quarta-feira, novembro 22, 2006

ISA

Ele a viu aparecer em uma das duas entradas que dão acesso ao bar, de repente estacar, movendo os olhos na direção dos poucos fregueses ali presentes naquele começo de noite. Ele estava em uma mesa perto da entrada de onde ela surgira, na parte do bar que não é coberta, e o rosto voltado para o mesmo local, de maneira a ser facilmente reconhecido. Ainda assim, achou necessário acenar-lhe com a mão, e o gesto, ele não deixou de perceber, apesar de atento à chegada dela, chamou a atenção dos outros fregueses. Ela acenou também, talvez mais para demonstrar que o vira, e apressou o passo na direção dele, que se levantou para recebê-la. Trocaram beijinhos, ela sentou-se e ele perguntou se o acompanhava na cerveja. Ela preferiu um refrigerante diet.
"Pensei que não viesse".
"Quase que eu não vinha. Relutei muito, antes de me decidir a vir".
"É, já pelo telefone você resistiu muito à minha proposta de nos encontrarmos. Por que, Isa"?
Ela, que estava com as mãos juntas, afastou-as com um gesto largo, como a sublinhar a resposta.
"Mas eu lhe disse por quê. Achava e continuo achando inútil este encontro".
"Tudo bem. Mas o que quero ouvir de você é uma razão plausível para não continuarmos. Por que você diz que não dá certo continuarmos"?
Ela ia começar a responder, mas reteve a fala quando notou o garçom se aproximar, trazendo um refrigerante e um copo. Puxou a argola da latinha, despejou parte do conteúdo no copo, quase o enchendo, sorveu um longo gole, depois do que pôde responder a pergunta.
"Você diisse que queria que lhe desse uma razão plausível, não foi? Pois muito bem. O caso é que não sou livre".
"Não é livre? Como assim"?
Ele alteou a voz, outra vez atraindo a atenção das pessoas sentadas nas mesas próximas. Ela encostou o indicador nos lábios e moveu os olhos para os lados.
"Desculpe, Isa (ele baixou sensivelmente a voz). É que fui surpreendido pelo que você acabou de dizer. Explique-se melhor".
"Eu não sou livre. Já lhe disse".
Ele bebeu um longo gole, depois tirou um cigarro da carteira sobre a mesa e o acendeu. Parecia buscar na bebida e no fumo o apoio necessário para não perder a calma.
"Mas, Isa, você não me garantiu que era sozinha? Não foi você que quis que ficássemos na sua própria casa, com aquele papo de que não se sentiria à vontade num motel. Não foi"?
Ela não respondeu, ele repetiu não foi? ela disse foi.
"E então? Que história é essa de que não é livre"?
"Eu menti pra você. Mas agora vou dizer a verdade: eu vivo com um homem há muitos anos. E eu amo esse homem".
Ele soltou uma risada curta, sem ligar para a curiosidade dos fregueses, nem para a censura gestual que ela podia fazer, mas que não fez. Em seguida, ele disse:
"Você tá querendo gozar com a minha cara".
"Bom, se você não acredita, não posso fazer nada. Acho que não tenho mais nada a fazer aqui".
Ela fez menção de se levantar, mas ele a reteve com um gesto de mão".
"Queria que você me respondesse com toda a sinceridade de que for capaz. Eu não signifiquei nada pra você"?
A mirada de Isa teve a duração de um piscar de olho. Logo em seguida, ela baixou o rosto e não disse uma palavra.
"Não é mais preciso responder. Está muito claro pra mim. Só não está claro é você ter aberto a sua casa para alguém que não representou nada pra você, já que você ama o homem com quem habita nessa mesma casa. Seria pedir demais, Isa, que esclarecesse pra mim essa parte osbscura do nosso relacionamento".
"Você quer mesmo saber"? (Ela tinha levantado o rosto e de novo o encarou.)
"É tudo o que quero saber".
"Será que vai suportar ouvir a verdade"?
"Vá em frente, Isa".
Ela esfregou uma mão na outra, como se as mãos estivessem úmidas e precisassem ser aquecidas.
"Não sei como dizer isso".
"Vá em frente, Isa", ele repetiu, já com uma certa impaciência.
"Bom. Você foi um... uma... digamos... uma espécie de instrumento"...
"Instrumento"?
"Como os outros"...
"Outros? Houve outros homens"?
Ela estava de novo curvada, insistindo em atritar as mãos.
"É ele, sabe? Precisa que eu faça... O caso é que ele... Eu tenho... tá entendendo... que ter contato com outros homens"...
Calou-se de repente, como se aquelas palavras lhe tivessem exigido um esforço sobre-humano, deixando-a sem fôlego para prosseguir. Também calado, ele olhava aquela mulher, com a cabeça quase derreada sobre a mesa, indeciso entre a compaixão e o desprezo. Por fim, disse:
"Você já pode ir".
Ela se ergueu, sem olhar para ele, e, sem um mínimo gesto ou uma palavra de despedida, afastou-se em passos rápidos. Jã ele não tirou os olhos de Isa, até vê-la desaparecer.

sábado, novembro 18, 2006

OUTRA CRÔNICA SOBRE MARLENE


Domingo passado comentei aqui uma crônica de Vinicius de Moraes sobre Marlene Dietrich. Falando da postagem, Moacy Cirne me sugeriu que publicasse uma crônica do potiguar Berilo Wanderley (1934-1979) , também crítico de cinema, sobre a atriz de O Anjo Azul, o que faço agora. Num texto delicioso (que integra o livro Cine Lembrança, Sebo Vermelho, 2004) , que deixa a sensação de ser inspirado em um sonho, BW mostra o poder de sedução da vampe Marlene. E também a paixão que ela lhe despertava e em milhões de cinéfilos espalhados pelo mundo. (Aliás, como uma homenagem a ela, vou ver daqui a pouco. aí pela décima vez, O Expresso de Shangai (Josef Von Sternberg/1932) . Ei-lo.
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QUE, MARLENE...
E NÃO É QUE MARLENE...
E não é que MARLENE DIETRICH acaba de entrar, sem bater, e cheia de provocação, ainda segurando o trinco da porta, me grita: "Quero um uísque"! Mas, a esta hora, MARLENE, é quase meia-noite, que dirão os vizinhos? E, além do mais, você assim... nesse vestido aberto... essas pernas de fora... me deixa em paz, MARLENE...
A mulher está impassível, mão no trinco da porta, um olhar de onça no cio, cigarro no canto da boca. Só falta cantar "LOLA LOLA". Que fazer? Largo o livro e saio, como um louco, em busca de um uísque. Grito pelos corredores da casa: "Um uísque para MARLENE DIETRICH"! Pareço Ricardo I querendo trocar seu reino por um cavalo.
Afinal, volto, copo de uísque na mão. Puro em um copo pequeno, sem gelo, como ela gosta. Quando chego, a terrível mulher já não está com a mão no trinco da porta. Está deitada no sofá, olhando para o teto, jeito muito debochado, uma perna na parede, outra atirada para o chão, cigarro ainda no canto da boca. Passo-lhe o uísque. Não vou dizer que ela segurou o copo, porque é pouco. Ela agarrou o copo. Com garras, com unhas, que unhas terríveis as de MARLENE DIETRICH, com dentes. E tomou a dose de uma só vez. Cinco minutos depois, pulava do sofá e cantava exatamente "Lola Lola". No meio da sala, lânguida. Cigarro entre os dedos, corpo em chama, pernões para o ar.
MARLENE, MARLENE..
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REVISITANDO BILAC
Vem ver querida as estrelas
Mas os teus ouvidos afina
Pois elas estão falando de nós.
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A QUEM POSSA INTERESSAR
A L & PM acaba de lançar uma nova edição de Os Cães Ladram, de Truman Capote, em cujas páginas aparece a entrevista do escritor com Marlon Brando, em 1956, a qual foi tema de uma postagem neste blogue semanas atrás.

quarta-feira, novembro 15, 2006

POR QUE GOSTAR OU NÃO DE UM ATOR (OU ATRIZ)?


A morte recente de Jack Palance me fez lembrar de um colega dos meus tempos de estudante em Fortaleza. Ali estava um fã de carteirinha do ator de Shane. Enquanto gostávamos dos atores que faziam o papel de mocinhos, ele gostava de Jack Palance. De todos os cinéfilos que conheci, foi o único a admirar Jack Palance. Uns gostavam, mas pela sua qualidade como ator e jamais sem o fervor do meu colega. Quando viu "Átila, Rei dos Hunos", ficou revoltadp com a armadilha que os inimigos de Átila prepararam contra ele, para capturá-lo. Achara uma "sacanagem". Ouvindo-o, parecia que tinha sido Palance em pessoa que sofrera o golpe, pois, em vez de falar o nome de Átila, falava o nome do ator. Os colegas o gozavam por essa idolatria a um ator que a maioria abominava. Pensando nele, imaginei, se ainda estiver entre nós, como recebeu a notícia da morte do seu ídolo. Mas talvez ele já não goste de Palance, como naqueles anos distantes.
Um amigo aqui de Natal é tiete de Richard Widmark, ator ainda vivo e perto dos 92 anos. Ísso desde os tempos de solteiro. Das atrizes, a belezinha Natalie Wood era a sua preferida. Mas ele gosta ainda mais de Widmark. Ele demonstrou essa preferência em um de nossos inumeráveis encontros num bar, na companhia de mais dois amigos. Quatro cinéfilos juntos, era mais do que natural que o cinema fosse o assunto predominante. Pois numa vez um de nós lhe fez a segunte pergunta: "Galego, se você tivesse a oportunidade de conhecer ou Natalie Wood, ou Richard Widmark, qual dos dois você escolheria"? Ele não pensou um segundo para responder que preferiria o ator de "A Última Carroça". Não sei se foi nessa noite que ele, num momento em que ia levar o copo à boca, fez-nos um brinde, imitando o mesmo gesto do ídolo num filme dele exibido naqueles dias em Natal.
Curioso isso. Deve haver uma explicação para alguém gostar tanto de uma pessoa, ao grau de uma adoração, a qual ele jamais verá em pessoa. Não é apenas a admiração pelo talento do ator. No caso desse meu colega de Fortaleza, já é um caso de empatia por um ator que ele idolatrava. Ele sentiu a "sacanagem" , não contra o personagem, mas contra o ator, e como se estivesse no lugar de Palance. Alguma coisa a gente vê num ator, que nos faz desejar que ela tenha sido o nosso pai, ou um tio, ou o irmão mais velho, até mesmo um amigo. E sentir tanto a sua morte.
Por outro lado, existem aqueles atores e atrizes que são detestados por algum espectador. Em sua fase de crítico de cinema, Vinicius de Moraes antipatizava pra valer com uma atriz, tanto quanto adorava Marlene Dietrich. Era Jane Powell, que trabalhou em musicais da Metro, que teve um certo prestígio nas décadas de 40 e 50 (entre seus filmes, destaca-se "Núpcias Reais", com o extraordinário Fred Astaire). Ele chegou a escrever-lhe um poema , manifestando a ojeriza que tinha por ela, poema que lhe rendeu algumas cartas desaforadas de fãs da atriz. Uma vez li um artigo de um jornalista em que ele dizia que Sérgio Porto (o Stanislaw Ponte Preta) não ia com a cara de Marlon Brando. Mas não ia mesmo, ao ponto de questionar o talento de Marlon. Um canastrão, na opinião de Sérgio Porto. Conta o articulis ta que ele costumava dizer, quando era contestado pela sua opinião, "vocês, um dia, ainda vão me dar razão". Grande Stanislaw, nessa você errou redondamente.
Já eu tenho o "meu" ator. Isso desde jovem. É o James Mason. Gosto de outros, mas ele é o meu preferido. Por, outro lado, para citar só um exemplo, e de um ator vivo, não simpatizo com Gerard Depardieu, ainda que reconheça o seu valor como intérprete. Já vi muitos filmes dele, mais pelo diretor ou por um outro ator ou atriz do elenco dos quais goste. É isso. Talvez os estudiosos da mente, como o meu irmão Bosco, possam ter uma explicação para isso.

domingo, novembro 12, 2006

2 POETAS E SUAS IDOLATRADAS ATRIZES


Marlene Dietrich veio ao Brasil na década de 1950. Duas crônicas foram escritas sobre ela, antes de sua chegada, uma contra, outra a favor. A primeira, de Carlos Drummond de Andrade, publicada no Correio da Manhã. Com o título de "Provocação"?, o poeta de José subestimava a visita de Marlene ao nosso país, considerando-a como uma provocação aos fãs de Greta Garbo, entre os quais ele se incluía. Pra que, meu Deus do Céu, ele foi fazer isso? Vinicius de Moraes, marlenófilo ardoroso, escreveu uma crõnicia dirigida a Drummond com o extenso título de "PROVOCAÇãO? NÃO, POETA CARLOS. É que outro valor maior se alevanta". Demonstrando revolta e indignação, mas respeitando Drummond, chegando a chamá-lo de "querido" e reconhecendo a sua grande estatura de poeta, Vinicius faz uma defesa apaixonada da grande Marlene. Trata-a por a Ùnica, a Maravilhosa, Anjo Azul , Divina Alemâ, enquanto chama Greta de "Fugidia Sueca". E tendo conhecido Marlene e Greta, Vinicius faz uma comparação entre as duas. Começa dizendo que Greta é uma ulher fascinante, mas na tela. E relata o contato que teve com ela na casa de uma socialite francesa. A uma certa altura, ele diz a Greta que admirou a sua atuação em vários filmes, os quais cita. Em vez de retribuir o elogio, a sueca o fita com um "olhar de salmão defumado", em seguida vira-se para o garçom que lhe trazia numa bandeja uma "estranha beberagem, sobre a qual flutuava uma pétala de rosa". sacudiu a cabeça e exiigiu um drinque de vodca. O fato causou um mal-estar geral, pois a bebida oferecida era uma especialidade da anfitriã, que teve de se virar para satisfazer a exigência da convidada.
Já de sua adorada Marlene, Vinicius narra um episódio ocorrido num bar de Paris, onde ele e um amigo "enxugavam" um uisquinho, na ocasião os únicos presentes no bar. De repente, não mais que de repente (como naquele seu poema), eis que entra Marlene, acompanhada da gerente do estabelecimento. A atriz senta-se e (Vinicius não o diz, mas, suponho, que a pedido da amiga) começa a cantar uma série de canções. Percebe-se claramente que ele não consegue conter o júbilo e o orgulho de ser um dos cinco espectadores (além do amigo, da gerente do bar, do garçom e do barman) a ouvir Marlene cantar ali pertinho dele, naquele ambiente fechado num certo dia em Paris. E provoca Drummond, mandando-o perguntar a Garbo se ela faria isso. "Mande, poeta Carlos". Um pouco adiante ele confessa que ficou de "joelho bambo" ao ver a alemã pela primeira vez em Hollywood. E pede o aval de Heminguay, "que não é qualquer toco de vela", para quem Marlene foi a mais extraordinária mulher que conheceu.
No parágrafo final da crônica, Vinicius adverte Drummond que não venha de Mallarmé, que ele pegará o seu Rimbaud. É que na crõnica do mineiro, ele, para exaltar Greta, cita este verso de Mallarmé' "si chère de loin et proche et blanche". E Vinicius responde, citando dois versos de Rimbaud: "O Femme, morceau d'entrailles, pitié douce" e "c'est toi que pends à nous, porteuse de mamelles nous te berçons, charmante e grave Passion".
Ñão sei. Posso estar enganado. Mas depois de ler o texto de Vinicius (que está no livro Para Viver Um Grande Amor, Companhia das Letras/1991) fiquei com a suspeita de que essa "briga" entre os dois poetas envolvendo suas adoradas atrizes foi combinada. Pode ser que a minha suspeita seja infundada, mas que me deu a impressão de algo combinado, isso deu. Infelizmente, não conheço a crônica de Drummond. Nem sei se ele respondeu a Vinicius. Poetas...

quarta-feira, novembro 08, 2006

A PANTERA


Bonita. Muito bonita. Os olhos bem abertos, agateados, que davam ao rosto um ar de pantera, a boca parecendo ter o tamanho certo - nem grande, nem pequena. Os braços - e aí um pequeno senão na sua beleza - eram um pouco musculosos, assim formados, certamente, por exercícios em uma academia. Quando a viu pela primeira vez, ela surgindo de repente, com o olhar provocador, foi tomado por uma sensação estranha. Um impacto. Ou, antes, um susto pelo inesperado da presença da moça, como algo ameaçador, embora revestido de beleza. Ela estava colada à vitrine da parte lateral de uma perfumaria, localizada num centro comercial. O que sentiu, de tão forte, quase como se percebesse uma ameaça de agressão (e a beleza dela tinha um quê de agressivo), o fez olhar rapidamente para a moça e continuar a caminhada de todo final de tarde, dando várias voltas pelos dois longos quarteirões, no primeiro dos quais se situava aquele centro comercial. Seguiu com a imagem da moça na cabeça. Atingiu o fim do segundo quarteirão, dobrou à direita, passou em frente a um antigo colégio, depois pegou outra vez a direita e foi percorrendo os dois quarteirões do lado oposto, até alcançar outra vez o centro comercial. Era assim todas as tardes, quando começava a escurecer. Ao se aproximar da perfumaria, já se sentia preparado para não sofrer o mesmo efeito de minutos antes e foi até à vitrine para examinar a moça. E, embora tocado pela agressividade de sua beleza, permaneceu uns dois ou três minutos observando detalhadamente o rosto e a mão que segurava um frasco de perfume de nome inglês.
Ao voltar para o apartamento vazio, desfez-se da bermuda, do tênis, da camiseta, enxugou o suor do corpo, escolheu um cd, deitou-se na cama para ouvi-lo. Como fazia todas as tardes, antes de tomar banho e depois comer o jantar frugal. Mas daquela vez ocorreu uma quebra na rotina. Ele ouvia as músicas, mas sem a mesma concentração. Em algumas músicas até que a concentração era inteira (talvez porque fosse as de que gostasse mais), já em outras a imagem da moça se sobrepunha e ele não tinha força para rejeitá-la. Quando mais tarde foi ler,em muitos momentos parecia "ver" a moça presente no relato. Houve uma vez que ao ler a descrição dos olhos de um personagem feminino, imaginou que eles fossem iguais aos dela. Interrompeu a leitura, e, com o livro seguro na mão, pôs-se a pensar na moça. E pelo resto da noite não conseguiu livrar-se da sua imagem e teve a certeza, ao deitar-se, de que ela apareceria num sonho, mas isso não ocorreu.
No dia seguinte, ao despertar, o primeiro pensamento foi para ela. Rápida, veio a resolução de tomar a providência de evitá-la, alterando o itinerário da caminhada. Ficou cada vez mais distante da perfumaria, na certeza de que, não vendo a moça, ela lhe sairia da cabeça. A providência deu resultado, mas não imediato, por alguns dias a imagem da moça, o ar de pantera, o rosto de uma beleza perfeita surgiam, de repente, por entre as páginas de um livro, no meio de uma música, na tela da televisão. Até que um dia ela desapareceu afinal. Experimentou uma grande satisfação, como se tivesse ganho um prêmio. Com o passar do tempo, livre dela, chegou a pensar em vê-la outra vez, pois acreditava que não iria lhe acontecer mais nada, a não ser a indiferença. Saiu uma tarde, disposto a retomar o antigo itinerário, mas, ao chegar a poucos metros da perfumaria, algo estranho o dominou, impedindo-o de seguir. Voltou, então, pelo caminho que o levara até ali, continuando a caminhada no sentido das outras tardes. Enquanto andava, percebeu, num misto de decepção e raiva, que não estava de todo livre dela.
Um dia foi ao centro da cidade. Fazia anos que não ia lá, para não ser incomodado pelo barulho dos carros de propaganda e do número excessivo de pedintes e de pessoas oferecendo cartões de crédito, empréstimos, entregando papeizinhos de serviços diversos. Mas um amigo lhe dissera que tinha visto numa grande loja o cd que ele procurara, sem sucesso, em outros locais da cidade. Encontrou o cd, após uma busca que levou uns dez minutos, uma única unidadade, escondido por outros discos, como se estivesse à sua espera. Pagou-o e, em vez de sair pela porta de entrada, preferiu a porta dos fundos. Ao passar pela seção de perfumaria, sem uma razão que justificasse o ato, como impelido por alguma coisa da qual não pudesse escapar, desviou a vista para a parede ao lado. E viu. No alto da parede, ela, os olhos parecendo mais agateados, a expressão no rosto parecendo ainda mais agressiva, olhando desafiadora para ele, dando-lhe a impressão de querer saltar do pôster para cima dele. Virou-se com tanta rapidez que o corpo perdeu um pouco o equilíbrio e precisou apoiar-se numa prateleira para não cair. Logo em seguida, retomou a caminhada, apressado, esbarrando nas pessoas, sem se desculpar, ansioso para encontrar a saída. E mesmo depois de sair da loja, continuou a andar veloz, quase correndo, como se achasse que a moça, de fato, tinha saltado do pôster e, tão rápida quanto ele, estivesse em seu encalço. Nem quando entrou no carro sentiu-se salvo. Em disparada voltou para o apartamento. E, à noite, sonhou com ela.

domingo, novembro 05, 2006

UM ENCONTRO DE CAPOTE COM BRANDO


Há poucos dias reli "Os Cães Ladram", de Truman Capote, edição da Civilização Brasileira, 1977.
É uma coletânea de vários assuntos abordados pelo escritor e jornalista americano. O ponto mais alto do livro é uma entrevista que Capote fez com Marlon Brando em 1956, no Japão, onde o ator filmava "Sayonara". Não é uma entrevista no padrão comum, em pingue-pongue, com o entrevistador perguntando e o entrevistado respondendo. Sendo acima de tudo um escritor,Capote descreve o ambiente onde a entrevista é realizada (o quarto de um hotel), faz observações sobre as empregadas que servem Marlon e, mesmo quando a conversa é estabelecida, fala do comportamento do ator com elas e até de detalhes sobre este, como um início de calvície e a presença incômoda de alguns quilos a mais no seu peso. É uma matéria longa, de quase 40 páginas, intitulada "O Duque em seus domínios", em que Capote consegue desnudar um tanto da personalidade de Brando, socorrendo-se do entrevistado e de pessoas que com este conviveram, relembrando revelações delas. Uma dessas revelações diz respeito à conduta do ator nas filmagens de "Sayonara", quando Capote afirma que ele está "sempre disposto a cooperar com os seus companheiros de trabalho, mas, de um modo geral, socialmente alheio, preferindo, nos intervalos de filmagem, ficar sozinho lendo livros de filosofia, ou rabiscando num caderno escolar".
O desnudamento do ator aparece, entre outras vezes, quando ele fala do sofrimento das pessoas sensíveis, como ele, e da importância do amor. "Uma pessoa sensível (diz) recebe cinquenta impressões onde alguém mais pode receber sete. É vulnerável demais, facilmente brutalizada e ferida. Quanto mais sensível, mais será violentada, criará escaras". E sobre o amor: "Que outra razão pode existir para viver, se não o amor? Este tem sido o meu maior problema. A minha incapacidade de amar alguém".
Uma surpreendente revelação que Capote faz de Marlon é o seu trato com as crianças, aludindo ao seu amor pelos pequeninos, mostrando-se à vontade na companhia deles, fazendo brincadeiras com eles, "parecendo um coetâneo emocional, um conspirador". Ao ler esse testemunho do escritor, pude, então, compreender a indignação do ator contra Chaplin, quando presenciou este passar uma severa descompostura num filho pequeno, durante um intervalo nas filmagens de "A Condessa de Hong Kong".
E os atores preferidos de Brando? Ao ser indagado, Brando fica um instante calado, como se pensasse, ou não quisesse responder. Capote insiste, citando alguns atores: Lawrence Olivier, John Gielgud, Gerard Philippe, Jean-Louis Barrault e mais uns dois de que não me lembro. Brando diz que Philippe é um bom ator (ele morreria três anos depois, aos 38 anos), assim como Barrault, e, ao mencionar o segundo, faz referência ao filme "Les Enfants du Paradise" ("O Boulevard do Crime", Marcel Carné/1945) como aquele que mais o impressionou, talvez o maior filme já feito, na sua opinião. E acrescenta que a única vez em que se apaixonou por uma atriz na tela foi ao ver Arletty, principal atriz desse obra-prima do cinema. Mas os seus preferidos são Spencer Tracy, Paul Muni ("Scarface", Hawks/1932) e Cary Grant. Eis o que ele diz: (Spencer Tracy) "É o tipo do ator que eu gosto de ver trabalhar. A maneira como ele se contém, se recolhe - depois salta para marcar o seu ponto e se recolhe outra vez. Tracy, Muni, Cary Grant. Eles sabem o que fazer. Pode-se aprender alguma coisa com eles".
Se não tivesse muitos outros atrativos, só por esse encontro entre Brando e Capote "Os Cães Ladram", cujo título é inspirado no conhecido provérbio árabe "Os cães ladram, mas a caravana passa, já seria um livro de valer a pena ser lido.

quarta-feira, novembro 01, 2006

A POESIA DE LETÍCIA TORRES


Este espaço é hoje ocupado por Letícia Torres, uma nova poeta que surge no Rio Grande do Norte, que logrou a segunda colocação no Segundo Concurso de Poesia Zila Mamede. Ela nasceu em Caicó, mas mora em Natal desde criança e trabalha em publicidade. Os 2 poemas aqui publicados fazem parte do livro que apresentou os poemas dos 3 primeiros colocados e de outros candidatos que receberam uma Menção Honrosa. A edição, deste ano, é da Potiguar Notícias Gráfica e Editora. Eis os poemas.
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O BARULHO DO TEMPO
Começa a chover em cada cor dos sonhos que não consegui ter.
As tintas escorrem lavando meus cabelos curtos como se fossem roupas.
Sinto uma pressa que só se acalma na advertência
Nada pode ser afirmado sem que uma questão surja como toda solução.
Os dias não pedem licença.
O tempo vai passando com a impressão de que se indispõe aos pensamentos.
A consequência mora no antes?
Percebida em seu erro, se mostra no depois de nossas vidas?
Quero a confusão de tudo o que de tão perto finalmente faz silêncio.
Conhecer o vazio é criá-lo desabitado?
O barulho dos passos se solta dos pés
Para em nós carregarmos o relento do mundo.
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A CRÍTICA DO DESESPERO
A palavra "desespero" fala dos que cansaram?
Ou dos que inconformados com a falta que sentimos
Não conseguem desistir?
Talvez esse começo seja resposta para uma resposta que demora.
O que assumimos no instante em que a vida nos alcança?
Fundamentada em equivocados avisos
A proteção se mostra frágil se nos chamam pelo nome.
Para o disfarce usamos como biombo as idéias dos outros.
Absorvemos na ânsia do vazio que nunca pára de doer.
Transformados em repetição como desmascarados pelos sentidos
Assim nenhum instinto é aceiyo como revelação.

quarta-feira, outubro 25, 2006

CINE CANINDÉ

Ficava na praça da Basílica (o nome legítimo da praça não lembro, mas era por essa denominação que ela era conhecida). Do lado esquerdo, a duas casas da esquina, onde ficava o bar do Seu Zuil, administrado pelo irmão Nenen. Cine Canindé. Ali começou o meu amor pelo cinema, vendo seriados, bangue-bangues, Jim das Selvas (com o ex-Tarzan Johnny Weissmuller) e outros gêneros de filmes. E me deparei, nas sessões de quarta (ou quinta), sábado e domingo com alguns espectadores curiosos. Uns chatos, como aquele que via o filme lendo as legendas, nem sempre usando a pronúncia certa das palavras, como quando dizia dolares. Ou a senhora, que morava vizinho e por isso entrava no cinema com o soar do gongo, conduzindo uma cadeira. Alguns que sempre ocupavam a mesma cadeira. E vez por outra um menino tinha visto o filme em Fortaleza, e ao revê-lo no nosso cinemazinho (talvez como uma forma de gabolice por ter conhecido um cinema da capital) , antecipava o que ia acontecer numa cena.
Nos créditos da maioria dos filmes aparecia o nome de João Branco como o responsável pelas legendas. Esse nome era uma garantia para os meninos da boa qualidade do filme... Ah, a ingenuidade, a inocência infantis que os adultos perdem e, por vezes, lhes fazem tanta falta!
A figura mais curiosa, no entanto, do Cine Canindé era o seu proprietário. César Campos. O homem mais rico da cidade. Além do cinema, possuía a melhor loja de Canindé, um posto de gasolina, um bar-restaurante, fazenda, imóveis. Antes de começar a sessão, ficava na escada que dava acesso à sala de projeção. Sozinho, olhando para frente, talvez pensando em negócios. Numa hora invariável da manhã vinha caminhando da loja até sua casa, que ficava depois da nossa, para almoçar. Caminhava pelo meio da rua, sem cumprimentar ninguém. Talvez um ou outro connhecido, com um leve balançar de cabeça. As pessoas o tinham por orgulhoso, mas hoje creio que não o era. Esquisitão, sim. Ou tímido.
Nos primeiros tempos de casado, o laconismo do marido causou em Dona Julinha um sério incômodo. Ela chegou a confidenciar o fato a um irmão e sócio de César na loja, pedindo-lhe ajuda. ( Chico Campos era um antípoda de César. Comunicativo, espirituoso e de uma cortante ironia para com os desafetos.) Chico atendeu ao pedido da cunhada e parece que, depois da conversa que tiveram, o comportamento de César com a esposa melhorou. Mas, apesar do seu jeitão, César tinha alguns amigos, entre os quais o meu pai (depois ocorreu um estremecimento nas relações entre os dois, acho que por questão de negócios). Pois o papai, na época em que eles se davam, sempre falava bem do César. Até revelava uma faceta insuspeitada do seu temperamento: o senso de humor. Ele tinha um amigo, que nascera aqui em Natal, mas chegara a Canindé vindo de outra cidade do Ceará, com o qual ia toda tarde tomar cerveja no bar do Maciel. Sempre a uma determinada hora, como ocorria quando vinha para casa almoçar.
Enquanto morei em Canindé, nunca recebi um cumprimento dele. Tudo bem, era uma criança e se César não cumprimentava a maioria dos habitantes adultos, não iria fazê-lo com uma criança, ainda que eu fosse filho de um dos seus poucos amigos. Mas o Chico, por exemplo, me cumprimentava e muitos outros homens também. Uma noite, já estudando em Fortaleza, entrei numa farmácia e qual não foi o meu espanto ao encontrar ali o César. Usava um terno (branco, se não me engano), talvez tivesse vindo de um cinema, ou indo. Estava recostado a um balcão, esperando que alguém da família adquirisse um medicamento; provavelmente Dona Julinha, mas não tenho certeza. Ao me ver, balançou a cabeça e esboçou um sorriso.

sábado, outubro 21, 2006

O ÚLTIMO DIA


Amanhã almoçar desassossegado, os olhos pinguepongueando entre o prato e o relógio. O ônibus lotado vai parar em cada esquina, deixá-lo nervoso com o tempo se escoando. E no entanto vai chegar ao Banco antes da hora. Assinar o ponto, ir para o birô e começar a trabalhar. A tarde toda se levantará milhões de vezes com o retinir da campainha, um documento pra deixar ali, outro documento pra deixar acolá, outro para o Gerente, que o receberá de cabeça baixa, não se dignando jamais a olhar pra ele. No fim do expediente estará muito cansado e muito emputecido. Só que só terá amanhã e pronto. Será a última vez que engolirá a comida e se espremerá no ônibus e obedecerá a uma campainha enervante.
- O seu nome é essa bichinha aqui em cima da mesa. Quando eu tocar, é pra atender imediatamente.
Um chefe lhe gritara na frente de todo mundo, baixara a cabeça, não revidara, mas nunca esqueceu a humilhação. Quando o chefe morreu, foi o único da seção a não ir ao enterro.
Trinta anos tem isso. No começo, uma cidadezinha perdida no alto sertão. O Gerente ditador foi logo lhe advertindo na apresentação.
- O sr deve dedicar-se inteiramente ao Banco. Fique ciente de que não há dia nem hora impróprios para essa dedicação. Portanto, nada de corpo mole. Aqui eu exijo trabalho. Trabalho e pontualidade. Pode ir-se. Há bastante trabalho à sua espera.
Mentiroso aquele Gerente não era. Trabalho nunca faltava, até aos domingos. O homem tinha uma devoção doentia pelo Banco. Tinha suas obrigações, e não eram poucas, e ainda se dava tempo de andar de funcionário em funcionário, fiscalizando, ordenando, cobrando eficiência. Sofreu o diabo nas garras daquele fanático. No dia em que casou, trabalhou até quase a hora de ir pra igreja, só folgara o domingo, na segunda bem cedo já estava trabalhando. O primeiro filho nasceu, o segundo nasceu, quem disse que gozou folga?
- O Banco não tem nada que sua mulher viva parindo feito gata.
Filho duma puta. Hoje deve estar pra lá do inferno. Reviu-o já aposentado, um velho de pés arrastando, a cara abobalhada de quem o cargo sugou toda a dignidade. Veio apertar humilde sua mão e não teve coragem para recusar o cumprimento.
Veio transferido para a capital, quando ela nem tinha pretensões de crescer ao ponto que cresceu. Casa perto do Banco, num trecho de pouco tráfego. Não durava mais de dez minutos a caminhada para o Banco, mas nunca se serviu disso para entrar em cima da hora, tinha se habituado com a pontualidade exigida pelo primeiro Gerente.
- O sr assinará na folha suplementar. Assim aprenderá a ser pontual.
O Chefe o punia por se atrasar cinco minutos. Um dilúvio caía sobre a cidade, mas o Chefe não perdoou. Nunca mais chegou atrasado, chovesse como chovesse, nem quando teve de mudar para distante do Banco.
Na capital, o Gerente não tinha tempo de fiscalizar os funcionários, como o Gerente da cidadezinha. O Subgerente é que cumpria essa função. Foram muitos, cada um parecia querer superar o outro em rigidez. Havia os cupinchas do Subgerente que lhe denunciavam os colegas faltosos. Um era contínuo, como ele. Se fazia íntimo dos colegas, para ouvir um desabafo que fosse para informar ao Subgerente. Os colegas foram descobrindo, trancavam o bico, o delator inventava. Um dia foi chamado pelo Subgerente. O homem lhe pregou um sermão muito comprido e terminou lhe comunicando que ele passaria a entregar a correspondência.
O novo trabalho era mais duro. Ia aos locais mais distantes. A alguns o ônibus não chegava, tinha que caminhar por um compacto areal, enchendo os sapatos de areia. Noutros tinha que atravessar um lamaçal. Entregava toda a correspondência, não fazia como aquele colega que atirava no rio as cartas dos destinatários mais distantes. Chegava em casa tão cansado às vezes, que ia direto pra rede. Foram dois anos nesse trabalho. O Subgerente só o tirou quando se viu satisfatoriamente vingado.,
Vingado estaria amanhã. Depois de trinta anos, um velho sem ter idade de velho. O Banco lhe roubara toda a força, até o respeito que um homem merece. De uns tempos para cá estava ficando distraído, errava o serviço. Os gozadores riam e se divertiam, e os superiores insinuavam que já estava no tempo de se aposentar. Quando requereu a aposentadoria, notou que haviam ficado felizes. Ele sim iria ficar feliz, largando aquela prisão. Ninguém talvez merecesse tanto a aposentadoria.
Os olhos se demoraram no revólver guardado na gaveta. Todo dia o via quando ia coletar os papéis da mesa do colega.Via-o de relance, agora olhava para o revólver atentamente. O pensamento chegou de repente. Vinha se despedir do colega, mas ele tinha saído. O expediente estava perto do fim. Os olhos pregados no revólver. O pensamento. O colega não chegava. Acariciou o revólver. O pensamento. O colega não chegava. Olhou rápido para os lados. Ninguém. Arrancou o revólver e o enterrou no bolso.
- Meu chefe!
O Gerente levantou a cabeça (dignou-se olhar para ele). Os dedos trêmulos acionaram o gatilho. Levou a outra mão para apoiar o revólver e disparou toda a carga no corpo do homem. Ficou olhando a cabeça tombada no birô, até juntar gente.
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Este meu conto foi extraído do livro "Cinco Contistas Potiguares", edição da Fundação José Augosto, de 1976, livro esse que resultou de um Concurso Literário promovido por aquela Entidade.

sábado, outubro 14, 2006

DOIS POEMAS DE HORÁCIO PAIVA

CAFÉ DA MANHÃ
"De toda a memória somente vale
o dom esclarecido de evocar os sonhos" (Antonio Machado)

Muito havia a conquistar -
e quase tudo fora conquistado


No meio do caminho, afinal, indago:

O que, ao tumulto, sobreviveu?

O que esperar dos despojos
dos dias infinitos?


- Nada.


Mas, enfim, posso pisar na serpente,
agora morta,
e tomar o meu café da manhã
serenamente.

- Do livro Navio entre Espadas (2002)


LÁZARO
Herdara a sombra da figueira
as ráízes a doce
umidade da terra

Herdara o paraíso
escuro da noite
a paz e o acalanto das águas

Mas a tua voz chamava-me
ordenando-me a volta à ilusão
das viagens à luz
ofuscante do meio-dia
à poeira das estradas

E eu que julgara haver
cumprido o meu dever
a missão que o senhor me confiara
e isento já da faina diária
dos renascimentos

Retorno ao calor
à peleja com estranhos
à repetição dos dias iguais
ao suor do meu rosto

E como Jacó a servir mais tempo
para merecer Raquel
servo fiel retorno
e já diviso à distância
o tumulto
o choro das irmãs
a casa
repleta de olhares curiosos

Do livro inédito O Som Imóvel.

MORRE GILLO PONTECORVO

Nesta última quinta-feira, perto de completar 87 anos, faleceu Gillo Pontecorvo, diretor de, entre outros filmes, "A Batalha de Argel" (1965) e "Queimada" (1969) , com Marlon Brando. O primeiro, que mostra a verdadeira batalha dos militantes da Frente de Libertação Nacional, da Argélia, contra os colonizadores franceses, é considerado o seu melhor filme, tendo ganho o Leão de Ouro do Festival de Veneza. Estreou no cinema com o episódio " Giovanna" do filme "Die Wind Rose" (1956) , realizado por vários diretores, entre os quais o brasileiro Alex Viany. Seu primeiro longa é "A Grande Estrada Azul, de 1958, estrelado por Yves Montand e Alida Valli. Pontecorvo dirigiu o Festival de Veneza de 1992 a 1996. Nascido em Pisa (Itália), Pontecorvo estudou Química, antes de dedicar-se ao jornalismo. Filiou-se ao Partido Comunista no início dos anos 1940 e participaou da resistência ao nazi-fascismo. Uma curiosidade: segundo consta, "A Batalha de Argel" chegou a ser utilizado pelo Pentágono como "um manual contra o terrorismo". Amarga ironia!










quarta-feira, outubro 11, 2006

UM CLÁSSICO FAZ CINQUENTA ANOS


Foi em 1956 que John Ford realizou, ao meu ver, o seu maior western: "Rastros de Ódio" (The Searchers) . Para comemorar o cinquentenário do filme, a Warner fez um segundo lançamento em DVD, tendo o primeiro ocorrido há uns cinco anos. "Rastros de Ódio" começa com uma porta se abrindo e termina com outra porta se fechando. Como se a porta fizesse as vezes de uma cortina de teatro, que sobe para iniciar uma peça e desce ao encerrá-la. O início mostra a família Edwards (pai, mãe e os três filhos) reunida no alpendre da casa, esperando a chegada de Ethan Edwards (John Wayne) , irmão de Aaron (Walter Cox) , que está regressando à região, depois de uma prolongada ausência. (A analogia com o teatro torna-se aí mais evidente, com os cinco atores dispostos em cena como se estivessem num palco.) Os quinze minutos, mais ou menos, do filme após a chegada de Ethan são passados no interior da casa, com 4 ou 5 planos rápidos do exterior. Num deles, sentado no alpendre, à noite, Ethan observa através da porta aberta o irmão fechar a porta do quarto do casal. Esse detalhe, acrescido de alguns olhares trocados entre ele e a cunhada Martha (Dorothy Jordan), além do gesto carinhoso com que ela retira do baú de Ethan uma manta e o seu chapéu (sob o olhar atento do Reverendo Capitão Samuel Johnson/Ward Bond) , sugere uma atração entre os dois. Com essa sugestão romântica, a afetividade de Ethan com os sobrinhos e a presença de um ou outro lance de humor, esses minutos funcionam como um preâmbulo para o ataque dos índios à casa, matando os seus ocupantes, à exceção da pequena Debbie (Lana Wood) , que, estando no pequeno cemitério, é raptada pelo chefe conhecido como "Cicatriz", e para as consequências desse ato.
Ethan tem a determinação e a tenacidade do herói fordiano na busca do objetivo de recapturar a sobrinha. São anos e anos consumidos na jornada empreendida na companhia do sobrinho adotivo Martin Pawley (Jeffrey Hunter) . Mas essas virtudes do seu caráter seriam mais valorizadas se não viesse à tona o sentimento hostil nutrido contra os índios. Pode-se falar mesmo em ódio sobre esse sentimento, manifestado em várias ocasiões, e que atinge um ponto máximo: ao reencontrar Debbie adulta (Natalie Wood) na comunidade indígena e constatar que ela se transformara numa índia, inclusive sendo uma das esposas de "Cicatriz" , tenta matá-la, mas é impedido por Martin. E se isso não fosse suficiente, salta aos olhos a expressão do seu rosto (o melhor momento da excelente interpretação de Wayne) , ao sair da sala onde estão jovens brancas recapturadas pelo Exército das mãos dos índios e que demonstram ter perdido as características da sua raça.
Acima de tudo, Ethan é um solitário. Isso é bem demonstrado no final, quando fica sozinho, diante da casa dos pais de Laurie (Vera Miles) , como que abandonado por todos, preocupados em levar Debbie, afinal libertada, para o interior da casa. Como diz a letra da música que acompanha a sequência da chegada de Debbie, ele só encontra a paz de espírito montado em um cavalo. E quando a porta se fecha tem-se a certeza de que ele partirá logo em seguida. Cavalgando sem um rumo determinado.
Denso, tenso, "Rastros de Ódio", no entanto, não dispensa o humor, um elemento sempre presente nos filmes de Ford, que aparece no momento certo, conforme já observara o crítico Moniz Vianna. O lance principal ocorre na cerimônia de casamento de Laurie, que fora namorada de Martin, casamento que não chega a ser celebrado, por causa da chegada de Martin com Ethan. Há, inclusive, uma briga entre os dois rivais. E ao final do frustrado evento, num arremate aos lances de humor, o Reverendo Samuel Johnson, irônico, diz mais ou menos assim: "tudo ficou bem, já que não houve casamento".
Haveria muito mais o que dizer desse filme sublime, mas não seria apropriado para as limitações de uma página de Internet. É indispensável, no entanto, mencionar a deslumbrante fotografia de Winton C. Hoch, que já trabalhara com Ford no encantador "Depois do Vendaval" (The Quiet Man/1952) . E ainda a trilha musical do veterano Max Steiner, que, em algumas partes, apresenta um tom dolente e algo de nostalgia.

sábado, outubro 07, 2006

UM COSTUME MACABRO


Há poucos dias li num saite uma matéria de causar uma forte impressão a qualquer pessoa. A máteria fora retirada do "New York Times". Vejam vocês. Em algumas localidades da China, nas mais remotas, é conservado um costume macabro, por ocasião do falecimento de um filho solteiro. A família vai em busca de uma mulher que tenha morrido no mesmo dia, com a finalidade de transformá-la em noiva do extinto. Encontrada a mulher, os dois são enterrados juntos, como se, em vida, formassem um casal. É o chamado casamento do pós-vida e tem a ver, em primeiro lugar, com a tradição chinesa de considerar que as pessoas continuam a existir mesmo depois de mortas e que os vivos têm a obrigação de cuidar dos desejos delas. Em segundo lugar, com a arraigada crença de que uma vida de solteiro é incompleta e, assim, se um homem morre sem ter casado, não será feliz no Além.
O problema é que já náo é fácil encontrar uma mulher viva naqueles lugarejos, por causa da "política do filho único" ali vigente, que obriga as mães a abortarem os fetos femininos. Quando não se consuma o aborto, a criança é abandonada pela mãe.
Dá pra acreditar? Claro. Existe tanta coisa neste mundo de meu Deus que dá de capote no mais imaginoso ficcionista.
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O PLANETA AZUL
Horácio Paiva (RN)
Confesso pensar na morte
para melhor
e à distância
ver o mundo.
E eis que o envolve
em silêncio
e serenidade
um grande perdão -
Azul.

quarta-feira, outubro 04, 2006

UM TELEFONEMA PARA A INFÂNCIA


Não eram 8 horas da noite da sexta passada quando o telefone tocou. Só no apartamento, fui atender a chamada. Uma voz masculina queria falar com o Francisco. É ele, eu disse. Sem perguntar como eu ia, o homem foi iniciando uma espécie de divertido jogo para que eu o identificasse. A primeira pista fornecida: fôramos amigos, mas há exatos 50 anos perdêramos contato o. Não sei por que supus, de imediato, termos nos conhecido no Liceu, onde ingressei em 1956. Ele disse não, não estudei no Liceu (e eu depressa reconheci o meu erro, pois estudara naquele colégio até 1960, o que reduzia para 46 anos o nosso último contato), nós nos conhecemos de Canindé. E o jogo continuou. Ele disse que morava na praça da Basílica (a principal da minha cidade) , argumentei que na praça moravam outros amigos meus. E ele, você se lembra do bar do Maciel? Disse que sim e deduzi que ele fosse o Antônio, filho do Maciel. Segundo erro meu. Aí ele deu a pista definitiva, que morara vizinho ao bar. Então, como um estalo, eu me lembrei do Quinca, filho de Antônio Magalhães e de Dona Mirtes (uma bonita mulher) : então, você é o Quinca. Do outro lado da linha veio a risada jubilosa, por eu, afinal, ter identificado o dono daquela voz, e, acoplada a ela, a diversão, como se aqueles dois homens, já entrados na casa dos 60, estivessem participando de uma uma brincadeira de quando eram meninos. Aí voltamos, por um breve momento, ao presente, cada um querendo saber como o outro estava vivendo. Mas foi por pouco tempo, porque ele queria relembrar um episódio que ocorrera comigo e do qual não me lembrava. Ei-lo.
Um solteirão da nossa cidade gostava de promover na praça, à noite, uma corrida de garotos. Quinca não disse, nem me recordo, se aquele homem dava algum prêmio ao vencedor. Bom, a corrida se dava assim. Era uma disputa entre dois meninos, mas eles não corriam emparelhados. Um menino ficava no início do lado direito da praça e o outro se postava do lado esquerdo. Ao dar-se a largada, o vencedor seria o que chegasse primeiro ao final de um dos lados. Morava ali na praça o Tirso Rabelo, que corria como o diabo, e sempe ganhava. E se gabava de não ter concorrente à sua altura. Pois um dia eu resolvi enfrentar o Tirso. O Quinca não disse se por iniciativa própria ou se fui estimulado por alguns amigos. O certo é que disputei com a fera e ganhei dele. Fui ovacionado e o Tirso gozado pelos demais. O Quinca também não informou se houve revanche. Mas o episódio tem a intromissão do insólito, ou seja, continuo não me lembrando dele, mesmo depois de relatado pelo amigo. O que lembro é que gostava de apostar corrida na praça, mas com outros meninos e as corridas eram promovidas por nós mesmos. Se a memória é seletiva, como dizem, eu devia não tê-lo esquecido. Não é estranho?
Mas o Quinca tinha outra coisa pra me contar. Você talvez não saiba que fui apaixonado por uma parenta sua. Paixão de criança, eu tinha 11 anos. A paixão do meu amigo se chamava Salete, um pouco mais nova do que ele, filha de um irmão do papai. Era uma menina bonitinha, com um leve estrabismo. Na década de 1970 ela morou em Natal durante cerca de um ano, por causa da remoção do marido, da Polícia Federal, para esta cidade. Estava ainda mais bonita, mas evitei dizer isso ao Quinca, que, cinquenta anos depois, parece estar ainda interessado nela. Revelou que conservara uma fotografia de Salete participando de um pastoril e quis saber onde ela estava residindo. Eu não sei, mas prometi que iria cair em campo para saber o paradeiro dela e o informaria no próximo contato que tivéssemos. Porque ele disse que iria me ligar outras vezes, agora que conseguira o meu telefone.
Não é necessário dizer o quanto aquele telefonema me fez bem. Por alguns minutos pude voltar aos tempos bons da infância e retomar o contato com um amigo. E depois de falar com ele, fui rever uma foto em que estamos na companhia de mais 3 garotos, antes do início de uma pelada. Quinca e Boroca (um negrinho muito bom de bola) em pé, enquanto eu, Nei (filho de uma professora, o nome não me ocorre agora) e Tonico, filho de um comerciante. Eu estou ladeado pelos dois, segurando a bola, como centro-avante do ataque. Bons tempos. Velhos tempos. E muitas saudades.

sábado, setembro 30, 2006

CAPOTE (2005)

Da biografia do escritor Truman Capote (1924-1984) escrita por Gerard Clarke, o filme do quase estreante Bennett Miller ocupa-se apenas dos 5 ou 6 anos que Capote levou para escrever o livro "A Sangue Frio" ("In Cool Blood") , que trata do assassinato de uma família de uma cidadezinha do estado de Kansas, em novembro de 1959. Todo esse tempo foi consumido pelo escritor para. antes de escrever o livro, realizar pesquisas sobre a comunidade local e sobre a personalidade e a vida dos dois assassinos. Na verdade, de um dos assassinos, Percy Smith (Clifton Collins Jr.) . O filme não procura esclarecer o interesse do escritor em Percy, mostrado logo quando, no meio da pequena multidão postada à frente da delegacia de polícia para ver a chegada dos dois criminosos capturados, ele o observa atentamente na sua caminhada para a delegacia. Há a atração física por Percy (como se sabe, Capote era homossexual)? Ou porque, nas conversas que tem com ele, Capote descobre uma certa identidade entre a vida dos dois? Ou as duas coisas? O roteiro opta pela ambiguidade e esta se torna um dos pontos altos de "!Capote".
Mas se não é exatamente uma biografia do escritor, o filme fornece alguns dados sobre a personalidade do escritor: o humor ferino, a vaidade, o vedetismo e mais uma ou outra faceta de um homem de natureza polêmica. Outro ponto alto de "Capote" ´trata do seu abatimento depois que os assassinos são executados, fato que lhe dá, enfim, condições de concluir o livro. A sua expressão no avião que o leva de volta a Nova York não deixa dúvidas sobre o seu estado. Terá valido a pena todo o trabalho consumido para escrever um livro que ele sente ser importante? Do ponto de vista literário, sim. "A Sangue Frio", definido como um romance-reportagem para
os outros( Capote o chamava de um "romance de não-ficção) , é uma obra marcante, seminal. Mas do ponto de vista humano? Ético? Moral? A verdade é a seguinte: se "A Sangue Frio" rendeu ricos dividendos literários e também financeiros (foi, inclusive, transposto para o cinema por Richard Brooks em 1967) , também marcou, negativamente, a vida de Capote. Segundo informam os créditos finais, ele não conseguiu mais concluir nenhuma obra. Além disso, o gosto pela bebida foi se intensificando e as complicações dela resultantes levaram-no à morte aos 60 anos. E veja-se esta epígrafe escrita por ele no seu último livro (inacabado) , exibida também nos créditos finais: "Mais lágrimas são derramadas por orações atendidas que as não".
Mas não se pode falar em "Capote" sem falar na interpretação de Philip Seymour Hoffman. Na imitação da voz do escritor, na sua extravagância no vestir, nos trejeitos efeminados (mas evitando o mínimo de exagero) , o ator nos faz lembrar de outra grande atuação: a de Bruno Ganz em "A Queda - As Últimas Horas de Hitler". Se não tivesse outras qualidades, o notável desempenho do ator (que lhe rendeu o "Oscar" e o "Globo de Ouro") já faria de "Capote" um filme merecedor de ser visto.

domingo, setembro 24, 2006

OUTRO EPISÓDIO NA DITADURA MILITAR


Não faz muito tempo eu relatei um episódio ocorrido durante a ditadura militar, em que fui confundido com alguém caçado pelos agentes da repressão. Os que me leram maquela ocasião devem estar lembrados. Por muito pouco não fui preso e, provavelmente, teria desaparecido. Hoje vou contar outro episódio. Neste não existiu o mínimo risco de eu ser preso, apesar de eu ter me encontrado, por acaso, com um amigo de Natal que tivera de fugir para não ser apanhado. Eis o episódio.
Em um dia de 1969 viajei a Recife, impelido por um motivo muito especial: conhecer, finalmente, Paixão dos Fortes, um dos mais belos filmes de John Ford, que ele fez em 1946. Entrei no cinema com o filme em andamento e tive que aguardar a sessão seguinte para vê-lo desde o início. Naquela época os filmes eram exibidos em sessões contínuas, terminava uma sessão e, com um pequeno intervalo, a seguinte era iniciada. O espectador não precisava sair da sala e comprar outro ingresso, para ver o filme de novo. Num mesmo dia, você o assistia tantas vezes quisesse, pagando apenas uma vez. Pois bem. Nem bem as luzes foram acesas, aparece Juliano Siqueira na minha frente. Fiquei surpreso, tanto quanto emocionado, pela presença de Juliano, pois jamais me passaria pela cabeça encontrá-lo ali, ou em qualquer outro local de Recife. Juliano era um dos milhares de brasileiros que, naquela época, eram caçados pelo regime militar. Durante o breve intervalo, ele conversou sem parar, sempre interessado em saber notícias dos ex-companheiros do Cineclube Tirol. E me confessou que fora ao cinema, não só pelo filme, mas na esperança de encontrar a mim, ou a Gilberto Stabile, dois fordianos assumidos e de carteirinha assinada.
Mas a alegria daquele reencontro perdia-se um pouco pela apreensão que nem um dos dois conseguia disfarçar, devido à circunstância de um dos interlocutores ser procurado pelos agentes policiais. Quem viveu aquele período negro da nossa História há de se lembrar de que o medo e a tensão eram presenças constantes quando as pessoas, mesmo sem estarem com a cabeça a prêmio, se reuniam para uma simples conversa. Felizmente não aconteceu o pior, até o intervalo terminar. E, ao nos despedirmos, disse a Juliano para tomar cuidado.
O filme recomeçou, assisti-o até o final. Saí do cinema duplamente emocionado: pela grandiosidade de Paixão dos Fortes e pelo inesperado encontro com Juliano. Voltei a Natal um ou dois dias depois. Mas Juliano não deve ter seguido o meu conselho, ou os brucutus da repressão foram mais eficientes. Poucos dias depois soube que ele fo apanhado. Passou cinco anos na prisão. Menos mal que conseguiu sobreviver. E hoje está morando em Natal, depois de passar uma longa temporada no Rio. Foi isso.
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LUTO NO CINEMA
Esta semana morreu numa clinica de idosos, em Estocolmo, o diretor de fotografia sueco Sven Nykvist. Tinha 83 anos e há muitos anos estava doente, sofrendo de afasia. Sven Nykvist foi um dos gigantes da fotografia no cinema e, desde "Noites de Circo" (1953) , foi sempre o fotógrafo dos filmes de Bergman. Segundo o crítico Ricardo Calil, "para muitos diretores de fotografia, foi o maior na história do cinema. Ele era conhecido por criar a atmosfera de uma cena e captar todos as nuances nas expressões dos atores com recursos mínimos de iluminação". Trabalhou, ocasionalmente, com outros diretores, como Woody Allen (quando este pretendeu ser o Bergman do cinema americana) e Louis Malle, entre outros menos prestigiados.

quarta-feira, setembro 20, 2006

GENTE BOA DE RECORDAR


Talvez seja a idade. É, deve ser. Com frequência, geralmente deitado à espera de o sono chegar, passam pela minha memória pessoas que conheci na minha infância e juventude. Mas só gosto de me lembrar de pessoas boas. Se as más, às vezes, aparecem, não me detenho em recordá-las, para não sofrer de novo algum mal que me causaram. E, para minha sorte, estas já viraram pó. As boas, é claro, também, mas, ao relembrá-las, é como se, de repente, por um passe de mágica, elas voltassem a viver.
Uma das pessoas que sempre me "visitam" é o velhinho Vitorino, cuja figura povoou a minha infância. Pretinho, baixinho, muito pobre, era um homem bem-humorado, com quem valia a pena conviver. O meu pai gostava muito dele. Como esquecê-lo imitando para aquele menino que eu fui o som de um trombone? Ou de expressar no rosto, feito um ator, a diferença entre Juscelino Kubitschek e Juarez Távora, candidatos a Presidente nas eleições de 1955? Ao se referir a Juarez, ele fechava a cara, expunha uma carranca; já com Juscelino se abria num sorriso imenso. E meu pai, sempre que falava no velhinho Vitorino, exaltava-lhe uma qualidade: quando morria alguém da sua condição social, fosse amigo dele, ou não, ele passava parte da noite velando-lhe o corpo. Beleza de pessoa. Coloquei-o num antigo conto, numa pequena homenagem a um grande homem.
Quando cheguei a Natal, conheci o cego Raimundo. Ia quase diariamente ao banco e era sempre recebido festivamente por grande parte dos funcionários. Baixinho, menor talvez do que Vitorino, Raimundo não tinha guia, se movimentando com o auxílio de uma bengala. Às vezes, trazia a gaita (fizera parte, no passado, de um grupo musical formado só de cegos) . Uma das maiores emoções que tive em minha vida foi ouvi-lo uma vez executando a música "Barril de Chope". Falando de chope, cego Raimundo era chegado a uma birita. Tinha vez que chegava até nós naquele estado em que não se devia riscar um fósforo perto dele... Parecia se divertir com a sua falta de visão. "Eu quero é cegar, se o que estou dizendo não é verdade" , era uma das suas tiradas costumeiras. E quando lhe perguntavam se ele conhecia alguém, vinha rápido a resposta: "de vista". Na verdade, identificava as pessoas pela voz. Também o incluí como personagem, mas num romance policial.
E me lembro de Eros. Sim, era esse o nome de um colega. Uma das suas brincadeiras era "dar um papel" para certos colegas, tendo em vista o biótipo deles. Como sabia que eu gostava de cinema (ele também gostava, e, inteligente e sensível, possuía certa visão crítica, embora não conhecesse a técnica e a linguagem cinematográficas) , chegava pra mim e, apontando para um colega, me perguntava qual o papel destinado para ele. Eu confessava a minha incapacidade para a escolha. Ele dava um risinho maroto e mencionava o tipo de personagem destinado àquele funcionário. E quase sempre acertava.
Outra de suas brincadeiras. Ele vivia dizendo que ia fazer uma excursão de navio. Até aí tudo bem. Tanta gente (eu incluído) tem o sonho de um dia viajar de navio. Só que no caso de Eros, a viagem jamais poderia se realizar, as cidades a serem visitadas não eram banhadas pelo mar: Caicó, Campina Grande, Macaíba, por exemplo, para ficar só entre as do Nordeste.
Uma vez pediu carona a um colega para uma festa na AABB, alegando que o seu carro estava na oficina. O colega prontamente o atendeu e pediu informações sobre a localização da casa. Com as instruções na cabeça, à noite foi apanhar Eros. Ao chegar lá, encontrou-o já na calçada com a esposa, morrendo de rir. É que ele morava a poucos passos da AABB. Morreu de um ataque cardíaco, causado pelo esforço empenhado para salvar a filha pequena de se afogar no mar. Tinha pouco mais de quarenta anos.
Vitorino, Raimundo, Eros, pessoas que tornaram a vida mais fácil de ser suportada para quem com eles conviveu.

domingo, setembro 17, 2006

O RIVAL

Ia envolvendo os adversários, um remoinho investindo para o gol. Difícil contê-lo - os pés pareciam imantar a bola, que só conseguia fugir deles quando aplicavam falta no garoto. Recurso inútil. Com a potência, que não se imaginava em pernas tão secas, a falta, cobrada por ele, quase sempre resultava em gol. Ele ia se livrando dos pontapés, deixando os adversários para trás, em mais uma brilhante jogada daquele menino, já ídolo da cidade. Foi quando surgiu à sua frente aquele magricela sardento, forasteiro, naquele dia estreando. Neco requebrou rápido o corpo para a esquerda e, ainda mais rápido, passou a bola para o lado direito e assim deixar o garoto perdido, como os outros. Jogada infalível, que os marcadores já conheciam, mesmo assim eram eram sempre burlados. Só que não teve êxito com o estranho. Vivaz e muito ágil, acompanhou a retirada de Neco pela direita, roubou-lhe a bola, driblou-o e saiu jogando. Neco nunca poderia imaginar que o estranho (logo ele) interrompesse a sua jogada, empregando um recurso daqueles. Sua primeira reação foi de pasmo, sem ânimo para perseguir o garoto. A seguir, a certeza da obrigação de lhe dar o troco. Aguardou que ele estivesse com a bola, para tirá-la e aplicar-lhe um drible humilhante. Foi ao seu encontro, mas o menino não perdeu a bola e ainda realizou duas jogadas, que atraíram a atenção de jogadores e assistentes. Tinha passado da conta, pondo no ridículo por duas vezes, e num curto espaço de tempo, o craque da cidade. Neco descontrolou-se, atacou-o a pontapés, prostrando-o no chão. O magrelo se levantou pronto para revidar, os dois chegaram a se agarrar, mas logo foram apartados. Neco espoletado abandonou o campo. Não pensou em outra coisa o resto do dia. Arquitetava diferentes espécies de jogadas, para realizar sobre o forasteiro no dia seguinte. Executou algumas com êxito, mas em muitas outras o adversário foi melhor. Não se aborreceu, senão intimamente, por ouvir elogios ao sardento. E foi se lhe infiltrando devagarinho o medo de perder o monopólio da bola. Decidiu que teriam que atuar do mesmo lado. Justificou a exigência lembrando aquele incidente e, aparentemente, não ligou para as insinuações maldosas.
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Agora eram dois craques do mesmo lado - coitados dos adversários. A cidade foi que lucrou, ganhando aquele outro Neco. Mas o medo de Neco instalou-se definitivo e com o medo o despeito. Quando Adelmar marcava um gol, era o único a não abraçá-lo. Não retribuía os passes que lhe dava Adelmar, que o deixavam em posição privilegiada para golear. Neco ficava prendendo a bola ou passava-a para outro companheiro. Adelmar não demorou a perceber o boicote e a empregá-lo também. Tornaram-se, então, dois jogadores que sabiam se entender com a bola, mas não sabiam se entender. Fora do campo, mantinham-se afastados o mais possível, se acontecia se encontrarem, não iam além de um olá seco, formal.
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Neco recebeu a notícia embasbacado. Se na tarde anterior Adelmar tinha jogado brilhante, como sempre, parece que até mais. Marcara um gol, driblando todo mundo, inclusive o goleiro. De noite o vira na pracinha, conversando animado. Quase não acreditava no que lhe contavam. "Se não tá acreditando, Neco, vamos lá na casa dele".
A mãe de Adelmar não consentiu que vissem o filho. Estava aflita e foi ríspida com os garotos. A irmã, mais calma, explicou que ele estava muito febril, não era aconselhável que lhe entrassem no quarto, naquele momento. Viessem à notinha, talvez ele estivesse melhor. Se Deus quisesse.
A partir daí, Neco começou a pensar na morte de Adelmar. O pasmo inicial dando lugar a uma alegria, que se empenhava em disfarçar. Em presença dos amigos - sozinho, ficava num estado de euforia, ao ponto de quase manifestar-se numa gargalhada.
À noite passou pela casa de Adelmar. Encontrou os amigos sentados no meio-fio, não tinham tido permissão para entrar. Estavam sofrendo com o estado de Adelmar, que talvez não completasse aquela noite. As vozes aflitas atravessavam a porta e janelas fechadas e chegavam cochichadas aos ouvidos dos meninos. Alguém sugeriu saírem, sempre não podiam ver Adelmar. Os demais concordaram, seguiram para a pracinha. A conversa foi só sobre Adelmar, mas driblando a sua enfermidade. Preferiam relembrar suas jogadas maravilhosas, os dribles desconcertantes, a lindeza dos gols. Neco não dava uma palavra, e, no íntimo, se revoltava com os amigos, por incensarem o rival. Com pouco se retirou. Precisava se afastar daqueles amigos que pareciam não lhe reconhecer mais as qualidades de jogador, só faziam louvação para aquele cara de ferrugem. Era bem feito que o forasteiro, vindo de tão longe para roubar-lhe a supremacia da bola, morresse e morresse logo naquela noite. Ele teria que voltar a ser o maior da cidade.
Ao despertar, pensou logo em Adelmar. Nessa alutra, já devia ter morrido. Pulou alegre da rede, asseou-se rápido, engoliu o café. Queria ter a certeza. Saiu rápido, como quando buscava o caminho do gol. Na pracinha, encontrou os amigos, nos rostos o anúncio do fim do rival. Só faltava confirmá-lo com palavras. "Adelmar morreu"? "Não agoura não, Neco". "Quer dizer que melhorou"? "Tá na mesma. Mas ainda há esperança".
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Muita gente na casa de Adelmar. Na rede, a mãe de choro solto, cercada pelas amigas. O choro era acompanhado de gritos e de frases de desespero. Chegava a desviar para si a atenção ao corpo do filho estirado no caixão. As pessoas entravam no quarto, para se revezarem no consolo à coitada, traziam-lhe café e sedativos, que ela atirava longe. Outras se comprimiam à porta e havia as que se retiravam, sem coragem de presenciar a dor da mulher.
Quando Neco chegou, o corpo de Adelmar não estava sendo velado por ninguém. Examinou primeiro o rosto sardento, chupado pela doença. Depois as mãos cruzadas, nos dedos enleado um terço. Finalmente as flores que cobriam os sapatos. Circunvagou os olhos pela sala, a ver se havia alguém observando-o. Todos atentos ao histerismo da mulher. Neco afastou as flores, descalçou os sapatos e as meias, escondeu-os sob as flores. Olhou para os pés descarnados, tocou-os e depressa recuou a mão: frígidos. Mas em seguida tocou-os de novo e dessa vez os apalpou demoradamente e não se conteve em apertá-los nos dedos crispados pelo ódio há muito tempo acumulado. Quando largou os pés, veio o desejo de extravasar a sua felicidade. Como se estivesse sozinho na casa, explodiu numa longa gargalhada, sem despregar os olhos daqueles pés, e tornou-se uma zoadeira só o seu desabafo e o chororô da mulher.
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Conto extraído do meu livro Não Enterrarei os Meus Mortos

quarta-feira, setembro 13, 2006

MAIS ALGUNS MOMENTOS CHOCANTES DO CINEMA


- A patética imitação do cantar do galo pelo velho professor de "O Anjo Azul" (Josef Von Sternberg/1930)
- O "delirium tremens" do alcoólatra em "Farrapo Humano" (Billy Wilder/1945)
- Um macaco pregado numa cruz conduzida por anões em "Também os Anões Começaram Pequenos" (Werner Herzog/1970)
- Em "A Marca da Maldade" (Orson Welles/1958) : despertada, num quarto de hotel, de um sono induzido por substância tóxica, Janet Leigh vê o rosto aterrorizante do homem morto pendurado à cabeceira da cama.
- O corpo do adolescente morto é atirado junto ao lixo acumulado num terreno descampado em "Os Esquecidos" (Luis Buñuel/1950)
- Em "Gritos e Sussurros" (Ingmar Bergman/1973) : Ingrid Thulin fere a vagina com um caco de vidro e, na cena seguinte, deitada na cama, lambuza o rosto com sangue, com uma expressão provocadora para o velho marido de pé no quarto.
- Ed Harris tirando os óculos e exibindo para o dono do restaurante a horrenda cicatriz em torno do olho em "Marcas do Passado" (David Cronenberg/2005)
- Lou Castel debatendo-se no chão, como um inseto pisado, vítima de um ataque epilético, enquanto uma vitrola toca "La Traviata", no final de "De Punhos Cerrados" (Marco Bellochio/1965)
- O sacrifício de uma criancinha pelo beato de "Deus e o Diabo na Terra do Sol" (Glauber Rocha/1963)
- A prostituta escorraçando do quarto, com um chicote, o escritor, que, com o rosto cortado, foge para a rua, tropeçando no lixo ("Eva", Joseph Loseuy/1962)
NOTA SOBRE "O MAIOR AMOR DO MIUNDO"
Numa primeira visão, tive uma ótima impressão desse último filme de Cacá Digegues , em cartaz no Praia Shopping e no Midway. Um astrofísico brasileiro (José Wilker, numa boa atuação)vivendo nos Estados Unidos há muitos anos, vem ao seu país para receber uma condecoração do governo, num momento em que está se despedindo da vida, vítima de um tumor cerebral. Em visita ao pai, numa clínica geriátrica, fica sabendo que a sua mãe biológica não é a esposa do pai , e, de repente, vem-lhe o interesse de colher informações sobre ela. A narrativa dessa busca alterna presente e passado. O contato com o presente é chocante para aquele homem que vive "no ar", com uma dedicação não só exclusiva, mas obsessiva à profissão (ele sequer se interessa por sexo, resistindo ao assédio da secretária e tem a primeira relação com uma jovem e atraente negra da favela), ao se deparar com com uma realidade de miséria e violência. Experiente e hábil, Diegues não cai na armadilha de querer transformar esse personagem (mesmo com os dias contados) num revoltado e num crítico, se já na juventude, durante a vigência da ditadura militar, demostrava desinteresse pela realidade do país. O maior amor do mundo é o do pai (Sérgio Brito) por Flora, a filha de uma empregada de sua casa. Ela morre ao dar à luz o filho, por falta de socorro médico, e no dia em que o Brasil perde para o Uruguai. O filho desconfia que seja por isso que os dois sempre tentam tido um relacionamento frio, distante. (A cada aniversário seu, o pai lhe narra, com detalhes, a derrota do Brasil.) "O Maior Amor do Mundo" tem muito mais elementos para se discutir, que não caberiam numa simples Nota. Mesmo sem conhecer os últimos filmes de Diegues (mas baseado em referências críticas) creio poder dizer que é o seu melhor filme em muitos anos. Merece ser visto.

sábado, setembro 09, 2006

UM CASO REAL E UM FILME

Há poucos dias a mídia noticiou a fuga de uma jovem austríaca da casa onde fora mantida prisioneira, pelo seu sequestrador, durante um longo período. Uns sete, oito anos, por aí. Ainda não atingira a adolescência quando o sequestro ocorreu. Ao retomar a liberdade já era uma moça-feita, conforme vimos pela televisão. Ao ser entrevistada, entre outras revelações, uma chamou mais a atenção: durante o tempo em que esteve nas mãos do sequestrador, os dois costumavam sair de casa para uns passeios e que ela aproveitava o contato com as pessoas para fazê-las entender que ali estava na companhia do sequestrador. Fazia para alguém um movimento com os olhos, que, no entanto, nunca foi percebido. Até que um dia ela conseguiu escapar (não me lembro de que maneira) e agora estava sã e salva.
O insólito nesse sequestro é que o rapaz nunca pediu dinheiro à familia da moça para libertá-la. E, pelo aspecto da jovem, ela não sofreu maus-tratos e, parece, que não foi obrigada a manter relações com o sequestrador. Tudo indica que o rapaz tinha um amor platônico por ela e que devia sofrer de algum distúrbio mental ou psíquico. Tanto que se matou, quando se viu privado da convivência com ela.
Esse caso me fez lembrar de O Colecionador, um filme de William Wyler, 1965, e um dos pontos mais altos da carreira do cineasta. É a história de um rapaz solitário, que colecionava borboletas, e que se apaixona por uma moça. Impedido pela timidez de tentar um relacionamento saudável com a moça, ele a sequestra e a mantém presa em sua casa por algum tempo. O móvel do sequestro é o de ter aquela jovem em sua companhia para sempre e, pela demonstração do seu amor, aliada à convivência, conquistar um dia o coração dela. Em vão. O final do filme difere do final do caso real. Confesso que não me lembro bem, decorridos quase quarenta anos que o vi. Sei que a moça morre, parece que de morte natural. Tampouco me lembro do que aconteceu ao sequestrador (Bené e Moacy talvez possam me esclarecer) ; se ele, a exemplo do sequestrador da jovem austríca, se suicidou, ou se foi apanhado pela polícia. Esse belo filme bem que poderia ser lançado em DVD. O sequestrador é interpretado por Terence Stamp, naquela época gozando de um grande prestígio, que o levou a trabalhar com Pasolini (Teorema), Fellini (Toby Dammitt, um média-metragem) e Losey (Modesty Blaise). A jovem era vivida por Samantha Eggar, que esteve longe de ter o mesmo sucesso de Stamp e que desapareceu sem deixar rastros. Nem sei se ainda está entre nós.

quarta-feira, setembro 06, 2006

A GUERRA IDEOLÓGICA DOS RATOS, DE BERILO WANDERLEY

Os ratos lá de casa não tiveram mais o que fazer, intelectualizaram-se e, além do mais, como recomenda o processo da história, firmaram suas ideologias políticas que estão defendendo com unhas e dentes, principalmente dentes. Comecei a desonfiar dessas últimas tendências quando o meu volume de "O Capital", de Marx, amanheceu com várias páginas roídas. No dia seguinte, em contra-ataque, a prateleira onde alinhei a literatura norte-americana acordou quase inteiramente devorada. Um grupo de ratos vermelhinhos não gostara, decerto, da guerra dos ratos antiianques (sic) sobre Marx e fez a investida, e, no final das contas, sem Organização das Nações Unidas para ter a quem apelar, saiu o dono dos livros com a carga do prejuízo.
Mas a guerra fria não cessou aí. Houve, é certo, um armistício que durou mais de uma semana e que me animou bastante. Julguei que os contendores tivessem decidido, nalguma conferência dos Grandes, votar pelo desarmamento, a bem de uma melhor digestão deles próprios contendores, resolvendo retornar às aprazíveis colinas das cozinhas e dos armários, onde a vida é mais mansa à noite e as guerras ideológicas não têm sentido. Mas esta semana, não sei que reviravolta aconteceu, pois o grupo reacionário resolveu quebrar o tratado de paz, ou, simplesmente, o armistício tentado na última conferência. Dois romances de Leon Tolstoi, meu caro e barbudo Tolstoi, despertaram roídos. Desconfio que essas barbas é que atiçaram a ignorância dos ratinhos antiamericanistas. Tolstoi jamais sonhou com a revolução cubana, quando deixou crescer suas respeitáveis barbas brancas que, mansamente cofiadas, o ajudaram a bem escrever a "Guerra e Paz". Mas os ratos, decerto maus alunos de literatura, desconheciam tanto Tolstoi como a isenção política de suas barbas brancas, e largaram os dentes contra os dois romances, os quais traziam o retrato do velhote russo nas primeiras páginas. Ando assustado e já me decidi por algumas medidas urgentes, para evitar uma Grande Guerra. Encaixotei o resto de Tolstoi, mais Dostoiewsky, mais Pusckyn, inclusive Pudovski e Eisenstein e tudo mais que é russo. Para outro lado do quarto, meti noutro caixão os norte-americanos, de Melville a Faulkner, de Poe a Frost. Sempre que possível, devemos evitar as guerras. Face ao meu gesto, um dia um conselho de ratos sábios e serenos saberá outorgar-me o Prêmio Nobel da Paz. Que já comecei a esperar, com vaidade.
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O norte-rio-grandense Berilo Wanderley (1934-1979) foi cronista, crítico de cinema e poeta. Em vida, publicou o livro de poemas "Telhado do Sonho" (1956) , Em julho passado, mês de aniversário de seu falecimento, publiquei neste espaço duas crônicas dele, as quais, como esta bem-humorada crônica, foram retiradas do livro "Revista da Cidade" (EDUFRN/1994), organizado por sua viúva.

sábado, setembro 02, 2006

ALGUNS MOMENTOS CHOCANTES DO CINEMA


- O tiro na palma da mão de James Stewart em "Um Certo Capitão Lockhart" (Anthony Mann/1955)
- O café quente atirado por Lee Marvin no rosto de Gloria Grahame em "Os Corruptos" (Fritz Lang/1953)
- Richard Widmark empurrando uma velhinha paralítica do alto de uma escada em "O Beijo da Morte" (Henry Hathaway/1947)
- Cavalos agonizando no final de uma batalha em "Kagemusha" (Akira Kurosawa/1980)
- Uma navalha cortando um olho em "Um Cão Andaluz" (Luis Buñuel/1928)
- O assassinato de Janet Leigh no banheiro em "Psicose" (Alfred Hitchcock/1960)
- Um cão com a mão de uma pessoa presa na boca em "Sanjuro" (Kurosawa/1962)
- O cavalo que aparece morto na cama do produtor de cinema, que solta um grito lancinante, em "O Poderoso Chefão I" (Francis Ford Coppola/1972)
- O palhaço carregando a esposa nua, depois de ela tomar banho no rio com oficiais militares em "Noites de Circo" (Ingmar Bergman/1953)
- A prostituta, deitada num sofá, puxando com um pé o dinheiro atirado pelo homem em "A Aventura" (Michelangelo Antonioni/1959)
GLENN FORD
Em maio último falei nesta página sobre Glenn Ford, que no primeiro dia daquele mês completara 90 anos. Quase quatro meses depois, ele se vai. Glenn Ford foi um ator de talento (me lembro de um artigo de Paulo Francis em que, de passagem, ele mencionava uma expressão no rosto de Ford, que só ele sabia fazer), mas não foi bem aproveitado pelo cinema de Hollywood. Não foram muitos os seus filmes memoráveis: "Gilda", o mais cultuado de sua filmografia (mas não o melhor), "Os Corruptos", "Sementes da Violência", "Como Nasce um Bravo", "Desejo Humano" (em que trabalhou de novo com Lang, uma espécie de refilmagem de "A Besta Humana", de Renoir), "Cimarron", "Escravas do Medo", um interessante thriller de Blake Edwards, diretor mais especializado em comédia. Talvez uns dois ou três mais. Além de "Gilda", fez mais 4 filmes com Rita Hayworth. Casou quatro vezes, a primeira vez com a atriz e dançarina Eleanor Powell, com quem teve seu único filho, Peter. Pouca gente talvez saiba que não nasceu nos Estados Unidos, mas no Canadá. Seu nome de batismo era Gwyllyn Samuel Newton Ford. Com a sua morte, só resta Kirk Douglas como um dos 3 atores nascidos em 1916 e que iniciaram a carreira nos anos 1940. O outro era Gregory Peck.

domingo, agosto 27, 2006

VELHO REALEJO


O caso é verídico, me foi contado por um amigo. Ocorreu, recentemente, no lançamento de um livro. Uma grande quantidade de pessoas ali presentes, o autor é muito conceituado em Natal pela competência profissional e a cultura literária. Até o Prefeito estava lá. O editor do livro contratara um violonista, para animar mais o evento. As músicas executadas eram de boa qualidade. Tudo ia correndo bem, o burburinho de vozes das pessoas estimuladas pelo vinho, aqui e ali umas risadas. É assim nos lançamentos de livros. Tudo, pois, corria bem. Até que a rotina desses eventos foi, de repente, alterada. Na longa fila de espera para receber o autógrafo do escritor, estava um casal aí pela casa dos sessenta. Eles estavam calados, como, em geral, ocorre com os casais que vivem há muitos anos, que quase não têm mais o que conversar. Nenhum amigo, ou conhecido, perto deles, para lhes fazer soltar a língua. E aí aconteceu. O violonista começa a tocar uma música antiga. Uma valsa. Então, de súbito, a senhora deixa o seu lugar e se dirige ao músico. Ao chegar a ele, lhe pede que pare de tocar a música. Como se não ouvisse o apelo da mulher, ou não lhe desse atenção (o meu amigo opta pela segunda alternativa) , o violonista segue tocando. A mulher insiste no pedido. Nada. Ela está muito alterada, parece que vai logo cair num pranto. Aí o marido, que acompanhava a cena, sai do seu posto e, chegando ao músico, lhe diz: "Por favor, moço, pare essa música. A minha senhora tem um trauma por causa dessa música". Só então o violonista atende o pedido e emenda outra música. O homem agradece e, pousando a mão no ombro da esposa, volta com ela para a fila. Sob os olhares curiosos e atentos dos presentes. E o lançamento voltla à normalidade. Suponho que alguém que me esteja lendo queira saber qual era a música. Pois bem. É a valsa "Velho Realejo", composta por Custódio Mesquita e Sady Cabral, lançada em 1940 na voz do grqnde Sílvio Caldas. E, para quem se interessar, publico a letra a seguir.
"Naquele bairro afastado
Onde em criança vivias
A remoer melodias
De uma ternura sem par
Passava todas as tardes
Um realejo risonho
Passava como num sonho
Um realejo a cantar.
Depois tu partiste
Ficou triste
A rua deserta.
Na tarde fria e calma
Ouço ainda o realejo a tocar;
Ficou a saudade
Comigo a morar.
Tu cantas alegre e o realejo
Parece que chora
Com pena de ti".
OS 70 ANOS DE "ANGÚSTIA"
Soube ontem, lendo o site da Folha, ou do Estadão, que este agosto assinala os 70 anos do lançamento de "Angústia". Para comemorar a data, a Editora Record está relançando esse terceiro romance de Graciliano Ramos. Nada mais justo. É um grande livro. Mas gosto menos dele do que de "São Bernardo" e de "Vidas Secas". Deste último me agrada, principalmente, o estilo, a linguagem, que se adequam perfeitamente à temática. ´Graciliano, aliás, não gostava de "Angústia", chegando a classificá-lo de "um livro infeliz" num trecho de "Memórias do Cárcere". Ele achava que o livro continha alguns defeitos que ele não teve tempo de eliminar, porque foi preso antes de os originais serem enviados à editora. Por sinal que o crítico Antônio Cândido" vê algumas gorduras em "Angústia", conforme diz no brilhante ensaio que faz na edição do livro pela extinta Livraria Martins Editora. Com alguns defeitos ou não, é um grande livro. Mas, repito, prefiro "São Bernardo" e "Vidas Secas".

quarta-feira, agosto 23, 2006

O NOVO MUNDO (The New World/2005)


Terrence Malick parece ter do cinema a mesma visão que tinha o seu colega Albert Lewin ("O Retrato de Dorian Gray", "Os Amores de Pandora") : das outras artes é o cinema a que mais se aproxima da pintura. Em "O Novo Mundo", lançado em DVD três meses após ser exibido nos cinemas, como já ocorrera em "Cinzas no Paraíso", há uma profusão de imagens de uma beleza plástica, as quais em alguns momentos nos dão a sensação de estarmos diante de uma tela de um pintor. (Aliás, essa ligação do cinema com a pintura pode ser observada até por este pequeno detalhe: o objeto através do qual a obra pictórica e a obra cinematográfica são veiculadas tem o mesmo nome de tela.) No entanto, com a lucidez de quem entende, antes de tudo , estar fazendo cinema, Malick não deixa que a beleza imagística (que pode ser admirada mesmo nas limitações da tela pequena) se sobreponha à narrativa e à "mensagem" que quer passar. E fica bem caracterizada, em "O Novo Mundo", a tensão entre o estrangeiro (representado pelos ingleses) e o nativo americano, na Virgínia dos primeiros anos do século XVII. Uma tensão da qual não escapa nem mesmo o amor entre o Capitão Smith (Colin Farrell) e a índia (Q'Oranka Kilchen). Embora Smith seja o único da expedição a ter consciência da diferença de princípios entre os exploradores e os nativos, ele próprio se recrimina por a índia, na sua pureza e no amor que lhe dedica, não suspeitar que ele é o mesmo homem que sempre foi. Esse contato de Smith com a índia e com aquela terra virgem o leva até a pensar que o que está vivendo não é uma realidade, mas um sonho.
A narrativa de "O Novo Mundo" privilegia o tratamento na primeira pessoa. Ora ela é feita por Smith, ora pela índia, e ainda por John Rolfe (Christian Bale) , com quem ela se casa quando é informada da morte (falsa) de Smith, que regressa à Inglaterra a chamado do Rei para comandar uma expedição às Índias. Já antes do casamento, a nativa se transforma (ou melhor, é transformada) numa "inglesa", sob a orientação de uma mulher da Corte. Até o seu nome é mudado para Rebeca. E nessa transformação fica explícito o poder do colonizador. Por sinal, num pequeno detalhe se vê como a nativa é também colonizada, não apenas na mudança do nome, do vestuário, da maneira de andar, do comportamento. É quando, já cortejada por Rolfe, baixa o vestido que deixa aparecer um pouco da coxa, o que não ocorria na sua relação com Smith, quando ela não se preocupava em esconder partes do corpo.
E se o filme tem parantesco com a pintura, também não lhe faltam momentos de poesia, captadas pelas próprias imagens. E nas brincadeiras entre os dois jovens enamorados, brincadeiras que Rebeca repete com o filme, infiltram-se momentos de ternura.
Belo, poético, delicado algumas vezes, "O Novo Mundo" é mais um triunfo desse diretor que filma tão pouco (quatro títulos em mais de 20 anos de carreira) . Uma pena, numa época em que não são muitos os cineastas com o seu talento. Para finalizar, por uma questão de justiça, não poderia omitir o nome do fotógrafo: Emmanuel Lubezki, que fez um trabalho tão bom quanto o de Nestor Almendros em "Cinzas no Paraíso".
UMA NOTA SOBRE "O LIBERTINO"
Sem um mínimo da beleza visual de "O Novo Mundo", "O Libertino" , ora em exibição no Praia Shopping, é um filme de um forte impacto em seu conteúdo. O primeiro filme de Laurence Dunmore provoca, instiga o espectador, não o deixa indiferente e desinteressado, com um bom roteiro e uma forte interpretação de Johnny Deep no papel do Conde de Rochester. Muito interessante a relação ambivalente entre ele e o Rei Charles II (vivido por um John Malkovich até certo ponto discreto) . O diretor demonstra familiaridade com o cinema, em duas cenas em que utiliza um alucinante travelling. Pela estréia, é um nome a ser observado nas próximas realizações.