouco depois foi transferida para o Nordeste, aos domingos. Sempre pela manhã, às nove e meia. As reuniões na entidade dependiam da exibição dessa sessão. Enquanto esta foi no sábado, as reuniões se davam aos domingos pela manhã; quando a sessão passou , em definitivo, para os domingos, as reuniões aconteciam no sábado, à noite.
Nas reuniões debatia-se um filme em exibição na cidade. Talvez mais de um, caso houvesse dois filmes em destaque naquela semana. Cada um dos presentes falava das suas impressões sobre o filme. Quase todos diziam alguma coisa. Uns falavam mais, outros menos, e só um ou outro ficava calado (geralmente os neófitos na entidade, que, por timidez, se limitavam a ouvir os mais experientes soltarem o verbo). Havia poucas divergências entre os cineclubistas, sobretudo se o filme era de grande qualidade, realizado por um cineasta maior. Algumas particularidades sobre determinadas situações - era só. Até onde posso confiar na memória, só me lembro de uma séria divergência entre dois cineclubistas sobre um filme italiano, que se estendeu depois da reunião, quando caminhávamos para o centro. Parece que era A Moça com a Valise, de Valerio Zurlini, com Claudia Cardinale. Mais ou menos na mesma época ocorreu um debate em que eu (pobre de mim) fiquei sozinho contra todos os presentes. Nem uma alma caridosa para ficar do meu lado. Todos tinham gostado do filme. Aí me lembro bem do filme: Lilith, de Robert Rossen, com Warren Beatty e Jean Seberg. (Na década de 1990 revi Lilith e não é que gostei? Embora não o tenha achado excepcional. Eu é que estava errado naquela ocasião.)
Os filmes vinham de Recife. Nos meses de janeiro e fevereiro não havia sessão de cinema, por causa da debandada da maioria dos natalenses para as praias. Mas as reuniões continuavam, salvo engano. E aproveitávamos para escolher os filmes que seriam exibidos a partir de março, até junho (em julho também paravam as sessões). Escolhidos os filmes, um dos cineclubistas, nomeado programador, ia a Recife contratá-los. Alguns não conseguíamos e tinham que ser substituídos por outros. Eram filmes já exibidos na cidade em anos anteriores. Mas, às vezes, tínhamos sorte de contratar um inédito em Natal. Um desses casos foi A Grande Ilusão (Renoir), que vi no Rex poucos dias depois de aqui chegar. As sessões levavam muita gente, principalmente quando passaram para os domingos. Ao sair, o espectador já sabia qual seria o filme do próximo domingo. O cartaz ficava exposto ao lado da bombonière. Depois do filme, corríamos para um bar, para falar dele e de outros assuntos.
Em 1968 eu cheguei à presidência. Numa reunião com os companheiros eleitos e demais sócios presentes foi apresentado e aprovado o projeto de criarmos uma sessão noturna às quintas e sextas. Levamos a proposta à gerência do Cine Poti, que topou o negócio. O filme exibido não era o mesmo da sessão de domingo. Isso começou em julho, com Tempo de Guerra (Godard). Entre muitos outros filmes exibidos, me lembro de A Faca na Água. de Polanski, realizado quando este ainda estava na Polônia. O público soube corresponder à nossa arrojada iniciativa, tornando as duas sessões tão concorridas quanto as de domingo. Apesar disso, elas só duraram até o final daquele ano. O cinema não se interessou em continuá-las no ano seguinte.
Em 1969 o Cineclube deixou o salão paroquial e foi se instalar numa sala do SESC, no centro. E já começara o afastamento de alguns companheiros. Moacy arribara para o Rio em 1967, outros, como Bené, deixaram de comparecer às reuniões. Gilberto Stabili, que era o presidente quando ingressei na entidade, ficou, parece, até 1970, depois se mudou para Recife e de lá para São Paulo, onde ainda vive. Em 71 chegou a minha vez. De toda aquela turma boa (com algumas exceções, naturais em todo grupo), permaneceu apenas Paulo Rocha, chamado carinhosamente de Paulocha, um dos fundadores e eterno tesoureiro.
E hoje o Cineclube Tirol "é apenas uma fotografia na parede. Mas como dói"!

domingo, janeiro 14, 2007

A POESIA DE NAPOLEÃO DE PAIVA SOUSA

Apresento a vocês a poesia do norte-rio-grandense de Alexandria, Napoleão de Paiva Sousa. Médico de profissão, Napoleão (meu vizinho)´, além de poeta, é compositor. Os poemas, aqui publicados, fazem parte do livro Depois Comigo, lançado em novembro passado. Todos os poemas que compõem o livro foram digitados em aparelho celular, com um limite de 160 toques caracteres e depois passados para o papel. Por causa dessa limite, eles não têm título e, em algumas palavras, falta uma letra (como na preposição "de", onde é suprimido o "e") , e, às vezes, a supressão é na pontuação. Antes desse livro, Napoleão publicou outro de poesia, Apenas Chegaram, de 1999. Vamos aos poemas.
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Gosto da água
de mar profundo
dos seus olhos
tocando em
mim/Gosto da
linha de
horizonte do seu
sorriso tímido
tão tímido -
como se
pedindo para
fugir nos azuis.
Para Poliana
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Quem vê esses
olhos assim tão
serenos/ Não
imagina quantos
quartos em festa
tem o seu
coração/
Noites & dias
aventurei-me
pela chave
de um deles/
Luz vermelha.
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Chegou linda
deslumbrante
tirânica quase,
inibindo o mais
ousado
sedutor. Ação (é
como se um
diretor, ali, gritasse)
As mulheres de olho:
Qto tempo durará
essa beleza?
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O teu púbis
dourado ao
alcance do olho
da mão da
boca, brinquedo
pronto a
incendiar-se
umedecer-se de
suores, líquidos,
saliva; onde
o meu grito
banha-se, em
fogo.

quarta-feira, janeiro 10, 2007

UM TIPO DE DOENÇA


Quem viu Cinema Paradiso e não esqueceu esse filme encantadoramente nostálgico deve se lembrar de uma expressão dita por um vizinha da mãe do garoto Totó. A mãe, enfurecida depois de ver a filha menor escapar por um triz de ser queimada pelo fogo que atinge sobras de fitas pertencentes ao irmão, que ela pegara para brincar, parte para surrar o filho. É nesse momento que a vizinha solta a expressão "doença do cinema", para recriminar esse veículo que arrasta para o escurinho daquela sala os habitantes da pequena cidade.
"Doença do cinema"? Existe, sim. Ataca milhões de pessoas no mundo inteiro e, o pior, é incurável. E é interessante observar que esses milhões de "enfermos" estão divididos em duas categorias (os que vêem o cinema como um entretenimento - a maioria - e os que o consideram um produto artístico) e embora sejam diferentes, e até antagônicas, as razões que os fazem sucumbir a essa paixão insuperável, aquelas se igualam exatamente por causa do culto a esta. Ou seja, tanto o intelectual quanto o homem comum são atraídos pela magia do cinema.
Anos-luz mais novo do que o teatro, o cinema roubou deste o lugar na preferência das massas, ao mesmo tempo que se tornou um veículo para a outra espécie de espectadores - aqueles dotados de visão crítica.
O espectador comum é ligado especialmente aos atores e atrizes, enquanto o espectador crítico o é ao diretor, embora não deixem de ser admiradores dos intérpretes. Raríssimos diretores conseguem chamar a atenção do cinéfilo comum, mas não pelo mesmo interesse que despertam no estudioso de cinema. Um Chaplin (por causa do personagem Carlitos), um Ford (por causa dos westerns, principalmente os estrelados por John Wayne), um Hitchcock (por causa do suspense que envolme a trama). Talvez um Tati (por causa do personagem Hulot). Quem mais? Dos vivos, talvez Almodóvar. É claro que me refiro aos grandes cineastas.
Com pouco mais de um século de existência, o cinema segue vivo e ainda firme, embora haha perdido muito do seu vigor criativo (sobretudo o americano, hoje, com algumas exceções, subjugado pela violência, o erotismo e os efeitos especiais), devido ao desaparecimento ou à aposentadoria de grandes mestres, responsáveis por o cinema ter adquirido status artístico.
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AMANHÃ, dia 11, esta casota (como gostam de dizer minhas amigas portuguesas) completará 2 anos de "construção". Não posso deixar de agradecer aos que a têm visitado (especialmente aos mais assíduos), por entender que são eles o responsável principal por este blogue ter chegado até aqui. Um grande abraço a todos.

domingo, janeiro 07, 2007

MANOEL VALE


Uma noite de sábado na sede do Cineclube Tirol um estranho se apresentou a mim se dizendo cunhado de um colega meu de trabalho. Apresentei-o aos demais cineclubistas, depois entreguei-lhe um documento para ser preenchido. Era um questionário ao qual devia responder toda pessoa que queria ingressar no Cineclube Tirol. Durante a reunião, em que sempre comentávamos um filme de destaque em exibição na cidade, ele não ficou calado, dando um ou outro pitaco, demonstando não se intimidar diante dos seus futuros companheiros, mais velhos e experientes. E foi assim que conheci Manoel Vale. Uns dois anos depois, ele tornou-se também meu colega de profissão. Não ficou em Natal, indo trabalhar na longínqua Macapá. Lá permaneceu algum tempo e voltou para Natal, mais por problemas de saúde (com pouco mais de vinte anos começou a ter problemas no coração), já que gostara muito de Macapá, sempre relembrando a sua passagem naquela cidade.
Manoel Vale era um personagem. Nascera com um problema visual, que o tornava feio. Baixo, de magro quando o conheci, ficou um tanto gordo, resultado de muita cerveja e muita comida gordurosa. E ainda fumava. Fazia tudo o que não era recomendável para a sua enfermidade. Não sei se era apenas uma opção de vida (vou aproveitar a vida, enquanto posso), ou se procurava a morte. Talvez uma coisa e outra. Não dava a mínima para a saúde. E tinha um cunhado cardiologista, o mesmo que fora meu colega, que deixou o banco para se dedicar à medicina.
Carregava uma mochila no ombro, contendo livros e, principalmente, elepês. Gostava muito de MPB. Quando recebia o salário, percorria as lojas de discos e comprava uma grande quantidade deles. O dinheiro ia embora em pouco tempo, por causa também das suas visitas ao cabaré de Maria Boa e aos bares, e ele, então, vendia os discos adquiridos, só conservando os dos compositores e cantores que mais amava. Um amigo comum, que o acompanhava a Maria Boa, contava que Manoel oferecia livros às raparigas e chegava a recitar para algumas delas os seus poemas. Aliás, ele sempre andava com poemas dentro da mochila, mostrando às pessoas. Não eram de boa feitura. Inteligente, sensível, Manoel, no entanto, tinha pouco talento poético. Sua preferência era pela poesia política (Neruda era um dos seus poetas preferidos) e sabe-se que esse tipo de poesia, tanto quanto a de cunho social, exige de quem a faz um equilíbrio e um controle emocionais que não deixem a poesia virar um panfleto. E Manoel era um passional. Mas chegou a publicar os seus poemas. Um livro magrinho, cujo título parece ser "Viver a Vida". Não tenho bem certeza. Entre inumeráveis amigos e conhecidos a quem dedicou o livro, sou um deles. Ainda o conservo. Só que não sei onde achá-lo, escondido no meio de tantos e tantos livros volumosos.
Naqueles anos sofríamos os horrores de uma ditadura. Manoel era um apaixonado contestador do regime vigente, seja através da maioria dos seus poemas, seja nas conversas. Expunha-se muito e talvez não tenha sentido os efeitos de sua contestação pelo fato de não ser levado muito a sério em tudo o que fazia. Não só no banco, mas fora dele, havia pessoas que riam do comportamento de Manoel, do seu hábito quase diário de mostrar um poema escrito na véspera, até a pessoas que não manjavam um mínimo de poesia, da sua maneira de vestir (como já se aposentara por invalidez, não precisava usar o vestuário exigido para trabalhar) e até do seu defeito visual. Ele não percebia a maldade dessas pessoas, ou, se percebia, não ligava a mínima. Um comentário maldoso e falso sobre Manoel era que tinha uma enorme frustração: não ter sido preso. Via amigos e conhecidos sofrendo nas prisões e ele livre. E pelo banco circulava uma anedota sobre o suposto desejo dele de seguir o infortúnio dos amigos. Contava-se que Manoel, já em desespero, resolveu um dia passar pela calçada de um quartel no centro da cidade (onde onde funciona o Memorial Luís da Câmara Cascudo). Ao passar em frente a um soldado, segurando um fuzil, Manoel disse bem alto, para ser ouvido também por outros milicos que estivessem por perto: "Viva o Comunismo"! Disse e parou, esperando a reação do soldado. Como este se manteve mudo, ele repetiu, com o mesmo tom de voz: "Viva o Comunismo"! E continuou parado, olhando desafiador para o homem. Foi então que o guarda olhou para um lado, olhou para o outro e disse "Viva"! Baixinho. A anedota era contada em meio a risadas.
1984 era um recém-nascido quando cheguei ao banco para mais um dia de trabalho. E logo soube que o coração de Manoel Vale tinha parado na noite anterior, enquanto ele dormia. Fazia pouco mais de um mês que completara trinta e três anos.

terça-feira, janeiro 02, 2007

BREVES CONSIDERAÇÕES SOBRE ANGÚSTIA


Em 2006, "Angústia", de Graciliano Ramos, inteirou 70 anos. A poucos dias de encerrar o ano, li uma vez mais esse terceiro romance do escritor alagoano. Um grande livro, sem dúvida. É considerado por muitos leitores e críticos como o maior de Graciliano. Modestamente, discordo. Essa nova leitura fez com que reafirmasse a minha preferência por "São Bernardo" e, em segundo plano, "Vidas Secas". E conforta-me saber que um crítico da estatura de Antonio Candido não se inclui nessee grupo. Nem como uma obra-prima, AC o considera. Ele chega a dizer no primoroso ensaio sobre a obra de Graciliano, intitulado "Ficção e Confissão" (inserido na edição de "São Bernardo" da Livraria Martins Editora/1972) que "há nele partes gordurosas e corruptíveis [o grifo é meu], ausentes em "São Bernardo e "Vidas Secas". Mestre Candido, no entanto, não especifica essas "partes gordurosas e corruptíveis". Arrisco-me à hipótese da presença de algumas situações, como, por exemplo, o momento em que Luís da Silva esbarra na rua em uma mulher grávida, incidente que ocorre poucas páginas antes de ele descobrir a gravidez de Marina; ou quando Luís da Silva está no quarto com a jovem prostituta e, ao meter a mão no bolso, dá com a caixa onde estão a aliança e o relógio destinados a Marina. Mas as restrições do crítico não indicam que ele não veja grandes qualidades em "Angústia". Nada disso. Além de considerar Luís da Silva como o personagem mais dramático da moderna literatura brasileira, escreve, a certa altura: "Defeituoso no conjunto ["Angústia"] , contém trechos que só podem ser qualificados de admiráveis".
Luís da Silva - um personagem que fica para sempre na lembrança do leitor. E que merece uma análise de um estudioso da Psicanálise. Antonio Candido observa que ele se sente um homem sujo, com a consequente obsessão pela água, tanto que , para o crítico, o banheiro do quintal de sua casa representa um papel importante no livro. Eu acrescentaria que essa conciência de sujeira física não se relaciona apenas à sua pessoa. Luís da Silva sente nojo também dos outros. Num certo momento, ele confessa ter "horror às apresentações, aos cumprimentos, em que é necessário apertar a mão que não sei onde andou, a mão que meteu os dedos no nariz, ou mexeu nas coxas de qualquer Marina". Mais até pelo fato de lhe ter roubado Marino, a sua aversão por Julião Tavares o é pela figura deste. O seu ódio pelo rival torna-se uma coisa obsessiva. E, em consequência, a corda é um objeto que gruda no seu pensamento. Tão intensa essa obsessão que a corda pode ter a sua forma assumida pelo jornal que Julião deixa enrolado na mesa do bar, pela gravata deste, pelo cano dágua que passa pelo seu quarto. Seus ouvidos são continuamente perturbados por ruídos de diversas espécies. E quando comete o crime, instala-se nele a paranóia. Na sua mente enferma, o homem que enche dornas e a mulher que lava garrafas, duas figuras humildes que ele vê diariamente, podem estar ali para espioná-lo. O mendigo que bate à sua porta pode ser um policial disfarçado.
As últimas páginas, em que, febril, Luís da Silva é tomado pelo delírio, é um trecho admirável, certamente entre os que Antonio Candido elegeria em "Angústia" .

quarta-feira, dezembro 27, 2006

UM CERTO PARTE, UMAS CERTAS PALAVRAS

Foi há quase 50 anos, mas, vez por outra, me vem à lembrança a figura daquele padre. E de tão entranhada a lembrança, nos meus ouvidos sinto como se ainda ressoassem as suas palavras. Eu devia estar com 15/16 anos, estudava em Fortaleza e hóspede de uma pensão no centro da cidade. Acho que vi aquele padre 5, 6 vezes, talvez nem isso. E sempre pelas imediações dos Correios e do Banco do Brasil, o que me faz supor que morasse ali por perto. Gordo, estatura de mediana para alta, usava óculos e talvez chapéu. Uns 60 e poucos anos. E sempre que nos encontrávamos, ele esboçava um certo sorriso, que não era um sorriso de amabilidade. De ironia? Podia ser. Mas hoje tenho pra mim que era o sorriso de alguém que não tinha o juízo perfeito. Àquele padre faltava, não um, mas alguns parafusos . As palavras que me disse na última vez em que nos vimos reforça essa convicção. Me incomodava aquele sorriso, tanto quanto me causava repulsa aquela figura. E quase toda vez que andava por aqueles lados, lá aparecia o diabo do padre - o sorriso inseparável ao passar por mim.
Eu estava um dia no saguão do Banco do Brasil. Creio que tinha ido receber uma ordem de pagamento enviada por um irmão. Me recostara à parede, se bem me lembro, de frente para os caixas. De repente me viro para a entrada do prédio e vejo o padre olhando na minha direção. Cadê o sorriso? Ali grudado nos lábios, como sempre. Não viera resolver negócio coisa nenhuma. Certamente me vira entrar e , supondo que iria me demorar, não quisera perder a oportunidade de me aporrinhar a paciência, como das vezes anteriores. Daquela vez, no entanto, tinha algo a me dizer. Veio ao meu encontro e, ao chegar perto de mim, disparou estas palavras: "Você não vai viver muito". Falou baixinho, para não ser ouvido por alguém próximo a mim. E virou-se e foi embora. Pode ser que, antes de sair, tenha se voltado e esboçado aquele incômodo sorriso. Pode ser. Só que não me lembro. Me lembro, sim, que, de tão aturdido por suas palavras, me faltaram as minhas para lhe perguntar em que se baseava a sua "profecia". "Por que o senhor está dizendo isso"? Era o que devia ter perguntado àquele padre maluco, mas não: fiquei mudo. E o pior. Por muito tempo aquelas palavras não me saíram dos ouvidos. "Você não vai viver muito". E, então, deixei de andar por aquela área. Não queria mais encontrar aquele traste. E nunca mais o vi. Ainda tenho dúvida, no entanto, se se o visse, teria coragem de perguntar por que ele me dissera aquilo.
Como afirmei, esse fato ocorreu há quase 50 anos. Durante algum tempo me preocupei com as palavras do padreco. Depois, à medida que os anos passavam e eu não batia a caçoleta, deixei de me preocupar. Mas aqui-acola "vejo" aquele velho maluco de batina e "ouço" as suas palavras. Abrenúncio!

sábado, dezembro 23, 2006

OS DEZ MELHORES VISTOS E REVISTOS DE 2006


Antes de divulgar as listas dos 10 melhores filmes por mim vistos e revistos no ano que está se findando, nas quais, como todas as listas, estão presentes vários fatores individuais e subjetivos, acho necessário dar estas explicações. 1) As listas são EM ORDEM ALFABÉTICA. 2) Ao contrário de outros cinéfilos/críticos, resolvi relacionar apenas 1o títulos (tal como ocorria nas litas feitas nos anos 1960) . 3) Apesar de feito para a TV, decidi incluir Saraband , tendo em vista a sua qualidade, revelando um Bergman em grande forma do alto dos seus 85 anos à epoca da realização do filme. Agora as listas, sujeitas a chuvas e trovoadas (risos).
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FILMES VISTOS (no cinema e em DVD)
- Boa Noite e Boa Sorte (George Clooney/2005)
- Capote (Bennett Miller/2005)
- Flores Partidas (Jim Jarmusch/2005)
- O Maior Amor do Mundo (Cacá Diegues/2006)
- Marcas da Violência (David Cronenberg/2005)
- O Novo Mundo (Terrence Malick/2005)
- Saraband (Ingmar Bergman/2003)
- O Segredo de Brakeback Mountain (Ang Lee/2005)
- A Vida é um Paraíso (Kay Polack/2005)
- Volver (Pedro Almodóvar/2006)
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FILMES REVISTOS (em DVD)
- Atlantic City (Louis Malle/1980)
- Caçada Humana (Arthur Penn/1966)
- Lua de Fel (Roman Polanski/1992)
- Meu Ódio Será Sua Herança (Sam Peckinpah/1969)
- Noites de Circo (Ingmar Bergman/1953)
- Paixão dos Fortes (John Forf/1946)
- Persona (Bergman/1966)
- Rio Vermelho (Howard Hawks/1948)
- Sob o Domínio do Mal (John Frankenheimer/1862)
- O Último Pistoleiro (Donald Siegel/1976, último filme de John Wayne)
AOS AMIGOS E AMIGAS VISITANTES DESTE BLOGUET^
Têm surgido, ultimamente, problemas na parte de comentários desta página. Pessoas que não conseguem fazer seus comentários, ou estes desaparecerem depois de feitos. Em contato com o rapaz que fez o blogue, ele me prometeu estudar uma modificação na forma deles, para evitar, na medida do possível, que tais fatos venham a ocorrer.

quarta-feira, dezembro 20, 2006

UM TEXTO DE HORÁCIO PAIVA

Pela segunda vez este blogue é abrilhantado por um texto em prosa do poeta Horácio Paiva. E, por coincidência, o assunto , também como o primeiro aqui publicado, trata de uma homenagem de Horácio a um amigo que se foi. Ei-lo.
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UM MÊS
Um mês sem a presença física de D. Nivaldo Monte entre nós e nesta Natal que amou. Um mês deste tempo que inventamos e que aprendemos a repartir e contar. Mas que, sem retorno, não o devolve. Porque o seu tempo - como, de resto, o nosso tempo - é o da eternidade.
Li certa vez que perguntaram a Galileu Galilei quantos anos ele tinha, ao que respondeu: "Cinco, dez, ou quinze anos. Talvez mais, ou talvez menos. Talvez alguns dias, ou somente um dia. Sim, porque o tempo passado já não me pertence e apenas posso contar com o futuro. Mas este eu não sei precisar".
Sobre esse tema, o tempo é o que dele nos cabe em vida, diz Marco Aurélio em suas "Meditações" (Livro II, 14):
"Ainda que os anos de tua vida sejam três mil ou dez vezes três mil, lembra-te que ninguém perde outra vida, senão a que vive agora, nem vive outra senão a que perde. O prazo mais longo e o mais breve são, portanto iguais. O presente é de todos: morrer é perder o presente, que é um tempo brevíssimo. Ninguém perde o passado nem o futuro, pois a ninguém podem tirar o que não tem".
A matéria do presente seria, então, o próprio tempo. E administraria melhor o seu tempo existencial aqueles que tivessem o seu olhar mais amplo, universal, holístico, de conjunto o visionário.
Tenho que, na arte de viver, expressem sabedoria aqueles que sabem distinguir o principal e o secundário, mantendo a serenidade e a tranquilidade de espírito (mesmo diante das adversidades, comuns na vida de todos) e estando, dessa forma, maus próximos também da felicidade.
A esse própósito, D. Nivaldo Monte não foi apenas um sacerdote, mas um sábio, um visionário, alguém que soube aliar o espírito contemplativo à ação.
Sêneca, um dos mais expressivos pensadores do estoicismo romano - filosofia, aliás, tão presente em nossa religião cristã - recomendava alternar o recolhimento e a vida social: Misturemos as duas coisas: alternemos a solidão e o mundo" (in "Da Tranquilidade da Alma" - XVII, 3) .
A meu ver, portanto, o belo perfil existencial de D. Nivaldo continha esses dois lados: o contemplativo e o ativo.
Nesse último sentido, é inegável a sua profunda contribuição ao desenvolvimento educativo, cultural, político e social de nossa gente.
Entregue ao pensamento, à literatura e às reflexões, não se pode negar, também que foi um vigoroso homem de ação. Aliado ao seu grande amigo e também figura de proeminência da Igreja, D. Eugênio de Araújo Sales, é autor de inúmeros feitos exemplares, essenciais ao progresso e ao crescimento moral e espiritual de nosso povo. Crior, por exemplo, a Rádio Rural (Emissora de Educação Rural), utilizando-a como importante e pioneiro instrumento de alfabetização e educação em nosso Estado. Outra ação pioneira de sua lavra foi a instalação da Escola de Serviço Social (hoje integrada à Universidade Federal do Rio Grande do Norte), primeira entidade de ensino superior, na espécie, em Natal.
Nos anos de chumbo da ditadura, quando um grupo de humanistas e democratas (Padre Pio, Dermi Azevedo, Elias Cabral Maciel, Rivaldo Fernandes e eu) lutavam contra a opressão, e pela criação de um comitê de defesa de direitos humanos, encampou a idéia e deu-lhe forma até mais ampla, com a fundação da Comissão Pontifícia Justiça e Paz, da qual fui presidente, primeira entidade estadual (mas vinculada ao Vaticano, daí "Pontifícia" ) destinada à defesa dos direitos humanos. Movimento idealista e agregador, a ele somaram-se outros nomes, tornando-o ainda mais forte. Carlos Antônio Varela Barca, Padre Vilela (Pastoral Carcerária), Adilson Gurgel de Castro (primeiro presidente), Marcondes Assis da Silva (Pastoral da Juventude), Marlúcia Paiva, Francisco Gomes, Oswaldo e Roberto Monte e outros.
Era meu amigo e em várias ocasiões conversamos muito. Sobretudo filosofia, política, religião e poesia. Havia entre nós um elo de simpatia, a identificação espiritualo que tanto aproxima as pessoas. Mostrou-me manuscritos seus antes de torná-los livros. Certa vez falava-me sobre a coragem e definia o corajoso não como aquele despojado do medo, mas que o dominava. Tema, aliás, que aborda em seu livro "Toda Palavra é uma Semente": "O problema, o verdadeiro problema não é ter ou não ter medo, mas, quando necessário agir, deixar-se levar pelo temor".
Dediquei-lhe uma tradução que fiz do "Noche Oscura", do místico e grande poeta espanhol San Juan de la Cruz, para mim um dos momentos mais altos (senão o mais alto) da poesia em língua castelhana, que trata do encontro da alma com Deus e cuja primeira estrofe (transcrita no original) associo agora à sua própria partida, após concluída a sua obra, e estando em paz com Deus e com os homens.
"En una noche oscura
com ansias en amores inflamada,
oh dichosa ventura!,
sali sin ser notada,
estandu ya in mi casa sosegada".
Em memória do amigo, em maio às ilusões do mundo e do mistéria, revela-me a poesia, de observação e confiança cósmicas:
A realidade
é a opção
do provável.
O real
é Deus.

domingo, dezembro 17, 2006

VOLVER (2006)


O filme se inicia num cemitério, onde as irmãs Raimunda (Penelope Cruz) e Sole (Lola Dueñas) estão visitando o túmulo da mãe, acompanhadas da filha da primeira, Paula (Yolanda Cobo). Lá encontram a amiga Agustina (Blanca Portillo), que vai cuidar do próprio túmulo. Um costume cultivado naquela região da Espanha, conforme a mãe informa à filha, que estranha o fato. Com esse início e as mortes, não muito tempo depois, da velha tia das irmãs e do marido de Raimunda, Paco (Antonio de la Torre), assassinado por Paula, ao se defender de um assédio sexual dele, além da descoberta de Agustina de que está com câncer, fica patente que a morte é o elemento principal de "Volver". Mas a sua presença não inibe a intromissão do humor, já que se trata de Almodóvar, um diretor que se nos últimos anos dirigiu a atenção para o drama, não abdicou de todo do humor. Só que este já não aparece (ou aparece pouco) da forma muitas vezes grosseira e vulgar dos seus primeiros filmes. Até nesse particular é evidente a sua evolução.
"Volver" é também um filme feminino, a exemplo de "Tudo Sobre Minha Mãe". O relevo dado à mulher na história, dentre outras expressões, está a de valor quantitativo. Já a participação do homem, além de reduzida, é apresentada de forma desfavorável, como a de Paco, querendo seduzir Paula. Ou a do pai de Raimunda e Sole, cuja memória é maculada pela revelação de que teve uma relação incestuosa com Raimunda, como se não bastasse a traição frequente à esposa.
Apesar da força da narrativa, que prende a atenção, da direção de Almodóvar, que se faz sentir até na atuação das atrizes (todas muito bem) , "Volver" não chega ao nível de um grande filme, como "Fale com Ela", provavelmente o melhor dele. Acho que a causa está em certas situações do roteiro, que , apesar destas, é de boa qualidade, o que mostra, mais uma vez, o talento de Almodóvar também nesse setor. Um dos pontos altos do roteiro (talvez o mais alto) é o artifício usado por ele para pegar de surpresa o espectador a respeito da aparição de Irene (Carmen Maura, um tanto gorda, mas ainda bonita) , um personagem vital da trama.
Enfim, se "Volver" não chega a empolgar o espectador mais exigente, consegue fazer com que ele o veja com interesse, atenção e até um certo prazer. O que não é pouco tratando-se da maioria dos filmes atuais.
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10 ANOS SEM MARCELLO
No próximo dia 19 se completam 10 anos da morte de Marcello Mastroianni. Foi uma grande perda para a arte de representar, pois Marcello foi um dos grandes atores. O maior de todos, na opinião de Philippe Noiret, que trabalhou com ele em "A Comilança" e "Touchez Pas La Femme Blanche". Noiret, morto no mês passado, afirma isso num depoimento, que quase o leva às lágrimas. que integra o documentário sobre o colega ("Marcello, Uma Doce Vida", dirigido por Mario Canale e Antonello Branca) . Há outros depoimentos no filme, feitos pelas filhas Barbara e Chiara (que revelam que as coisas que o pai mais amava eram sapatos e telefonemas), Claudia Cardinale, Anouk Aimée e os diretores Ettore Scola e Giuseppe Tornatore. E sobre Scola, uma curiosidade. Quando dirigiu Marcello em "Ciúme à Italiana" (por cujo papel ele ganhou o prêmio de Melhor Ator no Festival de Cannes) , a mãe do ator reclamou ao diretor por este ter transformado o filho num homem "feio, sujo e malvado".
Marcello trabalhou com inúmeros cineastas do seu país, desde os do primeiro time (Antonioni, Visconti, Fellini, com este em vários filmes) , aos do segundo, como Germi, Monicelli, Scola. Fez 15o filmes! E vejam só. Com essa quantidade de filmes, ainda era considerado um preguiçoso . Grande, inesquecível ator.

quarta-feira, dezembro 13, 2006

UMA MULHER CHORANDO


Este conto foi aqui publicado em nov/2005. Resolvi relançá-lo para dar oportunidade aos que não visitavam este blogue, na época, de lê-lo. E também aos que se dispuserem a lê-lo outra vez de fazer uma atual avaliação dele.
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Três vezes perguntara por que ela estava tão calada. E ela sempre a responder que não era nada. Na terceira vez, quando perguntou se estava ressentida com algo que lhe fizera, Helena denotou, no tom ríspido da coz, um começo de irritação com a inquirição dele. Sentindo a reação dela, Ramiro achou prudente parar com aquelas perguntas. O certo seria buscar algum assunto, por mais trivial que fosse, para tirá-la daquele mutismo que o desconfortava. Como tinha sido o dia dela no trabalho? Bem, ela respondeu, lacônica. Afinal convencido de que não podia arrancar mais nenhuma palavra de Helena, ele resolveu também se calar.Assim mudos passaram o restante do jantar, um só abrindo a boca para pedir um prato que estivesse mais ao alcance do outro.
Ao deixarem a mesa, Helena foi escovar os dentes, enquanto ele foi ligar a televisão.Depois ela irá para junto dele. Era assim todas as noites, a té mesmo quando iriam sair. Mas naquela noite, quando voltou do banheiro, ela disse que tinha "um horror" de provas para corrigir e não podia perder tempo. "Mas não dá pra você ficar nem um pouco"? "Não dá. Eu tenho que devolver as provas amanhã". A atitude dela deixou-o ainda mais preocupado. Ela nunca procedera daquela maneira. Algum problema a estava perturbando, mas ela não queria revelá-lo. E enquanto as imagens do telejornal iam passando à sua frente, ele não se dava conta do que elas mostravam, nem ouvia direito as falas, pois o pensamento se concentrava na busca de um ato seu, um gesto, uma palavra áspera que a tivessem magoado. Vasculhou a mente, tentando rememorar fatos do dia, da noite anterior, até mesmo quando estavam na cama nos momentos de amor. Em vão. Nada. O melhor é esperar amanhã, talvez ela me diga o que está acontecendo. E continuou vendo, sem ver, o que se passava na televisão.
Ao entrar no quarto, Helena trancou a porta, mas não foi para o birô. Dirigiu-se para a janela. Mas, como o marido diante da tevê, ela não "via" a profusão de luzes iluminando aquela pequena parte da cidade. Meditava sobre a sua vida. A bem dizer, continuava uma meditação que começara já algum tempo. E a cada dia que passava, mais tomova consciência da falta de sentido em que a sua vida se transformou com a irrealização de sonhos por tantos anos acalentados, a morte das ilusões, a perda da esperança. E o pior: sem vislumbrar um aceno sequer de mudança. E o casamento? Todos os conhecidos, amigos, os familiares colocavam Ramiro num altar, ela tirara a sorte grande ao encontrar um homem de tantas qualidades: trabalhador, bem-educado, excelente profissional e, por cima, sempre apaixonado pela esposa. Sim, Ramiro podia ser tudo isso, mas havia algo nele que Helena não sabia discernir (e nem eram os pequenos defeitos que toda pessoa, mesmo as melhores, tem), que a fazia não se sentir a mulher tão invejada. Quem sabe se a culpa não seria dela? E das outras coisas era também culpada? Da profissão, que já não a satisfazia, da falta de estímulo para continuar lecionando? Do convívio com a maioria dos colegas e das amigas? Teria ela toda a culpa por não encontrar mais naquelas pessoas o que buscava para uma existência mais fácil de ser levada?
Tudo isso tinha se incrustado à vida de Helena, como uma dor persistente, e nesses últimos dias ela vinha se sentindo cada vez mais infeliz, embora procurasse disfarçar, sobretudo de Ramiro, todo o sofrimento. Mas naquela noite nem a ele conseguira enganar.Que assim seja, disse. E, de repente, enquanto olhava a parte da cidade inundade de luz, voltou-lhe à lembrança um fato que presenciara na sua adolescência. Um fato ocorrido há muitos anos na vida de uma pessoa, que nunca saíra da sua mente. Vez por outra se via a recordá-lo e não foram poucas as pessoas, atráves dos anos, às quais contou o sucedido. Até a Ramiro contou.
Era uma mulher da sua cidade. Uma fina doceira. Seus doces, das mais variadas espécies, eram motivo de comentários não só naquela cidade, mas nas cidades vizinhas. Até à capital do estado a sua fama havia chegado. Solteira, devia ter, na época, quarenta e poucos anos. A família de Helena era, como as demais famílias da mesma classe social, freguesa de Amália. E uma tarde a mãe de Helena mandou-a à casa de Amália, para comprar o doce de leite de que o marido tanto gostava. Lá chegando, Helena bateu palmas três vezes, ninguém apareceu. Nem Amália, nem uma sobrinha que morava com ela, tampouco a empregada. A porta da frente estava só encostada. Helena, acostumada a frequentar a casa, para visitar a sobrinha de Amália, foi entrando, enquanto dizia sou eu Amália. Tão logo pôs os pés dentro da casa, deparou-se com uma cena que a deixou entre chocada e penalizada. À mesa de refeições estava Amália. A cabeça curvada, as mãos tapando quase todo o rosto (só os olhos descobertos), a doceira chorava. E o choro não era silencioso - a mulher chorava como uma criança quando apanha. De tão intenso o choro, os braços tremiam. "Amália, o que foi que houve"? Helena chegou para perto dela e repetiu a pergunta, mas Amália parecia não dar pela presença dela e continuava no choro. "Aconteceu alguma coisa com Eliane"? E Amália sem responder. Helena pôs a mão sobre a cabeça de Amália, como se a leve pressão da mão pudesse aliviar a dor da mulher. Depois foi saindo devagarinho, olhando para a pobre mulher, a quem sempre vira alegre e tão disposta.
E ao recordar, mais uma vez, a cena lastimável, Helena pôde compreender, depois de tantos anos, o sofrimento daquela mulher numa tarde longinqua. E sentiu-se na pele de Amália, a fina doceira, tão elogiada e respeitada pela sua arte na culinária. Então, de repente, veio-lhe, incontrolável, a vontade de repetir o ato de Amália. E lágrimas lhe vieram aos olhos. Helena chorava. Mas, ao contrário do choro de Amália, o seu era silencioso. E assim ficou por muito tempo deixando as lágrimas banharem-lhe o rosto.

quarta-feira, dezembro 06, 2006

UMA TEMÁTICA DA VIOLÊNCIA?

O diretor Sam Pecinpah (1925-1984) ficou estigmatizado pelo grau de violência utilizada em boa parte de seus filmes. De fato, há, por exemplo, num filme como "Meu Òdio Será Sua Herança" (The Wild Bunch /1969, que revi, recentemente em DVD) , momentos em que a violência parece excessiva, chegando a causar um desconforto, até um mal-estar, no espectador. E foi, talvez, por isso, que Peckinpah não teve o seu talento melhor avaliado pela crítica (ou parte dela). Mas tomando "Meu Ódio Será Sua Herança" como referência. Sob aqueles intensos jorrar de sangue e troar de tiros é possível perceber um posicionamento crítico de Peckinpah, o que o exime da pecha de utilizar a violência de uma forma gratuita. Logo no início, o filme mostra um grupo de garotos observando um escorpião atacado por vermos, ao qual depois eles ateiam fogo. A imagem dos garotos, atentos à agonia do escorpião, coincide com a chegada do grupo, chefiado por Pike Bishop (William Holden) , que vai assaltar um banco. Pouco tempo depois tem início um tiroteio intenso entre os assaltantes e pistoleiros contratados pelo administrador da ferrovia.
A presença de crianças, em meio a cenas de violência, se faz sentir ao longo da narrativa. Já perto do final, algumas assistem, divertidas, ao suplício de um membro do grupo, arrastado por um cavalo. Esse detalhe estimula a pensar que o diretor entende a violência como um elemento entranhado no homem, já desde a infância. Ela seria para Peckinpah também uma forma de o homem elevar-se moral e espiritualmente, tal como ele apresenta o personagem de Dustin Hoffman em "Sob o Domínio do Medo" (The Straw Dogs /1971) .
E não se pode esquecer a importância que o americano, em geral, dá à arma de fogo. Até existe nos Estados Unidos uma associação de cultores de armas (o nome completo não lembro,, mas nele está inserida a palavra rifle) , cuja presidência foi exercida por algum tempo por sabem quem? Charlton Heston, que trabalhou com ele em "Juramento de Vingança" (Major Dundee/1965). Ao expor assim a violência, será que Peckinpah não pretendia mostrar o que acontecia no seu próprio país? Além disso, como lembrou alguém nos depoimentos constantes dos "Extras" de "Meu Ódio Será Sua Herança", a sua carreira foi construída, em boa parte, durante a guerra no Vietnam, e a presença desse longo conflito marcou muito a vida de seus compatriotas, mesmo os que não participaram dele. A violência, então, em seus filmes funcionaria como uma forma de temática, mesmo que de uma maneira que incomodava, perturbava as pessoas. Chegando a levar a crítica (ou parte dela) a tratar esse neto de um cacique indígena a tratá-lo apenas como um talentoso executor de cenas de um fortíssimo impacto.
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UM ARTISTA NA PIOR
Ele trabalhou em filmes , como "Os Fuzis" (Rui Guerra), "A Falecida! (Leon Hirszman), "A Gramde Cidade" (Cacá Diiegues) , "O Desafio" (Paulo César Saraceni) . Nos anos 1960 a ditadura militar o fez ir pra Itália, onde trabalhou por lá em filmes de pouca importância. Está com 5l anos no batente. Mas está desempregado, passando necessidades. É um ótimo ator. Mas está na pior. Estou falando de Joel Barcelos, sobre quem assisti a uma matéria num desses canais de tevê por assinatura. Peguei a matéria nos últimos ciinco, seis minutos finais. Aos 70 anos, aparenta bem mais, o rosto envelhecido está marcado de manchas. No final, a entrevistadora faz uma pergunta embaraçosa a ele. Falando de Glória Pires, com quem ela trabalhou na Globo, pergunta se ele não quer pedir uma ajuda à atriz. Chamando-a de Glorinha e dizendo que a conhece desde criança, pois foi amigo do pai dela (o comediante Antônio Carlos) , Barcelos não responde à pergunta, a repórter pergunta se o orgulho o impede de recorrer a Glória e a outra atriz, cujo nome não guardei. Ele faz um gesto que dá pra gente entender. É uma situação constrangedora. Pois é, aí está um ator talentoso, vivendo em grandes dificuldades, não sei como está conseguindo sobreviver. Senhores que hoje mandam no cinema brasileiro. Olhem para esse ator, dêem-lhe uma oportunidade. mesmo que a culpa seja dele por estar nessa situação (dizem que tem um temperamento difícil e durante um certo tempo teve problemas com o álcool), mas não é um crápula, como, por exemplo, boa parte dos nossos homens públicos. Não roubou ninguém, não se aproveitou da credulidade das pessoas ingênuas. Vão atrás de Joel Barcelos. Além de estarem praticando uma boa ação, terão em seus filmes a presença de um ator de grande qualidade.

domingo, dezembro 03, 2006

MOMENTOS PARA SEMPRE

Um personagem de Cidadão Kane recorda um momento inesquecível da sua juventude. Uma atraente mulher que encontrou um dia, na rua. Nunca mais a reviu, mas a imagem da mulher ficou para sempre gravada em sua memória. Até o fim de seus dias, nele permanecerá aquela visão de um momento de sua vida.
Cada pessoa guarda dentro de si um momento como o pesonagem do filme de Welles. Não um só, mas alguns. Momentos a que outras pessoas podem não dar a mínima importância, impermeáveis à sua compreensão, mas para a pessoa que os viveu têm um significado especial, de uma forma a jamais lhe sairem da lembrança. Eu tive, entre tantos momentos maravilhosos (e, muitos ruins, que o melhor é deixar pra lá, "as amargas, não") , estes três que vou relatar.
1. Uma tarde, em Fortaleza, ia atravessar uma rua, quando surge um carro dirigido por uma mulher. Ia começar a atravessar, quanto notei que a motorista parou o carro para me deixar passar. Mas em vez de me beneficiar da sua gentileza, parei e sinalizei para ela seguir. Ela retomou a marcha e no instante em que o carro passava ao meu lado, virou-se pra mim, sorriu, fez um aceno com a mão e foi embora. Era uma jovem e bonita morena e no banco de trás estavam duas crianças. Foram, o quê?, 2, 3, 5 segundos no máximo, decorridos entre o sorriso e o aceno, mas esse brevíssimo tempo dura até hoje.
2. Já estava em Natal, casado de pouco, quando fui me submeter a uma cirurgia de amidalite. Não consigo esquecer a enfermeira que me aplicou o anestésico. Não porque fosse bonita, como a jovem senhora do carro. Mas tinha um rosto que inspirava bondade. Um pouco gorda. O que tornou inesquecível a sua imagem foi a conversa que mantivemos enquanto estive acordado. Tinha um jeito calmo, sereno, a voz baixa, pausada. Não me lembro nada do que conversamos. Banalidades, acredito. E tenho a sensação de que ela teve a iniciativa daquele papo por me achar tenso, intranquilo, pela primeira vez indo me deitar em uma mesa de operação. Talvez fosse um procedimento habitual nela. Não importa. Importa, e muito, o nosso diálogo, que me trouxe um pouco de tranquilidade. Nos dissemos os nomes e o dela guardei durante algum tempo, e, numa oportunidade em que fui ao mesmo hospital (mas por outro motivo) , procurei-a, para agradecer-lhe por aqueles momentos que antecederam a cirurgia, mas ela já não trabalhava lá. E, tal como a mulher de Fortaleza, nunca mais a vi.
3. O terceiro momento ocorreu com uma celebridade. Já o contei neste espaço. Um encontro brevíssimo com Nara Leão, a quem fui pedir o autógrafo num elepê dela. Foi depois de sua apresentação no Teatro Alberto Maranhão, em Natal. Havia algumas pessoas ao redor dela, próximo a uma das entradas para o palco. Quando me vi frente a frente com a mulher que admirava não apenas como intérprete (menos pela voz, mais pelo bom gosto do repertório) , mas pela inteligência e sensibilidade e, principalmente, pela posição corajosa assumida diante do regime militar, apresentei-lhe o disco, cuja capa mostrava-a envolta em um véu. Ela me recebeu com o sorriso que expunha os dentes ressaídos. Ao ouvir o meu nome, sorriu de novo e revelou que tinha um filho que também se chamava Francisco. E escreveu uma curta dedicatória em uma letra bonita - um autógrafo que conservo com zelo e carinho. Agradeci e saí do teatro como se estivesse nas nuvens. Nara voltou a Natal, mas não fui vê-la dessa vez. Por um amigo soube que passara mal em sua estada aqui. Já devia carregar o tumor cerebral que a matou não muito tempo depois.

quarta-feira, novembro 29, 2006

A POESIA DE POLÍBIO ALVES (PB)


Para Bertolt Brecht Ler

Que lugar é esse,
onde no ar,
o medo rumoreja?

Que silêncio é esse
entre a máquina
e o homem?

Que tempo é esse,
Bertolt Brecht,
em que as palavras
são amputadas,
a razão- de- ser,
inusitada,
os homens, um eco
no fundo do poço?
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Última carta

Estou tãp alegre
que o sono me escapa
e me lacra
sobre o azul das paredes.
É o mesmo continente
sala e quarto, aquele azul
descascado pelo tempo.
Estou tão só e contente
que amanhã de manhã
vou abrir a janela,
me lançar
do décimo segundo andar
e decuplar
um soco no mundo.
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Habitat

Nesse habitat
ofegante,
co-existe
arquitetônico
gesto, pespegante
de um lume
camaleônico.

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O paraibano Políbio Alves (1941) é poeta e contista. Publicou os livros "O Que Resta dos Mortos" *1983),
"Varadouro" (1989), "Exercício Lúdico - Invenções de Armadilhas" (1991) e "Passagem Branca" (2006), o primeiro, de contos, e os outros três de poesia. Os poemas aqui publicados fazem parte de "Passagem Branca", o qual recebeu o Prêmio Nacional de Poesia Augusto Motta/1977. Todos os poemas, portanto, foram escritos na década de 1970, mas só agora, 29 anos depois, foram apresentados em forma de livro.


sábado, novembro 25, 2006

SARABAND


Em 2003, em filme feito para a TV, agora lançado em DVD, Bergman retomou o casal Marianne (Liv Ulmann) e Johan (Erland Josephson) de Cenas de um Casamento, realizado há trinta anos. Mas Saraband não se concentra nos dois, agora separados, embora eles tenham ativa participação no desenrolar da história. Principalmente Marianne, cuja visita ao ex-marido irá por à mostra o relacionamento conflituoso com o filho Henrik (Borj Ahlstedt) e o deste com sua jovem filha Karin (Julia Dufverius). A história de Saraband se aparenta com a de um pequeno romance, constando de um prólogo, 10 capítulos e um epílogo. O genial cineasta sueco lida com os seus temas habituais (a morte, os conflitos amorosos e familiares, a velhice, entre outros) e o faz com uma força e um brilho que, talvez, não se esperasse mais de um homem já perto dos noventa anos. Confina-os em ambientes internos, pois o filme é todo passado nas casas de Johan e de Henrik. Há um "capítulo" numa igreja, onde Marianne entra para orar e ouve alguém tocando Bach no órgão da igreja (o título, por sinal, tem o nome do compositor.) O executor é Henrik, que, ao acabar, tem um diálogo, a princípio sereno e normall com Marianne, mas que depois se torna ácido. É , aliás um dos melhores momentos de Saraband.
Talvez o personagem mais "presente" seja Anne, a falecida esposa de Henrik. Ela é muito mencionada, seja por Júlia, seja por Henrik, que não consegue se conformar com a sua morte e procura transferir para a filha o amor pela esposa. Ele pretende substituir o amor de uma pela outra. Dormem juntos, embora não transpareça o menor indício de um incesto. (No entanto, quando ele descobre que a filha irá partir com uma amiga, para seguirem a carreira musical, o beijo que ele lhe dá, como despedida, não é o de um pai. E tenta o suicidio, após a separação da filha) Até o velho Iohann fala dela com carinho a Marianne e conserva uma foto dela no seu escritório. levando-nos a aventar a hipótese de ter sentido uma atração amorosa por ela.
Como sempre nos filmes de Bergman, ele extrai toda a potencialidade de que os atores são capazes. De Liv Ulmann e Erland Josephson, não é de surpreender as suas interpretações , já mostradas em tantos outros filmes do cineasta. A expressão da atriz. no último "capítulo", quando, no quarto em pé, de frente para Iohann, os dois despidos, é dessas que deixam uma marca inesquecível. Mas os outros dois, estão muito bem, mais ainda Borj Ahlstedt, que mostra o seu potencial interpretativo no encontro com o pai.
É um Bergman ainda em forma. O que nos deixa animados a ver o filme que ele anunciou que irá fazer (ou já está fazendo), quebrando a promessa, feita após Fanny e Alexander , de que se despedira de vez da tela grande.
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PHILIPPE NOIRET
Tem morrido muita gente do cinema nesses últimos meses. Só nesta semana se foram o diretor Robert Altman ("Nashville", "Cerimônia de Casamento") e o ator Philippe Noiret. Nascido em 1930, Noiret fez grandes filmes e trabalhou com grandes diretores (até com Hitchcock, embora num dos filmes mais fracos do mestre, "Topázio") , mas ficará para sempre lembrado pelo papel do projecionista Alfredo no encantador "Cinema Paradiso", de Giupesse Tornatore/1988. Fez um outro filme bem popular, "O Carteiro e o Poeta", de Michael Radford/1994, no qual interpretava o poeta chileno Pablo Neruda. Trabalhou ainda em "A Comilança", de Marco Ferreri. Fez naus de 125 filmes, o último dos quais no ano passado, ainda não exibido por aqui. Trabalhou também no teatro. Que a terra lhe seja leve.