sábado, março 31, 2007

A PROSA DE PEDRO RODRIGUES SALGUEIRO

O contista cearense Pedro Rodrigues Salgueiro me enviou 3 textos¨que saíram num jornal de Fortaleza. Hoje publicarei os 2 primeiros, deixando o terceiro para uma outra oportunidade. PRS, de quem já publiquei aqui um conto, é autor dos livros " O Peso do Morto", "O Espantalho",Brincar com Armas"e "Dos Valores do Inimigo" e editor da revista de contos "Caos Portátil". Eis os textos.

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CRÔNICA DA GENTILÂNDIA

Depois de dez anos voltei à Gentilândia. Voltei é exagero, porque ela jamais me deixou, quem morou lá sabe que ela nunca nos abandona. E, como bom saudosista (Oh!E como somos egoístas, queremos que as coisas permaneçam do jeito que sempre foram, só para matarmos nossas saudades), não gostei do que vi: a pracinha está arrumada demais, limpa demais (Ah! Tinha esquecido o saudosista e inimigo do progresso, principalmente desse progresso de fachada), não se sujam mais os pés ao pisar na praça. Meu Deus, por favor me traga a velha pracinha esburacada, com o cimento quebrado e a estátua torta do João Gentil. (E não sei se sabem, mas a estátua foi atropelada por uma senhora que conseguiu sair da 13 de Maio, desviando as árvores e ir atingir covardemente o Sr. João Gentil!) Procurei a residência do Coronel louco, na esquina da Paulino Nogueira com a praça, e me disseram que ele morreu há muito tempo, deixando de passar o dia gritando as suas lembranças de guerra. Desviei o olhar para o sobrado antigo da Olga, que passava as noites de lua nova falando alto e juntando papéis nas calçadas para fazer fogueiras. E que susto! Fecharam - de tijolo e cal - todas as portas da casa! Será , Meu Deus, que emparedaram viva a velha Olga, como no conto de Poe, será?
Sentei no banco da praça limpinha e fiquei contando de memória o que ainda restava: o velho "PV" com suas invasões de torcidas, a "REU grande" continua a mesma com a sua multidão de estudantes do interior, a feirinha das terças-feiras (que também mudou de praça), a feirona de fim de semana, os bares e seus boêmios, enfim sobrou muito ainda, sem falar no que os olhos distraídos não conseguem enxergar: o poeta Chico Carvalho passando timidamente para se esconder na Reitoria (E não sei se sabem, mas a única função da Reitoria é esconder o poeta para ele fazer seus versos) e o velho dragão Alcides Pinto sobrevoando as copas das árvores, com suas asas negras - quando ele se cansa de resmungar sozinho em sua caverna e sai para assustar os últimos bêbados da Gentilândia.
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PRAÇA DOS LEÕES
Ali bem pertinho do Palácio da Luz, debaixo dos benjamins centenários, dois jogadores de damas arranham as pedras no tabuleiro da tarde - vez por outra um deles se levanta para urinar na porta da velha academia - sem desconfiar sequer que eles é que são imortais.

domingo, março 25, 2007

MINHA IRMÃ TERESINHA

Outro dia falando aqui sobre a vovó Bilinha, mencionei, de passagem, a minha irmã Teresinha, vendo-a rir das conversas da mãe de minha mãe. Gostava de rir a mais velha das minhas três irmãs. E ela tinha motivos de sobra pra ser uma pessoa triste, sisuda, mal-humorada. A vida não foi boa com ela. A causa de todos os percalços e dores e humilhações por que passou foi a má sorte de ter se apaixonado por um homem que não a merecia. Um sujeito com nome de flor, mas que era um cafajeste, que batia nela, gostava de beber e ia atrás de outras mulheres. Quando ela se apaixonou por esse canalha eu ainda mijava na rede. Mas quando crescidinho, comecei a ouvir histórias sobre o namoro dos dois. O papai fizera tudo para impedi-lo, porque sabia que aquele homem não prestava. Mandou-a, na esperança de que a minha irmã esquecesse o namorado, para a casa da vovó Bilinha. De nada adiantou essa providência. Quando Teresinha voltou, os dois fugiram e , em seguida, se casaram.
Tiveram vários filhos, dos quais apenas três sobreviveram. Já era grandinho o último que morreu, vítima de uma enfermidade que o deixou em cima de uma cama por muito tempo. Eu já não morava em Canindé, mas, de longe, pude acompanhar o sofrimento da minha irmã e do filho. Alguém lá de casa me contou, numa carta, que seu enterro foi acompanhado por um grande número de pessoas. Talvez o fato tenha dado um pouco de consolo para a coitada da mãe.
Guardarei até o dia de morrer uma lembrança horrível (não me ocorre agora um qualificativo mais adequado, ou até mais de um) da vida de Teresinha e seus filhos. É o tipo da lembrança
que eu daria tudo para vê-la apagada da memória. Não posso esquecer a minha irmã passando fome junto com os filhos e por causa de uma atitude radical do meu pai. Um aborrecimento que teve com a filha, do qual não me lembro, fez com que meu pai proibisse a presença dela em nossa casa, quando ele estivesse por lá, e, o pior, a recusa a qualquer ajuda a ela. E, então, depois que almoçávamos papai ia cochilar numa cadeira de balanço. Instruída por mamãe, Teresinha ia para os fundos da casa receber o prato de comida que dividia com os filhos. Um prato de comida! Minha irmã passando por uma mendiga. Acho que nem tocava no prato, deixando o pouco de comida para os filhos mais famintos do que ela.
Mas vá entender a mente (e o coração) das pessoas! Quando Teresinha passou uns dias comigo aqui em Natal confessou à minha mulher que sempre quisera mais bem ao pai do que à mãe. Na sua estada em minha casa, uma coisa me incomodou. Devo (não tenho certeza) ter "brigado" com ela pelo fato de ela se recusar a usar um dos nossos dois banheiros, preferindo o da empregada. Não sei o que a levava a fazer isso. Me lembro bem que reclamei da sua atitude ao filho caçula de Teresinha. Manifestei-lhe a desconfiança de que ela se arrependera da longa viagem que fizera, mas o sobrinho me tranquilizou: de todos os sete irmãos dela, eu fui o único em cuja casa ela quis passar alguns dias. E eu fiquei envaidecido por isso.
Quando os filhos cresceram e arranjaram emprego, a vida de Teresinha melhorou. Um dos filhos era funcionário do Banco do Brasil, que, naquela época, pagava um salário digno, e, graças, principalmente a esse (o caçula), aqueles dias de privações terminaram. Mas até para morrer, a minha irmão comeu o pão que o diabo amassou. Passou dois anos ou mais prostrada numa cama, na casa de um dos filhos, só pele e ossos. Até o dia em que descansou finalmente de todos os sofrimentos por que passou em vida. Minha irmã pertenceu àquela categoria de pessoas que vêm ao mundo para sofrer. E, no entanto, era alegre, risonha, gostava de contar casos engraçados com os habitantes da nossa cidade. Assim são as pessoas. Assim é a vida.

quarta-feira, março 21, 2007

A DÁLIA NEGRA (The Black Dahlia/2006)

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Violência, assassinatos, perversão sexual, lesbiasnismo, corrupção, triângulo amoroso e até a amizade entre dois policiais. Por trás desses ingredientes que formam a trama de "A Dália Negra", no entanto, é percebível a homenagem que o diretor Brian de Palma ("Vestida para Matar", "Dublê de Corpo") presta ao film noir. A mais óbvia dessa homenagem está no sobrenome do personagem de Scarlett Johannsson (Kay Lake) , uma referência à atriz Veronica Lake, que estrelou filmes do gênero nos anos 1940, entre os quais um tem o título de "A Dália Azul" (mencionado, de passagem, por um personagem). E foi naquela década que o noir foi criado e é nela também que se passa a história de "A Dália Negra". E, como não poderia deixar de ser, há a presença da mulher fatal, personificada em Madeleine (Hilary Swank). Um pouco atrás mencionei a existência de um triângulo amoroso. Este é formado por Kay, seu amante Lee (Aaron Eckhart) e o amigo deste Bucky (Josh Hartnett, cujo rosto tem uma leve semelhança com o de Marlon Brando)). Há uma cena reveladora da situação que vive Kay, dividida entre os dois amigos e companheiros de profissão: na sala de um cinema ela está sentada entre os dois, numa atitude que é reforçada pelo comentário (dispensável) de Bucki, que é quem narra a história .
O filme é inspirado num caso real: o assassinato da starlet Elizabeth (Betty) Short, mas, conforme a advertência nos créditos finais, as situações e os personagens são baseados no livro de James Ellroy, autor de romances policiais. O diretor De Palma conduz muito bem a narrativa, A sua direção consegue alternar, com a mesma eficiência e , às vezes, com brilho, o vigor nas cenas de violência e de impacto , com o olhar crítico (a destacar a visita de Bucki à casa de Madeleine, no início do envolvimento dos dois, quando, em poucos minutos, são revelados os perfis dos pais e da irmã dela) ; ou ainda com a situação vivida por Bucki em relação à atração mútua com Kay, quando ele resiste à tentação de se envolver de fato com ela, para não trair o amigo ( um canalha e um corrupto, como se revela depois) , que chega a lhe salvar a vida num confronto dos dois com um fora-da-lei.
Além disso, Di Palma oferece momentos de beleza plástico-visual, como na última relação sexual entre Bucki e Madeleine e, no final, quando ele vai ao encontro de Kay, ambos livres de Lee, assassinado. Quando ela lhe abre a porta do apartamento, há como que uma explosão de luminosidade, contrastando com a cena anterior. Luminosidade realçada pelo costumeiro vestido branco de Kay, em outro contraste com o inseparável vestido preto de Madeleine. Essa oposição entre o caráter e a conduta das duas mulheres, emblematizada pela cor dos seus vestuários, poderia ser um pecadilho de "A Dália Negra", tantas vezes esse recurso foi explorado pelo cinema. Mas também poderia ser uma forma do roteirista (Josh Friedman) e do diretor reforçarem a homenagem ao film noir . Álém de que Kay não ser exatamente uma santinha.

sábado, março 17, 2007

VOCÊ LEU "ULISSES?"


Não faz muito tempo alguém aqui de Natal afirmou, numa entrevista, que havia lido "Ulisses" de uma assentada. De imediato me ocorreram duas hipóteses: ou ele não conhece o significado de assentada (o que acho muito pouco provável), ou não estava falando a verdade. Acho impossível ler de uma só vez um livro de cerca de 700 páginas escrito numa linguagem clara, acessível até a um leitor de mediana capacidade intelectual e narrado de forma linear. Agora, imagine uma obra dotada de características formais, estilísticas, lingúísticas, conteudísticas de "Ulisses," cujo acesso é permitido a uns poucos privilegiados. E ainda fiquei na dúvida se essa pessoa leu mesmo o livro de James Joyce. Porque muita gente tem vergonha de dizer que não o leu. E também de dizer que tentou ler, mas o pôs de lado depois de algumas páginas.
Adquiri "Ulisses" numa coleção de clássicos da literatura, capa dura. Comprei e o deixei guardadinho na estante. Cadê coragem, cadê disposição para enfrentar o bicho? Bom. Uns 15 a 20 anos depois, decidi um dia lê-lo. Li todo? Que nada. Num esforço sobre-humano cheguei a umas cem páginas. Talvez um pouco mais. E não foi de uma "assentada" não. Esse número de páginas foi lido em várias vezes. E digo e afirmo, como naquela letra de uma música de Cartola, que entendi pouquíssimo do que Joyce escreveu. E, no entanto, esse leitor devorou essas 700 páginas em menos tempo do que o o tempo em que transcorre a ação do livro. Eu vou dar um crédito a ele. Ele pode ter lido integralmente "Ulisses," mas durante muitos dias. E o terá entendido? Ou, pelo menos, parte dele? Tenho as minhas dúvidas e nem são porque lhe falte capacidade intelectual.
Reafirmo, portanto, do alto dos meus 64 anos: não consegui ler "Ulisses," e do que li entendi muito pouco. Quase nada. Sinto uma ponta de inveja dos que realmente o leram e o entenderam. Que não são muitos, tenho plena certeza. Incapacidade minha? Deve ser. E porque não o entendi, não gosto desse livro de Joyce. Em compensação, já li 3 ou 4 vezes, e sempre com renovado prazer, "Dublinenses," livro de contos, de um dos quais, "Os Mortos," (um dos melhores, se não o melhor), o diretor John Huston fez um belo filme ("Os Vivos e os Mortos"), o último de sua carreira. Gosto menos de "Retrato do Artista Quando Jovem."
Só espero não ser arrastado a um muro de fuzilamento pelos exegetas dassa obra de acesso dificílimo, se não impenetrável.

sábado, março 10, 2007

"DEPOIS DO VENDAVAL" E UMA LEI DA FÍSICA

Em uma cena de "Depois do Vendaval" (The Quiet Man/1952), de Ford, há uma cena em que o cavalo que conduz a carroça do casamenteiro pàra, de repente, em frente a um bar. O casamenteiro, vivido admiravelmente por Barry Fitzgerald, bom de copo, ao ver que está em frente ao bar, diz que o cavalo é mais inteligente do que ele. Pois bem. Segundo me contou um conhecido, há pouco tempo, um crítico carioca fez um reparo a esta cena, por ocasião do lançamento do filme no Rio. O reparo desse crítico (cujo nome o meu conhecido não lembra) tinha a ver com a violação a uma lei da Física. É que quando a carroça estaca, o corpo do personagem é impulsionado para trás, quando o correto seria para a frente. E devido a essa "desobediência" a um "mandamento" da Física, o carinha fez essa restrição ao encantador, maravilhoso, simpaticíssimo, entre outros adjetivos, "Depois do Vendaval". Bobagem. Ford, que não era nenhum toco de vela (como se referiu Vinícius a Hemingway) , não devia desconhecer esse princípio da Física. Se não deu bola pra ele, tinha lá suas razões. Quer dizer, por um detalhe desse, o tal crítico não deu ao filme de Ford o que ele merece, ou seja, a condição de uma obra-prima. (Deve ser o seu melhor filme fora do "western.). Esse camaradinha pertence àquele tipo de gente que vai ao cinema para descobrir uma falha dessas para malhar o filme, principalmente se for uma grande obra e de um grande diretor. Se o filme é ruim de correr água, até acho isso admissível . Pode-se dizer que, além de desprovidos de talento cinematográfico , o diretor e o roteirista são ignorantes em outras coisas. Por sinal, que , numa reunião com outros pares seus, quando se comentava "!Hiroshima, Meu Amor", o mesmo sujeito, depois de ouvir os devidos louvores a essa obra-prima de Resnais, veio com esta: " É realmente o filme é muito bom, mas tem uma cena"... Ele não chegou a terminar a frase, porque foi rispidamente interrompido por Sérgio Augosto: "Pára com isso, cara. Deixa de ser chato". Assim me disse o meu conhecido.
Essa restrição a "Depois do Vendaval" me fez lembrar o que disse Vittorio De Sica a um amigo que reclamou de um defeito no nariz de Gina Lollobrigida. A atriz italiana estava no auge da sua beleza, com toda a anatomia do corpo em perfeito e admirável estado. Sabem o que disse, sabiamente, De Sica ao amigo? "Ora, isso é um detalhe insignfiicante no meio de tanta coisa boa".
Dane-se a Física. E viva "Depois do Vendaval" E viva John Ford.

domingo, março 04, 2007

VOVÓ BILINHA


Isabel era o seu nome e nunca entendi por que não era chamada de Belinha, ao invés de Bilinha. Como também não entendia por que os parentes de minha mãe eram chamados por apelidos. As tias de mamãe eram Dona, Lô, Loló, Mocinha (a mãe da minha esposa e a mais nova), As exceções eram Tia Cecília e Tia Messias. Um tio meu era chamado de Ioiô. Os meus bisavós , Pai Né e Mãe Outa (que seria Mãe Outra).
Vovó Bilinha. Me lembro dela usando um xale azul, quando ia à missa cedinho da manhã, na época do frio. Alegre, bem-humorada, espirituosa Quando lhe chegou a viuvez, foi morar com a filha, em Canindé. Eu já tinha saído de casa, mas quando aparecia por lá, presenciava minha irmã Teresinha rindo das coisas que ela dizia. A minha mulher conta uma história que revela esse lado hmorístico de Vovó Bilinha. Num encontro com uma afilhada, esta lhe comunicou que tinha se casado. Vovó lhe deu os parabéns e quis saber como era o marido. A afilhada, mostrando-se muito feliz em seu novo estado, falou muito bem do marido. Ele só tinha um defeito. "Qual é o defeito?" perguntou minha avó. "E que ele é pobre, madrinha." E a vovõ em cima da bucha: "Pois, minha filha, esse é o pior defeito." Aquelas duas ingênuas considerando a pobreza como um defeito.
Em todo caso, Vovó Bilinha sabia bem dos efeitos de uma vida pobre. Ela e vovô, quando os conheci, passavam por sérias dificuldades financeiras. Vovô, dizem, fora rico, mas desperdiçou os bens, em parte doando-os à Igreja, extremamente religioso que era (fanáticamente religioso, pode-se dizer) , em parte como consequência de uma falta de vocação para os negócios. Foi o que ouvi dizer, não sei o quanto de verdade havia nisso. Quando o conheci, vovô Pirajá (Zé Agostinho, ou Seu Pirajá, como a esposa, alternadamente, o chamava) tirava o magro sustento de uma modestíssima venda de produtos alimentícios. Mas era um homem conformado com a sorte, nunca o ouvi se lamentar da pobreza em que vivia.
Vovó Bilinha não morou muito tempo com minha mãe. Dois anos, talvez. Um pouco mais, um pouco menos. Por aí. Saiu de lá para morar com o filho mais novo, em Brasília. E uma vez, indo a Canindé, mamãe me contou que o filho não a tratava bem, era agressivo, grosseiro com ela. Acredito porque esse meu tio não era nenhuma flor: autoritário, metido a valente e muito mulherengo. Mas vovó Bilinha foi ficando por lá, até a sua morte, na década de 1970. Devia estar com mais de oitenta anos.
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BORGES & VINICIUS
Remexendo em velhos papéis, encontrei este poema de Jorge Luís Borges, publicado no caderno literário do "Jornal do Brasil", com tradução de Vinícius de Moraes.
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A ROSA E MILTON
Das geraçóes das rosas
que no fundo do tempo se perderam
quero que uma se salve do esquecimento.
Uma sem marca ou signo entre as coisas
que foram. O destino me concede
este dom de denominar, pela vez primeira,
essa flor silenciosa, a derradeira
rosa que Milton aproximou de seu rosto,
sem vê-la. Oh! tu vermelha ou amarela
ou branca rosa de um jardim abandonado,
deixa magicamente teu passado
memorial e neste verso brilha,
ouro, sangue ou marfim ou tenebrosa,
como em suas mãos, invisível rosa.

quarta-feira, fevereiro 28, 2007

NA RODA DA FORTUNA ( Hudsucker Proxi/1994)

O comentário abaixo foi publicado no Diário de Natal na década de 1990, quando naquele jornal eu mantinha uma coluna semanal sobre cinema. Tendo visto o filme em DVD na semana passada (com o título em português "A Roda da Fortuna") , aproveito a oportunidade para lançar o texto neste blogue. Ei-lo.
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Semana retrasada, ao falar nesta coluna sobre o cineasta espanhol Pedro Almodóvar, mencionei, de passagem, a falta de graça e de criatividadedas comédias americanas atuais, com exceção de uma ou outra. Foi bom ter feito a ressalva, pois, do contrário, teria hoje que fazê-la, depois de assistir, em vídeo, a uma comédia engraçada e inteligente, que faz lembrar o período em que o gênero era bem explorado pelo cinema americano.
Trata-se de "Na Roda da Fortuna," dos irmãos Joel e Ethan Coen (direção do primeiro, roteiro dos dois e mais Sam Raimi), que, aliás, já haviam tido uma experiência bem-sucedida com "Arizona Nunca Mais." Diferentemente deste, a ação de "Na Roda da Fortuna" passa-se na década de 50, na época da invenção do bambolê, que tem uma participação importante na trama. Época também em que os Estados Unidos eram governados pelo general Eisenwouer, que, por sinal, aparece numa cena falando com o personagem Norville Barnes ao telefone, por obra de um efeito de montagem.
Parece que os irmãos Coen tiveram o propósito de resgatar o espírito daquelas comédias dos anos 30 e 40, ainda que a história se situe em fins da década de 50. É a impressão que se tem, ao identificar o caráter e o comportamento inerentes aos personagens de tantas comédias daqueles dois períodos. E ao recorrer aos filmes daqueles decênios, o nome de Frank Capra soa bastante familiar. Noville Barnes (que tem em Tim Robbins um excelente intérprete) é um típico personaagem de Capra, aquele homem ingênuo e puro, que atrai a atenção e o interesse dos mal-intencionados. O mesmo se pode dizer de Amy Archer (Jennifer-Jason Leigh), que não só por ser uma jornalista, mas também por causa da mudança que se opera em sua conduta em relação a Barnes, faz lembrar o personagem de Barbara Stanwick em "Adorável Vagabundo."
Esse Barnes é promovido, da noite para o dia, de mensageiro a presidente de uma empresa, como resultado de uma artimanha preparada pelo maligno diretor Sidney Mussburger (Paul Newman). O objetivo é um só: tornar a empresa desacreditada no mercado financeiro, vendendo à opinião pública a idéia de que o presidente é um perfeito idiota, com isso forçando a baixa das ações, para serem adquiridas por esse diretor e seus cúmplices.
Só que eles não contavam com a impressionante reação do consumidor ao lançamento de um brinquedo projetado por Barnes, antes mesmo de ele ingressar na empresa. Criado para as crianças, ele começa a receber a adesão de adultos, e, em pouco tempo, se transforma numa mania nacional. Não apenas as vendas aumentam, como o inventor se torna famoso e querido em todo o país.
É principalmente quando satiriza os efeitos da bambolemania nas pessoas (até num casamento os noivos não deixam de usar o bambolê, mesmo tendo cada um deles dificuldade para encaixar a aliança no dedo do outro), que "Na Roda da Fortuna" cumpre a sua função de fazer rir, como nas comédias de Capra e de outros pesos pesados do gênero no cinema americano de outras épcas. No final, a tentativa de suicídio de Barnes reforça a semelhança com "Adorável Vagabundo." No entanto, o fato de isso ocorrer na véspera do Ano Novo e de aparecer um anjo para dissuadir Barnes de praticar o ato (o seu antecessor na presidência da empresa, que se atirara do alto do edifício no último dia do ano), amplia a semelhança com Capra, mas dessa vez com "A Felicidade não se Compra", outro filme daquele diretor, de ambos "Na Roda da Fortuna" se apropriando do final feliz.
Em todo caso, , é bom atentar para um detalhe que encerra "Na Roda da Fortuna," onde ele sai um pouquinho da órbita de Capra. É no comentário cínico (à Billy Wilder?) do velho empregado negro que controla o gigantesco relógio da empresa, rematado por uma (hustoniona?) gargalhada.

domingo, fevereiro 25, 2007

INJUSTIÇADOS DO OSCAR.

Logo mais acontece a cerimônia de entrega do "Oscar". Aproveitando o ensejo, republico um
texto saído neste espaço há exatos dois anos. Vamos lá.
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Acessando o site da "Folha de São Paulo", um mês atrás, deparei-me com um texto informando sobre uma votação feita na Inglaterra, entre internautas, para a escolha dos maiores injustiçados pelo prêmio Oscar, incluindo diretores e atores. Hitchcock ficou no topo da lista dos diretores, enquanto Kubrick figurou em terceiro lugar. Hitchcock e Kubrick. Dois dos maiores expoentes da direção foram ignorados, esnobados pela Academia de Hollywood. E no caso de Hitchcock, o fato é mais surpreendente, porque os seus filmes, mesmo possuindo qualidade artística. atraíam a massa de espectadores que vão a cinema para se entreter, rendendo grandes bilheterias, que é o único foco de interesse dos produtores de Hollywood. Mas outros grandes cineastas jamais receberam aquela feia estatueta por um filme seu. Houve casos como os de Welles, Hawks e Chaplin, que receberam um Oscar honorário pela sua obra, numa atitude dos acadêmicos de repararem uma injustiça sem tamanho. (Esse negócio de prêmio honorário é como menção honrosa em concurso literário.) Aliás, sobre o prêmio concedido a Chaplin, o crítico e jornalista Sérgio Augusto afirmou, com uma precisão cirúrgica, que foi "um Oscar cravejado de vergonha e hipocrisia." E antes que me esqueça. O segundo colocado na lista foi Martin Scorcese, que, ainda vivo e atuante, poderá, enfim, empalmar a estatueta. Talvez até na festa de amanhã. já que é um dos indicados ao prêmio de Melhor Diretor.
Samuel L. Jackson encabeçou a lista dos atores injustiçados. E aí houve uma tremenda injustiça cometida pelos internautas. Como não esquecer Montgomery Clift (será que foi votado?), indicado muitas vezes e que morreu sem levar o prêmio? E James Mason, esse extraordinário ator inglês, que foi algumas vezes indicado, mas também ficou de mãos abanando? Richard Widmar, ótimo ator, que, parece, foi indicado apenas uma vez?
Paul Newman levou 30 anos para sair vencedor. Se tivesse morrido há uns 20, teria tido a mesma sorte de Clift e de Mason e de outros de quem não me lembro agora. Foi só há poucos anos que Al Pacino ganhou o Oscar, depois de concorrer várias vezes.
E mesmo quando a Academia fez justiça a um ator, aconteceu de não ser por sua melhor interpretação. Vou citar só o exemplo de Humphrey Bogart. Ele ganhou por "Uma Aventura na África" (Huston, 1951) por um desempenho inferior ao de outros filmes. ("O Tesouro de Sierra Madre",um exemplo isolado, do mesmo diretor.) E é bom ressaltar que, quando saiu vencedor, Bogart concorreu com nada menos que Marlon Brando ("Uma Rua Chamada Pecado"), Fredric March ("A Morte do Caixeiro Viajante") e o coitado do Montgomery Clift ("Um Lugar ao Sol"), três atores de maior estatura do que Bogart, não desmerecendo o talento dele.
E como diretor, há que citar John Ford. Ganhou 4 Oscar (o recordista, até hoje, entre os diretores) , mas em nenhum deles foi por um dos seus "westerns." Ora, Ford foi o maior artista do gênero, elevando-o, a partir de "No Tempo das Diligências," 1939, à categoria de arte. Ah, Hollywood. Ah, Academia.
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NOTA - Mais uma vez Martin Scorcese estará na briga hoje e é apontado como o favorito para empalmar a estatueta de Melhor Diretor. Talvez, finalmente, ele saia vencedor, mas será por um filme inferior a outros pelos quais concorreu, como, por exemplo, "Touro Indomável" e "Taxi Driver."

quarta-feira, fevereiro 21, 2007

A POESIA DE CONCEIÇÃO EUGENIO

Reservo hoje este espaço à poesia da amiga portuguesa Conceição Eugenio, que, com a generosidade e a gentileza que lhe são inerentes, me presenteou 3 dos seus livros publicados. Os poemas aqui mostrados foram tirados dos livros "Falar Mulher" (Editora Sol XXI, 1997), e "As Tarefas Transparentes" (mesma editora, 1998) . O primeiro desses livros tem uma parte de prosa. Conceição Eugenio tem outros livros, e é editora de 3 blogues (ou casotas, como ela gosta de dizer ): http://estranhosdias.blogspot.com/ ; http://balaodeensaio.blogspot.com/ e http://fragmomentos.blog.com . Eis os poemas.
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A mulher
podou
o rosto
de fresco
esperando
(quem sabe...)
novas madrugadas.
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Tenho uma tristeza
tão profunda e tão real
como se fosse coisa física.
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Pego-lhe com as mãos
e coloco-a num móvel
à minha frente.
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E observo-a tão espantada
quanto a noite
por tal coisa existir em mim.
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Tão grande e tão funda.
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E retirando-a eu de mim,
com as mãos, ela continuar
(ainda assim) presente.
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Uma criança corria na berna da estrada
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Como tão dentro da própria alegria
que parecia alada.
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Corria solta.
Mensageira das boas novas.
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Alheada da seca e queimada paisagem
corria.
O alcatrão quente não a queimava
pois corria
como quem pisa a matéria
de que são feitos os sonhos...
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corria tão dentro da própria alegria,
num estado de pureza total,
que o seu rosto lembrava uma estrela
refulgindo de êxtase e puro contentamento.
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Entre o nojo e a tristeza
os campos
verdes de pedra parecem
dizer a deus
os mortos a funda(e)m-se
e emergem erectas
pedras que crescem
para os céus
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os vivos dobram-se
sobre a terra na espinha
curva e caem esquecidos.

quarta-feira, fevereiro 14, 2007

MINHA MÃE


Fumando cachimbo
Pintando o cabelo
Pedalando na Singer


A missa diária
O terço noturno
(os joelhos tinham as marcas das rezas)
A cadeira de noite na calçada.


O mesmo mel comendo
Os mesmos benditos entoando
O mesmo livro lendo.


Batendo boca com meu pai.

sábado, fevereiro 10, 2007

TRIO


1) Era um programa sobre literatura na TV Futura, do qual participavam o poeta Afonso Romano de Santana e dois escritores da nova geração, não lhes guardei o nome. A apresentadora fazia a mesma pergunta aos três. Uma das últimas perguntas, se não a última, foi sobre a importância, o valor, a perenidade dos grandes mestres da literatura. Com quase a mesma opinião, os entrevistados reconheceram o legado que aqueles deixaram para os autores que lhe sucederam, que atravessou os séculos e chegou aos dias de hoje. Mas Afonso Romano de Santana acrescentou uma informação, para reforçar que a grande obra propicia a descoberta de elementos a cada releitura, entre eles o estilo do autor. Uma informação que contém um leve ingrediente humorístico. Ele falou que Jorge Luís Borges "lia" com muita frequência trechos de "Dom Quixote". E ao ser fechado o livro, exclamava para o outro leitor: "CERVANTES ESTÁ ESCREVENDO CADA VEZ MELHOR."
2) De novo Afonso Romano de Santana. Ele está naquele rol de escritores que são constantemente entrevistados. (Não é uma crítica. Afonso tem o que dizer e sabe dizê-lo.) Numa entevista a outro canal de televisão ele relatou um engraçado caso envolvendo a escritora Clarice Lispector. Era um debate sobre literatura numa instituição cultural do Rio de Janeiro. Afonso fazia parte da mesa, enquanto Clarice estava na platéia. O debate seguia um curso normal. A uma certa altura, Clarice se levanta e deixa o auditório. A começar por Afonso, todos os presentes estranharam a retirada de Clarice. Mas Afonso ficou preocupado. Será que Clarice saíra por não estar gostando do debate? Ficara aborrecida a um certo momento? O debate prosseguiu mas o poeta e cronista não conseguia afastar a pulga na orelha.
No dia seguinte ligou pra Clarice, pra saber o que tinha acontecido. E com grande surpresa ouviu dela porque deixara repentinamente o local. Não tinha nada a ver com o debate. Até estava gostando. O que houvera é que sentira uma vontade incontrolável de comer o frango que a esperava em casa.. Tão irresistível que a impeliu a sair, mesmo sabendo que estava cometendo um ato reprovável. Ah, Clarice...
3) Grande cineasta, Billy Wilder era também um grande gozador. São famosas as suas piadas no meio cinematográfico. Uma delas foi sobre o filme "Acorrentados", de Stanley Kramer, 1958. Vi há quase cinquenta anos esse filme que conta a história de dois presidiários que fogem da prisão, acorrentados um ao outro. Um personagem é branco (Tony Curtis) e o outro negro (Sidney Poitier). A piada que Wilder fez circular por Hollywood aludia à escolha do ator que ia interpretar o branco. Segundo Wilder, três atores foram convidados, antes de Curtis, sem sucesso, pelos seguintes motivos. Marlon Brando só admitiu fazer o filme se interpretasse o negro. Robert Mitchum nem quis conversa: "O quê? Eu trabalhar com um negro?" Mas complicado mesmo foi quando Kirk Douglas foi sondado. Ele topava, sim, fazer o papel, mas com uma condição: o de fazer também o do negro. Kirk queria interpretar ambos os personagens.
É claro que esse fato jamais aconteceu. Foi uma piada e uma piada inventada por aquele irreverente, anárquico, irônico e gozador Wilder.

quarta-feira, janeiro 31, 2007

A CHINESINHA

Este conto saiu neste blogue na primeira postagem de 2006, portanto, há mais de um ano. É republicado, não apenas por não dispor de um assunto novo, mas para quem não o tiver lido naquela ocasião. E para os que o leram, poderem fazer uma reavaliação dele.
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Tomei o primeiro longe gole de cerveja, degustando o prazer da bebida bem gelada. Em seguida virei o rosto para a parede, à minha direita, onde estava dependurado um quadro em moldura e envidraçado. A peça, que não parecia (de acordo com os meus modestos conhecimentos de artes plásticas) executada por um verdadeiro artista, representava sete pessoas (quatro homens e três mulheres), cada uma delas exercendo uma função. Um dos homens portava um instrumento musical, outro montava um cavalo, uma mulher segurava uma flor, e assim por diante. Um atrás do outro, formando uma fila indiana. Era um quadro chinês, pois o restaurante era chinês. Havia outro quadro na parede à minha esquerda, embaixo do qual se postava a longa mesa onde era exposta a comida para os clientes se servirem. Mas nem sei dizer o que o quadro representava, pois me desinteressei de olhá-lo.
A chinesinha que me atendeu teria, se muito, dezoito anos, era magrinha, como parecem ser todas as chinesas, pelo menos as jovens. O seio quase inexistente me fez lembrar a expressão "peitinhos de pitomba", de uma música do Chico. Mas bonitinha, com um rabinho-de-cavalo, e se chamava Jini. Havia outra moça, um pouco mais velha, e um homem, esse, sim, gordo, não muito mais alto do que as moças. Devia ser o proprietário. Fiquei por ali só bebendo, pois ia almoçar em casa.
Descobri o restaurante num desses sábados em que com a minha mulher fui a um shopping fazer compras. Depois das compras seguimos para a praça da alimentação, para tomarmos umas duas cervejas. Entramos ali sem saber que o restaurante era chinês. Só o descobrimos quando a chinesinha nos veio atender e também verificarmos a decoração. E não sei por quê (talvez o exótico do local), com uma chinesa de garçonete), achei agradável o ambiente, e sempre que ia ao shopping, aparecia lá para tomar a minha cerveja.
Os ocidentais acham que as pessoas da raça oriental são todas parecidas no físico. Talvez eles achem o mesmo de nós. Bom, o certo é que teve um dia que eu achei que Jini, a chinesinha, era como estar vendo a bela atriz Gong Li. Só que bem mais nova. E um dia falei a ela da semelhança entre as duas. Jini me olhou admirada e não disse nada. Suspeitei que ela não soubesse quem diabo era Gong Li.
Uma vez fui atendido pela sua compatriota. Era também bonitinha, me disse o seu nome, mas não o guardei. Soube que Jini estava adoentada. Doença grave, perguntei. A moça não disse nem sim, nem não. Era atenciosa e mais comunicativa do que Jini. Como a cerveja não estivesse muito gelada, trouxe, sem eu pedir, um balde com cubos de gelo, onde pousou a garrafa. Fiquei por ali, vendo pela milésima vez o quadro, enquanto os primeiros clientes chegavam para almoçar. Dessa vez me deu vontade de comer um pastel.
Voltei alguns dias depois e, de novo, não encontrei Jini. Perguntei à colega se ela tinha melhorado. E, coisa estranha, de novo ela ficou muda. Nem um sim, nem um não. Coisa mais estranha!
Não resisti a perguntar por Jini, na vez seguinte.E o mesmo silêncio da garçonete, mas com uma diferença: além do silêncio, ela esboçou um sorriso, cujo significado não consegui decifrar. A partir daquele dia, desisti de indagar pela chinesinha. Houve uma ocasião, depois de beber três cervejas (habitualmente não passo de duas),, em que senti o impulso de perguntar ao proprietário o que fora feito de Jini. Mas nem cheguei a me levantar. Deixa pra lá, disse pra mim. E embore continue frequentando o local, apreciando a cerveja bem gelada (quando não está a meu gosto, a garconete providencia o balde com gelo), gostando do ambiente, confesso que sinto falta da sósia de Gong Li. Onde ela estará? O que terá sido feito dela?
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Por motivo de viagem do editor, esta página só voltará a ser atualizada no final da próxima semana. Até lá.

sábado, janeiro 27, 2007

AS INVASÕES BÁRBARAS (Les Invasions Barbares/2003)

Este texto sai aqui pela primeira vez, acrescido de pequenas alterações de quando foi publicado no Balaio Porreta (http://www.balaioporreta1986.blogspot.com/), de Moacy Cirne, em março de 2004, quando eu ainda ainda não possuía este blogue.
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É, especialmente, da amizade, um dos valores mais caros na filmografia de Ford (mas num outro contexto), que trata este filme do diretor canadense Denys Arcand; a amizade entre cinco pessoas (três homens e duas mulheres) que resiste ao tempo e à separação ditada pelas circunstâncias da vida. Após muitos anos eles voltam a se reunir, em razão da extrema gravidade da doença de um deles, e percebe-se que não transparece nenhuma arranhadura no relacionamento entre eles, nem mesmo entre o enfermo Remy (Remy Girard) e as duas amigas que, eventualmente, foram suas amantes. Por uns poucos dias os cinco amigos parecem voltar ao tempo de jovens, revisitando o passado, e o fazem utilizando um humor irreverente que confina com o cinismo e o deboche. É uma atitude consciente, tacitamente deliberada como uma fuga à situação do doente.
Há que considerar ainda a amizade, em outro nível, que se inicia entre Remy e a jovem viciada em heroína Nathalie (Marie-Josée Croze), contratada por Sébastien (Stephane Rousseau), filho de Remy para adquirir a droga e também aplicá-la no enfermo, aliviando-o das dores sobre as quais os remédios já não conseguem atuar. Em outro nível, porque, primeiro, é um relacionamento que já nasce condenado à efemeridade. depois, porque envolve duas pessoas separadas por uma enorme diferença de idades, as quais, por fim, estão vivendo situações-limite, mas também diferentes. Ou seja, Remy está se despedindo da vida e, por apegar-se a esta, não se conforma com o fato (embora, como Nathalie o faz ver, não é a sua vida presente que ele não quer perder, mas a sua vida passada); já Nathalie conduz a sua vida como uma forma de buscar a morte, praticando um suicídio lento e doloroso. Mas a atitude dela pode ser também uma inadaptação à vida atual (observe-se como ela ouve com muita atenção Remy, já na casa de um dos amigos, recordar um momento do passado, e o seu ato de jogar no fogo o inseparável celular de Sébastien).
Nessa breve convivência dos dois, Nathalie chega a se tornar confidente de Remy; é a ela, e não aos seus amigos de longa data, que ele faz um desabafo sereno sobre o que sente de irrealizado em sua carreira de professor, por culpa própria e de seus superiores. E, no final, Nathalie se transforma no anjo da morte de Remy, ao lhe aplicar a overdose fatal.
Interessante observar que Nathalie vai ocupar o apartamento de Remy, depois que este morre, local reservado para o encontro dele com as amantes. Ao chegar ali, acompanhada por Sébastien, este lhe faz um assédio, que, a custo, ela repele. Ao terminar o filme, com a imagem de Sébastien e a noiva no avião, seguida da bonita canção, ocorre-nos a pergunta: será que ele e Nathalie se tornarão amantes, e Nathalie, assim, através de Sébastien, repetirá a relação da mãe com Remy?
Com "As Invasões Bárbaras", Denys Arcand fez, talvez o seu melhor filme até aqui, sem que se deixe de apontar a importância de "O Declínio do Império Americano" e "Jesus de Montreal". Dele conhecendo apenas esses três filmes, creio, no entanto, poder incluí-lo entre os diretores mais destacados do cinema de hoje. Que não são muitos, como num passado não muito distante.

terça-feira, janeiro 23, 2007

LYGIA E A ANDORINHA, CLARICE E A CARTOMANTE

Lygia Fagundes Telles despertou, de repente, sentindo uma presença estranha no quarto. Estava em Marília (SP), para um Curso de Literatura na Universidade daquela cidade. Ainda estava escuro, acendeu a luz e viu uma andorinha. Coisa mais estranha a avezinha ali, como entrara ali, se a janela estava fechada. Abriu a janela e tentou enxotá-la, mas a andorinha não queria sairi. Primeiro pousou no lustre, onde demorou algum tempo, em seguida na trave dos pés da cama. Lygia ficou observando-a , suave lhe disse que ela estava livre, podia deixar o quarto, mas a avezinha parecia querer ficar em sua companhia. Até que , depois de um certo tempo, voou em direção a janela e se foi. O dia já estava nascendo e Lygia verificou que não dispunha de muito tempo para chegar à Universidade. Quando lá chegou, uma jovem estudante veio ao seu encontro e lhe disse que acabara de ouvir no rádio que Clarice Lispector falecera na noite passada. Lygia ficou um momento sem fala, depois abraçou a moça e disse eu já sabia, eu já sabia.
Na verdade, o que ela sabia era que a grande amiga de muitos anos estava muito mal, numa informação, por telefone, que lhe dera o crítico Leo Gilson Ribeiro, na véspera de viajar para Marília. Depois do o telefonema, começou a recordar a viagem que fizeram à Colômbia para particparem de um Encontro de Escritores. Recordou um problema durante o vôo, quando, de repente, o avião começou a se desgovernar. Apavorada, Lygia tentou disfarçar (ou distrair) o medo, escondendo o rosto num jornal. Mas o medo não deixou de ser percebido por Clarice, que parecia tranquila, pois riu quando buscou o braço da amiga e apertou-o. E lhe falou: "Fique tranquila porque a minha cartomante já avisou, não vou morrer em nenhum desastre". Ao ouvir o argumento de Clarice, Lygia não pôde conter o riso. "A cartomante, Clarice?" Clarice não disse mais nada e logo em seguida, como num passe de mágica, o vôo voltou ao normal e a viagem transcorreu tranquila até chegarem ao destino.
Lygia relata esses dois fatos no seu livro de crônicas Durante Aquele Estranho Chá (Editora Rocco/2002). título de um texto em que narra o único encontro que teve com Mário de Andrade, ela no frescor e na beleza dos 21 anos e ele já pertinho de morrer. Ainda sobre Clarice, transcreve uma entrevista concedida à amiga para um jornal carioca.
DUAS OU TRÊS COISAS SOBRE "HIROSHIMA, MEU AMOR"
O que mais se destaca em "Hiroshima, Meu Amor", que revi há poucos dias em DVD, é a união perfeita entre o cinema e a literatura. E é por achá-lo muito literário que alguns críticos não gostam dessa obra-prima que Alain Resnais realizou em 1959. Mas se é "literário", "Hiroshima" é também cinema e cinema de alto nível. Inovador. A narrativa mistura presente e passado, às vezes num pisca-pisca na memória da francesa (Emmanuelle Riva), artifício que foi muito utilizado depois de "Hiroshima". (Continua sendo utilizado.) Resnais acertou em cheio quando convidou a escritora Marguerite Duras para escrever o roteiro. As falas são de grande qualidade, que só podiam ser escritas por alguém do talento de Duras. De uma grande beleza, até de uma beleza musical, que encontraram em Emmanuelle uma intérprete ideal para dizê-las. Há musicalidade na voz da atriz, como bem observou o crítico Luís Carlos Merten, em depoimento sobre o filme contido nos "Extras" do disco.
É uma bela e trista história de amor. Mas é também um libelo contra a guerra. Impressionante a cena que abre o filme, Os amantes no ato do amor aparecem como se fossem corpos atingidos pela bomba atirada sobre Hiroshima. Só depois é que os corpos são vistos em condição normal e aí "Hiroshima", no diálogo entre a mulher francesa e o homem japones (Eiji Okada), assume uma forma de documentário, para depois entrar a história de amor entre a jovem francesa e um soldado alemão, durante a ocupação nazista na França. Quero chamar a atenção para o que , a meu ver, é a melhor fala do filme. Num restaurante, os amantes estão numa mesa e alguém põe uma antiga música num toca-discos. Ao ouvir os primeiros acordes, a mulher, quase gritando, num comovente desabafo diz: "Ah, eu fui jovem um dia".
Nestas leves impressões sobre um filme que já foi tão dissecado, analisado, elogiado e atacado, por pessoas bem mais autorizadas do que este beradeiro de Canindé, concluo dizendo que gostei ainda mais de "Hiroshima" nessa revisão. Na minha opinião, o melhor Resnais, embora haja os que prefiram "Ano Passado em Marienbad". Enfim, cada um tem os seus gostos, as suas preferências.

sábado, janeiro 20, 2007

PERDAS E DANOS (DAMAGE/1992)

Esta semana revi Perdas e Danos, de Louis Malle, em DVD. A minha impressão sobre o filme manteve-se inalterada, desde que o vi em vídeo há mais de 10 anos. Em vista disso, divilgo aqui o comentário escrito sobre ele num jornal local, naquela ocasião. Ei-lo, com pequeninas alterações.
Não é difícil, para quem acompanha a carreira de Louis Malle, descobrir o que o atraiu no livro de Josephine Hart. A paixão de um homem de meia-idade (Jeremy Irons), ministro do governo inglês, pela noiva do filho, é uma verdadeira caixa de marimbondos em que ele já mostrou, ao longo de sua filmografia, gostar de mexer. Malle sempre revelou uma queda para o ousado, o polêmico, o chocante, desde Os Amantes , quando, no distante ano de 1958, mostrou uma variante do ato sexual, salvo engano pela primeira vez no cinema, que escandalizou o puritanismo da época.
Em Perdas e Danos , subjacente ao tema da paixão entre sogro e nora, há o do incesto, velho conhecido do cineasta, que o abordou em Sopro do Coração (1970), daquela vez entre a mãe e o filho adolescente. Agora a relação é entre Anna Barton e o irmão, de que o espectador toma conhecimento pelo relato que ela faz a Stephen, o sogro. A propósito de Anna Barton, ela me parece o personagem mais interessante do filme. Trata-se de uma mulher, que, contra a sua vontade, leva à destruição ou à morte os homens que se sentem atraídos por ela. Uma espécie de viúva-negra, o que no filme é reforçado pela sua preferência pela cor preta no uso do vestuário. Ninguém mais ideal do que ela para representar o incognoscível na natureza humana, com a aparência frágil, o jeito calmo e sereno e o rosto triste e cândido. E nenhuma outra atriz poderia representar esse personagem como Juliette Binoche.
Mas no personagem de Stephen, também nele, existe um lado secreto, ocultado por trás da aparência externa. Coabitando com aquele homem frio, seco, formal, há um outro que se revela quando ele não consegue resistir a paixão pela nora. É preciso que o filho morra (o filho que reclama uma vez do temperamento do pai), para que ele libere esse lado escuro de sua personalidade (a cena em que Stephen, despido, desce as escadas ao encontro do filho morto, possui uma clara conotação simbólica).
Eu não gostaria de num filme que oferece tantas coisas boas ao espectador, a começar pelo elenco (embora me pareça equivocada a escolha de Miranda Richardson , apenas por sem jovem demais para fazer a mãe de Martyn/Rupert Graves), precisar apontar alguns defeitos, mas, infelizmente, não me resta outra alternativa. É pena que o roteiro tivesse que recorrer a certas "facilidades", com o endosso da direção, para aliciar o espectador menos exigente, fazendo com que se torne previsível a ação de personagens. Como exemplos: a ênfase com que a câmera focaliza o rosto perscrutador da filha adolescente de Stephen, e o close da chave esquecida no lado de fora da porta do apartamento de Anna, quando Stephen vai ao encontro dela e , em seguida, Martyn. No primeiro caso, o espectador é levado à expectativa de que será a garota a primeira pessoa a desconfiar daquela relação secreta; no segundo, de que Martyn chegará ao apartamento da noiva. São defeitos que, se não chegam a prejudicar o filme, retiram-lhe um pouco da força criativa.

quarta-feira, janeiro 17, 2007

CINECLUBE TIROL


Quando cheguei a Natal em 30 de julho de 1965, o Cineclube Tirol tinha quatro anos de existência. Funcionava no salão paroquial da igreja Santa Teresinha, na Av. Rodrigues Alves, a uns 6 quarteirões do centro. Sabendo por um conterrâneo de que havia um cineclube na cidade, me interessei logo em ingressar nos seus quadros. O aspirante a sócio, ao chegar à sua sede, tinha que preencher um questionário composto de umas 7 perguntas. Ou eram 5? Por aí. Era apenas uma formalidade. Das respostas dadas não dependia o seu ingresso no Cineclube Tirol.
O Cineclube Tirol mantinha, desde 1963, uma sessão de cinema semanal numa das salas exibidoras de Natal. Na minha chegada, a sessão era no Rex, aos sábados pela manhã. Pouco depois foi transferida para o Nordeste, aos domingos. Sempre pela manhã, às nove e meia. As reuniões na entidade dependiam da exibição dessa sessão. Enquanto esta foi no sábado, as reuniões se davam aos domingos pela manhã; quando a sessão passou , em definitivo, para os domingos, as reuniões aconteciam no sábado, à noite.
Nas reuniões debatia-se um filme em exibição na cidade. Talvez mais de um, caso houvesse dois filmes em destaque naquela semana. Cada um dos presentes falava das suas impressões sobre o filme. Quase todos diziam alguma coisa. Uns falavam mais, outros menos, e só um ou outro ficava calado (geralmente os neófitos na entidade, que, por timidez, se limitavam a ouvir os mais experientes soltarem o verbo). Havia poucas divergências entre os cineclubistas, sobretudo se o filme era de grande qualidade, realizado por um cineasta maior. Algumas particularidades sobre determinadas situações - era só. Até onde posso confiar na memória, só me lembro de uma séria divergência entre dois cineclubistas sobre um filme italiano, que se estendeu depois da reunião, quando caminhávamos para o centro. Parece que era A Moça com a Valise, de Valerio Zurlini, com Claudia Cardinale. Mais ou menos na mesma época ocorreu um debate em que eu (pobre de mim) fiquei sozinho contra todos os presentes. Nem uma alma caridosa para ficar do meu lado. Todos tinham gostado do filme. Aí me lembro bem do filme: Lilith, de Robert Rossen, com Warren Beatty e Jean Seberg. (Na década de 1990 revi Lilith e não é que gostei? Embora não o tenha achado excepcional. Eu é que estava errado naquela ocasião.)
Os filmes vinham de Recife. Nos meses de janeiro e fevereiro não havia sessão de cinema, por causa da debandada da maioria dos natalenses para as praias. Mas as reuniões continuavam, salvo engano. E aproveitávamos para escolher os filmes que seriam exibidos a partir de março, até junho (em julho também paravam as sessões). Escolhidos os filmes, um dos cineclubistas, nomeado programador, ia a Recife contratá-los. Alguns não conseguíamos e tinham que ser substituídos por outros. Eram filmes já exibidos na cidade em anos anteriores. Mas, às vezes, tínhamos sorte de contratar um inédito em Natal. Um desses casos foi A Grande Ilusão (Renoir), que vi no Rex poucos dias depois de aqui chegar. As sessões levavam muita gente, principalmente quando passaram para os domingos. Ao sair, o espectador já sabia qual seria o filme do próximo domingo. O cartaz ficava exposto ao lado da bombonière. Depois do filme, corríamos para um bar, para falar dele e de outros assuntos.
Em 1968 eu cheguei à presidência. Numa reunião com os companheiros eleitos e demais sócios presentes foi apresentado e aprovado o projeto de criarmos uma sessão noturna às quintas e sextas. Levamos a proposta à gerência do Cine Poti, que topou o negócio. O filme exibido não era o mesmo da sessão de domingo. Isso começou em julho, com Tempo de Guerra (Godard). Entre muitos outros filmes exibidos, me lembro de A Faca na Água. de Polanski, realizado quando este ainda estava na Polônia. O público soube corresponder à nossa arrojada iniciativa, tornando as duas sessões tão concorridas quanto as de domingo. Apesar disso, elas só duraram até o final daquele ano. O cinema não se interessou em continuá-las no ano seguinte.
Em 1969 o Cineclube deixou o salão paroquial e foi se instalar numa sala do SESC, no centro. E já começara o afastamento de alguns companheiros. Moacy arribara para o Rio em 1967, outros, como Bené, deixaram de comparecer às reuniões. Gilberto Stabili, que era o presidente quando ingressei na entidade, ficou, parece, até 1970, depois se mudou para Recife e de lá para São Paulo, onde ainda vive. Em 71 chegou a minha vez. De toda aquela turma boa (com algumas exceções, naturais em todo grupo), permaneceu apenas Paulo Rocha, chamado carinhosamente de Paulocha, um dos fundadores e eterno tesoureiro.
E hoje o Cineclube Tirol "é apenas uma fotografia na parede. Mas como dói"!

domingo, janeiro 14, 2007

A POESIA DE NAPOLEÃO DE PAIVA SOUSA

Apresento a vocês a poesia do norte-rio-grandense de Alexandria, Napoleão de Paiva Sousa. Médico de profissão, Napoleão (meu vizinho)´, além de poeta, é compositor. Os poemas, aqui publicados, fazem parte do livro Depois Comigo, lançado em novembro passado. Todos os poemas que compõem o livro foram digitados em aparelho celular, com um limite de 160 toques caracteres e depois passados para o papel. Por causa dessa limite, eles não têm título e, em algumas palavras, falta uma letra (como na preposição "de", onde é suprimido o "e") , e, às vezes, a supressão é na pontuação. Antes desse livro, Napoleão publicou outro de poesia, Apenas Chegaram, de 1999. Vamos aos poemas.
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Gosto da água
de mar profundo
dos seus olhos
tocando em
mim/Gosto da
linha de
horizonte do seu
sorriso tímido
tão tímido -
como se
pedindo para
fugir nos azuis.
Para Poliana
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Quem vê esses
olhos assim tão
serenos/ Não
imagina quantos
quartos em festa
tem o seu
coração/
Noites & dias
aventurei-me
pela chave
de um deles/
Luz vermelha.
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Chegou linda
deslumbrante
tirânica quase,
inibindo o mais
ousado
sedutor. Ação (é
como se um
diretor, ali, gritasse)
As mulheres de olho:
Qto tempo durará
essa beleza?
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O teu púbis
dourado ao
alcance do olho
da mão da
boca, brinquedo
pronto a
incendiar-se
umedecer-se de
suores, líquidos,
saliva; onde
o meu grito
banha-se, em
fogo.

quarta-feira, janeiro 10, 2007

UM TIPO DE DOENÇA


Quem viu Cinema Paradiso e não esqueceu esse filme encantadoramente nostálgico deve se lembrar de uma expressão dita por um vizinha da mãe do garoto Totó. A mãe, enfurecida depois de ver a filha menor escapar por um triz de ser queimada pelo fogo que atinge sobras de fitas pertencentes ao irmão, que ela pegara para brincar, parte para surrar o filho. É nesse momento que a vizinha solta a expressão "doença do cinema", para recriminar esse veículo que arrasta para o escurinho daquela sala os habitantes da pequena cidade.
"Doença do cinema"? Existe, sim. Ataca milhões de pessoas no mundo inteiro e, o pior, é incurável. E é interessante observar que esses milhões de "enfermos" estão divididos em duas categorias (os que vêem o cinema como um entretenimento - a maioria - e os que o consideram um produto artístico) e embora sejam diferentes, e até antagônicas, as razões que os fazem sucumbir a essa paixão insuperável, aquelas se igualam exatamente por causa do culto a esta. Ou seja, tanto o intelectual quanto o homem comum são atraídos pela magia do cinema.
Anos-luz mais novo do que o teatro, o cinema roubou deste o lugar na preferência das massas, ao mesmo tempo que se tornou um veículo para a outra espécie de espectadores - aqueles dotados de visão crítica.
O espectador comum é ligado especialmente aos atores e atrizes, enquanto o espectador crítico o é ao diretor, embora não deixem de ser admiradores dos intérpretes. Raríssimos diretores conseguem chamar a atenção do cinéfilo comum, mas não pelo mesmo interesse que despertam no estudioso de cinema. Um Chaplin (por causa do personagem Carlitos), um Ford (por causa dos westerns, principalmente os estrelados por John Wayne), um Hitchcock (por causa do suspense que envolme a trama). Talvez um Tati (por causa do personagem Hulot). Quem mais? Dos vivos, talvez Almodóvar. É claro que me refiro aos grandes cineastas.
Com pouco mais de um século de existência, o cinema segue vivo e ainda firme, embora haha perdido muito do seu vigor criativo (sobretudo o americano, hoje, com algumas exceções, subjugado pela violência, o erotismo e os efeitos especiais), devido ao desaparecimento ou à aposentadoria de grandes mestres, responsáveis por o cinema ter adquirido status artístico.
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AMANHÃ, dia 11, esta casota (como gostam de dizer minhas amigas portuguesas) completará 2 anos de "construção". Não posso deixar de agradecer aos que a têm visitado (especialmente aos mais assíduos), por entender que são eles o responsável principal por este blogue ter chegado até aqui. Um grande abraço a todos.

domingo, janeiro 07, 2007

MANOEL VALE


Uma noite de sábado na sede do Cineclube Tirol um estranho se apresentou a mim se dizendo cunhado de um colega meu de trabalho. Apresentei-o aos demais cineclubistas, depois entreguei-lhe um documento para ser preenchido. Era um questionário ao qual devia responder toda pessoa que queria ingressar no Cineclube Tirol. Durante a reunião, em que sempre comentávamos um filme de destaque em exibição na cidade, ele não ficou calado, dando um ou outro pitaco, demonstando não se intimidar diante dos seus futuros companheiros, mais velhos e experientes. E foi assim que conheci Manoel Vale. Uns dois anos depois, ele tornou-se também meu colega de profissão. Não ficou em Natal, indo trabalhar na longínqua Macapá. Lá permaneceu algum tempo e voltou para Natal, mais por problemas de saúde (com pouco mais de vinte anos começou a ter problemas no coração), já que gostara muito de Macapá, sempre relembrando a sua passagem naquela cidade.
Manoel Vale era um personagem. Nascera com um problema visual, que o tornava feio. Baixo, de magro quando o conheci, ficou um tanto gordo, resultado de muita cerveja e muita comida gordurosa. E ainda fumava. Fazia tudo o que não era recomendável para a sua enfermidade. Não sei se era apenas uma opção de vida (vou aproveitar a vida, enquanto posso), ou se procurava a morte. Talvez uma coisa e outra. Não dava a mínima para a saúde. E tinha um cunhado cardiologista, o mesmo que fora meu colega, que deixou o banco para se dedicar à medicina.
Carregava uma mochila no ombro, contendo livros e, principalmente, elepês. Gostava muito de MPB. Quando recebia o salário, percorria as lojas de discos e comprava uma grande quantidade deles. O dinheiro ia embora em pouco tempo, por causa também das suas visitas ao cabaré de Maria Boa e aos bares, e ele, então, vendia os discos adquiridos, só conservando os dos compositores e cantores que mais amava. Um amigo comum, que o acompanhava a Maria Boa, contava que Manoel oferecia livros às raparigas e chegava a recitar para algumas delas os seus poemas. Aliás, ele sempre andava com poemas dentro da mochila, mostrando às pessoas. Não eram de boa feitura. Inteligente, sensível, Manoel, no entanto, tinha pouco talento poético. Sua preferência era pela poesia política (Neruda era um dos seus poetas preferidos) e sabe-se que esse tipo de poesia, tanto quanto a de cunho social, exige de quem a faz um equilíbrio e um controle emocionais que não deixem a poesia virar um panfleto. E Manoel era um passional. Mas chegou a publicar os seus poemas. Um livro magrinho, cujo título parece ser "Viver a Vida". Não tenho bem certeza. Entre inumeráveis amigos e conhecidos a quem dedicou o livro, sou um deles. Ainda o conservo. Só que não sei onde achá-lo, escondido no meio de tantos e tantos livros volumosos.
Naqueles anos sofríamos os horrores de uma ditadura. Manoel era um apaixonado contestador do regime vigente, seja através da maioria dos seus poemas, seja nas conversas. Expunha-se muito e talvez não tenha sentido os efeitos de sua contestação pelo fato de não ser levado muito a sério em tudo o que fazia. Não só no banco, mas fora dele, havia pessoas que riam do comportamento de Manoel, do seu hábito quase diário de mostrar um poema escrito na véspera, até a pessoas que não manjavam um mínimo de poesia, da sua maneira de vestir (como já se aposentara por invalidez, não precisava usar o vestuário exigido para trabalhar) e até do seu defeito visual. Ele não percebia a maldade dessas pessoas, ou, se percebia, não ligava a mínima. Um comentário maldoso e falso sobre Manoel era que tinha uma enorme frustração: não ter sido preso. Via amigos e conhecidos sofrendo nas prisões e ele livre. E pelo banco circulava uma anedota sobre o suposto desejo dele de seguir o infortúnio dos amigos. Contava-se que Manoel, já em desespero, resolveu um dia passar pela calçada de um quartel no centro da cidade (onde onde funciona o Memorial Luís da Câmara Cascudo). Ao passar em frente a um soldado, segurando um fuzil, Manoel disse bem alto, para ser ouvido também por outros milicos que estivessem por perto: "Viva o Comunismo"! Disse e parou, esperando a reação do soldado. Como este se manteve mudo, ele repetiu, com o mesmo tom de voz: "Viva o Comunismo"! E continuou parado, olhando desafiador para o homem. Foi então que o guarda olhou para um lado, olhou para o outro e disse "Viva"! Baixinho. A anedota era contada em meio a risadas.
1984 era um recém-nascido quando cheguei ao banco para mais um dia de trabalho. E logo soube que o coração de Manoel Vale tinha parado na noite anterior, enquanto ele dormia. Fazia pouco mais de um mês que completara trinta e três anos.

terça-feira, janeiro 02, 2007

BREVES CONSIDERAÇÕES SOBRE ANGÚSTIA


Em 2006, "Angústia", de Graciliano Ramos, inteirou 70 anos. A poucos dias de encerrar o ano, li uma vez mais esse terceiro romance do escritor alagoano. Um grande livro, sem dúvida. É considerado por muitos leitores e críticos como o maior de Graciliano. Modestamente, discordo. Essa nova leitura fez com que reafirmasse a minha preferência por "São Bernardo" e, em segundo plano, "Vidas Secas". E conforta-me saber que um crítico da estatura de Antonio Candido não se inclui nessee grupo. Nem como uma obra-prima, AC o considera. Ele chega a dizer no primoroso ensaio sobre a obra de Graciliano, intitulado "Ficção e Confissão" (inserido na edição de "São Bernardo" da Livraria Martins Editora/1972) que "há nele partes gordurosas e corruptíveis [o grifo é meu], ausentes em "São Bernardo e "Vidas Secas". Mestre Candido, no entanto, não especifica essas "partes gordurosas e corruptíveis". Arrisco-me à hipótese da presença de algumas situações, como, por exemplo, o momento em que Luís da Silva esbarra na rua em uma mulher grávida, incidente que ocorre poucas páginas antes de ele descobrir a gravidez de Marina; ou quando Luís da Silva está no quarto com a jovem prostituta e, ao meter a mão no bolso, dá com a caixa onde estão a aliança e o relógio destinados a Marina. Mas as restrições do crítico não indicam que ele não veja grandes qualidades em "Angústia". Nada disso. Além de considerar Luís da Silva como o personagem mais dramático da moderna literatura brasileira, escreve, a certa altura: "Defeituoso no conjunto ["Angústia"] , contém trechos que só podem ser qualificados de admiráveis".
Luís da Silva - um personagem que fica para sempre na lembrança do leitor. E que merece uma análise de um estudioso da Psicanálise. Antonio Candido observa que ele se sente um homem sujo, com a consequente obsessão pela água, tanto que , para o crítico, o banheiro do quintal de sua casa representa um papel importante no livro. Eu acrescentaria que essa conciência de sujeira física não se relaciona apenas à sua pessoa. Luís da Silva sente nojo também dos outros. Num certo momento, ele confessa ter "horror às apresentações, aos cumprimentos, em que é necessário apertar a mão que não sei onde andou, a mão que meteu os dedos no nariz, ou mexeu nas coxas de qualquer Marina". Mais até pelo fato de lhe ter roubado Marino, a sua aversão por Julião Tavares o é pela figura deste. O seu ódio pelo rival torna-se uma coisa obsessiva. E, em consequência, a corda é um objeto que gruda no seu pensamento. Tão intensa essa obsessão que a corda pode ter a sua forma assumida pelo jornal que Julião deixa enrolado na mesa do bar, pela gravata deste, pelo cano dágua que passa pelo seu quarto. Seus ouvidos são continuamente perturbados por ruídos de diversas espécies. E quando comete o crime, instala-se nele a paranóia. Na sua mente enferma, o homem que enche dornas e a mulher que lava garrafas, duas figuras humildes que ele vê diariamente, podem estar ali para espioná-lo. O mendigo que bate à sua porta pode ser um policial disfarçado.
As últimas páginas, em que, febril, Luís da Silva é tomado pelo delírio, é um trecho admirável, certamente entre os que Antonio Candido elegeria em "Angústia" .