terça-feira, janeiro 13, 2009

FREI EDUARDO

Um belo dia apareceu na nossa cidade aquele frade baixinho, um pouco gordinho, usando óculos, com idade regulando pelos trinta anos, no máximo. Chamou logo a atenção pelo jeito comunicativo, falando com todos, até mesmo com as crianças, exibindo uma simpatia e uma descontração que não pareciam postiças. O andar era apressado e bamboleante. Essa última particularidade originou uma piada contada à mamãe por uma amiga, e pela mamãe para outras pessoas. Segundo a amiga da mamãe, o filho dela, que era coroinha, ao voltar para casa depois de uma missa celebrada por Frei Eduardo, disse a ela: "mamãe, agora chegou um frade que celebra missa dançando."
A minha casa ficava no caminho para o convento dos frades. Era raro o dia em que não via Frei Eduardo passar pela nossa rua, pois ele ia à igreja pela manhã e à tarde, como acontecia com a maior parte daqueles frades. Teve uma manhã em que ele estava retornando ao convento no momento em que eu jogava bola com um amigo, na calçada lá de casa. Ele vinha pelo meio da rua, no seu passo característico, quando a bola chutada por um de nós foi em sua direção. Pois não é que aquele frade amorteceu a bola, que, na verdade, não fora arremessada com muita força, e em seguida fez uma série de embaixadas com o pé, de nos deixar de boca aberta? Quando terminou a exibição, Frei Eduardo devolveu a bola para mim com o pé e, sorrindo, disse: "Qualquer dia desses vou bater bola com vocês."
Esse dia, para nossa decepção, nunca aconteceu, e hoje acredito que Frei Eduardo tenha dito aquilo apenas por gentileza. Em todo caso, tive um contato bem próximo com ele, os dois separados somente pela peneira do confessionário. É que por ser Frei Eduardo capaz de atos como o da exibição futebolística, inconcebível em qualquer um dos outros frades, ele foi escolhido entre os meninos para confessor. Era como se cada um de nós o tivesse na conta de um amigo mais velho, que nos deixasse à vontade para confessar os pecados, sem sentirmos vergonha ou temor. Só que comigo (não me recordo se os outros meninos tiveram mais sucesso), o desejo de ter Frei Eduardo por confessor só se realizou uma única vez.
Foi numa tarde, com a igreja quase deserta e Frei Eduardo era o único frade disponível para atender a algum esporádico pecador. Fui desfiando os pecadilhos com desembaraço e a sensação de estar à vontade, como esperava me sentir na presença de Frei Eduardo, exceto quando ele me perguntou se praticava o onanismo. Esse era sempre pra mim o momento mais difícil da confissão, o embaraço, a vergonha refletiam-se na minha voz e na minha pele e não foi diferente com Frei Eduardo.
Houve um breve silêncio depois de confessar o último pecadilho, rompido por Frei Eduardo, que perguntou se ainda tinha algo a revelar. Respondi que não, ele pôs-se a me dar conselhos, a me fazer recomendações, poucos, é verdade, consumindo menos tempo do que os outros frades. Quando fiz menção de me levantar, depois de ouvir a penitência e de receber a absolvição, Frei Eduardo me pediu para esperar e fez aquela pergunta:
"Escuta. Você é irmão da Lúcia?"
"Sou".
"Está bem. Pode ir, meu filho."
Saí da igreja com aquela pergunta me rodando na cabeça. Por que Frei Eduardo quisera saber se eu era irmão da Lúcia? Não tinha como discernir o que sentia, exceto uma sensação de estranheza, que aumentou quando cheguei em casa. Ao responder à pergunta da mamãe se me confessara, acrescentei que me confessara com Frei Eduardo e disse o que acontecera. Percebi algo diferente na expressão do rosto dela, além de um leve rubor.
Frei Eduardo foi embora, Lúcia morreu, eu cresci, arranjei emprego, casei, vieram os filhos, e mesmo com a passagem dos anos não esqueci aquele episódio da minha infância e continuei intrigado com a pergunta do frade. Já morava há muito tempo na capital quando um dia hospedei um irmão bem mais velho, residente noutra cidade, que viera de férias. Na véspera do seu retorno, fomos à noite a um bar na praia. As cervejas já se acumulavam na mesa, estávamos relembrando a nossa cidade do passado (ele a visitara depois de muitos anos ausente), de repente lhe perguntei se se lembrava de Frei Eduardo.
"Me lembro demais. Não só dele, mas de muitos daqueles frades."
O meu irmão ia começar a falar de um vigário que se tornou famoso na cidade por várias de suas atitudes, quando o interrompi:
"Você sabe o que houve uma vez em que me confessei com Frei Eduardo?"
Me lançou um olhar de vivo interesse e falei da pergunta do fradinho, do efeito que ela causara em mim até aquele momento e da reação da nossa mãe. Ele me ouvia atentamente relatar o fato e só falou quando o encerrei.
"Pois eu lhe digo que a atitude da mamãe foi perfeitamente compreensível. Você era ainda um menino que mijava na rede (sorriso do meu irmão), portanto, não sabia dos rumores que se diziam sobre Frei Eduardo com algumas mulheres da nossa cidade. Falavam até da mulher do Hercílio Campos. (Se lembra de Dona Erandir, que vivia na igreja?) Não sei se aqueles rumores tinham algo de verdade; se as pessoas interpretavam maldosamente aquele jeito de ser daquele fradinho. Não sei. Então, a mamãe, que não desconhecia aquele falatório envolvendo Frei Eduardo e algumas mulheres, ao ouvir você contar que Frei Eduardo tinha falado na filha dela, pensou logo que a Lúcia estava dando motivo para andar na boca do povo."
"E ela deu motivo para o falatório das pessoas?"
"Isso eu não sei. E é claro que as pessoas não iam falar na minha frente."
Ficamos repentinamente calados, mas por alguns segundos. O meu irmão voltou a falar.
"A Lúcia também, você deve se lembrar, era uma moça muito comunicativa. Era por isso muito popular em nossa cidade. Talvez aquele fradinho, também muito comunicativo, gostasse da nossa irmã como uma alma gêmea. Talvez não tenha havido nenhuma maldade naquela pergunta. Quê que você acha?"
Disse que não sabia o que dizer. E o meu irmão logo puxou outro assunto.

terça-feira, janeiro 06, 2009

MEUS DOIS AVÔS



Cícero era o nome do meu avô paterno. Os netos não o chamavam de vovô, mas de Pai Cícero. Estive com ele apenas duas vezes, já que morávamos em cidades muito distantes uma da outra. (Meu outro avô também morava numa cidade longínqua, aliás, vizinha à de Pai Cícero.) Mas nunca me saiu da lembrança a visão de Pai Cícero trabalhando, com paciência e habilidade, na feitura de palitos. Fazia aquilo como "hobby", não como ofício, que este era exercido num cartório. Os palitos eram usados na sua própria casa e eram dados aos parentes. Quando voltávamos para a nossa cidade, os levávamos em uma quantidade razoável.
Gostava de ler. Não tenho ideia dos autores que lia, mas tenho quase certeza, por sua pouca instrução, que não eram dos maiores da literatura. E gostava de que os netos lessem para ele. Fazia-o, disso tenho certeza, para avaliar a capacidade do neto. Fui "testado" uma vez. Eu tinha uns nove para dez anos. Um tanto amedrontado diante daquele homem mirrado, mas que impunha autoridade, mesmo involuntariamente, que na cabeça daquele menino devia ter uns duzentos anos, peguei o livro e comecei a ler o trecho que ele indicou. Não me lembro se o trecho era longo, mas não devo ter lido menos que dez minutos. A uma certa altura ele me mandou parar, pediu o livro e disse que podia me retirar. Me afastei sem saber o que o Pai Cícero tinha achado da minha leitura. Só quando já estávamos de novo em casa é que ouvi do papai como tinha me saído no "teste." Pai Cícero tinha gostado, sim. Segundo ele, de todos os seus netos da minha idade, eu era o que lia melhor. Foi o primeiro elogio que recebi na vida. E dos mais sinceros, creio.
Já no físico - alto, magro, mas não muito, espigado - o meu avô materno era muito diferente de Pai Cícero. Um traço marcante de vovô Pirajá era a sua extremada religiosidade. Ao rezar o terço de todas as noites, o fazia ajoelhado sobre caroços de milho (ou de feijão, não me lembro com precisão). Se ouvisse alguém dizer, por exemplo, "ô vento danado," a advertência vinha em cima da bucha: "não diga isso, que o vento é de Deus." Já o conheci muito pobre, vivendo de uma modestíssima venda de gêneros alimentícios, mas possuíra bens imóveis, que foram lhe escapando por uma falta de tino para negócios e, também diziam, pela doação de parte deles à Igreja. Um homem bom, honesto, às vezes, doce, mas que, fácil, perdia as estribeiras. E, zangado, era outro homem, embora mantivesse o controle do uso de palavras chulas.
Em uma de suas visitas à nossa casa, ele soube que uma das minhas irmãs, que fizera um casamento desastroso, levara uma surra do cafajeste do marido. Ah, pra que foram dizer a ele! Indignado ao último grau, vovô Pirajá queria, por fina força, ir à casa da neta tomar satisfações com o marido dela. Foi um custo para o papai demovê-lo da ideia. E, na época, já estava aí pelos setenta.
Mas se o papai conseguiu dissuadi-lo daquela vez, de outra vez foi por ele dissuadido, numa ocorrência em que o envolvido era eu. Foi no mesmo dia da chegada do vovô. Eu tinha feito uma traquinagem qualquer e o papai ia me bater, e foi aí que o vovô se meteu. Primeiro, ele pediu ao papai que dispensasse a punição. Depois, como o genro se mostrasse inflexível, mudou de atitude e disse que não o deixaria fazer aquilo comigo. O papai recuou, atendeu ao sogro, e, se bem me lembro, me disse que agradecesse ao meu avô por não levar uma pisa.
À noite, no meu quarto, antes de dormirmos, vovô me aconselhou a não contrariar mais o meu pai, para não apanhar. Quando ele foi embora, fiquei com medo de que a surra tivesse sido apenas adiada. Mas a raiva do meu pai já tinha passado e a travessura ficou por isso mesmo. Obrigado, vovô Pirajá!

terça-feira, dezembro 30, 2008

POEMA DE FIM DE ANO DE MÁRIO QUINTANA

Quadro Esperança, do pintor inglês George
Frederick Watts (1817-1904)
* * * * * * * * * * * * * * *
Esperança
Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano
Vive uma louca chamada Esperança
E ela pensa que quando todas as sirenas
Todas as buzinas
Todos os reco-recos tocarem
- Ó delicioso vôo!
Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada,
Outra vez criança...
E em torno dela indagará o povo:
- Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?
E ela lhes dirá
(É preciso dizer-lhes tudo de novo!)
Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:
- O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA...
* * * * * * * * * * * * * * *
Extraído de "Literatura Comentada - Mário Quintana
Abril Educação, 1982.

terça-feira, dezembro 23, 2008

OS MELHORES FILMES DE 2008

Cena de "Contos de Tóquio".

A exemplo dos anos anteriores, estou divulgando aqueles que considero os melhores filmes do ano que está se findando, segundo os princípios que regem uma lista individual, sujeita, portanto, a questionamentos naturais. Na verdade, são duas listas: uma para filmes inéditos, outra para filmes revistos, num total de 16 títulos. E, ao contrário dos anos anteriores, os filmes de ambas as listas estão relacionados em ordem preferencial. Ei-los.

INÉDITOS

1 - Contos de Tóquio (Yasujiro Ozu/1953)

2 - Arca Russa (Alexandr Sokurov/2002)

3 - Pai e Filha (Ozu/1949)

4 - A Carruagem de Ouro (Jean Renoir/1952)

5 - Amor à Flor da Pele (Wong Kar-Wai/2000)

6 - Medos Privados em Lugares Públicos (Alain Resnais/2006)

7 - A Comédia do Poder (Claude Chabrol/2006)

8 - Homem Mau Dorme Bem (Akira Kurosawa/1960)

9 - Consciências Mortas (William Wellman/1944)

10 - Estranha Compulsão (Richard Fleischer/1959)

REVISTOS

1 - A Dupla Vida de Véronique (Kieslowski/1991)

2 - Laura (Otto Preminger/1944)

3 - Contos da Lua Vaga (Kenji Mizoguchi/1953)

4 - Os Duelistas (Rydley Scott/1977)

5 - Minha Vontade È Lei (Edward Dmytryk/1959)

6 - Uma Rua Chamada Pecado (Elia Kazan/1951)

terça-feira, dezembro 16, 2008

A MALDADE HUMANA

Cena de "A Queda - As Últimas Horas de Hitler" (Oliver Hirschbiegel/2004)




Segundo o teólogo francês João Calvino, que rompeu com a Igreja Católica e criou a seita protestante que leva o seu nome, "o homem é de todo incapaz de salvar a si mesmo, pois ele é totalmente mau." Não concordo que uma pessoa seja totalmente má, assim como não existe alguém totalmente bom. É impossível penetrar nos escaninhos da natureza humana, onde se guarda o incognoscível de um homem, e, por isso, é comum nos surpreendermos com um ato indigno de uma pessoa por todos reputada como boa, e com um exemplo de bondade de alguém tido e havido como mau.

Há alguns anos li no caderno "Idéias" do Jornal do Brasil uma matéria sobre Hitler, melhor dizendo, um ato de Hitler que surpreenderia qualquer um que sabe do ódio que ele tinha aos judeus, ódio esse que custou a vida de milhões deles. Pois, conforme essa matéria, uma determinada família judia foi poupada por Hitler dessa sua insana perseguição. Tanto tempo já que li o texto que não me lembro mais nada sobre ele, a não ser que a família nunca foi molestada pelos nazistas. Não me lembro, por exemplo, se foi revelado o motivo que levou Hitler a preservá-la da perseguição (é possível que sim, ou, se não, pelo menos a proposição de hipóteses para o ato).

Ainda sobre Hitler. O filme alemão "A Queda - As Últimas Horas de Hitler" promove uma certa humanização da sua figura. Embora em nenhuma ocasião o filme nos induza a esquecer, um tantinho que seja, as inomináveis atrocidades por ele cometidas, há momentos em que chegamos até a sentir um pouco de pena daquele homem (admiravelmente interpretado por Bruno Ganz), tão cheio de poder até pouco tempo antes, sentindo a derrocada do seu império e afetado gravemente pelo Mal de Parkinson.

Em seu livro de memórias "Infância", Graciliano Ramos fala de um homem de sua cidade chamado Fernando. Um tipo que, já no aspecto físico, dava medo nas pessoas, com o "olho duro", a "voz áspera", grosseirão, "o ar de insuficiência e impostura", os modos, e tantas outras coisas negativas que deixaram uma das recordações mais desagradáveis em Graciliano. Sim, não sorria. Mas além do aspecto físico, Fernando era um homem mau. Valendo-se do parentesco com o manda-chuva do lugar, fazia as piores maldades, entre elas a de desvirginar moças humildes que depois se prostituíam. Na percepção do menino Graciliano, não havia mais ninguém tão mau no mundo. E quando leu em um "dicionário encarnado" que Nero tinha sido o maior dos monstros, duvidou: maior do que Fernando? Mas Nero nunca lhe havia feito mal, ao contrário de Fernando, que o atormentava. E a leitura o deixou embaraçado. O seu conterrâneo "talvez não fosse o pior monstro da terra, mas era safadíssimo."

Pois um dia Graciliano assistia na loja do pai ao trabalho dos dois empregados abrindo caixões de mercadorias. Fernando também estava presente, cochilando num banco. Depois de concluída a tarefa, com as mercadorias distribuídas, uma tábua com pregos fora esquecida no chão. Já desperto, Fernando viu a tábua, apanhou-a, pegou dum martelo e pôs-se a entortar os bicos dos pregos. Enquanto isso reclamava do desleixo dos empregados. "Se uma criança descalça pisasse naquilo?" Diz Graciliano que não acreditava no que via e ouvia, chegando a pensar que um milagre acontecera. E julgou-se injusto por considerar um monstro quem se preocupava com que as crianças pudessem cortar os pés. E conclui o capítulo" "Talvez Nero, o pior dos seres, envergasse os pregos que poderiam furar os pés das crianças."








terça-feira, dezembro 09, 2008

UM EMBLEMA DA MINHA INFÂNCIA


Não havia trem em Canindé. Fui conhecer o trem em Itapiúna, cidade próxima. Ele saía de lá com destino a Juazeiro do Norte, terra da minha mãe. Eu viajava na companhia dos meus pais. Era um dia ou pouco mais de viagem, pois tínhamos que pernoitar em Senador Pompeu. Aí chegávamos no começo da noite, dormíamos e tomávamos de novo o trem perto do amanhecer.
Uma viagem longa, mas que ainda hoje lembro com saudade. E a memória guardou algumas lembranças daquelas viagens. O vagão lotado, o ruído de pessoas conversando, o condutor uniformizado, de boné, que pedia ao papai as passagens para marcá-las com um objeto parecido com um alicate - o mesmo homem, acho, que atravessava os vagões anunciando o nome da próxima estação. Alguns daqueles nomes ficaram para sempre nos meus ouvidos: Acopiara (o de que mais gostava), Missão Velha, Cedro, Iguatu. Quando o trem parava em uma estação, apareciam os vendedores de guloseimas, anunciando-as em vozes altas que se misturavam, causando uma enorme zoada.
Em Juazeiro nos hospedávamos na casa dos meus avós maternos. Eles moravam longe do centro, em um lugar pouco habitado. À frente da casa passava um trem mais de uma vez por dia. Era ouvir aquele apito e correr para assistir, os olhos atentos e brilhantes, à passagem do trem.
Acho que foram somente duas viagens. Vamos botar três. De uma delas me recordo especialmente de um fato engraçado. O meu irmão abaixo de mim, nos seus quatro/cinco anos, às vezes ao avistar uma casinha solitária, dizia pro meu pai, fazendo-nos rir: "papai, a gente podia ir morar naquela casa."
Já adolescente fiz uma viagem, sozinho, de trem. Estava de férias escolares e fui passar uns dias com um irmão solteiro que trabalhava, por coincidência, em Senador Pompeu, a cidade onde o trem da minha infância parava para o pernoite. Não sei por que, não me lembro nada dessa viagem.
Foi a penúltima vez que andei de trem. A última aconteceu quando já morava em Natal. Dessa vez peguei o trem em Fortaleza, acompanhando minha mãe que ia visitar Juazeiro. Achei longo e cansativo o percurso. E, no entanto, era-o muito menos do que quando saíamos de Itapiúna para o mesmo destino. Devo isso, creio, à conta dos meus vinte e tantos anos, quando já tinham ficado para trás a infância e tudo aquilo que fazia parte dela e me dava uma sensação de felicidade que nunca mais pude experimentar. Por isso sempre que vejo um trem, hoje apenas e de raro em raro na televisão, ou num filme, remeto-me à infância. Foi ele um dos emblemas daqueles tempos. Assim como o circo, a praça da Basílica, o Cine Canindé, os gibis, as peladas.

terça-feira, dezembro 02, 2008

MISCELÂNEA





- A FM Universitária é uma exceção entre as rádios de Natal. Tem uma programação musical de qualidade (embora a repetição das músicas), divulga a poesia, apresentando trechos de poemas de poetas do RN e de outros estados, dá dicas sobre o comportamento dos motoristas no trânsito, informa os eventos culturais na cidade, tem um noticiário curto de hora em hora, além de outros atrativos. Mas há uma coisa que me irrita sempre que o locutor fala de um compositor ou cantor da terra (em geral, os dois são o mesmo), ou é posta no ar a composição. É aquilo de dizer "música potiguar brasileira". Por que acrescentar "brasileira" a "potiguar"? Existirá uma música potiguar queniana? Finlandesa? Ou hondurenha? Gostaria de conversar um dia com alguém ligado à rádio, para que ele me explique a razão dessa redundância.


- Desde que me entendo por gente, conheço a expressão "correr risco de vida" em referência a alguém que sofreu algum tipo de acidente. De uns tempos para cá os telejornais estão substituindo-a por "correr risco de morte". É incorreto o novo uso? Acho que sim se atentarmos para o detalhe de que na expressão podem estar ocultas as palavras "perder" e "a". Fulano corre (ou não corre) risco de perder a vida. Assim, risco de morte não terá sentido, pois não é possível perder a morte. Se os telejornais não mais empregam a expressão, por a entenderem errada, ou caduca, nada mais simples que usarem o verbo "morrer". "Fulano corre (ou não corre) risco de morrer". É o que penso.
- Luís da Câmara Cascudo e Graciliano Ramos trocaram cartas e livros durante um certo tempo. Na primeira oportunidade em que foi ao Rio, Cascudo conheceu o escritor. Ficaram amigos. Em um dos encontros dos dois, com aquele azedume característico, Graciliano desceu a lenha na falta de hábito de leitura do brasileiro. "Ninguém lê nessa terra. Gente rica não compra livro. Você encontra numa casa de luxo vinte penicos de porcelana, mas nem um volume. Se os encontrar, estão encadernados e arrumados como enfeites de salão". (Mestre Graça, o panorama não mudou, ou mudou muito pouco, quase nada.) De outra feita, ao ouvir do potiguar o antigo desejo de escrever um romance, mas da "impossibilidade mental" de pôr mãos à obra, Graciliano disse com o mesmo mau humor e aquela franqueza desconcertante: "Pois não escreva! Fique no seu natural até o fim. Esse Rio de Janeiro está fervilhando de romancistas que nasceram para outra coisa". E disse "coisa" numa linguagem que Cascudo preferiu omitir no livro que relata esse contato entre o potiguar e o alagoano, dois dos maiores intelectuais que o Brasil produziu ("O Tempo e Eu", há pouco reeditado pela EDUFRN).
- Há uns três meses estava em uma clínica para marcar uns exames solicitados pelo meu cardiologista. Enquanto aguardava ser atendido, reparei em uma moça sentada a meu lado. Com uma pasta grande e demonstrando intimidade com as atendentes, deduzi que trabalhava em um laboratório. Tive a confirmação ao perguntar a ela e disse que já havia visto mulheres ocupando diversas funções, antes restritas aos homens, mas era a primeira vez que me deparava com uma representante de laboratório. Foi então que uma das atendentes, sorrindo, e puxando brasa para a sua sardinha (ou o seu sexo), afirmou: "As mulheres estão bombando". Já ouvira antes essa palavra, mas dita por um homem, e achei que o significado tinha uma conotação maliciosa. Dita, porém, pela mocinha, entendi que "bombar" é, como se dizia há muitas décadas, estar com tudo e não estar prosa. Não me agrada essa palavra. Acho-a vulgar, de mau gosto. Desconfio que foi veiculada por uma novela da Globo. Tomara que ela dure o tempo em que durar a novela.

terça-feira, novembro 25, 2008

CONTOS DE TÓQUIO ( Tokio Monogatari/1953)




Também conhecido por Viagem a Tóquio e Era Uma Vez em Tóquio, esse filme de Yasujiro Ozu (Pai e Filha, já comentado aqui), aborda a questão dos relacionamentos familiares, centrando-se na conduta do filho Koichi (Sô Yamamura) e da filha Shije (Haruko Sugimura) para com os pais, Shukishi (Chishu Ryu) e Tomi Hirayama (Chieko Higashiyama), que saem de sua longínqua cidade para visitá-los em Tóquio - conduta a que assistimos com um misto de pena pelo velho casal e de reprovação, que pode chegar até à indignação. Não há alegria, não há prazer pela visita da parte dos dois filhos. O que há é uma sensação de incômodo até certo ponto dissimulado, uma indiferença, uma falta de dedicação aos pais, confinados na casa do filho, sem que lhes seja mostrada a cidade, situação que chega ao ponto extremo de eles fazerem o casal passar uns dias em um hotel. E por os velhos não comentarem entre si a atitude dos filhos (a única observação que Shukishi faz à esposa é quanto à descoberta de que Koichi é um um "médico de subúrbio", que não se realizou, portanto, na profissão), fica-se com a impressão de de que eles não a sentem. Mas é uma impressão falsa, como se verá perto do final do filme.
Essa viagem só não se torna um desastre completo por causa de Noriko (Setsuko Hara), a nora viúva. É ela que leva os ex-sogros para um passeio pela cidade em um ônibus turístico e abriga Tomi em sua casa uma noite, quando deixara o hotel com o marido, perturbados com o barulho da noite anterior. Aliás, a chegada inesperada dos pais à casa da filha, onde funciona o seu salão de beleza, proporciona uma situação constrangedora para Shije, que os manda esperá-la em um cômodo da casa e, perguntada por uma cliente quem são os visitantes, se envergonha de revelar que são seus pais, fazendo-os passar por uns "amigos do interior."
É Noriko, a meu ver, o personagem mais "forte", por concentrar em si o que de mais humano há no filme, em que pese o realce dado ao casal de velhos. É ela que proporciona à ex-sogra o único momento agradável em sua estada naquela Tóquio de forte calor (um detalhe: na maior parte de Contos de Tóquio, o casal está se abanando com um leque, o que pode ser um contraponto à frieza do comportamento dos filhos), quando passam a noite juntas. E enquanto os dois filhos mais velhos e o mais novo, Keiso (Shiro Osaka), este residindo em Osaka (e que se atrasa na viagem para visitar a mãe doente, já a encontrando morta) retornam para suas cidades logo depois do sepultamento da mãe, Noryko fica mais um pouco, fazendo companhia ao viúvo e a Kyoko, a solteira ex-cunhada.
E os dois velhos não ficam imunes ao tratamento que recebe dela. Ainda em Tóquio, Tomi a convida para visitá-los e chega a aconselhá-la a voltar a se casar. E Shukichi presenteia-a com o relógio da esposa, um relógio antigo que ela usava desde jovem. É nessa cena entre os dois que, afinal, Shukichi se queixa da conduta daqueles filhos, confrontando-a com o comportamento dela. A Noriko é dedicada uma das últimas imagens dos filme: no trem de volta para Tóquio, ela retira o relógio da bolsa, olha-o rapidamente, e, em seguida, o rosto assume uma expressão séria, reflexiva.
Com a exposição de sentimentos e emoções vários, cujo clímax é a morte de uma mulher sofrida, o filme corria o risco de descambar para o melodrama, não tivesse o diretor a capacidade de Ozu de driblá-lo em razão do seu temperamento artístico, que compunha a sua maneira (ou o seu estilo) de conduzir a história. Ozu conseguia controlar os excessos dramáticos, mesmo quando a cena, o momento continham uma forte carga emocional (observe-se o choro, talvez mais provocado pelo remorso, de Shije quando a mãe morre, ou o desabafo de Kyoko a Noriko, reprovando a atitude dos irmãos que partem pouco depois de Tomi ser enterrada, além do interesse da irmã em se apossar do xale e do quimono da falecida). Além disso, ele enfatizava os silêncios, revelando através dos rostos dos atores as expressões dos seus sentimentos. Ou seja, uma contenção, um despojamento (também na forma), em privilégio da sobriedade, da contemplação, da reflexão. Em sua narrativa havia sempre a presença de elementos que, se não se vinculavam ao enredo (estranhos caminhando, uma embarcação na água, uma paisagem, etc.), mostravam o cotidiano, a vida que vai passando.
O lançamento em DVD de alguns filmes de Ozu é um fato a ser comemorado pelos cinéfilos, que têm a oportunidade de conhecer a obra de um dos grandes mestres da cinematografia. E, entre outras obras-primas, Contos de Tóquio é provavelmente a principal delas.

terça-feira, novembro 18, 2008

CAETANO, MACHADO E UM PROFESSOR DE FÍSICA





Em 1970, quando vivia em Londres, ao abrigo da perseguição da ditadura militar, Caetano compôs a música "Como Dois e Dois" e a enviou para Roberto Carlos. Lançada no ano seguinte, a composição fez muito sucesso, como também o elepê do qual fazia parte. Além da sua qualidade, como quase tudo que Caetano fez, da boa interpretação de Roberto Carlos, suspeito que o sucesso de "Como Dois e Dois" se deveu também a uma frase da letra que dizia "tudo certo, como dois e dois são cinco". Os mais intelectualmente dotados perceberam na frase (não só nela, como em toda a letra, mas especialmente nela)) uma crítica à situação do país naquele momento, cujo ditador era Médici, o mais sanguinário entre os seus pares que estiveram no poder. Já os menos dotados não compreenderam aquela frase, ou não a levando a sério, ou se indignando pelo fato de que ela que subvertia uma verdade matemática.


Mal sabiam eles, inclusive creio que os que compreenderam o seu significado, que Machado de Assis já usara a frase em uma crônica de 15 de março de 1896 (W. M. Jackson Inc. EDITORES/1962). Setenta e quatro anos antes, portanto, do compositor baiano. Em suas crônicas, Machado falava de mais de um assunto, às vezes até quatro assuntos. Nessa, justamente, ele dizia que o fato de não terminar um texto com o tema que o iniciara levava os "inábeis" a pensar "que falta ao escritor lógica ou convicção, quando o que unicamente não há é tempo de fazer outro artigo". E acrescenta: "No meio ou no fim, percebe ele que começou por um dado errado, mas o tempo exige trabalho, o editor também, e não há senão concluir que dous e dous são cinco".


Quase caio das nuvens ao ler isso há poucos dias, o que, para Machado, é melhor do que cair de um terceiro andar. E me veio a suspeita de que Caetano fora buscar no nosso maior escritor a frase de sua composição. Ele devia conhecer a crônica. Ou ter ouvido de alguém que a lera. Penso assim porque é Machado o seu escritor preferido da literatura brasileira. Bom, pelo menos o era na década de 1990, quando revelou isso em uma entrevista à Folha de São Paulo. Revelação que me deixou surpreso, porque supunha que o seu eleito fosse Guimarães Rosa, ou, quem sabe, Oswald de Andrade.


Quando surgiu "Como Dois e Dois", de imediato me veio à lembrança uma aula de Física nos meus tempos de estudante em Fortaleza. O professor já havia terminado de expor a matéria, e ficou conversando com os alunos, aguardando o soar da sirene para deixar a classe. Ele era muito alvo, pequenininho quase como um anão de Velazquez (assim se referia Nelson Rodrigues nos seus escritos a alguém de estatura muito baixa), meio gaiato, sempre fazendo suas piadinhas. Boa gente e competente. Se não tiver morrido, está aí beirando os noventa.Foi quando um colega lhe perguntou se era verdade que dois mais dois não eram quatro, como ele lera ou ouvira alguém dizer, não me lembro com precisão. O professor respondeu afirmativamente e disse que iria prová-lo. Foi para o quadro-negro, pegou do giz e começou a sua "aula". Devem ter se passado uns dez minutos, o quadro-negro foi se atulhando de números e fórmulas. Enquanto isso, todos nós o acompanhávamos com atenção e já ansiosos na expectativa de saber o resultado de dois mais dois. Não deixara um só instante de falar, dando explicação para cada detalhe do seu trabalho. Quando concluiu, o que vimos ali no quadro-negro quase cheio foi que dois e dois são... são.... são... TRÊS. Pois é.

terça-feira, novembro 11, 2008

CAMINHADAS


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Quando o meu joelho esquerdo não está muito dolorido, por conta de uma artrose que convive comigo há mais de vinte anos, faço minhas caminhadas diárias. Hoje caminho à tarde, com o sol já perto de ir embora, amenizando um pouco a temperatura que começa a subir nesta época do ano. De uns tempos para cá escolhi a Praça das Flores para andar, que fica a um quarteirão e meio do meu edifício. É um nome bonito o da praça, porém inadequado. Fico sem entender a escolha do seu nome, pois não existe uma única e escassa flor por lá. Mas quem é que vai entender o que se passa na cabeça dos nossos governantes? Apropriado seria Praça das Árvores, pois estas existem em bom número no local.
A praça está sempre povoada. Pessoas aglomeradas na parada de ônibus, pessoas que moram ali perto e a atravessam, indo ou vindo de suas residências, umas poucas, em certos momentos, formando fila em frente a um terminal de caixas eletrônicos. E há os alunos de ambos os sexos que, àquela hora, estão saindo da escola pública em frente à praça. Alguns deles não vão direto para casa e ficam nos bancos, barulhentos nas suas conversas e nas risadas que soltam, muitas vezes sem uma razão plausível. Mas isso é próprio da idade. Aqueles que um dia foram jovens, já riram assim. Já encontrei em certos dias três ou quatro meninos apostando corrida em suas bicicletas, que me fizeram voltar a noites remotas, quando, na idade deles, apostava corrida, a pé, na Praça da Basílica da minha cidade.
Entre todos que estão ali àquela hora, sou o solitário que caminha para se exercitar. Um ou outro aparece, mas apenas passa por um recanto da praça, já vindo de outros lugares e, certamente, retornando para sua residência. Havia um senhor que escolhera a praça para o mesmo fim, logo que comecei a freqüentá-la. Já velho, com os seus oitenta anos, um pouco mais, um pouco menos, mas a com o andar ainda firme. Sempre que cruzávamos pela primeira vez, nos cumprimentávamos de cabeça. Mas há muito tempo ele não aparece. Terá morrido? Ou escolheu outro local para suas caminhadas?
Há poucos dias apareceu uma senhora em uma cadeira de rodas. O seu exercício já devia estar quase no fim quando cheguei à praça, pois passei por ela apenas duas vezes. Mais velha, creio, que aquele senhor, parecia não se dar conta do que fazia ali, nem onde estava. E apoiada a um ombro uma boneca. Fiquei pensando, então: nos primeiros meses de vida, em seus primeiros contatos com o mundo, aquela velha e enferma senhora devia levar também uma boneca no carrinho empurrado pela mãe, ou a babá, sem igualmente se dar conta de nada. Não a vi mais depois desse dia.
Ao sairmos de casa nos deparamos com pessoas de toda espécie. E acontecem coisas também de toda espécie. Algumas engraçadas, como a que vou relatar. Quando ainda caminhava de manhã, geralmente aí pelas nove horas (nunca gostei de caminhar cedinho), encontrei uma jovem de uns quinze, dezesseis anos. No máximo, dezoito. Eu andava pela calçada de onde se vê o mar, ela estava recostada a um poste. A qualidade do vestido denunciava a sua classe social. Devia estar ali para alugar o corpo a algum homem. Mas, coitada, não era uma tarefa fácil consegui-lo - a seu favor só a idade, pois, além da falta de atrativos, aparentava um ar de desasseio. Ao passar pela jovem, ela me fez a proposta. Era bastante ficar calado, como uma resposta negativa, mas eu estava de bom humor e, olhando o relógio, lhe disse que estava muito cedo... Disse isso sem parar, para não perder o ritmo da caminhada. E aquela jovem, que provavelmente àquela hora estivesse de estômago vazio, replicou às minhas costas: "E tem hora pra essas coisas, danado"? Não pude deixar de rir. E enquanto continuava andando, pensei em quanta sabedoria havia nas palavras da mocinha analfabeta, ou quase . Não tem mesmo hora pra "essas coisas".

quarta-feira, novembro 05, 2008

DEPOIS DO VENDAVAL (The Quiet Man/1952)


Se Depois do Vendaval, evidentemente, não é o maior filme de John Ford, mesmo, talvez, entre os não-"westerns", é, sem dúvida, o mais encantador de todos os que realizou. E me arrisco a considerar que foi o que lhe proporcionou a maior satisfação, o que lhe deu mais alegria ao dirigi-lo. Se penso assim é porque esse filme, cuja fonte é o romance homônimo do irlandês Maurice Walsh, que Ford sonhou por muitos anos em transportá-lo para a tela, ensejava ao cineasta um encontro nostálgico e sentimental com a Irlanda dos seus pais; não a Irlanda convulsionada pela luta política de O Delator ("The Informer"/1935) e Horas Amargas ("The Plough and the Stars"/1936), mas a dos costumes arraigados, das belas paisagens, das canções românticas e humorísticas, da humanidade dos seus nativos. Esse o aspecto da terra dos seus ancestrais que Ford queria abordar, e, para que esse contato fosse o mais estreito e genuíno possível, ele foi filmar no próprio local. E o regresso de Sean Thornton (John Wayne) à sua terra, de onde emigrara para a América ainda criança, é como se também fosse o regresso do diretor. (Aliás, como chamaram a atenção os críticos Moniz Vianna e Francisco Luiz de Almeida Salles, o prenome do personagem e do diretor é o mesmo, pois o nome de batismo de Ford é Sean O'Fienne.)
O encanto, a graça, o humor não são obscurecidos mesmo nos momentos de hostilidade entre Sean e o cunhado Will Danaher (Victor McLaglen). Nem na divergência entre Sean e Mary Kate Danaher (Maureen O'Hara), por causa do dote que é negado a ela pelo irmão, ao se casar. Enquanto não receber tudo a que tem direito, ela será uma esposa dedicada apenas à administração da casa e aos cuidados com o marido. Essa obstinação de Mary Kate é um componente da personalidade do herói fordiano - a forte determinação em lutar para alcançar algum objetivo. Por outro lado, a atitude do marido em não dar importância à posição da sua mulher configura outra divergência (talvez fosse melhor dizer um choque), essa de natureza cultural, entre a terra onde ele nasceu e a em que morou durante muitos anos.
Na verdade, só há um momento dramático em todo o filme: quando Sean, derrubado por um soco de Will, na recepção após o casamento, relembra, num rápido "flashback", a morte do adversário na luta de boxe. A diferença entre essa curta cena e as demais é pontuada pelo realce do vermelho. Até na longa briga entre os dois homens, uma das seqüências antológicas do cinema, a violência é quase obscurecida pelo humor que aparece em certos detalhes, como quando o velho Tobin (Francis Ford, irmão de John), já moribundo, de repente, ao ouvir o rumor da briga, salta da cama e deixa a casa para não perder o "espetáculo".
Entre tantos personagens marcantes de Depois do Vendaval, Michaleen Oge Flynn (Barry Fitzgerald em soberba atuação) é o mais atraente. Casamenteiro por profissão, grande apreciador de um trago, a sua presença torna-se o elemento principal na deflagração do humor no filme por suas tiradas engraçadíssimas.
O final concentra praticamente todo o elenco ao ar livre, em seguida à passagem da carroça de Michaleen conduzindo o casal de namorados Will e a viúva Sarah Tillane (Mildred Natwich). Ao aplaudirem o casal, alguns fazem acenos com a mão e uma atriz faz uma curvatura, erguendo de leve o vestido. O gesto deles passa a impressão de que também estejam saudando o espectador, ao término de uma representação teatral. È quando Mary Kate diz algo ao ouvido de Sean, que faz um aceno positivo com a cabeça e solta uma vara que tinha na mão, ela se afasta em direção à casa, seguida pelo marido. (Não é preciso ser muito arguto para se entender o significado da cena.) Logo em seguida aparece o THE END, encerrando um filme, em que a direção, o roteiro, o enredo, o elenco, a fotografia e a música se aliam perfeitamente para deixar o espectador muito próximo do êxtase depois de vê-lo.

quarta-feira, outubro 29, 2008

PERSONAGENS

Quando trabalhei em Fortaleza, de maio/1972 a junho/74, tive como colega José Moura, tratado por Mourinha. Era o contínuo da seção. De uma fealdade que chamava a atenção: corpo mal-ajambrado, olhos abugalhados e o nariz despencando para a boca. Mas uma figura humana muito interessante, pronta para fazer parte de um texto de ficção. Uma de suas facetas era a de mudar o nome de alguns colegas. Não o fazia com todos, e nunca com os superiores. Poucos dias depois em que comecei a trabalhar na seção, ele me achou com cara de Romualdo e assim me chamou durante os dois anos em que ali fiquei. Um colega, Esdras, foi por ele "batizado" de Luís.
Mourinha nem sempre era bem-humorado. Tinha, às vezes, atritos com algum colega, invariavelmente relacionados com o trabalho. Eu fui um deles. Passamos uns dias sem nos falar, mas depois voltamos às boas.
Duas ou três vezes deixou o birô dele e veio tirar dois dedos de prosa comigo. Numa delas, não me lembro a propósito de quê, começou a falar sobre a ex-esposa. Revelou que mantinham um bom relacionamento, se visitando regularmente. Pelo que depreendi da conversa, ainda conservavam, se não amor, um carinho especial um pelo outro. E se era assim, não entendia por que haviam se separado. E perguntei, não podendo conter a curiosidade: "Mourinha, e por que vocês se separaram"? E Mourinha, com um meio-sorriso, respondeu com a maior naturalidade: "Porque não gostava das comidas dela". Pode uma coisa dessas?
Tive outro colega de personalidade também muito interessante, esse em Natal. Nestor guardava, parece que na carteira de cédulas, uma carta antiga, para afugentar algum colega que lhe viesse pedir um empréstimo. Mal o coitado terminava de falar, Nestor tirava a carta e o mandava ler. Naquele papel eram mencionados os motivos pelos quais não emprestava dinheiro. Não sei que motivos eram esses, pois nunca tive acesso àquela carta.
Calvo, de volta de umas férias, apareceu de peruca. Foi uma diversão para todos. E ele contava por que, afinal, resolvera esconder a careca. Mas não usou a peruca por mais de uma semana, talvez nem isso. Um dia chega Nestor sem ela e, do mesmo modo como fizera quando apareceu com a peruca, deu várias justificativas para deixar de usá-la.
Fã dos faroestes italianos, quando estes estavam em voga, quase sempre que assistia a um deles vinha no dia seguinte me contar parte do filme, divertindo-se ao falar das cenas inverossímeis.
Na minha cidade havia um barbeiro chamado Isaías. Como todo barbeiro que se preze, Isaías conversava que nem o homem da cobra. Além de barbeiro, exercia as funções de leiloeiro nas festas religiosas. E se gabava de ser bom nessa modalidade. Uma vez eu e uns amigos estávamos num banco da Praça da Basílica, onde se realizava um leilão. Isaías não tinha sido convidado. Ele chegou perto da gente e começou a fazer críticas ao rival. Ao mesmo tempo, revelava as regras para a pessoa se tornar um bom leiloeiro. Em tudo aquilo havia a ponta de um despeito por ter sido preterido.
Mas eu queria falar especialmente de um fato ocorrido com ele, que o papai não se cansava de contar. Uma feita, uma romeira entrou na barbearia para cortar o cabelo do filho pequeno. O menino devia estar com o cabelo muito crescido e a mãe, talvez, não quisesse que ele fosse com aquele cabelo visitar São Francisco de Canindé, como os romeiros chamam o santo de Assis. Isaías mandou a mulher sentar e colocou o garoto na cadeira. Mal começou o serviço, perguntou à mãe: "Que mal pergunte, vosmecê é de onde"? "De Teresina". "De Teresina"? Como se a mulher tivesse dito que morava na lua, Isaías parou, virou-se para a mulher, com a tesoura na mão, e perguntou: "É verdade que lá tem uma devassidão danada"? E a mulher: "Meu senhor, eu não sei dessas coisas, não. Sou uma mulher casada, que vivo na minha casa". Isaías retomou o corte do cabelo e entrou noutro assunto.
Mourinha, Nestor, Isaías - três personagens à procura de um ficcionista.

quarta-feira, outubro 22, 2008

ELA NÃO GOSTAVA DE CHICO BUARQUE


Chico e Paulinho da Viola em um boteco, no início dos anos
1970.
Foto in http://veja.abril.com.br/

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Onde andará Mariazinha? Me faço a pergunta, como naquele samba de Ataulfo. Embora não tenha sido o meu primeiro amor. Nem foi um namoro de longa duração, mas que me marcou de uma certa maneira - só me agora me dou conta.
Mariazinha. Talvez o que tenha me atraído primeiramente nela foi o nome. Tinha como certo que era Maria e, como todas as Marias, acrescido de um outro nome - Maria das Graças, por exemplo. E nesse caso seria chamada de Graça, como é comum. Foi quando ela me mostrou a carteira de identidade e lá estava Mariazinha. Pensei no seu batismo, um padre desses ranhetas se indispondo com aquele diminutivo da mãe de Jesus, como se esta fosse uma mulher qualquer. Mariazinha me disse que nunca ouviu nada sobre isso em sua casa. E você gosta do seu nome? Disse que sim.
Lembro hoje do nosso namoro. De uma particularidade, sobretudo: nossos papos pendiam invariavelmente para a música. E a música nos punha em campos opostos. Daí as divergências, mas numa boa. Nada de altercações, sequer levantávamos a voz. Ou melhor, eu às vezes começava a alterar a minha, mas logo era desarmado pela docura de Mariazinha, o seu sorriso, a sua serenidade, a simpatia. Punha, é certo, um pouco de ironia ao me replicar, mas sem me deixar ferido. Como aquele qualé. Ou não é do meu tempo, como se não fôssemos quase da mesma idade.
O ponto central de nossas divergências era Chico Buarque, que estava surgindo, como muitos dos seus coetâneos, naquela metade dos anos 1960. Ela não gostava de Chico. Para ser de todo justo, algumas frases das letras de Chico chegava a apreciar. Mas também citava trechos das letras de Caetano, que, para ela, era superior a Chico, até na composição da música. Não só Caetano, mas também Gil, Torquato e toda a turma da Tropicália.
Como (presumo) todo jovem daqueles anos, ela adorava os Beatles. Eu também gostava, mesmo captando apenas algumas palavras do que eles cantavam, pois não dominava o inglês. Ela, de queixo no chão, estou besta por você gostar dos Beatles. E dos Rolling Stones? E, para provocá-la, destes eu nunca ouvi falar. Nunca ouviu falar? Joãozinho, você é mesmo de doze, até de um tal de Ataulfo Alves você vem falar.
Há poucos dias eu tinha lido um artigo de um crítico de cinema em que ele dizia que não existiam filmes velhos e filmes novos, mas sim filmes ruins e filmes bons, então eu transferi esse conceito para a música. E ela, pra cima de moá, Joãozinho?
Porque tinha o hábito de usar o diminutivo (talvez quem sabe? uma influência do próprio nome). Chamava as amigas e os amigos pelo diminutivo, as coisas, os objetos. Você está muito salientezinho, dizia, com o sorriso radioso, quando a minha mão procurava um dos peitos de Mariazinha. E que peitos! Percebia-se que ela não usava sutiã e isso atiçava mais o meu desejo de tocá-los, não só tocá-los, mas cobrir um deles com a mão e ficar acariciando-o.
Mais se atiçava o meu desejo quando me lembrava de um conto, belíssimo conto, que lera fazia um certo tempo. O personagem, aposentado, solitário e entediado na cidade grande, vê, de repente, aflorar-lhe à memória, um fato ocorrido na sua adolescência. Durou uns raros segundos, mas, só agora se dava conta, o marcara para sempre. A visão dos seios de uma adolescente, mal saída da infância. Ele decide empreender uma viagem de volta à sua cidadezinha para reencontrar a mulher que lhe proporcionara aquele momento ímpar de sua vida.
Não conseguia atinar com aquela resistência de Mariazinha, uma moça de idéias avançadas (está claro que as nossas conversas não se limitavam à música) , uma mulher pra frente, como se dizia naquela época. Uma vez, por brincadeira, mas tentando dar um tom de sinceridade na voz, cheguei ao ponto de lhe prometer que se ela me mostrasse os seios, eu deixaria de gostar do Chico. Ela fez foi soltar uma gaitada.
Teve um dia que ela veio se encontrar comigo ainda mais alegre e brincalhona - diria mesmo feliz. Tinha passado no vestibular. Não tenho certeza, mas acho que nesse dia nem falamos no Chico, a vitória que conquistara, com uma excelente colocação, dominou a conversa. É hoje que vou conseguir, disse pra mim mesmo, vendo-a naquela euforia. Num dado momento, após um beijinho, pedi para ela me mostrar um peito. Mas mesmo naquele estado, ela opôs a firme resistência habitual e ainda me mandou tirar o cavalinho da chuva e acrescentou que eu queria me aproveitar da alegria dela. Mas eu insisti e insisti e insisti, até que ela cedeu, tá bem, seu acesinho. Olhou para um lado, olhou para o outro. Precaução desnecessária, estávamos isolados na pracinha. O coração pinotando, por estar a segundos de ver, finalmente, o meu desejo realizado, observei atentamente Mariazinha pousar um dedo no primeiro botão para retirá-lo da casa. A seguir o segundo botão. Parou, e protegendo com uma mão um peito, com a outra abriu o lado da blusa para exibir o outro peito. Pronto, seu danadinho. E eu vi - vi aquela obra de arte se mostrando pra mim, por um segundo, ou dois, mas valeu a pena. Até me conformei por não poder tocá-lo - isso não, não era só pra olhar? E depois você vai querer mais e mais. E fechou depressa a blusa. Mariazinha malvada.
Depois de terminarmos o namoro, ainda a vi algumas vezes, ela sempre me sorrindo. O tempo foi passando e a via com menos freqüência. Acabei deixando a cidade, pra assumir um emprego num estado do Sul. Voltei há uns dez anos e não vi Mariazinha. Posso até tê-la encontrado e não a reconhecer, nem ela a mim. E como gostaria, penso agora, de revê-la. Mesmo que ela esteja gorda (já naquela época era um pouco gordinha), mesmo que aqueles peitos tenham perdido todo o encanto. Queria rever Mariazinha. Até pra perguntar se ela continua a não gostar do Chico. E ouvir o que ela iria dizer.

quarta-feira, outubro 15, 2008

O SERVIÇO DE ALTO-FALANTE DE CANINDÉ


Ficava a poucos metros da Praça da Basílica, na Rua do Fogo. Esse não era o nome oficial da rua, onde, aliás, nasci, mas todo mundo a chamava assim. E não me recordo do seu verdadeiro nome. Também ninguém, exceto o locutor, usava a palavra alto-falante - para os outros era a "radiadora", ou a amplificadora. Funcionava toda noite, durante uma hora e meia - talvez duas horas. As músicas eram quase sempre as mesmas, raramente aparecia uma música nova. Possuo algumas daquelas músicas ("Brasa", de Lupiscínio Rodrigues, na voz de Orlando Silva, "Adivinhe, Coração", de Custódio Mesquita e Evaldo Rui, "Lancha Nova" e "Tem Gato na Tuba", de Braginha, outras, de que não me lembro agora), e, ao ouvir qualquer uma delas, é inevitável o meu retorno à infância.
Algumas das músicas eram muito repetidas por fazerem parte das chamadas mensagens musicais. Ah, as mensagens musicais! "Alguém oferece a alguém"... Um rapaz endereçava a sua declaração de amor a uma moça que passeava na praça com uma amiga, ou mais de uma. Para ela se sentir a destinatária da mensagem, o apaixonado remetente mencionava-lhe a cor e o penteado do cabelo, a cor do vestido, a cor da pele, dos olhos. (Nunca, que me lembre, ousava dizer o nome dela.) E a amiga dizia: "olha, fulana, é pra você". E procuravam descobrir a identidade do rapaz. A destinatária, se sabia de quem se tratava, reagia de acordo com o sentimento que tinha por ele. Havia também as músicas com mensagens de felicitações a um aniversariante.
Cheguei algumas vezes a entrar naquele pequeno estúdio, e um irmão foi por alguns dias locutor, fazendo parceria com outro. Eu examinava os disco, ainda em 78 rotações, pousados nas prateleiras, ou na mesa de som para serem tocados. Os discos eram recobertos por uma capa de papel ordinário, que, no centro, tinha uma abertura, onde se lia o nome da música, do cantor e dos autores e da gravadora. (Nunca me esqueci do nome de uma delas, que, parece, ter tido uma vida efêmera: "Todamérica".) Havia um locutor de cara amarrada, óculos de lentes grossas, que uma vez me advertiu que manuseasse os discos com muito cuidado, porque eram facilmente quebráveis. E, sem eu perguntar, me disse que eles eram feitos de cera de carnaúba. Abri um sorriso de incredulidade.
Uma noite um rapaz usou o microfone para um assunto de seu interesse. Ele se envolvera em um caso, do qual hoje não faço idéia. Mas me lembro que deu o que falar na cidade. Era um rapaz , na verdade, já casado, de classe média. Ao iniciar a sua defesa, dizendo que estava utilizando aquele "veículo" (referindo-se ao serviço de alto-falante), eu e uns amigos reunidos na praça caímos na gargalhada, à menção daquela palavra. É que achávamos que o rapaz havia cometido um erro - para nós, veículo era apenas um meio de transporte.
Umas poucas vezes a "radiadora" foi ocupada pelo Raimundo Marreiro. Dono de uma casa comercial, era uma pessoa comunicativa, divertida e inteligente. Pai do Tonico, de quem já falei certa vez aqui, ao fazer uma postagem sobre uma fotografia para a qual eu, ele e mais 3 meninos posamos antes do início de um jogo de futebol. Era um programa cheio de variedades, apresentado numa sexta-feira. Se a memória não estiver me pregando uma peça daquelas, Marreiro narrava causos ocorridos com matutos, recitava poemas populares, alguns, talvez, de sua autoria, e até cantava (reafirmo, se a memória não estiver brincando comigo) acompanhando-se por um violão. Havia os que gostavam e os que não gostavam. Eu estava entre os primeiros.
E toda noite, ao término da audição, o locutor anunciava que na noite seguinte estaria de volta, "se assim o Criador nos permitir".

terça-feira, outubro 07, 2008

HOMENAGEANDO MANUEL BANDEIRA


Foto do sítio www.overmundo.com.br/
Neste ano dos centenários de morte e de nascimento de Machado de Assis e Guimarães Rosa, completam-se ainda, no próximo dia 13, os 40 anos do falecimento de Manuel Bandeira (1886-1968) . Pernambuco de Recife, Bandeira, além de poeta (um dos maiores da língua portuguesa), foi também cronista, crítico de arte e literatura e tradutor. Como uma homenagem à data, este espaço é hoje ocupado por um texto dele. Não um poema, mas uma crônica, uma saborosa crônica em que ele exercita o humor, uma das facetas do seu temperamento, como atestam os que o conheceram. Ei-la.
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FRASES
Dos vendedores ambulantes que freqüentavam a Rua da União, dois me interessavam particularmente: a preta das bananas, com o seu vistoso xale de pano da Costa, e o homem dos sapatos. Este chegava com o seu grande baú de folha-de-flandres, abria-o na saleta de entrada e ficava esperando pela freguesia, que eram as senhoras de casa e da vizinhança. Eu gostava de olhar aquela confusão de borzeguins, chinelas e sapatos rasos. Mas, um dia o sujeito, que era robusto e falava grosso, me interpelou: Já vai ao colégio? Estuda Geografia? Qual é a Capital do Espírito Santo?
Embatuquei, e o sapateiro tripudiou: - Ignora?
O que eu esperava, o que eu ouvia dizer em tais ocasiões era - "Não sabe?" Aquele "ignora", que eu jamais ouvira, soou-me duro. Senti-me insultado, afastei-me do baú, nunca mais me aproximei do homem. E até hoje implico com esse inocente verbo "ignorar", sobretudo no singular do presente do indicativo.
Outro dia foi meu tio Antonico que me surpreendeu, dizendo ao amigo Fiúza:
- Quando você ia colher os cajus, eu já voltava com as castanhas!
Surpresa maior, porém, foi o que disse à minha avó uma sua amiga, ouvindo-lhe queixas de achaques que não cediam aos remédios.
- Minha Dona França, deixe a natureza obrar!
Essas foram frases ouvidas na infância e então me soaram insólitas e inexplicáveis. Adulto, ouvi outras, sem nenhum mistério, mas igualmente surpreendentes. Assim, a de uma dessas pretinhas de Copacabana, cabelizadas e maquiladas, que tratava emprego com a senhora:
- A que horas a senhora janta?
- Às oito horas.
- Não pode ser às sete?
- Quem marca o horário das refeições em minha casa sou eu, não a cozinheira.
A pretinha então, muito gentil:
- Claro, não leve a mal que eu pergunte: não vê que eu sou mulher da vida e tenho de noite o meu trabalho lá fora?
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- Crônica extraída do livro "Colóquio Unilateralmente Sentimental" (Distribuidora Record/1968).


domingo, setembro 28, 2008

PAUL NEWMAN



Paul Leonard Newman, que faleceu na última sexta-feira, aos 83 anos (nascido em 26.1.1925), estreou no cinema em 1954, em O Cálice Sagrado, de Victor Saville, um daqueles produtos históricos e bíblicos que Hollywood fabricava em série nos anos 1950. Essa bobageira que vi, creio, em 1956 (mas na época, com meus quatorze anos, em não tinha consciência disso) marcou profundamente o ator, que relutou muito em atuar nela. E muitos anos depois, quando ele soube que O Cálice Sagrado ia ser exibido na televisão, fez circular nos principais jornais dos Estados Unidos um pedido às pessoas para que não fossem assistir ao filme.
Mas Newman esteve em filmes que talvez tivessem (ou chegassem próximo) o mesmo nível do filme da sua estréia, como Inferno na Torre, por exemplo. Aliás, não foi em grande quantidade os filmes importantes dele e nenhum atingiu o status de obra-prima. Seus melhores, na minha visão, foram: Marcado pela Sarjeta (no qual só trabalhou devido à morte de James Dean, o ator escolhido para o papel de Rocky Graziano), Um de Nós Morrerá, Gata em Teto de Zico Quente, Desafio à Corrupção, Doce Pássaro da Juventude, Butch Cassidy and Sundance Kid, Golpe de Mestre, O Indomado, O Veredicto, Harper, o Caçador de Aventuras, Hombre, A Cor do Dinheiro (em que retomou o personagem já bem maduro de Desafio à Corrupção), A Roda da Fortuna. Devo ter esquecido um ou outro e posso acrescentar Estrada da Perdição, sua derradeira aparição no cinema, em 2002. Mas aquele que deveria ser o ponto mais alto da sua filmografia, ele não pôde fazer - A Doce Vida, de Fellini. Era o preferido para interpretar o jornalista, porém a questão salarial tornou inviável a sua contratação, e o papel foi parar nas mãos de Marcelo Mastroianni. Será que ele não chegou também a se arrepender de não ter trabalhado com Fellini, como se arrependeu em relação ao seu primeiro filme?
Tinha muito talento. No entanto, durante os primeiros anos de carreira cultivou alguns maneirismos (até o cacoete de de coçar muito a cabeça, bem como a forma de andar, que o crítico Sérgio Augusto chamou certa vez de pendular), adquiridos, certamente, na sua passagem pelo Actor's Studio, que comprometiam às vezes a sua interpretação. Com o passar dos anos foi se livrando desses vícios e cresceu ainda mais como ator.
Experimentou a direção, já em 1961, com On the Harmfulness of Tobacco, um média metragem adaptado de uma peça de Tchecov, segundo informa Rubens Ewald Filho no seu Dicionário de Cineastas. Foram 7 filmes, pelo menos cinco com Joanne Woodward, sua companheira de cinquenta anos, um dos quais para a tevê. Deles só conheço Rachel, Rachel, de que gostei moderadamente quando o vi nos anos 1960, e Uma Lição para não Esquecer. Neste ele começou só como ator, ao lado de Henry Fonda, mas em meio às filmagens assumiu a direção, substituindo Richard A. Colla, e assim fica difícil saber até que ponto ele imprimiu a sua marca no filme. Não posso, portanto, avaliar Newman por trás da câmera. Mas há quem ache que ele foi tão bom diretor quanto ator. A conferir, se possível.












terça-feira, setembro 23, 2008

SOCIEDADE DOS POETAS MORTOS (Dead Poets Society/1989)



Esta crítica foi publicada em junho de 1990 no jornal Tribuna do Norte, de Natal. É apresentada aqui com pouquíssimas alterações em relação ao texto original.

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É possível fazer-se duas leituras do roteiro de Sociedade dos Poetas Mortos, recentemente exibido pelo Nordeste. A primeira remete ao princípio da fruição da vida pelas pessoas, baseada na interpretação figurada da expressão latina Carpe Diem. Esse princípio é enunciado - e, mais do que isso, incentivado - aos alunos de uma conservadora escola norte-americana, no final dos anos 50, pelo jovem professor de Literatura.
Não é a primeira vez, no cinema, que vemos a chegada de um estranho a uma comunidade operar uma profunda transformação na maneira de viver das pessoas, e acodem-me imediatamente à memória os exemplos ilustres de Shane e Teorema. Infelizmente, essa brusca alteração no modus vivendi dos nativos não é feita sem a ausência de traumas, que as marcarão para sempre. Com seu anticonvencional método pedagógico, o professor John Keating (Robin Williams) escorraça a sensaboria das aulas, tornando, por exemplo, a temida abordagem da poesia de Shakespeare uma sessão de brincadeiras, entre estas a imitação que ele faz das vozes de Marlon Brando e John Wayne.
Ao mesmo tempo, alguns dos alunos vêem despertar em si o desejo de realizar seus sonhos. Seja o de seguir a carreira de ator, no caso de Neil (Robert Sean Leonard), de problemática realização, porque ele precisará vencer a forte oposição do pai, seja o de de um seu colega, relativamente mais fácil, já que se trata de conquistar o coração de uma jovem comprometida. Em ambos os casos, o que se destaca é a disposição que eles sentem de lutar por algo por algo que consideram importante em suas vidas, embora, no caso de Neil, ele saia derrotado.
A segunda leitura é a demonstração dos obstáculos que se erguem a todo homem que se apresenta com idéias novas no seio de uma sociedade conservadora. O professor John Keating chega a uma secular escola, da qual fora aluno (e, já nessa condição, tendo manifestado um espírito rebelde e inovador, a ele devendo-se a criação de uma "Sociedade dos Poetas Mortos", que seria reativada pelos seus discípulos), e, em pouco tempo, a sua inusitada maneira de ensinar entra em colisão com os colegas e a direção do colégio. Não é pra menos. Para os padrões rígidos e tradicionais da instituição, é impossível admitir que um dos seus mestres ordene aos (também) escandalizados alunos que destruam as páginas de um livro, por conterem uma interpretação que ele considera falsa da arte poética. Que esse mesmo professor os faça subirem a sua mesa, como uma forma de adquirirem uma visão diferente das coisas. Ou ainda que incentive os rapazes a recitar seus próprios versos fora da sala de aula, utilizando os movimentos dos corpos, para, com isso, irem perdendo a inibição.
Previsivelmente, no instante em que o comportamento dos alunos começa a ir de encontro à disciplina militarizada da escola, o professor é responsabilizado pela situação. E quando Neil comete suicídio, o pai, o verdadeiro responsável, procura transferir a culpa para Keating, e este, delatado por um um acovardado aluno, é despedido.
Essa história de lutas, sonhos e frustrações, em que também se toca na inevitabilidade da morte, mas como forma de conferir um valor inestimável ao ato de viver, é dirigida com freqüente sensibilidade, e quase sempre com brilho, por Peter Weir, esse talentoso cineasta de origem australiana. Jà tendo visto outros filmes dele, julgo encontrar nos mesmos uma identidade, ou sejja, a simpatia que ele manifesta por personagens que se tornam outsiders do seu próprio meio. Esse John Keating é irmão do policial de A Testemunha, que é forçado a se refugiar numa comunidade de adeptos da seita Amish, para não ser morto pelo seu corrupto superior, e do herói de A Costa do Mosquito.
Mas o roteiro de Tom Schulman, premiado pelo Oscar, é, a meu ver, passível de duas ressalvas, Uma é a de sonegar informações sobre a vida particular de Keating. Em conseqüência, ficamos sem saber por que está separado de uma mulher (numa cena em que ele aparece escrevendo-lhe uma carta é lançada apenas uma vaga pista, insuficiente para esclarecer a questão), nem o grau de envolvimento com ela. A outra é no suicídio de Neil, e aí a montagem tem o seu quinhão de responsabilidade. A seqüência deveria ter terminado no momento em que o pai ouve o som do disparo da arma. Se já havíamos visto Neil pegar o revólver, tornou-se dispensável, após o disparo, mostrar o pai percorrendo a casa, até localizar o corpo do filho no chão. A montagem é um dos componentes importantes de um filme (no cinema soviético de Eisenstein e companhia ela era supervalorizada), até para suprimir cenas supérfluas, as quais, acima de tudo, podem passar a idéia de que a inteligência do espectador está sendo subestimada.





quarta-feira, setembro 17, 2008

A VOZ DO VIZINHO

O soldado dormia esparramado na cadeira.Roncava alto, o corpo remexia-se como sob ação de descarga elétrica, o homem que vinha denunciar ficou observando-o divertido (e o homem tinha muita pressa em denunciar). Quando se achou satisfeito, foi acordar o soldado, primeiro chamando por ele, a seguir gritando e batendo na mesa. O soldado não acordava, o homem que vinha denunciar fez um canudo de papel e foi cocegar a orelha do dorminhoco. Este deu um pulo, assustado, a mão logo puxando o revólver da cartucheira, mas o homem gritou é de paz e o soldado recuou em tempo. Endireitou-se na cadeira, passou os os dedos nos olhos sonolentos e perguntou o que o homem queria.
- Desejava falar com o senhor Delegado.
- O senhor Delegado está recolhido à cela.
- É possível ser recebido por ele?
- É muito importante? Porque o senhor Delegado deu ordem para não ser incomodado com assunto que não seja de suma importânci.a
- O assunto que venho tratar não é apenas de muita importância, mas igualmente da maior urgência.
O homem que vinha denunciar disse isso com tanta convicção que o soldado saltou lépido da cadeira em busca do telefone. (A rapidez do gesto espantou o homem, que não o imaginava capaz numa pessoa que há dois minutos dormia daquele jeito.) Do outro lado demoraram a atender. O soldado ainda não estava inteiramente desperto, voltou a dormir ali mesmo em pé. Em dado momento acordou, outra vez assustado, na certa por um berro da pessoa do outro lado. Devia ser o Delegado, o soldado perfilou-se, falou manso, todo servil. Quando desligou, pediu ao homem para o acompanhar.
Penetraram logo num corredor curto, depois pegaram um outro, esse longo e largo. Tão silencioso àquela hora, o homem que vinha denunciar teve a impressão que todas as celas estavam desocupadas. Andaram um bom pedaço até chegar à cela do Delegado, que era a última do lado direito. Um homem fardado esperava atrás das grades. O soldado perfilou-se, bateu continência e apresentou o acompanhante. O Delegado lhe ordenou que abrisse a cela. Fechou-a, bateu continência, saiu correndo, por certo para não deixar fugir o sonão interrompido.
O Delegado foi para junto do birô com o homem. Não parecia ter saído do sono, como o soldado. Ou tivera o cuidado de escorraçar o sono com um jato dágua na cara.
De relance o homem que vinha denunciar descobriu uma cama no fundo da cela e uma porta que julgou dar para um banheiro. O Delegado havia juntado as mãos, como se rezasse, e assim contrito perguntou ao homem a razão da visita.
- Senhor Delegado, peço-lhe que me perdoe por incomodá-lo a esta hora, mas é que tenho uma denúncia... uma denúncia muito grava para fazer.
- Um momento, por favor. Queira declarar o nome e o endereço.
- É estritamente necessário, senhor Delegado? Porque desejava permanecer incógnito.
- Apenas uma formalidade. Na verdade, o senhor não terá qualquer responsabilidade assim que pôr os pés fora desta Casa.
Tranquilizado, o homem declarou o nome e o endereço que o Delegado anotou num livro que retirou da gaveta.
- A quem o senhor deseja denunciar?
- Ao meu vizinho.
- O nome do seu vizinho.
- O senhor vai me perdoar outra vez, mas não sei como se chama o meu vizinho. Até agora não consegui saber. Aliás, isso faz parte do procedimento esquisito do meu vizinho.
- No entretanto, torna-se imperioso que o senhor dê uma indicação mais precisa a respeito do seu vizinho. Digamos assim: é o seu vizinho do lado direito ou do lado esquerdo?
- Do lado direito, senhor Delegado.
O Delegado anotou no livro.
Muito bem. Que espécie de denúncia o senhor deseja fazer contra o seu vizinho do lado direito?
- O meu vizinho não fala, senhor Delegado. Isto é, eu nunca ouvi a voz dele em quase um ano que somos vizinhos.
- O senhor nunca ouviu a voz do seu vizinho do lado direito? Nunca o ouviu assim ralhar com o filho, ou mesmo pedir algo dentro de casa? Um par de meias para calçar, por exemplo?
- Nada, senhor Delegado. Para o senhor ter uma idéia de que o meu vizinho não fala, basta que lhe diga que nas poucas vezes que nos encontramos, nem um bom-dia me deu.
- Não se tratará de um mudo?
Não, senhor Delegado, mudo é que ele não é. Eu mesmo cheguei a pensar nessa possibilidade até o dia em que soube por um outro vizinho que ele é um professor. O senhor acha que ele poderia ser mudo sendo um professor?
O Delegado não respondeu, baixou a vista para o livro. Escreveu, escreveu, escreveu. Quando terminou, ficou pensando, de mãos juntas, parecia não perceber a presença do denunciante, que o tempo todo não despregou os olhos do rosto do Delegado. Afinal falou.
- Realmente é bem estranho o procedimento do seu vizinho do lado direito. O senhor acaba de fazer uma denúncia muito grave. Algo aqui me diz que se trata de um indivíduo sumamente perigoso. Amanhã mesmo darei ordem para que todos os passos desse indivíduo sejam fiscalizados. E quanto ao senhor, cabe-me agradecer por haver prestado um serviço de grande valia. Muito obrigado, senhor.
Ora, senhor Delegado, não há de que agradecer. A nossa obrigação de cidadão é ajudar as autoridades no combate ao mal. Só desejaria que o senhor confirmasse a promessa de que o meu nome permanecerá afastado do processo de sindicância sobre o meu vizinho.
- Não tenha o menor receio, senhor. Nada lhe acontecerá, eu dou-lhe a minha palavra de honra.
E trancou a boca. Certamente dava a entender ao denunciante que nada mais o retinha ali. O denunciante percebeu-o, falou que já estava na hora de ir-se. Um instante só, o Delegado pediu a ele, e discou o telefone.
- O meu soldado está a todo o sono - disse mais para si, nem havia impaciência em sua voz. O denunciante é que não podia desperdiçar a oportunidade de dar chocalho à língua.
- Notei que o soldado é um bocado dorminhoco.
- Todos os meus homens dormem bem. Eu os faço ingerir sempre uma quantidade razoável de soporíferos. Tenho por princípio o seguinte: o homem dormido vale por dez.
- Um princípio muito válido, não tenha a menor dúvida, senhor Delegado.
O soldado chegou, bateu continência, abriu a cela, o denunciante saiu, fechou a cela, bateu continência. E o Delegado, o Soldado e o Denunciante foram dormir com muita paz.
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- Conto extraído do meu livro A Noite Mágica (Ática/1979)

quarta-feira, setembro 10, 2008

OS 70 ANOS DE VIDAS SECAS


Reprodução da capa da primeira edição de Vidas Secas,
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Em 1938 vinha à luz Vidas Secas. Era o quarto e acabou por se tornar o último romance escrito por Graciliano Ramos. Vidas Secas se distingue dos outros romances do mestre alagoano em mais de um aspecto. Em primeiro lugar, a narrativa é feita na terceira pessoa e não mais na primeira pessoa, como ocorre com Caetés, São Bernardo e Angústia. Não parece apenas um detalhe sem importância, uma opção de gosto pessoal. No seu ensaio "Valores e Misérias das Vidas Secas", inserido na 30a. edição do livro (Livraria Martins Editora/1972), o crítico Álvaro Lins se faz esta pergunta: "Não será isto um sinal de que antes {o romancista} deixava os personagens entregues à própria sorte, enquanto agora se identifica com os desgraçados nordestinos de Vidas Secas"? Identificação essa que, na visão do crítico, torna Vidas Secas o mais humano e comovente dos livros de Graciliano, "o que contém maior sentimento da terra nordestina, daquela parte que é aspera, dura e cruel, sem deixar de ser amada pelos que a ela estão ligados teluricamente". E a atitude tomada por Graciliano em relação a Fabiano, Sinha Vitória e os dois filhos pequenos é acrescida de um elemento, se não solitário, pelo menos, incomum, na literatura, ou seja, a humanização da cachorrinha Baleia, que é tratada como um membro daquela miserável família. Além de dedicar um capítulo inteiro à morte dela (um dos melhores da obra), em algumas ocasiões Graciliano a faz agir como se da espécie humana fosse.
Muito usado nos livros anteriores, principalmente São Bernardo e Caetés, o diálogo inexiste em Vidas Secas. O que há são interjeições, palavras e frases isoladas, mesmo quando um personagem não está sozinho. E assim mesmo elas não ocorrem com muita freqüência.
Mas certamente o que mais diferencia Vidas Secas dos livros precedentes é a forma da sua construção. Os capítulos possuem uma autonomia, que faz com que cada um deles possa ser lido como um conto, conforme observou Álvaro Lins no citado ensaio. E aí surge a questão se se trata rigorosamente de um romance. No ensaio "Ficção e Confissão", que integra a 18a. edição de São Bernardo (mesma editora, 1972), Antonio Candido afirma que Vidas Secas "pertence a um gênero intermediário entre romance e livro de contos". E revela que alguns dos capítulos (que ele chega a chamar de episódios e de quadros) eram originariamente contos e como tal tinham sido publicados em revistas. Já o nosso maior cronista, Rubem Braga, define Vidas Secas de uma maneira que me parece a mais apropriada, ao chamá-lo de "romance desmontável".
Essa construção que pode ser um dos defeitos que tanto Álvaro Lins, quanto Antonio Candido, apontam no livro, é um defeito apenas na forma, no sentido de que alguns capítulos passam a impressão de ser "histórias incompletas" (Antonio Candido) e não no conteúdo. É que existe uma interligação entre os capítulos (ou contos, ou ainda quadros), em que é acompanhada a vivência daqueles desvalidos da sorte (no mínimo, há a presença de ao menos Fabiano, como em 3 ou 4), o que acaba por dar uma unidade ao livro. Com sua maestria, Graciliano soube armá-los de maneira a conferir-lhes uma harmonia (observe-se, por exemplo, que Vidas Secas começa e termina com a fuga dos personagens provocada pela seca).
Quanto ao estilo, Lins, se elege Angústia o melhor Graciliano, considera que, nesse aspecto, Vidas Secas supera os demais. "Em nenhum outro dos seus livros encontramos tanta beleza e tanta harmonia na construção verbal", diz ele, para acrescentar a descoberta de um elemento estranho na linguagem do autor: "E somente aqui este autor, de espírito tão pouco poético, consegue atingir às vezes um estado de poesia".
Vinte e cinco anos depois de lançado, Vidas Secas chegou ao cinema. Pelas mãos de Nelson Pereira dos Santos, que soube traduzir em imagens o espírito e a essência do livro. Se Vidas Secas não for o melhor livro de Graciliano (mas existem os que acham que sim), é o melhor filme de Nelson. E forma com Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha, realizado na mesma época, os dois maiores filmes do Cinema Novo.

quarta-feira, setembro 03, 2008

ALGUNS DOS MAIORES ANTI-HERÓIS DO CINEMA


(Sem ordem preferencial)
1 - William Holden, em Crepúsculo dos Deuses (Billy Wilder)
2 - Humphrey Bogart, em O Tesouro de Sierra Madre (John Huston)
3 - Lamberto Maggiorani, em Ladrões de Bicicleta (Vittorio De Sica)
4 - James Mason, em O Condenado (Carol Reed)
5 - Jean-Paul Belmondo, em O Acossado (Jean-Luc Godard)
6 - Montgomery Clift, em Um Lugar ao Sol (George Stevens)
7 - Steve Cochran, em O Grito (Michelangelo Antonioni)
8 - Maurice Ronet, em Trinta Anos Esta Noite (Louis Malle)
9 - Marlon Brando, em O Último Tango em Paris (Bernardo Bertolucci)
10 - Peter Lorre, em M, O Vampiro de Dusseldorf (Fritz Lang)
11 - Gregory Peck, em O Matador (Kenry King)
12 - Dustin Hoffman, em Perdidos na Noite (John Schlesinger)
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Na foto acima, James Mason em uma cena de O Condenado

terça-feira, agosto 26, 2008

UM EPISÓDIO DA INFÂNCIA DE CONY



Todas as manhãs, bem cedo, o menino Carlos Heitor Cony saía de casa para ajudar a missa das seis e meia. Pegava um bonde e dele saltava em frente ao botequim Ponto de Cem Réis, que ainda existia, e com o nome preservado, quando o escritor e jornalista escreveu a crônica em que relata um marcante episódio ocorrido na sua infância. De lá ia caminhando até a igreja, que ficava perto. No lado oposto havia outro botequim. Era o local preferido de alguns rapazes que varavam a noite bebendo e cantando acompanhados por violões - "ovelhas negras que infelicitavam o rebanho, segundo o vigário local que me esperava para começar a missa".

O menino passava em frente, olhava rapidamente a cena diária e seguia. Até que numa manhã, por razão ignorada, um dos rapazes, deixou o violão, pegou uma tampinha de de cerveja Cascatinha (ao que parece muito consumida no Rio naqueles anos trinta do século passado) e a arremessou "com força" na direção do garoto, atingindo de raspão a orelha, que sofreu um arranhão, do qual saía sangue Não satisfeito com a irrazoável agressão, acresceu-a gritando estas palavras: "Lá vai o filho do padre ajudar a missa". Cony correu para a igreja e, na sacristia, mostrou ao padre a orelha ferida.
É nessa parte da crônica que Cony usa da sua peculiar ironia, que pode atingir o sarcasmo. O sacerdote o chamou de mártir. Fala da "compunsão" que pairou sobre a missa daquele dia, em que "as beatas pisavam de leve o chão de velhos ladrilhos que o vigário desejava reformar". Naquele momento ele se sentiu um santo precoce, com um lugar assegurado no Céu. Já o seu agressor iria se queimar nas chamas do Inferno. E ali mesmo que ficou sabendo da identidade do rapaz. Compunha uns "sambinhas" e estudava medicina. Noel Rosa ele se chamava.
Após a missa, o menino voltou ao local, já vazio. E se pôs a procurar a tampinha, pois, sem saber a razão, "tinha a suspeita de que devia guardá-la", Cony, porém, não revela se a encontrou.
A crônica faz parte do livro Os Anos Mais Antigos do Passado (Record/1998) e tem por título "O Mártir de Vila Isabel". E eu confesso que, ao começar a lê-la, tive a certeza de que o "mártir" era uma referência a um dos cinco ou seis maiores compositores da nossa música popular.


quarta-feira, agosto 20, 2008

NUNCA TE VI... SEMPRE TE AMEI (84 Charing Cross Road/1987)


Relevemos a intenção do apelo comercial percebível no título em português. E assistamos ao filme desarmados desse aspecto que objetiva o interesse do espectador brasileiro. Isso feito, o espectador irá se deparar com um filme delicado, terno e agradável, enfim um filme que já no seu lançamento se diferençava da esmagadora maioria dos realizados pelo cinema americano. Imagine hoje, quando já se passaram mais de vinte anos.
O título original refere-se ao endereço, em Londres, de uma livraria especializada em obras antigas e raras, à qual a leitora de roteiros para a televisão Helene Hanff (a excelente Anne Bancroft, que, infelizmente, já não está entre nós), residente em Nova York, se dirige para adquirir alguns dos livros que não consegue encontrar em sua cidade. É uma correspondência que atravessa duas décadas, trocada entre ela e o funcionário mais graduado da livraria, Frank Doel (Anthony Hopkins, outro grande intérprete), e esse longo contato epistolar faz aflorar uma amizade entre os dois que vai se convertendo num interesse amoroso. Este, no entanto, é insinuado, jamais declarado por nenhum dos correspondentes. Da parte de Frank, quando mostra algo diferente na expressão contemplativa do rosto em um ou outro momento. Já Helene, em uma ou duas ocasiões, é vista fitando o retrato emoldurado de um homem com um uniforme da marinha, que se supõe seja o seu marido, mas não há nenhuma fala no filme que informe a sua condição de viúva ou divorciada. Aliás, no livro não há nenhuma menção ao seu estado civil, igualmente no livro "A Duquesa de Bloomsbury", que é um relato da estada de Helene Hanff na Inglaterra, os dois formando um só volume na edição brasileira, o que nos leva a crer que Helene era solteira. A presença da foto do homem, assim, seria uma situação armada pelo roteiro para também insinuar de alguma forma o interesse dela por Frank.
Mas o que o filme destaca mesmo é o amor pelo livro, através de Helene, uma voraz leitora. Com ela, sentimos o que um livro representa para o amante da leitura, o seu prazer diante de um exemplar, até tátil, na maneira de tê-lo entre as mãos, "acariciando" a capa e as folhas, como se se tratasse de uma jóia (o que não deixa de sê-lo, principalmente se raro). E sem cometer uma impropriedade, pode-se dizer que esse amor ao livro se estende também até a Frank, mesmo sendo ele um profissional.
Essa Helene Hanff existiu de fato e a correspondência mantida com Frank Doel foi por ela reunida em um livro de sucesso, que tem o mesmo título do filme e é dedicado a ele. Anne Bancroft foi uma das inúmeras pessoas que se comoveram com o livro e pediu a Mel Brooks, seu então marido, dono de uma produtora, que o transpusesse para o cinema.
"Nunca te Vi... Sempre te Amei" se inicia com Helene a bordo de um avião, com destino a Londres. Nas cenas seguintes a vemos num táxi, rumando para a livraria, que já fechara as portas. (Aliás, durante a realização do filme, uma loja de discos ocupava o local da livraria e, por isso, esta foi recriada em estúdio.) A câmera capta a expressão de prazer e de alegria de Helene ao se deparar com alguns locais que vira através de filmes, um desses o maravilhoso "Desencanto", de David Lean. E termina na livraria, na qual ela entra, e pôe-se a observar os lugares vazios outrora povoados de livros, as mesas onde se sentaram o "seu" Frank, falecido no ano em que a correspondência entre eles atingia os vinte anos, e os demais funcionários. E após inspecionar o local, que desejava conhecer em atividade, Helene diz com um meio-sorriso que, na verdade, expressa um misto de tristeza, saudade, frustração: "Aqui estou, Frankie. Finalmente".
Já estou no final e vejo que ainda não disse o nome do diretor: David Jones, um inglês, também ligado ao teatro, e esse é o seu segundo filme. Nem o do roteirista, Hugh Whitemore, que fez um roteiro muito bom, que Jones soube valorizar com talento e sensibilidade.