domingo, março 05, 2006

NOITES DE CIRCO (Gycklarnas Afton/1953)


Sabe-se que um dos propósitos da arte é provocar, incomodar, remexer os sentimentos mais íntimos das pessoas, deixá-las refletir sobre o que lhes foi mostrado e revelado. É claro que o artista, às vezes, se excede, carrega demais nas tintas, e o seu intento perde muito da eficácia pretendida. "Noites de Circo", de Bergman, agora lançado em DVD, é um filme exemplar nesse desígnio da arte, sem, no entanto, pecar pelo exagero, pelo excesso. Essa história de uma companhia de um circo mambembe é composta de personagens humilhadas, sem perspectivas de melhoria em suas vidas, exploradas, expostas ao ridículo e à zombaria, e com uma tendência para o masoquismo. Embora o enfoque narrativo se concentre nas figuras do diretor do circo, Albert (Ake Gronberg), e sua jovem amante Anna (Harriet Andersson), é, a meu ver, o palhaço Frost (Anders Ex) o personagem-símbolo desses pobres viventes, vítima da infidelidade da esposa. Quando o filme começa, a leviana mulher já abandonou o marido. E numa sequência em flashback, ficamos sabendo da vergonha e humilhação a que submeteu o marido, ao se banhar, despida, num rio na companhia de oficiais do exército. E a cena em que ele retira a esposa do rio e leva-a de volta ao lugar onde o circo está armado, é uma das mais fortes já mostradas pelo cinema. O palhaço conduz a mulher, como se estivesse carregando uma cruz, e a expressão do rosto dela é a de alguém que, mais do que condenação, inspira compaixão.
Sobre "Noites de Circo" falou-se, na época do seu lançamento, da presença de um expressionismo tardio. De fato, as figuras de Albert, feio, de uma gordura balofa, de Frost, que sempre aparece com a indumentária de palhaço, do anão, do ator de teatro (com quem Anna trai o amante), seja nos gestos, seja nas expressões faciais, e ainda como presas de um destino cruell, inelutável, lembram personagens da Escola surgida nos anos vinte na Alemanha. E Anna, em certo moment, usa uma forma de penteado que chega a lembrar a Lulu de "A Caixa de Pandora", de Pabst.
Esse filme também é, hoje, considerado o marco inicial da evolução de Bergman, até às alturas em que hoje é colocado na história do cinema. No entanto, um ano antes, ele já mostrara em "Mônica e o Desejo" (com a mesma bonita Harriet Andersson), "Quando as Mulheres Esperam" e "Juventude" (o mais fraco dos três) as qualidades e as preocupações temáticas que anunciavam o nascimento do grande artista que viria a ser.
Para terminar, uma curiosidade. "Noites de Circo" representa o início da parceria de Bergman com Sven Nykvist, um dos gigantes da fotografia no cinema, que emprestou também o seu grande talento a outros (poucos) diretores, como Woody Allen, na época em que este intentou imitar o cineasta sueco.

quarta-feira, março 01, 2006

CURIOSIDADES CINEMATOGRÁFICAS

1) Um dia desses citei , aqui, exemplos de membros de famílias que trabalham (ou trabalharam) no cinema. Hoje vou mostrar alguns casos de familiares que trabalharam juntos em filmes. Em alguns casos, atuando como atores, em outros um por trás da câmera e o outro à frente da câmera. E há até os casos de Welles e Woody Allen (entre outros), em que eles exerceram as duas funções: Welles em "A Dama de Shangai". dirigindo a sua então esposa Rita Hayworth e com ela contracenando: Allen fazendo o mesmo em vários filmes com a esposa da época Mia Farrow. Eis alguns exemplos, entre tantos e tantos. Marlon Brando atuando com a irmã Jocelyn em !Quando os Irmãos se Defrontam"; Henry Fonda (em seu último filme) trabalhando com a filha Jane em "Num Lago Dourado"; os irmãos John e Lionel Barrymore em "Grande Hotel"; John Wayne atuando com o filho Patrick em "Rastros de Ódio", entre outros filmes; Charles Chaplin dirigindo o filho Sidney em "Luzes da Ribalta"; Gerard Depardieu e o filho Guillaume em "Todas as Manhãs do Mundo"; Humphrey Bogart e a esposa Lauren Bacall em "À Beira do Abismo", "Prisioneiro do Passado" e "Paixões em Fúria"; Ryan O' Neal e a filha Tatum em "Lua de Papel"; Francis Coppola dirigindo a filha Sofia (hoje diretora) em "O Poderoso Chefão 3"; Mel Ferrer dirigindo a então esposa Audrey Hepburn em "A Flor que não Morreu"; Vincente Minelli dirigindo a filha Liza em "Questão de Tempo", último filme dele (também no mesmo filme atuaram Ingrid Bergman e Isabella Rosselini, mãe e filha); Gregory Peck atuando com a filha Cecilia em "O Retrato", filme feito para a tevê; Paul Newman e a esposa Joanne Woodward em "´Delícia de um Dilema", entre outros filmes; Hitchcock dirigindo a filha Patricia em "Pacto Sinistro" e "Psicose"; Huston dirigindo o pai Walter em "O Tesouro de Sierra Madre" e a filha Anjelica em "A Honra dos Poderosos Prizzi" e em mais outros 2 filmes; Jean Renoir dirigindo o irmão Pierre em alguns filmes, entre eles "La Nuit du Carrefour"; Fellini dirigindo o irmão Riccardo em "Os Boas-Vidas"; Ford dirigindo o irmão Francis Ford em vários filmes, entre os quais o encantador "Depois do Vendaval"; e Pasolini dirigindo a mãe em "O Evangelho Segundo São Mateus". E por aí vai.
2) Em sua edição de 7 de setembro de 1952, a revista inglesa "Sight and Sound" publicou uma lista dos 10 filmes que eram os preferidos de Orson Welles. Eis , para o diretor de "Cidadão Kane", os filmes de que ele mais gostava;
1 . Luzes da Cidade (Chaplin)
2 . Intolerância (Griffith)
3 . Sciuscià/Vítimas da Tormenta (De Sica)
4. - A Mulher do Padeiro (Pagnol)
5 . No Tempo das Diligências (Ford)
6 . Greed/Ouro e Maldição (Stroheim)
7 . Nanook, o Esquimó (Flaherty)
8 . O Encouraçado Potenkim (Eisenstein)
9 . A Grande Ilusão (Renoir)
10. O Pão Nosso (King Vidor)
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Obs. (1) - Dessa lista não conheço "Sciuscià", "A Mulher do Padeiro", "Greed", "Nanook, o Esquimó" e "O Pão Nosso", exatamente a metade.
Obs. (2) Welles faleceu 33 anos depois de divulgar essa lista. Teria sido muito interessante saber se três décadas depois ele manteria os mesmos filmes relacionados naquela época. Não sei, mas tenho cá comigo que ele modificaria 2 , no máximo , 3 filmes. Ou, talvez, até mantivesse a lista.

sábado, fevereiro 25, 2006

CARNAVAL

Este texto foi publicado neste espaço, por ocasião do carnaval do ano passado. Sai aqu de novoi, por dois motivos: 1) não tenho um assunto novo para hoje, e 2) dar oportunidade a algumas pessoas que não visitavam o meu blogue, na época, o lerem. Mas aqueles que já o conhecem e quiserem comentá-lo, não façam cerimônia. E um bom carnaval para todos.
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Não gosto de carnaval. Nunca gostei. Nunca brinquei. Mas as músicas me fascinavam e ainda hoje cantarolo algumas, principalmente as compostas nas décadas de 1930 e 40, as fases mais criativas daquele gênero musical. Até me casar, a não ser em raras ocasiões, passei o carnaval em Canindé, a cidade onde nasci. Mesmo quando já estava trabalhando, corria pra lá, na época do carnaval. Na infância e adolescência, quando começava o baile no clube, a poucos passos da minha casa, ia fazer parte da turma do "sereno", vendo os foliões pularem ao som das marchinhas e sambas. Alguns deles a gente via chegando, passando pertinho da gente, com as suas fantasias. Estas exerciam sobre mim um grande fascínio. E o lança-perfume? É um cheiro que ainda hoje sinto, apesar de nunca o ter aspirado, se posso confiar na memória. Perto de mim, ali na frente de clube, tantas vezes testemunhei um folião ensopar o lenço de lança-perfume e levá-lo ao nariz. Das fantasias nunca me esqueci das que usava um bloco de 4 ou 5 rapazes. Eles desfilavam à tarde, trepados em um daqueles jipes grandes que não mais se fabricavam nos anos 50, alugado a um médico. E montados nele chegavam ao clube, já cheios de cana. Era "A Turma do Funil", nome tomado de empréstimo a uma marchinha de sucesso.
Sempre que me lembro daqueles modestíssimos carnavais de Canindé, logo me vem à cabeça a figura de Boió. Um mulato baixo e atarracado, que, quando o conheci, tirava a subsistência com a revenda de revistas semanais que ia comprar em Fortaleza. A mais vendida, entre as mulheres, era a "Capricho", por causa das fotonovelas de procedência italiana. (Uma das minhas irmãs era freguesa de Boió e, assim, cheguei a ler muitas daquelas melosas histórias que fizeram grande sucesso naquele período.) Pois esse Boió, um sujeito calmo, trabalhador, humilde, soltava a franga quando chegava o carnaval. Brincava os quatro dias, municiado, claro, de bebida, usando uma fantasia que variava a cada ano, mas das quais só me lembro de uma que imitava úm índio. E o curioso é que brincava o seu carnaval sozinho. Seu quartel-general era a calçada de um extinto posto de gasolina, que, no entanto, conservara a mercearia. Ficava pertinho da minha casa. Do alpendre dava para vê-lo dançando sozinho, sob as vistas dos curiosos. E o mulato tinha um bom jingado. Pobres carnavais da minha infância e adolescência, mas que ficaram para sempre na minha memória.

quarta-feira, fevereiro 22, 2006

TABLADO SURREALISTA


O espaço de hoje deste blogue é ocupado pela poesia do querido amigo Horácio Paiva. São 3 poemas de Horatius (como gosto de chamá-lo na intimidade) , que farão parte do seu próximo livro, os quais constituem uma parte do livro denominada Tablado Surrealista. Ei-los.
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Apocalipse
As geringonças funcionaram mal:
e eis-nos às portas
do Apocalipse.
Extremoz
Extremoz é uma lagoa sagrada
onde os perus do Vaticano
vão matar a sede.
Les Mains Sales
O tempo escorria lentamente
e tudo estava tranquilo...
até Sartre roubar o meu relógio.

sábado, fevereiro 18, 2006

CURIOSIDADES CINEMATOGRÁFICAS


1) Certa vez um jornalista perguntou a Welles o que ele achava de Antonioni. E Welles, com uma cortante ironia, respondeu que nos filmes do cineasta italiano os personagens caminhavam muito. A atriz Jeanne Moreau repetiu o que Welles tinha dito, mas se referindo, especificamente, ao filme A Noite, do qual ela foi protagonista. Vi as declarações de La Moreau num especial sobre ela , apresentado pelo Eurochannel no ano passado. E pelo que ela disse, alguns membros da equipe do filme partilhavam da mesma opinião. Como o filme foi rodado durante a realização das Olimpíadas em Roma, em 1960, as pessoas brincavam com ela, comparando-a a uma maratonista que estivesse particando do evento esportivo. Mas ela recordava isso com um certo humor, sem fazer uma crítica direta a Antonioni. Uma atitude inteiramente diversa da época em que ela terminou A Noite. Numa entrevista ela revelou o seu descontentamento com o método de trabalho de Antonioni, com o seu temperamento, fatores que, segundo ela, criaram um clima pesado e desagradável durante as filmagens. Concluiu afirmando que nunca mais voltaria a trabalhar com Antonioni. E para enfatizar a decisão, disse: "Nem que me oferecessem todo o dinheiro do Banco da Itália".
Os anos foram passando e a gente via que Jeanne mantinha a decisão, embora não seja improvável que Antonioni a tivesse convidado para trabalharem juntos outra vez. No entanto, em 1995, a promessa da atriz foi quebrada. Foi em Além das Nuvens, em que Antonioni, já vitimado por um derrame, dividiu a direção com Wim Wenders. Jeanne tem uma participação especial no filme, ao lado de Marcello Mastroianni, aliás, seu parceiro em A Noite.
2) Existe um ponto em comum nas filmografias de Welles e Chaplin. Ambos só uma vez deixaram de atuar em seus próprios filmes. Em Welles foi Soberba, em Chaplin, Casamento ou Luxo? Por outro lado, se Welles trabalhou em uma infinidade de filmes de outros diretores, Chaplin só atuou nos dele. E Vittorio de Sica, outro diretor-ator, salvo engano, só trabalhou na série Pão, Amor e... entre os filmes que dirigiu.

quarta-feira, fevereiro 15, 2006

VERSO & PROSA

ATRIZ

Nua cavalgavas na tela iluminada
E no escuro da sala eu quis ser tua montaria.


LUA

Uma pequenina foice
À espera de ceifar estrelas?


PRESENÇA

Ficou o perfume
Quando você partiu.
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A QUE CHEGA COM CERTAS MANHÃS

Lia um texto no jornal e a certa altura o autor disse algo que me trouxe uma inesperada alegria.
Uma revelação, mas feita de passagem, talvez porque , para ele, o fato não tivesse o mesmo valor que para mim. Diferentemente de quando você está conversando com um amigo ele diz de alguma coisa que lhe ocorre com certa frequência e você, surpreendido, exclama "mas isso também acontece comigo", e os dois começam a falar daquilo que têm em comum. Não, o autor disse aquilo no meio de uma frase longa, como se fora um parêntese, e, no entanto, senti uma grande alegria por saber que aquele estranho, com quem, certamente, jamais me encontrarei, e eu nos uníamos naquela ocorrência.
É o seguinte. Em certas manhãs acordo e enquanto permaneço deitado por algum tempo, me deixando envolver por um restinho de sono, chega-me, de repente, a lembrança de uma determinada música. E aí está o detalhe: não é uma música de um CD que tenha adquirido há pouco e venha ouvindo com frequência; não, é uma música que fez parte da minha infância ou da minha juventude e que nunca mais ouvi. E agora ela está nos meus ouvidos, como se viesse de um rádio, ou de outro aparelho, ali ao meu lado. Mas, ao contrário do que se a estivesse realmente ouvindo, ela não tem um tempo de duração, pois permanece grudada nos meus ouvidos, quando, enfim, me levanto e vou fazer o asseio matinal e durante uma parte do dia.
Haverá uma explicação para isso? Quem sabe o Dr. Freud tenha? Mas é até melhor que não haja, que o fato permaneça como uma desses indevassáveis mistérios da mente humana. O bom é que essas músicas, que julgava apagadas das minhas lembranças, retornem no alvorecer de alguns dias, deixando-me "ouvi-las" depois de tantos e tantos anos. E já estou pensando em qual será a próxima.

sábado, fevereiro 11, 2006

O Segredo de Brobeback Mountain (Brobeback Mountain/2005


Poucas vezes vi o cinema mostrar um amor tão intenso, que só a morte pode destruir, como o que é mostrado nesse filme de Ang Lee. Um amor nascido quando os dois, sozinhos, trabalhavam para um criador de ovelhas. E que se conserva, mesmo quando são despedidose vão tomar rumos diferentes em suas vidas, inclusive conhecendo as mulheres com as quais se casam. É tão forte o sentimento, reforçado pela atração carnal, que os une, que tanto Ennis Del Mar (Hethg Ledger) quanto Jack Twist (Jake Gyllenhaal) não conseguem amar suas respectivas esposas, mas sequer ter com elas um relacionamento amigável. E se Jack ainda consegue manter o casamento, pelo menos até a sua morte num acidente, Ennis não demora a se divorciar da esposa Alma (Michelle Williams). A incapacidade de os dois homens levarem uma vida mais ou menos feliz, condena-os à solidão, que só pode ser atenuada quando estão juntos em Brokeback Mountain, uma espécie de Pasárgada para ambos. E acho que aí está o dedo do co-roteirista Larry Mc Murtry, o mesmo de A Última Sessão de Cinema, de Peter Bogdanovich, autor também do romance em que aquele filme foi baseado. Para quem não se lembra, um dos temas tratados no filme de Bogdanovich é o da solidão.
E falando de roteiro, é preciso ressaltar a perfeita sintonia existente entre este (que tem a participação de Diane Ossana) e direção em O Segredo de Brobeback Mountain. Uma sintonia que se afirma até no que, talvez, seja o único escorregão do filme, ou seja a dispensável cena (que dá a impressão de ser uma concessão ao grande público) em que Alma surpreende o marido entre beijos e abraços com o amigo, num reencontro depois de quatro anos sem se verem. Ideal seria que Alma fosse assaltada pela suspeita de que as constantes e demoradas reuniões do marido e do amigo ultrapassem os limites de uma simples e pura amizade. Por outro lado, o sofrimento da esposa, que aparece mais de uma vez chorando, é reservado, é guardado só para si mesma. Só uma única vez ela faz um desabafo para Ennis, quando os dois já estão separados e ela está vivendo com outro. E ainda assim, é de passagem que ela toca no relacionamento do ex-marido com Jack, a quem chama de pervertido.
Essa sintinia entre roteiro e direção não significa, no entanto, que o diretor Ang Lee seja um mero administrador do roteiro. De jeito nenhum. Não me lembro de ter visto outro filme desse cineasta nascido em Taiwan e radicado nos Estados Unidos e ele me causou uma boa impressão nesse filme. Sua direção é vigorosa, quando necessário (destaque-se a cena em que Jack impõe a sua autoridade diante do sogro, que procura manobrá-lo como um títere), delicada e sensível quando é preciso. E ele sabe valorizar o silêncio em alguns momentos. Uma qualidade que ele tem, pelo menos em O Segredo de Brobeback Mountain, é a forma de dirigir os atores, extraindo deles uma forte expressividade em seus rostos. Há um momento exemplar disso, já perto do final, quando Ennis telefona à viúva de Jack, depois de saber da morte deste. Há um instante em que Ennis, comovido, fica silencioso, ela pergunta se ele ainda está ao telefone, ele, afinal, responde e se despede. A câmera pega o rosto de Lureen (Anne Hathaway) e a expressão que ela transmite nos dá a sensação de que, pela primeira vez, suspeita do que moveu o relacionamento entre aqueles dois homens.
O Segredo de Brobeback Mountain é um filme muito bom, que, inclusive, serve como um alento para o combalido cinema americano. E quem sabe se mais filmes como esse (não, claro, abordando o mesmo tema) não tirem aquele cinema do atoleiro da pobreza criativa num futuro não muito distante, atoleiro no qual se meteram até cineastas de um passado digno, honroso? Quem sabe?

quarta-feira, fevereiro 08, 2006

CINEMA: Por que gosto tanto dele?


Muitas pessoas já me perguntaram a origem e a causa do meu amor pelo cinema e nunca pude satisfazer-lhes a curiosidade. Porque, simplesmente, não sei explicar. Sou filho de um homem que detestava cinema, que, tenho quase certeza, nunca viu um filme em seus quase oitenta anos de vida. Minha mãe, a mesma coisa. Sim, alguns irmãos mais velhos gostavam, mas não me lembro de ter sido incentivado por nenhum deles a amar o cinema. E a este iam por diversão, como ocorreu comigo até aí pelos vinte anos. E se meus pais não tinham o mínimo interesse por cinema, é natural que proibissem os filhos menores de o frequentarem. Por isso não frequentei, com a assiduidade de meus amigos de infância, o Cine Canindé, da minha cidade, que funcionava três vezes por semana: às quintas, sábados e domingos. Mas, apesar da proibição, eu ia ao cinema na minha infância. Escondido dos meus pais, como se estivesse cometendo um grave pecado. Mas ia. Me lembro dos seriados, dos westerns de Durango Kid e companhia e até de um gênero de filme (geralmente exibido aos domingos) que os meninos chamávamos de "filme de amor".
A memória não me deixa lembrar como conseguia dinheiro para ver os filmes. Pode ser que algumas vezes tenha me socorrido de uma das minhas irmãs, já moça-feita. Ou por um outro meio. Um dos meus amigos era filho do proprietário do cinema, talvez o homem mais rico da cidade. Mas aí a memória é generosa comigo, nunca me atrevi a lhe pedir pra me botar pra dentro do cinema do pai.
Agora, com um riso retrospectivo, menciono um expediente nada honesto para entrar no cinema. Mas isso ocorreu umas cinco, seis vezes, no máximo. Sem um tostão no bolso, sem querer perder o seriado, ou o filme de caubói, olha o que eu fazia. Me postava perto dos degraus que levavam ao porteiro e esperava, entre ansioso e amedrontado, a entrada de um grupo de pessoas. Quando isso ocorria, eu, depressa, me misturava entre elas e, sempre ligeirinho, ia procurar uma cadeira bem longe do porteiro. Uma noite ocorreu um fato engraçado. No momento em que ia entrando, talvez pela pressa, escorreguei e me esborrachei no chão, às vistas do porteiro. Este (Deus o tenha), não fez nada, até riu comedidamente e não impediu que, ao me levantar, eu fosse em frente. Foi a última vez em que entrei "de graça". Na vez seguinte (como me lembro!), apareci, altivo, de ingresso na mão. O pobre porteiro deu um risinho irônico, como quem diz hoje você vai entrar como todos os outros o fazem.
Ao encerrar este texto, em que mais uma vez não consegui explicar como fui acometido pela "doença do cinema" (como diz um personagem de Cinema Paradiso) não posso omitir o incentivo que recebi de alguns companheiros do Cineclube Tirol, . Ao ingressar nele, em 1965, quando cheguei a Natal, fui aprimorando a visão crítica do cinema, graças ao convívio com companheiros, como Gilberto Stabile, Franklin Capistrano, Bené Chaves e, claro, Moacy Cirne.

domingo, fevereiro 05, 2006

O RELÓGIO DA CONSTRUÇÃO



Um relógio existe no edifício em construção:
sem pnnteiros, vidro e algarismos.
Em seu vocabulário restrito e brincalhão,
os operários o chamam de cachorra.
É como uma haste de ferro e no topo se encaixa uma ferradura,
em que se bate com uma varinha também de ferro.
As pancadas das sete horas chamam os homens para o trabalho.
As das onze avisam que devem interrompê-lo para o almoço.
Reiniciam o serviço, quando ressoam pancadas uma hora depois.
O encarregado da cachorra, porém, não a toca,
ao final de mais um dia de trabalho.
E os operários prorrogam o seu horário,
porque o patrão tem pressa em terminar a obra.

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Este poema data de mais de vinte anos. Foi escrito numa época em que tentei experimentar a poesia, tendo chegado a escrever uns 15 poemas, num periodo de poucos. Conservei, apenas, uns 4, que me parecem os menos ruins. Não vai no que digo nenhum sentimento de falsa modéstia. Não, a poesia, para uma usar uma palavra de alguns anos atrás, não é a minha praia. Se publico este, é mais para satisfazer uma amiga da blogosfera, que se queixou, outro dia, que eu nunca publicava poemas de minha autoria. Aí está, amiga. Por fim, informo que O Relógio da Construção foi publicado numa revistinha literária de Teresina (PI) e no jornal cultural O Galo, aqui de Natal, ambos já extintos.

quarta-feira, fevereiro 01, 2006

VALQUÍRIIA E O MENINO


Foi assim de uma hora para outra. Quando a via, olhava para ela de um modo diferente, e sentindo despertar-lhe uma coisa nova que a sua pouca idade não poderia discernir. Às vezes ficava sem vontade de brincar com os amigos na pracinha, só querendo olhar para a moça que se sobressaía diante das amigas pelo jeito festivo, o timbre da voz, a conversa incessante. Aquela moça branca, branca como... Como o quê? Não sabia como comparar a cor da sua pele. Curioso: se não estava perto de Valquíria, não pensava nela. Era quando a encontrava (às vezes durante o dia), que aquilo lhe ocorria. E se punha determinado a não perdê-la de vista quando ela volteava pela pracinha com as amigas.
Uma noite Valquíria não estava acompanhada das amigas. Ficou com uma sensação de perda, como se um amigo lhe tivesse levado o gibi que amava, a bola que o pai lhe presenteara no último aniversário, com a qual dormia abraçado. Qualquer coisa assim. Mas não arredou pé da pracinha. Foi apostar corrida com os amigos. Num dado momento descobriu-a num banco com um rapaz. Parou de correr, num instante. Os amigos o chamavam, o xingavam, e ele ali estático, como se alguém muito forte o prendesse pelos braços. Estava a uma pequena distância de Valquíria e pôde observar que as alvas mãos dela estavam entrelaçadas com as do namorado. Não sabe o que lhe deu, para, de repente, sair da posição estática e se dirigir para o banco. Foi numa reta em direção aos dois. Para que, meu Deus? Ele próprio não saberia explicar o ato impulsivo. Ao chegar bem próximo do casal, olhou para Valquíria, ela olhou para ele e (jamais poderia imaginar a reação dela) lhe sorriu. Os dentes imaculadamente brancos, tal como a pele. Ele se voltou e saiu em disparada.
Deixou de frequentar a pracinha. Os amigos não atinavam com a causa da recusa e ele inventava desculpas que não os convenciam. Mas manteve a decisão. Chegou a ver Valquíria uma ou outra vez na rua (numa delas estava com o namorado, ele com a mão sobre o ombro dela), mas não quis olhar para o seu rosto. Ainda que fosse para receber um sorriso.
E não muito tempo depois, Valquíria foi embora, para nunca mais voltar. Um dia, à hora do almoço, o menino ouviu o pai dizer que o pai de Valquíria ia se transferir para outra cidade. Foi feito um soco na cara do menino. Terminou, às pressas, de comer, foi para o seu quarto, deitou-se na rede. E pensando em Valquíria, cantou, baixinho, uma música que tocava quase todas as noites na amplificadora, em cujos versos um homem revelava o seu amor por uma outra Valquíria.

domingo, janeiro 29, 2006

Truffaut, Brando, Chaplin, Keaton

1) Dentre os cineastas, nenhum, talvez, tenha tido pelo cinema um amor tão intenso e permanente do que François Trauffaut. Um amor iniciado na infância, quando ele gazeava as aulas para ir ao cinema. Era ali que ele , menino e adolescente problemático, se refugiava da sua inadptação aos bancos escolares e ao difícil convívio com a família. E que continuou quando ele já era um cineasta consagrado. Não deixava de ir ao cinema e ainda escrevia sobre certos filmes. Era um diretor-cinéfilo, como não há muitos. Numa entrevista em 1971, constante do livro O Cinema Segundo François Truffat, de Anne Gillain (Nova Fronteira, 1990), eis uma pequena amostra de como o cinema era uma coisa essencial em sua vida. Diz ele. "Gosto tanto de cinema, que mal suporto a companhia de pessoas que não gostam. Certo dia dei carona a um alemão. Falei-lhe de Fritz Lang e ele não reconheceu o nome. Max Ophuls, muito menos. Então, o fiz descer do carro em Lyon, fazendo-o crer que ia parar nessa cidade." Grande Truffaut.
2) Em uma muito longa entrevista ao jornalista francês Michel Ciment, que acabou fazendo parte do livro Hollywood - Entrevistas (Brasiliense, 1988), no qual aparecem entrevistas de mais cinco cineastas, John Huston, a uma certa altura, demonstra a grande admiração que tinha por Marlon Brando. E faz esta surpreendente revelação: "Lembro-me de Júlio César, em que ele representava Marco Antonio. Pois bem, os experientes atores ingleses que o cercavam empalideciam ao lado dele. Fico pasmo de admiração diante de Brando e de sua arte". Esses atores ingleses, que Huston não menciona, são nada menos do que o grande James Mason e o não menos grande John Gielgud. E havia ainda Deborah Kerr e o talentoso e experiente ator americano Edmond O' Brien. Ainda sobre Brando. Segundo o escritor Truman Capote, que o entrevistou no Japão, quando o ator filmava Sayonara, ele não necessitava de menos de quinze minutos numa conversa com alguém a quem era apresentado, para apreender os gestos, um cacoete , a voz desse estranho. E depois imitá-los com perfeição.
3) Foi em Luzes da Ribalta (1952), que Chaplin e Buster Keaton trabalharam juntos pela única vez . Eles contracenavam num esquete que durava uns dez minutos, pouco mais. Nesse encontro dos dois, Orson Welles, não sei por quê, acusou Chaplin de não ter valorizado a participação de Keaton, em benefício dele próprio. Não sei se Welles tinha razão. Ou se era uma acusação infundada. Tenho cá a suspeita de que o diretor de Cidadão Kane não apreciava Chaplin (como pessoa). E, no entanto, quando ele apresentou a Chaplin um argumento, que serviu para a elaboração do roteiro de Monsieur Verdoux, recebeu a expressiva (para a época), importância de cinco mil dólares. Acho até que Chaplin foi generoso com Keaton, que estava praticamente acabado. Nos últimos anos fizera filmes inexpressivos e chegara a se apresentar em circos e fazer comerciais na tevê. E dois anos antes de Luzes da Ribalta, Keaton fizera quase uma ponta em Crepúsculo dos Deuses (Wilder). O que . a meu ver, Welles podia ter reclamado é que a reunião, numa única vez na tela, de dois gênios da comédia tenha ocorrido numa fase em que ambos estavam em declínio, sobretudo Keaton.

domingo, janeiro 22, 2006

QUEM SABE? (Va Savoir, 200l)


A proposta desse filme de Jacques Rivette me parece bastante clara: promover uma interação entre teatro e realidade. A encenação de uma peça de Pirandello em Paris, realizada por uma companhia teatral italiana, em excursão pela Europa, corre paralela às situações vividas por um casal de atores. Os dois perseguem um objetivo diferente, ao deixarem o palco. O de Camille (Jeanne Balibar) é reencontrar Pierre (Jacques Bonnafé), de quem se separara há três anos, quando partira para a Itália. O de Ugo (Sergio Castellitto), que acumula as funções de diretor e de ator, é descobrir o manuscrito de uma peça escrita pelo teatrólogo italiano Carlo Goldoni, que viveu no século 18. O texto nunca foi encenado e fora dado pelo autor, quando morava em Paris, a um amigo. Na busca de seus objetivos, Ugo e Camille irão conviver com mais três pessoas, além de Pierre: a atual amante deste, Sonia (Marianne Basler), Dominique (Hélène de Fongerolles) e Arthur (Bruno Todeschini), irmão de Dominique.
Na reunião desse sexteto afloram sentimentos, atitudes, situações que fazem a "vida real" deles ir adquirindo a feição de personagens de uma peça, que tanto pode ser a de Pirandello, como a de Goldoni, que é descoberta, por acaso, não por Ugo, mas por Dominique, misturada a livros de receitas de bolo. Ugo se sente fortemente atraído por Dominique, a quem conheceu numa biblioteca pública, e em cuja casa existe uma vasta biblioteca; mas Dominique demonstra um comportamento ambíguo em relação ao interesse dele por ela. É ambíguo também o comportamento de Camille, tanto com Pierre (que confessa que ainda a ama), quanto com Ugo. E Sonia tem um relacionamento com Arthur, um mau-caráter, que rouba livros da biblioteca de sua casa e um anel de brilhante de Sonia. Aliás, o roubo do anel e a sua recuperação por Camille (depois de uma noite de amor com Arthur, que também se sente atraído por ela), parecem (propositadamente) inverossímeis. E à medida que a história (real) avança, cada vez mais vai adquirindo a forma de um texto teatral, o qual, ao chegar o final do filme, se instala de vez. A casa de Madame Deprez, mãe de Arthur e Dominique, se transforma num palco, ao qual sobe Sonia, vindo da platéia. Ao encontrar Camille, lhe dá um tapa "teatral", um desejo que ela acalentava há muito tempo, mas num instante se reconcilia com a outra. A última imagem é a de Ugo dançando com Camille e Dominique com Arthur. E assim como começou, é num palco que o filme termina.
Rivette dirige Quem Sabe? com elegância e um certa leveza, ainda que imprima um ritmo lento à narrativa. Fez mais um belo filme, provando que o melhor do cinema francês, em que pese o surgimento de alguns talentos, como Patrice Leconte, continua sendo feito por ele e alguns companheiros da Nouvelle Vague.

quarta-feira, janeiro 18, 2006

UMA INSÓLITA APARIÇÃO DE HITCHCOCK


Todo cinéfilo sabe do hábito de Hitchcock de aparecer em seus filmes. Um hábito que teve início ainda em 1926, com The Lodger. Quando o espectador se acostumou com a presença do rotundo diretor, aguardava-a talvez com a mesma ansiedade que a trama do filme causava nele. E quando ele surgia na tela. eram inevitáveis as risadas. Essa aparição nunca ocorria nos primeiros minutos. mas aí pelos quinze a vinte minutos, no máximo. Um grande diretor, Hitchcock tinha o olho esperto na bilheteria e sacava, como, talvez nenhum dos seus colegas, a "psicologia" dos que iam ao cinema para se divertir. Tinha a vocação para o marketing, numa época em que essa palavra ainda não existia. Sabia "vender" o seu produto.
Não sei se Hitchcock apareceu em todos os filmes, a partir da experiência inicial. É possível que sim. O cinéfilo, especialmente o hitchcockiano, deve se lembrar de muitos desses momentos. Alguns exemplos, ao acaso. Ele dando corda num relógio pousado sobre um móvel em Janela Indiscreta; entrando num trem com um violoncelo (ou contrabaixo) em Pacto Sinistro; conduzindo dois cachorros em Os Pássaros; no corredor de um hotel, em Marnie. E por aí vai.
Pelo visto, eram aparições fáceis de ocorrer. Mas quando ele foi rodar Um Barco e Nove Destinos (1943), a coisa se complicou. A trama do filme é toda desenvolvida dentro de um bote salva-vidas, onde nove sobreviventes de um navio torpedeado vão se refugiar. Hitchcock não podia aparecer, não haveria lugar para ele, a não ser que ele fosse um dos personagens. E como ele disse a Truffaut numa entrevista, ninguém aparece caminhando dentro do mar. Foram momentos dolorosos, confessa na mesma entrevista, pensando numa forma de participar do filme. De tanto pensar, surgiu a idéia. Na época ele passava por uma dieta rigorosíssima, cuja meta era perder nada menos do que 50 quilos. Ele não diz se o conseguiu, mas, sem dúvida, ficou bem menos gordo. Aí posou para uma foto no início do tratamento e para outra no final. Isso feito, fez estampar as fotos num velho jornal, como ilustração do anúncio de um medicamento usado para emagrecimento. Era um remédio fictício, ao qual ele batizou de "Reduco". O jornal foi pregado ao lado do barco. E num dado momento, um dos sobreviventes pega o jornal, desdobra-o e lá aparece, ao lado do anúncio ,as fotos de Hitchcock "antes" e "depois" de usar o remédio. E, assim, embora não fisicamente, o grande gordinho fez a sua costumeira aparição.
P.S. Outros diretores apareceraam em seus filmes, mas uma única vez. Três exemplos me vêm à memória. Buñuel em A Bela da Tarde, num café ao ar livre, na cena em que Catherine Deneuve encontra o viúvo, que a convida a ir à casa dele; Philippe de Broca em Brincando de Amor, na cena de uma festinha; e Huston em O Tesouro de Sierra Madre. Este aparece duas vezes, como o homem de terno branco a quem Bogart pede dinheiro.

domingo, janeiro 15, 2006

A REUNIÃO


A decisão de nosso chefe de marcar a reunião para sábado no Colégio Estadual desagradou a todos nós. Pelo local e mais ainda por ser um sábado, quando só pensamos em esquecer os cinco dias rotineiros que atravessamos. Mas o chefe não aceitou nossas ponderações e ainda nos comunicou que, a partir daquela data, as reuniões não mais se realizariam no nosso Setor. (Ele adora fazer o gênero ditador.) Concordamos com ele quando disse que o tempo gasto em reuniões seria melhor aproveitado no cumprimento das tarefas. Agora achar que, se reunindo fora do Setor, se evitaria que funcionários de outros Setores ficassem conhecendo os nossos problemas de serviço, é uma argumentação no mínimo risível. Tivemos que baixar a cabeça. De nada adiantaria falar com o subgerente, como alguém sugeriu. Íamos só gastar saliva e o homem podia não nos entender.
E no sábado fomos para o vetusto prédio do Colégio Estadual, chateados, mas fomos. Dei carona ao Heráclito, que estava com o carro na oficina. Fomos os últimos a chegar e não sabemos por que não levamos um pito do chefe. Ele pediu que o acompanhássemos à sala onde se daria a reunião. Eu e Heráclito ficamos na rabeira. Como um líder, nosso chefe ia à frente. Ia sem pressa, até muito vagaroso, o que nos surpreendeu, atrasados, como estávamos. E como passássemos pelo salão, onde estão expostos os quadros de formatura, achamos que disporíamos de tempo para procurar o da nossa turma. Não demoramos a achá-lo. Emocionados, recordamos alguns colegas, professores, os grandes momentos. E rimos de nossos retratos: a carranca, o cabelo glostorado, o paletó e a gravata imundos do fotógrafo, que serviram a milhares de formandos. Mas de repente nos entristecemos, ao nos revermos adolescentes, o jeitão sério apenas uma pose para fotografia de concluinte. Problemas, responsabilidades, compromissos - isso existia pra nós naquele tempo? Não tínhamos passado, no futuro não pensávamos, só o presente interessava. Acabamos arrependidos de remexer no passado. Enão, nos lembramos da reunião. Galgamos velozmente a escada que dá acesso às duas alas , que tanto percorremos em outra época. Lá no topo o coração em tempo de pular da boca. Éramos dois velhos - comentei para o Heráclito.
Ficamos parados até recobrar o fôlego. Foi quando nos demos conta de que não sabíamos da sala, onde se daria a reunião. O Heráclito, sempre prestativo, queria se informar na secretaria e na diretoria, mas lhe lembrei de que não iria encontrar ninguém num dia sem aula. A solução era cada um de nós tomar uma ala e percorrer todas as salas. Aquele que localizasse a sala, gritaria pelo outro. Entrei em cada uma das salas, minhas velhas conhecidas, sem perder a esperança de na sala seguinte encontrar os colegas reunidos. Mas em todas apenas as carteiras encardidas (vazias). E não ouvi o grito de Heráclito. Nos reencontramos no topo da escada, cansados, desapontados. Mas o meu amigo teve uma boa idéia: descermos para a secretaria e a diretoria. Conhecendo o nosso chefe, achávamos que ele tinha escolhido uma das salas - talvez a do Diretor. Fomos primeiro para esta e, ao nos aproximarmos, ouvimos vozes. Na mosca. Como conhecíamos o nosso chefe! Entramos à toda, levamos um bruto susto: em vez dos colegas, demos com um grupo de escoteiros. À mesa, o chefe dos garotos parou de falar quando invadimos a sala com um com licença, chefe. Desejando que naquele momento o chão se abrisse e nos tragasse, balbuciamos uma desculpa e saímos. Desanimados. fomos ainda à secretaria - fechada.
Até pegarmos o carro e durante todo o trajeto, não soltamos uma palavra. De vez em quando nos olhávamos, lendo no rosto a certeza de termos desperdiçado o nosso fim de semana. Nada nos iria distrair da ídéia de começarmos a segunda-feira com uma reprimenda do nosso chefe.
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Conto extraído do meu livro Não Enterrarei os Meus Mortos (1980)

quarta-feira, janeiro 11, 2006

SOPRANDO A PRIMEIRA VELINHA


Hoje está fazendo um ano que iniciei este blog. Em 11 de janeiro de 2005 o Luzes da Cidade ingressava no mundo da blogosfera, com uma crítica sobre o filme de Chaplin que inspirou o nome deste espaço. Antecedendo o texto, fiz algumas considerações, entre as quais informava que, apesar do título, o meu blog não iria se dedicar exclusivamente às coisas do cinema, muito embora este fosse ter um maior destaque. E assim tem sido nesses doze meses. E assim será até enquanto ele existir. Mesmo ocupando um espaço menor, tenho divulgado o meu trabalho literário, publicando textos extraídos dos meus livros e também inéditos. Também escrevi sobre outros escritores e publiquei, em pequeno número, é verdade, textos de poetas, consagrados ou não. Andei, ainda, publicando umas poucas crônicas de minha autoria. Mas o cinema continuou sendo o assunto mais relevante.
Curioso é que a minha decisão de editar um blog surgiu de repente, e depressa a levei a cabo. Jamais pensei nessa possibilidade, desde que ingressei na Internet. Me lembro, poucos meses antes, de uma sugestão de Bené Chaves (que já fazia circular o seu O Apanhador de Sonhos) para que eu criasse também o meu. Foi numa reunião que tivemos com Moacy Cirne, numa das vindas deste a Natal. "Quero lá o quê!", reagi de imediato. No entanto, não muito tempo depois... É como aquela história de que nunca se deve dizer que desta água não beberei.
Preciso confessar que, mais do que, talvez, o meu prazer de escrever (a necessidade, diria melhor), a grande satisfação que tive durante esses doze meses foi o ensejo de conhecer pessoas inteligentes, sensíveis e talentosas, além de possuírem uma grande qualidade humana. Elas me gratificaram com palavras amáveis, nas suas visitas, onde não faltou uma boa dose de generosidade; e me proporcionaram momentos preciosos ao visitar os seus blogues. Quero, sem citar nomes, fazer um agradecimento especial àqueles que se mantiveram mais assíduos em suas vindas ao Luzes da Cidade. Mas também agradeço aos que aqui vieram esporadicamente, aos que , assíduos por algum tempo, de repente tomaram um chá de sumiço. Agradeço até mesmo àqueles que me visitaram uma única vez. Como , ao me lerem, dissessem para si mesmos, o diabo é quem vem outra vez por aqui. A todos deixo um grande abraço e os votos de um venturoso ano que está se iniciando.

sábado, janeiro 07, 2006

MEUS ATORES E ATRIZES PREFERIDOS

Sem ordem de preferência.

Atores

Dirk Bogarde
Barry Fitzgerald
James Mason
Alec Guiness
Henry Fonda
Marcello Mastroianni
Bruno Ganz
Al Pacino
Claude Rains
Charles Laughton
Spencer Tracy
Marlon Brando
Robert Ryan
Burt Lancaster
Peter Lorre
Montgomery Clift
Jack Lemmon
Paulo José


Atrizes

Claire Bloom
Isabelle Hupert
Virginia Mayo
Maureen O' Hara
Ornella Muti
Jean Simmons
Alida Valli
Teresa Wright
Audrey Hepburn
Ava Gardner
Catherine Deneuve
Natalie Wood
Sophia Loren
Silvana Mangano
Emmanuelle Béart
Susan Hayward
Anne Bancroft
Lee Remick
Ingrid Thulin
Helen Mirren
Debra Winger
Nicole Kidman

domingo, janeiro 01, 2006

A CHINESINHA

Tomei o primeiro, longo gole de cerveja, degustando o prazer da bebida bem gelada. Em seguida, virei o rosto para a parede à minha direita, onde estava dependurado um quadro emoldurado e envidraçado. A peça, que não parecia (de acordo com os meus modestos conhecimentos de artes plásticas), executada por um verdadeiro artista, representava sete pessoas (4 homens e 3 mulheres), cada uma delas exercendo uma função. Um dos homens portava um instrumento musical, outro montava um cavalo, uma mulher aparecia segurando uma flor, e assim por diante. Um atrás do outro, formando uma fila indiana. Era um quadro chinês, pois o restaurante era chinês. Havia outro quadro na parede à minha esquerda, embaixo do qual se postava a longa mesa onde era exposta a comida para os clientes se servirem. Mas nem sei dizer o que o quadro representava, pois me desinteressei de olhá-lo.
A chinesinha que me atendeu teria, se muito, dezoito anos, era magrinha, como parecem ser todas as chinesas, pelo menos, as jovens. O seio quase inexistente me fez lembrar a expressão "peitinhos de pitomba", de uma música do Chico. Mas bonitinha, com um rabinho-de-cavalo, e se chamava Jini. Havia outra moça, um pouco mais velha, e um homem, esse, sim, gordo, não muito mais alto do que as moças. Devia ser o proprietário. Fiquei por ali só bebendo, pois ia almoçar em casa.
Descobrira o restaurante num desses sábados em que com a minha mulher fui a um shopping fazer compras. Depois das compras, seguimos para a praça da alimentação, para tomarmos umas duas cervejas. Entramos ali sem nem saber que o restaurante era chinês. Só o descobrimos quando a chinesinha nos veio atender e também verificamos a decoração. E não sei por quê (talvez o inusitado do local, com uma chinesa de garçonete), achei agradável o ambiente, e sempre que ia ao shopping, aparecia lá para tomar a minha cerveja.
Os ocidentais acham que as pessoas da raça oriental são todas parecidas no físico. Talvez eles digam o mesmo de nós. Bom, o certo é que teve um dia que eu achei que Jini, a chinesinha, era como estar vendo a bela atriz Gong Li. Só que bem mais nova. E um dia falei a ela da semelhança entre as duas. Jini me olhou admirada e não disse nada. Suspeitei que ela não soubesse quem diabo era Gong Li.
Uma vez fui atendido pela sua companheira. Era também bonitinha, me disse o seu nome, mas não o guardei. Soube que Jini estava adoentada. Doença grave, perguntei. A moça não disse nem sim, nem não. Era atenciosa e mais comunicativa do que Jini. Como a cerveja não estivesse muito gelada, trouxe, sem eu pedir, um balde com cubos de gelo, onde pousou a garrafa. Fiquei por ali, vendo pela milésima vez o quadro, enquanto os primeiros clientes chegavam para almoçar. Dessa vez me deu vontade de comer um pastel.
Voltei alguns dias depois e, de novo, não encontrei Jini. Perguntei à colega se ela tinha melhorado. E, coisa estranha, de novo ela ficou muda. Nem um sim, nem um não. Coisa mais estranha!
Não resisti a perguntar por Jini, na vez seguinte. E o mesmo silêncio da garçonete, mas com uma diferença: além do silêncio, ela esboçou um sorriso, cujo significado não consegui decifrar. A partir daquele dia, desisti de indagar pela chinesinha. Houve uma ocasião, depois de beber três cervejas (habitualmente não passo de duas) , em que senti o impulso de perguntar ao proprietário o que fora feito de Jini. Mas nem cheguei a me levantar. Deixa pra lá, disse pra mim . E, embora continue frequentando o local, apreciando a cerveja bem gelada (quando não está a meu gosto, a garçonete providencia o balde com gelo), confesso que sinto falta da sósia de Gong Li. Onde ela estará? O que terá sido feito dela?

quarta-feira, dezembro 28, 2005

OS MELHORES FILMES VISTOS EM 2005

Hoje eu quis voltar aos meus tempos de cineclubismo, quando, junto com alguns companheiros do Cineclube Tirol, publicava, na imprensa local, a lista dos melhores filmes exibidos durante o ano. A minha lista deste ano atinge o número de 14 filmes. É bem provável que possa ter esquecido um ou outro , pois, ao contrário de Bené e Moacy, não costumo anotar os filmes que vejo. (Acho que, a partir do próximo ano, vou adotar esse procedimento. Não posso mais confiar tanto na memória, que já vai dando sinais de cansaço.) Preciso fazer um esclarecimento a respeito da inclusão de Brinquedo Proibido. Foi com a idade de 12/13 anos que o vi, numa cidade do interior da Paraíba. Na época (será preciso dizê-lo?) não tinha a mínima visão crítica e estética do cinema, além de não me lembrar, ao longo dos anos , de absolutamente nada dele. Assim, ao assisti-lo em DVD, em agosto deste ano, foi como se o visse pela primeira vez. Isso posto, vamos à relação.
1 . A Queda - As Últimas Horas de Hitler (Oliver Hirscbiegel, 2004)
2 . Um Filme Falado (Manoel de Oliveira, 2003)
3 . A Eternidade e Um Dia (Théo Angelopoulos, 1998)
4 . O Silêncio (Bergman, 1963)
5 . L' Age d' Or (Buñuel, 1930)
6 . Sherlock Jr. (Buster Keaton, 1924)
7 . Entr' acte (Clair, 1924)
8 . Nuit e Brouillard (Resnais, 1955)
9 . Rififi (Jules Dassin, 1954)
10, Brinquedo Proibido (René Clément, 1952)
11. O Segredo de Vera Drake (Leigh, 2004)
12. Elefante (Gus Van Saint, 2003)
13. Batman Begins (Christopher Nolan, 2005)
14. O Abraço Partido (Daniel Burman, 2003)

sábado, dezembro 24, 2005

NATAL! U,m soneto, um poema e uma letra da MPB


Soneto de Natal
Machado de Assis

Um homem, _ era aquela noite amiga,
Noite cristã, berço do Nazareno, _
Ao relembrar os dias de pequeno,
E a viva dança, e a lépida cantiga

Quis transportar ao verso doce e ameno
As sensações da sua idade antiga,
Naquela mesma velha noite amiga,
Noite cristã, berço do Nazareno.

Escolheu o soneto... A folha branca
Pede-lhe a inspiração; mas frouxa e manca,
A pena não acode ao gesto seu.

Em vão lutando contra o metro adverso,
Só lhe restou este pequeno verso:
"Mudaria o Natal ou mudei eu?"



Poema de Natal
Carlos Pena Filho

_ Sino, claro sino,
tocas para quem?
_ Para o Deus Menino
que de longe vem.

_ Pois se o encontrares,
traze-o ao meu amor.
_ E que lhe ofereces,
velho pecador?

_ Minha fé cansada,
meu vinho, meu pão,
meu silêncio limpo,
minha solidão.



Boas Festas
Assis Valente

Anoiteceu,
o sino gemeu,
a gente ficou
feliz a rezar.
Papai Noel,
vê se você tem
a felicidade pra você me dar.


Eu pensei que todo mundo
fosse filho de Papai Noel.
Bem assim felicidade
eu pensei que fosse uma brincadeira de papel.
Já faz tempo que pedi,
mas o meu Papai Noel não vem.
Com certeza já morreu,
ou então felicidade
é brinquedo que não tem.







domingo, dezembro 18, 2005

O SEGREDO DE VERA DRAKE (VERA DRAKE/2004)

Vão sendo mostrados os primeiros créditos e quando aparece, em destaque, o título Vera Drake, o lado direito da tela abre-se e vemos uma mulher caminhando. Em seguida, a tela fica cheia e a mesma mulher está numa casa prestando assistência a um velho enfermo. Algum tempo depois, ela é vista no trabalho de induzir uma jovem a abortar, uma cena que se repetirá duas ou três vezes. E à medida que O Segredo de Vera Drake vai se desenrolando, fica patente que o diretor-roteirista Mike Leigh não pretende se posicionar a favor ou contra o aborto. A intenção, clara, é a de destacar a bondade de uma mulher casada, mãe de um casal de filhos, de ajudar mulheres a se livrarem do filho indesejado. Bondade, sim, pois Vera Drake faz esse "serviço", sem receber pagamento. Quem lucra é uma desonesta conhecida dela, encarregada de informá-la das mulheres que querem interromper a gravidez. Como todas as pessoas que praticam o bem (embora , no caso, o aborto seja considerado um crime, pelo menos na Inglaterra de 1950, a época em que se passa a história), Vera é uma ingênua, uma pura, que jamais desconfiou de que estava sendo usada pela outra. E, também, vítima de inveja, no caso da esposa do irmão do seu marido.
Como se vê no início do filme, ela também socorre outras pessoas mais velhas e doentes, levando-lhes algum alimento e tendo sempre para elas uma palavra de conforto. Um personagem assim altruísta, que, apesar das dificuldades financeiras por que passa, junto com o marido, vivendo de fazer faxina nas residências, não reclama da vida e está sempre bem-humorada, tem tudo para se tornar um alvo em potencial da pieguice e do sentimentalismo. Mas Leigh, com o talento já demonstrado em Segredos e Mentiras, sabe como driblar esse perigo e conduz o filme com energia, mas com uma segurança e uma sobriedade elogiáveis. Até mesmo nas cenas em que Vera é confrontada com os policiais e não pode conter a emoção, o filme não descamba para o melodramático. Talvez também porque ele conta com o talento de Imelda Staunton, que tem uma atuação admirável no papel de Vera, sem excessos, sem exageros. E são cenas de forte carga dramática, que, nas mãos de um diretor e de uma atriz de pouco potencial, causariam danos irreparáveis ao filme. Vale aqui ressaltar o momento em que Vera, envergonhada pelo que fez, diante dos policiais, encosta a boca no ouvido do marido e lhe faz a bombástica confissão. Uma cena feita de silêncios, mostrando a expressão de pasmo do companheiro de tantos anos anos, que nunca suspeitara do "segredo" que a esposa guardava em seu íntimo.
É ainda importante que se fale do comportamento dos policiais, entre eles uma mulher. Apesar do empenho em arrancar a confissão de Vera, o sargento não age de forma brutal, com truculência. Embora firme, em nenhum momento ele levanta a voz para a interrogada, um comportamento que não é comum em um policial, principalmente diante de um acusado vindo das camadas mais baixas. É como se ele (e os auxiliares) estivessem cientes de que aquela mulher praticou um delito, sim, mas com a intenção de praticar o bem, tanto que não o fez para ganhar dinheiro. E na penúltima cena, já na prisão, quando Vera vai subindo uma longa escada, a guarda recomenda-lhe cuidado para não cair.
Com mais esse êxito em sua carreira, o inglês Mike Leigh comprova que é um dos cineastas mais interessantes do cinema contemporâneio.

domingo, dezembro 11, 2005

15 GRANDES MOMENTOS DO CINEMA


1 - O ator bêbado recitando o monólogo de Hamlet, trepado em uma mesa de bar, em Paixão dos Fortes (John Ford)
2 - A sequência final de Oito & Meio (Fellini)
3 - A expressão do rosto do vagabundo no final de Luzes da Cidade (Chaplin)
4 - O plano-sequência no início de A Marca da Maldade (Welles)
5 - A sequência em que Cary Grant é perseguido por um avião em Intriga Internacional (Hitchcock)
6 - Gene Kelly dançando e cantando debaixo de um toró, em Cantando na Chuva (Kelly & Stanley Donen)
7 - A sequência final de Sinfonia de Paris, na qual se aliam, de forma admirável, a cor, a dança e a música (Vincente Minelli)
8 - A morte da garota em M, o Vampiro de Dusseldorf (Fritz Lang) , revelada pela bola rolando no solo e o balão pousado num poste de iluminação, brinquedos que o assassino comprara para a vítima.
9 - A sequência na escadaria de Odessa, num primoroso exercício de montagem, em O Encouraçado Potemkin (Eisenstein)
10 - A dança dos pãezinhos, em Em Busca do Ouro , de uma poesia simples, mas cativante (Chaplin). Inesquecível.
11 - A cena em que os amantes se conhecem, em uma festa, em Amor, Sublime Amor (Robert Wise & Harold Robbins)
12 - Os cavalos agonizando no final de uma batalha, em Kagemusha, a Sombra do Samurai (Kurosawa)
13 - A cena da Morte conduzindo as pessoas, em O Sétimo Selo (Bergman)
14 - A gargalhada do velho, reagindo com bom-humor à perda das jazidas de ouro, no final de O Tesouro de Sierra Madre (Huston)
15 - Em Rififi (Jules Dassin). A sequência do assalto a uma joalheria, desde a noite em que os assaltantes saem de casa até à reunião na casa de um deles, já com o produto do roubo. Uma sequência de pouco mais de 30 minutos, sem nenhum diálogo, os personagens se comunicando com gestos ou na expressão facial.
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NOTA - A sequência supracitada de O Encouraçado Potemkin foi reconstituída, como uma homenagem ao filme de Eisenstein, em Os Intocáveis (Brian de Palma). A mesma homenagem foi feita a Em Busca do Ouro em Gilbert Grape - Aprendiz de Sonhador
(Lasse Hallstrom), com o ator Johnny Depp repetindo o gesto de Carlitos.

domingo, dezembro 04, 2005

ALGUNS PERSONAGENS INESQUECÍVEIS DO CINEMA



- Carlitos
- Hulot (Jacques Tati)
- O casamenteiro de Depois do Vendaval (John Ford)
- O ator alcoólatra de Paixão dos Fortes (Ford)
= Will Kane, o xerife de Matar ou Morrer (Fred Zinnemann)
- Gelsomina de Na Estrada da Vida (Federico Fellini)
- Cabiria de Noites de Cabiria (Fellini)
- Norma Desmond de Crepúsculo dos Deuses (Billy Wilder)
- O personagem-título de Dersu Uzala (Akira Kurosawa)
- O velho funcionário de Viver (Kurosawa)
- Alfredo, o projecionista de Cinema Paradiso (Giuseppe Tornatore)
- A prostituta de Nunca aos Domingos (Jules Dassin)
- O chefe daquela família "maluca" de Do Mundo Nada se Leva (Frank Capra)
- O padre de Roma, Cidade Aberta (Roberto Rosselini)
- Stoker, o boxeador de Punhos de Campeão (Robert Wise)
- A velhinha de Quinteto da Morte (Alexander Mackendrick)
- Sinigaglia, o professor de Os Companheiros (Mario Monicelli)
- Alvin Straight de História Real (David Lynch)

quarta-feira, novembro 30, 2005

O MASCARADO

Estava, com alguns amigos, no velório de uma pessoa de nossas relações. Num dado momento, percebemos que algo inusitado estava ocorrendo, por causa de uma certa agitação das pessoas mais afastadas de nós. Pude observar que alguns dos presentes não conseguiam manter a compostura exigida para a ocasião e riam. De nada valeram as minhas palavras de censura a curiosidade dos amigos era mais forte e logo e logo o nosso grupo estava desfeito. Acabei levado por eles. Qual não foi o meu espanto, quando descobri a razão de todo o alvoroço: perto do caixão, conversando com a viúva e outros parentes do morto, vi um homem vestido de preto e cujo rosto estava encoberto por uma máscara. Usava uma máscara preta, para combinar com o terno, imaginei, e que se adequava à lugubridade da ocasião. Pelo menos, a mim me pareceu, mas somente a mim, pois as demais pessoas ali presentes (inclusive as que formavam a roda em que estava e que há bem pouco tempo falavam compungidamente da morte do amigo) viam na presença do mascarado motivo para diversão. Os próprios familiares do morto devem ter mantido, à custa de muito esforço, a compostura da ocasião. Eu estava movido por uma indominável curiosidade a respeito daquele estranho, e, quando ele se retirou, alvejado por olhares e risos sarcásticos, andei perguntando por ele, mas ninguém o conhecia. Realmente eu fiquei muito impressionado com o homem. A visão de sua soturna máscara não me saía da cabeça. A todo momento ela surgia à minha frente, impedia-me de me concentrar no meu trabalho, na leitura, num programa de tevê. Falei do caso a diversas pessoas, na esperança de alguma delas conhecesse o homem e a razão de ele usar a máscara, em vão - de todas ouvi a mesma resposta de que nunca o viram, invariavelmente acompanhada de uma boa risada. Disse para mim mesmo que nunca mais o veria, mas a sua imagem ficaria retida na memória, do mesmo modo que, por uma impressão diversa, conservamos a imagem de uma bela mulher, a quem vemos uma única vez na vida.
Felizmente me enganava. Uma tarde o reencontreu num banco. Eu estava numa fila quilométrica, aguardando impacientemente a vez de ser atendido, quando percebi que, de repente, as pessoas das outras filas tinham desviado a atenção para o lado da minha fila. Devia estar ocorrendo algo muito engraçado, as pessoas não olhavam apenas com um vivo interesse, mas estampavam um sorriso zombeteiro nos lábios. Impelido por uma curiosidade natural, virei-me em direção ao final da fila, e quem estava lá? Ninguém menos do que o estranho homem que encontrara no velório. Apesar de olhar com discrição, pude observar que não usava a mesma máscara. Usava dessa vez uma colorida, de feição inspirada na forma do rosto de um palhaço. Cada vez mais impressionado pelo comportamento do homem, perguntei aos vizinhos próximos sobre ele, mas nenhum deles o conhecia. É um doido a mais nesta cidade já cheia de doidos, comentou o primeiro a quem consultei. Depois de ser atendido, saí por entre a minha fila e a vizinha, curioso para ver o mascarado de perto. É obvio que não podia ver-lhe o rosto, para fazer uma avaliação de sua idade, mas, não sei por quê, supus que não fosse mais jovem. Tinha um porte elegante, a cabeça ereta, o que, quando sentado, podia dar às pessoas a falsa impressão de ser alto. Essa sua postura conferia-lhe um ar de altivez, que o fazia ignorar os olhas zombeteiros.
Nosso terceiro encontro aconteceu numa festa de aniversário, à qual não queria ir, por não conhecer o aniversariante, mas um amigo tanto insistiu que acabei sendo levado por ele. Como das vezes anteriores, o mascarado apareceu bem depois de mim e, do mesmo modo, sua chegada provocou um alvoroço nos convidados.Por estar num ambiente festivo, estava bastante alegre. Passou a maior parte do tempo num pequeno grupo, do qual participava o anfitrião, conversando e rindo, empunhando um uísque, parecendo íntimo de todos. Estava usando uma máscara azul-celeste e me ocorreu que lera, não sabia onde, que o azul tem uma conotação de alegria e satisfação, indicando que, se alguém o escolhe, é por estar de bem com o mundo e os seus semelhantes. Contei ao amigo que já o encontrara num velório e num banco, cada vez com uma máscara diferente, como se a colocasse de acordo com o ambiente ou a natureza do evento. Revelei a minha curiosidade em saber a razão daquilo, mas ninguém, a quem perguntei, conhecia o homem. Se quiser, eu te levo ao Edmundo, quando ele estiver só, e você pergunta a ele, ofereceu-se o meu amigo. Eu falei tá legal e, logo depois, ele se afastou em direção a um outro grupo. Continuei no meu canto, a observar o mascarado.
Em dado momento, vi-o deixar o grupo e caminhar para o lado em que me encontrava. Passou perto de mim e me cumprimentou, tudo bem? Me virei e acompanhei-o até desaparecer da minha vista. Supus que ia ao banheiro e fiquei na mesma posição, aguardando que ele retornasse.Um pouco antes tinha decidido satisfazer a intensa curiosidade com o próprio mascarado. Ansioso, vi-o andar de novo na minha direção e, ao chegar perto de mim, perguntei-lhe se podia me dar a sua atenção por um minuto. Por uma hora, se for preciso, amigo, respondeu , afável, o que reforçou a minha disposição. Comecei me desculpando pela inconveniência de estar invadindo a sua intimidade, para satisfazer uma enorme curiosidade. (Estava tão perto dele que poderia tocá-lo, olhando fixamente nos olhos restringidos pela máscara, e pareceu-me ver neles um ar de gravidade que denunciaria a reprovação do homem à minha bisbilhotice.) É que desde a primeira vez que o vira num velório, não tinha deixado de pensar um só instante na sua figura. Tentara me valer dos amigos, mas nenhum o conhecia, desse modo, embora constrangido, me via obrigado a dirigir-me a ele. Ele se incomodaria em atender a minha curiosidade? A respeito de quê? Senti um tom animoso na voz, o que confirmava a censura que julgara ver-lhe nos olhos. Mas não podia mais recuar e disse que gostaria de saber por que usava máscara. E o sr por que não a usa? Foi com essa pergunta que respondeu à minha, e, com um pedido de licença, retirou-se e foi reunir-se com os amigos.
Fiquei meio estonteado com a reação do homem. Esperava até mesmo uma grosseria, depois que o percebi aborrecido com a minha intromissão - algo do gênero de por que o sr não se importa com a sua própria vida e deixa a dos outros em paz? Jamais aquelas palavras: e o sr por que não a usa? O curioso é que não fiquei aborrecido, e nem mesmo frustrado, por continuar ignorando a razão da conduta daquele excêntrico, tão inesperada fora a sua reação. Permaneci um pouco no mesmo lugar, a observá-lo. Ele recuperara a alegria e o humor perdidos durante o nosso breve encontro. Depois resolvi circular um pouco pela casa. Antes de sairmos, o amigo voltou a se oferecer para me levar ao anfitrião, a fim de me informar sobre o mascarado, mas disse-lhe que não estava mais interessado. E com o tempo foi me arrefecendo o interesse por ele e hoje, quando o encontro, a sua figura não me chama mais a atenção.
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Extraído do meu livro "Clarita" (1993) , este conto foi reduzido para se adequar às dimensões desta página. Acredito que a redução não tenha prejudicado o texto.

domingo, novembro 27, 2005

HISTÓRIA REAL


Este texto foi publicado há mais de um ano em um site sobre cinema (o nome não me ocorre, no momento), quando eu ainda não tinha blogue. E é apresentado do mesmo modo como saiu naquela página.
Nesse filme de 1999, disponível em DVD, David Lynch conta a história verídica de Alvin Straight, um homem velho e doente, que viaja centenas de quilômetros, dirigindo um carrinho cortador de grama, para visitar o irmão convalescente de um acidente vascular, com o qual está de relações cortadas há mais de dez anos. É uma história plena de calor humano, em que participam valores , como a amizade, a solidariedade, a bondade e uma certa ternura, mas tudo isso exposto de maneira comedida e sóbria, sem exageros. E aí vale perguntar o que fez Lynch se interessar por um assunto tão estranho ao seu universo temático e estilístico. Onde aqui o diretor de O Homem Elefante, Veludo Azul e Coração Selvagem, que levava o espectador ao mal-estar, ao incômodo, à perturbação, ao mostrar o grotesco, o horrendo, a crueldade e a violência em doses cavalares? Em nenhum momento. Ou, talvez, na cena em que uma mulher atropela mortalmente um veado. É uma cena dramaticamente muito forte, que expõe o descontrole emocianal da mulher. Seu desabafo à beira do histerismo chega a incomodar (fazendo lembrar um pouco o Lynch de outros carnavais), mas, ao encerrá-lo, ficamos sabendo do seu amor por aquela espécie de animal e acabamos sendo compassivos com ela.
O filme, repetimos, respira calor humano através de seus personagens, mas sem forçar a barra para conquistar a cumplicidade do espectador. Como acontece com as grandes obras, tudo é feito sem abuso de gestos e de expressões faciais, com exceção da cena acima citada, e com delicadeza e sensibilidade. Essa contenção, esse comedimento se espalham pelos diálogos, sobretudo quando intervém Alvin, que conta com a boa interpretação de Richard Farnsworth. Quando, por exemplo, ele retorna do exame médico a que se submeteu, a filha Rose (Sissy Spacek) lhe pergunta o que o médico achou dele. Alvin responde: "Ele achou que eu estou bem". Na verdade, ele não está bem, mas prefere não se estender sobre o assunto.
E que personagem esse Alvin Straight! Teimoso, obstinado, às vezes, rude, mas sensível, como o demonstra no diálogo com aquele outro velho, também combatente na Segunda Grande Guerra, e no encontro com a moça grávida que está fugindo de casa. Vive com a filha, a quem trata com a brandura e a tolerância de quem lida com uma pessoa que sofre de um certo retardo mental e que, ainda por cima, perdeu a guarda dos filhos para o Estado, por causa de um acidente doméstico, do qual, no entanto, não teve culpa. Sua obstinação em visitar o irmão doente e promover a reconciliação entre eles é comovente, sem que Lynch precise esfregar-nos isso na cara.
E o reencontro de Alvin com Lyle (Harry Dean Stanton) é mostrado sem arroubos, sem lágrimas, sem qualquer sombra de melodrama ou de sentimentalismo. Apenas se vê Alvin, do lado de fora da casa, gritar o nome do irmão, que lhe responde de dentro da casa. A imagem final mostra os dois sentados à varanda da casa, mudos, contemplando as estrelas, como tantas vezes o fizeram quando eram jovens.

quarta-feira, novembro 23, 2005

O DECLÍNIO DO IMPÉRIO AMERICANO - Uma revisão


O lançamento em DVD , já há alguns meses, de O Declínio do Império Americano (1986), seguindo-se ao de As Invasões Bárbaras (2003), dá ao espectador a oportunidade de ver, ou rever, os principais personagens dos dois filmes, a uma distância de quase vinte anos. E, é claro, de estabelecer um paralelo entre as duas obras. É possível perceber uma diferença entre ambas, baseada no comportamento de Rémy, Alain, Claude, Dominique e Diane, que, em As Invasões Bárbaras, mais velhos e diante do estado terminal de Rémy, deixam aflorar um travo de amargor em suas vidas atuais, apesar de continuarem cultivando a irreverência, o deboche e o cinismo. É que a vida passou para quatro deles e está terminando para Rémy.
O Declínio do Império Americano se inicia com um pequeno trecho de uma aula dada por Alain (Daniel Briére) e depois corta para um longo traveling que atravessa o saguão de uma estação até alcançar, no fundo, as personagens Diane (Louise Portal) e Dominique (Dominique Michel), a primeira entrevistando a segunda. A sequência seguinte mostra o mesmo Alain e mais Rémy (Rémy Gerard), Claude (Yves Jacques) e um jovem amigo deles, reunidos em uma casa à beira de um lago. A partir daí há uma alternância de cenas das conversas entre os homens e as mulheres, com Louise (Dorothée Berryne), mulher de Rémy, e a jovem amante de Alain juntando-se a Diane e Dominique numa academia de ginástica. (E, talvez, o propósito do diretor Denys Arcand, em mostrar as mulheres em atividade física e os homens bebendo e conversando, tenha sido o de estabelecer uma diferença entre os cuidados delas com o corpo e o relaxamento deles com o corpo.) Os homens falando de mulheres, as mulheres falando de homens. As confissões de relacionamentos sexuais (ilustradas por flashbacks ), dão um toque humorístico à narrativa.
Há, pois, um clima de descontração na reunião dos dois grupos, que é alterado por duas ocorrências, quando as mulheres vão se juntar aos homens. A primeira é de pouca importância, apenas o mal-estar durante o jantar, causado pela chegada de Mário, o intratável e arrogante amante de Diane, que, felizmente, pouco se demora. Já a segunda é de suma gravidade. A confissão de Dominique, em meio a uma conversa normal, de que já dormira com Rémy (e também Alain), provoca um atrito na relação do primeiro com sua mulher, que, sem conseguir explicações do marido, quando vão se deitar, busca consolo no homossexual Claude.
Os derradeiros minutos do filme não têm diálogos. Os personagens dispersos pela casa, na mahã seguinte, com Louise e a amante de Alain tocando piano, observados por Rémy e Alain da sacada, enquanto Dominique e o jovem se acariciam na cozinha. As marcas do incidente da noite anterior ainda estão estampadas nos rostos de Louise (de óculos escuros) e de Rémy, mas não permanecerão por muito tempo. Será? Em As Invasões Bárbaras eles aparecem separados.
O Declínio do Império Americano e As Invasões Bárbaras são dois grandes filmes, sem que se possa dizer que um seja a continuação do outro, apesar de apresentarem os mesmos principais personagens, desse canadense Denys Arcand, um cineasta importante, entre os poucos que se destacam no cinema atual. Dele ainda conheço Jesus de Montreal, outro grande filme.

sábado, novembro 19, 2005

MEUS DOIS AVÔS




Cícero era o nome do meu avô paterno. Os netos não o chamavam de vovô, mas de Pai Cícero. Estive com ele apenas duas vezes, já que morávamos em cidades muito distantes uma da outra. (Meu outro avô também morava noutra cidade longínqua, aliás, vizinha à de Pai Cícero.) Mas nunca me saiu da lembrança a visão de Pai Cícero trabalhando, com paciência e habilidade, na feitura de palitos. Fazia aquilo como hobby, não como ofício, que este era exercido num cartório. Os palitos eram usados na sua própria casa e eram dados aos parentes. Quando voltávamos para a nossa cidade, os levávamos em quantidade razoável. Gostava de ler. Não tenho idéia dos autores que lia, mas tenho quase certeza, por sua pouca instrução, que não eram dos maiores da literatura. E gostava de que os netos lessem para ele. Fazia-o, disso tenho certeza, para avaliar a capacidade do neto. Fui "testado" uma vez. Eu tinha uns nove para dez anos. Um tanto amedrontado diante daquele homem mirrado, mas que impunha autoridade, mesmo involuntariamente, que, na cabeça daquele menino, devia ter uns duzentos anos, peguei o livro e comecei a ler o trecho que ele indicou. Não me lembro se o trecho era longo, mas não devo ter lido menos do que dez minutos. A uma certa altura ele me mandou parar, pediu o livro e disse que me retirasse. Me afastei sem saber o que o Pai Cícero tinha achado da minha leitura. Só quando já estávamos de novo em casa é que ouvi do papai como tinha me saído no "teste". Pai Cícero tinha gostado, sim. Segundo ele, de todos os seus netos, da minha idade, eu era o que lia melhor. Foi o primeiro elogio que recebi na minha vida. E dos mais sinceros, creio.
Já no físico - alto, magro, mas não muito, espigado - o meu avô materno era muito diferente de Pai Cícero. Um traço marcante de vovô Pirajá era a sua extremada religiosidade. Ao rezar o terço de todas as noites, o fazia ajoelhado sobre caroços de milho (ou feijão, não me lembro com precisão). Se ouvisse alguém dizer, por exemplo, "ô vento danado", a advertência vinha em cima da bucha: "não diga isso, que o vento é de Deus". Já o conheci muito pobre, vivendo de uma modestíssima venda de gêneros alimentícios, mas possuíra bens imóveis, que foram se acabando por uma falta de tino para os negócios e, também diziam, pela doação de parte deles à Igreja. Um homem bom, honesto, às vezes, doce, mas que, fácil, perdia as estribeiras. E, zangado, era outro homem, embora mantivesse o controle do uso de palavrões. Em uma de suas visitas à nossa casa, ele soube que uma das minhas irmãs, que fizera um casamento desastroso, levara uma surra do cafajeste do marido. Ah, pra que foram dizer a ele! Indignado ao último grau, vovô Pirajá queria, por fina força, ir à casa da neta tomar satisfação com o marido dela. Foi um custo para o papai demovê-lo da idéia. E, na época, já estava aí pelos setenta.
Mas se o papai conseguiu dissuadi-lo daquela vez, de outra vez foi por ele dissuadido, numa ocorrência em que o envolvido era eu. Foi no mesmo dia da chegada do vovô. Eu tinha feito uma traquinagem qualquer e o papai ia me bater e foi aí que o vovô se meteu. Primeiro, ele pediu que o papai não me surrasse. Depois, como o genro se mostrasse inflexível, ele mudou de atitude e disse ao meu pai que não o deixaria fazer aquilo comigo. O papai recuou, atendeu ao sogro, e, se bem me lembro, me disse que agradecesse ao meu avô por não levar uma pisa. À noite, no meu quarto, antes de dormirmos, vovô me aconselhou a não contrariar mais o meu pai, para não ser punido. Quando ele foi embora, fiquei com medo de que a surra tivesse sido apenas adiada. Mas a raiva do meu pai já tinha passado e a travessura ficou por isso mesmo. Obrigado, vovô Pirajá.

domingo, novembro 13, 2005

CURIOSIDADES CINEMATOGRÁFICAS




1) Não, não foi em A Aventura (1959) que começou a parceria de Michelangelo Antonioni com a atriz Monica Vitti, mas em O Grito (1957). Só que neste Monica Vitti não trabalhou como atriz. Ela dublou Dorian Gray, que fez o papel de Virginia, a proprietária da bomba de gasolina. Antonioni não gostou da voz da intérprete escolhida e pediu a um de seus auxiliares que procurasse alguém com uma voz que ele achasse adequada para a da personagem. Descoberta trabalhando numa peça teatral, Monica Vitti foi testada´pelo diretor e aprovada. Daí teve início uma parceria que resultou em cinco filmes, quatro deles dos maiores realizados pelo grande mestre italiano. A colaboração no cinema estendeu-se à ligação amorosa, que durou alguns anos. Outra curiosidade: Monica Vitti é um nome artístico. O verdadeiro nome da atriz é Maria Luisa Ceciarelli.
2) Há uma muito extensa relação de pessoas de uma mesma família trabalhando no cinema. Vamos a alguns exemplos. Maurice e Jacques Tourneur, Luís Buñuel e Jean-Louis Buñuel, Francis e Sofia Coppola Ingmar e Daniel Bergman (pais e filhos diretores). Luchino Visconti tem um sobrinho também diretor, chamado Eriprando Visconti. No caso de atores, a lista é enorme. Continuemos com uns poucos exemplos. John, Leonel e Etlhel Barrynore (irmãos). John Barrymore Junior e Drew Barrymore (pai e filha). Henry, Jane e Peter Fonda (pai e filhos). Peter e Bridget Fonda (pai e filha). Charles, Geraldine e Sidney Chaplin (pai e filhos). Catherine Deneuve e Francoise Dorleac (irmãs, a segunda, falecida prematuramente num acidente de carro). John e Patrick Wayne (pai e filho). Alec, Daniel, William e Stephen Baldwin (irmãos). Ingrid Bergman e Isabella Rosselinni (mãe e filha, esta, fruto da união de Ingrid com o diretor Roberto Rosselinni). Brigitte e Mijanou Bardot (irmãs). Marlon e Jocelyn Brando (irmãos). Marcello e Chiara Mastroianni (pai e filha, esta , nascida do casamento de Marcello com Catherine Deneuve). Douglas Fairbanks e Douglas Fairbanks Juioir. Michael, Vanessa e Lynn Redgrave (pai e filhas). Por fim, quatro casos de irmãos diretores: Bernardo e Giuseppe Bertolucci, Henry e Louis King, Vittorio e Paolo Taviani , Joel e Ethan Coen.

segunda-feira, novembro 07, 2005

UMA MULHER CHORANDO

Três vezes perguntara por que ela estava tão calada. E ela sempre a responder que não era nada. Na terceira vez, quando perguntou se estava ressentida com algo que ele lhe fizera, Helena denotou, no tom ríspido de voz, um começo de irritação com a inquirição dele. Sentindo a reação dela, Ramiro achou prudente parar com aquelas perguntas. O certo seria buscar algum assunto, por mais trivial que fosse, para tirá-la daquele mutismo que o desconfortava. Como tinha sido o dia dela no trabalho? Bem, ela respondeu, lacônica. Afinal convencido de que não podia arrancar mais nenhuma palavra de Helena, ele resolveu também se calar. Assim mudos passaram o restante do jantar, um só abrindo a boca para pedir um prato que estivesse mais ao alcance do outro.
Ao deixarem a mesa, Helena foi escovar os dentes, enquanto ele foi ligar a televisão. Depois ela iria para junto dele. Era assim todas as noites, até mesmo quando iam sair. Mas naquela noite, quando voltou do banheiro, ela disse que tinha "um horror" de provas para corrigir e não podia perder tempo. "Mas não dá pra você ficar nem um pouco"? "Não dá. Eu tenho que devolver as provas amanhã". A atitude dela deixou-o ainda mais preocupado. Ela nunca procedera daquela maneira. Algum problema a estava perturbando, mas ela não queria revelá-lo. E enquanto as imagens do telejornal iam passando à sua frente, ele não se dava conta do que elas mostravam, nem ouvia direito as falas, pois o pensamento se concentrara na busca de um ato seu, um gesto, uma palavra àspera, que a tivessem magoado. Vasculhou a mente, tentando rememorar fatos do dia, da noite anterior, até mesmo quando estavam na cama nos momentos de amor. Em vão. Nada. O melhor é esperar até amanhã, talvez ela me diga o que está acontecendo. E continuou vendo, sem ver, o que se passava na televisão.
Ao entrar no quarto, Helena trancou a porta, mas não foi para o birô. Dirigiu-se para a janela. Mas, como o marido diante da tevê, ela não "via" a profusão de luzes iluminando aquela pequena parte da cidade. Meditava sobre a sua vida. A bem dizer, continuava uma meditação que começara já já algum tempo. E a cada dia que passava, mais tomava consciência da falta de sentido em que a sua vida se transformou com a irrealização de sonhos por tantos anos acalentados, a morte das ilusões, a perda da esperança. E o pior: sem vislumbrar um aceno sequer de mudança. E o casamento? Todos os conhecidos, amigas, familiares colocavam Ramiro num altar, ela tirara a sorte grande ao encontrar um homem de tantas qualidades: trabalhador, bem-educado, excelente profissional e, por cima, sempre apaixonado pela esposa. Sim, Ramiro podia ser tudo isso, mas havia algo nele que Helena não sabia discernir (e nem eram os pequenos defeitos que toda pessoa, mesmo as melhores, tem)., que a fazia não se sentir a mulher tão invejada. Quem sabe se a culpa não seria dela? E das outras coisas era também culpada? Da profissão que já não a satisfazia, da falta de estímulo para continuar lecionando? Do convívio com a maioria dos colegas e das amigas? Teria ela toda a culpa por não encontrar mais naquelas pessoas o que buscava para uma existência mais fácil de ser levada?
Tudo isso tinha se incrustado à vida de Helena, como uma dor persistente, e nesses últimos dias ela vinha se sentindo cada vez mais infeliz, embora procurasse disfarçar, sobretudo de Ramiro, todo o sofrimento. Mas naquela noite nem a ele conseguira enganar. Que assim seja, disse para si mesma. E, de repente, enquanto olhava a parte da cidade inundada de luz, voltou-lhe à lembrança um fato que presenciara na sua adolescência Um fato ocorrido há tantos anos na vida de uma pessoa, que nunca saíra da sua mente. Vez por outra se via a recordá-lo e não foram poucas as pessoas, através dos anos, às quais contou o sucedido. Até a Ramiro ela contou.
Era uma mulher da sua cidade. Uma fina doceira. Seus doces, das mais variadas espécies, eram motivo de comentários não só naquela cidade, mas nas cidades vizinhas. Até à capital do Estado a sua fama havia chegado. Solteira, devia ter, na época, quarenta e poucos anos. A família de Helena era, como as demais da mesma classe social, freguesa de Amália. E uma tarde a mãe de Helena mandou-a à casa de Amália, para comprar o doce de leite de que o marido tanto gostava. Lá chegando, Helena bateu palmas três vezes, ninguém apareceu. Nem Amália, nem uma sobrinha que morava com ela, tampouco a empregada. A porta da frente estava só encostada. Helena, acostumada a frequentar a casa, para visitar a sobrinha de Amália, foi entrando, enquanto dizia sou eu, Amália. Tão logo pôs os pés dentro da casa, deparou-se com uma cena que a deixou entre chocada e penalizada. À mesa das refeições estava Amália. A cabeça curvada, as mãos tapando quase todo o rosto (só os olhos descobertos), a doceira chorava. E o choro não era silencioso - a mulher chorava como uma criança quando apanha. De tão intenso o choro, os braços tremiam. "Amália, o que foi que houve"? Helena chegou para perto dela e repetiu a pergunta, mas Amália parecia não dar pela presença dela e continuava no choro. "Aconteceu alguma coisa com Eliane"? E Amália sem responder, continuando a chorar. Helena pôs a mão sobre a cabeça dela e fez um afago. Durante um minuto ou mais manteve a mão sobre a cabeça de Amália, como se a leve pressão da mão pudesse aliviar a dor da mulher. Depois foi saindo devagarinho, olhando para a pobre mulher, a quem sempre vira alegre e tão disposta.
E ao recordar, mais uma vez, a cena lastimável, Helena pôde compreender, depois de tantos anos, o sofrimento daquela mulher numa tarde longínqua. E sentiu-se na pele de Amália, a fina doceira, a mulher tão elogiada e respeitada pela sua arte na culinária. Então, de repente, veio-lhe, incontrolável, a vontade de repetir o ato de Amália. E lágrimas lhe vieram aos olhos. Helena chorava. Mas, ao contrário do choro de Amália, o seu era silencioso. E assim ficou por muito tempo deixando as lágrimas banharem-lhe o rosto.

quarta-feira, novembro 02, 2005

BREVE ANTOLOGIA DE VERSOS DA MPB



- "Tu pisavas nos astros, distraída". - Chão de Estrelas (Sílvio Caldas/Orestes Barbosa)- "Eu era feliz e não sabia". Meus Tempos de Criança (Ataulfo Alves)
- ""As rosas não falam/Simplesmente as rosas exalam/o perfume que roubam de ti". - As Rosas Não Falam (Cartola)
- "Quem acha, vive se perdendo". - Feitio de Oração (Noel Rosa/Vadico)
- "Tire o seu sorriso do caminho/que eu quero passar com a minha dor". - A Flor e o Espinho (Nelson Cavaquinho/Guilherme de Brito)
- "A feia fumaça que sobe, apagando as estrelas" - Sampa (Caetano Veloso)
- "Na boiada já fui boi, mas um dia me montei". - Disparada (Geraldo Vandré/Théo de Barros))
- "Eu pensei que todo mundo fosse filho de Papai Noel". - Boas Festas (Assis Valente)
- "Maria, o teu nome principia na palma da minha mão". Maria (Ari Barroso/Luiz Peixoto)
- "A felicidade procurada, corre". - Coração (Synval Silva)
- "Quando o verde dos teus oio se espraiá na prantação". - Asa Branca (Luiz Gonzaga/Humberto Teixeira)
- "Que a vida dura só um dia, Luzia/E não se leva nada deste mundo". - Anda Luzia (João de Barro, o Braguinha)
- "Cuidado, que a morte abriu a janela/Ainda hoje eu passei por ela/E vim depressa te dizer" - Maresia (Ednardo)
- "Que a noite é criança/Que o samba é menino/E a dor é tão velha que pode morrer". - Olê, Olá (Chico Buarque)
- "Eu não sou água pra me tratares assim/Só na hora da sede é que procuras por mim". - A Fonte Secou (Monsueto Menezes/Tufi Lauar/Marcléo)
- "A felicidade é como a gota de orvalho numa pétala de flor/Brilha tranquila/Depois de leve oscila/E cai como uma lágrima de amor". A Felicidade (Tom Jobim/Vinicius de Morais)