sábado, dezembro 23, 2006

OS DEZ MELHORES VISTOS E REVISTOS DE 2006


Antes de divulgar as listas dos 10 melhores filmes por mim vistos e revistos no ano que está se findando, nas quais, como todas as listas, estão presentes vários fatores individuais e subjetivos, acho necessário dar estas explicações. 1) As listas são EM ORDEM ALFABÉTICA. 2) Ao contrário de outros cinéfilos/críticos, resolvi relacionar apenas 1o títulos (tal como ocorria nas litas feitas nos anos 1960) . 3) Apesar de feito para a TV, decidi incluir Saraband , tendo em vista a sua qualidade, revelando um Bergman em grande forma do alto dos seus 85 anos à epoca da realização do filme. Agora as listas, sujeitas a chuvas e trovoadas (risos).
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FILMES VISTOS (no cinema e em DVD)
- Boa Noite e Boa Sorte (George Clooney/2005)
- Capote (Bennett Miller/2005)
- Flores Partidas (Jim Jarmusch/2005)
- O Maior Amor do Mundo (Cacá Diegues/2006)
- Marcas da Violência (David Cronenberg/2005)
- O Novo Mundo (Terrence Malick/2005)
- Saraband (Ingmar Bergman/2003)
- O Segredo de Brakeback Mountain (Ang Lee/2005)
- A Vida é um Paraíso (Kay Polack/2005)
- Volver (Pedro Almodóvar/2006)
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FILMES REVISTOS (em DVD)
- Atlantic City (Louis Malle/1980)
- Caçada Humana (Arthur Penn/1966)
- Lua de Fel (Roman Polanski/1992)
- Meu Ódio Será Sua Herança (Sam Peckinpah/1969)
- Noites de Circo (Ingmar Bergman/1953)
- Paixão dos Fortes (John Forf/1946)
- Persona (Bergman/1966)
- Rio Vermelho (Howard Hawks/1948)
- Sob o Domínio do Mal (John Frankenheimer/1862)
- O Último Pistoleiro (Donald Siegel/1976, último filme de John Wayne)
AOS AMIGOS E AMIGAS VISITANTES DESTE BLOGUET^
Têm surgido, ultimamente, problemas na parte de comentários desta página. Pessoas que não conseguem fazer seus comentários, ou estes desaparecerem depois de feitos. Em contato com o rapaz que fez o blogue, ele me prometeu estudar uma modificação na forma deles, para evitar, na medida do possível, que tais fatos venham a ocorrer.

quarta-feira, dezembro 20, 2006

UM TEXTO DE HORÁCIO PAIVA

Pela segunda vez este blogue é abrilhantado por um texto em prosa do poeta Horácio Paiva. E, por coincidência, o assunto , também como o primeiro aqui publicado, trata de uma homenagem de Horácio a um amigo que se foi. Ei-lo.
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UM MÊS
Um mês sem a presença física de D. Nivaldo Monte entre nós e nesta Natal que amou. Um mês deste tempo que inventamos e que aprendemos a repartir e contar. Mas que, sem retorno, não o devolve. Porque o seu tempo - como, de resto, o nosso tempo - é o da eternidade.
Li certa vez que perguntaram a Galileu Galilei quantos anos ele tinha, ao que respondeu: "Cinco, dez, ou quinze anos. Talvez mais, ou talvez menos. Talvez alguns dias, ou somente um dia. Sim, porque o tempo passado já não me pertence e apenas posso contar com o futuro. Mas este eu não sei precisar".
Sobre esse tema, o tempo é o que dele nos cabe em vida, diz Marco Aurélio em suas "Meditações" (Livro II, 14):
"Ainda que os anos de tua vida sejam três mil ou dez vezes três mil, lembra-te que ninguém perde outra vida, senão a que vive agora, nem vive outra senão a que perde. O prazo mais longo e o mais breve são, portanto iguais. O presente é de todos: morrer é perder o presente, que é um tempo brevíssimo. Ninguém perde o passado nem o futuro, pois a ninguém podem tirar o que não tem".
A matéria do presente seria, então, o próprio tempo. E administraria melhor o seu tempo existencial aqueles que tivessem o seu olhar mais amplo, universal, holístico, de conjunto o visionário.
Tenho que, na arte de viver, expressem sabedoria aqueles que sabem distinguir o principal e o secundário, mantendo a serenidade e a tranquilidade de espírito (mesmo diante das adversidades, comuns na vida de todos) e estando, dessa forma, maus próximos também da felicidade.
A esse própósito, D. Nivaldo Monte não foi apenas um sacerdote, mas um sábio, um visionário, alguém que soube aliar o espírito contemplativo à ação.
Sêneca, um dos mais expressivos pensadores do estoicismo romano - filosofia, aliás, tão presente em nossa religião cristã - recomendava alternar o recolhimento e a vida social: Misturemos as duas coisas: alternemos a solidão e o mundo" (in "Da Tranquilidade da Alma" - XVII, 3) .
A meu ver, portanto, o belo perfil existencial de D. Nivaldo continha esses dois lados: o contemplativo e o ativo.
Nesse último sentido, é inegável a sua profunda contribuição ao desenvolvimento educativo, cultural, político e social de nossa gente.
Entregue ao pensamento, à literatura e às reflexões, não se pode negar, também que foi um vigoroso homem de ação. Aliado ao seu grande amigo e também figura de proeminência da Igreja, D. Eugênio de Araújo Sales, é autor de inúmeros feitos exemplares, essenciais ao progresso e ao crescimento moral e espiritual de nosso povo. Crior, por exemplo, a Rádio Rural (Emissora de Educação Rural), utilizando-a como importante e pioneiro instrumento de alfabetização e educação em nosso Estado. Outra ação pioneira de sua lavra foi a instalação da Escola de Serviço Social (hoje integrada à Universidade Federal do Rio Grande do Norte), primeira entidade de ensino superior, na espécie, em Natal.
Nos anos de chumbo da ditadura, quando um grupo de humanistas e democratas (Padre Pio, Dermi Azevedo, Elias Cabral Maciel, Rivaldo Fernandes e eu) lutavam contra a opressão, e pela criação de um comitê de defesa de direitos humanos, encampou a idéia e deu-lhe forma até mais ampla, com a fundação da Comissão Pontifícia Justiça e Paz, da qual fui presidente, primeira entidade estadual (mas vinculada ao Vaticano, daí "Pontifícia" ) destinada à defesa dos direitos humanos. Movimento idealista e agregador, a ele somaram-se outros nomes, tornando-o ainda mais forte. Carlos Antônio Varela Barca, Padre Vilela (Pastoral Carcerária), Adilson Gurgel de Castro (primeiro presidente), Marcondes Assis da Silva (Pastoral da Juventude), Marlúcia Paiva, Francisco Gomes, Oswaldo e Roberto Monte e outros.
Era meu amigo e em várias ocasiões conversamos muito. Sobretudo filosofia, política, religião e poesia. Havia entre nós um elo de simpatia, a identificação espiritualo que tanto aproxima as pessoas. Mostrou-me manuscritos seus antes de torná-los livros. Certa vez falava-me sobre a coragem e definia o corajoso não como aquele despojado do medo, mas que o dominava. Tema, aliás, que aborda em seu livro "Toda Palavra é uma Semente": "O problema, o verdadeiro problema não é ter ou não ter medo, mas, quando necessário agir, deixar-se levar pelo temor".
Dediquei-lhe uma tradução que fiz do "Noche Oscura", do místico e grande poeta espanhol San Juan de la Cruz, para mim um dos momentos mais altos (senão o mais alto) da poesia em língua castelhana, que trata do encontro da alma com Deus e cuja primeira estrofe (transcrita no original) associo agora à sua própria partida, após concluída a sua obra, e estando em paz com Deus e com os homens.
"En una noche oscura
com ansias en amores inflamada,
oh dichosa ventura!,
sali sin ser notada,
estandu ya in mi casa sosegada".
Em memória do amigo, em maio às ilusões do mundo e do mistéria, revela-me a poesia, de observação e confiança cósmicas:
A realidade
é a opção
do provável.
O real
é Deus.

domingo, dezembro 17, 2006

VOLVER (2006)


O filme se inicia num cemitério, onde as irmãs Raimunda (Penelope Cruz) e Sole (Lola Dueñas) estão visitando o túmulo da mãe, acompanhadas da filha da primeira, Paula (Yolanda Cobo). Lá encontram a amiga Agustina (Blanca Portillo), que vai cuidar do próprio túmulo. Um costume cultivado naquela região da Espanha, conforme a mãe informa à filha, que estranha o fato. Com esse início e as mortes, não muito tempo depois, da velha tia das irmãs e do marido de Raimunda, Paco (Antonio de la Torre), assassinado por Paula, ao se defender de um assédio sexual dele, além da descoberta de Agustina de que está com câncer, fica patente que a morte é o elemento principal de "Volver". Mas a sua presença não inibe a intromissão do humor, já que se trata de Almodóvar, um diretor que se nos últimos anos dirigiu a atenção para o drama, não abdicou de todo do humor. Só que este já não aparece (ou aparece pouco) da forma muitas vezes grosseira e vulgar dos seus primeiros filmes. Até nesse particular é evidente a sua evolução.
"Volver" é também um filme feminino, a exemplo de "Tudo Sobre Minha Mãe". O relevo dado à mulher na história, dentre outras expressões, está a de valor quantitativo. Já a participação do homem, além de reduzida, é apresentada de forma desfavorável, como a de Paco, querendo seduzir Paula. Ou a do pai de Raimunda e Sole, cuja memória é maculada pela revelação de que teve uma relação incestuosa com Raimunda, como se não bastasse a traição frequente à esposa.
Apesar da força da narrativa, que prende a atenção, da direção de Almodóvar, que se faz sentir até na atuação das atrizes (todas muito bem) , "Volver" não chega ao nível de um grande filme, como "Fale com Ela", provavelmente o melhor dele. Acho que a causa está em certas situações do roteiro, que , apesar destas, é de boa qualidade, o que mostra, mais uma vez, o talento de Almodóvar também nesse setor. Um dos pontos altos do roteiro (talvez o mais alto) é o artifício usado por ele para pegar de surpresa o espectador a respeito da aparição de Irene (Carmen Maura, um tanto gorda, mas ainda bonita) , um personagem vital da trama.
Enfim, se "Volver" não chega a empolgar o espectador mais exigente, consegue fazer com que ele o veja com interesse, atenção e até um certo prazer. O que não é pouco tratando-se da maioria dos filmes atuais.
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10 ANOS SEM MARCELLO
No próximo dia 19 se completam 10 anos da morte de Marcello Mastroianni. Foi uma grande perda para a arte de representar, pois Marcello foi um dos grandes atores. O maior de todos, na opinião de Philippe Noiret, que trabalhou com ele em "A Comilança" e "Touchez Pas La Femme Blanche". Noiret, morto no mês passado, afirma isso num depoimento, que quase o leva às lágrimas. que integra o documentário sobre o colega ("Marcello, Uma Doce Vida", dirigido por Mario Canale e Antonello Branca) . Há outros depoimentos no filme, feitos pelas filhas Barbara e Chiara (que revelam que as coisas que o pai mais amava eram sapatos e telefonemas), Claudia Cardinale, Anouk Aimée e os diretores Ettore Scola e Giuseppe Tornatore. E sobre Scola, uma curiosidade. Quando dirigiu Marcello em "Ciúme à Italiana" (por cujo papel ele ganhou o prêmio de Melhor Ator no Festival de Cannes) , a mãe do ator reclamou ao diretor por este ter transformado o filho num homem "feio, sujo e malvado".
Marcello trabalhou com inúmeros cineastas do seu país, desde os do primeiro time (Antonioni, Visconti, Fellini, com este em vários filmes) , aos do segundo, como Germi, Monicelli, Scola. Fez 15o filmes! E vejam só. Com essa quantidade de filmes, ainda era considerado um preguiçoso . Grande, inesquecível ator.

quarta-feira, dezembro 13, 2006

UMA MULHER CHORANDO


Este conto foi aqui publicado em nov/2005. Resolvi relançá-lo para dar oportunidade aos que não visitavam este blogue, na época, de lê-lo. E também aos que se dispuserem a lê-lo outra vez de fazer uma atual avaliação dele.
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Três vezes perguntara por que ela estava tão calada. E ela sempre a responder que não era nada. Na terceira vez, quando perguntou se estava ressentida com algo que lhe fizera, Helena denotou, no tom ríspido da coz, um começo de irritação com a inquirição dele. Sentindo a reação dela, Ramiro achou prudente parar com aquelas perguntas. O certo seria buscar algum assunto, por mais trivial que fosse, para tirá-la daquele mutismo que o desconfortava. Como tinha sido o dia dela no trabalho? Bem, ela respondeu, lacônica. Afinal convencido de que não podia arrancar mais nenhuma palavra de Helena, ele resolveu também se calar.Assim mudos passaram o restante do jantar, um só abrindo a boca para pedir um prato que estivesse mais ao alcance do outro.
Ao deixarem a mesa, Helena foi escovar os dentes, enquanto ele foi ligar a televisão.Depois ela irá para junto dele. Era assim todas as noites, a té mesmo quando iriam sair. Mas naquela noite, quando voltou do banheiro, ela disse que tinha "um horror" de provas para corrigir e não podia perder tempo. "Mas não dá pra você ficar nem um pouco"? "Não dá. Eu tenho que devolver as provas amanhã". A atitude dela deixou-o ainda mais preocupado. Ela nunca procedera daquela maneira. Algum problema a estava perturbando, mas ela não queria revelá-lo. E enquanto as imagens do telejornal iam passando à sua frente, ele não se dava conta do que elas mostravam, nem ouvia direito as falas, pois o pensamento se concentrava na busca de um ato seu, um gesto, uma palavra áspera que a tivessem magoado. Vasculhou a mente, tentando rememorar fatos do dia, da noite anterior, até mesmo quando estavam na cama nos momentos de amor. Em vão. Nada. O melhor é esperar amanhã, talvez ela me diga o que está acontecendo. E continuou vendo, sem ver, o que se passava na televisão.
Ao entrar no quarto, Helena trancou a porta, mas não foi para o birô. Dirigiu-se para a janela. Mas, como o marido diante da tevê, ela não "via" a profusão de luzes iluminando aquela pequena parte da cidade. Meditava sobre a sua vida. A bem dizer, continuava uma meditação que começara já algum tempo. E a cada dia que passava, mais tomova consciência da falta de sentido em que a sua vida se transformou com a irrealização de sonhos por tantos anos acalentados, a morte das ilusões, a perda da esperança. E o pior: sem vislumbrar um aceno sequer de mudança. E o casamento? Todos os conhecidos, amigos, os familiares colocavam Ramiro num altar, ela tirara a sorte grande ao encontrar um homem de tantas qualidades: trabalhador, bem-educado, excelente profissional e, por cima, sempre apaixonado pela esposa. Sim, Ramiro podia ser tudo isso, mas havia algo nele que Helena não sabia discernir (e nem eram os pequenos defeitos que toda pessoa, mesmo as melhores, tem), que a fazia não se sentir a mulher tão invejada. Quem sabe se a culpa não seria dela? E das outras coisas era também culpada? Da profissão, que já não a satisfazia, da falta de estímulo para continuar lecionando? Do convívio com a maioria dos colegas e das amigas? Teria ela toda a culpa por não encontrar mais naquelas pessoas o que buscava para uma existência mais fácil de ser levada?
Tudo isso tinha se incrustado à vida de Helena, como uma dor persistente, e nesses últimos dias ela vinha se sentindo cada vez mais infeliz, embora procurasse disfarçar, sobretudo de Ramiro, todo o sofrimento. Mas naquela noite nem a ele conseguira enganar.Que assim seja, disse. E, de repente, enquanto olhava a parte da cidade inundade de luz, voltou-lhe à lembrança um fato que presenciara na sua adolescência. Um fato ocorrido há muitos anos na vida de uma pessoa, que nunca saíra da sua mente. Vez por outra se via a recordá-lo e não foram poucas as pessoas, atráves dos anos, às quais contou o sucedido. Até a Ramiro contou.
Era uma mulher da sua cidade. Uma fina doceira. Seus doces, das mais variadas espécies, eram motivo de comentários não só naquela cidade, mas nas cidades vizinhas. Até à capital do estado a sua fama havia chegado. Solteira, devia ter, na época, quarenta e poucos anos. A família de Helena era, como as demais famílias da mesma classe social, freguesa de Amália. E uma tarde a mãe de Helena mandou-a à casa de Amália, para comprar o doce de leite de que o marido tanto gostava. Lá chegando, Helena bateu palmas três vezes, ninguém apareceu. Nem Amália, nem uma sobrinha que morava com ela, tampouco a empregada. A porta da frente estava só encostada. Helena, acostumada a frequentar a casa, para visitar a sobrinha de Amália, foi entrando, enquanto dizia sou eu Amália. Tão logo pôs os pés dentro da casa, deparou-se com uma cena que a deixou entre chocada e penalizada. À mesa de refeições estava Amália. A cabeça curvada, as mãos tapando quase todo o rosto (só os olhos descobertos), a doceira chorava. E o choro não era silencioso - a mulher chorava como uma criança quando apanha. De tão intenso o choro, os braços tremiam. "Amália, o que foi que houve"? Helena chegou para perto dela e repetiu a pergunta, mas Amália parecia não dar pela presença dela e continuava no choro. "Aconteceu alguma coisa com Eliane"? E Amália sem responder. Helena pôs a mão sobre a cabeça de Amália, como se a leve pressão da mão pudesse aliviar a dor da mulher. Depois foi saindo devagarinho, olhando para a pobre mulher, a quem sempre vira alegre e tão disposta.
E ao recordar, mais uma vez, a cena lastimável, Helena pôde compreender, depois de tantos anos, o sofrimento daquela mulher numa tarde longinqua. E sentiu-se na pele de Amália, a fina doceira, tão elogiada e respeitada pela sua arte na culinária. Então, de repente, veio-lhe, incontrolável, a vontade de repetir o ato de Amália. E lágrimas lhe vieram aos olhos. Helena chorava. Mas, ao contrário do choro de Amália, o seu era silencioso. E assim ficou por muito tempo deixando as lágrimas banharem-lhe o rosto.

quarta-feira, dezembro 06, 2006

UMA TEMÁTICA DA VIOLÊNCIA?

O diretor Sam Pecinpah (1925-1984) ficou estigmatizado pelo grau de violência utilizada em boa parte de seus filmes. De fato, há, por exemplo, num filme como "Meu Òdio Será Sua Herança" (The Wild Bunch /1969, que revi, recentemente em DVD) , momentos em que a violência parece excessiva, chegando a causar um desconforto, até um mal-estar, no espectador. E foi, talvez, por isso, que Peckinpah não teve o seu talento melhor avaliado pela crítica (ou parte dela). Mas tomando "Meu Ódio Será Sua Herança" como referência. Sob aqueles intensos jorrar de sangue e troar de tiros é possível perceber um posicionamento crítico de Peckinpah, o que o exime da pecha de utilizar a violência de uma forma gratuita. Logo no início, o filme mostra um grupo de garotos observando um escorpião atacado por vermos, ao qual depois eles ateiam fogo. A imagem dos garotos, atentos à agonia do escorpião, coincide com a chegada do grupo, chefiado por Pike Bishop (William Holden) , que vai assaltar um banco. Pouco tempo depois tem início um tiroteio intenso entre os assaltantes e pistoleiros contratados pelo administrador da ferrovia.
A presença de crianças, em meio a cenas de violência, se faz sentir ao longo da narrativa. Já perto do final, algumas assistem, divertidas, ao suplício de um membro do grupo, arrastado por um cavalo. Esse detalhe estimula a pensar que o diretor entende a violência como um elemento entranhado no homem, já desde a infância. Ela seria para Peckinpah também uma forma de o homem elevar-se moral e espiritualmente, tal como ele apresenta o personagem de Dustin Hoffman em "Sob o Domínio do Medo" (The Straw Dogs /1971) .
E não se pode esquecer a importância que o americano, em geral, dá à arma de fogo. Até existe nos Estados Unidos uma associação de cultores de armas (o nome completo não lembro,, mas nele está inserida a palavra rifle) , cuja presidência foi exercida por algum tempo por sabem quem? Charlton Heston, que trabalhou com ele em "Juramento de Vingança" (Major Dundee/1965). Ao expor assim a violência, será que Peckinpah não pretendia mostrar o que acontecia no seu próprio país? Além disso, como lembrou alguém nos depoimentos constantes dos "Extras" de "Meu Ódio Será Sua Herança", a sua carreira foi construída, em boa parte, durante a guerra no Vietnam, e a presença desse longo conflito marcou muito a vida de seus compatriotas, mesmo os que não participaram dele. A violência, então, em seus filmes funcionaria como uma forma de temática, mesmo que de uma maneira que incomodava, perturbava as pessoas. Chegando a levar a crítica (ou parte dela) a tratar esse neto de um cacique indígena a tratá-lo apenas como um talentoso executor de cenas de um fortíssimo impacto.
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UM ARTISTA NA PIOR
Ele trabalhou em filmes , como "Os Fuzis" (Rui Guerra), "A Falecida! (Leon Hirszman), "A Gramde Cidade" (Cacá Diiegues) , "O Desafio" (Paulo César Saraceni) . Nos anos 1960 a ditadura militar o fez ir pra Itália, onde trabalhou por lá em filmes de pouca importância. Está com 5l anos no batente. Mas está desempregado, passando necessidades. É um ótimo ator. Mas está na pior. Estou falando de Joel Barcelos, sobre quem assisti a uma matéria num desses canais de tevê por assinatura. Peguei a matéria nos últimos ciinco, seis minutos finais. Aos 70 anos, aparenta bem mais, o rosto envelhecido está marcado de manchas. No final, a entrevistadora faz uma pergunta embaraçosa a ele. Falando de Glória Pires, com quem ela trabalhou na Globo, pergunta se ele não quer pedir uma ajuda à atriz. Chamando-a de Glorinha e dizendo que a conhece desde criança, pois foi amigo do pai dela (o comediante Antônio Carlos) , Barcelos não responde à pergunta, a repórter pergunta se o orgulho o impede de recorrer a Glória e a outra atriz, cujo nome não guardei. Ele faz um gesto que dá pra gente entender. É uma situação constrangedora. Pois é, aí está um ator talentoso, vivendo em grandes dificuldades, não sei como está conseguindo sobreviver. Senhores que hoje mandam no cinema brasileiro. Olhem para esse ator, dêem-lhe uma oportunidade. mesmo que a culpa seja dele por estar nessa situação (dizem que tem um temperamento difícil e durante um certo tempo teve problemas com o álcool), mas não é um crápula, como, por exemplo, boa parte dos nossos homens públicos. Não roubou ninguém, não se aproveitou da credulidade das pessoas ingênuas. Vão atrás de Joel Barcelos. Além de estarem praticando uma boa ação, terão em seus filmes a presença de um ator de grande qualidade.

domingo, dezembro 03, 2006

MOMENTOS PARA SEMPRE

Um personagem de Cidadão Kane recorda um momento inesquecível da sua juventude. Uma atraente mulher que encontrou um dia, na rua. Nunca mais a reviu, mas a imagem da mulher ficou para sempre gravada em sua memória. Até o fim de seus dias, nele permanecerá aquela visão de um momento de sua vida.
Cada pessoa guarda dentro de si um momento como o pesonagem do filme de Welles. Não um só, mas alguns. Momentos a que outras pessoas podem não dar a mínima importância, impermeáveis à sua compreensão, mas para a pessoa que os viveu têm um significado especial, de uma forma a jamais lhe sairem da lembrança. Eu tive, entre tantos momentos maravilhosos (e, muitos ruins, que o melhor é deixar pra lá, "as amargas, não") , estes três que vou relatar.
1. Uma tarde, em Fortaleza, ia atravessar uma rua, quando surge um carro dirigido por uma mulher. Ia começar a atravessar, quanto notei que a motorista parou o carro para me deixar passar. Mas em vez de me beneficiar da sua gentileza, parei e sinalizei para ela seguir. Ela retomou a marcha e no instante em que o carro passava ao meu lado, virou-se pra mim, sorriu, fez um aceno com a mão e foi embora. Era uma jovem e bonita morena e no banco de trás estavam duas crianças. Foram, o quê?, 2, 3, 5 segundos no máximo, decorridos entre o sorriso e o aceno, mas esse brevíssimo tempo dura até hoje.
2. Já estava em Natal, casado de pouco, quando fui me submeter a uma cirurgia de amidalite. Não consigo esquecer a enfermeira que me aplicou o anestésico. Não porque fosse bonita, como a jovem senhora do carro. Mas tinha um rosto que inspirava bondade. Um pouco gorda. O que tornou inesquecível a sua imagem foi a conversa que mantivemos enquanto estive acordado. Tinha um jeito calmo, sereno, a voz baixa, pausada. Não me lembro nada do que conversamos. Banalidades, acredito. E tenho a sensação de que ela teve a iniciativa daquele papo por me achar tenso, intranquilo, pela primeira vez indo me deitar em uma mesa de operação. Talvez fosse um procedimento habitual nela. Não importa. Importa, e muito, o nosso diálogo, que me trouxe um pouco de tranquilidade. Nos dissemos os nomes e o dela guardei durante algum tempo, e, numa oportunidade em que fui ao mesmo hospital (mas por outro motivo) , procurei-a, para agradecer-lhe por aqueles momentos que antecederam a cirurgia, mas ela já não trabalhava lá. E, tal como a mulher de Fortaleza, nunca mais a vi.
3. O terceiro momento ocorreu com uma celebridade. Já o contei neste espaço. Um encontro brevíssimo com Nara Leão, a quem fui pedir o autógrafo num elepê dela. Foi depois de sua apresentação no Teatro Alberto Maranhão, em Natal. Havia algumas pessoas ao redor dela, próximo a uma das entradas para o palco. Quando me vi frente a frente com a mulher que admirava não apenas como intérprete (menos pela voz, mais pelo bom gosto do repertório) , mas pela inteligência e sensibilidade e, principalmente, pela posição corajosa assumida diante do regime militar, apresentei-lhe o disco, cuja capa mostrava-a envolta em um véu. Ela me recebeu com o sorriso que expunha os dentes ressaídos. Ao ouvir o meu nome, sorriu de novo e revelou que tinha um filho que também se chamava Francisco. E escreveu uma curta dedicatória em uma letra bonita - um autógrafo que conservo com zelo e carinho. Agradeci e saí do teatro como se estivesse nas nuvens. Nara voltou a Natal, mas não fui vê-la dessa vez. Por um amigo soube que passara mal em sua estada aqui. Já devia carregar o tumor cerebral que a matou não muito tempo depois.

quarta-feira, novembro 29, 2006

A POESIA DE POLÍBIO ALVES (PB)


Para Bertolt Brecht Ler

Que lugar é esse,
onde no ar,
o medo rumoreja?

Que silêncio é esse
entre a máquina
e o homem?

Que tempo é esse,
Bertolt Brecht,
em que as palavras
são amputadas,
a razão- de- ser,
inusitada,
os homens, um eco
no fundo do poço?
******************
Última carta

Estou tãp alegre
que o sono me escapa
e me lacra
sobre o azul das paredes.
É o mesmo continente
sala e quarto, aquele azul
descascado pelo tempo.
Estou tão só e contente
que amanhã de manhã
vou abrir a janela,
me lançar
do décimo segundo andar
e decuplar
um soco no mundo.
***********************
Habitat

Nesse habitat
ofegante,
co-existe
arquitetônico
gesto, pespegante
de um lume
camaleônico.

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O paraibano Políbio Alves (1941) é poeta e contista. Publicou os livros "O Que Resta dos Mortos" *1983),
"Varadouro" (1989), "Exercício Lúdico - Invenções de Armadilhas" (1991) e "Passagem Branca" (2006), o primeiro, de contos, e os outros três de poesia. Os poemas aqui publicados fazem parte de "Passagem Branca", o qual recebeu o Prêmio Nacional de Poesia Augusto Motta/1977. Todos os poemas, portanto, foram escritos na década de 1970, mas só agora, 29 anos depois, foram apresentados em forma de livro.


sábado, novembro 25, 2006

SARABAND


Em 2003, em filme feito para a TV, agora lançado em DVD, Bergman retomou o casal Marianne (Liv Ulmann) e Johan (Erland Josephson) de Cenas de um Casamento, realizado há trinta anos. Mas Saraband não se concentra nos dois, agora separados, embora eles tenham ativa participação no desenrolar da história. Principalmente Marianne, cuja visita ao ex-marido irá por à mostra o relacionamento conflituoso com o filho Henrik (Borj Ahlstedt) e o deste com sua jovem filha Karin (Julia Dufverius). A história de Saraband se aparenta com a de um pequeno romance, constando de um prólogo, 10 capítulos e um epílogo. O genial cineasta sueco lida com os seus temas habituais (a morte, os conflitos amorosos e familiares, a velhice, entre outros) e o faz com uma força e um brilho que, talvez, não se esperasse mais de um homem já perto dos noventa anos. Confina-os em ambientes internos, pois o filme é todo passado nas casas de Johan e de Henrik. Há um "capítulo" numa igreja, onde Marianne entra para orar e ouve alguém tocando Bach no órgão da igreja (o título, por sinal, tem o nome do compositor.) O executor é Henrik, que, ao acabar, tem um diálogo, a princípio sereno e normall com Marianne, mas que depois se torna ácido. É , aliás um dos melhores momentos de Saraband.
Talvez o personagem mais "presente" seja Anne, a falecida esposa de Henrik. Ela é muito mencionada, seja por Júlia, seja por Henrik, que não consegue se conformar com a sua morte e procura transferir para a filha o amor pela esposa. Ele pretende substituir o amor de uma pela outra. Dormem juntos, embora não transpareça o menor indício de um incesto. (No entanto, quando ele descobre que a filha irá partir com uma amiga, para seguirem a carreira musical, o beijo que ele lhe dá, como despedida, não é o de um pai. E tenta o suicidio, após a separação da filha) Até o velho Iohann fala dela com carinho a Marianne e conserva uma foto dela no seu escritório. levando-nos a aventar a hipótese de ter sentido uma atração amorosa por ela.
Como sempre nos filmes de Bergman, ele extrai toda a potencialidade de que os atores são capazes. De Liv Ulmann e Erland Josephson, não é de surpreender as suas interpretações , já mostradas em tantos outros filmes do cineasta. A expressão da atriz. no último "capítulo", quando, no quarto em pé, de frente para Iohann, os dois despidos, é dessas que deixam uma marca inesquecível. Mas os outros dois, estão muito bem, mais ainda Borj Ahlstedt, que mostra o seu potencial interpretativo no encontro com o pai.
É um Bergman ainda em forma. O que nos deixa animados a ver o filme que ele anunciou que irá fazer (ou já está fazendo), quebrando a promessa, feita após Fanny e Alexander , de que se despedira de vez da tela grande.
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PHILIPPE NOIRET
Tem morrido muita gente do cinema nesses últimos meses. Só nesta semana se foram o diretor Robert Altman ("Nashville", "Cerimônia de Casamento") e o ator Philippe Noiret. Nascido em 1930, Noiret fez grandes filmes e trabalhou com grandes diretores (até com Hitchcock, embora num dos filmes mais fracos do mestre, "Topázio") , mas ficará para sempre lembrado pelo papel do projecionista Alfredo no encantador "Cinema Paradiso", de Giupesse Tornatore/1988. Fez um outro filme bem popular, "O Carteiro e o Poeta", de Michael Radford/1994, no qual interpretava o poeta chileno Pablo Neruda. Trabalhou ainda em "A Comilança", de Marco Ferreri. Fez naus de 125 filmes, o último dos quais no ano passado, ainda não exibido por aqui. Trabalhou também no teatro. Que a terra lhe seja leve.

quarta-feira, novembro 22, 2006

ISA

Ele a viu aparecer em uma das duas entradas que dão acesso ao bar, de repente estacar, movendo os olhos na direção dos poucos fregueses ali presentes naquele começo de noite. Ele estava em uma mesa perto da entrada de onde ela surgira, na parte do bar que não é coberta, e o rosto voltado para o mesmo local, de maneira a ser facilmente reconhecido. Ainda assim, achou necessário acenar-lhe com a mão, e o gesto, ele não deixou de perceber, apesar de atento à chegada dela, chamou a atenção dos outros fregueses. Ela acenou também, talvez mais para demonstrar que o vira, e apressou o passo na direção dele, que se levantou para recebê-la. Trocaram beijinhos, ela sentou-se e ele perguntou se o acompanhava na cerveja. Ela preferiu um refrigerante diet.
"Pensei que não viesse".
"Quase que eu não vinha. Relutei muito, antes de me decidir a vir".
"É, já pelo telefone você resistiu muito à minha proposta de nos encontrarmos. Por que, Isa"?
Ela, que estava com as mãos juntas, afastou-as com um gesto largo, como a sublinhar a resposta.
"Mas eu lhe disse por quê. Achava e continuo achando inútil este encontro".
"Tudo bem. Mas o que quero ouvir de você é uma razão plausível para não continuarmos. Por que você diz que não dá certo continuarmos"?
Ela ia começar a responder, mas reteve a fala quando notou o garçom se aproximar, trazendo um refrigerante e um copo. Puxou a argola da latinha, despejou parte do conteúdo no copo, quase o enchendo, sorveu um longo gole, depois do que pôde responder a pergunta.
"Você diisse que queria que lhe desse uma razão plausível, não foi? Pois muito bem. O caso é que não sou livre".
"Não é livre? Como assim"?
Ele alteou a voz, outra vez atraindo a atenção das pessoas sentadas nas mesas próximas. Ela encostou o indicador nos lábios e moveu os olhos para os lados.
"Desculpe, Isa (ele baixou sensivelmente a voz). É que fui surpreendido pelo que você acabou de dizer. Explique-se melhor".
"Eu não sou livre. Já lhe disse".
Ele bebeu um longo gole, depois tirou um cigarro da carteira sobre a mesa e o acendeu. Parecia buscar na bebida e no fumo o apoio necessário para não perder a calma.
"Mas, Isa, você não me garantiu que era sozinha? Não foi você que quis que ficássemos na sua própria casa, com aquele papo de que não se sentiria à vontade num motel. Não foi"?
Ela não respondeu, ele repetiu não foi? ela disse foi.
"E então? Que história é essa de que não é livre"?
"Eu menti pra você. Mas agora vou dizer a verdade: eu vivo com um homem há muitos anos. E eu amo esse homem".
Ele soltou uma risada curta, sem ligar para a curiosidade dos fregueses, nem para a censura gestual que ela podia fazer, mas que não fez. Em seguida, ele disse:
"Você tá querendo gozar com a minha cara".
"Bom, se você não acredita, não posso fazer nada. Acho que não tenho mais nada a fazer aqui".
Ela fez menção de se levantar, mas ele a reteve com um gesto de mão".
"Queria que você me respondesse com toda a sinceridade de que for capaz. Eu não signifiquei nada pra você"?
A mirada de Isa teve a duração de um piscar de olho. Logo em seguida, ela baixou o rosto e não disse uma palavra.
"Não é mais preciso responder. Está muito claro pra mim. Só não está claro é você ter aberto a sua casa para alguém que não representou nada pra você, já que você ama o homem com quem habita nessa mesma casa. Seria pedir demais, Isa, que esclarecesse pra mim essa parte osbscura do nosso relacionamento".
"Você quer mesmo saber"? (Ela tinha levantado o rosto e de novo o encarou.)
"É tudo o que quero saber".
"Será que vai suportar ouvir a verdade"?
"Vá em frente, Isa".
Ela esfregou uma mão na outra, como se as mãos estivessem úmidas e precisassem ser aquecidas.
"Não sei como dizer isso".
"Vá em frente, Isa", ele repetiu, já com uma certa impaciência.
"Bom. Você foi um... uma... digamos... uma espécie de instrumento"...
"Instrumento"?
"Como os outros"...
"Outros? Houve outros homens"?
Ela estava de novo curvada, insistindo em atritar as mãos.
"É ele, sabe? Precisa que eu faça... O caso é que ele... Eu tenho... tá entendendo... que ter contato com outros homens"...
Calou-se de repente, como se aquelas palavras lhe tivessem exigido um esforço sobre-humano, deixando-a sem fôlego para prosseguir. Também calado, ele olhava aquela mulher, com a cabeça quase derreada sobre a mesa, indeciso entre a compaixão e o desprezo. Por fim, disse:
"Você já pode ir".
Ela se ergueu, sem olhar para ele, e, sem um mínimo gesto ou uma palavra de despedida, afastou-se em passos rápidos. Jã ele não tirou os olhos de Isa, até vê-la desaparecer.

sábado, novembro 18, 2006

OUTRA CRÔNICA SOBRE MARLENE


Domingo passado comentei aqui uma crônica de Vinicius de Moraes sobre Marlene Dietrich. Falando da postagem, Moacy Cirne me sugeriu que publicasse uma crônica do potiguar Berilo Wanderley (1934-1979) , também crítico de cinema, sobre a atriz de O Anjo Azul, o que faço agora. Num texto delicioso (que integra o livro Cine Lembrança, Sebo Vermelho, 2004) , que deixa a sensação de ser inspirado em um sonho, BW mostra o poder de sedução da vampe Marlene. E também a paixão que ela lhe despertava e em milhões de cinéfilos espalhados pelo mundo. (Aliás, como uma homenagem a ela, vou ver daqui a pouco. aí pela décima vez, O Expresso de Shangai (Josef Von Sternberg/1932) . Ei-lo.
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QUE, MARLENE...
E NÃO É QUE MARLENE...
E não é que MARLENE DIETRICH acaba de entrar, sem bater, e cheia de provocação, ainda segurando o trinco da porta, me grita: "Quero um uísque"! Mas, a esta hora, MARLENE, é quase meia-noite, que dirão os vizinhos? E, além do mais, você assim... nesse vestido aberto... essas pernas de fora... me deixa em paz, MARLENE...
A mulher está impassível, mão no trinco da porta, um olhar de onça no cio, cigarro no canto da boca. Só falta cantar "LOLA LOLA". Que fazer? Largo o livro e saio, como um louco, em busca de um uísque. Grito pelos corredores da casa: "Um uísque para MARLENE DIETRICH"! Pareço Ricardo I querendo trocar seu reino por um cavalo.
Afinal, volto, copo de uísque na mão. Puro em um copo pequeno, sem gelo, como ela gosta. Quando chego, a terrível mulher já não está com a mão no trinco da porta. Está deitada no sofá, olhando para o teto, jeito muito debochado, uma perna na parede, outra atirada para o chão, cigarro ainda no canto da boca. Passo-lhe o uísque. Não vou dizer que ela segurou o copo, porque é pouco. Ela agarrou o copo. Com garras, com unhas, que unhas terríveis as de MARLENE DIETRICH, com dentes. E tomou a dose de uma só vez. Cinco minutos depois, pulava do sofá e cantava exatamente "Lola Lola". No meio da sala, lânguida. Cigarro entre os dedos, corpo em chama, pernões para o ar.
MARLENE, MARLENE..
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REVISITANDO BILAC
Vem ver querida as estrelas
Mas os teus ouvidos afina
Pois elas estão falando de nós.
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A QUEM POSSA INTERESSAR
A L & PM acaba de lançar uma nova edição de Os Cães Ladram, de Truman Capote, em cujas páginas aparece a entrevista do escritor com Marlon Brando, em 1956, a qual foi tema de uma postagem neste blogue semanas atrás.

quarta-feira, novembro 15, 2006

POR QUE GOSTAR OU NÃO DE UM ATOR (OU ATRIZ)?


A morte recente de Jack Palance me fez lembrar de um colega dos meus tempos de estudante em Fortaleza. Ali estava um fã de carteirinha do ator de Shane. Enquanto gostávamos dos atores que faziam o papel de mocinhos, ele gostava de Jack Palance. De todos os cinéfilos que conheci, foi o único a admirar Jack Palance. Uns gostavam, mas pela sua qualidade como ator e jamais sem o fervor do meu colega. Quando viu "Átila, Rei dos Hunos", ficou revoltadp com a armadilha que os inimigos de Átila prepararam contra ele, para capturá-lo. Achara uma "sacanagem". Ouvindo-o, parecia que tinha sido Palance em pessoa que sofrera o golpe, pois, em vez de falar o nome de Átila, falava o nome do ator. Os colegas o gozavam por essa idolatria a um ator que a maioria abominava. Pensando nele, imaginei, se ainda estiver entre nós, como recebeu a notícia da morte do seu ídolo. Mas talvez ele já não goste de Palance, como naqueles anos distantes.
Um amigo aqui de Natal é tiete de Richard Widmark, ator ainda vivo e perto dos 92 anos. Ísso desde os tempos de solteiro. Das atrizes, a belezinha Natalie Wood era a sua preferida. Mas ele gosta ainda mais de Widmark. Ele demonstrou essa preferência em um de nossos inumeráveis encontros num bar, na companhia de mais dois amigos. Quatro cinéfilos juntos, era mais do que natural que o cinema fosse o assunto predominante. Pois numa vez um de nós lhe fez a segunte pergunta: "Galego, se você tivesse a oportunidade de conhecer ou Natalie Wood, ou Richard Widmark, qual dos dois você escolheria"? Ele não pensou um segundo para responder que preferiria o ator de "A Última Carroça". Não sei se foi nessa noite que ele, num momento em que ia levar o copo à boca, fez-nos um brinde, imitando o mesmo gesto do ídolo num filme dele exibido naqueles dias em Natal.
Curioso isso. Deve haver uma explicação para alguém gostar tanto de uma pessoa, ao grau de uma adoração, a qual ele jamais verá em pessoa. Não é apenas a admiração pelo talento do ator. No caso desse meu colega de Fortaleza, já é um caso de empatia por um ator que ele idolatrava. Ele sentiu a "sacanagem" , não contra o personagem, mas contra o ator, e como se estivesse no lugar de Palance. Alguma coisa a gente vê num ator, que nos faz desejar que ela tenha sido o nosso pai, ou um tio, ou o irmão mais velho, até mesmo um amigo. E sentir tanto a sua morte.
Por outro lado, existem aqueles atores e atrizes que são detestados por algum espectador. Em sua fase de crítico de cinema, Vinicius de Moraes antipatizava pra valer com uma atriz, tanto quanto adorava Marlene Dietrich. Era Jane Powell, que trabalhou em musicais da Metro, que teve um certo prestígio nas décadas de 40 e 50 (entre seus filmes, destaca-se "Núpcias Reais", com o extraordinário Fred Astaire). Ele chegou a escrever-lhe um poema , manifestando a ojeriza que tinha por ela, poema que lhe rendeu algumas cartas desaforadas de fãs da atriz. Uma vez li um artigo de um jornalista em que ele dizia que Sérgio Porto (o Stanislaw Ponte Preta) não ia com a cara de Marlon Brando. Mas não ia mesmo, ao ponto de questionar o talento de Marlon. Um canastrão, na opinião de Sérgio Porto. Conta o articulis ta que ele costumava dizer, quando era contestado pela sua opinião, "vocês, um dia, ainda vão me dar razão". Grande Stanislaw, nessa você errou redondamente.
Já eu tenho o "meu" ator. Isso desde jovem. É o James Mason. Gosto de outros, mas ele é o meu preferido. Por, outro lado, para citar só um exemplo, e de um ator vivo, não simpatizo com Gerard Depardieu, ainda que reconheça o seu valor como intérprete. Já vi muitos filmes dele, mais pelo diretor ou por um outro ator ou atriz do elenco dos quais goste. É isso. Talvez os estudiosos da mente, como o meu irmão Bosco, possam ter uma explicação para isso.

domingo, novembro 12, 2006

2 POETAS E SUAS IDOLATRADAS ATRIZES


Marlene Dietrich veio ao Brasil na década de 1950. Duas crônicas foram escritas sobre ela, antes de sua chegada, uma contra, outra a favor. A primeira, de Carlos Drummond de Andrade, publicada no Correio da Manhã. Com o título de "Provocação"?, o poeta de José subestimava a visita de Marlene ao nosso país, considerando-a como uma provocação aos fãs de Greta Garbo, entre os quais ele se incluía. Pra que, meu Deus do Céu, ele foi fazer isso? Vinicius de Moraes, marlenófilo ardoroso, escreveu uma crõnicia dirigida a Drummond com o extenso título de "PROVOCAÇãO? NÃO, POETA CARLOS. É que outro valor maior se alevanta". Demonstrando revolta e indignação, mas respeitando Drummond, chegando a chamá-lo de "querido" e reconhecendo a sua grande estatura de poeta, Vinicius faz uma defesa apaixonada da grande Marlene. Trata-a por a Ùnica, a Maravilhosa, Anjo Azul , Divina Alemâ, enquanto chama Greta de "Fugidia Sueca". E tendo conhecido Marlene e Greta, Vinicius faz uma comparação entre as duas. Começa dizendo que Greta é uma ulher fascinante, mas na tela. E relata o contato que teve com ela na casa de uma socialite francesa. A uma certa altura, ele diz a Greta que admirou a sua atuação em vários filmes, os quais cita. Em vez de retribuir o elogio, a sueca o fita com um "olhar de salmão defumado", em seguida vira-se para o garçom que lhe trazia numa bandeja uma "estranha beberagem, sobre a qual flutuava uma pétala de rosa". sacudiu a cabeça e exiigiu um drinque de vodca. O fato causou um mal-estar geral, pois a bebida oferecida era uma especialidade da anfitriã, que teve de se virar para satisfazer a exigência da convidada.
Já de sua adorada Marlene, Vinicius narra um episódio ocorrido num bar de Paris, onde ele e um amigo "enxugavam" um uisquinho, na ocasião os únicos presentes no bar. De repente, não mais que de repente (como naquele seu poema), eis que entra Marlene, acompanhada da gerente do estabelecimento. A atriz senta-se e (Vinicius não o diz, mas, suponho, que a pedido da amiga) começa a cantar uma série de canções. Percebe-se claramente que ele não consegue conter o júbilo e o orgulho de ser um dos cinco espectadores (além do amigo, da gerente do bar, do garçom e do barman) a ouvir Marlene cantar ali pertinho dele, naquele ambiente fechado num certo dia em Paris. E provoca Drummond, mandando-o perguntar a Garbo se ela faria isso. "Mande, poeta Carlos". Um pouco adiante ele confessa que ficou de "joelho bambo" ao ver a alemã pela primeira vez em Hollywood. E pede o aval de Heminguay, "que não é qualquer toco de vela", para quem Marlene foi a mais extraordinária mulher que conheceu.
No parágrafo final da crônica, Vinicius adverte Drummond que não venha de Mallarmé, que ele pegará o seu Rimbaud. É que na crõnica do mineiro, ele, para exaltar Greta, cita este verso de Mallarmé' "si chère de loin et proche et blanche". E Vinicius responde, citando dois versos de Rimbaud: "O Femme, morceau d'entrailles, pitié douce" e "c'est toi que pends à nous, porteuse de mamelles nous te berçons, charmante e grave Passion".
Ñão sei. Posso estar enganado. Mas depois de ler o texto de Vinicius (que está no livro Para Viver Um Grande Amor, Companhia das Letras/1991) fiquei com a suspeita de que essa "briga" entre os dois poetas envolvendo suas adoradas atrizes foi combinada. Pode ser que a minha suspeita seja infundada, mas que me deu a impressão de algo combinado, isso deu. Infelizmente, não conheço a crônica de Drummond. Nem sei se ele respondeu a Vinicius. Poetas...

quarta-feira, novembro 08, 2006

A PANTERA


Bonita. Muito bonita. Os olhos bem abertos, agateados, que davam ao rosto um ar de pantera, a boca parecendo ter o tamanho certo - nem grande, nem pequena. Os braços - e aí um pequeno senão na sua beleza - eram um pouco musculosos, assim formados, certamente, por exercícios em uma academia. Quando a viu pela primeira vez, ela surgindo de repente, com o olhar provocador, foi tomado por uma sensação estranha. Um impacto. Ou, antes, um susto pelo inesperado da presença da moça, como algo ameaçador, embora revestido de beleza. Ela estava colada à vitrine da parte lateral de uma perfumaria, localizada num centro comercial. O que sentiu, de tão forte, quase como se percebesse uma ameaça de agressão (e a beleza dela tinha um quê de agressivo), o fez olhar rapidamente para a moça e continuar a caminhada de todo final de tarde, dando várias voltas pelos dois longos quarteirões, no primeiro dos quais se situava aquele centro comercial. Seguiu com a imagem da moça na cabeça. Atingiu o fim do segundo quarteirão, dobrou à direita, passou em frente a um antigo colégio, depois pegou outra vez a direita e foi percorrendo os dois quarteirões do lado oposto, até alcançar outra vez o centro comercial. Era assim todas as tardes, quando começava a escurecer. Ao se aproximar da perfumaria, já se sentia preparado para não sofrer o mesmo efeito de minutos antes e foi até à vitrine para examinar a moça. E, embora tocado pela agressividade de sua beleza, permaneceu uns dois ou três minutos observando detalhadamente o rosto e a mão que segurava um frasco de perfume de nome inglês.
Ao voltar para o apartamento vazio, desfez-se da bermuda, do tênis, da camiseta, enxugou o suor do corpo, escolheu um cd, deitou-se na cama para ouvi-lo. Como fazia todas as tardes, antes de tomar banho e depois comer o jantar frugal. Mas daquela vez ocorreu uma quebra na rotina. Ele ouvia as músicas, mas sem a mesma concentração. Em algumas músicas até que a concentração era inteira (talvez porque fosse as de que gostasse mais), já em outras a imagem da moça se sobrepunha e ele não tinha força para rejeitá-la. Quando mais tarde foi ler,em muitos momentos parecia "ver" a moça presente no relato. Houve uma vez que ao ler a descrição dos olhos de um personagem feminino, imaginou que eles fossem iguais aos dela. Interrompeu a leitura, e, com o livro seguro na mão, pôs-se a pensar na moça. E pelo resto da noite não conseguiu livrar-se da sua imagem e teve a certeza, ao deitar-se, de que ela apareceria num sonho, mas isso não ocorreu.
No dia seguinte, ao despertar, o primeiro pensamento foi para ela. Rápida, veio a resolução de tomar a providência de evitá-la, alterando o itinerário da caminhada. Ficou cada vez mais distante da perfumaria, na certeza de que, não vendo a moça, ela lhe sairia da cabeça. A providência deu resultado, mas não imediato, por alguns dias a imagem da moça, o ar de pantera, o rosto de uma beleza perfeita surgiam, de repente, por entre as páginas de um livro, no meio de uma música, na tela da televisão. Até que um dia ela desapareceu afinal. Experimentou uma grande satisfação, como se tivesse ganho um prêmio. Com o passar do tempo, livre dela, chegou a pensar em vê-la outra vez, pois acreditava que não iria lhe acontecer mais nada, a não ser a indiferença. Saiu uma tarde, disposto a retomar o antigo itinerário, mas, ao chegar a poucos metros da perfumaria, algo estranho o dominou, impedindo-o de seguir. Voltou, então, pelo caminho que o levara até ali, continuando a caminhada no sentido das outras tardes. Enquanto andava, percebeu, num misto de decepção e raiva, que não estava de todo livre dela.
Um dia foi ao centro da cidade. Fazia anos que não ia lá, para não ser incomodado pelo barulho dos carros de propaganda e do número excessivo de pedintes e de pessoas oferecendo cartões de crédito, empréstimos, entregando papeizinhos de serviços diversos. Mas um amigo lhe dissera que tinha visto numa grande loja o cd que ele procurara, sem sucesso, em outros locais da cidade. Encontrou o cd, após uma busca que levou uns dez minutos, uma única unidadade, escondido por outros discos, como se estivesse à sua espera. Pagou-o e, em vez de sair pela porta de entrada, preferiu a porta dos fundos. Ao passar pela seção de perfumaria, sem uma razão que justificasse o ato, como impelido por alguma coisa da qual não pudesse escapar, desviou a vista para a parede ao lado. E viu. No alto da parede, ela, os olhos parecendo mais agateados, a expressão no rosto parecendo ainda mais agressiva, olhando desafiadora para ele, dando-lhe a impressão de querer saltar do pôster para cima dele. Virou-se com tanta rapidez que o corpo perdeu um pouco o equilíbrio e precisou apoiar-se numa prateleira para não cair. Logo em seguida, retomou a caminhada, apressado, esbarrando nas pessoas, sem se desculpar, ansioso para encontrar a saída. E mesmo depois de sair da loja, continuou a andar veloz, quase correndo, como se achasse que a moça, de fato, tinha saltado do pôster e, tão rápida quanto ele, estivesse em seu encalço. Nem quando entrou no carro sentiu-se salvo. Em disparada voltou para o apartamento. E, à noite, sonhou com ela.

domingo, novembro 05, 2006

UM ENCONTRO DE CAPOTE COM BRANDO


Há poucos dias reli "Os Cães Ladram", de Truman Capote, edição da Civilização Brasileira, 1977.
É uma coletânea de vários assuntos abordados pelo escritor e jornalista americano. O ponto mais alto do livro é uma entrevista que Capote fez com Marlon Brando em 1956, no Japão, onde o ator filmava "Sayonara". Não é uma entrevista no padrão comum, em pingue-pongue, com o entrevistador perguntando e o entrevistado respondendo. Sendo acima de tudo um escritor,Capote descreve o ambiente onde a entrevista é realizada (o quarto de um hotel), faz observações sobre as empregadas que servem Marlon e, mesmo quando a conversa é estabelecida, fala do comportamento do ator com elas e até de detalhes sobre este, como um início de calvície e a presença incômoda de alguns quilos a mais no seu peso. É uma matéria longa, de quase 40 páginas, intitulada "O Duque em seus domínios", em que Capote consegue desnudar um tanto da personalidade de Brando, socorrendo-se do entrevistado e de pessoas que com este conviveram, relembrando revelações delas. Uma dessas revelações diz respeito à conduta do ator nas filmagens de "Sayonara", quando Capote afirma que ele está "sempre disposto a cooperar com os seus companheiros de trabalho, mas, de um modo geral, socialmente alheio, preferindo, nos intervalos de filmagem, ficar sozinho lendo livros de filosofia, ou rabiscando num caderno escolar".
O desnudamento do ator aparece, entre outras vezes, quando ele fala do sofrimento das pessoas sensíveis, como ele, e da importância do amor. "Uma pessoa sensível (diz) recebe cinquenta impressões onde alguém mais pode receber sete. É vulnerável demais, facilmente brutalizada e ferida. Quanto mais sensível, mais será violentada, criará escaras". E sobre o amor: "Que outra razão pode existir para viver, se não o amor? Este tem sido o meu maior problema. A minha incapacidade de amar alguém".
Uma surpreendente revelação que Capote faz de Marlon é o seu trato com as crianças, aludindo ao seu amor pelos pequeninos, mostrando-se à vontade na companhia deles, fazendo brincadeiras com eles, "parecendo um coetâneo emocional, um conspirador". Ao ler esse testemunho do escritor, pude, então, compreender a indignação do ator contra Chaplin, quando presenciou este passar uma severa descompostura num filho pequeno, durante um intervalo nas filmagens de "A Condessa de Hong Kong".
E os atores preferidos de Brando? Ao ser indagado, Brando fica um instante calado, como se pensasse, ou não quisesse responder. Capote insiste, citando alguns atores: Lawrence Olivier, John Gielgud, Gerard Philippe, Jean-Louis Barrault e mais uns dois de que não me lembro. Brando diz que Philippe é um bom ator (ele morreria três anos depois, aos 38 anos), assim como Barrault, e, ao mencionar o segundo, faz referência ao filme "Les Enfants du Paradise" ("O Boulevard do Crime", Marcel Carné/1945) como aquele que mais o impressionou, talvez o maior filme já feito, na sua opinião. E acrescenta que a única vez em que se apaixonou por uma atriz na tela foi ao ver Arletty, principal atriz desse obra-prima do cinema. Mas os seus preferidos são Spencer Tracy, Paul Muni ("Scarface", Hawks/1932) e Cary Grant. Eis o que ele diz: (Spencer Tracy) "É o tipo do ator que eu gosto de ver trabalhar. A maneira como ele se contém, se recolhe - depois salta para marcar o seu ponto e se recolhe outra vez. Tracy, Muni, Cary Grant. Eles sabem o que fazer. Pode-se aprender alguma coisa com eles".
Se não tivesse muitos outros atrativos, só por esse encontro entre Brando e Capote "Os Cães Ladram", cujo título é inspirado no conhecido provérbio árabe "Os cães ladram, mas a caravana passa, já seria um livro de valer a pena ser lido.

quarta-feira, novembro 01, 2006

A POESIA DE LETÍCIA TORRES


Este espaço é hoje ocupado por Letícia Torres, uma nova poeta que surge no Rio Grande do Norte, que logrou a segunda colocação no Segundo Concurso de Poesia Zila Mamede. Ela nasceu em Caicó, mas mora em Natal desde criança e trabalha em publicidade. Os 2 poemas aqui publicados fazem parte do livro que apresentou os poemas dos 3 primeiros colocados e de outros candidatos que receberam uma Menção Honrosa. A edição, deste ano, é da Potiguar Notícias Gráfica e Editora. Eis os poemas.
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O BARULHO DO TEMPO
Começa a chover em cada cor dos sonhos que não consegui ter.
As tintas escorrem lavando meus cabelos curtos como se fossem roupas.
Sinto uma pressa que só se acalma na advertência
Nada pode ser afirmado sem que uma questão surja como toda solução.
Os dias não pedem licença.
O tempo vai passando com a impressão de que se indispõe aos pensamentos.
A consequência mora no antes?
Percebida em seu erro, se mostra no depois de nossas vidas?
Quero a confusão de tudo o que de tão perto finalmente faz silêncio.
Conhecer o vazio é criá-lo desabitado?
O barulho dos passos se solta dos pés
Para em nós carregarmos o relento do mundo.
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A CRÍTICA DO DESESPERO
A palavra "desespero" fala dos que cansaram?
Ou dos que inconformados com a falta que sentimos
Não conseguem desistir?
Talvez esse começo seja resposta para uma resposta que demora.
O que assumimos no instante em que a vida nos alcança?
Fundamentada em equivocados avisos
A proteção se mostra frágil se nos chamam pelo nome.
Para o disfarce usamos como biombo as idéias dos outros.
Absorvemos na ânsia do vazio que nunca pára de doer.
Transformados em repetição como desmascarados pelos sentidos
Assim nenhum instinto é aceiyo como revelação.

quarta-feira, outubro 25, 2006

CINE CANINDÉ

Ficava na praça da Basílica (o nome legítimo da praça não lembro, mas era por essa denominação que ela era conhecida). Do lado esquerdo, a duas casas da esquina, onde ficava o bar do Seu Zuil, administrado pelo irmão Nenen. Cine Canindé. Ali começou o meu amor pelo cinema, vendo seriados, bangue-bangues, Jim das Selvas (com o ex-Tarzan Johnny Weissmuller) e outros gêneros de filmes. E me deparei, nas sessões de quarta (ou quinta), sábado e domingo com alguns espectadores curiosos. Uns chatos, como aquele que via o filme lendo as legendas, nem sempre usando a pronúncia certa das palavras, como quando dizia dolares. Ou a senhora, que morava vizinho e por isso entrava no cinema com o soar do gongo, conduzindo uma cadeira. Alguns que sempre ocupavam a mesma cadeira. E vez por outra um menino tinha visto o filme em Fortaleza, e ao revê-lo no nosso cinemazinho (talvez como uma forma de gabolice por ter conhecido um cinema da capital) , antecipava o que ia acontecer numa cena.
Nos créditos da maioria dos filmes aparecia o nome de João Branco como o responsável pelas legendas. Esse nome era uma garantia para os meninos da boa qualidade do filme... Ah, a ingenuidade, a inocência infantis que os adultos perdem e, por vezes, lhes fazem tanta falta!
A figura mais curiosa, no entanto, do Cine Canindé era o seu proprietário. César Campos. O homem mais rico da cidade. Além do cinema, possuía a melhor loja de Canindé, um posto de gasolina, um bar-restaurante, fazenda, imóveis. Antes de começar a sessão, ficava na escada que dava acesso à sala de projeção. Sozinho, olhando para frente, talvez pensando em negócios. Numa hora invariável da manhã vinha caminhando da loja até sua casa, que ficava depois da nossa, para almoçar. Caminhava pelo meio da rua, sem cumprimentar ninguém. Talvez um ou outro connhecido, com um leve balançar de cabeça. As pessoas o tinham por orgulhoso, mas hoje creio que não o era. Esquisitão, sim. Ou tímido.
Nos primeiros tempos de casado, o laconismo do marido causou em Dona Julinha um sério incômodo. Ela chegou a confidenciar o fato a um irmão e sócio de César na loja, pedindo-lhe ajuda. ( Chico Campos era um antípoda de César. Comunicativo, espirituoso e de uma cortante ironia para com os desafetos.) Chico atendeu ao pedido da cunhada e parece que, depois da conversa que tiveram, o comportamento de César com a esposa melhorou. Mas, apesar do seu jeitão, César tinha alguns amigos, entre os quais o meu pai (depois ocorreu um estremecimento nas relações entre os dois, acho que por questão de negócios). Pois o papai, na época em que eles se davam, sempre falava bem do César. Até revelava uma faceta insuspeitada do seu temperamento: o senso de humor. Ele tinha um amigo, que nascera aqui em Natal, mas chegara a Canindé vindo de outra cidade do Ceará, com o qual ia toda tarde tomar cerveja no bar do Maciel. Sempre a uma determinada hora, como ocorria quando vinha para casa almoçar.
Enquanto morei em Canindé, nunca recebi um cumprimento dele. Tudo bem, era uma criança e se César não cumprimentava a maioria dos habitantes adultos, não iria fazê-lo com uma criança, ainda que eu fosse filho de um dos seus poucos amigos. Mas o Chico, por exemplo, me cumprimentava e muitos outros homens também. Uma noite, já estudando em Fortaleza, entrei numa farmácia e qual não foi o meu espanto ao encontrar ali o César. Usava um terno (branco, se não me engano), talvez tivesse vindo de um cinema, ou indo. Estava recostado a um balcão, esperando que alguém da família adquirisse um medicamento; provavelmente Dona Julinha, mas não tenho certeza. Ao me ver, balançou a cabeça e esboçou um sorriso.

sábado, outubro 21, 2006

O ÚLTIMO DIA


Amanhã almoçar desassossegado, os olhos pinguepongueando entre o prato e o relógio. O ônibus lotado vai parar em cada esquina, deixá-lo nervoso com o tempo se escoando. E no entanto vai chegar ao Banco antes da hora. Assinar o ponto, ir para o birô e começar a trabalhar. A tarde toda se levantará milhões de vezes com o retinir da campainha, um documento pra deixar ali, outro documento pra deixar acolá, outro para o Gerente, que o receberá de cabeça baixa, não se dignando jamais a olhar pra ele. No fim do expediente estará muito cansado e muito emputecido. Só que só terá amanhã e pronto. Será a última vez que engolirá a comida e se espremerá no ônibus e obedecerá a uma campainha enervante.
- O seu nome é essa bichinha aqui em cima da mesa. Quando eu tocar, é pra atender imediatamente.
Um chefe lhe gritara na frente de todo mundo, baixara a cabeça, não revidara, mas nunca esqueceu a humilhação. Quando o chefe morreu, foi o único da seção a não ir ao enterro.
Trinta anos tem isso. No começo, uma cidadezinha perdida no alto sertão. O Gerente ditador foi logo lhe advertindo na apresentação.
- O sr deve dedicar-se inteiramente ao Banco. Fique ciente de que não há dia nem hora impróprios para essa dedicação. Portanto, nada de corpo mole. Aqui eu exijo trabalho. Trabalho e pontualidade. Pode ir-se. Há bastante trabalho à sua espera.
Mentiroso aquele Gerente não era. Trabalho nunca faltava, até aos domingos. O homem tinha uma devoção doentia pelo Banco. Tinha suas obrigações, e não eram poucas, e ainda se dava tempo de andar de funcionário em funcionário, fiscalizando, ordenando, cobrando eficiência. Sofreu o diabo nas garras daquele fanático. No dia em que casou, trabalhou até quase a hora de ir pra igreja, só folgara o domingo, na segunda bem cedo já estava trabalhando. O primeiro filho nasceu, o segundo nasceu, quem disse que gozou folga?
- O Banco não tem nada que sua mulher viva parindo feito gata.
Filho duma puta. Hoje deve estar pra lá do inferno. Reviu-o já aposentado, um velho de pés arrastando, a cara abobalhada de quem o cargo sugou toda a dignidade. Veio apertar humilde sua mão e não teve coragem para recusar o cumprimento.
Veio transferido para a capital, quando ela nem tinha pretensões de crescer ao ponto que cresceu. Casa perto do Banco, num trecho de pouco tráfego. Não durava mais de dez minutos a caminhada para o Banco, mas nunca se serviu disso para entrar em cima da hora, tinha se habituado com a pontualidade exigida pelo primeiro Gerente.
- O sr assinará na folha suplementar. Assim aprenderá a ser pontual.
O Chefe o punia por se atrasar cinco minutos. Um dilúvio caía sobre a cidade, mas o Chefe não perdoou. Nunca mais chegou atrasado, chovesse como chovesse, nem quando teve de mudar para distante do Banco.
Na capital, o Gerente não tinha tempo de fiscalizar os funcionários, como o Gerente da cidadezinha. O Subgerente é que cumpria essa função. Foram muitos, cada um parecia querer superar o outro em rigidez. Havia os cupinchas do Subgerente que lhe denunciavam os colegas faltosos. Um era contínuo, como ele. Se fazia íntimo dos colegas, para ouvir um desabafo que fosse para informar ao Subgerente. Os colegas foram descobrindo, trancavam o bico, o delator inventava. Um dia foi chamado pelo Subgerente. O homem lhe pregou um sermão muito comprido e terminou lhe comunicando que ele passaria a entregar a correspondência.
O novo trabalho era mais duro. Ia aos locais mais distantes. A alguns o ônibus não chegava, tinha que caminhar por um compacto areal, enchendo os sapatos de areia. Noutros tinha que atravessar um lamaçal. Entregava toda a correspondência, não fazia como aquele colega que atirava no rio as cartas dos destinatários mais distantes. Chegava em casa tão cansado às vezes, que ia direto pra rede. Foram dois anos nesse trabalho. O Subgerente só o tirou quando se viu satisfatoriamente vingado.,
Vingado estaria amanhã. Depois de trinta anos, um velho sem ter idade de velho. O Banco lhe roubara toda a força, até o respeito que um homem merece. De uns tempos para cá estava ficando distraído, errava o serviço. Os gozadores riam e se divertiam, e os superiores insinuavam que já estava no tempo de se aposentar. Quando requereu a aposentadoria, notou que haviam ficado felizes. Ele sim iria ficar feliz, largando aquela prisão. Ninguém talvez merecesse tanto a aposentadoria.
Os olhos se demoraram no revólver guardado na gaveta. Todo dia o via quando ia coletar os papéis da mesa do colega.Via-o de relance, agora olhava para o revólver atentamente. O pensamento chegou de repente. Vinha se despedir do colega, mas ele tinha saído. O expediente estava perto do fim. Os olhos pregados no revólver. O pensamento. O colega não chegava. Acariciou o revólver. O pensamento. O colega não chegava. Olhou rápido para os lados. Ninguém. Arrancou o revólver e o enterrou no bolso.
- Meu chefe!
O Gerente levantou a cabeça (dignou-se olhar para ele). Os dedos trêmulos acionaram o gatilho. Levou a outra mão para apoiar o revólver e disparou toda a carga no corpo do homem. Ficou olhando a cabeça tombada no birô, até juntar gente.
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Este meu conto foi extraído do livro "Cinco Contistas Potiguares", edição da Fundação José Augosto, de 1976, livro esse que resultou de um Concurso Literário promovido por aquela Entidade.

sábado, outubro 14, 2006

DOIS POEMAS DE HORÁCIO PAIVA

CAFÉ DA MANHÃ
"De toda a memória somente vale
o dom esclarecido de evocar os sonhos" (Antonio Machado)

Muito havia a conquistar -
e quase tudo fora conquistado


No meio do caminho, afinal, indago:

O que, ao tumulto, sobreviveu?

O que esperar dos despojos
dos dias infinitos?


- Nada.


Mas, enfim, posso pisar na serpente,
agora morta,
e tomar o meu café da manhã
serenamente.

- Do livro Navio entre Espadas (2002)


LÁZARO
Herdara a sombra da figueira
as ráízes a doce
umidade da terra

Herdara o paraíso
escuro da noite
a paz e o acalanto das águas

Mas a tua voz chamava-me
ordenando-me a volta à ilusão
das viagens à luz
ofuscante do meio-dia
à poeira das estradas

E eu que julgara haver
cumprido o meu dever
a missão que o senhor me confiara
e isento já da faina diária
dos renascimentos

Retorno ao calor
à peleja com estranhos
à repetição dos dias iguais
ao suor do meu rosto

E como Jacó a servir mais tempo
para merecer Raquel
servo fiel retorno
e já diviso à distância
o tumulto
o choro das irmãs
a casa
repleta de olhares curiosos

Do livro inédito O Som Imóvel.

MORRE GILLO PONTECORVO

Nesta última quinta-feira, perto de completar 87 anos, faleceu Gillo Pontecorvo, diretor de, entre outros filmes, "A Batalha de Argel" (1965) e "Queimada" (1969) , com Marlon Brando. O primeiro, que mostra a verdadeira batalha dos militantes da Frente de Libertação Nacional, da Argélia, contra os colonizadores franceses, é considerado o seu melhor filme, tendo ganho o Leão de Ouro do Festival de Veneza. Estreou no cinema com o episódio " Giovanna" do filme "Die Wind Rose" (1956) , realizado por vários diretores, entre os quais o brasileiro Alex Viany. Seu primeiro longa é "A Grande Estrada Azul, de 1958, estrelado por Yves Montand e Alida Valli. Pontecorvo dirigiu o Festival de Veneza de 1992 a 1996. Nascido em Pisa (Itália), Pontecorvo estudou Química, antes de dedicar-se ao jornalismo. Filiou-se ao Partido Comunista no início dos anos 1940 e participaou da resistência ao nazi-fascismo. Uma curiosidade: segundo consta, "A Batalha de Argel" chegou a ser utilizado pelo Pentágono como "um manual contra o terrorismo". Amarga ironia!










quarta-feira, outubro 11, 2006

UM CLÁSSICO FAZ CINQUENTA ANOS


Foi em 1956 que John Ford realizou, ao meu ver, o seu maior western: "Rastros de Ódio" (The Searchers) . Para comemorar o cinquentenário do filme, a Warner fez um segundo lançamento em DVD, tendo o primeiro ocorrido há uns cinco anos. "Rastros de Ódio" começa com uma porta se abrindo e termina com outra porta se fechando. Como se a porta fizesse as vezes de uma cortina de teatro, que sobe para iniciar uma peça e desce ao encerrá-la. O início mostra a família Edwards (pai, mãe e os três filhos) reunida no alpendre da casa, esperando a chegada de Ethan Edwards (John Wayne) , irmão de Aaron (Walter Cox) , que está regressando à região, depois de uma prolongada ausência. (A analogia com o teatro torna-se aí mais evidente, com os cinco atores dispostos em cena como se estivessem num palco.) Os quinze minutos, mais ou menos, do filme após a chegada de Ethan são passados no interior da casa, com 4 ou 5 planos rápidos do exterior. Num deles, sentado no alpendre, à noite, Ethan observa através da porta aberta o irmão fechar a porta do quarto do casal. Esse detalhe, acrescido de alguns olhares trocados entre ele e a cunhada Martha (Dorothy Jordan), além do gesto carinhoso com que ela retira do baú de Ethan uma manta e o seu chapéu (sob o olhar atento do Reverendo Capitão Samuel Johnson/Ward Bond) , sugere uma atração entre os dois. Com essa sugestão romântica, a afetividade de Ethan com os sobrinhos e a presença de um ou outro lance de humor, esses minutos funcionam como um preâmbulo para o ataque dos índios à casa, matando os seus ocupantes, à exceção da pequena Debbie (Lana Wood) , que, estando no pequeno cemitério, é raptada pelo chefe conhecido como "Cicatriz", e para as consequências desse ato.
Ethan tem a determinação e a tenacidade do herói fordiano na busca do objetivo de recapturar a sobrinha. São anos e anos consumidos na jornada empreendida na companhia do sobrinho adotivo Martin Pawley (Jeffrey Hunter) . Mas essas virtudes do seu caráter seriam mais valorizadas se não viesse à tona o sentimento hostil nutrido contra os índios. Pode-se falar mesmo em ódio sobre esse sentimento, manifestado em várias ocasiões, e que atinge um ponto máximo: ao reencontrar Debbie adulta (Natalie Wood) na comunidade indígena e constatar que ela se transformara numa índia, inclusive sendo uma das esposas de "Cicatriz" , tenta matá-la, mas é impedido por Martin. E se isso não fosse suficiente, salta aos olhos a expressão do seu rosto (o melhor momento da excelente interpretação de Wayne) , ao sair da sala onde estão jovens brancas recapturadas pelo Exército das mãos dos índios e que demonstram ter perdido as características da sua raça.
Acima de tudo, Ethan é um solitário. Isso é bem demonstrado no final, quando fica sozinho, diante da casa dos pais de Laurie (Vera Miles) , como que abandonado por todos, preocupados em levar Debbie, afinal libertada, para o interior da casa. Como diz a letra da música que acompanha a sequência da chegada de Debbie, ele só encontra a paz de espírito montado em um cavalo. E quando a porta se fecha tem-se a certeza de que ele partirá logo em seguida. Cavalgando sem um rumo determinado.
Denso, tenso, "Rastros de Ódio", no entanto, não dispensa o humor, um elemento sempre presente nos filmes de Ford, que aparece no momento certo, conforme já observara o crítico Moniz Vianna. O lance principal ocorre na cerimônia de casamento de Laurie, que fora namorada de Martin, casamento que não chega a ser celebrado, por causa da chegada de Martin com Ethan. Há, inclusive, uma briga entre os dois rivais. E ao final do frustrado evento, num arremate aos lances de humor, o Reverendo Samuel Johnson, irônico, diz mais ou menos assim: "tudo ficou bem, já que não houve casamento".
Haveria muito mais o que dizer desse filme sublime, mas não seria apropriado para as limitações de uma página de Internet. É indispensável, no entanto, mencionar a deslumbrante fotografia de Winton C. Hoch, que já trabalhara com Ford no encantador "Depois do Vendaval" (The Quiet Man/1952) . E ainda a trilha musical do veterano Max Steiner, que, em algumas partes, apresenta um tom dolente e algo de nostalgia.

sábado, outubro 07, 2006

UM COSTUME MACABRO


Há poucos dias li num saite uma matéria de causar uma forte impressão a qualquer pessoa. A máteria fora retirada do "New York Times". Vejam vocês. Em algumas localidades da China, nas mais remotas, é conservado um costume macabro, por ocasião do falecimento de um filho solteiro. A família vai em busca de uma mulher que tenha morrido no mesmo dia, com a finalidade de transformá-la em noiva do extinto. Encontrada a mulher, os dois são enterrados juntos, como se, em vida, formassem um casal. É o chamado casamento do pós-vida e tem a ver, em primeiro lugar, com a tradição chinesa de considerar que as pessoas continuam a existir mesmo depois de mortas e que os vivos têm a obrigação de cuidar dos desejos delas. Em segundo lugar, com a arraigada crença de que uma vida de solteiro é incompleta e, assim, se um homem morre sem ter casado, não será feliz no Além.
O problema é que já náo é fácil encontrar uma mulher viva naqueles lugarejos, por causa da "política do filho único" ali vigente, que obriga as mães a abortarem os fetos femininos. Quando não se consuma o aborto, a criança é abandonada pela mãe.
Dá pra acreditar? Claro. Existe tanta coisa neste mundo de meu Deus que dá de capote no mais imaginoso ficcionista.
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O PLANETA AZUL
Horácio Paiva (RN)
Confesso pensar na morte
para melhor
e à distância
ver o mundo.
E eis que o envolve
em silêncio
e serenidade
um grande perdão -
Azul.

quarta-feira, outubro 04, 2006

UM TELEFONEMA PARA A INFÂNCIA


Não eram 8 horas da noite da sexta passada quando o telefone tocou. Só no apartamento, fui atender a chamada. Uma voz masculina queria falar com o Francisco. É ele, eu disse. Sem perguntar como eu ia, o homem foi iniciando uma espécie de divertido jogo para que eu o identificasse. A primeira pista fornecida: fôramos amigos, mas há exatos 50 anos perdêramos contato o. Não sei por que supus, de imediato, termos nos conhecido no Liceu, onde ingressei em 1956. Ele disse não, não estudei no Liceu (e eu depressa reconheci o meu erro, pois estudara naquele colégio até 1960, o que reduzia para 46 anos o nosso último contato), nós nos conhecemos de Canindé. E o jogo continuou. Ele disse que morava na praça da Basílica (a principal da minha cidade) , argumentei que na praça moravam outros amigos meus. E ele, você se lembra do bar do Maciel? Disse que sim e deduzi que ele fosse o Antônio, filho do Maciel. Segundo erro meu. Aí ele deu a pista definitiva, que morara vizinho ao bar. Então, como um estalo, eu me lembrei do Quinca, filho de Antônio Magalhães e de Dona Mirtes (uma bonita mulher) : então, você é o Quinca. Do outro lado da linha veio a risada jubilosa, por eu, afinal, ter identificado o dono daquela voz, e, acoplada a ela, a diversão, como se aqueles dois homens, já entrados na casa dos 60, estivessem participando de uma uma brincadeira de quando eram meninos. Aí voltamos, por um breve momento, ao presente, cada um querendo saber como o outro estava vivendo. Mas foi por pouco tempo, porque ele queria relembrar um episódio que ocorrera comigo e do qual não me lembrava. Ei-lo.
Um solteirão da nossa cidade gostava de promover na praça, à noite, uma corrida de garotos. Quinca não disse, nem me recordo, se aquele homem dava algum prêmio ao vencedor. Bom, a corrida se dava assim. Era uma disputa entre dois meninos, mas eles não corriam emparelhados. Um menino ficava no início do lado direito da praça e o outro se postava do lado esquerdo. Ao dar-se a largada, o vencedor seria o que chegasse primeiro ao final de um dos lados. Morava ali na praça o Tirso Rabelo, que corria como o diabo, e sempe ganhava. E se gabava de não ter concorrente à sua altura. Pois um dia eu resolvi enfrentar o Tirso. O Quinca não disse se por iniciativa própria ou se fui estimulado por alguns amigos. O certo é que disputei com a fera e ganhei dele. Fui ovacionado e o Tirso gozado pelos demais. O Quinca também não informou se houve revanche. Mas o episódio tem a intromissão do insólito, ou seja, continuo não me lembrando dele, mesmo depois de relatado pelo amigo. O que lembro é que gostava de apostar corrida na praça, mas com outros meninos e as corridas eram promovidas por nós mesmos. Se a memória é seletiva, como dizem, eu devia não tê-lo esquecido. Não é estranho?
Mas o Quinca tinha outra coisa pra me contar. Você talvez não saiba que fui apaixonado por uma parenta sua. Paixão de criança, eu tinha 11 anos. A paixão do meu amigo se chamava Salete, um pouco mais nova do que ele, filha de um irmão do papai. Era uma menina bonitinha, com um leve estrabismo. Na década de 1970 ela morou em Natal durante cerca de um ano, por causa da remoção do marido, da Polícia Federal, para esta cidade. Estava ainda mais bonita, mas evitei dizer isso ao Quinca, que, cinquenta anos depois, parece estar ainda interessado nela. Revelou que conservara uma fotografia de Salete participando de um pastoril e quis saber onde ela estava residindo. Eu não sei, mas prometi que iria cair em campo para saber o paradeiro dela e o informaria no próximo contato que tivéssemos. Porque ele disse que iria me ligar outras vezes, agora que conseguira o meu telefone.
Não é necessário dizer o quanto aquele telefonema me fez bem. Por alguns minutos pude voltar aos tempos bons da infância e retomar o contato com um amigo. E depois de falar com ele, fui rever uma foto em que estamos na companhia de mais 3 garotos, antes do início de uma pelada. Quinca e Boroca (um negrinho muito bom de bola) em pé, enquanto eu, Nei (filho de uma professora, o nome não me ocorre agora) e Tonico, filho de um comerciante. Eu estou ladeado pelos dois, segurando a bola, como centro-avante do ataque. Bons tempos. Velhos tempos. E muitas saudades.