quarta-feira, fevereiro 01, 2006

VALQUÍRIIA E O MENINO


Foi assim de uma hora para outra. Quando a via, olhava para ela de um modo diferente, e sentindo despertar-lhe uma coisa nova que a sua pouca idade não poderia discernir. Às vezes ficava sem vontade de brincar com os amigos na pracinha, só querendo olhar para a moça que se sobressaía diante das amigas pelo jeito festivo, o timbre da voz, a conversa incessante. Aquela moça branca, branca como... Como o quê? Não sabia como comparar a cor da sua pele. Curioso: se não estava perto de Valquíria, não pensava nela. Era quando a encontrava (às vezes durante o dia), que aquilo lhe ocorria. E se punha determinado a não perdê-la de vista quando ela volteava pela pracinha com as amigas.
Uma noite Valquíria não estava acompanhada das amigas. Ficou com uma sensação de perda, como se um amigo lhe tivesse levado o gibi que amava, a bola que o pai lhe presenteara no último aniversário, com a qual dormia abraçado. Qualquer coisa assim. Mas não arredou pé da pracinha. Foi apostar corrida com os amigos. Num dado momento descobriu-a num banco com um rapaz. Parou de correr, num instante. Os amigos o chamavam, o xingavam, e ele ali estático, como se alguém muito forte o prendesse pelos braços. Estava a uma pequena distância de Valquíria e pôde observar que as alvas mãos dela estavam entrelaçadas com as do namorado. Não sabe o que lhe deu, para, de repente, sair da posição estática e se dirigir para o banco. Foi numa reta em direção aos dois. Para que, meu Deus? Ele próprio não saberia explicar o ato impulsivo. Ao chegar bem próximo do casal, olhou para Valquíria, ela olhou para ele e (jamais poderia imaginar a reação dela) lhe sorriu. Os dentes imaculadamente brancos, tal como a pele. Ele se voltou e saiu em disparada.
Deixou de frequentar a pracinha. Os amigos não atinavam com a causa da recusa e ele inventava desculpas que não os convenciam. Mas manteve a decisão. Chegou a ver Valquíria uma ou outra vez na rua (numa delas estava com o namorado, ele com a mão sobre o ombro dela), mas não quis olhar para o seu rosto. Ainda que fosse para receber um sorriso.
E não muito tempo depois, Valquíria foi embora, para nunca mais voltar. Um dia, à hora do almoço, o menino ouviu o pai dizer que o pai de Valquíria ia se transferir para outra cidade. Foi feito um soco na cara do menino. Terminou, às pressas, de comer, foi para o seu quarto, deitou-se na rede. E pensando em Valquíria, cantou, baixinho, uma música que tocava quase todas as noites na amplificadora, em cujos versos um homem revelava o seu amor por uma outra Valquíria.

domingo, janeiro 29, 2006

Truffaut, Brando, Chaplin, Keaton

1) Dentre os cineastas, nenhum, talvez, tenha tido pelo cinema um amor tão intenso e permanente do que François Trauffaut. Um amor iniciado na infância, quando ele gazeava as aulas para ir ao cinema. Era ali que ele , menino e adolescente problemático, se refugiava da sua inadptação aos bancos escolares e ao difícil convívio com a família. E que continuou quando ele já era um cineasta consagrado. Não deixava de ir ao cinema e ainda escrevia sobre certos filmes. Era um diretor-cinéfilo, como não há muitos. Numa entrevista em 1971, constante do livro O Cinema Segundo François Truffat, de Anne Gillain (Nova Fronteira, 1990), eis uma pequena amostra de como o cinema era uma coisa essencial em sua vida. Diz ele. "Gosto tanto de cinema, que mal suporto a companhia de pessoas que não gostam. Certo dia dei carona a um alemão. Falei-lhe de Fritz Lang e ele não reconheceu o nome. Max Ophuls, muito menos. Então, o fiz descer do carro em Lyon, fazendo-o crer que ia parar nessa cidade." Grande Truffaut.
2) Em uma muito longa entrevista ao jornalista francês Michel Ciment, que acabou fazendo parte do livro Hollywood - Entrevistas (Brasiliense, 1988), no qual aparecem entrevistas de mais cinco cineastas, John Huston, a uma certa altura, demonstra a grande admiração que tinha por Marlon Brando. E faz esta surpreendente revelação: "Lembro-me de Júlio César, em que ele representava Marco Antonio. Pois bem, os experientes atores ingleses que o cercavam empalideciam ao lado dele. Fico pasmo de admiração diante de Brando e de sua arte". Esses atores ingleses, que Huston não menciona, são nada menos do que o grande James Mason e o não menos grande John Gielgud. E havia ainda Deborah Kerr e o talentoso e experiente ator americano Edmond O' Brien. Ainda sobre Brando. Segundo o escritor Truman Capote, que o entrevistou no Japão, quando o ator filmava Sayonara, ele não necessitava de menos de quinze minutos numa conversa com alguém a quem era apresentado, para apreender os gestos, um cacoete , a voz desse estranho. E depois imitá-los com perfeição.
3) Foi em Luzes da Ribalta (1952), que Chaplin e Buster Keaton trabalharam juntos pela única vez . Eles contracenavam num esquete que durava uns dez minutos, pouco mais. Nesse encontro dos dois, Orson Welles, não sei por quê, acusou Chaplin de não ter valorizado a participação de Keaton, em benefício dele próprio. Não sei se Welles tinha razão. Ou se era uma acusação infundada. Tenho cá a suspeita de que o diretor de Cidadão Kane não apreciava Chaplin (como pessoa). E, no entanto, quando ele apresentou a Chaplin um argumento, que serviu para a elaboração do roteiro de Monsieur Verdoux, recebeu a expressiva (para a época), importância de cinco mil dólares. Acho até que Chaplin foi generoso com Keaton, que estava praticamente acabado. Nos últimos anos fizera filmes inexpressivos e chegara a se apresentar em circos e fazer comerciais na tevê. E dois anos antes de Luzes da Ribalta, Keaton fizera quase uma ponta em Crepúsculo dos Deuses (Wilder). O que . a meu ver, Welles podia ter reclamado é que a reunião, numa única vez na tela, de dois gênios da comédia tenha ocorrido numa fase em que ambos estavam em declínio, sobretudo Keaton.

domingo, janeiro 22, 2006

QUEM SABE? (Va Savoir, 200l)


A proposta desse filme de Jacques Rivette me parece bastante clara: promover uma interação entre teatro e realidade. A encenação de uma peça de Pirandello em Paris, realizada por uma companhia teatral italiana, em excursão pela Europa, corre paralela às situações vividas por um casal de atores. Os dois perseguem um objetivo diferente, ao deixarem o palco. O de Camille (Jeanne Balibar) é reencontrar Pierre (Jacques Bonnafé), de quem se separara há três anos, quando partira para a Itália. O de Ugo (Sergio Castellitto), que acumula as funções de diretor e de ator, é descobrir o manuscrito de uma peça escrita pelo teatrólogo italiano Carlo Goldoni, que viveu no século 18. O texto nunca foi encenado e fora dado pelo autor, quando morava em Paris, a um amigo. Na busca de seus objetivos, Ugo e Camille irão conviver com mais três pessoas, além de Pierre: a atual amante deste, Sonia (Marianne Basler), Dominique (Hélène de Fongerolles) e Arthur (Bruno Todeschini), irmão de Dominique.
Na reunião desse sexteto afloram sentimentos, atitudes, situações que fazem a "vida real" deles ir adquirindo a feição de personagens de uma peça, que tanto pode ser a de Pirandello, como a de Goldoni, que é descoberta, por acaso, não por Ugo, mas por Dominique, misturada a livros de receitas de bolo. Ugo se sente fortemente atraído por Dominique, a quem conheceu numa biblioteca pública, e em cuja casa existe uma vasta biblioteca; mas Dominique demonstra um comportamento ambíguo em relação ao interesse dele por ela. É ambíguo também o comportamento de Camille, tanto com Pierre (que confessa que ainda a ama), quanto com Ugo. E Sonia tem um relacionamento com Arthur, um mau-caráter, que rouba livros da biblioteca de sua casa e um anel de brilhante de Sonia. Aliás, o roubo do anel e a sua recuperação por Camille (depois de uma noite de amor com Arthur, que também se sente atraído por ela), parecem (propositadamente) inverossímeis. E à medida que a história (real) avança, cada vez mais vai adquirindo a forma de um texto teatral, o qual, ao chegar o final do filme, se instala de vez. A casa de Madame Deprez, mãe de Arthur e Dominique, se transforma num palco, ao qual sobe Sonia, vindo da platéia. Ao encontrar Camille, lhe dá um tapa "teatral", um desejo que ela acalentava há muito tempo, mas num instante se reconcilia com a outra. A última imagem é a de Ugo dançando com Camille e Dominique com Arthur. E assim como começou, é num palco que o filme termina.
Rivette dirige Quem Sabe? com elegância e um certa leveza, ainda que imprima um ritmo lento à narrativa. Fez mais um belo filme, provando que o melhor do cinema francês, em que pese o surgimento de alguns talentos, como Patrice Leconte, continua sendo feito por ele e alguns companheiros da Nouvelle Vague.

quarta-feira, janeiro 18, 2006

UMA INSÓLITA APARIÇÃO DE HITCHCOCK


Todo cinéfilo sabe do hábito de Hitchcock de aparecer em seus filmes. Um hábito que teve início ainda em 1926, com The Lodger. Quando o espectador se acostumou com a presença do rotundo diretor, aguardava-a talvez com a mesma ansiedade que a trama do filme causava nele. E quando ele surgia na tela. eram inevitáveis as risadas. Essa aparição nunca ocorria nos primeiros minutos. mas aí pelos quinze a vinte minutos, no máximo. Um grande diretor, Hitchcock tinha o olho esperto na bilheteria e sacava, como, talvez nenhum dos seus colegas, a "psicologia" dos que iam ao cinema para se divertir. Tinha a vocação para o marketing, numa época em que essa palavra ainda não existia. Sabia "vender" o seu produto.
Não sei se Hitchcock apareceu em todos os filmes, a partir da experiência inicial. É possível que sim. O cinéfilo, especialmente o hitchcockiano, deve se lembrar de muitos desses momentos. Alguns exemplos, ao acaso. Ele dando corda num relógio pousado sobre um móvel em Janela Indiscreta; entrando num trem com um violoncelo (ou contrabaixo) em Pacto Sinistro; conduzindo dois cachorros em Os Pássaros; no corredor de um hotel, em Marnie. E por aí vai.
Pelo visto, eram aparições fáceis de ocorrer. Mas quando ele foi rodar Um Barco e Nove Destinos (1943), a coisa se complicou. A trama do filme é toda desenvolvida dentro de um bote salva-vidas, onde nove sobreviventes de um navio torpedeado vão se refugiar. Hitchcock não podia aparecer, não haveria lugar para ele, a não ser que ele fosse um dos personagens. E como ele disse a Truffaut numa entrevista, ninguém aparece caminhando dentro do mar. Foram momentos dolorosos, confessa na mesma entrevista, pensando numa forma de participar do filme. De tanto pensar, surgiu a idéia. Na época ele passava por uma dieta rigorosíssima, cuja meta era perder nada menos do que 50 quilos. Ele não diz se o conseguiu, mas, sem dúvida, ficou bem menos gordo. Aí posou para uma foto no início do tratamento e para outra no final. Isso feito, fez estampar as fotos num velho jornal, como ilustração do anúncio de um medicamento usado para emagrecimento. Era um remédio fictício, ao qual ele batizou de "Reduco". O jornal foi pregado ao lado do barco. E num dado momento, um dos sobreviventes pega o jornal, desdobra-o e lá aparece, ao lado do anúncio ,as fotos de Hitchcock "antes" e "depois" de usar o remédio. E, assim, embora não fisicamente, o grande gordinho fez a sua costumeira aparição.
P.S. Outros diretores apareceraam em seus filmes, mas uma única vez. Três exemplos me vêm à memória. Buñuel em A Bela da Tarde, num café ao ar livre, na cena em que Catherine Deneuve encontra o viúvo, que a convida a ir à casa dele; Philippe de Broca em Brincando de Amor, na cena de uma festinha; e Huston em O Tesouro de Sierra Madre. Este aparece duas vezes, como o homem de terno branco a quem Bogart pede dinheiro.

domingo, janeiro 15, 2006

A REUNIÃO


A decisão de nosso chefe de marcar a reunião para sábado no Colégio Estadual desagradou a todos nós. Pelo local e mais ainda por ser um sábado, quando só pensamos em esquecer os cinco dias rotineiros que atravessamos. Mas o chefe não aceitou nossas ponderações e ainda nos comunicou que, a partir daquela data, as reuniões não mais se realizariam no nosso Setor. (Ele adora fazer o gênero ditador.) Concordamos com ele quando disse que o tempo gasto em reuniões seria melhor aproveitado no cumprimento das tarefas. Agora achar que, se reunindo fora do Setor, se evitaria que funcionários de outros Setores ficassem conhecendo os nossos problemas de serviço, é uma argumentação no mínimo risível. Tivemos que baixar a cabeça. De nada adiantaria falar com o subgerente, como alguém sugeriu. Íamos só gastar saliva e o homem podia não nos entender.
E no sábado fomos para o vetusto prédio do Colégio Estadual, chateados, mas fomos. Dei carona ao Heráclito, que estava com o carro na oficina. Fomos os últimos a chegar e não sabemos por que não levamos um pito do chefe. Ele pediu que o acompanhássemos à sala onde se daria a reunião. Eu e Heráclito ficamos na rabeira. Como um líder, nosso chefe ia à frente. Ia sem pressa, até muito vagaroso, o que nos surpreendeu, atrasados, como estávamos. E como passássemos pelo salão, onde estão expostos os quadros de formatura, achamos que disporíamos de tempo para procurar o da nossa turma. Não demoramos a achá-lo. Emocionados, recordamos alguns colegas, professores, os grandes momentos. E rimos de nossos retratos: a carranca, o cabelo glostorado, o paletó e a gravata imundos do fotógrafo, que serviram a milhares de formandos. Mas de repente nos entristecemos, ao nos revermos adolescentes, o jeitão sério apenas uma pose para fotografia de concluinte. Problemas, responsabilidades, compromissos - isso existia pra nós naquele tempo? Não tínhamos passado, no futuro não pensávamos, só o presente interessava. Acabamos arrependidos de remexer no passado. Enão, nos lembramos da reunião. Galgamos velozmente a escada que dá acesso às duas alas , que tanto percorremos em outra época. Lá no topo o coração em tempo de pular da boca. Éramos dois velhos - comentei para o Heráclito.
Ficamos parados até recobrar o fôlego. Foi quando nos demos conta de que não sabíamos da sala, onde se daria a reunião. O Heráclito, sempre prestativo, queria se informar na secretaria e na diretoria, mas lhe lembrei de que não iria encontrar ninguém num dia sem aula. A solução era cada um de nós tomar uma ala e percorrer todas as salas. Aquele que localizasse a sala, gritaria pelo outro. Entrei em cada uma das salas, minhas velhas conhecidas, sem perder a esperança de na sala seguinte encontrar os colegas reunidos. Mas em todas apenas as carteiras encardidas (vazias). E não ouvi o grito de Heráclito. Nos reencontramos no topo da escada, cansados, desapontados. Mas o meu amigo teve uma boa idéia: descermos para a secretaria e a diretoria. Conhecendo o nosso chefe, achávamos que ele tinha escolhido uma das salas - talvez a do Diretor. Fomos primeiro para esta e, ao nos aproximarmos, ouvimos vozes. Na mosca. Como conhecíamos o nosso chefe! Entramos à toda, levamos um bruto susto: em vez dos colegas, demos com um grupo de escoteiros. À mesa, o chefe dos garotos parou de falar quando invadimos a sala com um com licença, chefe. Desejando que naquele momento o chão se abrisse e nos tragasse, balbuciamos uma desculpa e saímos. Desanimados. fomos ainda à secretaria - fechada.
Até pegarmos o carro e durante todo o trajeto, não soltamos uma palavra. De vez em quando nos olhávamos, lendo no rosto a certeza de termos desperdiçado o nosso fim de semana. Nada nos iria distrair da ídéia de começarmos a segunda-feira com uma reprimenda do nosso chefe.
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Conto extraído do meu livro Não Enterrarei os Meus Mortos (1980)

quarta-feira, janeiro 11, 2006

SOPRANDO A PRIMEIRA VELINHA


Hoje está fazendo um ano que iniciei este blog. Em 11 de janeiro de 2005 o Luzes da Cidade ingressava no mundo da blogosfera, com uma crítica sobre o filme de Chaplin que inspirou o nome deste espaço. Antecedendo o texto, fiz algumas considerações, entre as quais informava que, apesar do título, o meu blog não iria se dedicar exclusivamente às coisas do cinema, muito embora este fosse ter um maior destaque. E assim tem sido nesses doze meses. E assim será até enquanto ele existir. Mesmo ocupando um espaço menor, tenho divulgado o meu trabalho literário, publicando textos extraídos dos meus livros e também inéditos. Também escrevi sobre outros escritores e publiquei, em pequeno número, é verdade, textos de poetas, consagrados ou não. Andei, ainda, publicando umas poucas crônicas de minha autoria. Mas o cinema continuou sendo o assunto mais relevante.
Curioso é que a minha decisão de editar um blog surgiu de repente, e depressa a levei a cabo. Jamais pensei nessa possibilidade, desde que ingressei na Internet. Me lembro, poucos meses antes, de uma sugestão de Bené Chaves (que já fazia circular o seu O Apanhador de Sonhos) para que eu criasse também o meu. Foi numa reunião que tivemos com Moacy Cirne, numa das vindas deste a Natal. "Quero lá o quê!", reagi de imediato. No entanto, não muito tempo depois... É como aquela história de que nunca se deve dizer que desta água não beberei.
Preciso confessar que, mais do que, talvez, o meu prazer de escrever (a necessidade, diria melhor), a grande satisfação que tive durante esses doze meses foi o ensejo de conhecer pessoas inteligentes, sensíveis e talentosas, além de possuírem uma grande qualidade humana. Elas me gratificaram com palavras amáveis, nas suas visitas, onde não faltou uma boa dose de generosidade; e me proporcionaram momentos preciosos ao visitar os seus blogues. Quero, sem citar nomes, fazer um agradecimento especial àqueles que se mantiveram mais assíduos em suas vindas ao Luzes da Cidade. Mas também agradeço aos que aqui vieram esporadicamente, aos que , assíduos por algum tempo, de repente tomaram um chá de sumiço. Agradeço até mesmo àqueles que me visitaram uma única vez. Como , ao me lerem, dissessem para si mesmos, o diabo é quem vem outra vez por aqui. A todos deixo um grande abraço e os votos de um venturoso ano que está se iniciando.

sábado, janeiro 07, 2006

MEUS ATORES E ATRIZES PREFERIDOS

Sem ordem de preferência.

Atores

Dirk Bogarde
Barry Fitzgerald
James Mason
Alec Guiness
Henry Fonda
Marcello Mastroianni
Bruno Ganz
Al Pacino
Claude Rains
Charles Laughton
Spencer Tracy
Marlon Brando
Robert Ryan
Burt Lancaster
Peter Lorre
Montgomery Clift
Jack Lemmon
Paulo José


Atrizes

Claire Bloom
Isabelle Hupert
Virginia Mayo
Maureen O' Hara
Ornella Muti
Jean Simmons
Alida Valli
Teresa Wright
Audrey Hepburn
Ava Gardner
Catherine Deneuve
Natalie Wood
Sophia Loren
Silvana Mangano
Emmanuelle Béart
Susan Hayward
Anne Bancroft
Lee Remick
Ingrid Thulin
Helen Mirren
Debra Winger
Nicole Kidman

domingo, janeiro 01, 2006

A CHINESINHA

Tomei o primeiro, longo gole de cerveja, degustando o prazer da bebida bem gelada. Em seguida, virei o rosto para a parede à minha direita, onde estava dependurado um quadro emoldurado e envidraçado. A peça, que não parecia (de acordo com os meus modestos conhecimentos de artes plásticas), executada por um verdadeiro artista, representava sete pessoas (4 homens e 3 mulheres), cada uma delas exercendo uma função. Um dos homens portava um instrumento musical, outro montava um cavalo, uma mulher aparecia segurando uma flor, e assim por diante. Um atrás do outro, formando uma fila indiana. Era um quadro chinês, pois o restaurante era chinês. Havia outro quadro na parede à minha esquerda, embaixo do qual se postava a longa mesa onde era exposta a comida para os clientes se servirem. Mas nem sei dizer o que o quadro representava, pois me desinteressei de olhá-lo.
A chinesinha que me atendeu teria, se muito, dezoito anos, era magrinha, como parecem ser todas as chinesas, pelo menos, as jovens. O seio quase inexistente me fez lembrar a expressão "peitinhos de pitomba", de uma música do Chico. Mas bonitinha, com um rabinho-de-cavalo, e se chamava Jini. Havia outra moça, um pouco mais velha, e um homem, esse, sim, gordo, não muito mais alto do que as moças. Devia ser o proprietário. Fiquei por ali só bebendo, pois ia almoçar em casa.
Descobrira o restaurante num desses sábados em que com a minha mulher fui a um shopping fazer compras. Depois das compras, seguimos para a praça da alimentação, para tomarmos umas duas cervejas. Entramos ali sem nem saber que o restaurante era chinês. Só o descobrimos quando a chinesinha nos veio atender e também verificamos a decoração. E não sei por quê (talvez o inusitado do local, com uma chinesa de garçonete), achei agradável o ambiente, e sempre que ia ao shopping, aparecia lá para tomar a minha cerveja.
Os ocidentais acham que as pessoas da raça oriental são todas parecidas no físico. Talvez eles digam o mesmo de nós. Bom, o certo é que teve um dia que eu achei que Jini, a chinesinha, era como estar vendo a bela atriz Gong Li. Só que bem mais nova. E um dia falei a ela da semelhança entre as duas. Jini me olhou admirada e não disse nada. Suspeitei que ela não soubesse quem diabo era Gong Li.
Uma vez fui atendido pela sua companheira. Era também bonitinha, me disse o seu nome, mas não o guardei. Soube que Jini estava adoentada. Doença grave, perguntei. A moça não disse nem sim, nem não. Era atenciosa e mais comunicativa do que Jini. Como a cerveja não estivesse muito gelada, trouxe, sem eu pedir, um balde com cubos de gelo, onde pousou a garrafa. Fiquei por ali, vendo pela milésima vez o quadro, enquanto os primeiros clientes chegavam para almoçar. Dessa vez me deu vontade de comer um pastel.
Voltei alguns dias depois e, de novo, não encontrei Jini. Perguntei à colega se ela tinha melhorado. E, coisa estranha, de novo ela ficou muda. Nem um sim, nem um não. Coisa mais estranha!
Não resisti a perguntar por Jini, na vez seguinte. E o mesmo silêncio da garçonete, mas com uma diferença: além do silêncio, ela esboçou um sorriso, cujo significado não consegui decifrar. A partir daquele dia, desisti de indagar pela chinesinha. Houve uma ocasião, depois de beber três cervejas (habitualmente não passo de duas) , em que senti o impulso de perguntar ao proprietário o que fora feito de Jini. Mas nem cheguei a me levantar. Deixa pra lá, disse pra mim . E, embora continue frequentando o local, apreciando a cerveja bem gelada (quando não está a meu gosto, a garçonete providencia o balde com gelo), confesso que sinto falta da sósia de Gong Li. Onde ela estará? O que terá sido feito dela?

quarta-feira, dezembro 28, 2005

OS MELHORES FILMES VISTOS EM 2005

Hoje eu quis voltar aos meus tempos de cineclubismo, quando, junto com alguns companheiros do Cineclube Tirol, publicava, na imprensa local, a lista dos melhores filmes exibidos durante o ano. A minha lista deste ano atinge o número de 14 filmes. É bem provável que possa ter esquecido um ou outro , pois, ao contrário de Bené e Moacy, não costumo anotar os filmes que vejo. (Acho que, a partir do próximo ano, vou adotar esse procedimento. Não posso mais confiar tanto na memória, que já vai dando sinais de cansaço.) Preciso fazer um esclarecimento a respeito da inclusão de Brinquedo Proibido. Foi com a idade de 12/13 anos que o vi, numa cidade do interior da Paraíba. Na época (será preciso dizê-lo?) não tinha a mínima visão crítica e estética do cinema, além de não me lembrar, ao longo dos anos , de absolutamente nada dele. Assim, ao assisti-lo em DVD, em agosto deste ano, foi como se o visse pela primeira vez. Isso posto, vamos à relação.
1 . A Queda - As Últimas Horas de Hitler (Oliver Hirscbiegel, 2004)
2 . Um Filme Falado (Manoel de Oliveira, 2003)
3 . A Eternidade e Um Dia (Théo Angelopoulos, 1998)
4 . O Silêncio (Bergman, 1963)
5 . L' Age d' Or (Buñuel, 1930)
6 . Sherlock Jr. (Buster Keaton, 1924)
7 . Entr' acte (Clair, 1924)
8 . Nuit e Brouillard (Resnais, 1955)
9 . Rififi (Jules Dassin, 1954)
10, Brinquedo Proibido (René Clément, 1952)
11. O Segredo de Vera Drake (Leigh, 2004)
12. Elefante (Gus Van Saint, 2003)
13. Batman Begins (Christopher Nolan, 2005)
14. O Abraço Partido (Daniel Burman, 2003)

sábado, dezembro 24, 2005

NATAL! U,m soneto, um poema e uma letra da MPB


Soneto de Natal
Machado de Assis

Um homem, _ era aquela noite amiga,
Noite cristã, berço do Nazareno, _
Ao relembrar os dias de pequeno,
E a viva dança, e a lépida cantiga

Quis transportar ao verso doce e ameno
As sensações da sua idade antiga,
Naquela mesma velha noite amiga,
Noite cristã, berço do Nazareno.

Escolheu o soneto... A folha branca
Pede-lhe a inspiração; mas frouxa e manca,
A pena não acode ao gesto seu.

Em vão lutando contra o metro adverso,
Só lhe restou este pequeno verso:
"Mudaria o Natal ou mudei eu?"



Poema de Natal
Carlos Pena Filho

_ Sino, claro sino,
tocas para quem?
_ Para o Deus Menino
que de longe vem.

_ Pois se o encontrares,
traze-o ao meu amor.
_ E que lhe ofereces,
velho pecador?

_ Minha fé cansada,
meu vinho, meu pão,
meu silêncio limpo,
minha solidão.



Boas Festas
Assis Valente

Anoiteceu,
o sino gemeu,
a gente ficou
feliz a rezar.
Papai Noel,
vê se você tem
a felicidade pra você me dar.


Eu pensei que todo mundo
fosse filho de Papai Noel.
Bem assim felicidade
eu pensei que fosse uma brincadeira de papel.
Já faz tempo que pedi,
mas o meu Papai Noel não vem.
Com certeza já morreu,
ou então felicidade
é brinquedo que não tem.







domingo, dezembro 18, 2005

O SEGREDO DE VERA DRAKE (VERA DRAKE/2004)

Vão sendo mostrados os primeiros créditos e quando aparece, em destaque, o título Vera Drake, o lado direito da tela abre-se e vemos uma mulher caminhando. Em seguida, a tela fica cheia e a mesma mulher está numa casa prestando assistência a um velho enfermo. Algum tempo depois, ela é vista no trabalho de induzir uma jovem a abortar, uma cena que se repetirá duas ou três vezes. E à medida que O Segredo de Vera Drake vai se desenrolando, fica patente que o diretor-roteirista Mike Leigh não pretende se posicionar a favor ou contra o aborto. A intenção, clara, é a de destacar a bondade de uma mulher casada, mãe de um casal de filhos, de ajudar mulheres a se livrarem do filho indesejado. Bondade, sim, pois Vera Drake faz esse "serviço", sem receber pagamento. Quem lucra é uma desonesta conhecida dela, encarregada de informá-la das mulheres que querem interromper a gravidez. Como todas as pessoas que praticam o bem (embora , no caso, o aborto seja considerado um crime, pelo menos na Inglaterra de 1950, a época em que se passa a história), Vera é uma ingênua, uma pura, que jamais desconfiou de que estava sendo usada pela outra. E, também, vítima de inveja, no caso da esposa do irmão do seu marido.
Como se vê no início do filme, ela também socorre outras pessoas mais velhas e doentes, levando-lhes algum alimento e tendo sempre para elas uma palavra de conforto. Um personagem assim altruísta, que, apesar das dificuldades financeiras por que passa, junto com o marido, vivendo de fazer faxina nas residências, não reclama da vida e está sempre bem-humorada, tem tudo para se tornar um alvo em potencial da pieguice e do sentimentalismo. Mas Leigh, com o talento já demonstrado em Segredos e Mentiras, sabe como driblar esse perigo e conduz o filme com energia, mas com uma segurança e uma sobriedade elogiáveis. Até mesmo nas cenas em que Vera é confrontada com os policiais e não pode conter a emoção, o filme não descamba para o melodramático. Talvez também porque ele conta com o talento de Imelda Staunton, que tem uma atuação admirável no papel de Vera, sem excessos, sem exageros. E são cenas de forte carga dramática, que, nas mãos de um diretor e de uma atriz de pouco potencial, causariam danos irreparáveis ao filme. Vale aqui ressaltar o momento em que Vera, envergonhada pelo que fez, diante dos policiais, encosta a boca no ouvido do marido e lhe faz a bombástica confissão. Uma cena feita de silêncios, mostrando a expressão de pasmo do companheiro de tantos anos anos, que nunca suspeitara do "segredo" que a esposa guardava em seu íntimo.
É ainda importante que se fale do comportamento dos policiais, entre eles uma mulher. Apesar do empenho em arrancar a confissão de Vera, o sargento não age de forma brutal, com truculência. Embora firme, em nenhum momento ele levanta a voz para a interrogada, um comportamento que não é comum em um policial, principalmente diante de um acusado vindo das camadas mais baixas. É como se ele (e os auxiliares) estivessem cientes de que aquela mulher praticou um delito, sim, mas com a intenção de praticar o bem, tanto que não o fez para ganhar dinheiro. E na penúltima cena, já na prisão, quando Vera vai subindo uma longa escada, a guarda recomenda-lhe cuidado para não cair.
Com mais esse êxito em sua carreira, o inglês Mike Leigh comprova que é um dos cineastas mais interessantes do cinema contemporâneio.

domingo, dezembro 11, 2005

15 GRANDES MOMENTOS DO CINEMA


1 - O ator bêbado recitando o monólogo de Hamlet, trepado em uma mesa de bar, em Paixão dos Fortes (John Ford)
2 - A sequência final de Oito & Meio (Fellini)
3 - A expressão do rosto do vagabundo no final de Luzes da Cidade (Chaplin)
4 - O plano-sequência no início de A Marca da Maldade (Welles)
5 - A sequência em que Cary Grant é perseguido por um avião em Intriga Internacional (Hitchcock)
6 - Gene Kelly dançando e cantando debaixo de um toró, em Cantando na Chuva (Kelly & Stanley Donen)
7 - A sequência final de Sinfonia de Paris, na qual se aliam, de forma admirável, a cor, a dança e a música (Vincente Minelli)
8 - A morte da garota em M, o Vampiro de Dusseldorf (Fritz Lang) , revelada pela bola rolando no solo e o balão pousado num poste de iluminação, brinquedos que o assassino comprara para a vítima.
9 - A sequência na escadaria de Odessa, num primoroso exercício de montagem, em O Encouraçado Potemkin (Eisenstein)
10 - A dança dos pãezinhos, em Em Busca do Ouro , de uma poesia simples, mas cativante (Chaplin). Inesquecível.
11 - A cena em que os amantes se conhecem, em uma festa, em Amor, Sublime Amor (Robert Wise & Harold Robbins)
12 - Os cavalos agonizando no final de uma batalha, em Kagemusha, a Sombra do Samurai (Kurosawa)
13 - A cena da Morte conduzindo as pessoas, em O Sétimo Selo (Bergman)
14 - A gargalhada do velho, reagindo com bom-humor à perda das jazidas de ouro, no final de O Tesouro de Sierra Madre (Huston)
15 - Em Rififi (Jules Dassin). A sequência do assalto a uma joalheria, desde a noite em que os assaltantes saem de casa até à reunião na casa de um deles, já com o produto do roubo. Uma sequência de pouco mais de 30 minutos, sem nenhum diálogo, os personagens se comunicando com gestos ou na expressão facial.
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NOTA - A sequência supracitada de O Encouraçado Potemkin foi reconstituída, como uma homenagem ao filme de Eisenstein, em Os Intocáveis (Brian de Palma). A mesma homenagem foi feita a Em Busca do Ouro em Gilbert Grape - Aprendiz de Sonhador
(Lasse Hallstrom), com o ator Johnny Depp repetindo o gesto de Carlitos.

domingo, dezembro 04, 2005

ALGUNS PERSONAGENS INESQUECÍVEIS DO CINEMA



- Carlitos
- Hulot (Jacques Tati)
- O casamenteiro de Depois do Vendaval (John Ford)
- O ator alcoólatra de Paixão dos Fortes (Ford)
= Will Kane, o xerife de Matar ou Morrer (Fred Zinnemann)
- Gelsomina de Na Estrada da Vida (Federico Fellini)
- Cabiria de Noites de Cabiria (Fellini)
- Norma Desmond de Crepúsculo dos Deuses (Billy Wilder)
- O personagem-título de Dersu Uzala (Akira Kurosawa)
- O velho funcionário de Viver (Kurosawa)
- Alfredo, o projecionista de Cinema Paradiso (Giuseppe Tornatore)
- A prostituta de Nunca aos Domingos (Jules Dassin)
- O chefe daquela família "maluca" de Do Mundo Nada se Leva (Frank Capra)
- O padre de Roma, Cidade Aberta (Roberto Rosselini)
- Stoker, o boxeador de Punhos de Campeão (Robert Wise)
- A velhinha de Quinteto da Morte (Alexander Mackendrick)
- Sinigaglia, o professor de Os Companheiros (Mario Monicelli)
- Alvin Straight de História Real (David Lynch)

quarta-feira, novembro 30, 2005

O MASCARADO

Estava, com alguns amigos, no velório de uma pessoa de nossas relações. Num dado momento, percebemos que algo inusitado estava ocorrendo, por causa de uma certa agitação das pessoas mais afastadas de nós. Pude observar que alguns dos presentes não conseguiam manter a compostura exigida para a ocasião e riam. De nada valeram as minhas palavras de censura a curiosidade dos amigos era mais forte e logo e logo o nosso grupo estava desfeito. Acabei levado por eles. Qual não foi o meu espanto, quando descobri a razão de todo o alvoroço: perto do caixão, conversando com a viúva e outros parentes do morto, vi um homem vestido de preto e cujo rosto estava encoberto por uma máscara. Usava uma máscara preta, para combinar com o terno, imaginei, e que se adequava à lugubridade da ocasião. Pelo menos, a mim me pareceu, mas somente a mim, pois as demais pessoas ali presentes (inclusive as que formavam a roda em que estava e que há bem pouco tempo falavam compungidamente da morte do amigo) viam na presença do mascarado motivo para diversão. Os próprios familiares do morto devem ter mantido, à custa de muito esforço, a compostura da ocasião. Eu estava movido por uma indominável curiosidade a respeito daquele estranho, e, quando ele se retirou, alvejado por olhares e risos sarcásticos, andei perguntando por ele, mas ninguém o conhecia. Realmente eu fiquei muito impressionado com o homem. A visão de sua soturna máscara não me saía da cabeça. A todo momento ela surgia à minha frente, impedia-me de me concentrar no meu trabalho, na leitura, num programa de tevê. Falei do caso a diversas pessoas, na esperança de alguma delas conhecesse o homem e a razão de ele usar a máscara, em vão - de todas ouvi a mesma resposta de que nunca o viram, invariavelmente acompanhada de uma boa risada. Disse para mim mesmo que nunca mais o veria, mas a sua imagem ficaria retida na memória, do mesmo modo que, por uma impressão diversa, conservamos a imagem de uma bela mulher, a quem vemos uma única vez na vida.
Felizmente me enganava. Uma tarde o reencontreu num banco. Eu estava numa fila quilométrica, aguardando impacientemente a vez de ser atendido, quando percebi que, de repente, as pessoas das outras filas tinham desviado a atenção para o lado da minha fila. Devia estar ocorrendo algo muito engraçado, as pessoas não olhavam apenas com um vivo interesse, mas estampavam um sorriso zombeteiro nos lábios. Impelido por uma curiosidade natural, virei-me em direção ao final da fila, e quem estava lá? Ninguém menos do que o estranho homem que encontrara no velório. Apesar de olhar com discrição, pude observar que não usava a mesma máscara. Usava dessa vez uma colorida, de feição inspirada na forma do rosto de um palhaço. Cada vez mais impressionado pelo comportamento do homem, perguntei aos vizinhos próximos sobre ele, mas nenhum deles o conhecia. É um doido a mais nesta cidade já cheia de doidos, comentou o primeiro a quem consultei. Depois de ser atendido, saí por entre a minha fila e a vizinha, curioso para ver o mascarado de perto. É obvio que não podia ver-lhe o rosto, para fazer uma avaliação de sua idade, mas, não sei por quê, supus que não fosse mais jovem. Tinha um porte elegante, a cabeça ereta, o que, quando sentado, podia dar às pessoas a falsa impressão de ser alto. Essa sua postura conferia-lhe um ar de altivez, que o fazia ignorar os olhas zombeteiros.
Nosso terceiro encontro aconteceu numa festa de aniversário, à qual não queria ir, por não conhecer o aniversariante, mas um amigo tanto insistiu que acabei sendo levado por ele. Como das vezes anteriores, o mascarado apareceu bem depois de mim e, do mesmo modo, sua chegada provocou um alvoroço nos convidados.Por estar num ambiente festivo, estava bastante alegre. Passou a maior parte do tempo num pequeno grupo, do qual participava o anfitrião, conversando e rindo, empunhando um uísque, parecendo íntimo de todos. Estava usando uma máscara azul-celeste e me ocorreu que lera, não sabia onde, que o azul tem uma conotação de alegria e satisfação, indicando que, se alguém o escolhe, é por estar de bem com o mundo e os seus semelhantes. Contei ao amigo que já o encontrara num velório e num banco, cada vez com uma máscara diferente, como se a colocasse de acordo com o ambiente ou a natureza do evento. Revelei a minha curiosidade em saber a razão daquilo, mas ninguém, a quem perguntei, conhecia o homem. Se quiser, eu te levo ao Edmundo, quando ele estiver só, e você pergunta a ele, ofereceu-se o meu amigo. Eu falei tá legal e, logo depois, ele se afastou em direção a um outro grupo. Continuei no meu canto, a observar o mascarado.
Em dado momento, vi-o deixar o grupo e caminhar para o lado em que me encontrava. Passou perto de mim e me cumprimentou, tudo bem? Me virei e acompanhei-o até desaparecer da minha vista. Supus que ia ao banheiro e fiquei na mesma posição, aguardando que ele retornasse.Um pouco antes tinha decidido satisfazer a intensa curiosidade com o próprio mascarado. Ansioso, vi-o andar de novo na minha direção e, ao chegar perto de mim, perguntei-lhe se podia me dar a sua atenção por um minuto. Por uma hora, se for preciso, amigo, respondeu , afável, o que reforçou a minha disposição. Comecei me desculpando pela inconveniência de estar invadindo a sua intimidade, para satisfazer uma enorme curiosidade. (Estava tão perto dele que poderia tocá-lo, olhando fixamente nos olhos restringidos pela máscara, e pareceu-me ver neles um ar de gravidade que denunciaria a reprovação do homem à minha bisbilhotice.) É que desde a primeira vez que o vira num velório, não tinha deixado de pensar um só instante na sua figura. Tentara me valer dos amigos, mas nenhum o conhecia, desse modo, embora constrangido, me via obrigado a dirigir-me a ele. Ele se incomodaria em atender a minha curiosidade? A respeito de quê? Senti um tom animoso na voz, o que confirmava a censura que julgara ver-lhe nos olhos. Mas não podia mais recuar e disse que gostaria de saber por que usava máscara. E o sr por que não a usa? Foi com essa pergunta que respondeu à minha, e, com um pedido de licença, retirou-se e foi reunir-se com os amigos.
Fiquei meio estonteado com a reação do homem. Esperava até mesmo uma grosseria, depois que o percebi aborrecido com a minha intromissão - algo do gênero de por que o sr não se importa com a sua própria vida e deixa a dos outros em paz? Jamais aquelas palavras: e o sr por que não a usa? O curioso é que não fiquei aborrecido, e nem mesmo frustrado, por continuar ignorando a razão da conduta daquele excêntrico, tão inesperada fora a sua reação. Permaneci um pouco no mesmo lugar, a observá-lo. Ele recuperara a alegria e o humor perdidos durante o nosso breve encontro. Depois resolvi circular um pouco pela casa. Antes de sairmos, o amigo voltou a se oferecer para me levar ao anfitrião, a fim de me informar sobre o mascarado, mas disse-lhe que não estava mais interessado. E com o tempo foi me arrefecendo o interesse por ele e hoje, quando o encontro, a sua figura não me chama mais a atenção.
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Extraído do meu livro "Clarita" (1993) , este conto foi reduzido para se adequar às dimensões desta página. Acredito que a redução não tenha prejudicado o texto.

domingo, novembro 27, 2005

HISTÓRIA REAL


Este texto foi publicado há mais de um ano em um site sobre cinema (o nome não me ocorre, no momento), quando eu ainda não tinha blogue. E é apresentado do mesmo modo como saiu naquela página.
Nesse filme de 1999, disponível em DVD, David Lynch conta a história verídica de Alvin Straight, um homem velho e doente, que viaja centenas de quilômetros, dirigindo um carrinho cortador de grama, para visitar o irmão convalescente de um acidente vascular, com o qual está de relações cortadas há mais de dez anos. É uma história plena de calor humano, em que participam valores , como a amizade, a solidariedade, a bondade e uma certa ternura, mas tudo isso exposto de maneira comedida e sóbria, sem exageros. E aí vale perguntar o que fez Lynch se interessar por um assunto tão estranho ao seu universo temático e estilístico. Onde aqui o diretor de O Homem Elefante, Veludo Azul e Coração Selvagem, que levava o espectador ao mal-estar, ao incômodo, à perturbação, ao mostrar o grotesco, o horrendo, a crueldade e a violência em doses cavalares? Em nenhum momento. Ou, talvez, na cena em que uma mulher atropela mortalmente um veado. É uma cena dramaticamente muito forte, que expõe o descontrole emocianal da mulher. Seu desabafo à beira do histerismo chega a incomodar (fazendo lembrar um pouco o Lynch de outros carnavais), mas, ao encerrá-lo, ficamos sabendo do seu amor por aquela espécie de animal e acabamos sendo compassivos com ela.
O filme, repetimos, respira calor humano através de seus personagens, mas sem forçar a barra para conquistar a cumplicidade do espectador. Como acontece com as grandes obras, tudo é feito sem abuso de gestos e de expressões faciais, com exceção da cena acima citada, e com delicadeza e sensibilidade. Essa contenção, esse comedimento se espalham pelos diálogos, sobretudo quando intervém Alvin, que conta com a boa interpretação de Richard Farnsworth. Quando, por exemplo, ele retorna do exame médico a que se submeteu, a filha Rose (Sissy Spacek) lhe pergunta o que o médico achou dele. Alvin responde: "Ele achou que eu estou bem". Na verdade, ele não está bem, mas prefere não se estender sobre o assunto.
E que personagem esse Alvin Straight! Teimoso, obstinado, às vezes, rude, mas sensível, como o demonstra no diálogo com aquele outro velho, também combatente na Segunda Grande Guerra, e no encontro com a moça grávida que está fugindo de casa. Vive com a filha, a quem trata com a brandura e a tolerância de quem lida com uma pessoa que sofre de um certo retardo mental e que, ainda por cima, perdeu a guarda dos filhos para o Estado, por causa de um acidente doméstico, do qual, no entanto, não teve culpa. Sua obstinação em visitar o irmão doente e promover a reconciliação entre eles é comovente, sem que Lynch precise esfregar-nos isso na cara.
E o reencontro de Alvin com Lyle (Harry Dean Stanton) é mostrado sem arroubos, sem lágrimas, sem qualquer sombra de melodrama ou de sentimentalismo. Apenas se vê Alvin, do lado de fora da casa, gritar o nome do irmão, que lhe responde de dentro da casa. A imagem final mostra os dois sentados à varanda da casa, mudos, contemplando as estrelas, como tantas vezes o fizeram quando eram jovens.

quarta-feira, novembro 23, 2005

O DECLÍNIO DO IMPÉRIO AMERICANO - Uma revisão


O lançamento em DVD , já há alguns meses, de O Declínio do Império Americano (1986), seguindo-se ao de As Invasões Bárbaras (2003), dá ao espectador a oportunidade de ver, ou rever, os principais personagens dos dois filmes, a uma distância de quase vinte anos. E, é claro, de estabelecer um paralelo entre as duas obras. É possível perceber uma diferença entre ambas, baseada no comportamento de Rémy, Alain, Claude, Dominique e Diane, que, em As Invasões Bárbaras, mais velhos e diante do estado terminal de Rémy, deixam aflorar um travo de amargor em suas vidas atuais, apesar de continuarem cultivando a irreverência, o deboche e o cinismo. É que a vida passou para quatro deles e está terminando para Rémy.
O Declínio do Império Americano se inicia com um pequeno trecho de uma aula dada por Alain (Daniel Briére) e depois corta para um longo traveling que atravessa o saguão de uma estação até alcançar, no fundo, as personagens Diane (Louise Portal) e Dominique (Dominique Michel), a primeira entrevistando a segunda. A sequência seguinte mostra o mesmo Alain e mais Rémy (Rémy Gerard), Claude (Yves Jacques) e um jovem amigo deles, reunidos em uma casa à beira de um lago. A partir daí há uma alternância de cenas das conversas entre os homens e as mulheres, com Louise (Dorothée Berryne), mulher de Rémy, e a jovem amante de Alain juntando-se a Diane e Dominique numa academia de ginástica. (E, talvez, o propósito do diretor Denys Arcand, em mostrar as mulheres em atividade física e os homens bebendo e conversando, tenha sido o de estabelecer uma diferença entre os cuidados delas com o corpo e o relaxamento deles com o corpo.) Os homens falando de mulheres, as mulheres falando de homens. As confissões de relacionamentos sexuais (ilustradas por flashbacks ), dão um toque humorístico à narrativa.
Há, pois, um clima de descontração na reunião dos dois grupos, que é alterado por duas ocorrências, quando as mulheres vão se juntar aos homens. A primeira é de pouca importância, apenas o mal-estar durante o jantar, causado pela chegada de Mário, o intratável e arrogante amante de Diane, que, felizmente, pouco se demora. Já a segunda é de suma gravidade. A confissão de Dominique, em meio a uma conversa normal, de que já dormira com Rémy (e também Alain), provoca um atrito na relação do primeiro com sua mulher, que, sem conseguir explicações do marido, quando vão se deitar, busca consolo no homossexual Claude.
Os derradeiros minutos do filme não têm diálogos. Os personagens dispersos pela casa, na mahã seguinte, com Louise e a amante de Alain tocando piano, observados por Rémy e Alain da sacada, enquanto Dominique e o jovem se acariciam na cozinha. As marcas do incidente da noite anterior ainda estão estampadas nos rostos de Louise (de óculos escuros) e de Rémy, mas não permanecerão por muito tempo. Será? Em As Invasões Bárbaras eles aparecem separados.
O Declínio do Império Americano e As Invasões Bárbaras são dois grandes filmes, sem que se possa dizer que um seja a continuação do outro, apesar de apresentarem os mesmos principais personagens, desse canadense Denys Arcand, um cineasta importante, entre os poucos que se destacam no cinema atual. Dele ainda conheço Jesus de Montreal, outro grande filme.

sábado, novembro 19, 2005

MEUS DOIS AVÔS




Cícero era o nome do meu avô paterno. Os netos não o chamavam de vovô, mas de Pai Cícero. Estive com ele apenas duas vezes, já que morávamos em cidades muito distantes uma da outra. (Meu outro avô também morava noutra cidade longínqua, aliás, vizinha à de Pai Cícero.) Mas nunca me saiu da lembrança a visão de Pai Cícero trabalhando, com paciência e habilidade, na feitura de palitos. Fazia aquilo como hobby, não como ofício, que este era exercido num cartório. Os palitos eram usados na sua própria casa e eram dados aos parentes. Quando voltávamos para a nossa cidade, os levávamos em quantidade razoável. Gostava de ler. Não tenho idéia dos autores que lia, mas tenho quase certeza, por sua pouca instrução, que não eram dos maiores da literatura. E gostava de que os netos lessem para ele. Fazia-o, disso tenho certeza, para avaliar a capacidade do neto. Fui "testado" uma vez. Eu tinha uns nove para dez anos. Um tanto amedrontado diante daquele homem mirrado, mas que impunha autoridade, mesmo involuntariamente, que, na cabeça daquele menino, devia ter uns duzentos anos, peguei o livro e comecei a ler o trecho que ele indicou. Não me lembro se o trecho era longo, mas não devo ter lido menos do que dez minutos. A uma certa altura ele me mandou parar, pediu o livro e disse que me retirasse. Me afastei sem saber o que o Pai Cícero tinha achado da minha leitura. Só quando já estávamos de novo em casa é que ouvi do papai como tinha me saído no "teste". Pai Cícero tinha gostado, sim. Segundo ele, de todos os seus netos, da minha idade, eu era o que lia melhor. Foi o primeiro elogio que recebi na minha vida. E dos mais sinceros, creio.
Já no físico - alto, magro, mas não muito, espigado - o meu avô materno era muito diferente de Pai Cícero. Um traço marcante de vovô Pirajá era a sua extremada religiosidade. Ao rezar o terço de todas as noites, o fazia ajoelhado sobre caroços de milho (ou feijão, não me lembro com precisão). Se ouvisse alguém dizer, por exemplo, "ô vento danado", a advertência vinha em cima da bucha: "não diga isso, que o vento é de Deus". Já o conheci muito pobre, vivendo de uma modestíssima venda de gêneros alimentícios, mas possuíra bens imóveis, que foram se acabando por uma falta de tino para os negócios e, também diziam, pela doação de parte deles à Igreja. Um homem bom, honesto, às vezes, doce, mas que, fácil, perdia as estribeiras. E, zangado, era outro homem, embora mantivesse o controle do uso de palavrões. Em uma de suas visitas à nossa casa, ele soube que uma das minhas irmãs, que fizera um casamento desastroso, levara uma surra do cafajeste do marido. Ah, pra que foram dizer a ele! Indignado ao último grau, vovô Pirajá queria, por fina força, ir à casa da neta tomar satisfação com o marido dela. Foi um custo para o papai demovê-lo da idéia. E, na época, já estava aí pelos setenta.
Mas se o papai conseguiu dissuadi-lo daquela vez, de outra vez foi por ele dissuadido, numa ocorrência em que o envolvido era eu. Foi no mesmo dia da chegada do vovô. Eu tinha feito uma traquinagem qualquer e o papai ia me bater e foi aí que o vovô se meteu. Primeiro, ele pediu que o papai não me surrasse. Depois, como o genro se mostrasse inflexível, ele mudou de atitude e disse ao meu pai que não o deixaria fazer aquilo comigo. O papai recuou, atendeu ao sogro, e, se bem me lembro, me disse que agradecesse ao meu avô por não levar uma pisa. À noite, no meu quarto, antes de dormirmos, vovô me aconselhou a não contrariar mais o meu pai, para não ser punido. Quando ele foi embora, fiquei com medo de que a surra tivesse sido apenas adiada. Mas a raiva do meu pai já tinha passado e a travessura ficou por isso mesmo. Obrigado, vovô Pirajá.

domingo, novembro 13, 2005

CURIOSIDADES CINEMATOGRÁFICAS




1) Não, não foi em A Aventura (1959) que começou a parceria de Michelangelo Antonioni com a atriz Monica Vitti, mas em O Grito (1957). Só que neste Monica Vitti não trabalhou como atriz. Ela dublou Dorian Gray, que fez o papel de Virginia, a proprietária da bomba de gasolina. Antonioni não gostou da voz da intérprete escolhida e pediu a um de seus auxiliares que procurasse alguém com uma voz que ele achasse adequada para a da personagem. Descoberta trabalhando numa peça teatral, Monica Vitti foi testada´pelo diretor e aprovada. Daí teve início uma parceria que resultou em cinco filmes, quatro deles dos maiores realizados pelo grande mestre italiano. A colaboração no cinema estendeu-se à ligação amorosa, que durou alguns anos. Outra curiosidade: Monica Vitti é um nome artístico. O verdadeiro nome da atriz é Maria Luisa Ceciarelli.
2) Há uma muito extensa relação de pessoas de uma mesma família trabalhando no cinema. Vamos a alguns exemplos. Maurice e Jacques Tourneur, Luís Buñuel e Jean-Louis Buñuel, Francis e Sofia Coppola Ingmar e Daniel Bergman (pais e filhos diretores). Luchino Visconti tem um sobrinho também diretor, chamado Eriprando Visconti. No caso de atores, a lista é enorme. Continuemos com uns poucos exemplos. John, Leonel e Etlhel Barrynore (irmãos). John Barrymore Junior e Drew Barrymore (pai e filha). Henry, Jane e Peter Fonda (pai e filhos). Peter e Bridget Fonda (pai e filha). Charles, Geraldine e Sidney Chaplin (pai e filhos). Catherine Deneuve e Francoise Dorleac (irmãs, a segunda, falecida prematuramente num acidente de carro). John e Patrick Wayne (pai e filho). Alec, Daniel, William e Stephen Baldwin (irmãos). Ingrid Bergman e Isabella Rosselinni (mãe e filha, esta, fruto da união de Ingrid com o diretor Roberto Rosselinni). Brigitte e Mijanou Bardot (irmãs). Marlon e Jocelyn Brando (irmãos). Marcello e Chiara Mastroianni (pai e filha, esta , nascida do casamento de Marcello com Catherine Deneuve). Douglas Fairbanks e Douglas Fairbanks Juioir. Michael, Vanessa e Lynn Redgrave (pai e filhas). Por fim, quatro casos de irmãos diretores: Bernardo e Giuseppe Bertolucci, Henry e Louis King, Vittorio e Paolo Taviani , Joel e Ethan Coen.

segunda-feira, novembro 07, 2005

UMA MULHER CHORANDO

Três vezes perguntara por que ela estava tão calada. E ela sempre a responder que não era nada. Na terceira vez, quando perguntou se estava ressentida com algo que ele lhe fizera, Helena denotou, no tom ríspido de voz, um começo de irritação com a inquirição dele. Sentindo a reação dela, Ramiro achou prudente parar com aquelas perguntas. O certo seria buscar algum assunto, por mais trivial que fosse, para tirá-la daquele mutismo que o desconfortava. Como tinha sido o dia dela no trabalho? Bem, ela respondeu, lacônica. Afinal convencido de que não podia arrancar mais nenhuma palavra de Helena, ele resolveu também se calar. Assim mudos passaram o restante do jantar, um só abrindo a boca para pedir um prato que estivesse mais ao alcance do outro.
Ao deixarem a mesa, Helena foi escovar os dentes, enquanto ele foi ligar a televisão. Depois ela iria para junto dele. Era assim todas as noites, até mesmo quando iam sair. Mas naquela noite, quando voltou do banheiro, ela disse que tinha "um horror" de provas para corrigir e não podia perder tempo. "Mas não dá pra você ficar nem um pouco"? "Não dá. Eu tenho que devolver as provas amanhã". A atitude dela deixou-o ainda mais preocupado. Ela nunca procedera daquela maneira. Algum problema a estava perturbando, mas ela não queria revelá-lo. E enquanto as imagens do telejornal iam passando à sua frente, ele não se dava conta do que elas mostravam, nem ouvia direito as falas, pois o pensamento se concentrara na busca de um ato seu, um gesto, uma palavra àspera, que a tivessem magoado. Vasculhou a mente, tentando rememorar fatos do dia, da noite anterior, até mesmo quando estavam na cama nos momentos de amor. Em vão. Nada. O melhor é esperar até amanhã, talvez ela me diga o que está acontecendo. E continuou vendo, sem ver, o que se passava na televisão.
Ao entrar no quarto, Helena trancou a porta, mas não foi para o birô. Dirigiu-se para a janela. Mas, como o marido diante da tevê, ela não "via" a profusão de luzes iluminando aquela pequena parte da cidade. Meditava sobre a sua vida. A bem dizer, continuava uma meditação que começara já já algum tempo. E a cada dia que passava, mais tomava consciência da falta de sentido em que a sua vida se transformou com a irrealização de sonhos por tantos anos acalentados, a morte das ilusões, a perda da esperança. E o pior: sem vislumbrar um aceno sequer de mudança. E o casamento? Todos os conhecidos, amigas, familiares colocavam Ramiro num altar, ela tirara a sorte grande ao encontrar um homem de tantas qualidades: trabalhador, bem-educado, excelente profissional e, por cima, sempre apaixonado pela esposa. Sim, Ramiro podia ser tudo isso, mas havia algo nele que Helena não sabia discernir (e nem eram os pequenos defeitos que toda pessoa, mesmo as melhores, tem)., que a fazia não se sentir a mulher tão invejada. Quem sabe se a culpa não seria dela? E das outras coisas era também culpada? Da profissão que já não a satisfazia, da falta de estímulo para continuar lecionando? Do convívio com a maioria dos colegas e das amigas? Teria ela toda a culpa por não encontrar mais naquelas pessoas o que buscava para uma existência mais fácil de ser levada?
Tudo isso tinha se incrustado à vida de Helena, como uma dor persistente, e nesses últimos dias ela vinha se sentindo cada vez mais infeliz, embora procurasse disfarçar, sobretudo de Ramiro, todo o sofrimento. Mas naquela noite nem a ele conseguira enganar. Que assim seja, disse para si mesma. E, de repente, enquanto olhava a parte da cidade inundada de luz, voltou-lhe à lembrança um fato que presenciara na sua adolescência Um fato ocorrido há tantos anos na vida de uma pessoa, que nunca saíra da sua mente. Vez por outra se via a recordá-lo e não foram poucas as pessoas, através dos anos, às quais contou o sucedido. Até a Ramiro ela contou.
Era uma mulher da sua cidade. Uma fina doceira. Seus doces, das mais variadas espécies, eram motivo de comentários não só naquela cidade, mas nas cidades vizinhas. Até à capital do Estado a sua fama havia chegado. Solteira, devia ter, na época, quarenta e poucos anos. A família de Helena era, como as demais da mesma classe social, freguesa de Amália. E uma tarde a mãe de Helena mandou-a à casa de Amália, para comprar o doce de leite de que o marido tanto gostava. Lá chegando, Helena bateu palmas três vezes, ninguém apareceu. Nem Amália, nem uma sobrinha que morava com ela, tampouco a empregada. A porta da frente estava só encostada. Helena, acostumada a frequentar a casa, para visitar a sobrinha de Amália, foi entrando, enquanto dizia sou eu, Amália. Tão logo pôs os pés dentro da casa, deparou-se com uma cena que a deixou entre chocada e penalizada. À mesa das refeições estava Amália. A cabeça curvada, as mãos tapando quase todo o rosto (só os olhos descobertos), a doceira chorava. E o choro não era silencioso - a mulher chorava como uma criança quando apanha. De tão intenso o choro, os braços tremiam. "Amália, o que foi que houve"? Helena chegou para perto dela e repetiu a pergunta, mas Amália parecia não dar pela presença dela e continuava no choro. "Aconteceu alguma coisa com Eliane"? E Amália sem responder, continuando a chorar. Helena pôs a mão sobre a cabeça dela e fez um afago. Durante um minuto ou mais manteve a mão sobre a cabeça de Amália, como se a leve pressão da mão pudesse aliviar a dor da mulher. Depois foi saindo devagarinho, olhando para a pobre mulher, a quem sempre vira alegre e tão disposta.
E ao recordar, mais uma vez, a cena lastimável, Helena pôde compreender, depois de tantos anos, o sofrimento daquela mulher numa tarde longínqua. E sentiu-se na pele de Amália, a fina doceira, a mulher tão elogiada e respeitada pela sua arte na culinária. Então, de repente, veio-lhe, incontrolável, a vontade de repetir o ato de Amália. E lágrimas lhe vieram aos olhos. Helena chorava. Mas, ao contrário do choro de Amália, o seu era silencioso. E assim ficou por muito tempo deixando as lágrimas banharem-lhe o rosto.

quarta-feira, novembro 02, 2005

BREVE ANTOLOGIA DE VERSOS DA MPB



- "Tu pisavas nos astros, distraída". - Chão de Estrelas (Sílvio Caldas/Orestes Barbosa)- "Eu era feliz e não sabia". Meus Tempos de Criança (Ataulfo Alves)
- ""As rosas não falam/Simplesmente as rosas exalam/o perfume que roubam de ti". - As Rosas Não Falam (Cartola)
- "Quem acha, vive se perdendo". - Feitio de Oração (Noel Rosa/Vadico)
- "Tire o seu sorriso do caminho/que eu quero passar com a minha dor". - A Flor e o Espinho (Nelson Cavaquinho/Guilherme de Brito)
- "A feia fumaça que sobe, apagando as estrelas" - Sampa (Caetano Veloso)
- "Na boiada já fui boi, mas um dia me montei". - Disparada (Geraldo Vandré/Théo de Barros))
- "Eu pensei que todo mundo fosse filho de Papai Noel". - Boas Festas (Assis Valente)
- "Maria, o teu nome principia na palma da minha mão". Maria (Ari Barroso/Luiz Peixoto)
- "A felicidade procurada, corre". - Coração (Synval Silva)
- "Quando o verde dos teus oio se espraiá na prantação". - Asa Branca (Luiz Gonzaga/Humberto Teixeira)
- "Que a vida dura só um dia, Luzia/E não se leva nada deste mundo". - Anda Luzia (João de Barro, o Braguinha)
- "Cuidado, que a morte abriu a janela/Ainda hoje eu passei por ela/E vim depressa te dizer" - Maresia (Ednardo)
- "Que a noite é criança/Que o samba é menino/E a dor é tão velha que pode morrer". - Olê, Olá (Chico Buarque)
- "Eu não sou água pra me tratares assim/Só na hora da sede é que procuras por mim". - A Fonte Secou (Monsueto Menezes/Tufi Lauar/Marcléo)
- "A felicidade é como a gota de orvalho numa pétala de flor/Brilha tranquila/Depois de leve oscila/E cai como uma lágrima de amor". A Felicidade (Tom Jobim/Vinicius de Morais)

terça-feira, outubro 25, 2005

REVISTA INGLESA ELEGE O MAIOR FILME DE TODOS OS TEMPOS

Quase caí das nuvens. O que, para Machado, é melhor do que cair de um determinado andar ( não me lembro de qual seja). Foi uma matéria que vi hoje no site do Estadão, falando de uma votação realizada por críticos da revista inglesa "Total Film", para escolher os maiores filmes da história do cinema. A notícia não informa o número de filmes, mas suponho que seja de cem, já que Casablanca ficou em 98.o lugar. E se vocês imaginam que o vencedor foi um desses monumentos cinematográficos, estão muito enganados. O primeiro lugar coube a Os Bons Companheiros (Scorcese, 1990). O segundo colocado, Vertigo/Um Corpo que Cai (Hitchcock). E o terceiro e o quarto? Nada mais, nada menos do que Tubarão (Spielberg) e Clube da Luta, que, confesso, não sei de quem é. Do quinto ao décimo, entre "preciosidades" do tipo de O Império Contra Atraca e a trilogia O Senhor dos Anéis (oitavo e nono, respectivamente), há, para salvar a honra dos grandes autores, Cidadão Kane (sexto) e Era Uma Vez em Tóquio (Ozu, sétimo). Há, ainda, O Poderoso Chefão II em quinto e Jejum de Amor (Hawks) em décimo. Quer dizer, o filme de Welles, que, em 1941, revolucionou a técnica, a narrativa, a linguagem cinematográficas, perdeu para um Tubarão e um Clube da Luta.E Vertigo, se é um das 2 ou 3 obras-primas de Hitchcock, ainda assim não merece figurar nem entre os vinte melhores. E Jejum de Amor, uma boa comédia de Hawks, perde feio para, pelo menos Onde Começa o Inferno e Rio Vermelho, dois dos melhores westerns já realizados. E até para Scarface. os 3 do mesmo diretor. E quanto ao filme vencedor, não é, a meu juízo, o melhor de Scorcese. Embor goste dele, prefiro Taxi Driver( que, aliás, figurou em 14.o) e até o kafkiano Depois de Horas.
Seria bom que tivessem sido informados todos os filmes, para se saber se outras barbaridades foram cometidas nessa discutível(para dizer o mínimo) votação, seja na inclusão de filmes de qualidade duvidosa, seja na omissão de obras-primas que vêm se mantendo íntegras ao longo de décadas. Alguns outros filmes : Chinatown (Polanski, 12.o), Manhattan (Woody Allen, 14.o), A Felicidade Não se Compra (Capra, 15.o), Janela Indiscreta (Hitchcock, 24.o) e Crepúsculo dos Deuses (Wilder, 25.o). Todos esses cinco são filmes importantes; para mim, sobretudo, o de Hitchcock (que prefiro ao Vertigo) e o de Wilder, mas numa votação feita por pessoas com uma maior vivência de cinema e uma indispensável visão crítica, o que não parece ser o caso de, pelo menos, uma parte dos críticos dessa revista, ficariam numa posição bem abaixo
Não sei se foi essa mesma revista que há poucos meses elegeu Spielberg o maior diretor de cinema de todos os tempos, em mais uma votação entre "especialistas" em cinema. São barbaridades desse tipo, e ocorridas num país de grande tradição cinematográfica, que deixam revoltadas pessoas que, mesmo cometendo erros de avaliação crítica, encaram o cinema com a seriedade que grandes artistas o tornaram merecedor. Escolhas, selecções, listas dessa espécie nos levam a uma destas duas reações. Ou arrancar, de indignação , os cabelos (e eu que já os tenho tão escassos, para assim proceder), ou dar aquela sonora e longa gargalhada do personagem de Walter Huston, no final de O Tesouro de Sierra Madre. Que, talvez, tenha ficado fora da lista.

sábado, outubro 22, 2005

UM DIA... OS MESMOS DIAS

Assim que acordou, olhou o relógio. Gesto mecânico, que o faria sorrir, se pudesse sorrir. Tinha tomado a decisão, noite passada. Não.Foi quando chegou ao trabalho, no turno da tarde. O encarregado lhe cobrou explicação por ter faltado pela manhã, ele disse que estivera adoentado. O caso teria morrido aí, o superior alertando-o, cordato, para avisá-lo quando não pudesse comparecer ao expediente matutino. Mas o homem tinha de representar o tiranete para uma platéia o seu tanto numerosa: esbravejou, espezinhou, ameaçou. Ele sem força para revidar. Aniquilado, arrastou-se para a mesa de trabalho. Tarde péssima. A mais comprida de toda a sua vida, os ponteiros do relógio tartarugando pelos números.
O que houve à noite, em casa, foi um restinho de dúvida alfinetando-o. Mas quando ouviu a opinião da mulher, concluiu que não mais devia hesitar. E tu vai viver de vento, Eduardo? Largar um emprego tão bom por uma besteira dessa. Será que tu esquece que tem filhos e mulher pra sustentar? Homem, aprenda a viver.
Aquele incidente fora o impulso que lhe faltava para despencar na fossa. O serviço há muito o deixara de interessar. Embora trabalhasse com certa desenvoltura e uma correção que lhe valiam, vez por outra, um elogio, recebido com indiferença. Chocava-se, acima de tudo, com a disciplina, a submissão ao relógio, controlando a hora de chegar, a hora de sair, a hora de descansar. Quando se atrasava no intervalo entre o fim do primeiro turno e o início do segundo, era o banho só pra molhar o corpo, o almoço engolido, o carinho sonegado aos filhos. Impossível também aceitar os métodos utilizados para se fazer carreira. Para se galgar o menor d menor dos cargos, o que menos contava era a eficiência no serviço: o sujeito tinha de beijar os pés do superiores e até, sendo necessário, apontar algum companheiro em falta. E ele obrigado a conviver com esse tipo de gente, dar bom dia a esses abanadores, receber ordens deles.
E agpra aqiela implicância do encarregado. Um baba-ovo querendo bancar autoridade. Lutava pra não pensar na figurinha, mas os olhos só viam o rosto balofo do homem, e nos ouvidos zuniam as palavras que o encarregado aprendera nos cursos da Fábrica. Tenaz perseguição, de que não podia escapar. Ainda vendando os olhos e arrolhando os ouvidos.
Eduardo, não tã na hora de se levantar, não? Não respondeu. Será que a mulher pensava que recuara da decisão^Que se dobrara à maneira vulgar dela de protestar? De uma vez por todas: a mulher não o comprendia. As vezes que lhe explicou por que não adaptava ao trabalho! Perda de tempo. Ela via a Fábrica como um deus generoso que havia dado tudo ao marido: a casa, o carro, a mesa farta, os filhos calçados e vestidos. Nem por um instante parou para pensar que ele havia dado muito mais do que recebera.
Outra vez o relógio. Mas que mania essa de olhar o relógio, não precisando mais dele! Sete e quinze. Todo dia a essa hora estava saindo do banho. Se penteava, se vestia, comia, corria para o emprego. Trabalhava até às dez, voltava, brincava um pouco com as crianças, se banhava, se vestia, almoçava, fumava, corria para a Fábroca. E a tarde tão comprida Mais de dez anos nisso. E a mulher ainda vinha achar que devia continuar nessa vida. Ela não tinha nada que botar os filhos na história. Tinha sido grossura demais falar aquilo. Precisava ser um desnaturado para deixar os filhos passarem fome. Arranjaria outro emprego, ganhando menos, mas onde não houvesse tanta sujidade. Podia arranjar qualquer coisa. Tivesse que viver mais simples do que vivia, venderia o carro, tomaria o ônibus.
Sete e meia (terceira vez que olhava o relógio). Já devia estar no banho. Depois do café , ia conversar com a mulher. (O trivial.) A cara do encarregado reapareceu, a bocona - atirando ameaça. Da próxima vez que você faltar pela manhã, sem me comunicar, não precisa vir de tarde. Terá falta pelo dia todo. Isso aqui não é cu-de-mãe joana pra todo mundo fazer o que bem entende. Tá com alguma coisa, Eduardo? Silêncio. A mulher se afastou. Os filhos se achegaram, pularam sobre ele, fazendo-lhe brincadeiras. Ele chegou a rir. Então, num repente, saltou da cama, correu para o banheiro. Ela: eu posso mandar passar o café? Ele: mudo,só lhe adiantando gritar. Um grito de mil decibéis. Asseou-se e vestiu-se acelerado. Entrou no carro, faltando dez minutos para começar o expediente. Iria voando, para não chegar atrasado.
Este conto faz parte do meu livro de título homônimo, de 1983. É aqui republicado em forma integral, apenas com mínimas alterações na linguagem.

quarta-feira, outubro 19, 2005

OS MAIORES FILMES DE ANTONIONI E DE LANG



Michelangelo Antonioni

1. A Aventura (1959)
2. Blow-Up/Depois Daquele Beijo (1967)
3, O Grito (1957)
4. O Eclipse (1961)
5. O Passageiro: Profissão Repórter (1975)
6. Il Deserto Rosso/O Dilema de uma Vida (1963)
7, A Noite (1960)


Fritz Lang

1. M, o Vampiro de Dusseldorf (1931)
2. Metropolis (1926)
3. Fúria (1936)
4. O Diabo Feito Mulher (1951)
5. Os Corruptos (1953)
6. Vive-se Só Uma Vez (1937)

sábado, outubro 15, 2005

FEDERICO FELLINI

Este texto foi por mim publicado no blog O Apanhador de Sonhos, de Bené Chaves, no ínicio deste ano. É republicado aqui, não só por não dispor de um assunto novo, mas, principalmente, pelo ensejo de mais um aniversário da morte de Fellini no próximo dia 31.
Em meu primeiro contato com o cinema de Fellini, eu não tinha a menor idéia de quem ele era. Aliás, na época eu ignorava o nome de qualquer diretor. Adolescente, com quatorze para quinze anos, entrava num cinema atraído pelo nome dos atores e das atrizes, pelo título do filme, ou, ainda, pelo gênero (sendo faroeste, então, pouco me importava quem fosse o ator). O que me atraiu em Na Estrada da Vida foi a presença de Anthony Quinn no elenco, ainda que esse ator não fosse um dos meus preferidos; pelo contrário, antipatizava-o por sempre fazer o vilão. Dos outros atores do filme, eu jamais ouvira falar. E, então, caí na estrada... O filme não me agradou, nem desagradou. A impressão que tive dele foi de algo diferente de tudo quanto visto de cinema até aquela data. É muito provável que a uma certa altura tenho querido abandonar a sala, tão acostumado estava aos filmes que via na época, alem de ser privado de um mínimo de visão crítica de cinema. Houve, no entanto, uma cena que me chamou a atenção. Na verdade, foi uma frase dita pelo personagem conhecido por O Louco, numa conversa com Gelsomina. Ao tentar convencer aquela coitada (um dos maiores personagens criados pelo cinema) de que ela não é uma ínutil (e, portanto, o bruto Zampanó precisa dela), ele apanha do chão uma pedrinha e diz que até uma coisinha daquelas tem uma utilidade na vida, só que ele não sabe qual é.
Muitos anos se passaram até que eu voltasse a ter contato com o cinema de Fellini. Já estava morando em Natal, a minha visão de cinema já evoluíra, sobretudo por integrar o Cineclube Tirol. Este exibia uma sessão de arte uma vez por semana, num dos cinemas da cidade, e foi nessas sessões que assisti Oito & Meio, Os Boas Vidas, Noites de Cabíria e Abismo de um Sonho. O último não consegui ir além da metade, mais ou menos. Não, o filme não é ruim, o caso é que a energia pifou durante a projeção e não foi restabelecida pelo resto da manhã. E, assim, passei quase quatro décadas sem conhecer integralmente o primeiro filme solo de Fellini, o que só ocorreu no ano passado. via DVD. E passei a acompanhar, pelo circuito comercial, os filmes que esse grande artista realizou depois de 1965.
Ah, Fellini. Em seu recém-lançado Um Filme por Dia, o crítico Moniz Vianna diz de Buñuel que este não terá seguidores. Digo o mesmo de Fellini. Seu universo temático, com suas fantasias (não raro, delirantes), suas reminiscências infantis, suas confissões, seus tipos bizarros, seu humor que, às vezes, beira o vulgar, o mau gosto, e aquele ritmo peculiar (no que é muito ajudado pela música de Nino Rota), faz dele um cineasta singular. E talvez o seja, sobretudo, por ser o mais autobiográfico dos diretores. Ele próprio reconhece isso, ao declarar numa entrevista: "se um dia fizer um filme sobre um peixe, acabarei falando de mim mesmo".
Qual o seu maior filme? Acho que tem alguns. Oito & Meio, A Doce Vida (embora deste ache que umas duas ou três sequências poderiam ser menos longas), Na Estrada da Vida, E la Nave Va, Amarcord, o último, seguramente, o seu filme mais "delicioso", que, nesse aspecto, está para a sua obra, como Depois do Vendaval está para a de Ford. Dele só não gosto de Casanova, Cidade das Mulheres e A Voz da Lua. Os dois primeiros ainda têm alguns bons momentos, como o ritmo bastante acelerado nos minutos iniciais do segundo e, no primeiro, sobretudo, o final. (Falando em final, Fellini tem alguns antológicos. Há na preferência dos cinéfilos quase um consenso sobre o de A Doce Vida. É de fato notável a imagem da garota de rosto angelical chamando por um nauseado e fatigado Marcello Mastroianni, em que o diretor nos acena com um pouco de esperança, mas ainda prefeiro o final de Oito & Meio: a imaginação de Guido, o diretor, promove a reunião de todos os personagens, de mãos dadas, sobre uma plataforma, enquanto lá embaixo o garoto (Guido-Fellini) forma com três palhaços um lírico e nostálgico quarteto musical. Devem ser também lembrados os de Noites de Cabíria e de Na Estada da Vida.) Mas A Voz da Lua , seu último filme, é sem-graça, sem inspiração, e com momentos de humor em que 0 limite do vulgar é ultrapassado. Ele não merecia encerrar uma bela carreira num nível de qualidade tão iinferior aos seus maiores momentos.

terça-feira, outubro 11, 2005

FILMES DUBLADOS



Quem gosta de cinema, mesmo não tendo interesse pela sua estética, há de concordar comigo que não existe nada mais irritante e aborrecido do que a dublagem de um filme. E a isso vem juntar-se, para os que assistem a um filme como um elemento de realização artística, a indignação pelo dano que a dublagem causa. Porque a voz do ator (principalmente se for um grande ator), com a inflexão, a dicção, o tom para exprimir os mais diversos estados da alma, etc., é parte indissociável do contexto de um filme e, por isso, não pode ser substituída pela voz de um dublador. Mas vamos admitir que um dublador tenha a capacidade, ou o talento, de imitar a voz do ator, dela absorvendo todas as nuanças; pois bem, ainda que ele atinja esse grau de perfeição, lhe faltará o mais importante: a sua participação na criação do filme, a sua interação com o diretor e com os demais intérpretes. Ele não passará da função de um "medium", incorporando apenas a voz do ator.
Não sei se ainda está vigorando uma lei que obriga as emissoras de televisão a exibirem, pelo menos, um filme legendado por dia. A lei visa a proteger os deficientes auditivos. Mas se ela ainda existe, não é respeitada, como, aliás, ocorre neste país, onde as leis, de um modo geral, existem para não ser cumpridas, a não ser quando o interessado é o governo. Tenho quase certeza que só a TV Bandeirantes cumpre essa lei, mas não o faz como ela é determinada, pois exibe um filme legendado em toda a semana , o que ocorre na madrugada de domingo para segunda. A Globo, com a soberba de quem está acima de tudo e de todos, até há poucos anos fazia o mesmo que a Bandeirantes, mas hoje, como as demais, não tem a mínima consideração pelos que não ouvem.
E a coisa poderia está pior. Nos anos 70 do século passado. um desses parlamentares que vão para Brasília só com o intento de causar malefícios à população, para cuidar dos seus interesses e do seu grupinho (e eles, infelizmente, formam a maioria) apresentou um projeto que implantava a dublagem dos filmes exibidos nos cinemas. Houve uma grita na imprensa (me lembro de uma reportagem na Veja insugindo-se contra a pretensão desse político) e no próprio Congresso deve ter havido vozes contrárias, e, para nossa sorte, o projeto foi arquivado. Ainda bem.

sábado, outubro 08, 2005

MARQUES REBELO


Marques Rebelo (1907-1973) escreveu romances, contos, novelas ,crônicas, literatura infantil, um
estudo sobre Manuel Antônio de Almeida, o autor de Mémorias de um Sargento de Milícias, e para o teatro. Foi ainda tradutor (entre outras obras, de A Metamorfose , Kafka). Seu romance A Estrela Sobe foi adaptado para o cinema (Bruno Barreto) e a novela Vejo a Lua no Céu para a televisão. Tinha uma língua tão grande quanto o seu talento, destilando veneno contra muitos de seus pares. Por causa dela criou inúmeras inimizades. Ele mesmo chegou a declarar-se "um colecionador de desafetos". Quando ele morreu, Carlos Drummond de Andrade escreveu uma bela crônica que começava assim: "Era um diabo miudinho, de língua solta e coração escondido". E mais adiante: "Arrasava um livro, um poema, um quadro, um disco, um atleta com uma frase. Matava um escritor - matou quantos - com uma epígrafe. Depois ressuscitava o morto". Talvez esse lado iconoclasta tenha lançado uma sombra sobre o seu talento literário, concorrendo para torná-lo pouco lembrado nos dias de hoje. Embora ele tenha merecido figurar naquela coleção "Perfis do Rio", levada a cabo pela Editora Relume Dumará. O livro sobre ele foi escrito pelo jornalista e escritor Luciano Trigo e lançado em 1994.
Marques Rebelo projetara escrever uma grande obra intitulada O Espelho Partido, dividida em 7 volumes. Concebida para homenagear o seu Rio de Janeiro, que seria o personagem principal, a obra, no entanto, como assinalou Edilberto Coutinho, foi também evoluindo para "a autobiografia, a memória, o cronograma histórico, o cine-jornal e o documentário, e ganhou a forma de um diário". Mas o escritor só conseguir escrever os 3 primeiros volumes, intitulados O Trapicheiro (1959), A Mudança (1963) e A Guerra Está em Nós (1968). Os três cobrem o período de 1936 a 1944.
Muitos dos personagens são inspirados em escritores, críticos literários, pintores e até jornalistas. Quase todos podem ser identificados por quem leu o citado livro de Luciano Trigo. Este afirma que o próprio Marques Rebelo, em carta ao Sr. Paulo Mendes de Almeida (que Trigo não informa de quem se trata), confirmou o fato e deu nome aos bois. Como curiosidade, eis alguns dos retratados, com o nome do personagem em parêntese. Jorge Amado (Antenor Palmeiro), Tristão de Athayde (Martins Procópio), Augusto Frederico Schmidt (Altamirano Azevedo), José Lins do Rego (Júlio Melo), Álvaro Lins (Lucas Barros), Rachel de Queiroz (Débora Feijó), Carlos Lacerda (Julião Tavares) e o editor José Olympio (Vasco Araújo). Manuel Bandeira e Gilberto Freyre não foram nominados, sendo apresentados, respectivamente, por "o poeta" e "o famoso sociólogo", este sempre dizendo coisas óbvias. Já Carlos Drummond de Andrade e Mário de Andrade aparecem com seus próprios nomes e sempre elogiados por um ou outro personagem, como Joaquim Borba (o escritor Cyro dos Anjos). Trigo acrescenta que, embora na carta Marques Rebelo tenha se escusado de informar a fonte de outros personagens, pessoas que viveram na época em que transcorre a ação dos 3 romances conseguiram identicar Guimarães Rosa no "afetado escritor-diplomata Magalhães Braga" e o pintor e capista Santa Rosa no "mulatófilo Mário Mora".
Marques Rebelo era torcedor ardoroso do América. Certa vez declarou que o dia mais feliz de sua vida foi o de 13 de dezembro de 1960. Justamente o dia em que o América conquistou o título de campeão carioca (em cima do Fluminense), depois de um jejum de 25 anos. Marques Rebelo era um pseudônimo. Seu nome de batismo era Edy Dias da Cruz. Nada eufônico para um escritor, conforme disse numa entrevista dada a Clarice Lispector.

quarta-feira, outubro 05, 2005

AS MANGAS



Este pequeno ccnto foi publicado num jornal de um amigo aqui de Natal, há cerca de 15 anos. Depois resolvi inseri-lo num conto longo que fez parte do meu livro Grandes Amizades, de 1995. Sai aqui com mínimas alterações na linguagem.
Sábado, fim de tarde, ele bebia em um bar que descobrira da primeira vez que estivera naquela cidade. Encantara-se com o ambiente , ao ar livre, duas frondosas mangueiras na entrada, a área suficientemente espaçosa para quem (era o seu caso) desejasse isolar-se dos outros clientes. Não frequentara outro bar, durante a sua permanência na cidade, e, ao voltar, após muito tempo, procurou-o e ficou feliz por vê-lo ainda funcionando.
O ambiente (mas sobretudo a hora, quando diminuía bastante o número de frequentadores) estimulava nos solitários a meditação. e ele estava absorvido por pensamentos que se sucediam em uma grande celeridade, como se o próprio cérebro se recusasse a reter cada um deles por mais de uns dois minutos. De repente, foi arrancado de seus pensamentos por um barulho de vozes. E o que lhe despertou a atenção é que o barulho não era igual ao de pessoas envolvidas em uma altercação, tão comum em mesa de bar. O tom das vozes era alegre, de animação, mais identificado com a bulha de crianças quando estão brincando. Percebeu que as vozes procediam do lugar onde se erguiam as mangueiras, e, impressionado, deixou a mesa e caminhou para lá. Ao se aproximar, teve uma enorme surpresa: três marmanjos atiravam pedras nos frutos pendentes de uma das mangueiras, tentando derrubá-los. Três homens de meia-idade brincando feito crianças em um lugar para adultos. Imaginou que eles, talvez, ainda há pouco estivessem a ponto de se digladiar em uma estéril e desgastante discussão sobre os políticos e, de repente, tinham-na abandonado, ao descobrirem aquelas mangas maduras oferecendo-se para serem colhidas.
A cena, insólita, era capaz de atiçar a zombaria, mas, ao mesmo tempo, havia nela um componente de nostalgia da infância que lhe calou fundo. Observando aqueles homens de idades batendo mais ou menos com a sua, que tentavam, talvez inconscientemente, recuperar uma pequena parte do tempo de meninos, ele se viu também menino, galgando muros proibidos para roubar mangas, subindo em árvores, atirando pedras nos frutos. E, então, veio-lhe intensa a vontade de reunir-se aos coroas, pegar uma pedra para acertar as mangas. Depois de derrubá-las, as juntaria em um saco plástico e as levaria para o quarto do hotel. Mas o receio de uma aproximação com os estranhos prevaleceu sobre a vontade e ele, resignado, voltou para a mesa e os pensamentos.

sábado, outubro 01, 2005

OS MAIORES FILMES DE CHAPLIN E DE RENOIR



CHARLES CHAPLIN (apenas os longas)

1. Luzes da Cidade (1931)
2. Em Busca do Ouro (1925)
3. Tempos Modernos (1936)
4. O Grande Ditador (1940)
5. O Circo (1928)
6. O Garoto (1921)
7. Monsieur Verdoux (1947)


JEAN RENOIR

1. A Grande Ilusão (1937)
2. A Regra do Jogo (1939)
3. A Besta Humana (1938)
4. Toni (1934)
5. As Estranhas Coisas de Paris (1956)
6. Boudu Salvo das Águas (1932)

OBSERVAÇÃO - Não conheço Le Carrosse d' Or (1952), que, muito provavelmente, faria parte dessa relação. E também O Rio Sagrado (1950), feito na Índia, que, talvez, fosse incluído.

NOTA - Ontem, 30 de setembro, completaram-se 30 anos da morte de James Dean. A quem interessar, há, no site No Mínimo, um artigo do jornalista e crítico de cinema Sérgio Augusto sobre o assunto.