
quarta-feira, novembro 05, 2008
DEPOIS DO VENDAVAL (The Quiet Man/1952)

quarta-feira, outubro 29, 2008
PERSONAGENS
quarta-feira, outubro 22, 2008
ELA NÃO GOSTAVA DE CHICO BUARQUE

Chico e Paulinho da Viola em um boteco, no início dos anos
1970.
Foto in http://veja.abril.com.br/
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Onde andará Mariazinha? Me faço a pergunta, como naquele samba de Ataulfo. Embora não tenha sido o meu primeiro amor. Nem foi um namoro de longa duração, mas que me marcou de uma certa maneira - só me agora me dou conta.
Mariazinha. Talvez o que tenha me atraído primeiramente nela foi o nome. Tinha como certo que era Maria e, como todas as Marias, acrescido de um outro nome - Maria das Graças, por exemplo. E nesse caso seria chamada de Graça, como é comum. Foi quando ela me mostrou a carteira de identidade e lá estava Mariazinha. Pensei no seu batismo, um padre desses ranhetas se indispondo com aquele diminutivo da mãe de Jesus, como se esta fosse uma mulher qualquer. Mariazinha me disse que nunca ouviu nada sobre isso em sua casa. E você gosta do seu nome? Disse que sim.
Lembro hoje do nosso namoro. De uma particularidade, sobretudo: nossos papos pendiam invariavelmente para a música. E a música nos punha em campos opostos. Daí as divergências, mas numa boa. Nada de altercações, sequer levantávamos a voz. Ou melhor, eu às vezes começava a alterar a minha, mas logo era desarmado pela docura de Mariazinha, o seu sorriso, a sua serenidade, a simpatia. Punha, é certo, um pouco de ironia ao me replicar, mas sem me deixar ferido. Como aquele qualé. Ou não é do meu tempo, como se não fôssemos quase da mesma idade.
O ponto central de nossas divergências era Chico Buarque, que estava surgindo, como muitos dos seus coetâneos, naquela metade dos anos 1960. Ela não gostava de Chico. Para ser de todo justo, algumas frases das letras de Chico chegava a apreciar. Mas também citava trechos das letras de Caetano, que, para ela, era superior a Chico, até na composição da música. Não só Caetano, mas também Gil, Torquato e toda a turma da Tropicália.
Como (presumo) todo jovem daqueles anos, ela adorava os Beatles. Eu também gostava, mesmo captando apenas algumas palavras do que eles cantavam, pois não dominava o inglês. Ela, de queixo no chão, estou besta por você gostar dos Beatles. E dos Rolling Stones? E, para provocá-la, destes eu nunca ouvi falar. Nunca ouviu falar? Joãozinho, você é mesmo de doze, até de um tal de Ataulfo Alves você vem falar.
Há poucos dias eu tinha lido um artigo de um crítico de cinema em que ele dizia que não existiam filmes velhos e filmes novos, mas sim filmes ruins e filmes bons, então eu transferi esse conceito para a música. E ela, pra cima de moá, Joãozinho?
Porque tinha o hábito de usar o diminutivo (talvez quem sabe? uma influência do próprio nome). Chamava as amigas e os amigos pelo diminutivo, as coisas, os objetos. Você está muito salientezinho, dizia, com o sorriso radioso, quando a minha mão procurava um dos peitos de Mariazinha. E que peitos! Percebia-se que ela não usava sutiã e isso atiçava mais o meu desejo de tocá-los, não só tocá-los, mas cobrir um deles com a mão e ficar acariciando-o.
Mais se atiçava o meu desejo quando me lembrava de um conto, belíssimo conto, que lera fazia um certo tempo. O personagem, aposentado, solitário e entediado na cidade grande, vê, de repente, aflorar-lhe à memória, um fato ocorrido na sua adolescência. Durou uns raros segundos, mas, só agora se dava conta, o marcara para sempre. A visão dos seios de uma adolescente, mal saída da infância. Ele decide empreender uma viagem de volta à sua cidadezinha para reencontrar a mulher que lhe proporcionara aquele momento ímpar de sua vida.
Não conseguia atinar com aquela resistência de Mariazinha, uma moça de idéias avançadas (está claro que as nossas conversas não se limitavam à música) , uma mulher pra frente, como se dizia naquela época. Uma vez, por brincadeira, mas tentando dar um tom de sinceridade na voz, cheguei ao ponto de lhe prometer que se ela me mostrasse os seios, eu deixaria de gostar do Chico. Ela fez foi soltar uma gaitada.
Teve um dia que ela veio se encontrar comigo ainda mais alegre e brincalhona - diria mesmo feliz. Tinha passado no vestibular. Não tenho certeza, mas acho que nesse dia nem falamos no Chico, a vitória que conquistara, com uma excelente colocação, dominou a conversa. É hoje que vou conseguir, disse pra mim mesmo, vendo-a naquela euforia. Num dado momento, após um beijinho, pedi para ela me mostrar um peito. Mas mesmo naquele estado, ela opôs a firme resistência habitual e ainda me mandou tirar o cavalinho da chuva e acrescentou que eu queria me aproveitar da alegria dela. Mas eu insisti e insisti e insisti, até que ela cedeu, tá bem, seu acesinho. Olhou para um lado, olhou para o outro. Precaução desnecessária, estávamos isolados na pracinha. O coração pinotando, por estar a segundos de ver, finalmente, o meu desejo realizado, observei atentamente Mariazinha pousar um dedo no primeiro botão para retirá-lo da casa. A seguir o segundo botão. Parou, e protegendo com uma mão um peito, com a outra abriu o lado da blusa para exibir o outro peito. Pronto, seu danadinho. E eu vi - vi aquela obra de arte se mostrando pra mim, por um segundo, ou dois, mas valeu a pena. Até me conformei por não poder tocá-lo - isso não, não era só pra olhar? E depois você vai querer mais e mais. E fechou depressa a blusa. Mariazinha malvada.
Depois de terminarmos o namoro, ainda a vi algumas vezes, ela sempre me sorrindo. O tempo foi passando e a via com menos freqüência. Acabei deixando a cidade, pra assumir um emprego num estado do Sul. Voltei há uns dez anos e não vi Mariazinha. Posso até tê-la encontrado e não a reconhecer, nem ela a mim. E como gostaria, penso agora, de revê-la. Mesmo que ela esteja gorda (já naquela época era um pouco gordinha), mesmo que aqueles peitos tenham perdido todo o encanto. Queria rever Mariazinha. Até pra perguntar se ela continua a não gostar do Chico. E ouvir o que ela iria dizer.
quarta-feira, outubro 15, 2008
O SERVIÇO DE ALTO-FALANTE DE CANINDÉ
terça-feira, outubro 07, 2008
HOMENAGEANDO MANUEL BANDEIRA
domingo, setembro 28, 2008
PAUL NEWMAN

terça-feira, setembro 23, 2008
SOCIEDADE DOS POETAS MORTOS (Dead Poets Society/1989)

Esta crítica foi publicada em junho de 1990 no jornal Tribuna do Norte, de Natal. É apresentada aqui com pouquíssimas alterações em relação ao texto original.
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É possível fazer-se duas leituras do roteiro de Sociedade dos Poetas Mortos, recentemente exibido pelo Nordeste. A primeira remete ao princípio da fruição da vida pelas pessoas, baseada na interpretação figurada da expressão latina Carpe Diem. Esse princípio é enunciado - e, mais do que isso, incentivado - aos alunos de uma conservadora escola norte-americana, no final dos anos 50, pelo jovem professor de Literatura.
Não é a primeira vez, no cinema, que vemos a chegada de um estranho a uma comunidade operar uma profunda transformação na maneira de viver das pessoas, e acodem-me imediatamente à memória os exemplos ilustres de Shane e Teorema. Infelizmente, essa brusca alteração no modus vivendi dos nativos não é feita sem a ausência de traumas, que as marcarão para sempre. Com seu anticonvencional método pedagógico, o professor John Keating (Robin Williams) escorraça a sensaboria das aulas, tornando, por exemplo, a temida abordagem da poesia de Shakespeare uma sessão de brincadeiras, entre estas a imitação que ele faz das vozes de Marlon Brando e John Wayne.
Ao mesmo tempo, alguns dos alunos vêem despertar em si o desejo de realizar seus sonhos. Seja o de seguir a carreira de ator, no caso de Neil (Robert Sean Leonard), de problemática realização, porque ele precisará vencer a forte oposição do pai, seja o de de um seu colega, relativamente mais fácil, já que se trata de conquistar o coração de uma jovem comprometida. Em ambos os casos, o que se destaca é a disposição que eles sentem de lutar por algo por algo que consideram importante em suas vidas, embora, no caso de Neil, ele saia derrotado.
A segunda leitura é a demonstração dos obstáculos que se erguem a todo homem que se apresenta com idéias novas no seio de uma sociedade conservadora. O professor John Keating chega a uma secular escola, da qual fora aluno (e, já nessa condição, tendo manifestado um espírito rebelde e inovador, a ele devendo-se a criação de uma "Sociedade dos Poetas Mortos", que seria reativada pelos seus discípulos), e, em pouco tempo, a sua inusitada maneira de ensinar entra em colisão com os colegas e a direção do colégio. Não é pra menos. Para os padrões rígidos e tradicionais da instituição, é impossível admitir que um dos seus mestres ordene aos (também) escandalizados alunos que destruam as páginas de um livro, por conterem uma interpretação que ele considera falsa da arte poética. Que esse mesmo professor os faça subirem a sua mesa, como uma forma de adquirirem uma visão diferente das coisas. Ou ainda que incentive os rapazes a recitar seus próprios versos fora da sala de aula, utilizando os movimentos dos corpos, para, com isso, irem perdendo a inibição.
Previsivelmente, no instante em que o comportamento dos alunos começa a ir de encontro à disciplina militarizada da escola, o professor é responsabilizado pela situação. E quando Neil comete suicídio, o pai, o verdadeiro responsável, procura transferir a culpa para Keating, e este, delatado por um um acovardado aluno, é despedido.
Essa história de lutas, sonhos e frustrações, em que também se toca na inevitabilidade da morte, mas como forma de conferir um valor inestimável ao ato de viver, é dirigida com freqüente sensibilidade, e quase sempre com brilho, por Peter Weir, esse talentoso cineasta de origem australiana. Jà tendo visto outros filmes dele, julgo encontrar nos mesmos uma identidade, ou sejja, a simpatia que ele manifesta por personagens que se tornam outsiders do seu próprio meio. Esse John Keating é irmão do policial de A Testemunha, que é forçado a se refugiar numa comunidade de adeptos da seita Amish, para não ser morto pelo seu corrupto superior, e do herói de A Costa do Mosquito.
Mas o roteiro de Tom Schulman, premiado pelo Oscar, é, a meu ver, passível de duas ressalvas, Uma é a de sonegar informações sobre a vida particular de Keating. Em conseqüência, ficamos sem saber por que está separado de uma mulher (numa cena em que ele aparece escrevendo-lhe uma carta é lançada apenas uma vaga pista, insuficiente para esclarecer a questão), nem o grau de envolvimento com ela. A outra é no suicídio de Neil, e aí a montagem tem o seu quinhão de responsabilidade. A seqüência deveria ter terminado no momento em que o pai ouve o som do disparo da arma. Se já havíamos visto Neil pegar o revólver, tornou-se dispensável, após o disparo, mostrar o pai percorrendo a casa, até localizar o corpo do filho no chão. A montagem é um dos componentes importantes de um filme (no cinema soviético de Eisenstein e companhia ela era supervalorizada), até para suprimir cenas supérfluas, as quais, acima de tudo, podem passar a idéia de que a inteligência do espectador está sendo subestimada.
quarta-feira, setembro 17, 2008
A VOZ DO VIZINHO
quarta-feira, setembro 10, 2008
OS 70 ANOS DE VIDAS SECAS

quarta-feira, setembro 03, 2008
ALGUNS DOS MAIORES ANTI-HERÓIS DO CINEMA

terça-feira, agosto 26, 2008
UM EPISÓDIO DA INFÂNCIA DE CONY
quarta-feira, agosto 20, 2008
NUNCA TE VI... SEMPRE TE AMEI (84 Charing Cross Road/1987)

quarta-feira, agosto 13, 2008
UM CONTO DE BARTOLOMEU CORREIA DE MELO (RN)
Hei de morrer,
cantando teus louvores,
qual rouxinol
que expira ao por-do-sol
Bendito de nossa Senhora
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quarta-feira, agosto 06, 2008
A METAMORFOSE ANUAL DE SEU OLAVO
terça-feira, julho 29, 2008
25 ANOS SEM BUÑUEL
Nascido com o século vinte, o espanhol Luis Buñuel foi um cineasta dos mais importantes. E o mais singular, segundo a opinião do crítico Moniz Vianna, formulada na década de 1960, para quem Buñuel não iria deixar herdeiros (eu incluiria Fellini). Adesista de primeira hora do Surrealismo, Buñuel, na verdade, se manteve fiel ao movimento até o fim da vida. Claro que o Surrealismo, e não podia ser de outra forma, aparece bem mais diluído em meio aos temas que ele aborda a partir de uma certa parte de sua carreira, mas não deixa de ser visível, por exemplo, num filme como O Fantasma da Liberdade, o penúltimo de sua obra. Numa entrevista aos críticos franceses André Bazin e Jacques-Donioel Valcroze, concedida nos anos 50 do século passado, Buñuel, ao responder à observação do primeiro de que ainda conservava vínculos com o Surrealismo, diz que é verdade e aproveita a oportunidade para reconhecer a sua dívida com ele. E por falar em Bazin, este inclui Buñuel na lista dos diretores que fazem "o cinema da crueldade", ao lado de Dreyer, Kurosawa, Hitchcock, Stroheim e Preston Sturges.
Examinando-se os filmes de Buñuel sob o prisma da narrativa e da linguagem, observa-se, se não um desprezo, pelo menos um desinteresse pelo cuidado, o apuro da forma. Ou seja, interessa-lhe é a comunicação da mensagem ao espectador, a intensidade, o impacto que ela possa ter sobre este. Mas, às vezes, ele sonega a comunicação ao espectador. Como se quisesse bulir com o espectador, levando-o a dar tratos à bola sobre o significado de um plano, até de uma cena. Outras vezes, ele nem revela o detalhe de uma cena, como acontece, por exemplo, em A Bela da Tarde, quando se fica sem conhecer o conteúdo de uma caixinha que o cliente oriental mostra às moças da casa de encontros amorosos frequentada por Catherine Deneuve.
É o antípoda de Visconti, que, mesmo quando mostra uma cena "forte", também de impacto, jamais abdica do seu estilo requintado, do apuro visual-plástico, da elegância formal. Não há parentesco com o despojamento de Bresson, nem com o de Rosselinni; não, é o toque de Buñuel, como existe o toque de Welles, o de Fellini, o de Hitchcock, o de Ford, enfim, dos grandes cineastas. Ele disse, certa vez, destestar o que chamou de "angulos complicados". E também não gostava do uso da música no cinema, conforme afirmou na citada entrevista.
Voltando ao tema da crueldade na obra de Buñuel. Esse enfoque dado ao seu cinema o desagradava muito e, aparentemente, ele desconhecia a opinião de Bazin. Pelo menos, não faz referência ao crítico e ensaísta francês na autobiografia "Meu Último Suspiro" (Nova Fronteira/1982) . Nesse livro, indispensável para se conhecer o cineasta e, principalmente, o homem, Buñuel comenta a tristeza que sentiu ao ler este slogan escrito sobre o cartaz de um de seus filmes, exposto num cinema de Paris: " O metteur-en-scène mais cruel do mundo".
E o pior é que essa "crueldade" era associada a sua pessoa. Um pouco mais adiante de quando menciona esse fato, ele conta a impressão causada em Vittorio De Sica por Viridiana. De Sica assistiu ao filme na Cidade do México, ao lado de Jeanne, esposa de Buñuel. Saiu do cinema "horrorizado", "sufocado" e depressa tomou um táxi, junto com Jeanne, para ir a um bar. No trajeto, perguntou a ela se o marido era um monstro dentro de casa e se chegava a bater nela. Resposta de Jeanne: "Quando é preciso matar uma barata, ele me chama".
O homem era tão digno de interesse quanto o cineasta. Tinha as melhores idéias quando estava solitário num bar, degustando um bom vinho. Adorava usar disfarces que o deixavam irreconhecível. Ele conta a peça que pregou so set de filmagens de Viva Maria, de Louis Malle. Entrou ali usando uma peruca, passou um tempão pra lá e pra cá, olhando a câmera, fitando os atores, e todo mundo se perguntava quem era aquele estranho velhinho, que parecia ser alguém enviado pelo produtor. Nem Jeanne Moreau, que trabalhara com ele há pouco tempo, o reconheceu. Muito menos o próprio filho, Jean Louis, que trabalhava como assistente de Malle.
Esse era Don Luis, assim tratado, que faleceu em 29 de julho de 1983, há exatos 25 anos.
quarta-feira, julho 23, 2008
KAFKA

Este texto foi publicado em junho de 1993 em um jornal de Natal, onde eu escrevia semanalmente. Resolvi divulgá-lo aqui, por ter visto o filme recentemente na tevê e conservado a mesma impressão sobre ele quando o vi há 15 anos. Ei-lo.
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Há de se sentir logrado o leitor de Frank Kafka que alugar a fita, acreditando que irá ver a cinebiografia do autor de A Metamorfose. É verdade que este é personagem da história, sim, mas desvinculado do seu universo de escritor, bem como da sua condição de homem envolvido em problemas íntimos e familiares, com os quais, basicamente, alimentou a sua obra. É certo também que, ao longo da narrativa, esse leitor irá encontrar uma ou outra informação sobre Kafka. Como na cena em que alguém pergunta se ele está desenvolvendo algum projeto literário e Kafka responde, lacônico, que está escrevendo sobre um homem que um dia acorda transformado num inseto. Mas não fosse por essas esparsas referências a Kafka, ele nem precisava ser personagem da história, bastando que o roteirista criasse um outro de sua própria imaginação. É é de supor que dotasse esse personagem fictício da credibilidade improvável em um homem que, pelo temperamento tímido, e ainda mais tendo os pulmões arruinados pela tuberculose, jamais poderia meter-se numa aventura arriscada que exigiria a compleição quase de um atleta.
O artifício de se valer de um escritor real como personagem não é novidade no cinema. Só na década de 80 podem-se citar dois exemplos: Hammett, de Wim Wenders, onde Dashiel Hammett se mete numa trama policial em muitos pontos semelhante às que ele punha no papel; e A Ùltima Dança de Salomé, de Ken Russell, com Oscar Wilde aparecendo como espectador de sua peça Salomé, encenada num bordel. E se em ambos o resultado foi, no mínimo, satisfatório, o foi sobretudo por Hammett e Wilde se apresentarem de maneira verossímil.
Por sua vez, o espectador que viu Sexo, Mentiras e Videotape ficará desapontado com este segundo filme de Steven Soderbergh. Ele nem se sai bem no propósito de realizar algo diferente do que seria uma simples biografia (e é de lamentar a chance que jogou fora, com um material rico como a vida de Kafka) , nem cria nada em termos de narrativa. Ao invés de acender as próprias luzes, Soderbergh prefere tomá-las emprestadas do Expressionismo alemão, lançando mão de seus recursos estilísticos (câmera inclinada, sombras humanas, close de rostos exóticos ou grotescos). Ainda que possa se tratar de uma homenagem, como quer um crítico, o diretor deveria ter dado um pouco de si mesmo, como faz Brian Di Palma, que não se limita a copiar Hitchcock. E no fato de ele mesclar o preto-e-branco e o colorido, Soderbergh não só não foi original, como fez uma coisa para a qual não vejo explicação.
Mas, afinal, depois de tudo o que foi dito, sobra algo de positivo em Kafka ? Sim. Um ou outro momento inspirado, a fotografia, apesar do seu débito com o Expressionismo, e sobretudo o elenco, repleto de sotaques de várias nacionalidades. Jeremy Irons faz o que pode para parecer com o Kafka que conhecemos de informações, Alec Guiness exibe a classe habitual num pequeno papel, Ian Holm idem, como o sinistro Dr. Murnau (uma homenagem ao cineasta?). Mas a melhor atuação é de Joel Grey (o inesquecível mestre de cerimônias de Cabaret) , vivendo uma espécie de fiscal de funcionários de uma empresa de seguros, onde trabalha Kafka.
terça-feira, julho 15, 2008
PODEM ALGUNS NOMES TER UMA CARGA NEGATIVA?
quarta-feira, julho 09, 2008
AMOR À FLOR DA PELE (2000)

Um filme triste este do chinês Kar-Wai Wong. Triste e amargurado, porque os personagens centrais, Chow (Tony Leung) e Su Linzhen (Maggie Cheung), que é sempre chamada por Mrs. Chan, sobrenome do marido, não conseguem transformar em amor a atração que sentem um pelo outro. A não-consumação desse amor ocorre por causa da mulher, mas a razão não é explicada, apenas ela chega a dizer uma vez "não devemos fazer como eles", que são o marido dela e a esposa dele, que têm um caso. Assim, não vão uma única vez para a cama no seu curto relacionamento, não se fazem carinhos, ainda que estejam quase sempre juntos, até em um quarto de hotel. É como se fossem dois amigos (embora, segundo Borges, a amizade é uma das formas que o amor assume), solitários pela constante ausência dos outros dois parceiros, dois carentes em busca de um amor, já que fracassou o legitimado pelo casamento. Em resumo, não é um filme de amor, mas da impossibilidade de um amor, e, nessa particularidade, "Amor à Flor da Pele" faz lembrar o universo temático de Antonioni, dentro, contudo, de um outro contexto.
O diretor enfatiza bem essa impossibilidade ao reunir os dois algumas vezes à frente de uma grade, cujas barras se assemelham à de uma prisão. E como se fosse um contraponto à falta de entrega total, avassaladora a esse amor, a trama é pontuada em algumas ocasiões pela voz de Nat King Cole interpretando boleros.
Um detalhe a ser destacado é que os dois adúlteros não são vistos pelo espectador. Ouve-se em raras ocasiões a voz deles, ou com Chow, ou com Chan, mas a câmera os "esconde", só mostrando o rosto ou o corpo destes. (Na verdade, há um plano em que a mulher de Chow é vista chorando, depois que o amante lhe diz que vai encerrar o caso, mas de uma forma em que não se distingue com nitidez o rosto dela.) Não interessa ao diretor apresentá-los ao espectador, pois, ainda que os dois sejam os desencandeadores da aproximação e, conseqüentemente, do sofrimento de Chow e Chan, estes, sim, são os personagens que lhe importam, os seus sentimentos, a sua dor.
Wong prova com este filme porque é um dos cineastas prestigiados pela crítica. Sabe produzir imagens de grande beleza, sabe revelar o drama daquele casal unido (e ao mesmo tempo desunido) pelo amor em planos que dispensam as palavras (uma das cenas mais belas e expressivas é a da lágrima caindo do olho de Chan quando ela está sozinha em um quarto, enquanto Chow está em outro quarto) e tem o pulso forte, mas sensível, na condução dessa história triste, como também no desempenho dos atores centrais.
E que linda mulher essa Maggie Cheung!
quarta-feira, julho 02, 2008
BICICLETA

Foto tirada de www.fotosearch.com.br
Via os amigos pedalando as bicicletas, nos rostos a expressão de felicidade. E ainda sem poder discerni-la, a inveja instilava-se em seu coraçãozinho. A raiva, sim. A raiva de se ver privado daquele brinquedo que fazia parte também dos adultos. Ah, como desejava montar numa bicicleta e andar com ela pelas ruas, devagarinho, às vezes, como para fruir a conta-gotas o prazer de sabê-la sua, não precisando recorrer à de um amigo, que a emprestava por pouquinho tempo e sempre o advertindo cuidado, não vá arranhar a minha bicicleta; e em outras vezes, fazendo-a correr, apostando corrida com alguém, pra ver quem chegava antes a um determinado ponto.
Não tinha coragem para pedir ao pai. Sempre recomendando à esposa para economizar na administração dos encargos domésticos, os negócios não iam bem, a seca, outros motivos de queixa que ele ouvia e não entendia.
Sim, havia os dois padrinhos. Talvez com eles fosse menos difícil o pedido. Um era rico, dono de fazenda, de gado, tinha até carro, com motorista. Só que morava longe, aparecia raramente, mas quando vinha à cidade era certo almoçar em sua casa. Difícil era falar com ele, os dois compadres sempre juntos, acompanhados das esposas. Além disso, os raros e pequenos presentes que ganhara dele confirmavam os comentários ouvidos em casa que o padrinho era assim, ó (fechava bem a mão).
O outro padrinho, por coincidência, era também fazendeiro, mas um pequeno fazendeiro. Não tinha carro, ia de cavalo à cidade, e, não sabia a razão, nunca almoçava em sua casa, visitava o compadre na casa comercial. Estava por lá numa dessas visitas, a mando de sua mãe para pegar dinheiro para uma compra. Tomou a bênção ao padrinho, que lhe fez um afago e sacou do bolso uma pequena importância, pra você comprar de bombom. (E não é que ele seguiu ao pé da letra a recomendação?)
Não, daquelas duas tocas não sairia coelho algum.
Um dia em que estava no seu quarto ouviu o pai gritar por ele. Ao chegar, quase correndo, à presença do pai, encontrou-o com o rosto mais vermelho do que o natural, tão irado estava. Segurava numa mão o boletim escolar. A voz alterava o tom à medida que lhe passava uma descompostura, a mão chegava a tremer. Ele ali calado, cabisbaixo, já com medo de apanhar. Nem sabe quanto tempo durou a cena até a mãe chegar e pedir calma ao marido, os vizinhos já deviam estar de ouvidos colados naquela gritaria raivosa. O pai foi se acalmando, de repente calou-se e sentou na cadeira de balanço. Ele aproveitou para sair, mas o pai o chamou de novo, a voz ainda irada, mas baixa. E então lhe disse: "Escute bem o que vou lhe dizer. Se você passar de ano, vou lhe dar uma bicicleta; agora, se você não passar, vai levar uma surra que nunca vai esquecer. Ouviu bem"?
Reconheceu, já sozinho, que errara ao neglicenciar os estudos, como um ato de rebeldia por não ter a bicicleta de que se julgava merecedor. Agira sem avaliar a forma dessa rebeldia, que só teria como efeito a ira do pai podendo chegar ao limite. Fosse pelos percalços nos negócios, fosse por temperamento, ou as duas coisas, o pai perdia fácil o controle e isso repercutia no trato com a esposa e os filhos.
Mas espera aí, o pai não lhe prometera uma bicicleta, se ele passasse de ano? Estava mal em todas as matérias, poucos meses restavam para o final do ano letivo. Mas iria se empenhar - reduziria as brincadeiras, renunciando a algumas, queimaria as pestanas, para não ser reprovado. E surra é uma coisa muito dolorosa. Mais na alma, certas vezes, do que no corpo.



