quarta-feira, novembro 05, 2008

DEPOIS DO VENDAVAL (The Quiet Man/1952)


Se Depois do Vendaval, evidentemente, não é o maior filme de John Ford, mesmo, talvez, entre os não-"westerns", é, sem dúvida, o mais encantador de todos os que realizou. E me arrisco a considerar que foi o que lhe proporcionou a maior satisfação, o que lhe deu mais alegria ao dirigi-lo. Se penso assim é porque esse filme, cuja fonte é o romance homônimo do irlandês Maurice Walsh, que Ford sonhou por muitos anos em transportá-lo para a tela, ensejava ao cineasta um encontro nostálgico e sentimental com a Irlanda dos seus pais; não a Irlanda convulsionada pela luta política de O Delator ("The Informer"/1935) e Horas Amargas ("The Plough and the Stars"/1936), mas a dos costumes arraigados, das belas paisagens, das canções românticas e humorísticas, da humanidade dos seus nativos. Esse o aspecto da terra dos seus ancestrais que Ford queria abordar, e, para que esse contato fosse o mais estreito e genuíno possível, ele foi filmar no próprio local. E o regresso de Sean Thornton (John Wayne) à sua terra, de onde emigrara para a América ainda criança, é como se também fosse o regresso do diretor. (Aliás, como chamaram a atenção os críticos Moniz Vianna e Francisco Luiz de Almeida Salles, o prenome do personagem e do diretor é o mesmo, pois o nome de batismo de Ford é Sean O'Fienne.)
O encanto, a graça, o humor não são obscurecidos mesmo nos momentos de hostilidade entre Sean e o cunhado Will Danaher (Victor McLaglen). Nem na divergência entre Sean e Mary Kate Danaher (Maureen O'Hara), por causa do dote que é negado a ela pelo irmão, ao se casar. Enquanto não receber tudo a que tem direito, ela será uma esposa dedicada apenas à administração da casa e aos cuidados com o marido. Essa obstinação de Mary Kate é um componente da personalidade do herói fordiano - a forte determinação em lutar para alcançar algum objetivo. Por outro lado, a atitude do marido em não dar importância à posição da sua mulher configura outra divergência (talvez fosse melhor dizer um choque), essa de natureza cultural, entre a terra onde ele nasceu e a em que morou durante muitos anos.
Na verdade, só há um momento dramático em todo o filme: quando Sean, derrubado por um soco de Will, na recepção após o casamento, relembra, num rápido "flashback", a morte do adversário na luta de boxe. A diferença entre essa curta cena e as demais é pontuada pelo realce do vermelho. Até na longa briga entre os dois homens, uma das seqüências antológicas do cinema, a violência é quase obscurecida pelo humor que aparece em certos detalhes, como quando o velho Tobin (Francis Ford, irmão de John), já moribundo, de repente, ao ouvir o rumor da briga, salta da cama e deixa a casa para não perder o "espetáculo".
Entre tantos personagens marcantes de Depois do Vendaval, Michaleen Oge Flynn (Barry Fitzgerald em soberba atuação) é o mais atraente. Casamenteiro por profissão, grande apreciador de um trago, a sua presença torna-se o elemento principal na deflagração do humor no filme por suas tiradas engraçadíssimas.
O final concentra praticamente todo o elenco ao ar livre, em seguida à passagem da carroça de Michaleen conduzindo o casal de namorados Will e a viúva Sarah Tillane (Mildred Natwich). Ao aplaudirem o casal, alguns fazem acenos com a mão e uma atriz faz uma curvatura, erguendo de leve o vestido. O gesto deles passa a impressão de que também estejam saudando o espectador, ao término de uma representação teatral. È quando Mary Kate diz algo ao ouvido de Sean, que faz um aceno positivo com a cabeça e solta uma vara que tinha na mão, ela se afasta em direção à casa, seguida pelo marido. (Não é preciso ser muito arguto para se entender o significado da cena.) Logo em seguida aparece o THE END, encerrando um filme, em que a direção, o roteiro, o enredo, o elenco, a fotografia e a música se aliam perfeitamente para deixar o espectador muito próximo do êxtase depois de vê-lo.

quarta-feira, outubro 29, 2008

PERSONAGENS

Quando trabalhei em Fortaleza, de maio/1972 a junho/74, tive como colega José Moura, tratado por Mourinha. Era o contínuo da seção. De uma fealdade que chamava a atenção: corpo mal-ajambrado, olhos abugalhados e o nariz despencando para a boca. Mas uma figura humana muito interessante, pronta para fazer parte de um texto de ficção. Uma de suas facetas era a de mudar o nome de alguns colegas. Não o fazia com todos, e nunca com os superiores. Poucos dias depois em que comecei a trabalhar na seção, ele me achou com cara de Romualdo e assim me chamou durante os dois anos em que ali fiquei. Um colega, Esdras, foi por ele "batizado" de Luís.
Mourinha nem sempre era bem-humorado. Tinha, às vezes, atritos com algum colega, invariavelmente relacionados com o trabalho. Eu fui um deles. Passamos uns dias sem nos falar, mas depois voltamos às boas.
Duas ou três vezes deixou o birô dele e veio tirar dois dedos de prosa comigo. Numa delas, não me lembro a propósito de quê, começou a falar sobre a ex-esposa. Revelou que mantinham um bom relacionamento, se visitando regularmente. Pelo que depreendi da conversa, ainda conservavam, se não amor, um carinho especial um pelo outro. E se era assim, não entendia por que haviam se separado. E perguntei, não podendo conter a curiosidade: "Mourinha, e por que vocês se separaram"? E Mourinha, com um meio-sorriso, respondeu com a maior naturalidade: "Porque não gostava das comidas dela". Pode uma coisa dessas?
Tive outro colega de personalidade também muito interessante, esse em Natal. Nestor guardava, parece que na carteira de cédulas, uma carta antiga, para afugentar algum colega que lhe viesse pedir um empréstimo. Mal o coitado terminava de falar, Nestor tirava a carta e o mandava ler. Naquele papel eram mencionados os motivos pelos quais não emprestava dinheiro. Não sei que motivos eram esses, pois nunca tive acesso àquela carta.
Calvo, de volta de umas férias, apareceu de peruca. Foi uma diversão para todos. E ele contava por que, afinal, resolvera esconder a careca. Mas não usou a peruca por mais de uma semana, talvez nem isso. Um dia chega Nestor sem ela e, do mesmo modo como fizera quando apareceu com a peruca, deu várias justificativas para deixar de usá-la.
Fã dos faroestes italianos, quando estes estavam em voga, quase sempre que assistia a um deles vinha no dia seguinte me contar parte do filme, divertindo-se ao falar das cenas inverossímeis.
Na minha cidade havia um barbeiro chamado Isaías. Como todo barbeiro que se preze, Isaías conversava que nem o homem da cobra. Além de barbeiro, exercia as funções de leiloeiro nas festas religiosas. E se gabava de ser bom nessa modalidade. Uma vez eu e uns amigos estávamos num banco da Praça da Basílica, onde se realizava um leilão. Isaías não tinha sido convidado. Ele chegou perto da gente e começou a fazer críticas ao rival. Ao mesmo tempo, revelava as regras para a pessoa se tornar um bom leiloeiro. Em tudo aquilo havia a ponta de um despeito por ter sido preterido.
Mas eu queria falar especialmente de um fato ocorrido com ele, que o papai não se cansava de contar. Uma feita, uma romeira entrou na barbearia para cortar o cabelo do filho pequeno. O menino devia estar com o cabelo muito crescido e a mãe, talvez, não quisesse que ele fosse com aquele cabelo visitar São Francisco de Canindé, como os romeiros chamam o santo de Assis. Isaías mandou a mulher sentar e colocou o garoto na cadeira. Mal começou o serviço, perguntou à mãe: "Que mal pergunte, vosmecê é de onde"? "De Teresina". "De Teresina"? Como se a mulher tivesse dito que morava na lua, Isaías parou, virou-se para a mulher, com a tesoura na mão, e perguntou: "É verdade que lá tem uma devassidão danada"? E a mulher: "Meu senhor, eu não sei dessas coisas, não. Sou uma mulher casada, que vivo na minha casa". Isaías retomou o corte do cabelo e entrou noutro assunto.
Mourinha, Nestor, Isaías - três personagens à procura de um ficcionista.

quarta-feira, outubro 22, 2008

ELA NÃO GOSTAVA DE CHICO BUARQUE


Chico e Paulinho da Viola em um boteco, no início dos anos
1970.
Foto in http://veja.abril.com.br/

* * * * * * * * * * * * * * *

Onde andará Mariazinha? Me faço a pergunta, como naquele samba de Ataulfo. Embora não tenha sido o meu primeiro amor. Nem foi um namoro de longa duração, mas que me marcou de uma certa maneira - só me agora me dou conta.
Mariazinha. Talvez o que tenha me atraído primeiramente nela foi o nome. Tinha como certo que era Maria e, como todas as Marias, acrescido de um outro nome - Maria das Graças, por exemplo. E nesse caso seria chamada de Graça, como é comum. Foi quando ela me mostrou a carteira de identidade e lá estava Mariazinha. Pensei no seu batismo, um padre desses ranhetas se indispondo com aquele diminutivo da mãe de Jesus, como se esta fosse uma mulher qualquer. Mariazinha me disse que nunca ouviu nada sobre isso em sua casa. E você gosta do seu nome? Disse que sim.
Lembro hoje do nosso namoro. De uma particularidade, sobretudo: nossos papos pendiam invariavelmente para a música. E a música nos punha em campos opostos. Daí as divergências, mas numa boa. Nada de altercações, sequer levantávamos a voz. Ou melhor, eu às vezes começava a alterar a minha, mas logo era desarmado pela docura de Mariazinha, o seu sorriso, a sua serenidade, a simpatia. Punha, é certo, um pouco de ironia ao me replicar, mas sem me deixar ferido. Como aquele qualé. Ou não é do meu tempo, como se não fôssemos quase da mesma idade.
O ponto central de nossas divergências era Chico Buarque, que estava surgindo, como muitos dos seus coetâneos, naquela metade dos anos 1960. Ela não gostava de Chico. Para ser de todo justo, algumas frases das letras de Chico chegava a apreciar. Mas também citava trechos das letras de Caetano, que, para ela, era superior a Chico, até na composição da música. Não só Caetano, mas também Gil, Torquato e toda a turma da Tropicália.
Como (presumo) todo jovem daqueles anos, ela adorava os Beatles. Eu também gostava, mesmo captando apenas algumas palavras do que eles cantavam, pois não dominava o inglês. Ela, de queixo no chão, estou besta por você gostar dos Beatles. E dos Rolling Stones? E, para provocá-la, destes eu nunca ouvi falar. Nunca ouviu falar? Joãozinho, você é mesmo de doze, até de um tal de Ataulfo Alves você vem falar.
Há poucos dias eu tinha lido um artigo de um crítico de cinema em que ele dizia que não existiam filmes velhos e filmes novos, mas sim filmes ruins e filmes bons, então eu transferi esse conceito para a música. E ela, pra cima de moá, Joãozinho?
Porque tinha o hábito de usar o diminutivo (talvez quem sabe? uma influência do próprio nome). Chamava as amigas e os amigos pelo diminutivo, as coisas, os objetos. Você está muito salientezinho, dizia, com o sorriso radioso, quando a minha mão procurava um dos peitos de Mariazinha. E que peitos! Percebia-se que ela não usava sutiã e isso atiçava mais o meu desejo de tocá-los, não só tocá-los, mas cobrir um deles com a mão e ficar acariciando-o.
Mais se atiçava o meu desejo quando me lembrava de um conto, belíssimo conto, que lera fazia um certo tempo. O personagem, aposentado, solitário e entediado na cidade grande, vê, de repente, aflorar-lhe à memória, um fato ocorrido na sua adolescência. Durou uns raros segundos, mas, só agora se dava conta, o marcara para sempre. A visão dos seios de uma adolescente, mal saída da infância. Ele decide empreender uma viagem de volta à sua cidadezinha para reencontrar a mulher que lhe proporcionara aquele momento ímpar de sua vida.
Não conseguia atinar com aquela resistência de Mariazinha, uma moça de idéias avançadas (está claro que as nossas conversas não se limitavam à música) , uma mulher pra frente, como se dizia naquela época. Uma vez, por brincadeira, mas tentando dar um tom de sinceridade na voz, cheguei ao ponto de lhe prometer que se ela me mostrasse os seios, eu deixaria de gostar do Chico. Ela fez foi soltar uma gaitada.
Teve um dia que ela veio se encontrar comigo ainda mais alegre e brincalhona - diria mesmo feliz. Tinha passado no vestibular. Não tenho certeza, mas acho que nesse dia nem falamos no Chico, a vitória que conquistara, com uma excelente colocação, dominou a conversa. É hoje que vou conseguir, disse pra mim mesmo, vendo-a naquela euforia. Num dado momento, após um beijinho, pedi para ela me mostrar um peito. Mas mesmo naquele estado, ela opôs a firme resistência habitual e ainda me mandou tirar o cavalinho da chuva e acrescentou que eu queria me aproveitar da alegria dela. Mas eu insisti e insisti e insisti, até que ela cedeu, tá bem, seu acesinho. Olhou para um lado, olhou para o outro. Precaução desnecessária, estávamos isolados na pracinha. O coração pinotando, por estar a segundos de ver, finalmente, o meu desejo realizado, observei atentamente Mariazinha pousar um dedo no primeiro botão para retirá-lo da casa. A seguir o segundo botão. Parou, e protegendo com uma mão um peito, com a outra abriu o lado da blusa para exibir o outro peito. Pronto, seu danadinho. E eu vi - vi aquela obra de arte se mostrando pra mim, por um segundo, ou dois, mas valeu a pena. Até me conformei por não poder tocá-lo - isso não, não era só pra olhar? E depois você vai querer mais e mais. E fechou depressa a blusa. Mariazinha malvada.
Depois de terminarmos o namoro, ainda a vi algumas vezes, ela sempre me sorrindo. O tempo foi passando e a via com menos freqüência. Acabei deixando a cidade, pra assumir um emprego num estado do Sul. Voltei há uns dez anos e não vi Mariazinha. Posso até tê-la encontrado e não a reconhecer, nem ela a mim. E como gostaria, penso agora, de revê-la. Mesmo que ela esteja gorda (já naquela época era um pouco gordinha), mesmo que aqueles peitos tenham perdido todo o encanto. Queria rever Mariazinha. Até pra perguntar se ela continua a não gostar do Chico. E ouvir o que ela iria dizer.

quarta-feira, outubro 15, 2008

O SERVIÇO DE ALTO-FALANTE DE CANINDÉ


Ficava a poucos metros da Praça da Basílica, na Rua do Fogo. Esse não era o nome oficial da rua, onde, aliás, nasci, mas todo mundo a chamava assim. E não me recordo do seu verdadeiro nome. Também ninguém, exceto o locutor, usava a palavra alto-falante - para os outros era a "radiadora", ou a amplificadora. Funcionava toda noite, durante uma hora e meia - talvez duas horas. As músicas eram quase sempre as mesmas, raramente aparecia uma música nova. Possuo algumas daquelas músicas ("Brasa", de Lupiscínio Rodrigues, na voz de Orlando Silva, "Adivinhe, Coração", de Custódio Mesquita e Evaldo Rui, "Lancha Nova" e "Tem Gato na Tuba", de Braginha, outras, de que não me lembro agora), e, ao ouvir qualquer uma delas, é inevitável o meu retorno à infância.
Algumas das músicas eram muito repetidas por fazerem parte das chamadas mensagens musicais. Ah, as mensagens musicais! "Alguém oferece a alguém"... Um rapaz endereçava a sua declaração de amor a uma moça que passeava na praça com uma amiga, ou mais de uma. Para ela se sentir a destinatária da mensagem, o apaixonado remetente mencionava-lhe a cor e o penteado do cabelo, a cor do vestido, a cor da pele, dos olhos. (Nunca, que me lembre, ousava dizer o nome dela.) E a amiga dizia: "olha, fulana, é pra você". E procuravam descobrir a identidade do rapaz. A destinatária, se sabia de quem se tratava, reagia de acordo com o sentimento que tinha por ele. Havia também as músicas com mensagens de felicitações a um aniversariante.
Cheguei algumas vezes a entrar naquele pequeno estúdio, e um irmão foi por alguns dias locutor, fazendo parceria com outro. Eu examinava os disco, ainda em 78 rotações, pousados nas prateleiras, ou na mesa de som para serem tocados. Os discos eram recobertos por uma capa de papel ordinário, que, no centro, tinha uma abertura, onde se lia o nome da música, do cantor e dos autores e da gravadora. (Nunca me esqueci do nome de uma delas, que, parece, ter tido uma vida efêmera: "Todamérica".) Havia um locutor de cara amarrada, óculos de lentes grossas, que uma vez me advertiu que manuseasse os discos com muito cuidado, porque eram facilmente quebráveis. E, sem eu perguntar, me disse que eles eram feitos de cera de carnaúba. Abri um sorriso de incredulidade.
Uma noite um rapaz usou o microfone para um assunto de seu interesse. Ele se envolvera em um caso, do qual hoje não faço idéia. Mas me lembro que deu o que falar na cidade. Era um rapaz , na verdade, já casado, de classe média. Ao iniciar a sua defesa, dizendo que estava utilizando aquele "veículo" (referindo-se ao serviço de alto-falante), eu e uns amigos reunidos na praça caímos na gargalhada, à menção daquela palavra. É que achávamos que o rapaz havia cometido um erro - para nós, veículo era apenas um meio de transporte.
Umas poucas vezes a "radiadora" foi ocupada pelo Raimundo Marreiro. Dono de uma casa comercial, era uma pessoa comunicativa, divertida e inteligente. Pai do Tonico, de quem já falei certa vez aqui, ao fazer uma postagem sobre uma fotografia para a qual eu, ele e mais 3 meninos posamos antes do início de um jogo de futebol. Era um programa cheio de variedades, apresentado numa sexta-feira. Se a memória não estiver me pregando uma peça daquelas, Marreiro narrava causos ocorridos com matutos, recitava poemas populares, alguns, talvez, de sua autoria, e até cantava (reafirmo, se a memória não estiver brincando comigo) acompanhando-se por um violão. Havia os que gostavam e os que não gostavam. Eu estava entre os primeiros.
E toda noite, ao término da audição, o locutor anunciava que na noite seguinte estaria de volta, "se assim o Criador nos permitir".

terça-feira, outubro 07, 2008

HOMENAGEANDO MANUEL BANDEIRA


Foto do sítio www.overmundo.com.br/
Neste ano dos centenários de morte e de nascimento de Machado de Assis e Guimarães Rosa, completam-se ainda, no próximo dia 13, os 40 anos do falecimento de Manuel Bandeira (1886-1968) . Pernambuco de Recife, Bandeira, além de poeta (um dos maiores da língua portuguesa), foi também cronista, crítico de arte e literatura e tradutor. Como uma homenagem à data, este espaço é hoje ocupado por um texto dele. Não um poema, mas uma crônica, uma saborosa crônica em que ele exercita o humor, uma das facetas do seu temperamento, como atestam os que o conheceram. Ei-la.
* * * * * * * * * * * * * * * *
FRASES
Dos vendedores ambulantes que freqüentavam a Rua da União, dois me interessavam particularmente: a preta das bananas, com o seu vistoso xale de pano da Costa, e o homem dos sapatos. Este chegava com o seu grande baú de folha-de-flandres, abria-o na saleta de entrada e ficava esperando pela freguesia, que eram as senhoras de casa e da vizinhança. Eu gostava de olhar aquela confusão de borzeguins, chinelas e sapatos rasos. Mas, um dia o sujeito, que era robusto e falava grosso, me interpelou: Já vai ao colégio? Estuda Geografia? Qual é a Capital do Espírito Santo?
Embatuquei, e o sapateiro tripudiou: - Ignora?
O que eu esperava, o que eu ouvia dizer em tais ocasiões era - "Não sabe?" Aquele "ignora", que eu jamais ouvira, soou-me duro. Senti-me insultado, afastei-me do baú, nunca mais me aproximei do homem. E até hoje implico com esse inocente verbo "ignorar", sobretudo no singular do presente do indicativo.
Outro dia foi meu tio Antonico que me surpreendeu, dizendo ao amigo Fiúza:
- Quando você ia colher os cajus, eu já voltava com as castanhas!
Surpresa maior, porém, foi o que disse à minha avó uma sua amiga, ouvindo-lhe queixas de achaques que não cediam aos remédios.
- Minha Dona França, deixe a natureza obrar!
Essas foram frases ouvidas na infância e então me soaram insólitas e inexplicáveis. Adulto, ouvi outras, sem nenhum mistério, mas igualmente surpreendentes. Assim, a de uma dessas pretinhas de Copacabana, cabelizadas e maquiladas, que tratava emprego com a senhora:
- A que horas a senhora janta?
- Às oito horas.
- Não pode ser às sete?
- Quem marca o horário das refeições em minha casa sou eu, não a cozinheira.
A pretinha então, muito gentil:
- Claro, não leve a mal que eu pergunte: não vê que eu sou mulher da vida e tenho de noite o meu trabalho lá fora?
* * * * * * * * * * * *
- Crônica extraída do livro "Colóquio Unilateralmente Sentimental" (Distribuidora Record/1968).


domingo, setembro 28, 2008

PAUL NEWMAN



Paul Leonard Newman, que faleceu na última sexta-feira, aos 83 anos (nascido em 26.1.1925), estreou no cinema em 1954, em O Cálice Sagrado, de Victor Saville, um daqueles produtos históricos e bíblicos que Hollywood fabricava em série nos anos 1950. Essa bobageira que vi, creio, em 1956 (mas na época, com meus quatorze anos, em não tinha consciência disso) marcou profundamente o ator, que relutou muito em atuar nela. E muitos anos depois, quando ele soube que O Cálice Sagrado ia ser exibido na televisão, fez circular nos principais jornais dos Estados Unidos um pedido às pessoas para que não fossem assistir ao filme.
Mas Newman esteve em filmes que talvez tivessem (ou chegassem próximo) o mesmo nível do filme da sua estréia, como Inferno na Torre, por exemplo. Aliás, não foi em grande quantidade os filmes importantes dele e nenhum atingiu o status de obra-prima. Seus melhores, na minha visão, foram: Marcado pela Sarjeta (no qual só trabalhou devido à morte de James Dean, o ator escolhido para o papel de Rocky Graziano), Um de Nós Morrerá, Gata em Teto de Zico Quente, Desafio à Corrupção, Doce Pássaro da Juventude, Butch Cassidy and Sundance Kid, Golpe de Mestre, O Indomado, O Veredicto, Harper, o Caçador de Aventuras, Hombre, A Cor do Dinheiro (em que retomou o personagem já bem maduro de Desafio à Corrupção), A Roda da Fortuna. Devo ter esquecido um ou outro e posso acrescentar Estrada da Perdição, sua derradeira aparição no cinema, em 2002. Mas aquele que deveria ser o ponto mais alto da sua filmografia, ele não pôde fazer - A Doce Vida, de Fellini. Era o preferido para interpretar o jornalista, porém a questão salarial tornou inviável a sua contratação, e o papel foi parar nas mãos de Marcelo Mastroianni. Será que ele não chegou também a se arrepender de não ter trabalhado com Fellini, como se arrependeu em relação ao seu primeiro filme?
Tinha muito talento. No entanto, durante os primeiros anos de carreira cultivou alguns maneirismos (até o cacoete de de coçar muito a cabeça, bem como a forma de andar, que o crítico Sérgio Augusto chamou certa vez de pendular), adquiridos, certamente, na sua passagem pelo Actor's Studio, que comprometiam às vezes a sua interpretação. Com o passar dos anos foi se livrando desses vícios e cresceu ainda mais como ator.
Experimentou a direção, já em 1961, com On the Harmfulness of Tobacco, um média metragem adaptado de uma peça de Tchecov, segundo informa Rubens Ewald Filho no seu Dicionário de Cineastas. Foram 7 filmes, pelo menos cinco com Joanne Woodward, sua companheira de cinquenta anos, um dos quais para a tevê. Deles só conheço Rachel, Rachel, de que gostei moderadamente quando o vi nos anos 1960, e Uma Lição para não Esquecer. Neste ele começou só como ator, ao lado de Henry Fonda, mas em meio às filmagens assumiu a direção, substituindo Richard A. Colla, e assim fica difícil saber até que ponto ele imprimiu a sua marca no filme. Não posso, portanto, avaliar Newman por trás da câmera. Mas há quem ache que ele foi tão bom diretor quanto ator. A conferir, se possível.












terça-feira, setembro 23, 2008

SOCIEDADE DOS POETAS MORTOS (Dead Poets Society/1989)



Esta crítica foi publicada em junho de 1990 no jornal Tribuna do Norte, de Natal. É apresentada aqui com pouquíssimas alterações em relação ao texto original.

* * * * * * * * * * * * * * *

É possível fazer-se duas leituras do roteiro de Sociedade dos Poetas Mortos, recentemente exibido pelo Nordeste. A primeira remete ao princípio da fruição da vida pelas pessoas, baseada na interpretação figurada da expressão latina Carpe Diem. Esse princípio é enunciado - e, mais do que isso, incentivado - aos alunos de uma conservadora escola norte-americana, no final dos anos 50, pelo jovem professor de Literatura.
Não é a primeira vez, no cinema, que vemos a chegada de um estranho a uma comunidade operar uma profunda transformação na maneira de viver das pessoas, e acodem-me imediatamente à memória os exemplos ilustres de Shane e Teorema. Infelizmente, essa brusca alteração no modus vivendi dos nativos não é feita sem a ausência de traumas, que as marcarão para sempre. Com seu anticonvencional método pedagógico, o professor John Keating (Robin Williams) escorraça a sensaboria das aulas, tornando, por exemplo, a temida abordagem da poesia de Shakespeare uma sessão de brincadeiras, entre estas a imitação que ele faz das vozes de Marlon Brando e John Wayne.
Ao mesmo tempo, alguns dos alunos vêem despertar em si o desejo de realizar seus sonhos. Seja o de seguir a carreira de ator, no caso de Neil (Robert Sean Leonard), de problemática realização, porque ele precisará vencer a forte oposição do pai, seja o de de um seu colega, relativamente mais fácil, já que se trata de conquistar o coração de uma jovem comprometida. Em ambos os casos, o que se destaca é a disposição que eles sentem de lutar por algo por algo que consideram importante em suas vidas, embora, no caso de Neil, ele saia derrotado.
A segunda leitura é a demonstração dos obstáculos que se erguem a todo homem que se apresenta com idéias novas no seio de uma sociedade conservadora. O professor John Keating chega a uma secular escola, da qual fora aluno (e, já nessa condição, tendo manifestado um espírito rebelde e inovador, a ele devendo-se a criação de uma "Sociedade dos Poetas Mortos", que seria reativada pelos seus discípulos), e, em pouco tempo, a sua inusitada maneira de ensinar entra em colisão com os colegas e a direção do colégio. Não é pra menos. Para os padrões rígidos e tradicionais da instituição, é impossível admitir que um dos seus mestres ordene aos (também) escandalizados alunos que destruam as páginas de um livro, por conterem uma interpretação que ele considera falsa da arte poética. Que esse mesmo professor os faça subirem a sua mesa, como uma forma de adquirirem uma visão diferente das coisas. Ou ainda que incentive os rapazes a recitar seus próprios versos fora da sala de aula, utilizando os movimentos dos corpos, para, com isso, irem perdendo a inibição.
Previsivelmente, no instante em que o comportamento dos alunos começa a ir de encontro à disciplina militarizada da escola, o professor é responsabilizado pela situação. E quando Neil comete suicídio, o pai, o verdadeiro responsável, procura transferir a culpa para Keating, e este, delatado por um um acovardado aluno, é despedido.
Essa história de lutas, sonhos e frustrações, em que também se toca na inevitabilidade da morte, mas como forma de conferir um valor inestimável ao ato de viver, é dirigida com freqüente sensibilidade, e quase sempre com brilho, por Peter Weir, esse talentoso cineasta de origem australiana. Jà tendo visto outros filmes dele, julgo encontrar nos mesmos uma identidade, ou sejja, a simpatia que ele manifesta por personagens que se tornam outsiders do seu próprio meio. Esse John Keating é irmão do policial de A Testemunha, que é forçado a se refugiar numa comunidade de adeptos da seita Amish, para não ser morto pelo seu corrupto superior, e do herói de A Costa do Mosquito.
Mas o roteiro de Tom Schulman, premiado pelo Oscar, é, a meu ver, passível de duas ressalvas, Uma é a de sonegar informações sobre a vida particular de Keating. Em conseqüência, ficamos sem saber por que está separado de uma mulher (numa cena em que ele aparece escrevendo-lhe uma carta é lançada apenas uma vaga pista, insuficiente para esclarecer a questão), nem o grau de envolvimento com ela. A outra é no suicídio de Neil, e aí a montagem tem o seu quinhão de responsabilidade. A seqüência deveria ter terminado no momento em que o pai ouve o som do disparo da arma. Se já havíamos visto Neil pegar o revólver, tornou-se dispensável, após o disparo, mostrar o pai percorrendo a casa, até localizar o corpo do filho no chão. A montagem é um dos componentes importantes de um filme (no cinema soviético de Eisenstein e companhia ela era supervalorizada), até para suprimir cenas supérfluas, as quais, acima de tudo, podem passar a idéia de que a inteligência do espectador está sendo subestimada.





quarta-feira, setembro 17, 2008

A VOZ DO VIZINHO

O soldado dormia esparramado na cadeira.Roncava alto, o corpo remexia-se como sob ação de descarga elétrica, o homem que vinha denunciar ficou observando-o divertido (e o homem tinha muita pressa em denunciar). Quando se achou satisfeito, foi acordar o soldado, primeiro chamando por ele, a seguir gritando e batendo na mesa. O soldado não acordava, o homem que vinha denunciar fez um canudo de papel e foi cocegar a orelha do dorminhoco. Este deu um pulo, assustado, a mão logo puxando o revólver da cartucheira, mas o homem gritou é de paz e o soldado recuou em tempo. Endireitou-se na cadeira, passou os os dedos nos olhos sonolentos e perguntou o que o homem queria.
- Desejava falar com o senhor Delegado.
- O senhor Delegado está recolhido à cela.
- É possível ser recebido por ele?
- É muito importante? Porque o senhor Delegado deu ordem para não ser incomodado com assunto que não seja de suma importânci.a
- O assunto que venho tratar não é apenas de muita importância, mas igualmente da maior urgência.
O homem que vinha denunciar disse isso com tanta convicção que o soldado saltou lépido da cadeira em busca do telefone. (A rapidez do gesto espantou o homem, que não o imaginava capaz numa pessoa que há dois minutos dormia daquele jeito.) Do outro lado demoraram a atender. O soldado ainda não estava inteiramente desperto, voltou a dormir ali mesmo em pé. Em dado momento acordou, outra vez assustado, na certa por um berro da pessoa do outro lado. Devia ser o Delegado, o soldado perfilou-se, falou manso, todo servil. Quando desligou, pediu ao homem para o acompanhar.
Penetraram logo num corredor curto, depois pegaram um outro, esse longo e largo. Tão silencioso àquela hora, o homem que vinha denunciar teve a impressão que todas as celas estavam desocupadas. Andaram um bom pedaço até chegar à cela do Delegado, que era a última do lado direito. Um homem fardado esperava atrás das grades. O soldado perfilou-se, bateu continência e apresentou o acompanhante. O Delegado lhe ordenou que abrisse a cela. Fechou-a, bateu continência, saiu correndo, por certo para não deixar fugir o sonão interrompido.
O Delegado foi para junto do birô com o homem. Não parecia ter saído do sono, como o soldado. Ou tivera o cuidado de escorraçar o sono com um jato dágua na cara.
De relance o homem que vinha denunciar descobriu uma cama no fundo da cela e uma porta que julgou dar para um banheiro. O Delegado havia juntado as mãos, como se rezasse, e assim contrito perguntou ao homem a razão da visita.
- Senhor Delegado, peço-lhe que me perdoe por incomodá-lo a esta hora, mas é que tenho uma denúncia... uma denúncia muito grava para fazer.
- Um momento, por favor. Queira declarar o nome e o endereço.
- É estritamente necessário, senhor Delegado? Porque desejava permanecer incógnito.
- Apenas uma formalidade. Na verdade, o senhor não terá qualquer responsabilidade assim que pôr os pés fora desta Casa.
Tranquilizado, o homem declarou o nome e o endereço que o Delegado anotou num livro que retirou da gaveta.
- A quem o senhor deseja denunciar?
- Ao meu vizinho.
- O nome do seu vizinho.
- O senhor vai me perdoar outra vez, mas não sei como se chama o meu vizinho. Até agora não consegui saber. Aliás, isso faz parte do procedimento esquisito do meu vizinho.
- No entretanto, torna-se imperioso que o senhor dê uma indicação mais precisa a respeito do seu vizinho. Digamos assim: é o seu vizinho do lado direito ou do lado esquerdo?
- Do lado direito, senhor Delegado.
O Delegado anotou no livro.
Muito bem. Que espécie de denúncia o senhor deseja fazer contra o seu vizinho do lado direito?
- O meu vizinho não fala, senhor Delegado. Isto é, eu nunca ouvi a voz dele em quase um ano que somos vizinhos.
- O senhor nunca ouviu a voz do seu vizinho do lado direito? Nunca o ouviu assim ralhar com o filho, ou mesmo pedir algo dentro de casa? Um par de meias para calçar, por exemplo?
- Nada, senhor Delegado. Para o senhor ter uma idéia de que o meu vizinho não fala, basta que lhe diga que nas poucas vezes que nos encontramos, nem um bom-dia me deu.
- Não se tratará de um mudo?
Não, senhor Delegado, mudo é que ele não é. Eu mesmo cheguei a pensar nessa possibilidade até o dia em que soube por um outro vizinho que ele é um professor. O senhor acha que ele poderia ser mudo sendo um professor?
O Delegado não respondeu, baixou a vista para o livro. Escreveu, escreveu, escreveu. Quando terminou, ficou pensando, de mãos juntas, parecia não perceber a presença do denunciante, que o tempo todo não despregou os olhos do rosto do Delegado. Afinal falou.
- Realmente é bem estranho o procedimento do seu vizinho do lado direito. O senhor acaba de fazer uma denúncia muito grave. Algo aqui me diz que se trata de um indivíduo sumamente perigoso. Amanhã mesmo darei ordem para que todos os passos desse indivíduo sejam fiscalizados. E quanto ao senhor, cabe-me agradecer por haver prestado um serviço de grande valia. Muito obrigado, senhor.
Ora, senhor Delegado, não há de que agradecer. A nossa obrigação de cidadão é ajudar as autoridades no combate ao mal. Só desejaria que o senhor confirmasse a promessa de que o meu nome permanecerá afastado do processo de sindicância sobre o meu vizinho.
- Não tenha o menor receio, senhor. Nada lhe acontecerá, eu dou-lhe a minha palavra de honra.
E trancou a boca. Certamente dava a entender ao denunciante que nada mais o retinha ali. O denunciante percebeu-o, falou que já estava na hora de ir-se. Um instante só, o Delegado pediu a ele, e discou o telefone.
- O meu soldado está a todo o sono - disse mais para si, nem havia impaciência em sua voz. O denunciante é que não podia desperdiçar a oportunidade de dar chocalho à língua.
- Notei que o soldado é um bocado dorminhoco.
- Todos os meus homens dormem bem. Eu os faço ingerir sempre uma quantidade razoável de soporíferos. Tenho por princípio o seguinte: o homem dormido vale por dez.
- Um princípio muito válido, não tenha a menor dúvida, senhor Delegado.
O soldado chegou, bateu continência, abriu a cela, o denunciante saiu, fechou a cela, bateu continência. E o Delegado, o Soldado e o Denunciante foram dormir com muita paz.
* * * * * * * * * * * * * *
- Conto extraído do meu livro A Noite Mágica (Ática/1979)

quarta-feira, setembro 10, 2008

OS 70 ANOS DE VIDAS SECAS


Reprodução da capa da primeira edição de Vidas Secas,
* * * * * * * * * * * * * *
Em 1938 vinha à luz Vidas Secas. Era o quarto e acabou por se tornar o último romance escrito por Graciliano Ramos. Vidas Secas se distingue dos outros romances do mestre alagoano em mais de um aspecto. Em primeiro lugar, a narrativa é feita na terceira pessoa e não mais na primeira pessoa, como ocorre com Caetés, São Bernardo e Angústia. Não parece apenas um detalhe sem importância, uma opção de gosto pessoal. No seu ensaio "Valores e Misérias das Vidas Secas", inserido na 30a. edição do livro (Livraria Martins Editora/1972), o crítico Álvaro Lins se faz esta pergunta: "Não será isto um sinal de que antes {o romancista} deixava os personagens entregues à própria sorte, enquanto agora se identifica com os desgraçados nordestinos de Vidas Secas"? Identificação essa que, na visão do crítico, torna Vidas Secas o mais humano e comovente dos livros de Graciliano, "o que contém maior sentimento da terra nordestina, daquela parte que é aspera, dura e cruel, sem deixar de ser amada pelos que a ela estão ligados teluricamente". E a atitude tomada por Graciliano em relação a Fabiano, Sinha Vitória e os dois filhos pequenos é acrescida de um elemento, se não solitário, pelo menos, incomum, na literatura, ou seja, a humanização da cachorrinha Baleia, que é tratada como um membro daquela miserável família. Além de dedicar um capítulo inteiro à morte dela (um dos melhores da obra), em algumas ocasiões Graciliano a faz agir como se da espécie humana fosse.
Muito usado nos livros anteriores, principalmente São Bernardo e Caetés, o diálogo inexiste em Vidas Secas. O que há são interjeições, palavras e frases isoladas, mesmo quando um personagem não está sozinho. E assim mesmo elas não ocorrem com muita freqüência.
Mas certamente o que mais diferencia Vidas Secas dos livros precedentes é a forma da sua construção. Os capítulos possuem uma autonomia, que faz com que cada um deles possa ser lido como um conto, conforme observou Álvaro Lins no citado ensaio. E aí surge a questão se se trata rigorosamente de um romance. No ensaio "Ficção e Confissão", que integra a 18a. edição de São Bernardo (mesma editora, 1972), Antonio Candido afirma que Vidas Secas "pertence a um gênero intermediário entre romance e livro de contos". E revela que alguns dos capítulos (que ele chega a chamar de episódios e de quadros) eram originariamente contos e como tal tinham sido publicados em revistas. Já o nosso maior cronista, Rubem Braga, define Vidas Secas de uma maneira que me parece a mais apropriada, ao chamá-lo de "romance desmontável".
Essa construção que pode ser um dos defeitos que tanto Álvaro Lins, quanto Antonio Candido, apontam no livro, é um defeito apenas na forma, no sentido de que alguns capítulos passam a impressão de ser "histórias incompletas" (Antonio Candido) e não no conteúdo. É que existe uma interligação entre os capítulos (ou contos, ou ainda quadros), em que é acompanhada a vivência daqueles desvalidos da sorte (no mínimo, há a presença de ao menos Fabiano, como em 3 ou 4), o que acaba por dar uma unidade ao livro. Com sua maestria, Graciliano soube armá-los de maneira a conferir-lhes uma harmonia (observe-se, por exemplo, que Vidas Secas começa e termina com a fuga dos personagens provocada pela seca).
Quanto ao estilo, Lins, se elege Angústia o melhor Graciliano, considera que, nesse aspecto, Vidas Secas supera os demais. "Em nenhum outro dos seus livros encontramos tanta beleza e tanta harmonia na construção verbal", diz ele, para acrescentar a descoberta de um elemento estranho na linguagem do autor: "E somente aqui este autor, de espírito tão pouco poético, consegue atingir às vezes um estado de poesia".
Vinte e cinco anos depois de lançado, Vidas Secas chegou ao cinema. Pelas mãos de Nelson Pereira dos Santos, que soube traduzir em imagens o espírito e a essência do livro. Se Vidas Secas não for o melhor livro de Graciliano (mas existem os que acham que sim), é o melhor filme de Nelson. E forma com Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha, realizado na mesma época, os dois maiores filmes do Cinema Novo.

quarta-feira, setembro 03, 2008

ALGUNS DOS MAIORES ANTI-HERÓIS DO CINEMA


(Sem ordem preferencial)
1 - William Holden, em Crepúsculo dos Deuses (Billy Wilder)
2 - Humphrey Bogart, em O Tesouro de Sierra Madre (John Huston)
3 - Lamberto Maggiorani, em Ladrões de Bicicleta (Vittorio De Sica)
4 - James Mason, em O Condenado (Carol Reed)
5 - Jean-Paul Belmondo, em O Acossado (Jean-Luc Godard)
6 - Montgomery Clift, em Um Lugar ao Sol (George Stevens)
7 - Steve Cochran, em O Grito (Michelangelo Antonioni)
8 - Maurice Ronet, em Trinta Anos Esta Noite (Louis Malle)
9 - Marlon Brando, em O Último Tango em Paris (Bernardo Bertolucci)
10 - Peter Lorre, em M, O Vampiro de Dusseldorf (Fritz Lang)
11 - Gregory Peck, em O Matador (Kenry King)
12 - Dustin Hoffman, em Perdidos na Noite (John Schlesinger)
* * * * * * * * * * * *
Na foto acima, James Mason em uma cena de O Condenado

terça-feira, agosto 26, 2008

UM EPISÓDIO DA INFÂNCIA DE CONY



Todas as manhãs, bem cedo, o menino Carlos Heitor Cony saía de casa para ajudar a missa das seis e meia. Pegava um bonde e dele saltava em frente ao botequim Ponto de Cem Réis, que ainda existia, e com o nome preservado, quando o escritor e jornalista escreveu a crônica em que relata um marcante episódio ocorrido na sua infância. De lá ia caminhando até a igreja, que ficava perto. No lado oposto havia outro botequim. Era o local preferido de alguns rapazes que varavam a noite bebendo e cantando acompanhados por violões - "ovelhas negras que infelicitavam o rebanho, segundo o vigário local que me esperava para começar a missa".

O menino passava em frente, olhava rapidamente a cena diária e seguia. Até que numa manhã, por razão ignorada, um dos rapazes, deixou o violão, pegou uma tampinha de de cerveja Cascatinha (ao que parece muito consumida no Rio naqueles anos trinta do século passado) e a arremessou "com força" na direção do garoto, atingindo de raspão a orelha, que sofreu um arranhão, do qual saía sangue Não satisfeito com a irrazoável agressão, acresceu-a gritando estas palavras: "Lá vai o filho do padre ajudar a missa". Cony correu para a igreja e, na sacristia, mostrou ao padre a orelha ferida.
É nessa parte da crônica que Cony usa da sua peculiar ironia, que pode atingir o sarcasmo. O sacerdote o chamou de mártir. Fala da "compunsão" que pairou sobre a missa daquele dia, em que "as beatas pisavam de leve o chão de velhos ladrilhos que o vigário desejava reformar". Naquele momento ele se sentiu um santo precoce, com um lugar assegurado no Céu. Já o seu agressor iria se queimar nas chamas do Inferno. E ali mesmo que ficou sabendo da identidade do rapaz. Compunha uns "sambinhas" e estudava medicina. Noel Rosa ele se chamava.
Após a missa, o menino voltou ao local, já vazio. E se pôs a procurar a tampinha, pois, sem saber a razão, "tinha a suspeita de que devia guardá-la", Cony, porém, não revela se a encontrou.
A crônica faz parte do livro Os Anos Mais Antigos do Passado (Record/1998) e tem por título "O Mártir de Vila Isabel". E eu confesso que, ao começar a lê-la, tive a certeza de que o "mártir" era uma referência a um dos cinco ou seis maiores compositores da nossa música popular.


quarta-feira, agosto 20, 2008

NUNCA TE VI... SEMPRE TE AMEI (84 Charing Cross Road/1987)


Relevemos a intenção do apelo comercial percebível no título em português. E assistamos ao filme desarmados desse aspecto que objetiva o interesse do espectador brasileiro. Isso feito, o espectador irá se deparar com um filme delicado, terno e agradável, enfim um filme que já no seu lançamento se diferençava da esmagadora maioria dos realizados pelo cinema americano. Imagine hoje, quando já se passaram mais de vinte anos.
O título original refere-se ao endereço, em Londres, de uma livraria especializada em obras antigas e raras, à qual a leitora de roteiros para a televisão Helene Hanff (a excelente Anne Bancroft, que, infelizmente, já não está entre nós), residente em Nova York, se dirige para adquirir alguns dos livros que não consegue encontrar em sua cidade. É uma correspondência que atravessa duas décadas, trocada entre ela e o funcionário mais graduado da livraria, Frank Doel (Anthony Hopkins, outro grande intérprete), e esse longo contato epistolar faz aflorar uma amizade entre os dois que vai se convertendo num interesse amoroso. Este, no entanto, é insinuado, jamais declarado por nenhum dos correspondentes. Da parte de Frank, quando mostra algo diferente na expressão contemplativa do rosto em um ou outro momento. Já Helene, em uma ou duas ocasiões, é vista fitando o retrato emoldurado de um homem com um uniforme da marinha, que se supõe seja o seu marido, mas não há nenhuma fala no filme que informe a sua condição de viúva ou divorciada. Aliás, no livro não há nenhuma menção ao seu estado civil, igualmente no livro "A Duquesa de Bloomsbury", que é um relato da estada de Helene Hanff na Inglaterra, os dois formando um só volume na edição brasileira, o que nos leva a crer que Helene era solteira. A presença da foto do homem, assim, seria uma situação armada pelo roteiro para também insinuar de alguma forma o interesse dela por Frank.
Mas o que o filme destaca mesmo é o amor pelo livro, através de Helene, uma voraz leitora. Com ela, sentimos o que um livro representa para o amante da leitura, o seu prazer diante de um exemplar, até tátil, na maneira de tê-lo entre as mãos, "acariciando" a capa e as folhas, como se se tratasse de uma jóia (o que não deixa de sê-lo, principalmente se raro). E sem cometer uma impropriedade, pode-se dizer que esse amor ao livro se estende também até a Frank, mesmo sendo ele um profissional.
Essa Helene Hanff existiu de fato e a correspondência mantida com Frank Doel foi por ela reunida em um livro de sucesso, que tem o mesmo título do filme e é dedicado a ele. Anne Bancroft foi uma das inúmeras pessoas que se comoveram com o livro e pediu a Mel Brooks, seu então marido, dono de uma produtora, que o transpusesse para o cinema.
"Nunca te Vi... Sempre te Amei" se inicia com Helene a bordo de um avião, com destino a Londres. Nas cenas seguintes a vemos num táxi, rumando para a livraria, que já fechara as portas. (Aliás, durante a realização do filme, uma loja de discos ocupava o local da livraria e, por isso, esta foi recriada em estúdio.) A câmera capta a expressão de prazer e de alegria de Helene ao se deparar com alguns locais que vira através de filmes, um desses o maravilhoso "Desencanto", de David Lean. E termina na livraria, na qual ela entra, e pôe-se a observar os lugares vazios outrora povoados de livros, as mesas onde se sentaram o "seu" Frank, falecido no ano em que a correspondência entre eles atingia os vinte anos, e os demais funcionários. E após inspecionar o local, que desejava conhecer em atividade, Helene diz com um meio-sorriso que, na verdade, expressa um misto de tristeza, saudade, frustração: "Aqui estou, Frankie. Finalmente".
Já estou no final e vejo que ainda não disse o nome do diretor: David Jones, um inglês, também ligado ao teatro, e esse é o seu segundo filme. Nem o do roteirista, Hugh Whitemore, que fez um roteiro muito bom, que Jones soube valorizar com talento e sensibilidade.

quarta-feira, agosto 13, 2008

UM CONTO DE BARTOLOMEU CORREIA DE MELO (RN)

DA JANELA



Hei de morrer,

cantando teus louvores,

qual rouxinol

que expira ao por-do-sol

Bendito de nossa Senhora

* * * * * * * * * *


VEM passando. Debaixo do foguetório, carro-de-som puxa rosário:

"Ave Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco..."

Rua afora e janelas adentro, choramingo da bandinha e latomia dos fiéis:

"Santa Maria mãe de Deus rogai por nós pecadores..."


No quarto-do-meio daquele sobrado, Salete e Dorinha...

- Chega, mulher! Mazinho já dobrou a esquina, com a cruz-do-divino.

- Peraí, estou indo; não acho meu trancelim. Quede a loção?

- Vem todo espigado, o semostrador; mesmo terninho curto, todo ano.

- Enjoei desse fresco besta; mais parece uma porta-estandarte!...

- Tanto que te arrumas, só pra sair na janela? Avia, lerdeza!

- Vê se me ajudas nesse colchete. Será que engordei?

- Vixe, menina, estás mascarada! Deixa tirar...

- Mudei o pó-de-arroz. Esse agora rende mais.

"Santa Maria mãe de Deus rogai por nós pecadores..."

- Escutas a voz de Zabé Capela no meio-do-mundo?

- Respostando a oração arriba da multidão.

- Mas não é? Eita, magrela gasgita! Fhum!

- Indo pro céu, vai deixar Jesus mouquinho!

"Santa Maria mãe de Deus rogai por nós pecadores..."

- Ah, os anjinhos, mulher, que lindeza!

- Lembras do nosso tempo de anjo? Eram asas mais bem feitas.

- A mais bonita é Tininha, não?

- Pois que bem puxou a bênção das tias dela.

- Aquela maiorzinha até que passou da idade de anjo.

- Virando capetinha... Repara os peitinhos já brotando.

"Santa Maria mãe de Deus rogai por nós pecadores..."

- Eita! João da Loja vem melado; tombando fora da fila.

- Bêbado indecente, finda tangido da igreja, feito cachorro!

-Triste devoto de Nossa Senhora das Garrafas! Fhum!

- Será por chifre-de-noiva, faz-que-tempo, levado?...

- Rhum! Não sinto remorsos! Bem que foi merecido!

"Santa Maria de Deus rogai por nós pecadores..."

- Quem é aquela de fita azul, atrás de Ceição Batata?

- Maria Rita de Neco Souza. Por que indaga?

- Espia bem pra barriga... Aposto que buliram com ela.

- Coitada, quanta vergonha! E isso é Filha-de-Maria!...

"Santa Maria mãe de Deus rogai por nós pecadores..."

- Dona Coló, mesmo caduca, não perde função nem obrigação.

- E largam a velha sozinha, variando no meio do povaréu...

- Diz-que a briga pela herança já começou, ela inda viva!

- Com tamanha carolice, capaz de deixar tudim pra Santa.

- Ah, magino a cara chocha dos parasitas!...

- Fhum! Será bom demais pra gargalhar.

"Santa Maria mãe de Deus rogai por nós pecadores..."

- Quem disse que Paulim Meia-Garrafa agüenta carregar andor?

- Naquele tamanhico, só atrapalha os outros!

- Espia; chega vai esguiado, na pontinha dos pés!

- Finda derrubando a Santa, que Deus me perdoe!

- Cadê o sacristão, que não ajeita isso?

- Lá na torre, tocando no sino e nos meninos...

"Santa Maria mãe de Deus rogai por nós pecadores..."

- Ai, Saletinha, me arrupio todinha, quando avisto essa pessoa!

- Onde, onde? Ah, já avistei, na banda-de-música.

- Tocando bombardão... Que fôlego, que bochechas!

- Parece que melhor tocava os taróis de quem conheço...

- Ah, nem me fales... Se não me olhar, hoje não durmo!

- Sossega o facho mulher, faz trinta anos!

- Quando enviuvar, casa comigo; Mãe Jupira prometeu.

"Santa Maria mãe de Deus rogai por nós pecadores..."

- Vigia ali, a presepada que vem vindo!

- Tibes! Seu Agenor de novo amor!... Uma criança!

- Bonitinha, a forasteira. Mais parece bisnete desse ridículo.

- Ah, cabrita entojada! Ventinha pra riba, procurando catinga.

- Ele todo ancho, mostrando a quenguinha.

- Ora, que amostre! Que outro uso daria pra dita-cuja?...

- Nem a poder de catuaba! Mata o velho! Fhum!

"Santa Maria mãe de Deus rogai por nós pecadores..."

- E as irmãs Vasconcelos sempre estreando roupas novas...

- Não as entendo... Como se arrumam?

- A decadência guarda mistérios, comem nobreza e educação.

- Falam de encontros marcados nas altas horas...

- Com tais feiúras, não acredito! Haja língua ruim!

- He, he! Aumento, mas não invento.

"Santa maria mãe de Deus rogai por nós pecadores..."

- Olha, Zazá mais o trouxa dela. Não tira o olho dos rapagões.

- Diz-que o de agora é Biuzim de Creuza.

- Mesmo? Aquele frangote botador d'água? Não brinques!

- Bem reparando, ficou troncudo, bom de abraçar.

- Mulher, te comporta!

"Santa Maria mãe de Deus rogai por nós pecadores..."

- Vigia só, o infeliz do Gavião! Deus nos livre!

- Solto de novo? Ah, desgraçado!

- Capaz de bater a carteira do padre!...

- Hi, olhou pra gente, disfarça!

- Diz-que,além de ladrão, é tarado.
- Oxente! Larga de léria!
- Foi pego brechando Janilza no banho.
- Até que nem tão tão malencarado como pintam...
"Santa Maria mãe de Deus rogai por nós pecadores..."
- Cada dia mais magrinho, Padre Afonso...
- Falam naquela doença, tadinho.
- Doença-do-mundo?
- Não, maldosa, doença-do-peito!
- Vôtes, isso pega?
"Santa Maria mãe de Deus rogai por nós pecadores..."
Breque da banda, bem floreado. Daí, esbarra o andor perante o casarão. Rachões na calçada, paredes descascando, mas janelas adornadas por toalhas de labirinto. Entre papocos, aplausos e pétalas de rosas, brada o carro-de-som:
"Esta estação simboliza o quinto punhal cravado no coração de Maria. Rogamos a Deus pelos dessa casa, a família do saudoso Dr. Peixoto."
A banda tascou o hino da Padroeira.
"Viva Nossa Senhora das Dores!"
"Vivaaa!"
Da janela-do-meio, dignas como a Santa, elas sorriam e agradeciam.

-

quarta-feira, agosto 06, 2008

A METAMORFOSE ANUAL DE SEU OLAVO

Todos em São Januário já conheciam aquele ruído e, ao ouvi-lo, identificavam o autor: é o Seu Olavo. E alguém da casa ia receber a correspondência. Seu Olavo era o carteiro. Não se anunciava pela voz, como Ariston, o seu substituto. Correio, gritava Ariston. Seu Olavo adotava o método de bater com a palma de uma mão sobre o volume de cartas empilhadas na palma da outra mão, e tão forte era o som produzido que se podia ouvir pela casa toda. Punha tanta habilidade em seu método que o ruído era escutado mesmo que Seu Olavo trouxesse na mão uma única mensagem. O som, nesse caso, percutia de forma cava.
Essa maneira de se anunciar, sem a voz, condizia com o temperamento de Seu Olavo, um homem caladão, sisudo, que não apreciava uma boa conversa. Alto, seco de carnes, um bigode grosso, bem tratado, olhos que mal fitavam as pessoas, como não ousasse encará-las. Seria de esperar que usasse óculos, e os seus eram de lentes muito grossas, o que realçava mais ainda o ar sério.
Seu Olavo e a mulher formavam um casal que timbrava pelo contraste de temperamentos. Vendo-os, podia-se acreditar naquela máxima de que os opostos se atraem, pois até no físico eram diferentes. Dona Zizinha era baixa e gorda e apreciava uma conversa, tanto quanto o marido evitava-a. Tinha uma língua maior do que o corpo, com mais peçonha que uma cascavel, e, como se fosse pouco o veneno que destilava, gostava de colocar apelido nas pessoas. Imagino como seria o convívio entre aqueles dois. Dona Zizinha falando sem descanso, Seu Olavo só escutando. E é de se supor que suportasse numa boa a língua de camelô da esposa, porque só saía de casa para o trabalho, a missa aos domingos, ou para fazer alguma compra. Sem um único amigo, Seu Olavo não era visto num bar ou nas esquinas, ou na praça, em um animado papo. Jamais.
Imagino como seria difícil para alguém de passagem por São Januário, ao ouvir um nativo falar a respeito de Seu Olavo, crer que ocorresse uma extraordinária transformação nos hábitos e na conduta daquele homem quando chegava o carnaval. Eu mesmo quando atingi a idade em que o homem descobre que a natureza humana é pródiga em mistérios impenetráveis, sentia-me perplexo diante do espetáculo oferecido por Seu Olavo no período momesco. Durante aqueles quatro dias o que víamos era um homem do qual não restava qualquer vestígio daquele a que nos acostumáramos a ver nos demais dias do ano.
O homem que vivia de boca fechada durante quase o ano inteiro, abria-a no carnaval para cantar as marchinhas e os sambas; o abstêmio dos outros dias, incapaz de pôr os pés num bar, no carnaval bebia da garrafa que trazia no boso; o homem sempre vestido com roupas sóbrias, no carnaval usava uma fantasia, diferente a cada ano. E a cada ano, à medida que se aproximava a chegada do carnaval, crescia a expectativa dos januarenses em relação à fantasia que Seu Olavo iria usar. Era o segredo mais bem guardado de todo o planeta. Nem o mais scherlockiano dos homens de São Januário seria capaz de descobri-lo. Calado e discreto como era, Seu Olavo não o revelaria nem mesmo à esposa, mesmo que ela não tivesse a língua solta. É quase certo que ele a mandava confeccionar na Capital. Em São Januário não era, todo mundo saberia.
É certo que mesmo naqueles quatro dias, ainda que desvelando a alma de folião, Seu Olavo conservava o segregacionismo social. (Este o único traço de sua personalidade que permanecia imutável.) Nada de se misturar aos outros foliões, como integrante de um bloco, ou comparecendo aos bailes do clube 4 de Outubro. Também no carnaval, Seu Olavo era o solitário dos outros dias. Fazia questão de manter-se separado dos outros foliões. E certamente para inibir algum intruso de querer acompanhá-lo, Seu Olavo todo ano aparecia trazendo numa mão um pedaço de pau, que numa ponta tinha pregada uma tabuleta com a inscrição "Bloco do Eu Sozinho".
Falei, falei e não disse ainda onde Seu Olavo brincava o carnaval. Porque havia um local, o mesmo em todos os anos. Era o Posto Azul, de propriedade do Horácio Flores. Originariamente um posto de gasolina, acrescido de uma mercearia, com o tempo as duas bombas foram retiradas, mas a mercearia ficou, bem como o nome de Posto Azul. A mercearia passou a vender também bebidas, e na área cimentada, antes reservada às bombas, foram fincados três bancos de madeira, em que se sentavam fregueses, ou não, para conversar. Nesse espaço, entre os bancos, que circundava a mercearia, Seu Olavo fazia o seu carnaval.
Chegava ao Posto Azul pela manhã, depois das nove horas, e saía no começo da noite. Tortuoso o caminho de volta para casa, com Seu Olavo moído de cansaço, a cabeça rodando pela bebida. Mal se sustendo em pé, ele se arrastava apoiando-se nas paredes das residências, até chegar à sua. Por sorte a casa ficava perto do Posto Azul. Mal entrava em casa, caía na cama, só acordando no dia seguinte. E assim ia até a terça-feira. Mas na quarta-feira lá estava ele percorrendo as residências e estabelecimentos comerciais, entregando correspondência. Voltava a ser o caladão, o sisudo, o abastêmio, o recluso do resto do ano.
Morreu num daqueles carnavais. Em São Januário há quem assegure que foi a espécie de morte que pediu a Deus. Não que Seu Olavo tenha feito essa confidência - ele lá seria capaz disso. Mas por simples especulação. E tudo porque ele gostava muito de cantar um samba em que o autor revelava o desejo de morrer no carnaval. Seu Olavo nunca deixou de cantar essa música, durante os anos em que se exibiu no Posto Azul. Mas se tinha esse desejo, levou-o para o túmulo.
E suposições - isso é só o que nos resta, pobres de nós, que jamais conseguiremos decifrar o enigma daquela esfinge.

terça-feira, julho 29, 2008

25 ANOS SEM BUÑUEL

Luis Buñuel como ator numa célebre cena de "Um Cão Andaluz" (1928).

Nascido com o século vinte, o espanhol Luis Buñuel foi um cineasta dos mais importantes. E o mais singular, segundo a opinião do crítico Moniz Vianna, formulada na década de 1960, para quem Buñuel não iria deixar herdeiros (eu incluiria Fellini). Adesista de primeira hora do Surrealismo, Buñuel, na verdade, se manteve fiel ao movimento até o fim da vida. Claro que o Surrealismo, e não podia ser de outra forma, aparece bem mais diluído em meio aos temas que ele aborda a partir de uma certa parte de sua carreira, mas não deixa de ser visível, por exemplo, num filme como O Fantasma da Liberdade, o penúltimo de sua obra. Numa entrevista aos críticos franceses André Bazin e Jacques-Donioel Valcroze, concedida nos anos 50 do século passado, Buñuel, ao responder à observação do primeiro de que ainda conservava vínculos com o Surrealismo, diz que é verdade e aproveita a oportunidade para reconhecer a sua dívida com ele. E por falar em Bazin, este inclui Buñuel na lista dos diretores que fazem "o cinema da crueldade", ao lado de Dreyer, Kurosawa, Hitchcock, Stroheim e Preston Sturges.

Examinando-se os filmes de Buñuel sob o prisma da narrativa e da linguagem, observa-se, se não um desprezo, pelo menos um desinteresse pelo cuidado, o apuro da forma. Ou seja, interessa-lhe é a comunicação da mensagem ao espectador, a intensidade, o impacto que ela possa ter sobre este. Mas, às vezes, ele sonega a comunicação ao espectador. Como se quisesse bulir com o espectador, levando-o a dar tratos à bola sobre o significado de um plano, até de uma cena. Outras vezes, ele nem revela o detalhe de uma cena, como acontece, por exemplo, em A Bela da Tarde, quando se fica sem conhecer o conteúdo de uma caixinha que o cliente oriental mostra às moças da casa de encontros amorosos frequentada por Catherine Deneuve.

É o antípoda de Visconti, que, mesmo quando mostra uma cena "forte", também de impacto, jamais abdica do seu estilo requintado, do apuro visual-plástico, da elegância formal. Não há parentesco com o despojamento de Bresson, nem com o de Rosselinni; não, é o toque de Buñuel, como existe o toque de Welles, o de Fellini, o de Hitchcock, o de Ford, enfim, dos grandes cineastas. Ele disse, certa vez, destestar o que chamou de "angulos complicados". E também não gostava do uso da música no cinema, conforme afirmou na citada entrevista.

Voltando ao tema da crueldade na obra de Buñuel. Esse enfoque dado ao seu cinema o desagradava muito e, aparentemente, ele desconhecia a opinião de Bazin. Pelo menos, não faz referência ao crítico e ensaísta francês na autobiografia "Meu Último Suspiro" (Nova Fronteira/1982) . Nesse livro, indispensável para se conhecer o cineasta e, principalmente, o homem, Buñuel comenta a tristeza que sentiu ao ler este slogan escrito sobre o cartaz de um de seus filmes, exposto num cinema de Paris: " O metteur-en-scène mais cruel do mundo".

E o pior é que essa "crueldade" era associada a sua pessoa. Um pouco mais adiante de quando menciona esse fato, ele conta a impressão causada em Vittorio De Sica por Viridiana. De Sica assistiu ao filme na Cidade do México, ao lado de Jeanne, esposa de Buñuel. Saiu do cinema "horrorizado", "sufocado" e depressa tomou um táxi, junto com Jeanne, para ir a um bar. No trajeto, perguntou a ela se o marido era um monstro dentro de casa e se chegava a bater nela. Resposta de Jeanne: "Quando é preciso matar uma barata, ele me chama".

O homem era tão digno de interesse quanto o cineasta. Tinha as melhores idéias quando estava solitário num bar, degustando um bom vinho. Adorava usar disfarces que o deixavam irreconhecível. Ele conta a peça que pregou so set de filmagens de Viva Maria, de Louis Malle. Entrou ali usando uma peruca, passou um tempão pra lá e pra cá, olhando a câmera, fitando os atores, e todo mundo se perguntava quem era aquele estranho velhinho, que parecia ser alguém enviado pelo produtor. Nem Jeanne Moreau, que trabalhara com ele há pouco tempo, o reconheceu. Muito menos o próprio filho, Jean Louis, que trabalhava como assistente de Malle.

Esse era Don Luis, assim tratado, que faleceu em 29 de julho de 1983, há exatos 25 anos.


quarta-feira, julho 23, 2008

KAFKA






Este texto foi publicado em junho de 1993 em um jornal de Natal, onde eu escrevia semanalmente. Resolvi divulgá-lo aqui, por ter visto o filme recentemente na tevê e conservado a mesma impressão sobre ele quando o vi há 15 anos. Ei-lo.


* * * * * * * * * * * *


Há de se sentir logrado o leitor de Frank Kafka que alugar a fita, acreditando que irá ver a cinebiografia do autor de A Metamorfose. É verdade que este é personagem da história, sim, mas desvinculado do seu universo de escritor, bem como da sua condição de homem envolvido em problemas íntimos e familiares, com os quais, basicamente, alimentou a sua obra. É certo também que, ao longo da narrativa, esse leitor irá encontrar uma ou outra informação sobre Kafka. Como na cena em que alguém pergunta se ele está desenvolvendo algum projeto literário e Kafka responde, lacônico, que está escrevendo sobre um homem que um dia acorda transformado num inseto. Mas não fosse por essas esparsas referências a Kafka, ele nem precisava ser personagem da história, bastando que o roteirista criasse um outro de sua própria imaginação. É é de supor que dotasse esse personagem fictício da credibilidade improvável em um homem que, pelo temperamento tímido, e ainda mais tendo os pulmões arruinados pela tuberculose, jamais poderia meter-se numa aventura arriscada que exigiria a compleição quase de um atleta.

O artifício de se valer de um escritor real como personagem não é novidade no cinema. Só na década de 80 podem-se citar dois exemplos: Hammett, de Wim Wenders, onde Dashiel Hammett se mete numa trama policial em muitos pontos semelhante às que ele punha no papel; e A Ùltima Dança de Salomé, de Ken Russell, com Oscar Wilde aparecendo como espectador de sua peça Salomé, encenada num bordel. E se em ambos o resultado foi, no mínimo, satisfatório, o foi sobretudo por Hammett e Wilde se apresentarem de maneira verossímil.

Por sua vez, o espectador que viu Sexo, Mentiras e Videotape ficará desapontado com este segundo filme de Steven Soderbergh. Ele nem se sai bem no propósito de realizar algo diferente do que seria uma simples biografia (e é de lamentar a chance que jogou fora, com um material rico como a vida de Kafka) , nem cria nada em termos de narrativa. Ao invés de acender as próprias luzes, Soderbergh prefere tomá-las emprestadas do Expressionismo alemão, lançando mão de seus recursos estilísticos (câmera inclinada, sombras humanas, close de rostos exóticos ou grotescos). Ainda que possa se tratar de uma homenagem, como quer um crítico, o diretor deveria ter dado um pouco de si mesmo, como faz Brian Di Palma, que não se limita a copiar Hitchcock. E no fato de ele mesclar o preto-e-branco e o colorido, Soderbergh não só não foi original, como fez uma coisa para a qual não vejo explicação.

Mas, afinal, depois de tudo o que foi dito, sobra algo de positivo em Kafka ? Sim. Um ou outro momento inspirado, a fotografia, apesar do seu débito com o Expressionismo, e sobretudo o elenco, repleto de sotaques de várias nacionalidades. Jeremy Irons faz o que pode para parecer com o Kafka que conhecemos de informações, Alec Guiness exibe a classe habitual num pequeno papel, Ian Holm idem, como o sinistro Dr. Murnau (uma homenagem ao cineasta?). Mas a melhor atuação é de Joel Grey (o inesquecível mestre de cerimônias de Cabaret) , vivendo uma espécie de fiscal de funcionários de uma empresa de seguros, onde trabalha Kafka.

terça-feira, julho 15, 2008

PODEM ALGUNS NOMES TER UMA CARGA NEGATIVA?

Minha caçula está grávida do segundo filho. Depois de descobrir o sexo do feto, ela e o marido iniciaram o difícil processo de escolher um nome. Todo casal passa por esse problema. Até surgir um nome que agrade aos dois passam-se muitos dias, até meses. No passado, quando o sexo do filho só era conhecido quando este nascia, a coisa era mais complicada, já que tinha de se escolher um nome masculino e outro feminino. Um dos nomes discutidos foi o de Diego, mas a minha filha logo o descartou ao se dar conta de ser o prenome de Maradona, um usuário de drogas, que, por mais de uma vez, esteve perto da morte. Talvez se ela gostasse de futebol e admirasse o gênio do argentino no trato com a bola, pudesse ter relevado o vício dele.
E aí me voltou a pergunta que me faço já faz muito tempo: alguns nomes podem conter uma carga negativa, que seja nociva à pessoa que com ele foi batizada? Não tenho muitos exemplos (na verdade, só tenho um) para seguir me fazendo essa pergunta. Trata-se do nome Edmundo.
Na minha Canindé conheci três Edmundos (não me lembro se havia outros mais) que me parece atingidos por uma marca do nome que receberam. Há pouco tempo publiquei um conto neste blogue, integrante de um antigo livro meu, em que falava do Seu Edmundo, um dentista. Um homem respeitado, estimado, boa aparência, que, a partir de um determinado momento, começou a beber sem moderação, terminando por se tornar um alcoólatra. Abandonou a profissão e foi abandonado pela esposa, que não pôde agüentar a vida que ele levava. Transformou-se em um desmazelado, motivo de chacota, até morrer, de repente, com pouco mais de 50 anos.
E havia o Edmundo, que devia ter uns vinte anos, um pouco mais, quando eu era um pré-adolescente. Era um prato feito para as brincadeiras (algumas pesadas) dos outros, por ter uma boca muito grande. Além disso, esse Edmundo, que, aparentemente, não ligava para as chacotas de que era vítima, tinha a mania de querer falar "difícil", fornecendo, assim, mais munição para os gozadores. Mas o pior é que, a exemplo do seu homônimo, acabou por tornar-se um alcoólatra. Já morava em outra cidade, onde arranjara um emprego. Um homem bom, afável, incapaz de matar uma barata, mas que, quando bêbado, ficava furioso. Se não batia na esposa, quebrava objetos da casa. Também morreu relativamente novo, de ataque cardíaco, tal como o dentista.
Já o terceiro Edmundo não tinha quase a ver com os outros dois. Ou, talvez, tivesse alguma "afinidade" com o segundo, pois era um tanto tolo, que falava muita besteira, e, ainda por cima, não tinha a afabilidade do Edmundo do defeito bucal.
Tenho pra mim que passei a pensar na influência negativa do nome Edmundo por causa do jogador que surgiu no Vasco e onde joga atualmente, após atuar em outros times. Foi um grande jogador (escrevo no tempo passado porque ele está em final de carreira, não rendendo, talvez, metade do que apresentou até há poucos anos), que alternou o seu desempenho nos gramados com graves problemas motivados por seu temperamento. Chegou a sair na página policial dos jornais por conta de um acidente automobilístico ocorrido depois de uma farra, o qual causou a morte de uma pessoa, ou mais de uma. Nunca foi punido por esse delito, a não ser ter ficado preso por alguns dias. É possível que o processo contra ele já tenha prescrito.
É claro que houve e há outros Edmundos que levaram e levam uma vida sem grandes percalços - se saíram bem na vida. E os que citei aqui teriam passado pelas mesmas atribulações, a sua vida teria sido conduzida da mesma forma se tivessem outro nome. O peso não seria do nome. E os adeptos do Espiritismo poderão argumentar com o tal do carma. Mas que continuarei pensando da mesma maneira, 0u, dizendo melhor, me fazendo aquela pergunta, isso continuarei. Pelos quatro exemplos que tenho.

quarta-feira, julho 09, 2008

AMOR À FLOR DA PELE (2000)







Um filme triste este do chinês Kar-Wai Wong. Triste e amargurado, porque os personagens centrais, Chow (Tony Leung) e Su Linzhen (Maggie Cheung), que é sempre chamada por Mrs. Chan, sobrenome do marido, não conseguem transformar em amor a atração que sentem um pelo outro. A não-consumação desse amor ocorre por causa da mulher, mas a razão não é explicada, apenas ela chega a dizer uma vez "não devemos fazer como eles", que são o marido dela e a esposa dele, que têm um caso. Assim, não vão uma única vez para a cama no seu curto relacionamento, não se fazem carinhos, ainda que estejam quase sempre juntos, até em um quarto de hotel. É como se fossem dois amigos (embora, segundo Borges, a amizade é uma das formas que o amor assume), solitários pela constante ausência dos outros dois parceiros, dois carentes em busca de um amor, já que fracassou o legitimado pelo casamento. Em resumo, não é um filme de amor, mas da impossibilidade de um amor, e, nessa particularidade, "Amor à Flor da Pele" faz lembrar o universo temático de Antonioni, dentro, contudo, de um outro contexto.

O diretor enfatiza bem essa impossibilidade ao reunir os dois algumas vezes à frente de uma grade, cujas barras se assemelham à de uma prisão. E como se fosse um contraponto à falta de entrega total, avassaladora a esse amor, a trama é pontuada em algumas ocasiões pela voz de Nat King Cole interpretando boleros.

Um detalhe a ser destacado é que os dois adúlteros não são vistos pelo espectador. Ouve-se em raras ocasiões a voz deles, ou com Chow, ou com Chan, mas a câmera os "esconde", só mostrando o rosto ou o corpo destes. (Na verdade, há um plano em que a mulher de Chow é vista chorando, depois que o amante lhe diz que vai encerrar o caso, mas de uma forma em que não se distingue com nitidez o rosto dela.) Não interessa ao diretor apresentá-los ao espectador, pois, ainda que os dois sejam os desencandeadores da aproximação e, conseqüentemente, do sofrimento de Chow e Chan, estes, sim, são os personagens que lhe importam, os seus sentimentos, a sua dor.

Wong prova com este filme porque é um dos cineastas prestigiados pela crítica. Sabe produzir imagens de grande beleza, sabe revelar o drama daquele casal unido (e ao mesmo tempo desunido) pelo amor em planos que dispensam as palavras (uma das cenas mais belas e expressivas é a da lágrima caindo do olho de Chan quando ela está sozinha em um quarto, enquanto Chow está em outro quarto) e tem o pulso forte, mas sensível, na condução dessa história triste, como também no desempenho dos atores centrais.
E que linda mulher essa Maggie Cheung!



quarta-feira, julho 02, 2008

BICICLETA



Foto tirada de www.fotosearch.com.br

Via os amigos pedalando as bicicletas, nos rostos a expressão de felicidade. E ainda sem poder discerni-la, a inveja instilava-se em seu coraçãozinho. A raiva, sim. A raiva de se ver privado daquele brinquedo que fazia parte também dos adultos. Ah, como desejava montar numa bicicleta e andar com ela pelas ruas, devagarinho, às vezes, como para fruir a conta-gotas o prazer de sabê-la sua, não precisando recorrer à de um amigo, que a emprestava por pouquinho tempo e sempre o advertindo cuidado, não vá arranhar a minha bicicleta; e em outras vezes, fazendo-a correr, apostando corrida com alguém, pra ver quem chegava antes a um determinado ponto.

Não tinha coragem para pedir ao pai. Sempre recomendando à esposa para economizar na administração dos encargos domésticos, os negócios não iam bem, a seca, outros motivos de queixa que ele ouvia e não entendia.

Sim, havia os dois padrinhos. Talvez com eles fosse menos difícil o pedido. Um era rico, dono de fazenda, de gado, tinha até carro, com motorista. Só que morava longe, aparecia raramente, mas quando vinha à cidade era certo almoçar em sua casa. Difícil era falar com ele, os dois compadres sempre juntos, acompanhados das esposas. Além disso, os raros e pequenos presentes que ganhara dele confirmavam os comentários ouvidos em casa que o padrinho era assim, ó (fechava bem a mão).

O outro padrinho, por coincidência, era também fazendeiro, mas um pequeno fazendeiro. Não tinha carro, ia de cavalo à cidade, e, não sabia a razão, nunca almoçava em sua casa, visitava o compadre na casa comercial. Estava por lá numa dessas visitas, a mando de sua mãe para pegar dinheiro para uma compra. Tomou a bênção ao padrinho, que lhe fez um afago e sacou do bolso uma pequena importância, pra você comprar de bombom. (E não é que ele seguiu ao pé da letra a recomendação?)

Não, daquelas duas tocas não sairia coelho algum.

Um dia em que estava no seu quarto ouviu o pai gritar por ele. Ao chegar, quase correndo, à presença do pai, encontrou-o com o rosto mais vermelho do que o natural, tão irado estava. Segurava numa mão o boletim escolar. A voz alterava o tom à medida que lhe passava uma descompostura, a mão chegava a tremer. Ele ali calado, cabisbaixo, já com medo de apanhar. Nem sabe quanto tempo durou a cena até a mãe chegar e pedir calma ao marido, os vizinhos já deviam estar de ouvidos colados naquela gritaria raivosa. O pai foi se acalmando, de repente calou-se e sentou na cadeira de balanço. Ele aproveitou para sair, mas o pai o chamou de novo, a voz ainda irada, mas baixa. E então lhe disse: "Escute bem o que vou lhe dizer. Se você passar de ano, vou lhe dar uma bicicleta; agora, se você não passar, vai levar uma surra que nunca vai esquecer. Ouviu bem"?

Reconheceu, já sozinho, que errara ao neglicenciar os estudos, como um ato de rebeldia por não ter a bicicleta de que se julgava merecedor. Agira sem avaliar a forma dessa rebeldia, que só teria como efeito a ira do pai podendo chegar ao limite. Fosse pelos percalços nos negócios, fosse por temperamento, ou as duas coisas, o pai perdia fácil o controle e isso repercutia no trato com a esposa e os filhos.

Mas espera aí, o pai não lhe prometera uma bicicleta, se ele passasse de ano? Estava mal em todas as matérias, poucos meses restavam para o final do ano letivo. Mas iria se empenhar - reduziria as brincadeiras, renunciando a algumas, queimaria as pestanas, para não ser reprovado. E surra é uma coisa muito dolorosa. Mais na alma, certas vezes, do que no corpo.