domingo, junho 25, 2006

TERESA, TERESA


Cigarro na boca, tiquetique do despertador martelando o ouvido, o lençol jogado nas pernas e remexido pelo sopro do ventilador - João já perdeu a esperança de dormir. Fora deitar muito tarde, passando da televisão para a radiola, e , por fim, para as páginas de uma revista Bocejando, os olhos ardendo, largou a revista e pulou na cama, como se tivesse medo do sono fugir. Foi só deitar para o pensamento retornar. Ainda lutou, ajudado por outros pensamentos, mas o maldito era mais forte. Virou para o lado da mulher, depois ficou de bruços, voltou à posição inicial. Não demorou a se levantar, em busca de cigarro. E estirado, um cigarro atrás do outro, capitulou.
Curioso como uma pergunta de uma criança pode mudar a vida de um homem, torná-lo desconfiado e vigilante para com a companheira de tantos anos - a procura intensa e dolorosa da verdade, um detalhe mínimo assumindo um grau de muita importância. Até o momento em que o garoto fez a pergunta à mãe - ela, vexada, transferiu a resposta para ele - nunca duvidara da fidelidade de Teresa. Viviam juntos todos esses anos e não se lembrava de um só momento em que tivesse pensado no caso, o comportamento de Teresa fechava todas as saídas por onde pudesse escapar uma idéia de suspeita. Tinham lá as suas rusgas - eram como todos os casais. Mas até quando defendiam pontos de vista conflitantes, pareciam mais dois amigos conscientes do valor de sua amizade e que ela deveria ser colocada num nível acima do assunto em discussão. Na cama se entendiam bem, desde a primeira vez. Tinha-se na conta de bom marido, cumpria os deveres conjugais, vestia Teresa na última moda, frequentava os melhores clubes e uma vez por ano iam conhecer uma grande cidade do Brasil. Às vezes variava de cama, mas não sentia remorso, todos fazem isso. Apareça um marido perfeito!
O milésimo cigarro esmagado no cinzeiro. O tiquetiquear do relógio, o zunido da hélice do ventilador - o som de um se distinguindo do outro. Sempre tão submissos, os dois naquela noite se insurgiam contra o patrão. Vira o rosto para o lado de Teresa. Dormindo como só os inocentes e os puros. Quem dorme assim, não pode carregar uma culpa. Tudo obra de línguas maldosas. Amanhã ia ter uma conversa franca com Teresa. Só para desabafar, tinha confiança nela. Devia ter. Ela nada havia feito de ruim pra sua honestidade ser posta em questão de uma hora pra outra. Por que ligar pruma insinuação de gente maldosa? De novo se deita de bruços, na esperança de atrair o sono definitivamente. A cama estala, num instante lembra da noite em que sua cama de solteiro arriou com ele e uma mulher. O espanto dele e dela, depois a risadaria inevitável. Nunca mais a dona quis trepar na mesma cama. Já casado, contou pra Teresa. "Danadinho", Teresa o mimoseara.
Teresa. Teresa É pensar nela e a terrível idéia retornar. Impossível resistir a inimigo tão poderoso. Com um resmungão salta da cama, vai para o quarto de leitura, buscando o refúgio de uma revista. Teresa acomodou o corpo, de modo a ocupar o espaço vazio da cama. Também não dormira um só instante, atingida pelo efeito da pergunta. João começara a desconfiar - a insônia era uma prova. Dali em diante seria vigiada como um ladrão. Adeus tranquilidade. Nesses anos todos interpretara convincentemente o papel de esposa-amante. Alegre quando tinha de ser alegre, carinhosa se João necessitava de seus afagos e carícias, excelente amante quando era procurada. Tão a sério se entregava ao papel que vez por outra alimentava uma briguinha com o marido, porque os casais felizes não podem dispensar as rusgas - são o condimento do amor deles. E adorava fazer esse papel - João adivinhava-lhe os desejos, e, muito mais, passara-lhe um atestado de confiança. Em todo o tempo de casada, pôde levar pra cama os mais diferentes homens. Alguns eram amigos de João. Por eles, ficava sabendo que o marido pegava mulher. Era quando criava uma cena de ciúmes, puxando uma briguinha com ele (precisava extrair todas as possibilidades do papel). Corneou tanto o desgraçado e nunca imaginou ser desmascarada.Agora, por causa de uma frase que o filho ouve e repete pra eles, querendo conhecer o significado, a sua vida ia virar um inferno. Sofria muito mais com a certeza de que a culpa seria declarada. Odiava todo mundo naquela noite: o menino, os homens que falaram dela, aquele despertador de zoadinha enervante. A vida inteira detestara o despertador. (Talvez por ser presente de uma ex-rival. Lhe parecia que a presença dele, no quarto, tinha a função de espioná-la.) Cada noite era posto pra trabalhar, mas o tiquetique monocórdio nunca lhe atrapalhava o sono. Naquela noite, no entanto, parecia querer puni-la, ajudado pelo ventilador.
Não achava lugar na cama. Deitava de lado, deitava de bruços - nada do sono chegar. Pensou em João. O que estaria fazendo? E se estivesse morto no banheiro? O pensamento não era tão absurdo: estivera a refletir e concluíra que ela era culpada. O choque, de tão violento, deoxara-o sem forças para uma reação. Em tais circunstâncias, o suicídio não assumia a forma de uma covardia - ao contrário, transfigurava-se em um ato revestido de sublime significado. Por um instante chegou a torcer pra que isso acontecesse, seria a única saída para ela. Logo depois, movida por um último resquício de dignidade - ou, inconscientemente, não continuava a viver o papel? - levantou-se para procurar o marido. Atravessava o corredor, onde ficava o banheiro, quando notou quando notou luz no gabinete de João. Desviou o caminho, rumou pra lá, surpreendendo-o debruçado sobre a revista. Passou um tempão a observá-lo, sem ousar interrompê-lo. Até ele dar com sua presença. A leitura abandonada, fitou Teresa, e por um rápido instante os seus olhos se encontraram e flertaram como há muito não faziam. Foi ela quem primeiro baixou os olhos, virando-se para sair.Ele a chamou: decidiu que deviam ter ali a conversa franca planejada para o dia seguinte. "O quê"? Teresa se voltou, De novo os olhos penetrando nos outros olhos. E segundos de mudez em João. "Minha filha, me arranje um comprimido pra dor-de cabeça". Voando ela foi e voando voltou, analgésico e copo dágua na mão.
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Conto extraído do meu livro A Morte Trágica de Alain Delon (1972)

terça-feira, junho 20, 2006

MEUS MELHORES FILMES BRASILEIROS


Como está fazendo hoje em seu blogue, em 1999 Moacy Cirne promoveu uma enquete no seu Balaio Porreta (então impresso) sobre os 12 melhores filmes brasileiros. Sendo um dos convidados, enviei a ele a minha lista. Republico-a aqui, com apenas duas alterações em relação à daquele ano. Vamos lá.
- Deus e o diabo na terra do sol (Glauber Rocha)
- Vidas secas (Nelson Pereira dos Santos)
- Limite (Mário Peixoto)
- Cabra marcado para morrer (Eduardo Coutinho)
- Eles não usam black-tie (Leon Hirzsman)
- Chuvas de verão (Cacá Diegues)
- O padre e a moça (Joaquim Pedro de Andrade)
- Inocência (Walter Lima Junior)
- O Grande momento (Roberto Santos)
- Ganga bruta (Humberto Mauro)
- Anahy das missões (Sérgio Silva)
- Aleluia, Gretchen (Sílvio Back)
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DUAS NOTAS DE CINEMA
- Há poucos dias o ator e diretor Jerry Lewis sofreu um enfarte, durante um vôo, parece que para Nova York. Aos 80 anos , completados em março, Lewis está afastado há algum tempo do cinema, ao qual deu uma valiosa contribuição, seja como ator, seja como diretor. Como diretor, ele revitalizou a comédia americana que, nos anos 60, tinha perdido muito da força e importância que teve nas décadas de 30 e 40. O melhor filme que dirigiu continua sendo O Professor Aloprado, de 1963. Nessa versão humorística do tema que aborda a fronteira, ou a convivência entre o Bem e o Mal na pessoa, brilhantemente exposto por Robert Louis Stevenson em O Médico e o Monstro. Lewis criou uma sucessão de gags geniais. Aliás, depois de se recuperar do enfarte, ele irá dirigir , na Broadway, uma versão musical do filme. Uma curiosidade sobre Lewis. Quando Stan Laurel, o fabuloso Magro, vivia recluso e esquecido, preso a uma cadeira de rodas, Lewis era , talvez, o único membro da comunidade cinematográfica a visitá-lo, com uma certa frequência.
- A Bela da Tarde (Buñuel/1967), vai ter uma continuação. E adivinhem quem será o diretor? Não, não será nenhum diretor do combalido cinema americano. Sabem quem? O português Manoel de Oliveira, que, se avizinhando dos 100 anos, segue filmando. Soube dessa notícia através de uma entrevista do ator brasileiro Lima Duarte, que fará parte do elenco. (Lima, grande ator, já trabalhou com o bom velhinho.) Sei não. Apesar do talento de Manoel de Oliveira, não acho que seja uma boa essa continuação do grande filme de Buñuel. Parece, não tenho certeza, Catherine Deneuve, que continua linda na casa dos 60, também participará do filme. Vamos ver em que vai dar o filme.

sábado, junho 17, 2006

A POESIA DE BARTOLOMEU CORREIA DE MELO (1)

Já mostramos, aqui, o contista potiguar Bartolomeu Correia de Melo. Hoje é a vez do poeta, com a publicação de 4 dos 7 poemas que ele me enviou. Os 3 restantes ficarão para outra oportunidade. Manda ver, Bartola!
ALINHAVO
Ah, as mulheres...
Como não vê-las
como novelos
de trana atriz?
indecifráveis
mas adoráveis;
enrosco terno
dentro de nós.
Tecer eterno
de amarradios,
viscosos fios,
doce retrós.
Cerzido inferno
de teias fêmeas,
e queixas gêmeas,
de antes e após.
Ah, linha tênue,
nó de amargura
que nos costura
juntos, mas sós...
TEOREMA
Passa da conta. A nossa tabuada
resulta um teorema esquisito:
"Eu mais você somados somos um,
pois, eu menos você, não resta nada,
num vazio de adeus quase irrestrito."
Nós anulados, sem fator comum,
somos inequação desesperada,
binômio sem afago nem afeto.
Pelo " princípio do pudor nenhum",
gemendo imprecisões, recalculamos
a tangente raiz do nosso grito;
teimando soluções, multiplicamos
razões pra dividir nosso infinito...
E assim, a divergir, nos igualamos,
nesse amor inexato, mas bonito.
INTENÇÃO
Ai de mim, que rebusco cada rima
e malcontente escrevo e apago versos,
sem achar expressão que enfim redima
anseios tão intensos, tão dispersos...
Escrever tais sentires fica acima
dos meus pobres dons, quase adversos,
de poeta que nem diz nem desanima.
Perdão, se alheio o coração da mente
que nunca atinge o belo que persegue.
Ninguém canta a poesia que pressente,
mas o poema que chorar contemple.
Por isso, lhe suplico, não renegue:
aceite meus carinhos, tão somente,
como ternas palavras que lhe entregue.
POEMETO EM BRANCO E PRETO
Negrume nas asas,
voar veludoso
e olhar que me unge
de antigas ternuras
a imaginação:
um meigo anjo grunge,
sorrindo amarguras,
pousou descuidoso
no meu coração.

terça-feira, junho 13, 2006

UM EPISÓDIO NA DITADURA MILITAR


Há poucos dias Moacy Cirne comentou, no seu Balaio Vermelho, que chegou a ser caçado pelas forças de repressão da ditadura militar, um dos períodos que mais mancharam a história do Brasil no decurso de mais de vinte anos. Felizmente, o nosso amigo não chegou a ser preso e torturado, pelo menos não tenho informação disso. Já amigos e conhecidos meus não tiveram a mesma sorte, e um ou outro pagou com o sacrifício da própria vida o fato de contestar a implantação do regime militar. Eu não tive problemas, até porque não dei motivos para isso. Isso não quer dizer que fosse favorável à presença daqueles milicos no poder. Evidente que não concordava com toda aquela situação pela qual o país estava passando, discutia-a com os amigos, mas mantive o cuidado de nunca me expor demais, principalmente quando escrevia nos jornais. Sobre cinema. Apesar dos meus cuidados, houve uma vez que, por um triz, não fui preso. É um episódio que nunca me saiu da cabeça.
Foi assim. Num certo dia, em 1972 (no governo de Médici, o mais sanguinário de todos), precisei ir a Fortaleza, para tratar de um negócio. O ônibus saía à meia-noite. A viagem seguia tranquila, mas aí pela metade do percurso, de repente o ônibus parou. Era no meio da estrada escura, o que já causou estranheza aos passageiros. O ônibus, pois, pára. as luzes se acendem e, então, suugem dois homens, com toda a pinta de agentes policiais. Ficam por alguns segundos em pé, à frente da porta que dá acesso ao posto do motorista, e , com os olhos, examinam os viajantes. Logo depois um deles se afasta e vem diretamente para o lugar onde eu estava. Devia ser na terceira ou quarta fileira. Me pede a carteira de identidade e examinha-a atentamente. Ao ver a fotografia, certamente, olha meu rosto também com atenção. Em seguida me devolve o documento, com um obrigado. Sem um pedido de desculpa. A mim e aos demais viajantes. Quando o ônibus se pôs de novo em movimento, as pessoas não tiravam os olhos de mim. Se não me falha a memória, alguém chegou a me perguntar o que eu fizera para ser submetido àquele incômodo exame. Mas se eu próprio não saberia dizer o motivo! Sem nenhuma dúvida, aqueles homens estavam à caça de alguém e me acharam parecido com ele.
No início eu disse que , por um triz, escapei de ser preso. O caso é que eu quase que viajava sem a minha carteira de identidade. Durante o dia, no meu trabalho, tive que entregá-la à Seção de Pessoal, para uma atualização de dados na minha ficha funcional. Cheguei a alertar o colega que ia precisar do documento, pois iria viajar naquele mesmo dia. Ele prometeu devolvê-lo dentro de pouco tempo, mas o certo é que o expediente se encerrou e eu não recebi de volta a carteira. Como a minha viagem era inadiável, mesmo preocupado, tinha que ir a Fortaleza. Mas aí por volta de umas oito horas da noite, eis que chega o colega à minha residência com a carteira de identidade. Pelo que relatei, se estivesse sem ela, teria sido arrastado do ônibus , talvez tivesse ficado preso e até torturado. Talvez nem estivesse contando aqui esse episódio de uma época que, só os que a viveram, sabem dos seus inúmeros malefícios.

sábado, junho 03, 2006

NOMES DE MULHER



Um dos nomes de mulher mais bonitos, para mim, é Beatriz. Na minha cidade havia uma Beatriz, uma mulher bonita, casada com um dentista. Os maledicentes diziam que traía o marido. Não sei, nunca soube, se os boates tivessem um cunho de verdade. Mas deixemos isso de lado. Outos nomes que acho bonitos: Teresa, Letícia, Cecília, Isabel, Lídia e, entre outros, aqueles tomados de empréstimo a alguns nomes de flor. São nomes que não se usam mais. Um pai de hoje, dificilmente, colocaria qualquer um desses nomes citados em uma filha, ou outros, muito usados em épocas passadas. É uma questão de época? Pra mim, não. Mas eles desapareceram, para darem lugar a outros, de preferência de origem americana. O nome Jessica, para citar um, está entre os preferidos. A mulher que trabalha em minha casa tem uma filha Jessica. Antes dela, outra tinha uma filha também assim chamada. A filha de uma amiga das minhas filhas também é Jessica. E conheço várias moças engrossando a lista.
Nomes de mulher. Uma das minhas curiosidades, ao me deparrr com um nome desconhecido, é perguntar à dona se ele é fruto da combinação dos nomes do pai e da mãe. Às vezes, é, outras, não. Aliás, esse artifício, na maioria dos casos, produz nomes de um mau gosto de dar pena da mulher. (E no caso de nome masculino, também.) Sem querer puxar brasa para a sardinha do meu falecido pai, acho que ele foi feliz quando quis adotar esse procedimento, pondo numa das filhas o nome de Zênia. O "Zê" foi tirado do nome, abreviado e com som fechado, de José, o nome dele. José Geraldo, para ser preciso. Enquanto o "nia" migrou de Antônia - o nome da minha mãe, igualmente já falecida. Além de bonito, um nome raríssimo. Só vi até hoje outra pessoa assim chamada: a filha adotiva de um casal amigo aqui de Natal. (Na década de 1950, havia uma candidata a Miss Brasil com um nome quase semelhante ao da minha irmã: Zeina.)
Ah, como certos pais escolhem mal os nomes dos seus filhos! Nunca me esqueci de um nome feminino, que, se tivesse conhecido o pai da moça, não deixaria de perguntar onde diabo ele fora desencavar aquele nomezinho. Eu trabalhava em banco na seção de ordens de pagamento. Essas ordens eram transmitidas, muitas vezes, por telefone. Um cia atendi um telefonema de um colega de Fortaleza. O nome da beneficiária era... MEDDA. O colega, brincando, me advertiu: "cuidado, Sobreira, para não trocar o primeiro D por um R" . E sempre que me lembro desse nome, fico imaginando se a coitada daquela moça nã o terá mudado. Motivos não lhe faltavam.
Quando trabalhei no interior do Ceará, a minha primeira namorada era uma excelente pessoa. Tanto que, terminado o namoro, por iniciativa minha, ela não só não ficou de mal comigo, como se tornou uma boa amiga. Mas, pobrezinha, o nome não a ajudava. Se chamava Primitiva. Mas, garamto, não foi por isso que a deixei.
NOTA - Por motivo de viagem do editor, este blogue só voltará a ser atualizado daqui a dez ou quinze dias. "E aquele abraço pra quem fica".

quarta-feira, maio 31, 2006

CONTO DE BARTOLOMEU CORREIA DE MELO

Outra vez este espaço é ocupado, para enriquecimento dele, com a ficção do contista e poeta potiguar Bartolomeu Correia de Melo. A exemplo do anterior, o conto hoje publicado faz parte do livro Estórias Quase Cruas (Edições Bagaço, Recife/2002).
ESTÓRIA PRAIEIRA
Na noite tão preta, como carvão,
a gente falava de assombração!... (Ascenso Ferreira)
MARÉ enchente. Boca-de-noite ventosa, sem lua pra espiar. Alpendre de palha, chão de areia, penca de netos brincando de anel. Ela, vindo de dentro, trazia a luz, botando com agrado cada bênção pedida. E, quando se dispôs a fazer renda, logo lhe pediram alguma estória.
Encovando a magrez das bochechas, acendeu cachimbo na lamparina. Demorosa, ajudada em curtos gemidos, a velha se acocorou diante da almofada. E pôs-se, ainda risonha, ajeitando linhas e alfinetes, como arrumasse antigos lembrares.
Na vez do mexericar dos bilros, de pronto que minguou o converseiro gasguito. E aquele frangido contente do rosto foi-se foi-se desmanchando enquanto falava:
"Rezam as crenças que, com céu limpo e maré cheia, na lua-nova de agosto, coisas desconformes acontecem. No meiar da noite, algum cachorro praiero começa uivando malagouros... Com pouco, cruzeiro do céu vermelhece, como cinco brasas atiçadas. Cerração temporã, ninguém sabe donde vinda, apaga as estrelas restantes. E friagem trevosa engole o sossego da praia. Maresia se torna entojada, que nem catinga fria de defunto. Mais e mais, a toada do mar vai semelhando fundo queixume, como se lhe doesse a quebração... Vento sueste encorpa gemidos que lembram fanhas cantorias de incelença. Ali-acolá, vozes de galo se espicham, ecoando como gritos de socorro. Então, assim misturados por algum malencanto, tais escutares vão-se virando em latomia de chorosa multidão. E aí...
Naquilo, ventinho tranquilo amofinou o lume. No empardecer decorrido, fala dela suspensa, quase ninguém respirava. Mas a chama logo endireitou, aquietando a aflição dos entreolhares. Agravando a fala, a rendeira seguiu contando:
"Diz-que, nessa hora, fosforejando no aceiro das ondas, passa a Procissão dos Afogados - coisa por demais medonha! Enorme rebanho de almas penadas, cada qual recarpindo piores desditas. Malassombro de triste feiúra, por muitos apenas ouvido, mas somente avistado pelos bem-merecidos. Ainda assim, aquilo enxergado, ninguém nunca conta a ninguém, mode castigo de morte agoniada."
Peteleco dos bilros desapressando, enquanto os dizeres avexavam os pensares.
"No quando de tal aparição, pedida com fé e coragem, qualquer boa-graça será alcançada. Porém, aquele cristão vidente que, nalguma careta verdosa e inchada, enxergue finado conhecido, se obriga a cumprir piedoso preceito. De pronto, pra riba daquela visagem, avoar punhado de areia seca, gritando a jaculatória que, em vida, o infeliz mais devotava. Isso feito, sem dali arredar-se, ajoelhado em sincera vontade, se deve esperar o sinal. E carece de conhecer qual seja tal aviso..."
De repente, molhando na língua do fura-bolo, mais que ligeira, pegou no cuspe a pulga que lhe mordia a canela. Com gosto, trincou a danada na unha, sem perda do fio da estória.
"Na manhecença, encalha na praia um peixe-anjo - bicho bonito e bendito - dando conta daquela salvação. Pois que esse peixe, enterrado com segredo em campo-santo, voga pelo repouso daquele corpo nunca achado. Se bem que, em tal ação caridosa, não resta vez pra nenhum pedido interesseiro. Pois, qualquer pensamento ambicioso será punido por queda em malpenar sem cura; doideira desinquieta que nem as ondas do mar."
- E quando não sabendo da reza? - um maiorzinho se enxeriu de perguntar.
"Sendo assim, em lugar de peixe-anjo, aparece baiacu-espinho - bicho feioso e reimoso - adivinhão de malefícios. Então, diz-que periga daquela pobre alma tomar encosto no cristão vivente, lhe aparecendo em sonho ou sombra, recitando a devida oração. E disso sobejam esquisitas malestórias... - logo atalhou, feita sisuda - Assunto esse, desadequado pra quem de pouca noção!...
Ela sustou os bilros e cuspinhou de lado, que nem botasse ponto final nos contares. Meneando a cabeça, olhava pras bandas do mar. Naquilo parecia soletrando verdades escritas além da escuridão. Tirou friso do cabelo, atiçou o cachimbo e tornou, muito a sério:
"Águas cujos poderam não tiram sedes nem lavam pecados... Sei disso por sabença de minha avó. Quem nelas morre afogado, nelas tendo sepultura, delas nunca aparta seus penares!... - toava malagourosa. Pois que resta sujeito pra sempre a vaguear, pelo sem-fim das praias, nessa agoniada romaria. Mundo arriba, mundo abaixo, chorando a espera incerta dalgum justo que o valha e desobrige dessa eterna desventura..."
No derredor, meninada guardava silêncio escabreado. Nesse quando, ela arrematou:
"Nas ondas, ninguém se afoite, por brinquedo ou vão capricho, fazendo pouco do mar. Em troca de tolerância, quem dele tira sustento lhe presta respeito e resguardo. Quanto a vancês, mijões de rede, abraç das oiças e cuidem num bom conselho! Pois menino malouvido, que pecou por teimosia, também passa em tal cortejo; catingoso e empalemado, roído pelos siris, berrando por pai e mãe. Podem debochar de caduquice, mesmo assim, sempre redigo: "Água, minha gente, não tem zelo nem cabelo!..."
Trocando alfinetes, chupou do cachimbo as derradeiras fumaças. Na calada do alpendre, dava para ouvir o espipocar do sarro. Detrás das baforadas, em cada olhar abismado, avaliou o alcance da estória. E reocupou-se entrançando bilros, como no aguardo dalguma indagação. Mas, nada de nada, ninguém que duvidou. Bem quietinhos, espiavam pros confins da noite; arrupiados nas cócegas do vento, maginando porquês nos resmungos do mar.
Noutras lonjuras, cachorro botou-se a latir penoso.

sábado, maio 27, 2006

DESENCANTO (Brief Encounter/1945)


Quando se lembra do diretor inglês David Lean (1908-1991), a crítica atual, via de regra, refere-se aos seus filmes "espetaculares" ("A Ponte do Rio Kway", "Lawrence da Arábia", "Doutor Jivago") . Não é que faltem algumas qualidades a essas superproduções, principalmente, no caso de "Lawrence da Arábia", o seu esplendor plástico-visual, embora o filme seja um tanto prejudicado pelo exibicionismo de Peter O' Toole. Mas pouco ou nada se fala da produção de Lean na década de 1940, quando ele realizou os seus melhores filmes: "Oliver Twist" , "Grandes Esperanças"e "Desencanto". O último é a obra-prima do diretor e um dos grandos momentos do cinema.
O breve caso de amor entre Laura Jesson (Celia Johnson) e o médico Alec Harvey (Trevor Howard) é uma dessas histórias de amor, que, graças ao inspirado roteiro de Noel Coward e à ão brilhante direção de Lean, conquistam o espectador sensível, mas jamais pela via do sentimentalismo e do melodrama. Pode-se classificar esse breve romance como um caso de adolescentes (veja-se como eles se divertem com a exibição da desajeitada musicista), embora os seus protagonistas estejam na faixa dos trinta anos. Um amor breve, porque não seria possível para uma mulher relativamente bem-casada, apesar da rotina do casamento, e um homem (cuja esposa jamais aparece, o que, a meu ver, é um grande achado do roteiro) que ambiciona vôos mais altos na sua profissão, ao concretizar o sonho de se transferir para a África do Sul.
O romance é narrado por Laura, como se o fizesse para o marido, entretido em fazer palavras cruzadas. E curioso é que a palavra que ele não consegue decifrar, e recorre à esposa, porque ela gosta de poesia, seja justamente a palavra "romance", que faz alusão a uns versos de Keats.
Laura sente remorso por estar vivendo uma situação que acreditava não poderia acontecer com pessoas simples, como ela. Não esquece o presente de aniversário do marido e fica aflita uma noite ao voltar para casa e encontrar um dos filhos na cama, vítima de um atropelamento. A consciência de que está cometendo um pecado é sublinhada pela presença de um membro da Igreja, que ocupa o mesmo vagão que ela, e lhe dá um sorriso, que lhe parece irônico, deixando-a com a sensação de que ele sabe dos seus encontros amorosos.
Interessante o fato de, paralela ao romance de Alec e Laura, ocorrer uma ligação entre o agente ferroviário e a encarregada do café da estação. Contendo lances de humor (numa cena, por exemplo, em que ela está curvada, ele chega, sorrateiro, e lhe desfecha um tapa na bunda) , essa ligação serve de contraponto para a outra. E tudo indica que logrará o êxito que não teve a de Alec e Laura.
Além da qualidade da direção, do roteiro, da atuação dos atores (sobretudo Celia Johnson e Trevor Howard) , "Desencanto" conta ainda com a fotografia de Robert Krasker (o mesmo de "O Terceiro Homem") e o belo Concerto número 2 para piano de Rachmaninoff, a embalar essa história de amor, que, apesar de curta, trouxe momentos de felicidade para os dois amantes.

quarta-feira, maio 24, 2006

O PROFESSOR ANTUNES



Era muito calmo. Faço alusão a isso, por ser assim como um ponto de referência obrigatório quando se falava nele. O professor Antunes é muito calmo - diziam. Ou: o professor Antunes é uma tranquilidade. Não, ele não era calmo. Quer dizer, sua vida não era calma. Conforme um diário que ele escrevia, descoberto quando a polícia lhe vasculhou a casa. Agora, aparentemente, ele era calmo. Externamente. Daí todo mundo considerá-lo um homem tranquilo. O que era mesmo: comunicativo. Cumprimentava a todos e estava sempre rodeado de pessoas. Garotões - geralmente. Gostava de cerveja. Todas as tardes, ao sair do colégio, enfiava-se no Glacial, de onde só saía para dormir. Diziam que nunca deixou os companheiros pagar. Ninguém desconfiava - era tido como um bom. Às vezes besta - o insulto pior que alguém mais maldoso lhe lançava. E ao que parece sabia beber, pois nunca se comentou que saísse do bar cambaleando.
Professor Antunes sempre me intrigou. Não entendia como um homem ainda moço, bonito, me parecendo inteligente (a descoberta do diário confirmou isso), tinha ido se internar em nossa cidadezinha. Para mim, aquele homem escondia um segredo. E quando aconteceram as mortes daqueles rapazes, só do professor Antunes desconfiei. Mas não revelei a ninguém, mesmo porque não seria levado a sério.
Admirava-o Creio que fui o único que o compreendeu. A cidade inteira condenou aquele homem, que até um mês antes era o seu ídolo. Vi ele ser insultado por pessoas que só faltavam beijar o chão em quee pisava. Ele foi menos o assassino e mais o homossexual desnudado por todos. Ser um homossexual: a nossa cidadezinha não o perdoou. Fosse somente o matador daqueles rapazes, talvez estivesse livre, certamente numa outra cidadezinha. Ele preferia as cidades pequenas, onde havia comunicabilidade entre as pessoas e se estava livre de toda espécie de poluição.
No diário há um período relativamente longo, dedicado às diferenças de comportamento humano entre uma cidade grande e uma cidade pequena. O professor Antunes gostava de conversar com as pessoas - já disse que era muito comunicativo. Detestava a cidade grande. Entre outras coisas, pela dificuldade de relacionamento entre as pessoas. E, no entanto, numa cidade grande, ele poderia manter aquelas "relações proibidas", sem precisar assassinar os parceiros. Ele os matava para que não revelassem o seu pecado. Esse o único motivo dos crimes. Já vinha de outras cidades, onde cometera assassinatos. A sorte, então, o favorecera e saíra delas sem nenhum risco, levando somente o peso na consciência. Talvez por isso bebesse tanto. Só estava sóbrio na hora das aulas.
Coitado do professor Antunes. A sorte não o acompanhou à minha cidade. Ninguém suspeitou dele quando três rapazes apareceram mortos, num período de dois meses. Por azar, o quarto rapaz foi encontrado ainda com vida e a tempo de pronunciar o nome do professor Antunes. Não fosse pela polícia ,que decidiu investigar, ele nunca teria sido preso. Os meus conterrâneos aceitariam a idéia mais absurda, menos a de que o professor Antunes fosse o autor das mortes. Só se convenceram quando o diário foi descoberto. Jornais da capital publicaram trechos daquelas páginas íntimas. Desnudado ante a população, ele desabou estrondoso do posto a que foi elevado. Foi enviado para o presídio da capital, a polícia temeu que fosse trucidado se ficasse na cadeia da cidade. Lá foi julgado e condenado.
Agora, um fato curioso. O tempo se encarregou de amortecer a fúria de vingança dos meus conterrâneos. É verdade que ainda há os que o odeiam, além dos familiares das vítimas, em cujos corações o ódio jamais cansará. Mas nas rodinhas que se formam nos bares, nas esquinas, na pracinha, há sempre uma palavra elogiosa ao professor Antunes. Desde que não esteja presente um parente dos assassinados. Falam-lhe da bondade e da inteligência e não se conformam com a sua condição de homossexual, sendo tão bonito. Alguns chegam até a duvidar de que ele tenha praticado aquelas mortes tão brutais. Porque - enfatizam sempre, o professor Antunes era calmo, muito calmo.
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Este conto (escrito em Natal, no Natal de 1977), faz parte do meu livro Não Enterrarei os Meus Mortos (1980).

domingo, maio 21, 2006

UM POUCO DA POESIA DE BENÉ CHAVES

A meu pedido, o ficcionista e poeta Bené Chaves, de Natal (RN), enviou 4´poemas. O primeiro faz parte do seu livro "Cinzas ao Amanhecer" (2003), enquanto oss outros 3 são inéditos. Bené é ainda editor do blogue "O Apanhador de Sonhos".

ESPECTADOR

No escurinho do cinema eu vi
o vagabundo com o belo gesto de ternura
aquela imagem de uma beleza pura
a florista sorrindo e vendo o amanhã
o rosto da adolescente de olhar afetuoso
a razão vencendo a intolerância.
Vi o afeto superando o ódio
lucidez e discrição na face de todos
aquela bela loura/ruiva me acenando
a morena instigante sempre palpitando.
Vi a gratidão e justiça como bens maiores
a mediocridade rejeitada/derrotada
também a mocidade estancada
a velhice longe e não amostrada
nossas vidas não deterioradas
o amor da mulher dada/amada.

Tudo isso eu vi, mas somente no
no escurinho de uma sala de cinema.


EXISTÊNCIA

De teu ventre intumescido
nascem certezas e incertezas.
Mas de teu dileto amor
mesclam-se esperanças e
contínuos desenganos.
E enquanto brotam desejos
ou ensejos
tu aparecerás incessante
ante o despojar da vida.
O nascimento como metafísica
sucessiva.
A morte como metáfora da
aurora perdida.


ambiguidade

entre tuas macias coxas
eu afogo minhas lágrimas
afago teu seio
pensando no amanhã
no anoitecer e amanhecer
de nossas e novas vidas.


EROTISMO

Em teu corpo pousarei
como um pássaro faminto
uma ave a aterrissar.
Despirei tuas vestes
beberei em tua pele
embevecido de aflição.
Sugarei desejos derramados
na ilusão de te possuir
desesperado como um órfão.
O silêncio a despertar astúcias
sussurando faíscas de amor.
E no duelo inevitável
duas existências feridas.

quarta-feira, maio 17, 2006

A M/AE E O FILHO



Lygia Fagundes Telles tem um conto em que a mãe vai ao cinema com o filho pequeno. Pouco depois de iniciado o filme, um homem senta ao lado da mulher. Ele não é um estranho, que ocupou por acaso aquela poltrona. Aos cochichos, começam uma conversa, com brevíssimas pausas. Parece, não tenho certeza, há tantos anos li esse conto já meio antigo, que os dois chegam a entrelaçar as mãos. E teria a mão dele repousado, em algum momento, no ombro dela? É possível, mas não não descarto a intenção da memória de também ela praticar uma traição.
O filho está muito atento ao que se passa na tela, mas, em dado momento, percebendo o interesse da mãe em conversar com aquele homem, começa a estranhar a atitude dela. O interesse pelo filme é diminuído, e o garoto vai alternando a atenção entre o filme e o que se passa ao seu lado. Mesmo na sua pouca idade, sente que há algo errado na atenção que a mãe dispensa ao seu vizinho. Este se retira um pouco antes de terminar a sessão. Na volta para casa, a mãe diz ao filho para não contar ao pai o que ocorreu no cinema. Não me lembro se lhe promete um presente, ou o ameaça com um castigo , em troca do silêncio. O garoto promete, mas, ao entrar em casa, vai ao encontro do pai e lhe dá um abraço apertado, comovido abraço, exclamando, se não me engano, papai, papai. Não lhe diz nada. Nem a autora também. É suficiente a reação do menino. E assim termina esse belo conto de LFT.
Há poucos dias me lembrei desse conto, ao testemunhar um caso semelhante na praça de alimentação de um supermercado. Estava bebendo chope, enquanto esperava minha mulher fazer umas compras. A uma mesa defronte à minha, uma mesa separando as nossas, uma jovem mulher e o filho pequeno almoçavam. Era uma mulher pouco atraente, um pouco gorda, de óculos. Mas era jovem e exibia um decote que, anos atrás, se classificava de generoso. Percebi que comia apenas legumes com arroz, devia estar se submetendo a um regime para perder alguns quilinhos. O garoto, de costas pra mim, comia com vontade. Devia ter uns 8 a 10 anos, vestia uma calça comprida e era espigadinho. Logo observei um rapaz almoçando sozinho, a uma mesa na mesma fileira da mesa da mulher, a uma pequena distância dela. Ele comia com o mesmo gosto do garoto, mas, embora concentrado no prato, aqui, acolá, dava uma olhadela para a mulher, que parecia não perceber. E aí ocorreu o inesperado: ele largou a refeição, levantou-se e dirigiu-se para a mesa da mulher. O local estava quase lotado, havia um burburinho de vozes, então, não pude ouvir o que o rapaz, de pé, dizia à jovem, mas me pareceu que ele a achara muito parecida com outra mulher e lhe perguntava se eram parentes. O rapaz era alto, um pouco corpulento, e se não era especialmente bonito, possuía um certo charme. Era atraente. (Gostaria de dizer que a mulher era mais bonita do que ele, mas o que fazer? Estou relatando um fato real, não estou escrevendo um texto de ficção.) Ele deve ter perguntado se podia ocupar a mesa, e ela deu permissão, pois, de repente, voltou à sua mesa, pegou o prato e o suco e foi sentar ao lado do garoto. E o rapaz e a jovem senhora começaram a conversar animadamente e sem darem descanso às línguas. E foi então que notei. Notei que o menino espigadinho, com frequência começou a desviar os olhos do prato para dirigi-los ora à mãe, ora ao rapaz. Como se, repentinamente, achasse que alguma coisa não batia bem naquela conversa. (Preciso dizer que a mãe conversava com os olhos fixos no interlocutor, que, certamente, fazia o mesmo.) E a conversa continuou até quando terminaram de comer. Não sei quanto tempo os três ficaram ali, pois logo depois a minha mulher apareceu, terminei o chope, já pela metade, paguei a despesa e fomos embora.
Mas desde então fiquei pensando no garoto. Será que lhe aconteceu o mesmo que ao garoto do conto? A mãe lhe teria pedido que não dissesse ao pai sobre a presença do rapaz na mesa?Teria ele também abraçado o pai, quando chegou em casa? Como se sabe, a vida, muitas vezes, imita a arte. Mas são apenas hipóteses. Talvez a mãe seja separada. Ou viúva, apesar de nova. Não se sabe. Mas, confesso, senti pena do menino.

domingo, maio 14, 2006

DUAS MÃES, DOIS POETAS

MÃE
Horácio Paiva ( Brasil, Rio Grande do Norte, 1945 - )

Mãe
devo-te este poema
que sempre
seguirei querendo escrever

esperei fazê-lo
em toda a minha vida

esperei o sol
e a lua

e ambos passaram
e voltaram
com palavras mudas
douradas e
pálidas

versos
trouxeram-me as estrelas
o mar
e os rios

versos que devolvi
aos livros
e ao tempo
que os prendia

Mas o teu poema
estava sempre
aquém e além do tempo
e a voz para escrevê-lo
não me pertencia

mas vi-o
em teu ventre

onde vi nascerem
as dimensões da vida

e as dimensões
de Deus

e se o amor triunfa
em caminhos infinitos

não pode haver começo
ou fim
para o teu poema.



POEMA À MÃE
Eugênio de Andrade (Portugal, 1923-2005)

No mais fundo de ti,
eu sei que traí, mãe.

Tudo porque jã não sou
o menino adormecido
no fundo dos teus olhos.

Tudo porque tu ignoras
que há leitos onde o frio não se demora
e noites rumorosas de águas matinais.

Por isso, às vezes. as palavras que te digo
são duras, mãe,
e o nosso amor é infeliz.

Tudo porque perdi as rosas brancas
que apertava junto ao coração
no retrato da moldura.

Se soubesses como ainda amo as rosas,
talvez não enchesses as horas de pesadelo.

Mas tu esqueceste muita coisa;
esqueceste que as minhas pernas cresceram,
que todo o meu corpo cresceu,
e até o meu coração
ficou enorme, mãe!

Olha - queres ouvir-me? -
às vezes ainda sou o menino
que adormeceu nos teus olhos

ainda aperto contra o coração
rosas tão brancas
como as que tens na moldura
ainda ouço a tua voz:
Era uma vez uma princesa
no meio de um laranjal.

Mas - tu sabes - a noite é enorme,
e todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura,
dei às aves os meus olhos a beber.

Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te as rosas.

Boa noite. Eu vou com as aves.




quarta-feira, maio 10, 2006

FLORES PARTIDAS (Broken Flowers/2005)


Iniciam-se os créditos e ouve-se o toque nas teclas de uma máquina de escrever. Em seguida, a primeira imagem: uma mão enfiando um envelope cor-de-rosa em uma coleta de correspondências. Assim começa "Flores Partidas", o melhor filme de Jim Jarmusch entre os que conheço dele ("Estranhos no Paraíso", "Daunbailó"). Um Jarmusch amadurecido e demonstrando uma simplicidade e uma sensibilidade, de que só os maiores cineastas são capazes. Sem indicação do remetente, nem assinatura, a carta é endereçada a Don Johnston (Bill Murray) e chegando-lhe às mãos no momento em que sua jovem amante Sherry (Julie Delpy) está dando o fora nele. A carta é de uma das inúmeras ex-namoradas de Don, comunicando-lhe que teve um filho com ele. Já com 19 anos, o rapaz saiu de casa para tentar encontrar o pai. Mas quem é a autora da carta? Impossível saber. Com uma forte resistência, Don é convencido pelo vizinho e amigo Winston (Jeffrey Wright) a elaborar uma lista das mulheres com as quais teve uma relação mais profunda. Com o auxílio do computador, Winston consegue localizar quatro ex-amantes Aconselhado pelo amigo, Don, a cada mulher que vai visitar, lhe leva um ramalhete de flores.
Encontra Laura (Sharon Stone), Dora (Frances Conroy), Carmen (Jessica Lange) e Penny (Tilda Swinton), esta a única que o recebe com hostilidade e Don sai de lá depois de ser agredido por um homem, cuja relação com a mulher não fica explícita. Mas Dora parece que o acolhe mais por cortesia. Ela dá a impressão de não estar à vontade com o antigo amante, principalmente quando o marido chega em casa, embora este não aparente nenhum desagrado com o visitante. Laura é a que demonstra mais satisfação com o aparecimento inesperado de Don (os dois chegam a dormir juntos). Viúva, tem úma filha, Lolita. Não só pelo nome, mas pela idade e uma desinibição de fundo sedutor (ela, que estava fazendo sala para Don, na ausência da mãe, vai ao quarto para atender a um telefonema e, ao voltar, está inteiramente despida), parece uma homenagem a Kubrick, que filmou, pela primeira vez, o romance de Nabokov. A mais curiosa é Carmen, que exerce a insólita profissão de comunicadora de animais. (Deve ser uma profissão que só existe no país de Bush e, talvez, aí, esteja uma crítica de Jarmush, também autor do roteiro, ao modo de vida americano). E, por uma estranha coincidência, o gato de Carmen tem o nome do amigo de Don.
Don volta para casa, sem nenhum indício de quem lhe escreveu. Apenas a presença da cor do envelope em todas as visitas que fez: o vestido de Lolita, o roupão de Laura, uma máquina de escrever e uma moto à frente da casa de Penny, os cartões que Dora usa para distribuir aos clientes. E ainda um celular na casa de Laura. E é a impossibilidade de descobrir a autora da carta, a dúvida de Don de que pode ter sido o próprio amigo que a escreveu, ou até a jovem amante que o abandonou (quando ele regressa, encontra uma lacônica carta dela, cujo envelope é tambem cor-de-rosa), o mistério que fica na cabeça do espectador, o grande achado do filme, o seu elemento de sedução.
Mas o filme vai um pouco além disso. De repente, Don sente o interesse de conhecer aquele filho, que talvez não exista. Num gesto patético, ele chega a perguntar a um jovem andarilho, a quem já vira no aeroporto e aparece repentinamente na sua cidade, depois de o alimentar e de terem uma breve conversa , se não é filho dele. O rapaz, sem compreender a pergunta, o chama de louco e sai em disparada. Quase em desespero, Don corre para alcançá-lo e, provavelmente, esclarecer o motivo da pergunta, mas não o encontra. Ele pará no meio da rua, pensativo. E aí ocorre o grande momento da narrativa de "Flores Partidas": uma bela panorâmica, que parece saída de um filme de Hitchcock, desliza sobre Don. Em seguida, um outro rapaz, passa num carro e olha fixamente para ele. Depois de o carro passar, ele observa a placa , em seguida a câmera pega um close do rosto do personagem. E o filme termina, deixando a sensação de que Don vai tentar encontrar aquele rapaz, que pode estar à procura do pai.
Não poderia terminar este comentário sem mencionar a grande atuação de Bill Murray. Ele está tão bem, ou melhor, quanto esteve em "Encontros e Desencontros", o belo filme de Sofia Coppola. Sisudo, e revelando uma permanente expressão irônica, à qual se junta, às vezes, um ar de tédio, mesmo quando provocado por um elemento erótico (a nudez de Lolita, as coxas da secretária de Carmen) Murray prova que é , hoje, um dos grandes atores do cinema.

domingo, maio 07, 2006

CAETANO E SEUS IRMÂOS


"Eu quero tocar fogo neste apartamento,
Você não acredita".
Os pés e a cabeça apoiados em almofadas, ouvia os angustiados versos de Caetano. Era assim todas as noites. Antes, lia um pouco, ou via televisão, se houvesse um programa que o interessasse. Ouvia outros compositores, porém Caetano era o favorito. Às vezes, punha apenas o disco que continha aquela faixa, que, por ser a preferida, repetia exaustivamente. Não havia noite em que não a ouvisse. Vanda - sua mulher - já lhe confessara que não suportava mais escutá-la. E, pelo síndico, já soubera que os vizinhos também partilhavam da mesma opinião. Defendeu-se: ouvia música em volume baixo, portanto, não estava infringindo nenhuma norma do regulamento do edifício. E continuou com o hábito (ou necessidade?).
A constância com que ouvia a música fazia-o, comumente, lembrar-se do que uma irmã lhe contara: uma mulher enlouquecera de tanto ouvir Bolero. Já na ocasião discordara de que fora esse o motivo da loucura. Tinha arraigada a opinião de que a obra de arte não conduz ninguém à loucura. Ao contrário, torna mais lúcidas as pessoas.
O toca-discos solta o estalido que adverte sobre o término da última faixa. Levanta-se e vai recolocar o disco. Antes, resolve servir-se de uma dose de uísque. O televisor do vizinho está informando sobre o currículo de um concorrente às eleições. Saturado, sim, estava da campanha eleitoral. E enojado pelo nível rasteiro em que estava sendo conduzida, os adversários trocando insultos e acusações, os muros da cidade emporcalhados de piche e de expressões indecorosas, os trios elétricos trafegando com um som que ultrapassa a capacidade auditiva das pessoas.
Os versos de Caetano rodavam outra vez. Agora estava sentado sobre uma almofada, o copo ao lado. Até ele chegava o ressonar de Vanda. Invejava-lhe a facilidade para conciliar o sono. Caía na cama e em pouco tempo já dormia. Com ele não era assim. Não foram poucas as noites em que passara insone, buscando todas as posições para dormir - em vão. O médico lhe receitara um sonífero que, no início, produzira efeito. Mas depois de algum tempo, nem com o remédio conseguia dormir. Passou a adicioná-lo ao uísque e só assim obteve algum resultado.
"Eu quero tocar fogo neste apartamento,
Você não acredita".
Genial Caetano, ele pensou. Devia estar numa grande fossa quando escreveu esses versos. Com eles, tornou-se o porta-voz de milhares de irmãos que padeciam de uma angústia invencível. E que, para atenuá-la, recorriam a diversas espécies de terapia: o remédio receitado pelo analista, o álcool, o tóxico, a leitura, o filme, o pranto.
Depois de beber o uísque, sentiu uma súbita vontade de sair. Eram pouco mais de dez horas. Não sentia motivado para a leitura e já escutara música por muito tempo. Coxo, o sono demoraria a chegar. Caminhar seria a melhor maneira de esperá-lo. Deu boa-noite ao vigia, que conversava com dois homens. Andou lentamente pela rua que passa em frente ao edifício. Ainda não havia sido retirada a faixa que aludia à visita do Presidente, ocorrida há dois dias. Lembrou uma vez mais o que um jornal publicara acerca do diálogo do Presidente com o historiador da cidade, estabelecido através de bilhetinhos, por causa da surdez do segundo. Dessa conversa manuscrita, um trecho o deixara chocado - a defesa que o visitante fizera do palavrão. Não que fosse um puritano, nem gostasse de soltar uma palavra obscena de vez em quando. Era a forma grosseira com que foi exposta a necessidade do seu uso e por uma pessoa, cujo cargo o obrigava a portar-se com recato. Pelo menos, diante dos cidadãos.
Havia alguns fregueses no bar do outro lado da rua, onde tocava um frevo rasgado de Moraes Moreira. Chegou ao cruzamento da rua com a que dá acesso à praia. Dirigiu-se para a amurada em frente. Recostado à parede, deitou a vista para os múltiplos colares luminosos. Provindo do mar, o vento brincava com seus cabelos e fazia baixar a temperatura que, durante o dia, já atingia graus elevados naquela época do ano. Resolveu descer até ao mar. À medida que dele se aproximava, o vento aumentava a força e a temperatura diminuía cada vez mais. No caminho, defrontava-se com um ou outro carro, subindo a ladeira. Um homem de barba espessa e cabelos nos ombros o fez parar, pedindo-lhe fogo. Acendeu com a chama do seu cigarro o cigarro do homem, em quem descobriu um adolescente disfarçado pela barba e os cabelos compridos que se agitavam com o vento. Sentiu um odor estranho exalado pelo cigarro daquele quase garoto. Que lhe disse valeu cara e seguiu em frente.
Ao tomar o calçadão, parou um pouco e pôs-se a observar o balanço das ondas. Tirou os chinelos e desceu para a areia. Andou um longo percurso, em que encontrou casais que se amavam sobre o leito arenoso. Desabituado a caminhar, logo se sentiu cansado. Sentou na areia. O vento chicoteava-lhe o corpo, o frio fazia-o tremer, mas não se importou. Um som de vozes amorosas chegava-lhe aos ouvidos. E, de repente, experimentou uma grande sensação de paz interior, que há muitos anos lhe tinha sido roubada. Ali ficou por um tempo indeterminado. Sem pensar em nada, apenas fruindo aquele instante de paz. Não. Ele pensou, sim. Pensou em nunca mais deixar aquele lugar. Em não ter que retornar ao apartamento, ao qual Caetano queria tocar fogo. Em não ter que se aboletar num carro e enfrentar o trânsito e as neuroses dos motoristas. E, depois, emparedar-se no escritório, entrar de novo no carro e emparedar-se também no apartamento. E comer comer comer. Todo dia, todo dia. Toda noite. Tudo tediosamente igual. Como desabafou Caetano.
Conto extraído do meu livro O Tempo Está Dentro De Nós, 1989.

quarta-feira, maio 03, 2006

VELHO NUMA MANHÃ DE DOMINGO

Solitário está o velho na ante-sala da casa.
Seu olhar abrange o pequeno trecho da rua,
paisagem que a retina fixou há muitos anos.
Mas talvez não seja para a rua
nem para os raros transeuntes
que o velho estenda os olhos dispensados de lentes.
Quem sabe se neles não permaneça um resto de brilho
provindo da lembrança de remotos domingos.
E não se sinta sozinho entre a algazarra dos familiares
que o deixaram isolado naquele domingo.



CINEMA - Os 90 anos de Glenn Ford

No último primeiro de maio o ator Glenn Ford chegou aos noventa. Ótimo ator, seu talento não foi bem aproveitado por Hollywood. Li uma vez um artigo de Paulo Francis em que, de pássagem, este se referia a um detalhe na expressão do rosto de Glenn Ford, que só ele sabia fazer. Não são muitos os seus filmes memoráveis, entre os pouco mais de cem que fez, incluindo trabalhos na TV. Seu filme mais famoso é "Gilda", em que atuava ao lado de uma esplendorosa Rita Hayworth. (Ele fez par com Rita em mais 4 filmes.) O mais cultuado, mas não o melhor de sua carreira. Para mim, o melhor é "Os Corruptos", de Fritz Lang. Outros filmes de destaque foram "Desejo Humano", também de Lang, baseado no romance "A Besta Humana", de Émile Zola", que já havia sido transposto para o cinema por
Renoir; "Sementes da Violência" (Richard Brooks), "Como Nasce um Bravo" (Delmer Daves), "Cimarron" (Anthony Mann). Gosto também do thriller "Escravas do Medo", dirigido por Blake Edwards, que se especializou em comédias (foi o diretor de todos os filmes sobre o atrapalhado Inspetor Closeau, na interpretação dlo grande Peter Sellers). Talvez um ou outro mais, de que não me lembro. Glenn Ford fez uma aparição especial no primeiro dos três "Superman" estrelados por Christopher Reeve. Talvez pouca gente saiba que ele não nasceu nos Estados Unidos, mas no Canadá. Aposentou-se em 1991, num filme para a tevê. Seu nome verdadeiro é Gwyllin Samuel Newton Ford.

domingo, abril 30, 2006

3 POEMAS


Um Amor

Quando ela entrou na minha vida,
O seu corpo, não apenas a voz,
era receptáculo do mais doce mel.
Com o passar do tempo,
ela foi soltando as abelhas.


O Espectador e a Atriz

Sempre que vejo a atriz sozinha em cena,
me lembro daquele filme de Buster Keaton.
E tenho vontade de penetrar na tela.



Drummond revisitado

Ah, este choro de Pixinguinha,
esta cerveja mofada de gelo,
me deixam comovido como o diabo.
E eu nem preciso olhar a lua.

quarta-feira, abril 26, 2006

SOBRE UM BENFEITOR DA HUMANIDADE


Este artigo foi publicado num jornal de Natal em 5/7/1987. É aqui republicado com mínimas alterações de datas, nomes de filmes e de linguagem.
Numa longa entrevista ao jornalista Giovanni Grazzini (transformada no livro Fellini - Entrevista sobre o Cinema), Fellini, em mais de uma ocasião, refere-se ao ator cômico como um benfeitor da humanidade. Para ele, esses artistas que possuem o talento de fazer as pessoas se aliviarem de suas cargas de sofrimentos e tensões com a liberação do riso reparador, são tão importantes para o destino da humanidade, quanto um cientista que se dedica ao trabalho de descobrir a cura de uma enfermidade letal. Pode-se até presumir que a admiração do cineasta italiano por esses atores encubra uma certa inveja pelo bem que eles fazem ao espectador, quando ele revela o desejo de ter nascido para fazer rir.
O ano de 1987 assinala o trigésimo aniversário da morte de um desses benfeitores da humanidade - um dos maiores. Foi em 1957 que faleceu Oliver Hardy, que se tornou conhecido e amado em todo o mundo como "O Gordo". Estava afastado da tela há seis anos, desde A Ilha da Bagunça, que marcou a aposentadoria da maior dupla que teve o cinema, em cujo rastro inúmeras outras surgiram, até mesmo no cinema brasileiro. No ano anterior, O Gordo teve uma aparição episódica no filme de Capra, Nada Além de um Desejo, com Bing Crosby. Mas o seu nome não apareceu nos créditos.
Os dados biográficos do Gordo dão-no como tendo abandonado o curso de Direito, para abrir um cinema. E impressionado com o trabalho dos atores, resolveu tentar a interpretação. É em 1914, como "Babe" Hardy, que o seu nome aparece pela primeira vez numa tela, no filme A Tango Tragedy. Os fãs de cinema teriam que aguardar treze anos anos para vê-lo ao lado de Stan Laurel, "O Magro" , em 45 Minutes from Hollywood, iniciando uma carreira que durou 23/ 24 anos. (Em 1921 eles atuaram em A Lucky Day. mas sem formarem uma dupla.) Ambos integravam a famosa equipe de Hal Roach, que os teve sob contrato até 1940. Nesse ano fundaram a sua própria companhia, "Laurel and Hardy Feature Produtions". Curioso: não produziram um só filme, preferindo excursionar pelos EUA com um show intitulado The Laurel and Hardy Revue, que era, invariavelmente, encerrado com um esquete da dupla.
Mais do que parceiros, Hardy e Laurel foram grandes amigos. Há quem assegure que a morte do Gordo foi causada, sobretudo, pelo desgosto de ver o amigo preso a uma cadeira de rodas, em consequência de um enfarte. Quando ele morreu, Paulo Mendes Campos (se não estou enganado) escreveu uma crônica em que dizia que não queria estar no lugar da pessoa que foi levar ao Magro a notícia da morte de Hardy. Até morrer em 1965, Laurel sempre cuidou para que nunca faltassem flores no túmulo do amigo.

domingo, abril 23, 2006

UM POUCO DA POESIA DE MOACY CIRNE



Em Caicó,
mel e rapadura,
apaixonei-me por Ava Gardner,
por Brigitte Bardot,
por Gilda, a que nunca houve.
Em Caicó,
mel e puxa-puxa,
o mundo e o Fluminense nasceram
para mim.
E eu ainda não conhecia Nevers.



O Cineclube Tirol,
aos sábados,
sabia
dos nossos sonhos solitários.
O Rio Grande,
aos domingos,
era mais do que um cinema.
Depois,
nos outros dias,
havia tempo para tudo:
para Sartre Camus ou Pessoa na Ponta do
Morcego,
jazz ou samba na casa dos amigos.
Havia tempo
para às 5 da tarde
passar na Universitária
beber um conhaque na Palhoça
ou em Nemésio
jogar conversa fora no Grande Ponto.
Havia tempo para ler
Zila, ouvir Tita vibrar com o ABC.
Havia tempo.


Do Iara Bar,
em Areia Preta,
sedentários
embalávamos o nascer do sol.
Os pescadores,
pastores do imprevisível,
conversavam com os peixes
azuis
da manhã.


Os poemas, sem título, como os demais, foram extraídos do livro Rio Vermelho, edição Fundação José Augusto/Departamento Estadual de Imprensa, 1998.

quarta-feira, abril 19, 2006

MARCAS DA VIOLÊNCIA (A History of Violence/2005)


Há neste filme de David Cronenberg (A Mosca, Gêmeos - Mórbida Semelhança) uma imagem que assinala o aprisionamento do personagem Tom Stall (Viggo Mortensen), em um passado, do qual não consegue escapar. É a cena em que Edie (a bela Maria Bello) observa da janela da sua casa o marido lutar contra os 3 homens que o vêm perseguindo. O enquadramento da cena faz uma parte da janela se assemelhar à forma de uma cruz - uma cruz que Tom terá de carregar talvez pelo resto da vida. Bem que ele tentou construir uma vida nova ao lado da mulher e do casal de filhos. Uma vida tranquila, relativamente feliz, gozando de uma boa situação financeira, até que uma tentativa de assalto em seu restaurante desperta os fantasmas do passado. Ao matar os dois assaltantes, Tom converte-se em um herói, cuja fama ultrapassa as fronteiras da pequena cidade. A sua exposição na mídia (uma crítica que o filme não perde a oportunidade de fazer), no entanto, irá abalar o relacionamento com a mulher e o filho adolescente, quando chega à cidade Carl Fogarty (Ed Harris, ótimo, como sempre), que tem contas a ajustar com Tom. (De um grande impacto o momento em que Carl tira os óculos escuros, pondo à mostra a horrenda cicatriz, causada por ferimentos que Tom lhe infligiu.) Há, pois, uma drástica mudança na relação do casal, depois da luta, quando, instado pela mulher, Tom revela , sucinto, o seu passado, inclusive o verdadeiro nome, Joey Cusack; e essa mudança fica bem evidenciada no ato sexual que eles praticam na escada da casa, em que o prazer é substituído pela violência, em oposição ao praticado no motel, antes de tudo aquilo acontecer.
Um filme excelente, repleto de grandes momentos, teria que terminar com um final de antologia. São três minutos sem uma única palavra, quando Tom/Joey volta para casa e dá com a família reunida à mesa de refeições. Ele tinha saído para reencontrar o irmão Richie (William Hurt),. Mais do que um reencontro, um ajuste de contas entre os dois, marcado pela violência e morte. Em vez de palavras, o silêncio, os rostos contraídos da esposa (vestida de preto, como se já se considerasse uma víuva) do filho, o gesto da garotinha, meio sorrindo para o pai e indo buscar um prato para ele. Há uma troca de olhares entre o casal, e a expressão ambígua da mulher, confrontando-se com a de um homem abatido pela vergonha e o sofrimento, transfere para o espectador a decisão do futuro daquela família.

domingo, abril 16, 2006

INFÂNCIA


Cine Infância

Charles Starrett se vestia de preto e colocava a máscara.
Tornava-se o Durango Kid para enfrentar o vilão.
Nos intervalos das brigas e dos tiroteiros,
Roy Rogers cantava e tocava violão.
Weismuller já não usava a diminuta veste de Tarzan,
mas o silaque de Jim das Selvas.
"Volte na próxima semana":
era uma ordem ao final de cada seriado,
e por sete dias roíamos as unhas,
para saber como o mocinho ia se livrar do perigo.
Tantos outros heróis, outras tantas aventuras
na tela da minha infância.
Tudo isso desapareceu.
Restou a saudade.


O Dentista da Minha Infância

Um homem bom o dentista da minha infância.
A voz carinhosa, os ditos brincalhões
eram formas de me atenuar o medo daquela cadeira.
Às vezes, ainda me presenteava com um bombom.
O meu dentista, hoje, é um homem frio e formal
e os seus honorários adoçariam a boca de milhares de crianças.

quarta-feira, abril 12, 2006

PERSONAGENS


Quando trabalhei em Fortaleza, de maio/72 a junho/74, tive como colega José Moura, tratado por Mourinha. Era o contínuo da Seção. De uma fealdade que chamava a atenção: corpo mal-ajambrado, olhos esbugalhados e o nariz torto despencando para a boca. Mas uma figura humana muito interessante, pronta para fazer parte de um texto de ficção. Uma de suas facetas era o de mudar o nome de alguns colegas. Não o fazia com todos, especialmente com os comissionados. Poucos dias depois que comecei a trabalhar na Seção, ele me achou com cara de Romualdo e assim me chamou durante os dois anos em que ali fiquei. Um colega, Esdras, foi por ele "batizado" de Luís. Mas nem sempre era bem-humorado. Tinha, às vezes, atritos com algum colega, sempre por questão de serviço. Eu fui um deles. Passamos uns dias sem nos falar, mas depois voltamos às boas. Duas ou três vezes deixou o birô dele e veio tirar dois dedos de prosa comigo. Numa delas, não me lembro a propósito de quê, começou a falar sobre a ex-esposa. Revelou que mantinham um bom relacionamento, se visitando regularmente. Pelo que depreendi das suas palavras, ainda conservavam, se não amor, um carinho especial um pelo outro. E se era assim, não entendi por que haviam se separado. E perguntei, não podendo conter a curiosidade: "Mourinha, e por que vocês se separaram"? E Mourinha, com um meio-sorriso, respondeu com a maior naturalidade. "Porque não gostava das comidas dela". Pode uma coisa dessa?
Tive outro colega de personalidade muito interessante, esse em Natal. Nestor guardava, parece que na carteira de cédulas, uma carta antiga, para afugentar algum colega que lhe viesse pedir um empréstimo. Mal o coitado terminava de falar, Nestor tirava a carta e o mandava ler. Naquele papel eram arroladas as justificativas para a sua recusa em não emprestar dinheiro. Não sei quais eram, nunca tive acesso à carta. Calvo, de volta de umas férias, apareceu de peruca. Foi uma diversão para todos. E ele contava por que, afinal, resolvera esconder a careca. Mas não usou a peruca por mais de uma semana, talvez nem isso. Um dia chega Nestor sem ela, e, do mesmo modo como procedera ao aparecer com a peruca, deu várias justificativas para deixar de usá-la. Era um fã dos faroestes italianos, na época em que estes estavam em voga. E quase sempre que assistia a um deles, vinha no dia seguinte me contar parte do filme, divertindo-se, às risadas, com as cenas inverossímeis. Adotou um outro nome, de origem espanhola, que não sei de onde foi desencavar: Don Martinez Y Algar. Usava-o quando era apresentado a uma pessoa e quando enviava um documento de serviço para algum colega. E certa vez, ao emitir um cheque, assinou Don Martinez Y Algar, em vez do nome de batismo. Segundo ele, por distração, mas creio que o fez por brincadeira.
Na minha cidade havia um barbeiro chamado Isaías. Como todo barbeiro que se preza, Isaías conversava mais do que o homem da cobra. Além de barbeiro, exercia, por vezes, as funções de leiloeiro nas festas religiosas. E se gabava de ser bom nessa modalidade. Uma vez eu e uns amigos estávamos num banco da praça principal, onde se realizava um leilão. Isaías não tinha sido convidado. Ele chegou perto da gente e começou a fazer críticas ao rival. Ao mesmo tempo, ensinava as regras para ser um bom leiloeiro. Em tudo aquilo havia a ponta de um despeito por ter sido preterido em lugar de outro.
Mas o que eu queria mesmo era falar de um fato , que o papai não se cansava de contar. Uma feita uma romeira entrou com o filho pequeno na barbearia de Isaías. O menino devia estar com o cabelo muito crescido e a mãe, certamente, não queria que ele fosse assim visitar São Francisco de Canindé, como os romeiros chamam o Santo de Assis. Isaías mandou a mulher se sentar e colocou o garoto na cadeira. Mal começou o trabalho, perguntou à mãe: "Que mal pergunte, vosmecê é de onde"? "De Teresina", respondeu a mulher. "De Teresina"? Como se a mulher tivesse dito que morava na lua, Isaías parou, virou-se para ela, com a tesoura na mão. e falou: "É verdade que lá tem uma devassidão danada"? E a mulher: "Meu senhor, eu não sei dessas coisas, não. Sou uma mulher casada, que vivo na minha casa". Isaías retomou o corte de cabelo e entrou noutro assunto.
Três personagens à procura de um ficcionista.

domingo, abril 09, 2006

"QUAL O FILME QUE VOCÊ GOSTARIA DE TER DIRIGIDO"?


Em 1953 uma revista da Itália fez essa pergunta a dez cineastas daquele país. Eis os diretores e, resumidamente, o filme escolhido por cada um, feito por outro de seus pares. Na verdade, apenas sete dos consultados responderam a pergunta exatamente como foi formulada. Pois Pietro Germi e Giuseppe de Santis disseram que queriam fazer de novo um de seus próprios filmes: Germi , "Caminho de Esperança", justificando que nunca desejou tanto fazer um filme como este, que ele achava que não poderia ser superado por qualquer outro que viesse a fazer: e De Santis, "Arroz Amargo" (aqui comentado há uma semana), por acreditar que, com a experiência que tinha adquirido (ATENÇÃO) , "... penso que agora não repetiria os erros que encontrei no meu original". E Visconti respondeu seco e lacônico: "Não acho que a pergunta seja interessante.
Agora os sete restantes. Alberto Lattuada, com a ressalva de ser difícil responder a pergunta, "porque equivale a perguntar a uma pessoa se desejaria ser outra", disse ser agradável para um diretor ter feito as obras-primas de Chaplin, Von Stroheim e Pabst, acabou optando por "A Marcha Nupcial" , de Stroheim. Rosselini escolheu uma obra de Chaplin, mas, curiosamente, nenhuma das maiores do criador de Carlitos. A sua escolha recaiu sobre "Luzes da Ribalta" (Limelight). Por que, ele mesmo se fez a pergunta e respondeu, "porque é a obra-prima de Chaplin". (Vá entender esses diretores, principalmente os maiores.) Vittorio De Sica escolheu "Dom Quixote", de Pabst, "porque está mais próximo daquele humorismo que tenho tentado, pelo seu bom gosto, pela sua vivacidade: tudo , naquele filme, é harmonioso e brilhante". Alessandro Blasetti, o mais velho de todos, que iniciou a carreira em 1930 (e trabalhou como ator em "Belíssima", de Visconti", interpretando a si mesmo), gostaria de ter feito "Due Soldi di Speranza", de Renato Castellani, um dos consultados. Castellani, que fez ainda uma versão de "Romeu e Julieta" , revelou que sua grande aspiração era dirigir um filme de Chaplin, acrescentando, no entanto, "que é uma felicidade não ter dirigido nenhum, porque, do contrário, não seria um filme de Chaplin". (E não seria mesmo.) Outro que escolheu "Due Soldi di Speranza" foi Luigi Zampa. Mario Soldati, ootro veterano, preferiu "O Anjo Azul", de Von Sternberg.
Não sei o motivo, a revista não informa, Fellini e Antonioni não deram a sua opinião.

quarta-feira, abril 05, 2006

ACHADO POÉTICO = Conto de Bartolomeu Correia de Melo (RN)

Afinal, se a vida se resolve/a poesia acaba (Hildeberto Barbosa Filho)

DIA desses, nos fundos da venda de Simão Curioso - mistura de bodega, oficina elétrica, botica de ervas e sebo malsortido - seu Leonel do Cartório, escrevente e poeta bissexto, cascavilhava prateleiras, atrás dalguma leitura. Mexia noutros livros quando, sem-que-nem-mas, aquele despencou. E ali restou, escambichado no assoalho, num abandono de fêmea entregue, mostrando a lombada encardida: TIGIPIÓ. Sabia daquela palavra, mas não assim escrita, somente cantada. Cantada numa gostosa marchinha, evocação dos blocos de longes carnavais, já quase aquietada nos confins da memória. Saudade dos idos tempos de estudos fora- de- casa,
haja quarent'anos... Queria que fosse tejipió - fala de índio gosta de jota - soando quase teje pior. Nome mesmo de troça suburbana, com sotaque recifense, bem chiado nos plurais: Pirilamposh de Tejipió. Dizer vaga-lumes pegava melhor, mas eram aqueles carnavais parnasianos... Navegando nos quantos lembrares, soletrava aquele pedaço de cantiga: "... os Corações Futuristas/Bobos em Folia/Pirilampos de Tejipió..."
E disso lhe chegava a lembrança - como tangida por vagos clarins, detrás duma cortina de confetes - uma cena sem data. Figura de muluta lazarina frevando no frege do corsol. Maneira e ligeira, trejeteitos de serpentina; requebros picando lantejoulas, como vestida de vaga-lumes. Bonita que nem flor de magnólia. Quiçá, algum dia, assim mesmo avistada na Rua da Aurora ou da Saudade...
Apanhou tal livro. Desemcapado, empardecido, coisa assim de quarta ou quinta mão. Edição antiga em papel barato; ainda de quando prefácio era proêmio. Herman Lima, autor cearense - gente mais rezadeira que foliona. Contos regionais premiados pela Academia... (roído de traça... de Letras. Na folha-de-rosto, em tinta-de-pena, com desjeitoso capricho, estava escrito: Terezinha X. da Silva / Recife, 19333. Adiante uma epígrafe ensinava: "Tigipió: frutinha agreste, pardusca e roliça, adocicada, mas ofensiva.podendo causar intensa embriaguez."
Voltou-lhe a passista, talvez nunca deveras avistada, numa incerta e movediça relembrança. Nos negaceios da dança, reviu-lhe a doçura trigueira, no jeitinho gracioso - quase venenoso - de sorrir e requebrar. Embora papa-jerimum, acudiu-lhe um nem-sei-que de pernambucanidade, feito arrupio escorrendo no tutano do espinhaço. Aquele bem-sentir de terr e povo - havido por nascença ou farnezim de simpatia. Coisa d' alma que chega, assim esquisita, arrupiando qual sopro de pifre, beliscando malencolias, qual acorde de pau-e-corda, a espritar os sentires, batendo fundo que nem toque de maracatu.
E a modinha reteimando no juízo: "...Pedro Dourado, Camelo de Ouro e Bebé/os queridos Batutas da Boa Vista/e os Turunas de São José..."
No aqui-acolá do livro, tinham rabiscado a lápis: Têca. Apelido bem cabido em cabrocha serelepe, raceada com cabinda e caeté. Noutras paisagens, nordeste arriba, tal nome perde esse dom. Fica mais pra cabocla fornida, quartos de jia e peitos de cabaça; olhar de espreita e sorriso de espera na cara de lua cheia. Com destreza para bilros e tino para temperos, mas sem ginga no passo nem frevura no sangue. Daí logo se engraçou na redondez da letrinha destraquejada. A cada três ou quatro folhas - decerto marcando paradas de na leitura - assentada na margem, lá estava: Têca. Pelo visto, coisa lida no enquanto doutras tarefas. Caixeira, copeira ou modista? Teria também sido ali deixado por sinal de marcação, aquele fiozinho de cabelo cacheado? Folheava, mais vendo que lendo. E se rindo de algumas notinhas curtas, na mesma caligrafia. Comentos singelos, pouco letradas, mas bem deleitosos. Belesa assim escrita, paxão assim também. Rabiscos de ligeiras contas, contando modestas despesas. Retalho de papel-de-carta com trecho de soneto copiado.
"E aceite, assim sem juras, esse amor/que apenas dura, intenso qual poema/enquanto passa, frágil como flor."
Num porém de ciumeira descabida, achou o terceto bisonho; praqueles tempos, até que meio indecente.
Pensares tornaram a revoar esquisitices. Tanto que, de novo e mais de pertinho, como que avistou a dita moça. Agora, sem fantasia, nem ruge ou batom, apartada e esquecida da folia. Imaginada na tardinha duma praça antiga, talvez esperando bonde. Corpo arrimado no tronco dum goitizeiro, pezinho despido em riba doutro calçado, sem dança nem lantejoulas, ainda por demais vistosa. Toda entretida, mexia sem dengo os beicinhos carnudos, na leitura do mesmo livro - Tigipió. Encantado nessa estranha presença, como em brando desvario, até sentia a brisa cheirosa a goiti ternurando nos cabelos dela. Reatinou-se e seguiu folheando. Com agrado, curiosava outras coisinhas. Achou pétala seca de rosa, mordiscada por dentes miúdos; notou manchinha de choro pingada em página mais penosa, além doutras pequenas deixas. Na folha final, um coraçãozinho desenhado; sem enfeites nem floreios, vazio de letra ou flecha. Como assim, livre e leve, falto de dores e ardores, também fosse o coração de Teca.
Nisso, bateu-lhe uma danada vontade de poesia. Um verso ainda bambo inchava o peito, já outro comichava no juízo. Aí, mais pelo ficado encanto dela, que mesmo por qualquer outra valia, enfim comprou tal livro. Num avexame ressabiado, mouco pras perguntas de Simão, nem esperou embrulho ou troco. Assim, meio que zonzo e maneiro, logo se botou pra casa. Andava anzolado, driblando os passante, abraçando o livro no peito, como escondesse segredo ou vergonha. Ladeira abaixo, encandeado nas cores da manhã, assobiava a musiquinha dos velhos blocos recifenses.
"...Príncipe dos Príncipes brilhou/Lira da Noite também vibrou/E o Bloco da Saudade/assim recordo aquilo que passou."
Rimas esquivas rodopiano na cabeça, adivinhava sonhares jamais acarinhados. Romoía um mesmo par de versos melindrosos, alma angustiada nas rebuscas da poesia. E contam que, derna disso, somente risca e rabisca. Pois nunca mais lhe acudiu qualquer versejo que assim baste pra dizer desse sofrido anseio. Diz-que se queixa que tais penares somente beiram insosso gozo, sem nunca acharem desafogo nem contento.
Vai daí que, no caso de algum dia, num sebo qualquer da vida, alguem como você, chegado à poesia, folheando um velho livro, lembrar coisas de antigos carnavais... Esconjure a tentação; não compre!
Pois periga serem amavios de musa parda, deusinha brega chamada Têca; dona do condão da desinquieta e fugidia inspiração... Tome tento nos malencantos de olhares que brilham como lantejoulas, sorrisos manhosos qual volteios de serpentina; promessa de afagos que arrupiam que nem clarins de frevo, suspiros cheirosos a lança-perfume...
E se recuide dos adocicados beijos, que trazem gosto - talvez efeito - de tejipió.
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Conto extraído livro Estórias Quase Cruas, Edições Bagaço, Recife/2002.

sábado, abril 01, 2006

ARROZ AMARGO (Riso Amaro/1949)



"Panela em que muitos mexem, ou sai insossa, ou sai salgada". Me lembrei desse antigo ditado, depois de rever, nesta semana, Arroz Amargo. Muitos mexeram no seu roteiro, seis ao todo, entre eles o diretor Giuseppe De Santis. Disso resultou um filme que chega a decepcionar. Feito no apogeu do Neo-Realismo, Arroz Amargo pretendia abordar a temporada de 40 dias das "mondinas", mulheres que, todos os anos, realizam o pesado serviço do cultivo de arroz numa determinada região da Itália. São mulheres de diversas profissões, mas que, sem conseguirem trabalho para exercer as próprias profissões, vão se submeter ao da monda de arroz, contratadas sem vínculo empregatício. Se digo "pretendia" é porque a meia dúzia de roteiristas preferiu deixar em segundo a denúncia do problema social da Itália do pós-guerra, uma das balizas da Escola Neo-Realista , para priorizar o enfoque no quadrilátero amoroso envolvendo Walter (Vittorio Gassman), Francesca (Doris Dowling), Silvana (Silvana Mangano) e Marco (Raf Vallone).
Quando o filme começa, Walter e Francesca formam o casal, ele fugindo da polícia pelo roubo de um colar, com a cumplicidade da amante. Depois que Walter e Silvana se conhecem, há uma atração mútua. Deixada de lado e decepcionada com Walter, Francesca se interessa por Marco, que, sem o perceber (ou fingir), cai de amores pela bela e sensual Silvana. Daí para frente, Arroz Amargo assume o drama amoroso que vai culminar com o final trágico de Silvana, que, traída na expectativa de um promissor futuro com Walter, comete suicídio. Se no ato de Silvana já paira a sombra do melodrama, este se instala de vez no final do filme, mostrando as mulheres, que não tinham bom relacionamento com Silvana, jogando punhados de areia sobre o cadáver dela e o estabelecimento da união entre Francesca e Marco, os dois caminhando um ao lado do outro.
Arroz Amargo marcou a estréia de Silvana Mangano no cinema. No frescor dos seus l8/19 anos, Silvana esbanja beleza e sensualidade. Com um short curto e bem colado ao corpo, delineando suas formas esculturais, além da beleza do rosto, ela é o principal atrativo do filme, assim como o foi Rita Hayworth em Gilda. O filme explora, como pode, os atributos físicos daquela que foi uma das 10 mulheres mais fascinantes do cinema, o que se torna mais um ponto negativo desse arroz mal cozinhado, embora, para o espectador, seja uma festa para os olhos.