sexta-feira, junho 29, 2007

TRIO


1) Semana passada vendo o blogue do crítico de cinema Luiz Zanin, no Estadão, me deparei com uma matéria que revela o avassalador domínio do cinema americano no Brasil. Os dados são impressionantes. Segundo o crítico, o nosso país possui 2.050 salas de cinema. Pois bem. Naquela semana, dessas 2.050 salas, 582 exibiam "Piratas do Caribe 3", 320 salas exibiam "Homem Aranha 3" e 705 (setecentas e cinco!) "Shrek 3". Portanto, apenas 438 salas restavam para exibir outros filmes, dos quais a grande maioria se supõe era de origem da terra de Mister Bush. O título do texto do Sr. Zanin era "Será que ninguém reage"? Pois é. Será que ninguém reage contra essa enxurrada de filmes americanos em nosso país? E o pior é que, uns oitenta a noventa por cento dessas produções de Hollywood são de má a péssima qualidade.
2) Sou um apaixonado pela literatura policial. E entre os meus autores preferidos está o belga Georges Simenon. Simenon que, ao contrário dos seus pares (exceção, talvez, de Agatha Christie) escreveu obras fora do gênero policial. É um autor elogiado por, entre outros, André Gide e Henry Miller.
Há poucos dis terminei de ler um livro interessantíssimo de Simenon: "Memórias de Maigret". Maigret, como sabem os leitores do autor, é o personagem dos seus livros policiais. Uma grande criação, assim como o Poirot, de Agatha Christie, e o Sherlock Holmes, de Conan Doyle. É um livro interessantíssimo, curiosíssimo e, presumo, original na sua estrutura. Publicado em 1951, o livro mostra Maigret como se fosse, não o personagem de Simenon, mas uma figura real. O autor belga se põe na pele do seu personagem, que se dispõe a narrar fatos de sua vida pessoal e profissional. Entre as revelações mais interessantes estão o primeiro encontro de Maigret com Simenon na delegacia em que o primeiro trabalhava, o relato de como Maigret conheceu a moça que viria a se tornar sua esposa e os atores que intepretaram Maigret no cinema. Ele fala de Pierre Renoir, irmão de Jean, Harry Baur, Albert Préjean e o grande Charles Laughton. Pierre Renoir fez o papel de Maigret no filme do seu irmão , "La Nuit Du Carrefour". Há outras revelações atraentes. O livro é editado pela L & PM, em formato de bolso, de 2006.
3) Também no blogue de Luiz Zanin vi o resultado de uma consulta feita pelo American Film Institute a críticos e cinéfilos sobre quais seriam os 100 (cem) maiores filmes americanos de todos os tempos. Deu "Cidadão Kane" na cabeça, como já havia dado há 10 anos anos quando aquela entidade promoveu idêntica consulta. Impossível citar, aqui, todos eles. Vou listar apenas os 12 primeiros, mas, antes, quero fazer uma ressalva. Discordo da inclusão, entre os dez, de "Casablanca", ainda que goste muito desse filme, mas não ao ponto de colocá-lo nem entre os 50 ou 60 maiores filmes americanos já realizados, "E O Vento Levou" , "A Lista de Schindler" e "O Mágico de Oz". Eis os 12.
- Cidadão Kane
- O Poderoso Chefão 1
- Casablanca
- Touro Indomável
- Cantando na Chuva
- E O Vento Levou
- Lawrence da Arábia
- A Lista de Schindler
- Um Corpo Que Cai
- O Mágico de Oz
- Luzes da Cidade
- Rastros de Ódio.
EM TEMPO - Tinha me esquecido de "Lawrence da Arábia". Também não o incluiria, talvez nem entre os 100, em que pese a sua beleza visual/plástica, Enfim, lista é aquilo que todo mundo sabe. Questão de gosto y otras cositas más.

sábado, junho 23, 2007

E SE...

Este conto foi aqui publicado há mais de 2 anos. Sem alterações, sai de novo para avaliação daqueles que não o leram naquela ocasião e para reavaliação dos que já o conhecem.
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Há uns dez minutos ele está observando a mulher em seu sono intranquilo, a remexer-se, ora virando-se para o lado, ora voltando à posição de costas para a cama. A nudez da mulher é resguardada apenas pela calcinha branca, mas esta, transparente e bem ajustada ao corpo, deixa-lhe quase exposta a bunda, quando ela está de costas para ele. Enquanto a observa, ele procura precaver-se de qualquer sinal que o indique estar desperto, estático naquela posição, para que a mulher não acorde do sono inquieto e venha tirar-lhe a concentração nas palavras que ela disse há pouco, quando seus corpos estavam entrelaçados.
Pouco depois sentiu vontade de urinar. Levantou-se e, com cuidado para não fazer ruído, foi para o banheiro à sua esquerda, a três passos da cama. Ficou sentado no vaso, para continuar olhando para a mulher, cujo corpo conseguia distinguir graças a um pouco de iluminação vinda da rua através da porta aberta do pequeno terraço, à direita da cama. Quando terminou de urinar, decidiu deixar o quarto. Palmilhou-o silenciosamente, tendo a mesma cautela ao abrir a porta. Ao passar pela porta do quarto das crianças, ouviu o ressonar de uma delas. Na sala de visitas, dirigiu-se à janela e abriu-a. Uma aragem invadiu a sala, tocando-lhe o rosto, e ele sentiu um inesperado prazer, como se recebesse a carícia de uma mulher. Lá em baixo a rua estava silenciosa e deserta, tão diferente das horas do dia.
A pergunta da mulher voltou a assediá-lo. "E se eu gostasse de trepar com ele, o que é que você fazia?" Não entendia a razão de conferir um valor real àquelas palavras (ao ponto de lhe roubarem o sono), se fora ele que as criara para a mulher dizê-las. Como outras sem conta ao longo daquele casamento. (Desde os primeiros dias de casados, acostumara a mulher a falar certas coisas durante o ato sexual. Isso o deixava excitado.)
Mas, na verdade, fora o comportamento da mulher naquela noite que o perturbara. Ela fizera a pergunta, como ele ordenara, ele não disse nada, e foi aí que aconteceu o inesperado: ela repetiu a pergunta, com uma pequena variação: "Hem, e se eu gostasse da pinta dele, o que é que você fazia?" A pergunta era a mesma. Mas estranhou que ela a repetisse, parecendo-lhe demonstrar um interesse incomum, e ficou com a sensação de que o seu silêncio (também um fato inédito nos jogos entre eles) tenha-a levado à desconfiança de que ele não estava simulando naquele momento, e sendo assim, ela quisesse saber como ele reagiria a uma situação real e não apenas imaginada para tornar mais excitante o ato sexual. Pensou em perguntar, na hora e depois de terminarem, a razão daquela segunda pergunta, mas acabou desistindo.
E agora estava ali na madrugada insone, olhando a rua, pela qual passava um carro em marcha lenta, como se o motorista não quisesse ferir o silêncio. Quis consultar o relógio, esquecendo que o deixara no quarto. Sabia que não era muito tarde, mas que o sono já não viria sem a ação de um medicamento.
Ao ir pegar o remédio no armário do banheiro, encontrou a mulher saindo de lá. Tinha vestido uma blusa, talvez para se proteger do vento nas costas. "Perdeu o sono, bem?" Ele disse que sim e que ia tomar um sonífero e ver um pouco de televisão. Quando ainda estava no banheiro, ouviu-a soltar um longo bocejo.
Dia seguinte, como de praxe, ele saiu com a mulher e os dois filhos. Deixou primeiro os filhos na escola, depois a mulher no trabalho. Se beijaram, disseram tchau, a mulher saiu do carro, ele ficou observando-a retirar-se. Ao passar por um homem, este se virou e pôs-se a olhar para ela. Lá do carro ele não despregou os olhos do estranho, que só retomou a caminhada quando ela entrou num prédio. Ligou o carro e foi embora.

sexta-feira, junho 15, 2007

O PRIMEIRO FILME DE CADA UM


Na década de 1990 eu mantive por alguns meses uma coluna de cinema no "Diário de Natal". Era uma coluna semanal, que saía às sextas-feiras. Entre textos sobre filmes e diretores, realizei umas (poucas) entrevistas com amantes do cinema. Eram apenas sete perguntas feitas a cada pessoa, devido à limitaçao do espaço a mim reservado. Entre elas havia a curiosidade de saber se o entrevistado se lembrava do primeiro filme a que assistira - o seu primeiro contato com o cinema. Todos se lembravam, evidente que de uma maneira vaga, um fato normal na memória das pessoas, impossível de ser clara depois de tantos anos decorridos.
Fiquei surpreso, porque não me lembro do meu primeiro contato com esta arte que tanto amo. A minha memória, que é relativamente boa para fatos sucedidos na infância, não funciona nesse quesito - nem um tiquinho de idéia de qual tenha sido o primeiro filme que vi. A certeza que tenho é que foi no Cine Canindé. Isso está fora de questão. E deve ter sido um seriado, ou um faroeste daqueles que, nos Estados Unidos, são classificados de "Z" (estrelados por Charles Starrett, o Durango Kid, Roy Rogers, Johnny Mac Brown, entre outros) . Mas qual? Me socorre. memória. Confesso que senti uma certa inveja daqueles entrevistados. Como gostaria de me lembrar, uma cena que fosse, do meu primeiro filme.
Em seu livro "Escritos Sobre o Cinema", o diretor Jean Renoir relata o seu primeiro encontro com a arte da qual ele se tornou um dos nomes mais importantes. A arte que ele dignificou com filmes da estatura de "A Grande Ilusão" e "A Regra do Jogo". Ele era interno de uma escola e, num domingo remoto de sua infância, ali mesmo assistiu a um filme trazido por um desses exibidores ambulantes. Renoir nunca esqueceu a experiência que lhe foi maravilhosa. E, comovido, afirma que daria tudo pra rever aquele filme.
Eu me lembro, sim, do filme que vi no mesmo dia em que cheguei a Sobral, no interior do Ceará, para assumir o emprego no Banco do Brasil. Me lembro até do nome do cinema: Cine Alvorada, que ficava de frente para uma pracinha e tinha, ao lado, um bar chamado Crepúsculo. O filme? Ah, sim. Era "Os Caminhos Secretos", uma aventura de espionagem estrelada por Richard Widmark, ator ainda vivo com seus 92 anos. Como também me lembro do primeiro filme visto em Natal, quando aqui cheguei em 30 de julho de 1965. Não foi uma boa estréia, essa minha em Natal. O filme se intitulava "Pão de Açucar", com o canastrão Rossano Brazzi e Rhonda Fleming, uma bonita ruiva que teve um certo sucesso na década de 1950. O filme foi rodado no Rio e era falado em português. Brazzi e Fleming tiveram as suas vozes dubladas. E me lembro bem que, tal como o filme, a dublagem não era boa. Principalmente com a voz de Brazzi. Em certos momentos não havia uma sincronia entre a voz do ator com a do dublador. Sou obrigado a confessar que, mesmo sem nunca ter gostado de Brazzi, tive uma certa pena dele. Mas pouco depois de comer (sem gostar) esse pão, veio a compensação, quando vi "A Grande Ilusão". Foi num sábado, no Rex, numa sessão do Cinema de Arte promovida pelo Cineclube Tirol. E, mais ou menos, na mesma época, vi "O Professor Aloprado", de Jerry Lewis, que me impressionou muito, e "A Noite", de Antonioni.
E você, amigo (a) visitante deste blogue, se lembra do seu primeiro filme?

sábado, junho 09, 2007

CINEASTAS VERSUS CRÍTICOS


A relação entre cineastas e críticos foi sempre conflituosa. Não é impossível que um crítico e um cineasta se tornem amigos pela vida inteira, mas isso só pode se dar se o primeiro for um incondicional admirador do segundo e jamais deixe de regatear louvores aos seus filmes, até mesmo os menos bem realizados. E são casos isolados. A regra é que os dois convivam como cachorro e gato. E não só no cinema essa relação entre o criador de uma obra e o que a analisa é marcada por conflitos que chegam até à agressão física; nas demais artes o problema existe, principalmente na literatura.
Um programa a que assisti no EuroChannel nesta semana mostra perfeitamente a dificílima convivência entre diretores e críticos. O programa é bem realizado. Dividido em partes, cada uma apresentando um título, alterna depoimentos de integrantes das duas categorias. Entre os diretores, Almodóvar, Wim Wenders, Woody Allen, Ken Loach, Manoel de Oliveira, entre os mais conhecidos e prestigiados. Há opiniões e revelações muito interessantes de ambas as partes e vou reproduzir algumas.
Entre as alfinetadas de Almodóvar nos críticos, guardei especialmente esta: que quando se pergunta a uma criança o que ela deseja ser quando se tornar adulta, ela jamais responderá que deseja ser um crítico de cinema. O alemão Winders faz uma confissão de espantar. Ao dizer que o que mais lhe desagrada nas críticas desfavoráveis aos seus filmes é o fato de elas poderam atingir também os seus atores, revela que um ator de um filme dele quase chegou a cometer suicídio, tão deprimido ficou com os comentários do crítico. Já um cineasta da nova geração que não consegui identificar (o programa comete uma falha imperdoável: a a de não creditar o nome do depoente), menciona um comentário extremamente maldoso de um crítico sobre um filme de um colega. Escreveu o crítico que no tal filme a sequência inicial mostra um homem dormindo em uma cama: na sequência final aparece um casal dormindo também em uma cama. E arremata dizendo que, entre essas duas sequências, as cenas induzem ao sono...
Eu falei atrás em casos até de agressão física. Pois bem, dois críticos contam que foram vítimas de um diretor enfurecido. No caso de um crítico irlandês, a agressão não foi tão violenta. Num programa de televisão, provavelmente na Inglaterra, em pleno ar, a uma certa altura de uma discussão entre ele e o diretor Ken Russell, este o bateu em cada lado do rosto com um exemplar do jornal que continha o texto do crítico sobre um filme do realizador de "Mulheres Apaixonadas". Mas o crítico brasileiro Rubens Ewald Filho levou um tapa, em duas ocasiões, de um mesmo diretor, cujo nome não revelou. Seu compatriota, evidentemente.
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JEAN-CLAUDE BRIALY
Semana passada morreu o ator Jean-Claude Brialy. Nascido na Argélia, como Camus, em 1933, Brialy foi uma das presenças marcantes na Nouvelle Vague. Trabalhou com os principais diretores daquele Movimento, como Godard, Truffaut e Chabrol. De Chabrol atuou nos seus dois primeiros filmes, "Nas Garras do Vício" (1958) e "Os Primos" (1959), em ambos contracenando com Gérard Blain, já falecido.
Foi também diretor, tendo realizado 12 filmes, alguns para a tevê. Não conheço nenhum desses filmes, dos quais, salvo engano, apenas "Os Indiscretos Pingos da Chuva" (1974) foi exibido no Brasil, pelo menos no circuito comercial. Em seu "Dicionário de Cinema - Os Diretores", Jean Tulard elogia o realizador Brialy, chamando a atenção para a ênfase de um acentuado clima de nostalgia em sua obra. Em contrapartida, o já citado Rubens Ewald Filho, no seu "Dicionário de Cineastas", afirma que, a julgar pelo seu único filme visto no Brasil, Brialy não demonstrava um mínimo de talento para a direção. Sou tentado a pensar que se o crítico tivesse dito isso na França, talvez fosse estapeado pela terceira vez.

sábado, junho 02, 2007

UMA MÚSICA PARA DOIS

Este conto foi publicado aqui em 9.7.05. Sai de novo, especialmente para aqueles que não o leram naquela ocasião. Mas os que leram, não façam cerimônia (risos), podem fazer a sua reavaliação. Vamos lá.
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Ela imediatamente se virou para o piano, quando soaram os primeiros acordes da música. Por um minuoto, mais ou menos, permaneceu com o olhar enfocado no piano, depois voltou à posição inicial. Voltou também ao prato, que abandonara por aquele breve tempo. Ela também interrompera a conversa com o homem que a acompanhava. Parecia estar concentrada toda na música. E o homem, que devia ser o marido, pareceu respeitar o silêncio dela, pois não ousou lhe dizer uma só palavra até que a música parasse. E eu que não prestara atenção naquela mulher, que já começaa a comer quando eu me sentara à mesa, fui, de repente, tomado por uma junção de curiosidade e interesse por ela, a partir do momento em que a sua atenção foi despertada pelos primeiros acordes da música. E o meu olhar se deteve naquele rosto, na tentativa de nele descobrir, por trás dos óculos e em meio a algumas rugas, a jovem que conheci há anos sem conta.
E por que foi a música que, ao envolver a mulher daquela maneira, me fez sentir um interesse súbito por ela? Antes preciso fazer uma revelação. Frequentava diariamente aquele centenário restaurante, com exceção dos sábados e domingos, desde que retornara à minha cidade após uma prolongada ausência por força da minha profissão. Há uma explicação. Eu gostava daquela música e todos os dias ela era tocada, pouco tempo depois que me sentava à mesa, reservada para mim. Por um mês, talvez nem isso, solicitei-a ao pianista, mas, decorrido esse tempo, certamente percebendo que me tornara um cliente diário do restaurante, o pianista passou a executá-la com a dispensa do meu pedido.
E naquele dia, ao ouvi-la, e vendo aquela senhora partilhar da minha preferência pela música, me lembrei, de imediato, da jovem com quem tive um namoro mais ou menos duradouro. Ela, a garota, ela, a música, nunca saíram da minha mente em todos esses anos. Os dois ouvimos aquela música no mesmo dia em que iniciamos o namoro. Tínhamos ido ao Rex. na matinal de domingo, assistir "Suplício de Uma Saudade". Hoje não tenho mais saco pra encarar aquele melodrama, desde que o revi há uns dez anos, mas naquela tarde, ao lado de Loretta, emocionei-me com o romance entre William Holden e Jennifer Jones, tanto quanto a minha primeira namorada, embora, diferentemente dela, consegui resistir às lágrimas quando o filme terminou. Mas, talvez como uma lembrança do nosso amor, iniciado com o filme, se não tenho mais disposição para vê-lo, continuo a gostar da música.
Parece que agora estou ouvindo Loretta cantar, a boca chiusa, trechos de Love is a many splendored thing, quando ficávamos juntos num banco de uma pracinha, a mesma onde sempre nos encontrávamos, às vezes, assobiando-a. E depois cantando em português, quando foi lançada a versão em nosso idioma.
Mesmo depois de encerrada a execução de Love is a many splendored thing, ela permaneceu calada, só falando para responder a alguma pergunta do marido. Umas três ou quatro perguntas, que presumi que tinham a ver com a atitude da esposa. Eu começara a refeição e só desviava a atenção da mulher quando baixava os olhos para o prato. Em uma dada ocasião, uma só vez, ela, ao se virar, como que se deu conta da minha presença, mas o olhar que me endereçou teve a duração de um flash. Pouco depois o marido se levantou para ir ao banheiro. Passou bem perto de mim e pude verificar que era bem mais velho do que supunha ao vê-lo da minha mesa. Observei-o informar-se do garçom sobre o banheiro e me lembrei da primeira vez que precisei usá-lo. Em vez do usual "Homens" ou "Cavalheiros", o banheiro masculino daquele restauante exibe um retrato, numa pequena moldura oval, de um senhor de uma época antiga, vestido com um paletó e exibindo um grosso bigode. Já no das mulheres há um retrato de uma senhora também de outros tempos e com o mesmo tipo de moldura.
Continuei com os olhos atentos na mulher, à espera de que a qualquer momento ela virasse o rosto para mim e, dessa vez, me fitasse. E num breve momento acreditei nessa possibilidade. Foi quando um pequeno pássaro surgiu, de forma inesperada, sem ninguém atinar em como tinha entrado ali. A avezinha ficou passeando por aquele pequeno espaço do salão, chamando a atenção de todos que estavam ali por perto. Até que um garçom se dispôs a apanhá-la, só o conseguindo depois de algum tempo. Os movimentos do homem, a corridinha em perseguição ao pássaro, que fugia ao pressentir a proximidade do homem, provocaram risos nas pessoas. Inclusive nela. E o seu riso, a forma, me fizeram, de estalo, lembrar o de alguma pessoa. Não me era estranho aquele riso. Podia não ser o da jovem que namorei, mas de outra mulher que passara pela minha vida. Talvez até o de um amigo de um passado remoto. Impossível identificar. De todo modo, conhecera aquele riso. Foi quando acreditei que ela se virasse para mim, concedendo-me, além do olhar, um sorriso. Como alguns presentes o fizeram. Nada. A mulher não alterou a posição de todo o tempo enquanto permaneceu à mesa, com exceção da vez em que a música começou a tocar. Mas a esperança (não dizem?) é a última que morre, e me vali dela para que, ao se levantar, para ir embora, a mulher de novo me presenteasse com um olhar, ainda que rápido como uma piscadela. Nem isso. Ergueu-se e deixou a mesa pelo lado oposto ao que me encontrava. Ao se afastar, atrás do marido, pude notar que era um pouco corcunda.

sábado, maio 26, 2007

UM CAFÉ DA MANHÃ PARA MENDIGOS


Eu devia ter uns 8 pra 9 anos. Passados mais de 50 anos, é normal que a memória tenha retido pouquíssima lembrança daquele dia. A certeza que tenho é que foi num dia útil. Nem a hora exata posso lembrar. Deve ter sido entre oito e meia e nove da manhã. No máximo. Sei que a mesa de refeições da nossa casa estava posta, o bule de café com leite, pão e manteiga. E um a um eles foram chegando. Quantos eram? Não sei. Talvez uns dez, ou quinze, mas pode ter sido um pouco mais. Quem sabe doze? O número de apóstolos na última ceia de Cristo. E a mamãe bem poderia ter escolhido esse número, tão religiosa que era, assistindo missa diariamente, além de rezar em casa em frente ao "santuário". O que sei é que logo eles estavam à mesa. Aqueles homens que eu encontrava na rua pedindo uma esmola pelo amor de Deus, nas sextas indo bater à porta das casas. Agora eles (ou a maioria deles) estavam ali sentadinhos à mesa onde fazíamos as refeições. Os meus olhos infantis se arregalavam presenciando aquela cena.
A mamãe tinha pedido uma graça (provavelmente a São Francisco de Assis, o padroeiro da cidade) e se a alcançasse, ofereceria um café da manhã para alguns mendigos. Nunca soube qual foi a graça pedida e alcançada. Menino, não me interessei. E, adulto, nunca me lembrei de perguntar a ela. E será que ela diria? (Também não me lembro, embora a graça fosse para mim, de uma promessa que ela fez. Um certo ano eu tive que acompanhar as bandeiras da festa de São Francisco vestido com um hábito usado pelos frades franciscanos. Mas me lembro bem da minha vergonha de usar aquela vestimenta, com medo da mangação dos amigos. Felizmente o sacrifício foi apenas no decurso de uma festa Nas outras não se repetiu.)
Quero crer que eles estivessem vestidos com a roupa mais apresentável e estivessem limpos. Devia ter sido uma exigência da mamãe. E eu vendo aqueles homens (deveria ter alguém do sexo feminino) que sempre encontrava em andrajos. se refestelando com aquela refeição simples, mas que, para eles, representava uma banquete. (Segundo um irmão, já perto dos 20 anos, que ainda não saíra de casa, e comentou o assunto durante algum tempo, um deles não pôde conter a satisfação e revelou que nunca na sua vida tomara uma refeição como aquela. Coitado!)
Não posso me lembrar. Mas imagino que eles não estavam à vontade naquela casa que para eles era de uma família rica. Certamente, um pouco (ou um tanto?) envergonhados com a presença da minha mãe e de alguns de seus filhos. Mas iam tomando o café com leite e comendo o pão com manteiga. Terminada a refeição, foram saindo devagarinho. Como vou me lembrar se agradeceram à mamãe, se lhe desejaram muita saúde e à família? Essas palavras de agradecimento que os pedintes dizem quando recebem uma esmola Mas acredito que o tenham feito. E, talvez tanto quanto eles, minha mãe tenha ficado feliz por proporcionar um momento único na vida daqueles despossuídos, daqueles pobres de Deus.
Eu já residia em Natal quando assisti "Viridiana", de Buñuel. E na sequência do jantar oferecido aos mendigos pelo personagem-título, na mansão do tio, de imediato me veio à lembrança aquele café da manhã em minha casa.

sábado, maio 19, 2007

O DIRETOR MARLON BRANDO

"A Face Oculta" (One-Eyed Jacks/1961) representou a única experiência de Marlon Brando na direção. Ele substituiu Stanley Kubrich, que mal esquentou a cadeira de diretor, sendo demitido pelos produtores, dizem que por imposição do ator.
Lançado agora em DVD, depois de ter saído em vídeo, "A Face Oculta" insere-se na categoria do "western psicológico" ao enveredar pela análise dos dois personagens principais: Rio, vivido pelo diretor, e Dad Longworth (Karl Malden), o primeiro traído pelo segundo, após assaltarem um banco e serem perseguidos pelos policiais. Desde a sua permanência por cinco anos na prisão, Rio se torna um obcecado pelo acerto de contas com o ex-comparsa, que, nesse período, passara para o outro lado da lei, assumindo o cargo de xerife de uma cidadezinha. A partir do reencontro dos dois, eles conseguem, por algum tempo, estabelecer uma convivência que só aos olhos dos que desconhecem o que houvera entre eles pode parecer cordial e pacífica. Na verdade, uma relação tensa, como se fora de um pai (não deve ser por acaso que o nome do xerife, em inglês, significa pai) com o filho (a quem ele chama de Kid), o primeiro sempre em guarda contra o segundo, consciente de que ele voltou para lhe cobrar a dívida. Veja-se, por exemplo, o "close" do olhar assustado de Dad, ao ver do alpendre de sua casa a silhueta de Rio cavalgando em direção a sua casa. É uma boa cena. Há uma "grade" de madeira, e o enquadramento do rosto do xerife entre as barras sugere as de uma prisão onde esteve o visitante.´
É preciso chamar a atenção para a presença, no filme, de um elemento insólito na dramaturgia do "western": o mar. Próxima ao mar fica a residência de Dad. É para uma pousada litorânea que Rio vai se recuperar das chicotadas que lhe aplica o xerife (como um pai castigando o filho), que completa o suplício, fraturando-lhe a mão. É à beira do mar que ele tem o encontro amoroso com Louisa (Pina Pellicer), enteada de Dad. E ainda lá dela se despede no final do filme. E é uma presença marcante, pois a sua função não é apenas de servir de um cenário inusitado dentro do gênero, mas como a sublinhar, no torvelinho das ondas, a agitação interior de Rio.
Marlon Brando conduz "A Face Oculta" com firmeza, sensibilidade e até, em um ou outro momento, com brilho. Um exemplo é na cena em que Louisa confessa à mãe Maria (Katy Jurado) que está grávida. A reação da mãe é mostrada pela expressão do rosto, em que se revela um misto de pena e de compaixão pela sorte da filha. E após grudar o olhar numa abatida Louisa, Maria se afasta um pouco, ajoelha-se e põe-se a rezar. E sendo Brando o ator que era, ele soube transmitir a sua arte, principalmente nesse grande momento da atriz mexicana (talvez o maior do filme). Mas todos os outros atores, até os de pequena participação estão bem.
Por fim, a julgar por esse filme, só temos a lamentar que Brando não tenha prosseguido na carreira de diretor. Não seria, provavelmente, tão grande na direção quanto o foi na interpretação, mas, no mínimo, teria se convertido em um cineasta a ser observado com atenção e interesse.
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CURIOSIDADES
1.A atriz Pina Pellicer, nascida no México, que interpreta Louisa, cometeu suicídio três anos depois de trabalhar no filme. Tinha apenas 30 anos.
2. Consta que Sam Peckinpah (o diretor de "Meu Òdio Será Sua Herança") foi quem começou a escrever o roteiro, mas o abandonou depois da demissão de Kubrick Kubrick Brando e Peckinpah. Como se teriam desenrolado as filmagens com a particpação desses três homens de temperamentos tão fortes e de convivência tão problemática?

sábado, maio 12, 2007

2 TEXTOS EM PROSA DE CONCEIÇÃO EUGÉNIO

Já mostramos, aqui, a poesia da portuguesa do Alentejo Conceição Eugénio. Hoje é a vez da sua prosa. Os 2 textos fazem parte do livro "Falar Mulher" (1997), constituído de poesia (a maior parte) e de prosa. Manda ver, Amiga.
Revisitação
Entrou na casa, suave e sorrateira, pisando o chão com o cuidado de quem pisa o corpo amado.
Nada se ouvia. Nem o seu movimento.
Subiu pela escadaria das festas. Foi essa a imagem que lhe ficou.
A imagem dos dias de gala. Dos dias em que todos tentavam criar uma harmonia estética e ética, a ética mais próxima da realidade do ser.
Deambula.
Vagueia pela casa. Silenciosa e furtiva como um ladrão.
Continua a subir a escadaria, detendo-se nos detalhes de pujança e riqueza, bem como nos de decadência, que começam a ressaltar ainda que de forma irrisória.
Abre todas as longas portas pois por elas, sem se vergar, passará um ser de dois metros e meio, e esquadrinha os cantos, os nichos, o recheio...
A casa...
Ausculta o arfar da casa que mais ninguém ouve. Para além dela.
Não só pelo facto de não estar presente mais ninguém mas também, ainda e principalmnte, porque o arfar, o respirar daquela casa, só a ela se revela.
Em cada divisão em que entra deixa de existir e funde-se nela.
A razão da casa e ela existirem é a mesma.
E indissolúvel.
Continua pellas escadarias.
Silenciosamente.
Sem que nada perturbe aquele suave
silêncio e sobe até ao sótão.
Encontra as memórias de infância, aí muito
bem arrumadas, à espera de voltarem a ser,
novamente utilizadas.
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Maria reconhece a gentileza, não, mais do
que isso, a ternura dele ao escolher vestir a
camisa azul que lhe comprara.
Via ainda esta ternura desenvolver-se numa
traquinice que lhe fazia os olhos rirem-se e
dançar uma dança sem fim.
Aqueles pequenos nada, traquinas e
maliciosos, faziam-lhe explodir clarões de
riso nos olhos.
E assim iam eliminando penumbras.
Nunca lho havia dito, pensava Maria.
Talvez por assumir não ser necessário.
Pensava agora que teria de corrigir este
silêncio com um qualquer outro recíproco
clarão.

domingo, maio 06, 2007

MARIA DA COMADRE MILA


Pequenininha, mais para gorda do que para magra, quando a conheci devia estar perto dos sessenta anos. Talvez, até, já os tivesse inteirado. Maria da Comadre Mila. Como não me lembro de, fora a minha mãe, ninguém chamá-la assim, é evidente que essa Mila (que não conheci) e mamãe eram comadres. Também não me lembro do tipo parentesco entre Maria e Mila.
Maria aparecia com certa frequência lá em casa e com uma pontualidade, que não direi britânica, porque não sei se os britânicos ainda conservam esse hábito admirável, tanto as coisas mudaram por lá (até reality show já se faz na Inglaterra). Era perto do horário do almoço. Maria, então, ia ficando, ficando, conversando até que o papai, vindo da loja, mandava botar "a xepa" e ela ia nos fazer companhia à mesa. Às vezes, ela pedia pra tomar banho. E quando saía do banheiro, o calor tendo sumido temporariamente do corpo, dizia invariavelmente: "Pronto. Agora estou fresquinha". Numa dessas ocasiões, o papai, mais por brincadeira, a advertiu: "Não diga isso não, Maria". (Aqui no Nordeste, hoje já não usado como naquele tempo, "fresco" é um dos incontáveis nomes populares pelos quais é chamado o homossexual.) Papai gostava de "mexer" com ele, nos dias em que ele estava de bom humor.
Já a mamãe... Sempre tive a impressão de que a mamãe apenas lhe tolerava a presença E tolerava creio que em memória à "comadre Mila". Não era com uma expressão satisfeita que acolhia as visitas de Maria. Talvez pela assiduidade delas. E uma vez fui testemunha de uma descompostura que ela deu em Maria. Foi quando esta foi falar mal do Padre Cícero, baseada numa história que ouvira de alguém. Ora, minha mãe, como toda pessoa de Juazeiro do Norte, venerava o Padre Cícero. Chegou, inclusive, a conhecê-lo. Falar mal do "meu padim Ciço" a um juazeirense é pedir pra levar uma bordoada verbal. (E sei lá se não física). Depois dessa lição, a coitada nunca mais mais mencionou o nome do santo de Juazeiro.
Não me lembro de quando Maria morreu e de quê. Pode ter sido de velhice. E ainda hoje parece que estou vendo aquela mulher quase anã, chegando à nossa casa perto do almoço, conversando e conversando e conversando, aguardando a hora de comer com a gente.
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CAVALO NA RUA
O que fazia aquele cavalo na rua, no feriado de primeiro de maio? De onde fugira ele? Já perto das onze horas, fui à janela do meu quarto e o avistei trotando pela rua, até parar junto a um canteiro. Subiu no canteiro e se chegou às plantas. Um ou outro carro passava perto dele. Parecia indiferente àquela presença ruidosa, estranha ao seu meio, continuava, tranquilo, abocanhando as plantas Fiquei observando-o por mais de cinco minutos. Deixei a janela, fui me banhar, e quando voltei, ele não estava mais lá. Deve ter se sentido satisfeito. Mas me ficou a pergunta. O que fazia aquele cavalo na rua? De onde tinha fugido? E o dia ocioso se arrastava.

quarta-feira, maio 02, 2007

O SEGREDO DAS JÓIAS (The Asphalt Jungle/1950)


Em 1950 John Huston já adquirira um certo respeito da crítica, principalmente por ter realizado, dois anos antes, "O Tesouro de Sierra Madre", que lhe rendeu os Oscar de Melhor Diretor e Melhor Roteirista, Naquele mesmo ano era lançado "O Segredo das Jóias", que iria acrescentar mais um grau a esse respeito, a essa admiração.
O tema do filme é o planejamento e a realização de um assalto a uma joalheria, comandado por Doc Riedenschneider (Sam Jaffe), recém-saído da prisão, com o auxílio de três outros homens: Dix Handley (Sterling Hayden), Louis Clavelli (Anthony Caruso) e Gus Minissi (James Whitmore), este o motorista do carro. Mas o roteiro de Ben Maddow e do próprio Huston, com base num livro de W. R. Burnett, faz transcender a narrativa desse assalto, muito bem conduzida, com a abordagem humana e moral dos assaltantes e do receptador das jóias, Alonzo Emmerich, um advogado corrupto, interpretado por Louis Calhern.
E ao se debruçar sobre a personalidades desses homens, "O Segredo das Jóias", revela uma diferença de propósitos pessoais ao serem eles impelidos a praticar aquele assalto. Enquanto para Doc o produto do roubo lhe poderá oferecer uma vida confortável no México, na companhia de belas mulheres (ele se sente muito atraído por elas, principalmente as jovens, e por se demorar na visão de uma adolescente dançando em um bar, é que a polícia o captura), para Emmerich é uma forma de superar a ruína financeira causada pelos gastos excessivos com a jovem amante (Marilyn Monroe, a pouco tempo de se tornar a estrela que foi), os outros três desejam apenas uma vida simples. Como o arrombador de cofres Louis, sempre preocupado com a saúde do filho. Ou Dix, este o mais interessante personagem. Nascido e criado em uma fazenda de Kentucky, é um "estrangeiro" naquela selva de asfalto. Odeia a cidade grande e sobrevive ali movido pelo objetivo de ganhar dinheiro suficiente para adquirir um rancho e neste viver o restante de sua vida. Não por acaso, ele vive apostando em cavalos, que ele prefere à companhia dos homens. É um puro, por trás do jeito e aparência brutos, só conseguindo se relacionar com Gus, que trabalha num bar, e com Doll (Jean Hagen, que, dois anos depois, interpretaria a atriz de voz gasguita em "Cantando na Chuva"). Esse desejo, diria melhor, essa obsessão de voltar para o meio rural, é tão dominador em Dix que é para lá que vai, levado pela devotada namorada, fugindo da polícia e esvaindo-se em sangue. A sua morte representa o momento mais belo de "Segredo das Jóias" e um dos finais mais belos do cinema. Reunindo o pouco das forças que lhe restam, ele deixa o carro, transpõe o cercado e, na caminhada, desaba na relva. O dia está amanhecendo e Dix morre, como, certamente, sempre sonhou. Longe da cidade perversa e sombria (a história se desenvolve à noite), sentindo o odor do campo e cercado por três cavalos. A câmera fica afastada na cena, e esta, além da beleza plástica, insere um ingrediente poético.
"O Segredo das Jóias" é um filme seminal. Inspirou inúmeros filmes "de assalto", mas o único que, talvez, possa se ombrear com ele seja "Rififi", que Jules Dassin faria quatro anos depois. E desenvolve um elemento recorrente na filmografia de Huston, ou seja, o fracasso, a frustração dos sonhos pelos quais os seus personagens tanto lutam (vide "O Tesouro de Sierra Madre", para citar um exempo maior).

sábado, abril 28, 2007

A RAINHA (The Queen/2006)


Pode-se dizer, sem cometer um exagero, ou falar uma impropriedade, que o personagem central do filme de Stephen Frears ("Ligações Perigosas", "Minha Adorável Lavanderia") é a Princesa Diana. Sua trágica morte causa, pela primeira vez no reinado de Elizabeth II (Helen Mirren) , um abalo nas relações entre a Família Real e os seus súditos ingleses, por causa da atitude assumida por aquela diante da vítuma do infausto acontecimento. À exceção do Príncipe Charles, (Alex Jenkins) já separado dela há alguns anos, os demais membros da Realeza dão as costas para o ocorrido, chegando a deixarem o Palácio de Buckingham, refugiando-se numa região afastada de Londres. Esse fato, principalmente, provoca uma onda de protestos da população. Aliás, o destaque de Diana no filme é mostrado um pouco antes de ela morrer, na visita que o recém-eleito Tony Blair (Michael Sheen) faz à à Rainha. Durante o curto encontro, a Rainha é interrompida pelo seu principal auxiliar para lhe falar sobre o comparecimento de Diana ao enterro de um famoso estilista. E logo quando ocorre o acidente fatal, em um dos bons momentos do filme, quando a perseguição dos "paparazzi" ao carro, onde elá está com o atual namorado, é alternada com imagens da Princesa veiculadas pela televisão, a "presença" dela é decisiva para o desenrolar da história.
"Presença" que serve até para provocar uma tensão nas relações entre Elizabeth II e Blair, que, espertamente, adere à comoção da população (ou parte dela), começando por fazer um pronunciamento em que lamenta a morte de Diana. Ele chega até a convencer a Rainha a voltar ao palácio, para ficar junto da multidão postada ali em frente. E quando ela sai do palácio, para se encontrar com os súditos, há uma cena que a comove. Há o contrangimento de Elizabeth em estar ali, para se unir às pessoas na homenagem a uma mulher de quem ela jamais gostou; e há da parte das pessoas, apesar do respeito à sua soberana, uma certa má vontade contra ela. Então uma garotinha lhe dá um buquê de flores.
Muito interessante é a crítica que o filme faz da persona política de Tony Blair. Aos poucos, ele começa a ficar do lado de Elizabeth. E, no final, quando ele vai visitá-la, dois meses depois da morte de Diana, é mostrado o clímax dessa transformação. A Rainha o submete a falar dos negócios políticos acompanhando-a numa caminhada pelo palácio. E vemos o Primeiro-Ministro seguindo a Rainha, expondo os assuntos, aos quais ela parece não dar a devida importância. É o Blair que, com o correr do tempo, traiu as esperanças dos que confiaram nele para fazer um governo diferente do de Tatcher, e tornou-se um aliado incondicional (e, de certa forma, até submisso) de Bush nas questões internacionais, como a invasão do Iraque.
"A Rainha", com fotografia do brasileiro Affonso Beato (que já trabalhou duas vezes com Almodóvar), se não possui o brilho de um "Ligações Perigosas", para citar um exemplo, é um ótimo filme, que revela que Stephen Frears é um diretor de quem ainda se pode esperar coisa boa.
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A ENFERMIDADE DE ANNIE GIRARDOT
Os da minha geração se lembram bem dessa atriz francesa, mas que trabalhou também no cinema italiano, inclusive com Visconti em "Rocco e Seus Irmãos". Neste filme atuava Renato Salvatori, que se tornou seu marido. Pois bem. A filha deles escreveu um livro sobre a convivência dela com os pais. E já para o final revela que Annie está sofrendo do Mal de Alzheimer. Apesar de doente, ela trabalhou em "A Pianista, convidada pelo diretor Mikael Haneke, cujo gesto deve ser elogiado. Foi com esse livro que os franceses ficaram sabendo que alguns problemas de memória da atriz não eram decorrentes do alcoolismo que a afetou durante um certo período de sua vida, conforme especulava a imprensa. Quem leu o livro diz que é de quase chorar o que confessa a filha: o medo de quando chegar o dia em que não será mais reconhecida pela mãe. Pobre Girardot! Mas assim é a vida.

domingo, abril 22, 2007

OS BEIRAIS SABEM. (UM TEXTO DE HORÁCIO PAIVA)

O meu amigo Jaime conheci-o numa reunião festiva do Centro Paraibano, dirigido, em Natal, na década de 80, pelo bancário e advogado Agamenon Marques. Sabendo de meu gosto pela literatura, teve o gesto amável de presentear-me com um volume dos "Cuentos de la Selva", edição mexicana de 1985, do célebre escritor uruguaio Horacio Quiroga. Selou, assim, a amizade que se iniciava.
Convidei-o a ir, no domingo, à minha casa na calma enseada da Praia de Búzios, proxima a Natal. Da varanda, víamos o mar. Mas neblinava, e a fina e tenra chuva que caía nos convidava ao recolhimento, à conversa serena e, por que não?, à degustação de uma acolhedora cachaça nordestina. Naquele momento, revelava, assim, o dia, a sua harmonia e a sua paz, assemelhando-se aquele instante paradisíaco, descrito por Nikos Kazanzakis, em "O Cristo Recrucificado", quando o personagem identifica o paraíso no dia calmo, a chuva fina, a conversa mole na varanda e o degustar do narguilé.
Puxando conversa, e introduzindo o visitante na atmosfera de Búzios, lembro de um comentário inicial que fiz sobre o nome do lugar, advindo, segundo Câmara Cascudo (in "História do Rio Grande do Norte"), da grande quantidade de búzios ali encontrada, objeto no século XVI, de um édito real disciplinando a sua exploração, já que o marisco era usado como moeda de troca, na África colonial portuguesa.
De história, a conversa girou, em contraponto tempestuoso à paz daquele dia, para as velhas e violentas práticas da política interiorana, na primeira metade do século XX.
Dos relatos de meu amigo, um deles, pela singularidade, ainda o guardo na memória. Jaime não lembrava os nomes dos figurantes e do lugar onde se deram os acontecimentos. Ou não os quis lembrar, provavelmente porque não havia ainda perdoado o tempo os fatos a seguir transcritos. Dessa forma, e não obstante a veracidade de sua história, utilizou nomes fictícios.
O Major Vicente Honório, através do grupo oligárquico que chefiava, exercia o controle político do município de Pedra Queimada há mais de vinte anos. Liderança que remontava à República Velha, mas que não vacilou em aderir ao novo poder que se consolidara no País, com a chamada Revolução de 30. Prática, aliás, comum aos velhos (e novos) "coronéis", que, useiros e vezeiros das benesses do poder, não suportavam ver questionados e contrariados os seus interesses pessoais e grupais.
Com o advento do Estado Novo, em 1937, obteve a sua nomeação como prefeito, permanecendo no cargo até 1 de janeiro de 1948, quando deu posse a um membro de sua própria família, um primo, eleito em fins de 1947.
Essa campanha eleitoral de 1947, a primeira, na esfera municipal, após a redemocratização, fora marcada pelo tumulto e pela violência, traduzindo-se, a expressão máxima dessa violência, na notícia do assassinato do insigne e corajoso líder oposicionista, o boticário Afrânio Lopes - o mais cotado, pela popularidade, a vencer o pleito.
Tarde da noite, quando as trevas venciam a rua mal iluminada, bateram à porta de sua farmácia, que funcionava no andar térreo da casa onde morava. Ao atender, foi atingido pelo tiro fatal. Morreu instantaneamente, sem conseguir pronunciar palavra, nada, nenhum sinal que levasse ao assassino.
Em tais casos, o silêncio é insuportável, sobretudo em meio a uma campanha política. Os detratores do Major atrubuíam-lhe o crime. Hipótese rechaçada, veementemente, pelos seus aliados. Estes propalavam outras motivações, vinculadas a negócio de dinheiro, a dívidas não quitadas pelo boticário, ou ao seu forte carisma, gerador de ciúmes em alguns.
O Major, também, dizia-se inocente e vítima política do crime. Chegava a emocionar-se nos palanques, e, certa vez, até a chorar ante o que chamava de injusta acusação, que não poderia admitir partisse do povo, que tanto amava e por quem se sacrificara ao longo dos anos, creditando-a, sim, à maldade e ao radicalismo de seus ferrenhos adversários e detratores.
A polícia local - por inoperância, despreparo, ou mesmo cumplicidade com os seus chefes políticos - jamais chegou a desvendar o crime. E o papel de grande vítima foi-se incorporando à personalidade política do Major, e explorado com êxito (embora repudiado pela oposição, que jamais se conformara com a perda do líder), nessa campanha e mesmo nas seguintes.
O mais enfático arauto dessa tese era o seu filho, propalando eternamente a inocência do pai, mesmo quando, com o passar do tempo, já não havia clamor ou questionamentos. Com efeito, o assunto arrefecera, e a insistência do filho tornara-se um banal lugar comum em seus discursos. Até uma impertinência, dizia-se, pois sempre voltava com aquela fala demagógica do pai injustiçado.
Aquilo já incomodava. A memória do fato funesto, insepulta, repetitiva, viva naqueles discuros febris de defesa sem limites, incomodava a todos, inclusive ao próprio pai, que chegava a pensar nos familiares da vítima e na segurança do filho.
Portanto, chamou-o , um dia, à sua fazenda Olho d'Água, nas cercanias da cidade, local apropriado a uma conversa a dois, franca e sincera. Chovia copiosamente, e a chuva escorria, em cântaros, pelos beirais do alpendre. Foi direto ao assunto: o filho devia parar, imediatamente, com aquela peroração extrema e desnecessária, cujas consequências poderiam ser imprevisíveis.
E acrescentava, apontando os beirais, tomados pela volúpia das águas: "Não seja ingênuo. até os beirais sabem mais do que você." Sem entender, o filho, atônito, ouviu, afinal, a drástica revelação: "Eu mandei matar Afrânio Lopes. E está acabado!"
Os tempos haviam mudado. Ainda não ocorrera a prescrição da pena atribuída ao crime. E havia o receio do caso vir a ser reaberto.

quarta-feira, abril 18, 2007

VALQUÍRIA E O MENINO


Este conto foi aqui publicado há mais de um ano. Sai outra vez, não só por falta de um assunto novo, mas para o caso de alguém não o ter lido naquela oportunidade e, para que os leram, poderem fazer uma reavaliação dele.
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Foi assim de uma hora para outra. Quando a via, olhava para ela de um modo diferente, e sentindo despertar-lhe uma coisa nova que a sua pouca idade não poderia discernir. Às vezes, ficava sem vontade de brincar com os amigos na pracinha, só querendo olhar para a moça que se sobressaía diante das amigas pelo jeito festivo, o timbre da voz, a conversa incessante. Aquela moça branca, branca como... Como o quê? Não sabia como comparar a cor da sua pele. Curioso: se não estava perto de Valquíria, não pensava nela. Era quando a encontrava (às vezes, durante o dia), que aquilo lhe ocorria. E se punha determinado a não perdê-la de vista quando ela volteava pela pracinha com as amigas.
Uma noite Valquíria não estava acompanhada das amigas. Ficou com uma sensação de perda, como se um amigo lhe tivesse levado o gibi que amava, a bola que o pai lhe presenteara no último aniversário, com a qual dormia abraçado. Qualquer coisa assim. Mas não arredou pé da pracinha. Foi apostar corrida com os amigos. Num dado momento descobriu-a num banco com um rapaz. Parou de correr, num instante. Os amigos o chamavam, o xingavam, e ele ali estático, como se alguém muito forte o prendesse pelos braços. Estava a uma pequena distância de Valquíria e pôde observar que as alvas mãos dela estavam entrelaçadas com as do namorado. Não sabe o que lhe deu, para, de repente, sair da posição estática e se dirigir para o banco. Foi numa reta em direção aos dois. Para que, meu Deus? Ele próprio não saberia explicar o ato impulsivo. Ao chegar bem próximo do casal, olhou para Valquíria, ela olhou para ele, e (jamais
poderia imaginar a reação dela) lhe sorriu. Os dentes imaculadamente brancos, tal a pele. Ele se voltou e saiu em disparada.
Deixou de frequentar a pracinha. Os amigos não atinavam com a causa da recusa e ele inventava desculpas que não os convenciam. Mas manteve a decisão. Chegou a ver Valquíria uma ou outra vez na rua (numa delas estava com o namorado, ele com a mão sobre o ombro dela), mas não quis olhar para o seu rosto. Ainda que fosse para ganhar um sorriso.
E não muito tempo depois, Valquíria foi embora, para nunca mais voltar. Um dia, à hora do almoço, o menino ouviu o pai dizer que o pai de Valquíria ia se transferir para outra cidade. Foi feito um soco na cara do menino. Terminou, às pressas, de comer, foi para o seu quarto, deitou-se na rede. E pensando em Valquíria, cantou, baixinho, uma música que tocava quase todas as noites na amplificadora, em cujos versos um homem revelava o seu amor por uma outra Valquíria.
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TANGOXOTE
Se eu fosse Manoel Bandeira,
dançava um tango argentino.
Um tango argentino
daqueles de sangrar lágrimas.
E com uma parceira de beleza etérea
que os meus desejos atiçasse.
Como não sou Manoel Bandeira,
vou dançar Pisa na Fulô
com Marinês.

domingo, abril 15, 2007

OUTRA CRÔNICA DE PEDRO RODRIGUES SALGUEIRO

Publico hoje a terceira das 3 crônicas que me enviou o contista cearense Pedro Rodrigues Salgueiro, conforme prometi ao divulgar aqui as duas primeiras. Ei-la.
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CARNAVALHA (1) OU A COITADA DA CACHORRA
Nossa loirinha desmiolada pelo sol está povoada de megalômanos. Facilmente se encontra um deles por aí, de peito estufado, o nariz em riste, nos quinhentos lançamentos de livros semanais, ras rodinhas de apostadores da Praça do Ferreira , e até ao pé do alambrado do simpaticíssimo PV. Eles sempre têm uma pérola pronta para qualquer situação. "Você viu? Fortaleza já é a quinta capital do País, acabou de ultrapassar Belo Horizonte!" , mas esquece de informar qual a vantagem de tal afirmativa, ou então se sai com essa: "Isso é que é o torcedor cearense, onde é que no Rio, ou em São Paulo, se enche um estádio assim em pleno meio de semana", no que eu acrescento, tentando ser irônico "Nem no exterior", e me divirto com a cara de satisfação do ufanista. Mas falando em alta estima, ainda estamos longe de paulistas, cariocas, pernambucanos ou gaúchos, enquanto eles já querem ser os melhores do mundo, nós nos contentamos em tentar ser apenas os melhores do Brasil.
Mesmo estando acostumado com o a elevadíssima estima alencarina, fiquei deveras preocupado ao ouvir de um empresário (como todos sabem, o empresário é aquele sujeito que está sempre preocupado com a quantidade de empregos, com o aumento do número de turistas, com a imagem da cidade, etc) a genial afirmativa: "Fortaleza já merece um carnaval de respeito, à altura de sua importância". Tremi na base, me benzi e quase bato com o nó dos dedos em sua tremenda cara de pau. Meu Deus!, lembrei o reveillon recente macaqueando Copacabana, com queima grande de fogos e cantor de fora. Como em nossa terrinha bodegueiro (ou megabodegueiro) acerta mais que meteorologista e pai-de-santo, fiquei preocupadíssimo.
Aproveitemos, então, gente, o nosso pobre e atrasadinho carnaval, nosso "Periquito da madame", nosso "Quem é de bem fica", nosso "Concentra mas não sai", nosso "Vai dar o Carlito", nosso preguiçoso maracatu na Domingos Olímpio, pois eles estão com os dias contados, em breve teremos mil blocos de axé-music na Beira-Mar, infinitas escolas de samba na Virgílio Távora, e não escapará nenhum de nossos bêbados blocos de sujos, nem a coitada da "Cachorra magra" da Marechal Deodoro.
(1) Carnavalha: título roubado de um romance inédito de Nilto Maciel
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"O MAIOR BRASILEIRO DE TODOS OS TEMPOS"
No início deste mês saiu o resultado de uma consulta da Folha de S. Paulo a 200 intelectuais, políticos, artistas, empresários, publicitários, jornalistas, esportistas e militares, sobre quem seria o maior brasileiro de todos os tempos. O escolhido foi Getúlio Vargas. Pois é, Getúlio Vargas. O homem que , entre 1932 e 1945, comandou este país com mão-de-ferro, sobretudo a partir de 1937, com a implantação do Estado Novo, suprimindo as liberdades do cidadão, torturando e matando gente na prisão, tendo à frente da Polícia o germanófilo, cruel e sanguinário Filinto Muller. Mais abaixo vou publicar a lista dos 15 mais votados, entre um número de 70. Se há muitos nomes de vulto, embora em uma colocação bem aquém da sua importância para o Brasil, há a presença de Sílvio Santos, Mãe Menininha de Gantois (uma das 4 mulheres votadas, ao lado da Princesa Isabel, Anita Malfati e Adélia Prado), entre outras do mesmo nível, inclusive um tal de Francisco Marco Salzano, de quem nunca ouvi falar. (Será empresário?) Além de omissões absurdas. Gente como Graciliano Ramos, Villa-Lobos, Mário de Andrade, Carlos Drummond de Andrade, Noel Rosa, Chico, Caetano, Pixinguinha, Anísio Teixeira e tantos outros mais. Nenhum deles recebeu um mísero, solitário voto. Enquanto Vargas recebeu 15. Felizmente Machado de Assis ainda ficou em terceiro lugar. E bota felizmente nisso :não foi votado nenhum ditador do regime militar. Eis a lista dos 15 primeiros.
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- Getúlio Vargas, 16 votos
- Juscelino Kubitscheck, 15 votos
- Machado de Assis, 13 votos
- O povo, 9 votos
- Rui Barbosa, 9 votos
- Tiradentes, 8 votos
- Santos Dumont, 8 votos
- José Bonifácio, 7 votos
- Tom Jobim, 7 votos
- D. Pedro Segundo, 7 votos
- Oscar Niemeyer, 7 votos
- Pelé, 6 votos
- Oswaldo Cruz,6 votos
- Carlos Chagas, 4 votos
- Paulo Freire, 3 votos.
EM TEMPO (1) - Nosso Guia, como Lula é chamado pelo jornalista Elio Gaspari, ficou em décimo sexto, recebendo 3 votinhos.
EM TEMPO (2) - Mês passado foi feita idêntica consulta em Portugal e sabem quem foi "O MAIOR PORTUGUÊS DE TODOS OS TEMPOS?" SALAZAR. Sim, ele mesmo.

quarta-feira, abril 11, 2007

DOIS POEMAS


MEU PAI

Na minha memória
sigo pedalando a bicicleta que me deste.
(E fosse a surra,
o meu corpo continuava dolorido?)
Ainda te vejo cochilando na cadeira depois de almoçar.
E te ouço soprando o dorso da mão
e a contar as mesmas histórias.
Orgulho tenho do homem honesto,
devotado ao trabalho,
dos teus deveres de pai.
Mas lembrar não queria
do teu gênio de faca amolada.
E principalmente
não queria lembrar
dos bate-bocas com minha mãe.
ESTRELAS
Onde ela passava deixava um rastro de estrelas.

domingo, abril 08, 2007

NOITES CANINDEENSES


A noite em Canindé terminava às dez e meia. Era a hora em que a luz apagava. Às dez e quinze ocorria o que os canindeenses chamavam de "sinal": a luz sumia por uns poucos segundos, à guisa de aviso de que, com mais quinze minutos, a cidade mergulharia nas trevas. Quem estivesse na rua, tinha que ir correndo para casa, com exceção de uns poucos boêmios e seresteiros. E as famílias se preparavam para dormir.
Na praça da Basílica, moças e rapazes e meninos se reuniam todas as noites. Os meninos, quando não estavam apostando corrida, sentavam nos bancos para conversar sobre futebol, cinema e gibis. Aqueles já se abeirando da adolescência, dirigiam olhares para as moças. Estas, se não tinham um namorado, ficavam dando voltas, em grupos (às vezes, de duas em duas), recebendo galanteios dos rapazes mais afoitos, parados já perto das ruas que circundavam a larga praça. Era o lugar mais frequentado da cidade, até mais do que o Cine Canindé, que funcionava apenas três vezes por semana, às quartas (ou quintas, não estou bem certo), sábados e domingos. E quando a sessão terminava, muitos rapazes ficavam na praça.
Além da praça e do cinema, ocorria, não raro, um baile na casa de uma família. Moças e rapazes iam lá para dançar. Fui algumas vezes a essas festinhas familiares pajeando a minha irmã mais nova, Sônia, que era uma ótima dançarina. Ela tentou me ensinar a dançar, mas a minha falta de jeito superava o talento dela. Me lembro de uma vez em que me meti a besta num desses bailes e o que ganhei foi a mangofa de alguns presentes, inclusive da Zênia, outra irmã.
Quase me esquecia do serviço de alto-falante da Prefeitura que embalava as noites canindeenses. Ficava a poucos passos da praça. Funcionava por uma hora e meia, ou duas. Por aí. Tinha uma discoteca limitada e que não se renovava. Toda noite a gente ouvia as mesmas músicas. Músicas de todos os gêneros. E havia as mensagens musicais. Um rapaz, "um certo alguém", oferecia uma música a uma moça, cujo nome era por vezes mencionado, por vezes não. Quando o nome da moça não era citado, a sua identificação era feita pelo vestido que estava usando, ou pela inicial do seu nome, ou ainda por algum outro detalhe (cor do cabelo, cor dos olhos, cor da pele, e por aí ia). Cheguei a entrar muitas vezes naquela sala pequena, examinando os discos e vendo o locutor usar o microfone. Um deles, me vendo uma vez manusear os discos, me advertiu que tivesse cuidado para não quebrá-los. Apesar do seu jeito sério (para o qual contribuía o uso de óculos de lentes grossas), do ar carrancudo, não acreditei que aqueles discos eram feitos de cera de carnaúba e facilmente destruíveis. Até sorri. Algum tempo depois tive a confirmação das palavras daquele locutor. Um irmão me mandou pegar um disco na casa de alguém, fui na minha bicicleta, e, ao recebê-lo, acomodei-o na garupa da bicicleta. Ao retornar, o disco se partira ao meio.
O Cine Canindé a a praça da Basílica perdiam parte dos seus frequentadores quando chegava um circo na cidade. Circos mambembes, mas que divertiam os espectadores, principalmente o palhaço. Suas piadas continham sempre um bordão, que algumas pessoas usavam à exaustão, mesmo depois de o circo ir embora. Ou durante os dias de festa do padroeiro de Canindé, São Francisco de Assis (mais comumente chamado São Francisco das Chagas), quando, depois das bandeiras (as procissões noturnas) e da queima de fogos de artifício (um espetáculo deslumbrante), muita gente se deslocava para o largo, que viraria uma praça, em frente ao Mercado Público. Ali se instalavam a roda-gigante, os carrosséis e muitos outros atrativos.
Assim eram as noites canindeenses na minha infância e adolescência.

quarta-feira, abril 04, 2007

UMA CRÔNICA DE HORÁCIO PAIVA (RN)

MEMÓRIA MÍTICA DO JAGUNÇO CHICO DE BARROS

"Era sábado.
O amplo Quadro do Mercado,
onde ocorriam as feiras,
desde cedo estavam sob a ternura
do terral,
vindo das Imburanas,
cheirando a verde dos velames,
ou trescalando a sumo do amarelo
pexerril."

Assim começa o poeta Gilberto Avelino o seu poema "Balada às Feiras Antigas de Macau." Assim começavam as fartas e exuberantes feiras de Macau de angigamente, na primeira metade do século XX, registradas na memória lírica do poeta amado, e a que acorriam os povos vizinhos, do verde vale do Assu, do então distrito de Pendências, dos povoados de Bamburral, Alto do Rodrigues, Quixaba Maxixe, Mangue Seco, Tabatinga, Ponciana, Pedrinhas, Porto do Carão, Estreito, Canto Grande e mesmo de Carapebas e Epitácio Pessoa (hoje, Afonso Bezerra e Pedro Avelino).
De minha infância guardo os reflexos líricos dessas feiras, sobretudo nas lembranças, doces, dos alfenins, do mel dos capuxus, dos pequenos juás, ou na emoção dos acordes das velhas rabecas dos cantadores de cordel, que, como os antigos aedos gregos, percorriam as cidades dos sertões, cantando as sagas de heróis populares, fictícios ou não, de uma memória quase perdida no tempo. Empolgavam-me, dentre tantos, o "Romance do Pavão Misterioso", "A Prisão de Oliveiros", "A Morte dos Doze Pares de França", "A Vida do Cancão de Fogo e o seu Testamento", "A Chegada de Lampião no Inferno", "O Cachorro dos Mortos", "História da Donzela Teodora", "O Verdadeiro Romance do Herói João de Calais", "Roldão no Leão de Ouro", "A Força do Amor ou Alonso e Marina." Deste último título, o início é maravilhoso:
"Nestes versos eu descrevo
a força que o amor tem
que ninguém pode dizer
que não há de querer bem
o amor é como a morte
que não separa ninguém."
Certamente às feiras de Macau não aportavam apenas os feirantes e os cantadores de viola, mas outros inúmeros tipos inesquecíveis: sabidos prestidigitadores (Tiburtino foi um deles, e o mais famoso), bêbedos, vagabandos, valentões, e
"a polícia
ainda rondava
com seus fações rabo de galo."
Guardo a história de um desses valentões, que ouvi ainda criança, contada por meu avô, José Horácio de Goes. Trata-se de Chico de Barros (Francisco Bezerra de Barros), desregrado valentão, natural do Vale do Assu. Frequentava as feiras da região, onde bebia, brigava, fazia arruaças. Fomentador de pequenos e grandes "causos." A polícia de então, pequena e mal formada, tinha-lhe medo. E, aos enfrentamentos, à base dos facões "rabo de galo", não se saía muito bem. É que o jagunço, além de valente e hábil, nem sempre andava sozinho, mas, por vezes, acompanhado de "aprendizes" de cangaceiro.
Em certo dia de 1926, deu-se a virada final na vida de Chico de Barros. Numa das feiras de Macau, engraçara-se uma jovem de Tabatinga (hoje município de Alto do Rodrigues), onde também nascera. Tentou abordá-la, mas foi repudiado. Seguiu-se a ameaça violenta: iria vê-la em sua própria casa, e se lhe resistisse, apanharia de virola. Alguns circunstantes ainda tentaram dissuadi-lo, acalmando-o, dizendo-lhe que a jovem era moça direita, que morava com o avô, homem sério e correto. Qual o quê! A resposta do bandido foi pronta e grosseira: daria de rebenque, antes do final daquele mesmo dia, na neta e no avô. E, em seguida, como em comemoração antecipada do sucesso macabro da empreitada, entre galhofas e risos, foi tomar umas talagadas de cana com um de seus aprendizes que o acompanhavam.
O avô da moça, no entanto, logo fora avisado. E não fez outro coisa, naquele dia, que esperar o bandido em casa. Mas esperá-lo de arma na mão. Com o seu rifle "papo amarelo", como são conhecidos entre nós os Winchesters, ficou longo tempo postado, silencioso, pensativo, mas atento, atrás de uma das janelas de sua casa. À tardinha, antes do pôr-do-sol, ouviu o reboliço dos cavalos: eram o jagunço e seu acompanhante que chegavam. A vê-lo de arma em punho e já pronto a atirar, o aprendiz de cangaceiro, mesmo surpreso, querendo mostrar-se valente ao seu mestre, toma-lhe a frente. Tudo deu-se muito rápido. Não chegaram sequer a desmontar. O velho avisa-lhe, peremtório: "Saia do meio ou morre também." E o aprendiz de cangaceiro, abaixando-se na cela, foge em disparada. E o tiro mortal atinge Chico de Barros, derrubando-o do cavalo. Um único tiro fora suficiente para pôr termo à vida do valentão Chico de Barros!
Cheguei a ouvir uma outra versão da morte de Chico de Barros, sem a riqueza dramática da original. O velho apanhara do bandido, e o matara, posteriormente, em uma emboscada, no caminho de Tabatinga. Adoto, porém, a versão que ouvi, ainda criança, de meu avô. Pelo que há de encanto lendário. Assim, posso repetir, como aquele personagem do filme de Ford, em "O Homem que Matou o Facínora:" "Aqui no Oeste, quando a lenda for superior à realidade, imprima-se a lenda."

sábado, março 31, 2007

A PROSA DE PEDRO RODRIGUES SALGUEIRO

O contista cearense Pedro Rodrigues Salgueiro me enviou 3 textos¨que saíram num jornal de Fortaleza. Hoje publicarei os 2 primeiros, deixando o terceiro para uma outra oportunidade. PRS, de quem já publiquei aqui um conto, é autor dos livros " O Peso do Morto", "O Espantalho",Brincar com Armas"e "Dos Valores do Inimigo" e editor da revista de contos "Caos Portátil". Eis os textos.

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CRÔNICA DA GENTILÂNDIA

Depois de dez anos voltei à Gentilândia. Voltei é exagero, porque ela jamais me deixou, quem morou lá sabe que ela nunca nos abandona. E, como bom saudosista (Oh!E como somos egoístas, queremos que as coisas permaneçam do jeito que sempre foram, só para matarmos nossas saudades), não gostei do que vi: a pracinha está arrumada demais, limpa demais (Ah! Tinha esquecido o saudosista e inimigo do progresso, principalmente desse progresso de fachada), não se sujam mais os pés ao pisar na praça. Meu Deus, por favor me traga a velha pracinha esburacada, com o cimento quebrado e a estátua torta do João Gentil. (E não sei se sabem, mas a estátua foi atropelada por uma senhora que conseguiu sair da 13 de Maio, desviando as árvores e ir atingir covardemente o Sr. João Gentil!) Procurei a residência do Coronel louco, na esquina da Paulino Nogueira com a praça, e me disseram que ele morreu há muito tempo, deixando de passar o dia gritando as suas lembranças de guerra. Desviei o olhar para o sobrado antigo da Olga, que passava as noites de lua nova falando alto e juntando papéis nas calçadas para fazer fogueiras. E que susto! Fecharam - de tijolo e cal - todas as portas da casa! Será , Meu Deus, que emparedaram viva a velha Olga, como no conto de Poe, será?
Sentei no banco da praça limpinha e fiquei contando de memória o que ainda restava: o velho "PV" com suas invasões de torcidas, a "REU grande" continua a mesma com a sua multidão de estudantes do interior, a feirinha das terças-feiras (que também mudou de praça), a feirona de fim de semana, os bares e seus boêmios, enfim sobrou muito ainda, sem falar no que os olhos distraídos não conseguem enxergar: o poeta Chico Carvalho passando timidamente para se esconder na Reitoria (E não sei se sabem, mas a única função da Reitoria é esconder o poeta para ele fazer seus versos) e o velho dragão Alcides Pinto sobrevoando as copas das árvores, com suas asas negras - quando ele se cansa de resmungar sozinho em sua caverna e sai para assustar os últimos bêbados da Gentilândia.
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PRAÇA DOS LEÕES
Ali bem pertinho do Palácio da Luz, debaixo dos benjamins centenários, dois jogadores de damas arranham as pedras no tabuleiro da tarde - vez por outra um deles se levanta para urinar na porta da velha academia - sem desconfiar sequer que eles é que são imortais.

domingo, março 25, 2007

MINHA IRMÃ TERESINHA

Outro dia falando aqui sobre a vovó Bilinha, mencionei, de passagem, a minha irmã Teresinha, vendo-a rir das conversas da mãe de minha mãe. Gostava de rir a mais velha das minhas três irmãs. E ela tinha motivos de sobra pra ser uma pessoa triste, sisuda, mal-humorada. A vida não foi boa com ela. A causa de todos os percalços e dores e humilhações por que passou foi a má sorte de ter se apaixonado por um homem que não a merecia. Um sujeito com nome de flor, mas que era um cafajeste, que batia nela, gostava de beber e ia atrás de outras mulheres. Quando ela se apaixonou por esse canalha eu ainda mijava na rede. Mas quando crescidinho, comecei a ouvir histórias sobre o namoro dos dois. O papai fizera tudo para impedi-lo, porque sabia que aquele homem não prestava. Mandou-a, na esperança de que a minha irmã esquecesse o namorado, para a casa da vovó Bilinha. De nada adiantou essa providência. Quando Teresinha voltou, os dois fugiram e , em seguida, se casaram.
Tiveram vários filhos, dos quais apenas três sobreviveram. Já era grandinho o último que morreu, vítima de uma enfermidade que o deixou em cima de uma cama por muito tempo. Eu já não morava em Canindé, mas, de longe, pude acompanhar o sofrimento da minha irmã e do filho. Alguém lá de casa me contou, numa carta, que seu enterro foi acompanhado por um grande número de pessoas. Talvez o fato tenha dado um pouco de consolo para a coitada da mãe.
Guardarei até o dia de morrer uma lembrança horrível (não me ocorre agora um qualificativo mais adequado, ou até mais de um) da vida de Teresinha e seus filhos. É o tipo da lembrança
que eu daria tudo para vê-la apagada da memória. Não posso esquecer a minha irmã passando fome junto com os filhos e por causa de uma atitude radical do meu pai. Um aborrecimento que teve com a filha, do qual não me lembro, fez com que meu pai proibisse a presença dela em nossa casa, quando ele estivesse por lá, e, o pior, a recusa a qualquer ajuda a ela. E, então, depois que almoçávamos papai ia cochilar numa cadeira de balanço. Instruída por mamãe, Teresinha ia para os fundos da casa receber o prato de comida que dividia com os filhos. Um prato de comida! Minha irmã passando por uma mendiga. Acho que nem tocava no prato, deixando o pouco de comida para os filhos mais famintos do que ela.
Mas vá entender a mente (e o coração) das pessoas! Quando Teresinha passou uns dias comigo aqui em Natal confessou à minha mulher que sempre quisera mais bem ao pai do que à mãe. Na sua estada em minha casa, uma coisa me incomodou. Devo (não tenho certeza) ter "brigado" com ela pelo fato de ela se recusar a usar um dos nossos dois banheiros, preferindo o da empregada. Não sei o que a levava a fazer isso. Me lembro bem que reclamei da sua atitude ao filho caçula de Teresinha. Manifestei-lhe a desconfiança de que ela se arrependera da longa viagem que fizera, mas o sobrinho me tranquilizou: de todos os sete irmãos dela, eu fui o único em cuja casa ela quis passar alguns dias. E eu fiquei envaidecido por isso.
Quando os filhos cresceram e arranjaram emprego, a vida de Teresinha melhorou. Um dos filhos era funcionário do Banco do Brasil, que, naquela época, pagava um salário digno, e, graças, principalmente a esse (o caçula), aqueles dias de privações terminaram. Mas até para morrer, a minha irmão comeu o pão que o diabo amassou. Passou dois anos ou mais prostrada numa cama, na casa de um dos filhos, só pele e ossos. Até o dia em que descansou finalmente de todos os sofrimentos por que passou em vida. Minha irmã pertenceu àquela categoria de pessoas que vêm ao mundo para sofrer. E, no entanto, era alegre, risonha, gostava de contar casos engraçados com os habitantes da nossa cidade. Assim são as pessoas. Assim é a vida.

quarta-feira, março 21, 2007

A DÁLIA NEGRA (The Black Dahlia/2006)

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Violência, assassinatos, perversão sexual, lesbiasnismo, corrupção, triângulo amoroso e até a amizade entre dois policiais. Por trás desses ingredientes que formam a trama de "A Dália Negra", no entanto, é percebível a homenagem que o diretor Brian de Palma ("Vestida para Matar", "Dublê de Corpo") presta ao film noir. A mais óbvia dessa homenagem está no sobrenome do personagem de Scarlett Johannsson (Kay Lake) , uma referência à atriz Veronica Lake, que estrelou filmes do gênero nos anos 1940, entre os quais um tem o título de "A Dália Azul" (mencionado, de passagem, por um personagem). E foi naquela década que o noir foi criado e é nela também que se passa a história de "A Dália Negra". E, como não poderia deixar de ser, há a presença da mulher fatal, personificada em Madeleine (Hilary Swank). Um pouco atrás mencionei a existência de um triângulo amoroso. Este é formado por Kay, seu amante Lee (Aaron Eckhart) e o amigo deste Bucky (Josh Hartnett, cujo rosto tem uma leve semelhança com o de Marlon Brando)). Há uma cena reveladora da situação que vive Kay, dividida entre os dois amigos e companheiros de profissão: na sala de um cinema ela está sentada entre os dois, numa atitude que é reforçada pelo comentário (dispensável) de Bucki, que é quem narra a história .
O filme é inspirado num caso real: o assassinato da starlet Elizabeth (Betty) Short, mas, conforme a advertência nos créditos finais, as situações e os personagens são baseados no livro de James Ellroy, autor de romances policiais. O diretor De Palma conduz muito bem a narrativa, A sua direção consegue alternar, com a mesma eficiência e , às vezes, com brilho, o vigor nas cenas de violência e de impacto , com o olhar crítico (a destacar a visita de Bucki à casa de Madeleine, no início do envolvimento dos dois, quando, em poucos minutos, são revelados os perfis dos pais e da irmã dela) ; ou ainda com a situação vivida por Bucki em relação à atração mútua com Kay, quando ele resiste à tentação de se envolver de fato com ela, para não trair o amigo ( um canalha e um corrupto, como se revela depois) , que chega a lhe salvar a vida num confronto dos dois com um fora-da-lei.
Além disso, Di Palma oferece momentos de beleza plástico-visual, como na última relação sexual entre Bucki e Madeleine e, no final, quando ele vai ao encontro de Kay, ambos livres de Lee, assassinado. Quando ela lhe abre a porta do apartamento, há como que uma explosão de luminosidade, contrastando com a cena anterior. Luminosidade realçada pelo costumeiro vestido branco de Kay, em outro contraste com o inseparável vestido preto de Madeleine. Essa oposição entre o caráter e a conduta das duas mulheres, emblematizada pela cor dos seus vestuários, poderia ser um pecadilho de "A Dália Negra", tantas vezes esse recurso foi explorado pelo cinema. Mas também poderia ser uma forma do roteirista (Josh Friedman) e do diretor reforçarem a homenagem ao film noir . Álém de que Kay não ser exatamente uma santinha.

sábado, março 17, 2007

VOCÊ LEU "ULISSES?"


Não faz muito tempo alguém aqui de Natal afirmou, numa entrevista, que havia lido "Ulisses" de uma assentada. De imediato me ocorreram duas hipóteses: ou ele não conhece o significado de assentada (o que acho muito pouco provável), ou não estava falando a verdade. Acho impossível ler de uma só vez um livro de cerca de 700 páginas escrito numa linguagem clara, acessível até a um leitor de mediana capacidade intelectual e narrado de forma linear. Agora, imagine uma obra dotada de características formais, estilísticas, lingúísticas, conteudísticas de "Ulisses," cujo acesso é permitido a uns poucos privilegiados. E ainda fiquei na dúvida se essa pessoa leu mesmo o livro de James Joyce. Porque muita gente tem vergonha de dizer que não o leu. E também de dizer que tentou ler, mas o pôs de lado depois de algumas páginas.
Adquiri "Ulisses" numa coleção de clássicos da literatura, capa dura. Comprei e o deixei guardadinho na estante. Cadê coragem, cadê disposição para enfrentar o bicho? Bom. Uns 15 a 20 anos depois, decidi um dia lê-lo. Li todo? Que nada. Num esforço sobre-humano cheguei a umas cem páginas. Talvez um pouco mais. E não foi de uma "assentada" não. Esse número de páginas foi lido em várias vezes. E digo e afirmo, como naquela letra de uma música de Cartola, que entendi pouquíssimo do que Joyce escreveu. E, no entanto, esse leitor devorou essas 700 páginas em menos tempo do que o o tempo em que transcorre a ação do livro. Eu vou dar um crédito a ele. Ele pode ter lido integralmente "Ulisses," mas durante muitos dias. E o terá entendido? Ou, pelo menos, parte dele? Tenho as minhas dúvidas e nem são porque lhe falte capacidade intelectual.
Reafirmo, portanto, do alto dos meus 64 anos: não consegui ler "Ulisses," e do que li entendi muito pouco. Quase nada. Sinto uma ponta de inveja dos que realmente o leram e o entenderam. Que não são muitos, tenho plena certeza. Incapacidade minha? Deve ser. E porque não o entendi, não gosto desse livro de Joyce. Em compensação, já li 3 ou 4 vezes, e sempre com renovado prazer, "Dublinenses," livro de contos, de um dos quais, "Os Mortos," (um dos melhores, se não o melhor), o diretor John Huston fez um belo filme ("Os Vivos e os Mortos"), o último de sua carreira. Gosto menos de "Retrato do Artista Quando Jovem."
Só espero não ser arrastado a um muro de fuzilamento pelos exegetas dassa obra de acesso dificílimo, se não impenetrável.

sábado, março 10, 2007

"DEPOIS DO VENDAVAL" E UMA LEI DA FÍSICA

Em uma cena de "Depois do Vendaval" (The Quiet Man/1952), de Ford, há uma cena em que o cavalo que conduz a carroça do casamenteiro pàra, de repente, em frente a um bar. O casamenteiro, vivido admiravelmente por Barry Fitzgerald, bom de copo, ao ver que está em frente ao bar, diz que o cavalo é mais inteligente do que ele. Pois bem. Segundo me contou um conhecido, há pouco tempo, um crítico carioca fez um reparo a esta cena, por ocasião do lançamento do filme no Rio. O reparo desse crítico (cujo nome o meu conhecido não lembra) tinha a ver com a violação a uma lei da Física. É que quando a carroça estaca, o corpo do personagem é impulsionado para trás, quando o correto seria para a frente. E devido a essa "desobediência" a um "mandamento" da Física, o carinha fez essa restrição ao encantador, maravilhoso, simpaticíssimo, entre outros adjetivos, "Depois do Vendaval". Bobagem. Ford, que não era nenhum toco de vela (como se referiu Vinícius a Hemingway) , não devia desconhecer esse princípio da Física. Se não deu bola pra ele, tinha lá suas razões. Quer dizer, por um detalhe desse, o tal crítico não deu ao filme de Ford o que ele merece, ou seja, a condição de uma obra-prima. (Deve ser o seu melhor filme fora do "western.). Esse camaradinha pertence àquele tipo de gente que vai ao cinema para descobrir uma falha dessas para malhar o filme, principalmente se for uma grande obra e de um grande diretor. Se o filme é ruim de correr água, até acho isso admissível . Pode-se dizer que, além de desprovidos de talento cinematográfico , o diretor e o roteirista são ignorantes em outras coisas. Por sinal, que , numa reunião com outros pares seus, quando se comentava "!Hiroshima, Meu Amor", o mesmo sujeito, depois de ouvir os devidos louvores a essa obra-prima de Resnais, veio com esta: " É realmente o filme é muito bom, mas tem uma cena"... Ele não chegou a terminar a frase, porque foi rispidamente interrompido por Sérgio Augosto: "Pára com isso, cara. Deixa de ser chato". Assim me disse o meu conhecido.
Essa restrição a "Depois do Vendaval" me fez lembrar o que disse Vittorio De Sica a um amigo que reclamou de um defeito no nariz de Gina Lollobrigida. A atriz italiana estava no auge da sua beleza, com toda a anatomia do corpo em perfeito e admirável estado. Sabem o que disse, sabiamente, De Sica ao amigo? "Ora, isso é um detalhe insignfiicante no meio de tanta coisa boa".
Dane-se a Física. E viva "Depois do Vendaval" E viva John Ford.

domingo, março 04, 2007

VOVÓ BILINHA


Isabel era o seu nome e nunca entendi por que não era chamada de Belinha, ao invés de Bilinha. Como também não entendia por que os parentes de minha mãe eram chamados por apelidos. As tias de mamãe eram Dona, Lô, Loló, Mocinha (a mãe da minha esposa e a mais nova), As exceções eram Tia Cecília e Tia Messias. Um tio meu era chamado de Ioiô. Os meus bisavós , Pai Né e Mãe Outa (que seria Mãe Outra).
Vovó Bilinha. Me lembro dela usando um xale azul, quando ia à missa cedinho da manhã, na época do frio. Alegre, bem-humorada, espirituosa Quando lhe chegou a viuvez, foi morar com a filha, em Canindé. Eu já tinha saído de casa, mas quando aparecia por lá, presenciava minha irmã Teresinha rindo das coisas que ela dizia. A minha mulher conta uma história que revela esse lado hmorístico de Vovó Bilinha. Num encontro com uma afilhada, esta lhe comunicou que tinha se casado. Vovó lhe deu os parabéns e quis saber como era o marido. A afilhada, mostrando-se muito feliz em seu novo estado, falou muito bem do marido. Ele só tinha um defeito. "Qual é o defeito?" perguntou minha avó. "E que ele é pobre, madrinha." E a vovõ em cima da bucha: "Pois, minha filha, esse é o pior defeito." Aquelas duas ingênuas considerando a pobreza como um defeito.
Em todo caso, Vovó Bilinha sabia bem dos efeitos de uma vida pobre. Ela e vovô, quando os conheci, passavam por sérias dificuldades financeiras. Vovô, dizem, fora rico, mas desperdiçou os bens, em parte doando-os à Igreja, extremamente religioso que era (fanáticamente religioso, pode-se dizer) , em parte como consequência de uma falta de vocação para os negócios. Foi o que ouvi dizer, não sei o quanto de verdade havia nisso. Quando o conheci, vovô Pirajá (Zé Agostinho, ou Seu Pirajá, como a esposa, alternadamente, o chamava) tirava o magro sustento de uma modestíssima venda de produtos alimentícios. Mas era um homem conformado com a sorte, nunca o ouvi se lamentar da pobreza em que vivia.
Vovó Bilinha não morou muito tempo com minha mãe. Dois anos, talvez. Um pouco mais, um pouco menos. Por aí. Saiu de lá para morar com o filho mais novo, em Brasília. E uma vez, indo a Canindé, mamãe me contou que o filho não a tratava bem, era agressivo, grosseiro com ela. Acredito porque esse meu tio não era nenhuma flor: autoritário, metido a valente e muito mulherengo. Mas vovó Bilinha foi ficando por lá, até a sua morte, na década de 1970. Devia estar com mais de oitenta anos.
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BORGES & VINICIUS
Remexendo em velhos papéis, encontrei este poema de Jorge Luís Borges, publicado no caderno literário do "Jornal do Brasil", com tradução de Vinícius de Moraes.
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A ROSA E MILTON
Das geraçóes das rosas
que no fundo do tempo se perderam
quero que uma se salve do esquecimento.
Uma sem marca ou signo entre as coisas
que foram. O destino me concede
este dom de denominar, pela vez primeira,
essa flor silenciosa, a derradeira
rosa que Milton aproximou de seu rosto,
sem vê-la. Oh! tu vermelha ou amarela
ou branca rosa de um jardim abandonado,
deixa magicamente teu passado
memorial e neste verso brilha,
ouro, sangue ou marfim ou tenebrosa,
como em suas mãos, invisível rosa.