terça-feira, agosto 30, 2005

BRINQUEDO PROIBIDO


Falando uma vez aqui de filmes que vi na adolescência e que desejaria rever, citei, entre eles, Brinquedo Proibido/Jeux Interdits, que René Clément realizou em 1952. No final eu me perguntava se algum dia teria a oportunidade de rever aquele filme, do qual só me lembrava, vagamente, da presença de um casal de crianças. Pois não é que agora Brinquedo Proibido foi lançado em DVD, propiciando-me a realização do meu desejo!
Embora mostre o horror e o absurdo das guerras (no caso, a Segunda Guerra Mundial, em seus primeiros meses) , ceifando vidas humanas, Brinquedo Proibido mira, especificamente, na questão da morte e no efeito que ela causa a duas crianças, Michel (Georges Poujouly) e Paulette (Brigitte Fossey) . Mas esse efeito, pelo fato de se tratar de seres inocentes, adquire a dimensão de uma "brincadeira", levando os dois a "construir" um cemitério para animais, numa réplica do cemitério para os humanos, ao qual não falta a aposição de cruzes roubadas do cemitério da localidade.
Um reparo que se poderia fazer ao roteiro de Brinquedo Proibido (escrito por Clément, em parceria com Jean Aurenche e Pierre Bost) tem a ver com a atitude de Paulette em relação à perda dos pais, mesmo levando em conta a sua adoção (provisória) pela família de Michel. Ela demonstra não ter sido afetada por aquela morte, ao contrário do que ocorre com a do seu cachorrinho que levava quando são atingidos pelo bombardeio de aviões. Mas, por outro lado, talvez a intenção dos roteiristas fosse a de esvaziar a história de qualquer sombra de sentimentalismo, para evitar o risco do melodrama, em prejuízo da ênfase dada à pureza e à inocência da garota, que, entre outras coisas, desconhece o significado de uma cruz, o que lhe é ensinado por Michel, mais velho e mais esclarecido. Assim, a pureza e a inocência infantis são não apenas preservadas, mas repassadas de uma poesia simples, mas encantadora.
Outro dado a observar no filme é a amizade que se estabelece entre as duas crianças, amizade que talvez se transformasse em amor (aliás, a mãe de Michel chega a fazer uma insinuação a esse respeito) , se a ida de Paulette para uma instituição não frustrasse essa probabilidade. E é ao chegar ali que a garota parece, afinal, adquirir a consciência de perda, no caso a do amigo, quando ouve alguém chamar o nome "Michel". Pensando tratar-se da mesma pessoa, Paulette diz o nome e, pela primeira vez, grita pela mãe morta. Deixa o local onde está e, misturando-se à multidão, vai à procura daquele "Michel", sempre repetindo-lhe o nome. O filme encerra aí, deixando aberta a interpretação para o destino de Paulette.
Se Brinquedo Proibido não chega ao nível de uma obra-prima, mantém a integridade de um grande filme, mais de cinquenta anos depois de realizado. Na época, Clément gozava de um certo prestígio perante a crítica, que atingiu o auge com O Sol por Testemunha, em 1959. Mas nos anos seguintes ele foi perdendo o fôlego e nunca mais foi o mesmo de quando fez Brinquedo Proibido. E hoje parece estar quase inteiramente esquecido.

sábado, agosto 27, 2005

CURIOSIDADES CINEMATOGRÁFICAS


1) Em 1959 o diretor Howard Hawks realizou Onde Começa O Inferno (Rio Bravo), um dos maiores westerns já feitos, o mesmo Hawks que estreara no genero onze anos antes com Rio Vermelho (Red River), mais ou menos do mesmo nível daquele. Onde Começa O Inferno continha um atrativo no argumento, embora não fosse inédito (Ford já o explorara em No Tempo das Diligências, na figura do médico), que era o alcoolismo de um dos xerifes, interpretado por Dean Martin. O filme mostrava ainda a determinação do outro xerife (John Wayne) de livrar do vício o amigo e colega, sobretudo depois que este prende o irmão do poderoso proprietário de terras da região. É uma luta desigual que Wayne trava para manter o homem na cadeia, até que ele seja julgado pelo crime de homicídio, pois, além do xerife alcoólatra, conta só com a ajuda do velho e manco guarda da cadeia e de um jovem vaqueiro. Apesar de tudo, ele sai vencedor e também o outro xerife, que acaba superando o vício.
Pois bem. Em 1967, oito anos depois, Hawks lança outro western, El Dorado (Idem), que, de novo, mostra um xerife alcoólatra (Robert Mitchum). E a causa do vício é a mesma nos dois personagens: ambos são abandonados pela mulher por quem se apaixonaram. E de novo John Wayne procura ajudar o amigo, não só na superação do´alcoolismo, mas na situação que ele enfrenta ao levar para a prisão um poderoso proprietário de terras. (A diferença é que Wayne, agora, é um pistoleiro de aluguel, que passa boa parte do filme com uma bala encravada no corpo). Outro ponto de contato entre os dois filmes é o apelido dos dois jovens (sim, em El Dorado também existe outro jovem, só que não é vaqueiro, como o de Onde Começa o Inferno), que se unem ao xerife na luta desigual, originado de estados norte-americanos: em Onde Começa o Inferno ele é chamado de Colorado, em El Dorado, de Mississipi. Momentos engraçados unem os dois filmes, não fosse Hawks um especialista também em comédi a (Levada da Breca, Bola de Fogo, Os Homens Preferem as Louras). El Dorado não chega ao nível de Onde Começa O Inferno, e essa inferioridade independe da existência do segundo, mas é um filme a que se assiste com prazer e atenção, sendo o penúltimo filme de Hawks.
2) Quando Tempos Modernos (Modern Times, 1936) ganhou as telas do mundo inteiro, Chaplin foi acusado de ter plagiado, pelo menos em parte, o filme de René Clair, A Nós a Liberdade (A Nous la Liberté), feito cinco anos antes. Li isso há anos sem conta, não me lembro quem fez a acusação. Provavelmente algum crítico francês, ou mais de um. O certo é que Clair foi aconselhado a mover um processo contra Chaplin. A reação do cineasta francês foi não só digna, mas de uma reverência e de um respetio inigualavéis a Chaplin. Disse que não acreditava que o genial comediógrafo o tivesse plagiado,mas (atenção), se assim fosse, para ele, Clair, seria uma honra que o seu filme tivesse inspirado o de Chaplin. Tendo a acreditar que este nunca soube, seja da acusação de plágio, seja da atitude de Clair, pois na sua biografia, Minha Vida, não há referência a nenhum dos dois fatos.

terça-feira, agosto 23, 2005

CINE SÃO LUIZ NUNCA MAIS



Foi no site do cineasta Carlos Reichenbach (www.redutodocomodoro.zip.net/) que soube que o Cine São Luiz, de Fortaleza (CE), fechou as portas no último dia 19. Localizado de frente para a Praça do Ferreira, no centro,. o São Luiz era o último sobrevivente de uma cadeia de cinemas de Fortaleza, que marcaram época na cidade nos anos 1950 e 1960 . Quando foi inaugurado em 1958, com o filme Anastacia, (se posso confiar na memória), de Anatole Litvak, com Ingrid Bergman e Yul Brynner, o São Luiz veio se juntar ao Diogo, Moderno, Majestic, Rex, Samburá, Jangada, Araçanga e Tuaçu; os 4 últimos pertenciam à empresa Cinemar (concorrente da Luiz Severiano Ribeiro) , a qual continha uma particularidade curiosa: as denominações dos cinemas eram ligadas a coisas do mar. O novo cinema era o primeiro de Fortaleza (acredito que um dos raros do Nordeste) a possuir sistema de ar-condicionado, mas, em contrapartida, a sua direção impunha ao espectador o uso de paletó, uma prática que se manteve até a década de 70.

Um cinema que fecha é como uma punhalada no coração de um cinéfilo. E me fere mais fundo, no caso do São Luiz, pelo que este representou para a minha adolescência e juventude, como os outros já mencionados. Nele passei horas sem conta vendo filmes que não se fazem mais, me deliciando
com a visão de lindas atrizes que já se foram, ou já deixaram o cinema e, hoje, com o corpo arruinado pelo tempo implacável, vivem à espera da hora final. Foi naquela sala enorme que, numa noite de carnaval, iniciei o namoro com a moça que até hoje vive comigo.
Acho que o São Luiz ainda teve uma sobrevida por alguns anos, enfrentando a concorrência dos cinemas instalados nos shoppings, por servir de local para a mostra do Festival de Cinema de Fortaleza, ou Cine Ceará, como alguns chamam. Porque a sua decadência era flagrante e, segundo me falou um amigo, numa das últimas vezes que visitei Fortaleza, a direção do cinema estava sendo assediada por um dessas igrejas evangélicas que pululam por este país. Talvez seja esse o destino do São Luiz, como ocorre com tantos cinemas que fecharam. Em Natal, o Cine Nordeste hoje abriga uma dessas malfadadas instituições. Mas há a esperança de que o São Luiz se converta num espaço cultural. Na notícia que li no site do Carlão, a própria direção do cinema sugere essa alternativa. Vamos torcer para isso. E assim nas grandes cidades vão desaparecendo os chamados "cinemas de rua". Em Natal não existe mais, em Fortaleza, em João Pessoa existe um que exibe filmes pornô e em Recife ainda sobrevive o São Luiz. Até quando?

sábado, agosto 20, 2005

ATENÇÃO - Por uma "barbeiragem" deste beradero, o conto A Promissória é apresentado nas duas postagens que se seguem. O conto integra o meu livro A Noite Mágica (Editora Ática, São Paulo, 1979);

A PROMISSÓRIA (continuação do texto do post anterior)

Mal sentou, uma voz transmitida por um alto-falante ecoou pelo salão: " Senhor Alexanderson de Almeida Valinhos, . Atenção, Senhor Alexanderson de Almeida Valinhos. Queira comparecer, por gentileza, ao gabinete do Senhor Gerente, no segundo pavimento. Trata-se de um assunto de grande importância. Agradecemos". Pensava estar sofrendo de alucinação. Era a primeira vez que entrava ali, não conhecia nenhum funcionário, nem dera o nome a ninguém. Podia até ser uma brincadeira. De muito mau gosto. Mas a voz tornou a convocá-lo. Instintivo, olhou em direção dos caixas: todos tinham interrompido o serviço e, de braços cruzados, o fitavam ameaçodaramente.
Foi introduzido no gabinete do Gerente pelo secretário. O Gerente estirou-lhe a mão e pediu que o esperasse assinar a papelada. A mão do homem balançava frenética, girando a caneta no papel. Tinha o ar compenetrado do cargo. O paletó sem um botão fora da casa, a gravata o nó bem ajustado, e não era certamente por causa da temperatura, muito mais baixa do que no salão. Durante o tempo que levou assinando, travou uma pequena luta contra os óculos, que teimavam em montar na ponta do nariz. Terminado o trabalho, apertou uma sirene e logo apareceu o secretário para levar os papéis. O Gerente apeou os óculos do nariz, examinou o nó da gravata, derreou-se na cadeira e falou: " O senhor foi chamado aqui para ouvir uma proposta que não está na obrigação de aceitar. Apenas que não a aceitando, estará arriscando a própria vida". O tom das palavras, mais o rosto sisudo do Gerente, revelaram a seriedade da proposta. Alexanderson requereu explicação. "O senhor foi pegado pela mulher de preto. Não pergunte como vim a saber disso, não vai adiantar coisíssima nenhuma. O que interessa é que foi pegado pela mulher de preto. E não escapará das garras dela, se não aceitar a proposta que vou lhe fazer". Alexanderson tartamudeou algo que exprimia a intenção de conhecer a proposta. E embora ali estivesse frio, sentiu o sovaco gotejando de suor. O Gerente ia prorrogando o anúncio da proposta. "Gostaria que o senhor fosse informado que alguns clientes preferiram rejeitar a proposta e tal atitude lhes custou bastante caro. Ainda assim, renovo as palavras do início desta entrevista: o senhor não está na obrigação de aceitar". Deve ter achado que estava gastando muito tempo. Sacou da gaveta uma promissória e entregou-a a Alexanderson. Um choque o valor da promissória. Prendeu-a na mão, o rosto de abobalhado. Depois soltou-a na mesa, arremedou um sorriso e confessou que nunca poderia dispor daquela quantia. Até acrescentou: trabalhando trinta anos, não juntaria tanto dinheiro. Mas era em trinta anos que iria pagar a promissória, o Gerente esclareceu. Só que não poderia atrasar um mês. Um mês apenas que deixasse de pagar e ele seria entregue à mulher. Alexanderson lembrou que poderia morrer até no próximo ano. "Não é problema seu. O Banco está consciente desse tipo de risco que pode correr. Se o Banco não quisesse nunca arriscar, fecharia por falta de negócios". Persuadido, Alexanderson assinou a promissória. O Gerente apertou a sirene, de novo o secretário apareceu. Em seguida curvou-se, a mão desapareceu sob o birô, quando Alexanderson viu foi a parede à direita se abrir para um corredor. Ele e o secretário atravessaram a fenda, e no corredor tomaram um elevador que os deixou no portão dos fundos do prédio. O secretário ordenou ao soldado que deixasse Alexanderson passar, deu a este uma mão de rã e voltou ao elevador.
A chuva se transformara num sol de meio-dia. Alexanderson foi caminhando, de repente: a caneta. Nos bolsos, nada. Esquecera no birô do Gerente A caneta lhe significa muito: presente do maior amigo. Foi bater no portão, explicou ao soldado, mas o soldado tinha ordem de não deixar ninguém entrar por ali. Buscasse o portão da frente.
Dessa vez encontrou-o fechado. Bateu, bateu, bateu, até que uma cabeça desentocou da janelinha. Alexanderson pediu para falar com o Gerente. "O senhor quer dizer o Administrador, não é? Vou saber se pode recebê-lo". E bateu a janelinha. Com pouco a janelinha abriu de novo, mas a cabeça era de outro homem. Perguntou o assunto que queria tratar com ele. Alexanderson falou na caneta esquecida na mesa do Gerente. A cabeça não se lembrava de ninguém que houvesse esquecido uma caneta. Alexanderson, já desconfiado, relatou a experiência vivida, desde a entrada ali pela chuva, até a assinatura da promissória. Teve a impressão de que os olhos do homem se iluminaram quando se referiu à mulher. Confirmado pela suas palavras: "O senhor me diz que viu uma mulher. É uma toda da preto, muito magra? Estranho isso. Ela morava aqui desde a morte do marido. Um dia desapareceu de vez. Nunca mais a vi. Pode ter morrido, mas não está enterrada aqui. Isso eu lhe garanto". E bateu a janelinha. Alexanderson desabalou na carreira, porque voltara a chover.

MA PROMISSÓRIA

A chuva o apanhou em frente ao cemitério. Por um instante a aversão o dominou e lhe fincou os pés no chão. Havia casas por perto, mas a timidez inibia-lhe a vontade de abrigar-se numa delas. Hesitou. A chuva aumentava, já começava a inflar-lhe a roupa ensopada. Sem outra saída, violentou o gênio e atirou-se para o cemitério. Abriu o portão à toda, o transpôs, avistou várias filas de pessoas diante de guichês. Descobriu uma poltrona vazia, caio nela, esperando a chuva passar. Sem um jornal para se entreter, pôs-se a observar o trabalho dos caixas. Eram muitos, os respectivos prenomes inscritos numa tabuleta sobre a vidraça que os separava dos clientes. Lia os nomes até onde os olhos alcançavam. O seu nome estava numa das tabuletas - achou graça na coincidência.
Em uma certa parte de sua vida esteve por trás da vidraça. Não se adaptava ao cargo, mas necessitava de dinheiro. Houve uma vez em que pagou em excesso a um cliente e se enrascou. Os colegas se uniram e lhe emprestaram a quantia que deveria ser reposta em 24 horas. Daí para a frente a tensão não mais o largou. Permaneceu no emprego até o dia em que saldou a dívida. Ouviu uma voz: o senhor me espere para descer comigo. Levantou a vista, viu as costas de uma mulher que caminhava muito apressada. Vestia-se de preto e era excessivamente magra. Correu para alcançá-la, mas num instante perdeu-a de vista. Foi até a porta de entrada, não a encontrou. Continuava a chover, voltou para a poltrona.
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sábado, agosto 13, 2005

UM FILME FALADO



Nesse filme do quase centenário Manoel de Oliveira (95 anos em 2003, quando ele o rodou), não há, propriamente, uma história para contar, e sim a História para ser ensinada à menina Maria Joana (Filipa de Almeida) por sua mãe Rosa Maria (Leonor Silveira), professora, aliás, "distinta professora de História", como informa o letreiro que se segue aos créditos iniciais. As duas embarcam em um navio em Lisboa, com destino a Bombaim (Índia), para se encontrarem com o pai e o marido. Já quando vão saindo de Lisboa, à vista de monumentos, Rosa Maria começa a falar de fatos da história de Portugal, e a "lição" continua sempre que há uma escala interessante na viagem (Atenas, Nápoles, Istambul, Egito), quando deixam o navio e visitam os locais históricos. Mas à medida que vai desfiando os fatos históricos para a filha, que, como as crianças, indaga do significado das palavras que desconhece, Rosa Maria vai também aprendendo. É assim em Atenas, quando um padre da Igreja Ortodoxa vai ao encontro delas e age como um guia histórico só para a professora; é assim diante das pirâmides egípcias, num encontro casual com um ator português. Mais da metade de Um Filme Falado é consumida por essas visitas. E aí torna-se perceptível a intenção do filme de preservar a memória histórica, cultivada pela professora e transmitida à "aluna", esta representando o futuro. Poucas e rápidas cenas são tomadas do navio parado, três delas para mostrar o embarque de três mulheres, que, depois, serão apresentadas devidamente ao espectador.
Quando o filme vai para dentro do navio, vemos reunidos, uma noite numa mesa do restaurante, Delfina, uma mulher de negócios francesa (Catherine Deneuve), Francesca, uma ex-modelo italiana (Stefania Sandrelli) , e Helena, uma atriz e cantora grega (Irene Papas), e o americano, de descendência polonesa, comandante do navio (John Malkovich). Exprimindo-se cada um deles na língua do seu país, iniciam a conversa falando de si mesmos, de suas vidas, de suas profissões, obedecendo a uma espécie de" jogo" proposto pelo comandante. Depois de um certo tempo, passam a falar de política, história, civilização, cultura, com alusões à União Européia, à Torre de Babel, à biblioteca de Alexandria, destruída por um ato inigualável de barbarismo, que, na opinião de Francesca, deu início aos atentados terroristas que persistem até hoje. Parece haver um consenso entre os exegetas de Um Filme Falado , de que esses quatro personagens representariam a União Européia (Delfina e Francesca), o Berço da Civilização (Helena) e os Estados Unidos (o comandante). É possível. Mas arrisco também outra interpretação. Ou seja, que o filme tenha hasteado a bandeira do feminismo, ao colocar as três mulheres, às quais se juntam a mãe e a filha, e apenas um homem entre os personagens principais, cabendo ainda observar que o nome de Malkovich (o de maior prestígio em todo o elenco) vem em último lugar na apresentação dos créditos. Há, ademais, uma fala de Delfina opinando que a União Européia estaria em melhor situação se administrada pelas mulheres, o que parece desagradar o comandante, que, embora sem perder as maneiras de homem bem-educado, lhe pergunta se ela é uma feminista. E ainda a boutade de Helena de que um homem é necessário, nem que seja para fazer parte da mobília de uma casa.
E quando, numa outra noite, Rosa Maria é convidada pelo comandante para a mesa, ela não pode se expressar na língua do seu país, porque só o homem entende o português, por ter passado algum tempo no Brasil. No entanto, Rosa Maria entende o inglês, e este idioma, numa mostra do seu predomínio sobre todos os demais na atualidade ("o implacável inglês", como diz Helena), é que passa a ser usado na conversa. Quer me parecer que, diferentemente da interpretação que li num comentário, a cena não representa a marginalização de Portugal no continente europeu, mas apenas a constatação da inferioridade da língua do país entre as mais faladas no mundo. Ainda assim, bem mais difundida do que o grego, só falado na Grécia, como afirma Helena com certa lamentação.
O final terrível, impactante, com a imagem congelada do rosto do comandante exprimindo o horror e a estupefação ao ver o navio ir para os ares com a mãe e a filha, não me parece de todo desesperador, em meio à conturbação e à violência do mundo em que vivemos. Pois, ao poupar a vida da atriz/cantora (que interpretava uma música tradicional da Grécia, quando o comandante é informado da existência de bombas no navio), talvez aí o filme esteja sinalizando a permanência da arte.

sábado, agosto 06, 2005

.OS DEZ MAIORES FILMES DE JOHN HUSTON



1 = O Tesouro de Sierra Madre (1947)

2 - O Segredo das Jóias (1950)

3 = Os Vivos e Os Mortos (1987)

4 - Moby Dick (1956)

5 - Paixões em Fúria (1948)

6 - Moulin Rouge (1953)

7 - Cidade das Ilusões (1972)

8 - Relíquia Macabra (1941)

9 - Os Pecados de Todos Nós (1967)

10 - A Honra dos Poderosos Prizzi (1985)


NOTA = Relíquia Macabra foi lançado, tanto em DVD, como em vídeo, com o título de O Falcão Maltês, tradução literal do título em inglês.

sábado, julho 30, 2005

ANÍBAL MACHADO



Fausto Cunha, falecido há pouco mais de um ano, foi um brilhante crítico literário. Mas por que começar um texto sobre o escritor Aníbal Machado, falando do crítico pernambucano, que se radicou no Rio de Janeiro? O caso é que Fausto Cunha emitiu uma opinião curta, mas precisa e certeira, a respeito da produção contística de Aníbal Machado. Em seu livro Situações da Ficção Brasileira (Paz e Terra, 1970), num dos capítulos dedicados ao conto, ele diz a seguinte frase: "Aníbal Machado viveu a vida inteira o prestígio de meia dúzia de histórias admiráveis". Nada mais correto. Tendo publicado apenas 13 contos, Aníbal produziu, pelo menos, uma obra-prima, "Viagem aos Seios de Duília", além de uns 5 ou 6 contos notáveis, como "O Iniciado do Vento" (talvez outra obra máxima), "O Piano", "Tati, a Garota", "O Telegrama de Ataxerxes (este com um forte acento kafkiano, embora revestido de um certo humor), "O Ascensorista" e uns dois outros.
"Viagem aos Seios de Duília", na minha modesta opinião, não é apenas um dos maiores contos brasileiros, mas pode, tranquilamente, figurar entre os maiores do conto universal. Que belo trabalho sobre aquele exemplar funcionário público, que sublimou na dedicação ao trabalho a sua solidão, a falta de convívio com as mulheres, a incomunicabilidade. E que jamais se libertou da visão de um seio de Duília, quando ambos eram adolescentes. Ao se ver aposentado, depois de estéreis tentativas de, enfim, "viver a vida", José Maria, mais do que nunca, se volta para aquela visão do passado e decide ir à procura da mocinha que lhe proporcionou, talvez, a única coisa boa da sua vida. No livro que possuo (A Morte da Porta-Estandarte e Outros Histórias, Editora José Olímpio, 1964), há um primoroso ensaio sobre esse conto sublime, escrito por M. Cavalcanti Proença. É uma pena que uma história tão bela não tenha tido a mesma correspondência ao ser levada ao cinema pelo diretor argentino, radicado no Brasil, Carlos Hugo Christensen, que, aliás, filmou outro conto de Aníbal, "O Iniciado do Vento" (no cinema, O Menino e o Vento). O filme não chega a ser ruim, tem algumas qualidades (a interpretação de Rodolfo Mayer, por exemplo), mas fica muito distante do original.
Um dos contos de que mais gosto é "O Ascensorista". Um estudo de vidas humanas, com alguns momentos de humor, narrado na primeira pessoa pelo ascensorista de um edifício, misto de residencial e comercial. É um conto meio longo, como, aliás, quase todos de Aníbal, mas que em nenhum momento induz o leitor ao cansaço ou ao desinteresse. A uma certa altura, em meio às suas reflexões/divagações, o ascensorista solta esta frase onde está contida uma grande verdade: "O elevador é o único transporte gratuito e igualitário da cidade".
E volto a Fausto Cunha, porque tendo a acreditar, depois de ficar um tanto decepcionado com o romance João Ternura, que o talento de Aníbal foi mais bem explorado no conto. Pena que não os tenha produzido em maior quantidade. É verdade que não conheço Cadernos de João, que Moacy Cirne elogiou um dia desses.
Parece que Aníbal era um aficionado de cinema. Ele proferiu uma conferência sobre o tema, intitulada O Cinema e Sua Influência na Vida Moderna, publicada em livro em 1941. É uma rarudade bibliográfica, pois, editada pelo Instituto Brasil-Estados Unidos, não deve ter tido distribuição comercial. Taí um livro que tenho curiosidade de conhecer, pois deve ser, no mínimo, interessante, provindo de um escritor e intelectual do porte de Aníbal Monteiro Machado.

sábado, julho 23, 2005

OS DEZ MAIORES FILMES DE INGMAR BERGMAN



1 - Persona (1966)

2 - Morangos Silvestres (1957)

3 - O Sétimo Selo (1956)

4 - Gritos e Sussurros (1973)

5 - Mônica e o Desejo (1952)

6 - Sorrisos de uma Noite de Amor (1955)

7 - Fanny e Alexandre (1982)

8 - Vergonha (1968)

9 - Quando as Mulheres Esperam (1952)

10 - A Paixão de Ana (1970)

sábado, julho 16, 2005

JOSEPH LOSEY (1909-1984)



O artigo que se segue saiu num jornal local em 15.7.84. poucos dias depois do falecimento do cineasta Joseph Losey. É aqui republicado por me parecer que um diretor da importância de Losey anda um tanto esquecido. Na década de 1960 ele foi muito cultuado pela crítica , e isso num período em que os cinemas da Itália e da França exerciam um grande predomínio artístico, e poucos diretores, como Losey, gozavam do prestígio merecido dos grandes nomes daquelas dois países. É, pois, como uma homenagem a ele, nesses 21 anos transcorridos de sua morte que resolvi lançar o texto neste espaço.
Na carreira de Joseph Losey, falecido em Londres na semana passada, é possível localizar a existência de três fases: a fase americana, a fase inglesa e a fase francesa. A primeira inicia-se com o curta-metragem A Gun in His Hand (1945), ocorrendo, três anos depois, a estréia no longa-metragem com O Menino dos Cabelos Verdes, obra de vigoroso apelo antibelicista e anti-racial, hoje colocada entre os pontos mais altos da biografia do cineasta. Quatro fiilmes depois, entre os quais uma versão do clássico de Fritz Lang, M, O Vampiro de Dusseldorf, a carreira de Losey é bruscamente interrompida pela ação do macarthismo, que inclui o seu nome na famigerada lista negra de Hollywood. Impedido de trabalhar, ele se muda para a Inglaterra. Abre-se, assim, um novo período na vida e na carreira do diretor, marcado, nos primeiros anos, por grandes dificuldades. Mesmo distante da América, ele é obrigado a usar pseudônimo nos filmes que dirige, ou, pior, sofre o constrangimento de vê-los assinados por um testa de ferro. Segundo o crítico Rubens Ewald Filho, , foi decisivo para a carreira de Losey, alguns anos depois, o fato de o ator Dirk Bogarde, de grande popularidade na época, ter aceitado trabalhar em seus filmes. Além disso, o macarthismo estava morto e sepultado, juntamente com o senador que lhe deu o nome.
A década de sessenta presenciou o prestígio de Losey alçar às alturas, graças a títulos como Eva, O Criado, Estranho Acidente, Deus e Pátria. O ápice foi alcançado com a conquista da Palma de Ouro no Festival de Cannes de 1971, com O Mensageiro, um dos filmes mais visualmente belos do cinema. A este sucede O Assassinato de Trotsky, realizado na Itália, e a seguir, aparecem os fiilmes que constituem a fase francesa de Losey, onde se destaca Monsieur Klein, densa e pouco acessível obra sobre a intolerância anti-semita numa França ocupada.
Analisando a carreira de Losey, um crítico notou que os seus personagens masculinos são uns vencidos pelas suas próprias vidas e pelas instituições, contra as quais não podem simplesmente lutar. Essa condição lhes confere sempre uma auréola de mártires, nunca de heróis. Mas essa obsevação, se é válida para os homens que povoam o universo loseyano (e logo me ocorre o escritor de Eva) , não o é para o cineasta. Pois coragem e disposição para lutar foi o que não faltou a esse americano de Winsconsin, que chegou a conviver com Eisenstein e Brecht. Vítima, como os dois, do obscurantismo político, Losey sofreu humilhações, enfrentou dificuldades de sobrevivência, foi expulso de sua pátria, mas jamais abriu mão de seus princípios. E porque aliou à coragem um grande talento, superou as adversidades e inscreveu o seu nome na galeria dos artistas notáveis do século.

sábado, julho 09, 2005

UMA MÚSICA PARA DOIS



Ela imediatamente se virou para o piano, quando soaram os primeiros acordes da música. Por um minuto, mais ou menos, permaneceu com o olhar enfocado no piano, depois voltou à posição inicial. Voltou também ao prato, que abandonara por aquele breve tempo. Ela também interrompera a conversa com o homem que a acompanhava. Parecia estar toda concentrada na música. E o homem, que devia ser o marido, pareceu respeitar o silêncio dela, pois não ousou lhe dizer uma só palavra, até que a música parasse. E eu, que não prestara atenção naquela mulher, que ja começara a comer quando eu me sentara à mesa, fui, de repente, tomado por uma junção de curiosidade e interesse por ela, a partir do momento em que a sua atenção foi despertada pelos primeiros acordes da música. E o meu olhar se deteve naquele rosto, na tentativa de nele descobrir, por trás dos óculos e em meio a algumas rugas, a jovem que conheci há anos sem conta.
E por que foi a música que, ao envolver a mulher daquela maneira, me fez sentir um interesse súbito por ela? Antes preciso fazer uma revelação. Frequentava diariamente aquele centenário restaurante, com exceção dos sábados e domingos, desde que retornara à minha cidade após uma prolongada ausência por força da minha profissão. Há uma explicação. Eu gostava daquela música, e todos os dias ela era tocada, pouco tempo depois de me sentar à mesa reservada para mim. Por um mês, talvez nem isso, solicitei-a ao pianista, mas decorrido esse tempo, certamente percebendo que me tornara um cliente diário do restaurante, o pianista passou a executá-la com a dispensa do meu pedido.
E naquele dia, ao ouvi-la, e vendo aquela senhora partilhar da minha preferência pela música, me lembrei, de imediato, da jovem com quem tive um namoro mais ou menos duradouro. Ela, a garota, ela, a música, nunca saíram da minha mente em todos esses anos. Os dois ouvimos aquela música no mesmo dia em que iniciamos o namoro. Tínhamos ido ao Rex, na matinê dos domingos, assistir Suplício de uma Saudade. Hoje não tenho mais saco pra encarar aquele melodrama, desde que o revi há uns dez anos, mas naquela tarde, ao lado de Loretta, emocionei-me com o romance entre William Holden e Jennifer Jones, tanto quanto a minha primeira namorada, embora, diferentemente dela, consegui resistir às lágrimas quando o filme terminou. Mas, talvez como uma lembrança do nosso amor, iniciado com o filme, se não tenho mais disposição para vê-lo, continuo a gostar da sua música.
Parece que agora estou ouvindo Loretta cantar, a boca chiusa, trechos de Love is a many splendored thing, quando ficávamos juntos num banco de uma pracinha, a mesma onde sempre nos encontrávamos, às vezes assobiando-a. E depois cantando-a em português, quando foi lançada a versão em nosso idioma.
Mesmo depois de encerrada a execução de Love is a many splendored thing, ela permaneceu calada, só falando para responder a alguma pergunta do marido. Umas três ou quatro perguntas, que presumi que tinham a ver com a atitude da esposa. Eu começara a refeição e só desviava a atenção da mulher quando baixava os olhos para o prato. Em uma dada ocasião, uma só vez, ela, ao se virar, como que se deu conta da minha presença, mas o olhar que me endereçou teve a duração de um flash. Pouco depois o marido se levantou para ir ao banheiro. Passou bem perto de mim e pude verificar que era bem mais velho do que supunha ao vê-lo da minha mesa. Observei-o informar-se de um garçom sobre o banheiro e me lembrei da primeira vez em que precisei usá-lo.
Em vez do costumeiro "Homens", ou "Cavalheiros", o banheiro masculino daquele restaurante exibe um retrato, numa pequena moldura oval, de um senhor de uma época antiga, vestido com um paletó e usando um grosso bigode. Já nos das mulheres há um retrato de uma senhora, também de outros tempos, e com o mesmo tipo de moldura.
Continuei com os olhos atentos na mulher, à espera de que a qualquer momento ela virasse o rosto para mim e, dessa vez, me fitasse. E num breve momento acreditei nessa possibilidade. Foi quando um pequenino pássaro surgiu, de forma inesperada, sem ninguém atinar em como tinha entrado ali. A avezinha ficou passeando por aquele pequeno espaço do salão, chamando a atenção de todos que estavam ali por perto. Até que um garçom se dispôs a apanhá-la. só o conseguindo depois de algum tempo. Os movimentos do homem, a corridinha em perseguição ao pássaro, que fugia ao pressentir a proximidade do homem, provocaram risos nas pessoas, inclusive nela. E o seu riso, a forma, me fizeram, de estalo, me lembraro de alguma pessoa. Não me era estranho aquele riso. Podia não ser o da jovem que namorei, mas de outra mulher que passara pela minha vida. Talvez até o de um amigo de um passado remoto. Impossível identificar. De todo modo, conhecera aquele riso. Foi quando acreditei que se virasse para mim, concedendo-me, além do olhar, um sorriso, como alguns presentes o fizeram. Nada. A mulher não alterou a posição de todo o tempo enquanto permaneceu à mesa, com exceção da vez em que a música começou a tocar. Mas a esperança (não dizem?) é a última que morre, e me vali dela para que, ao se levantar para ir embora, a mulher de novo me presenteasse com um olhar, ainda que rápido como uma piscadela. Nem isso. Ergueu-se e deixou a mesa pelo lado oposto ao que me encontrava. Ao se afastar, atrás do marido, pude notar que era um pouco corcunda.

domingo, julho 03, 2005

OS DEZ MAIORES FILMES DE LUIS BUÑUEL



1 - O Anjo Exterminador (1962)

2 - Os Esquecidos (1950)

3 - L' Age d' Or/A Idade do Ouro (1930)

4 - A Bela da Tarde (1967)

5 - O Discreto Charme da Burguesia (1972)

6 - Simão do Deserto (1965)

7 - Um Cão Andaluz (1928)

8 - Viridiana (1961)

9 - O Estranho Caminho de Santiago (1969)

10 - Ensaio de um Crime (1955)




sexta-feira, julho 01, 2005

EXTRA! UMA BELA ESTRÉIA E UM TREMENDO ABSURDO!

Nesta sexta entra em cartaz em Natal o filme A Queda - As Últimas Horas de Hitler. Uma grande notícia a exibição dessa obra do jovem diretor alemão Oliver Hirschbiegel, que tem obtido uma excelente receptividade em toda parte. Assim foi também no Brasil, quando lançado há poucos meses. Por mais de uma vez, em seu blog, Moacy Cirne revelou sua admiração por A Queda, reiterada por uma conversa telefônica que mantivemos, em sua última visita a Natal, onde ele me forneceu maiores detalhes sobre o filme. Mas o que poderia se tratar de uma bela notícia para os cinéfilos natalenses (já tão carentes de lançamentos de importantes obras) , acaba resultando num efeito contrário, motivado por uma atitude absurda assumida pela rede exibidora Moviecom (nomezinho safado, que Moacy pronuncia de outra maneira) . Vejam o absurdo. A Queda será exibido até quinta da próxima semana, numa única sessão. E, como se isso não bastasse, no pior dos horários: às 21:10 horas. Ou seja, um horário que tem tudo para desestimular o espectador de assisti-lo, pois saírá do cinema por volta da meia-noite, enfrentando o risco de ser assaltado, pois Natal não é mais aquela cidade segura e tranquila de quando cheguei aqui. E segundo me informou a funcionária, se o filme tiver boa aceitação, continuará em cartaz depois de quinta e, aí sim, será colocada mais uma ou duas sessões. Ora, bolas. Como é que ele vai ter uma maciça presença de público sendo exibido em uma sessão diária e num horário tão inconveniente? Pelo visto, essa tal de Moviecom acha que o cinéfilo natalense só merece bobageiras feitas pelo cinemão americano, que não tem o gosto, a sensibilidade e a inteligência para ver os grandes filmes. O que dá a seu gesto um significado de discriminação, de desprezo por nós. E eu que esperava ver A Queda nesses próximos dias, terei que esperar o seu lançamento em DVD, que, não deve demorar. E creio que muita gente seguirá o meu exemplo.

domingo, junho 26, 2005

RUBEM BRAGA

Em dezembro próximo se completam 15 anos da morte de Rubem Braga. Foi o maior dos nossos cronistas, e essa afirmativa, além de não constituir nenhuma novidade, não é deste escrevinhador. Creio que é uma opinião unânime. Há outros grandes cronistas (Paulo Mendes Campos, Carlos Drummond de Andrade, Fernando Sabino, para ficar só entre os que já morreram), mas o velho Braga está na frente daqueles e dos demais. Escrevia admiravelmente bem, senhor de um estilo elegante, enxuto, agradável, ao qual o leitor se prendia, mesmo quando o assunto não o interessasse. (No meu caso, entre outros, quando ele falava de pescaria, ou dea caçada.). E com uma correção gramatical, mas que jamais passou, nem de leve, pelo tom professoral. Algumas de suas crônicas ultrapassaram a fronteira do gênero para atingirem o conto. E não poucas vezes exercitou o humor, saindo-se muito bem.
Outra opinião sobre Rubem, se não unânime, pelo menos muito difundida, é que ele escrevia os melhores textos quando lhe faltava assunto. Nove fora o exagero dessa opinião, é verdade que isso ocorreu algumas vezes. E deve ter sido num dia em que não dispunha de um assunto mais atraente e interessante que ele escreveu uma crônica curtinha, em que falava de frases (era este o título, aliás) que fizeram a fama de pessoas, mas que não tinham o cunho da originalidade; ou seja, já haviam sido escritas, ou ditas, por outras. Rubem cita quatro exemplos, um dos quais é a célebre frase dita por um personagem de Guimarães Rosa em Grande Sertão : Veredasi: "Viver é muito perigoso". Segundo o cronista, um escritor mineiro (do qual omite o nome) encontrou a mesma frase num livro do escritor alemão Goethe. Rubem encerra a crônica dizendo que "era muito de Rosa essa mistura de Goethe com sertanejo". Uma maneira de livrar a cara de Guimarães Rosa da acusação de plágio. Por falar nisso, Dalton Trevisan, no texto "Ecos", do livro Dinorá, cita, no original, quatro frases de procedência estrangeira, pescadas por autores de língua portuguesa. Duas delas: Navegare necesse est vivere non necesse, ditas pelo general romano Pompeu; e Because it feels eternal while it lasts, de autoria de T. S. Eliot.
Mas voltando a Rubem Braga. Se o autor era digno da maior admiração, o homem não possuía o mesmo encanto. Era de trato difícil, sisudo (ele próprio chegou a se chamar de urso em algumas crônicas), que se portava de uma maneira que chegava a deixar as pessoas desconcertadas. Um poeta de Natal, já falecido, me contou que o também poeta Ney Leandro de Castro passou por uma experiência desagradável com Rubem, durante o lançamento de um livro em que foram vizinhos na fila para o autógrafo do autor. De um modo geral, os escritores, os cineastas, os atores, enfim, os artistas, não são pessoas de um convívio fácil. É por saber disso que nunca tive interesse em conhecê-los. E, na verdade, o que vale mesmo é o que eles produzem. E Rubem Braga nos deixou páginas antológicas da literatura brasileira.

domingo, junho 19, 2005

OS DEZ MAIORES FILMES DE FRANÇOIS TRUFFAUT



1 - Jules e Jim/Uma Mulher para Dois (1961)

2 - Os Incompreendidos (1959)

3 - Fahrenheit 451 (1966)

4 - Beijos Proibidos (1968)

5 - A Noite Americana (1973)

6 - Um Só Pecado (1964)

7 - O Último Metrô (1980)

8 - Domicílio Conjugal (1970)
9 - A Mulher do Lado (1981)

10 - Na Idade da Inocência (1976)



domingo, junho 12, 2005

AS TARDES DE DOMINGO FORAM FEITAS PARA LEMBRANÇAS?



O domiingo se arrasta monótono e quente. Estirado na rede, conservo o hálito do vinho e do peixe saboreados no almoço. A televisão está ligada no Santo Sílvio. O rádio do vizinho transmite um jogo de futebol. Não sinto ânimo para fazer coisa alguma. Apenas ficar deitado, ouvindo os ruídos de uma tarde de domingo. De manhã, no jornal, li a notícia da morte de um colega de escola. E não sei explicar por que a morte de Pirrita não me saiu da cabeça. Talvez pela forma trágica de que morreu, num tiroteio com a polícia, que o caçava há vários dias. Pirrita se tornara traficante de tóxicos. Seu nome e retrato frequentavam quase diariamente as páginas policiais. Até que lhe chegou o fim violento. Deve ter sido por isso que lamento tanto a sua morte, já que, no colégio, não chegamos a ser amigos.
Porque, por exemplo, quando morreu o Doca Cunha eu senti - menino e senti. Mas Doca Cunha foi um dos heróis da minha infância, por seu destemor. Um bravo que se acabou por uma bala traiçoeira do Zé Feitosa, ao meio-dia de um domingo. Estava numa mercearia do mercado público, onde, uma vez, agredira um cunhado. Contam que a irmã lhe rogara uma praga, de que ele teria o seu fim naquele mesmo local. Contam.
Uma morte que por muito tempo vivificou na minha memória e em meu coração. O mesmo, acho, aconteceu com meus amigos. Ela era um assunto predominante em nossos papos. E afirmava-se - alguns quase chegando a jurar - que o seu filho Amauri lhe vingaria a morte quando se tornasse adulto. Que maus profetas! Amauri, rapaz, tornou-se assassino, não do matador do pai, mas do próprio irmão.
Já era adulto quando Seu Edmundo morreu. Conheci-o já corroído pela bebida, mas ainda um bonito homem. Acompanhei, penalizado, a progressiva decadência física e moral de um homem respeitado e querido. De uma viagem que fiz em sua companhia nunca me esqueci. Foi há tanto tempo, eu era garoto, mas me lembro bem dele, bêbado, importunando o motorista e ironizando a história de um livrinho que trazia comigo. Era bem chato quando bebia. Numa manhã, na fazenda de um amigo, contava uma história quando o coração parou.
Toinho Jacinto o vi um dia desses. Mal vestido, fedendo a álcool, cantando uma putinha. Uma caricatura do Toinho saudável, elegante nas proporções de sua condição financeira e da nossa cidadezinha. Toinho, o craque de futebol, que jogava de uma maneira que dava gosto ver. Não compreedíamos por que nunca foi atraído para um time da Capital. Hoje me parece mais fácil entender a razão: naquela época abundavam os grandes jogadores, ao contrário do que se vê atualmente. Talvez ele até hoje ignore que nos tenha propiciado momentos de felicidade, no dia em que participou de uma pelada com a minha turma.
O momento não estimula a ação. Sem vontade de deixar a rede, sequer para ir ao banheiro, só me resta relembrar algumas figuras que me enriqueceram a infância. Ah, o velhinho Vitorino! Um homem sempre bem humorado, apesar de a vida o ter tratado com desprezo. Parece-me que o estou vendo de rosto escancarado para alardear a amabilidade de Juscelino e compondo uma carranca com que arremedava a sisudez de Juarez. E reproduzindo os sons dos instrumentos da bandinha de música da cidade. Ao morrer, terá sido velado com a mesma abnegação com que velava o corpo dos indigentes? Penso que não. Pior para os que nunca puderam apreender a sua beleza espiritual. Mas meu avô materno, também da linhagem dos simples, descobriu-lhe a riqueza humana logo no primeiro contato entre os dois. Vovô estava em visita à nossa cidade. Tendo acontecido ser apresentado por minha mãe, na mesma
oportunidade, a um figurão local, confessou à filha que gostara bem mais do humilde Vitorino.
Era sargento. Hoje não sei a sua patente. Por isso continuarei a chamá-lo de Sargento Adauto. Revi-o um outro dia. Velho, quase surdo, mas ainda conservando o vozeirão aprimorado nas instruções que dava aos recrutas. Um soldado em quem a vivência na caserna não embotou os princípios de urabanidade, nem o enquadrou na disciplina que rege o relacionamento entre superiores e subalternos. Dele não posso esquecer (viva mil anos) arrancando-me das rodas de um carro. Correra do papo com os amigos - uma reunião todas as tardes na calçada do hotel - para me salvar da morte buzinante.
O rádio do vizinho solta um grito de gol. Não ouço euforia no homem. Talvez o gol seja do time adversário; talvez o vizinho não seja dado a rompantes de alegria. Até a mim chega a gargalhada televisiva do Sílvio. Não recobrei o ânimo. O vinho e o peixe ainda pesam. Não só eles: a rede também. Como se todos os meus heróis tivessem se deitado comigo.
(Do meu livro Um Dia... os Mesmos Dias, 1983)

quinta-feira, junho 09, 2005

ANNE BANCROFT



Nessa segunda (dia 6) o cinema perdeu o talento de Anne Bancroft. Nascida no Bronx, em Nova York, em 17 de setembro de 1931, batizada com o nome de Anna Maria Louise Italiano, Anne Bancroft foi uma das grandes atrizes do cinema. E era também bonita. Estreou no cinema em 1952 com o filme Almas Desesperadas, do diretor inglês Roy Ward Baker, no qual contracenava com Marylin Monroe e Richard Widmark. De tanto trabalhar em filmes que não valorizavam o seu talento, migrou para o teatro, aí por volta de 1958. E já em 1960 ganhava o seu segundo Tony (o prêmio concedido pelo teatro american) pela sua interpretação na peça The Miracle Worker, no papel da professora de um menina que nascera cega, surda e muda. Dois anos depois o diretor Arthur Penn a convidou para o mesmo papel na adaptação da peça para o cinema e Anne Bancroft, com ele, ganhou o Oscar de melhor atriz, o único de sua carreira, embora tenha sido indicada mais quatro vezes para a feia estatueta da Academia de Hollywood. Em tempo: o filme levou o título de O Milagre de Annie Sullivan. E em 1964 ela foi eleita a melhor atriz no Festival de Cannes pelo filme Crescei e Multiplicai-vos, de Jack Clayton, em que contracenava com o grande James Mason. Mas esse prêmio foi dividido com a desconhecida atriz Barbara Barrie.
Anne teve várias grandes interpretações no cinema. No entanto, ficou para sempre lembrada pelo desempenho em A Primeira Noite de um Homem (Mike Nichols), na pele de Mrs. Robinson, uma mulher mal casada e alcoólatra que tirava o "selo" do personagem de Dustin Hoffmann. Foi uma Mrs. Robinson que transpirava sensualidade por todos os poros. Outra de suas melhores atuações foi em Sete Mulheres , o canto do cisne do grande mestre John Ford.
Teve uma única experiência na direção em 1980, com Fatso. Nesse filme, que não conheço, ela também escreveu o roteiro e trabalhou como atriz. Estava casada com o diretor Mel Brooks, desde os anos de 1960, seu segundo marido. Anne Bancroft, que fez 65 filmes, deixa o cinema, sobretudo o combalido cinema americano, bem mais pobre. É mais uma das minhas atrizes preferidas que se vai.

terça-feira, junho 07, 2005

FILMES ATÍPICOS DE ALGUNS DIRETORES



Na história do cinema ocorrem exemplos de filmes atípicos na carreira de alguns diretores. Ou seja, um tipo de filme feito por alguns deles, que fugia à linha que ele traçou para a sua carreira. E o primeiro nome que me vem à cabeça é o de Marcel Carné. Esse francês realizou uma obra densa, com elementos de tragédia, de amores impossíveis, onde não faltava a preocupação com o social, ou o político, e que foi autor de pelo menos uma obra-prima, O Boulevard do Crime (1945). Pois bem. Em 1956, Carné dá uma "trégua em sua temática e faz uma comédia leve, Ele, Ela e o Outro, filme que já mencionei aqui entre alguns que vira na minha adolescência e gostaria de rever.
Em seguida vem o caso de Hitchcock, com O Terceiro Tiro, (1955). Uma comédia no melhor estilo negro, em que ele tira umas pequenas férias do suspense. É claro que o humor não é um elemento estranho na obra de Hitchcock. Mesmo nos seus filmes de maior tensão, ele sempre encontra uma brecha para fazer circular um momento engraçado e na forma de alinhamento à tradição britânica do gênero. Mas em O Terceiro Tiro o humor é a constante, ainda que orientado pela presença de um cadáver. Talvez alguém possa citar, como outro exemplo de um filme atípico de Hitchcock, O Homem Errado (1957). Só se for pelo fato de ele contar uma história verídica. Porque, além do suspense, mais diluído, é verdade, O Homem Errado apresenta o tema do falso culpado, que é recorrente na filmografia de Hitchcock (Os Trinta e Nove Degraus, Intriga Internacional, Frenesi, entre outros). Hi, já ia me esquecendo. Quatorze anos antes de O Terceiro Tiro, em 1941, Hitchcock fez a comédia Um Casal do Barulho, que, pelas informações que tenho, é um filme ainda mais atípico do que o outro na carreira dele.
Joseph Losey, americano que se exilou na Europa escorraçado pelo macartismo, hoje um pouco esquecido, quando nos anos de 1960 era reconhecido como um cineasta importante, saiu uma vez do seu universo temático. Foi em 1966, quando transportou para a tela a personagem de história de quadrinhos Modesty Blaise. Mas não se deu bem nessa mistura de aventura e comédia, que pedia um diretor de estilo leve e com talento para o humor. Entre as críticas que sofreu, houve a de Antonioni, para quem Losey não soube tirar proveito da faceta humorística de Monica Vitti.
Outro diretor inadequado para um filme que fez foi Visconti em O Estrangeiro, 1967, adaptação do romance clássico de Albert Camus. Essa avaliação peço emprestada a Moacy Cirne. Em seu livro Cinema, Cinema - Os Filmes dos Meus Sonhos (Sebo Vermelho, 2003), ele sustenta que o livro de Camus pedia um diretor que tivesse o temperamento artístico e psicológico de Antonioni e nunca o de Visconti. O propósito do nosso amigo, claro, não é de opor o gênio de um ao outro, mas de opor personalidades artísticas. Sem me lembrar quase nada do filme, que se não me empolgou, também não me desagradou, confio no taco de Moacy. Até porque O Estrangeiro nunca é citado entre os maiores filmes daquele que talvez seja o maior esteta do cinema.
Agora, se Losey não se saiu bem ao tentar fazer um filme estranho à sua obra, o mesmo não se pode dizer de Ingmar Bergman. Sim, senhor, Bergman, o grande artista que levou ao cinema temas como a velhice, a morte, os percalços por que passam os relacionamentos amorosos, etc., etc.. Esse homem amargo, pessimista, angustiado, sisudo, que, como Buñuel e Fellini, nunca se desvencilhou do fantasma da formação religiosa, foi capaz de fazer as pessoas rirem com Sorrisos de Uma Noite de Amor, uma obra de refinado humor, realizada em1955. Não apenas um filme diferente na carreira de Bergman, mas também um dos seus melhores.
Por fim, cabe mencionar John Huston, que, em 1982, fez um musical chamado Annie. Não vi o filme, nem conheço opiniões sobre como ele se saiu ao tratar de um gênero para o qual não tinha aptidão.
P.S. - Este artigo já estava pronto, quando, ao comentá-lo com Moacy e Bené Chaves , num encontro que tivemos, o primeiro me informou que Bergman realizou outra comédia: O Olho do Diabo, de 1960.

sábado, junho 04, 2005

UMA NOITE COM MARLON BRANDO

Sonhos... Haverá no mundo, além deles, alguma coisa mais envolvida em mistério, impermeável a significados que desafiam a nossa compreensão.? Não creio. Ontem sonhei com Marlon Brando. É mais um sonho a me deixar perplexo, sem sequer me dar ao trabalho de tentar uma explicação para o fato. De manhã, ao café, comentei-o rapidamente com minha mulher, que, ao rir dele, teve, talvez, a mais apropriada reação à maioria dos sonhos. "A gente sonha cada besteira", disse ela, com um restinho de riso, e aproveitou para mencionar, de passagem, o sonho que tivera na noite anterior. É mesmo, concordei, e pulamos para outro assunto.
Mas o dia inteiro o sonho não largou do meu pé, embora, como já disse, não me dei ao trabalho de procurar-lhe um significado. Mesmo porque não havia um significado. Se tivesse ocorrido imediatamente depois do falecimento do ator, eu poderia relacioná-lo ao impacto da notícia divulgada fartamente pela Internet e os noticiários da televisão, deixando consternados os espectadores da minha geração, que viram Brando dando os seus primeiros passos no cinema e acompanharam a sua carreira por algumas décadas. Mas não. O sonho ocorria mais de dois meses após o seu óbito. Além disso, ele não foi um dos meus atores preferidos, embora admirasse o seu imenso talento.
Todo o sonho ocorre numa mesa de bar, em mais de um bar. É um dado curioso, pois, pelo que sabemos da vida de Brando, ele não foi um grande apreciador de bebidas, diferentemente do que foi em relação a comidas. Um bebedor moderado, no máximo. Ele está comigo e amigos meus, dos quais só consigo identificar um deles: o jornalista e escritor Orlando Brasil. É um Brando jovem, dos seus primeiros filmes. Bonito, forte, bem distante do homem obeso (apesar de conservar, no rosto, traços da antiga beleza), em que se converteu. Outro aspecto curioso no sonho é o fato de ele estar vivendo em nossa cidade.
Outra coisa. A imagem que Brando passa nessa noitada é a de um homem simples, alegre, engraçado, conversador e atencioso com os que estão em sua companhia. Nada parecido, portanto, com a imagem do astro do astro de cinema que ele desenvolveu ao longo de sua carreira, principalmente nos primeiros anos. Só numa única vez, naquela longa noite de perambulação pelos bares, foi um pouco ríspido comigo, mas acho que com razão. Num dado momento, eu, ao lado de Brando, comecei a lhe fazer perguntas sobre a sua carreira (mas não me perguntem quais foram, porque não me lembro). Ele respondeu umas três ou quatro perguntas, de modo sucinto, mas na próxima me encarou carrancudo e disse mais ou menos assim: "puxa, cara, você é bem curioso"! E aí não lhe perguntei mais nada. Bem-feito pra mim.
De repente aparece Isaías, com a sua estatura de pigmeu e a fala arrastada, cheia de assovios. Foi num momento em que estava de pé, afastado da mesa, não me lembro por quê. Como se estivesse assistindo a um filme, de que eu mesmo participasse: numa hora estava na mesa com Brando e uns amigos, e, num instante, havia um corte e lá estava eu noutra parte do bar. Fiquei afastado dele, mas não o suficiente para deixar de ouvi-lo perguntar a alguém se era Marlon Brando que estava naquela mesa. Daqui a pouco ele vai até lá pra foder a paciência de Brando, disse pra mim mesmo. Ô mala. Sem alça e sem rodinhas. Nesse exato momento acordei. Sonhos...
Este texto, já publicado no Balaio Vermelho, de Moacy Cirne, em outubro/2004, é resultado de um sonho. É narrado da forma que aconteceu. Apenas modifiquei o nome das duas pessoas que consegui identificar no sonho.

quarta-feira, junho 01, 2005

OS DEZ MAIORES FILMES DE BILLY WILDER

1 - Crepúsculo dos Deuses (1950)

2 - Quanto Mais Quente Melhor (1959)

3 - A Montanha dos Sete Abutres (1951)

4 - Se Meu Apartamento Falasse (1960)

5 - Testemunha de Acusação (1958)

6 - Amor na Tarde (1957)

7 - Pacto de Sangue (1945)

8 - Sabrina (1954)

9 - O Pecado Mora ao Lado (1955)

10 - Irma La Douce (1963)


sexta-feira, maio 27, 2005

A Paixão de Joana D' Arc




Os olhos esbugalhados de Joana. Uma lágrima escorrendo por um das faces. Uma mosca que pousa no seu rosto. O olhar, ora assustado, ou amedrontado, ora iluminado pela fé que a move, e, às vezes, exprimindo sofrimento. A verruga de um dos juízes. As rugas de outro. A astúcia, o sarcasmo, a falsidade, a coação dos seus algozes expressos num olhar. A Paixão de Joana D' Arc, que o dinamarquês Carl Dreyer rodou na França em 1928, é um filme quase todo construído de closes, principalmente de rostos. Essa opção narrativa necessitava do suporte de uma fotografia que atendesse o desejo do diretor. E Dreyer a conseguiu com o polonês Rudolph Maté, que realizou um trabalho não apenas primoroso, do ponto de vista técnico, mas revelador de uma "audácia fotográfica", conforme escreveu o crítico André Bazin. Maté ainda trabalharia com Dreyer no filme seguinte deste (Vampyr) e, muitos anos depois, já em Hollywood, trocaria a carreira de fotógrafo excepcional pela de diretor medíocre.
O roteiro é inspirado nas minutas do processo do julgamento de Joana D' Arc, que a condenou à fogueira. A história transcorre num único dia e é quase toda ambientada no interior do tribunal, com exceção duas ou três cenas exteriores. O já citado Bazin definiu A Paixão de Joana D' Arc como uma "tragédia espiritual". De fato. Uma tragédia vivida por uma jovem pobre e humilde, que sequer sabe assinar o nome, mas que defende a sua fé com convicção e obstinação, diante de juízes e teólogos ardilosos e empenhados em levar o processo às últimas consequências. Apenas um dos monges esboça uma inócua tentativa de desafiar a disposição condenatória dos julgadores, quando exclama que sente que naquela jovem indefesa se encontra uma santa e se prostra aos seus pés.
Curioso nesse filme de intensa espiritualidade, transmitida pela forte expressividade dos rostos (não só o de Falconetti, que vive a trágica Joana, mas o dos demais atores), é a linha do realismo traçada por Dreyer; realismo sem adjetivos (o poético, se o coubesse, seria pela orquestração das belíssimas imagens em close ). Ao lado da sucessão de closes de rosto, ou de partes dele, há as cenas de um realismo cru, às vezes impactante (a sangria em Joana, a tosquia de seus cabelos, o instrumento da tortura que lhe é infligida a girar com intensa velocidade, entre outras ). E na busca desse realismo, o diretor não poupou imposições: os cabelos de Falconetti foram realmente cortados, as cabeças dos monges tiveram que ser raspadas e não foi permitido o uso de maquilagem nos atores.
A Paixão de Joana D' Arc não é apenas a obra-prima de um grande cineasta, que fez apenas quatorze filmes no longo período de 1919 a 1964. É também uma das maiores da história do cinema. Um filme para ser exibido num templo sagrado, para que os espectadores o assistam de joelhos, com as mãos postas.

terça-feira, maio 24, 2005

HERBENE




"Gostei de ter ficado com você e queria que a gente se encontrasse uma vez por semana. Pode ser"? "Perfeitamente. Só que você tem de me ligar com antecedência para marcar o dia". "Tudo bem. Agora tem uns detalhes que preciso desde já acertar com você. Na verdade, são duas coisinhas apenas. Acredito que pra você não será um grande sacrifício atender os meus dois pedidos, que representam muito pra mim. E ademais eu saberei lhe recompensar bem".
Armando parou de repente ao ver Sílvia arregalar os olhos, então sorriu e disse: "Não vai lhe tirar nenhum pedaço, menina. Você vai ver". "Diga então o que é". "Bom, é o seguinte. Você vai mudar de nome quando estiver comigo. Esqueça que é Sílvia. (E, no fundo de si mesmo, duvidou de que aquele fosse o verdadeiro nome dela.) Você vai ser Herbene. Herbene, viu? Tudo bem"? "Tudo bem". "Beleza. Agora a outra mudança vai ser no cabelo. Eu vou querer que você faça aquele penteado chamado pastinha. Tá bem"? Dessa vez, Armando não foi obrigado a repetir a pergunta.
"Como você vê, não é nenhum bicho de sete cabeças o que estou lhe pedindo. E vou repetir, você será bem recompensada".
Passaram a se encontrar uma vez por semana. O dia é que nunca era o mesmo, nem ocorria entre sexta e domingo. Sílvia, logo nas primeiras vezes, percebeu um detalhe no nome que Armando adotara para ela: não a chamava de Herbene enquanto não iam deitar-se (tampouco a tratava pelo suposto nome) . Percebeu também a preferência dele pelo sexo anal.
Quando a penetrava, ele não se continha em insultá-la com as palavras mais chulas. Reprovava-a por ter resisitido tanto a praticar aquela forma de coito e a obrigava a reconhecer quanto tempo desperdiçara por causa da sua tola recusa. Mas, às vezes. Armando entremeava os insultos e as agressões com ardorosos louvores à bunda de Herbene, e daí era um passo apenas até à ternura, mostrando-se grato a Herbene por ter, afinal, cedido aos seus apelos.
Era assim também o comportamento de Armando quando ela lhe chuchava o sexo. Os mesmos termos chulos, os mesmos insultos, a mesma reprovação pela resistência de Herbene; e, às vezes, o elogio, você assim me deixa doidão, Herbene.
Um dia, já com uns três meses que se encontravam, Sílvia foi com uma amiga ver um filme num shopping. Depois do cinema foram para a praça da alimentação. Ao chegarem à mesa, Sílvia avistou uma mulher acompanhada de um filho pequeno, sentada próximo a elas, que não lhe chamou a mínima atenção.
As duas começaram a comentar o filme, depois passaram para outros assuntos. Uns trinta minutos mais tarde, em seguida a uma pausa na conversa, Sílvia, que ficara um pouco de costas para a estranha, desviou casualmente a vista em direção a ela, e o que viu causou-lhe o impacto de um soco inesperado no rosto. A reação seguinte foi arregalar os olhos para se convencer de que era real a cena que acabara de ver. Logo depois virou-se para a amiga: "Mulher, tu não faz idéia de quem é que está ali naquela mesa". A amiga apurou a vista na direção da mesa: "Que gato! Quem é"? "É o cara que te falei". "Não diga". "Pois é o tal. Não fica olhando muito pra lá pra não dar na vista. Pois é ele, mulher".
E Sílvia, de repente, viu-se muito interessada na desconhecida. Com cautela, relanceava o olhar para ela e ia-lhe descobrindo traços de beleza de que não se dera conta quando a vira ao chegar ali. Uma beleza, Sílvia admitiu, que não era daquele tipo que despertava desejos nos homens, impondo-se pelo que tinha de ostentatório, de agressivo até. Nada a ver. Era uma beleza que parecia não se querer notar, distinguida pela suavidade dos traços, a delicadeza dos gestos, a fragilidade do corpo. No seu modo simplório de ver as coisas, Sílvia a comparou a um bibelô, no que esse objeto tem de frágil, de quebradiço.
"Eu fico imaginando por que um homem que tem em casa uma coisinha daquela ainda vai atrás de outra mulher". "É ver uma mocinha. Sozinha ninguém diz que é casada". "É verdade. Ainda mais usando aquela pastinha".
Sílvia já deixara de olhar para a mulher. Mas a amiga concentrara toda a atenção naquela mesa. Por uns três minutos, os olhos, como hipnotizados, não se afastavam dali. E mais tempo talvez os demorasse, se Sílvia não voltasse a advertir a amiga.
"Mulher, larga de olhar pra lá. Daqui a pouco a mulher vai pensar que tu tá querendo comer o homem dela". "Sabe, Sílvia, que eu tive agora mesmo um palpite. É que o nome daquela mulher é o mesmo que ele deu pra você. Como é que ele te chama"? "Herbene". "Herbene. Sou capaz de apostar que é o nome dela". "Tu acha mesmo"? "Não acho não, tenho certeza. Veja bem. Ele manda tu usar pastinha, do jeito que a mulher usa. Depois te chama de Herbene. Só pode ser o nome dela. Não tou certa"? "Sei lá". "Puxa, mulher, como tu é burra". "Pois você que é tão sabida, me diga então qual e a dele". "Isso eu não sei. Por que tu não pergunta pra ele"? "Eu não". "Pois se fosse comigo, eu já tinha perguntado". "Eu lá me interesso em saber por que os homens exigem certas coisas. Eles pagando, tudo bem. A única coisa que não deixo é eles cagarem em cima de mim".
A amiga riu com espalhafato. Em seguida, voltou a olhar para a mesa. "Olha, eles tão saindo. O safado demorou pouco".
Sílvia voltou-se. Eles iam deixando a praça da alimentação, de costas para ela. Armando com a mão no ombro da mulher, que segurava a mão do filho. Ela era pequena, mal chegando ao ombro do marido, apesar do salto alto. Ouviu a amiga dizer: "Esses homens"...

sábado, maio 21, 2005

OS DEZ MAIORES FILMES DE LUCHINO VISCONTI




1 - La Terra Trema (1948)

2 - O Leopardo (1963)

3 - Um Rosto na Noite (1957)

4 - Rocco e Seus Irmãos (1960)

5 - Violência e Paixão (1974)

6 - Morte em Veneza (1971)

7 - Os Deuses Malditos (1969)

8 - Sedução da Carne (1954)

9 - Ludwig, A Paixão de Um Rei (1973)

10 - Ossessione (1942)

quarta-feira, maio 18, 2005

A IDADE DO OURO




Segundo filme de Luis Buñuel, A Idade do Ouro (L' Age d' Or, 1930) é o seu primeiro filme sonoro. Dois anos antes, com Um Cão Andaluz, Buñuel fizera um curta experimental, segundo ele produto de dois sonhos que ele e Salvador Dali tiveram, e do qual talvez se pudesse dizer que era um filme-manifesto do Surrealismo, tendo em vista que, antes dos créditos, era divulgado um trecho do manifesto do Movimento. Não que A Idade do Ouro não levasse em consideração o destaque dos princípios básicos do Surrealismo; pelo contrário, eles estão lá tão ou mais radicalizados quanto em Um Cão Andaluz. Situações sem um mínimo de explicação racional se sucedem, tais como: um homem a chutar um violino pela calcaçada, uma vaca deitada numa cama, que dali se retira ordenada por um gesto de expressão no rosto de uma mulher, uma carroça conduzida por dois homens do povo que atravessa o salão onde está se realizando uma festa burguesa, um homem caminhando com uma pedra na cabeça, como se imitasse a estátua pela qual ele passa. (Essa última cena é a única contribuição de Dali no roteiro, conforme informou o próprio diretor.)
Portanto, há em A Idade do Ouro essa obediência (ou, mais do que obediência, uma integração, um parti-pris ) àquele Movimento, ao qual, é preciso dizer, Buñuel sempre se manteve fiel. Claro que, ao longo da sua carreira, o Surrealismo aparecia mais diluído, de forma bem mais atenuada do que nos seus dois primeiros filmes. No entanto, caminhando paralelamente ao elemento surrealista (ou dele se servindo para acentuar a investida crítica) existe o ataque à burguesia e à religião. E se o filme trata ainda do caso de um amor louco, que jamais poderá dar certo, e ao qual Buñuel dá grande importânca (segundo suas próprias palavras), é a investida àquelas duas instituições que dá o tom de A Idade do Ouro, até porque os dois amantes pertencem ao mundo burguês. Às vezes, numa mesma cena o propósito é duplo. Dois exemplos: quando um carro estaciona à frente da casa, onde será realizada a festa, antes de sair um conviva, um objeto sagrado é retirado do carro e posto no chão; e na imagem final, sobre uma cruz se entrançam plumas usadas no vestuário feminino. E aí Buñuel já se mostra o iconoclasta, o cruel, o irrevente que se manteve até o final da carreira. E a sua irreverência, que muitos podem considerar sacrílega, contra a religião chega ao ponto de mostrar o Duque de Blangis, organizador de uma série de orgias que duram 120 dias, tendo por local o castelo de Sellinay (numa referência ao Marquês de Sade) , como um sósia perfeito de Jesus.
Tudo isso custou muito caro a Buñuel e ao filme. Os fundamentalistas católicos e burgueses da época invadiram o cinema, destruíram quadros de uma exposição sobre o Surrealismo, rasgaram poltronas e atiraram bombas sobre a tela. Desse ato de barbárie e vandalismo resultou a proibição da A Idade do Ouro por longuíssimos cinquenta anos. E isso num país como a França. É, seguramente, o maior caso de interdição de um filme em toda a história do cinema.

sábado, maio 14, 2005

CURIOSIDADES CINEMATOGRÁFICAS




1) Já falei aqui de escritores que experimentaram a direção de filmes. Hoje será a vez dos que atuaram à frente das câmeras. Eis aqueles que consegui localizar. Começo com Susan Sontag e Saul Bellow (falecidos, respectivamente, em janeiro e abril deste ano), que aparecem em Zelig (1983), de Woody Allen. Em seguida, Gore Vidal, em Roma (1972), de Fellini. O alemão Erich Maria Remarque, autor do famoso Sem Novidades no Front , adaptado para o cinema por Lewis Milestone, participou de Amar e Morrer, de Douglas Sirk, 1958. Já o mexicano Juan Rulfo (Pedro Páramo) apareceu em Nesta Cidade Não Há Ladrões, (baseado no conto homônimo de Garcia Marquez), do seu compatriota Alberto Isaac, em 1964. (Outra presença ilustre nesse filme é a de Buñuel.) O inglês Graham Greene, autor da história e do roteiro de O Terceiro Homem, o clássico de Carol Reed, fez uma ponta em A Noite Americana, de François Truffaut, E sobre a participação de Greene nesse filme há uma historinha também curiosa. Ele estava na França quando o filme era rodado e, sendo admirador de Truffaut, dirigiu-se ao local da filmagem para conhecer o diretor e lhe pedir para fazer uma ponta. Só que não pôde falar com Truffaut, mas, em todo caso, conseguiu aparecer no filme, através da assistente do diretor, se não estou enganado. E Truffaut só foi saber que o famoso escritor inglês tinha participado de uma cena, como representante de uma seguradora inglesa, quando da edição dela, informada pela sua colaboradora. Os dois estiveram bem próximos um do outro, mas Greene não falou com Truffaut, nem foi por este reconhecido.
E aqui no Brasil? Bem, há o caso do dramaturgo Oduvaldo Viana Filho, o Vianinha, que foi o protagonista (ótima interpretação, aliás) de Um Homem Sem Importânica, de Alberto Salvá, 1973. E Vinícius de Moraes e Fernando Sabino participaram de Garota de Ipanema, Leon Hirszman, 1967. Por sinal que Vinícius foi um dos 5 ou 6 roteiristas do filme, um deles Glauber Rocha. Acredito que deva haver muitos outros exemplos , no Brasil e lá fora, de escritores que atuaram em filmes, mas só consegui localizar os aqui mencionados. Ah, já ia me esquecendo. O poeta Jacques Prévert, roteirista de alguns filmes de Marcel Carné, aparece rapidamente numa rua em A Idade do Ouro, de Buñuel, segundo informação do próprio cineasta.
2) Quem conhece Cantando na Chuva jamais esquecerá a sequência em que Gene Kelly canta e dança sob um toró daqueles. Realmente, não dá para esquecê-la. A beleza dá música, a interpretação desta por Kelly (e ele não era um cantor) e a coreografia fazem daquela sequência um dos momentos mais deslumbrantes do cinema. Foram horas e horas de ensaio e de filmagem para se chegar ao resultado final. Ou, digamos, à perfeição total. Disso tudo, segundo contou o crítico Sérgio Augusto, resultou que o genial Kelly contraiu uma gripe que o deixou de cama. Mas ele mesmo deve ter dito, para si e para os outros, que valeu a pena ter adoecido.
3) Ha tantas lendas envolvendo Orson Welles, como , de resto, todos os monstros sagrados do cinema, que a historinha que vou contar talvez seja mais uma. Já faz algumas décadas que a ouvi. Contam que na rodagem de um filme com Rita Hayworth, Welles (então seu marido) estava presente quando ouviu alguém da equipe de filmagem gritar para o diretor: "Pare a cena, que Miss Hayworth está suando". Welles, incontinenti, se dirigiu à pessoa e lhe disse: "Nunca diga que Miss Hayworth está suando. Os cavalos suam, as pessoas transpiram, mas Miss Hayworth brilha".

terça-feira, maio 10, 2005

ORQUÍDEA E MAGNÓLIA




Recostada à janela, observava o vaivém dos carros barulhentos na rua em frente. A uns poucos metros, os carros de alguns médicos permaneciam estacionados. Cada médico possuía uma vaga, o seu nome inscrito numa plaqueta fincada no chão e colada ao muro. Achou curiosa a semelhança entre as plaquetas e as cruzes de mortos anônimos encontradas à margem das estradas. Tinha ficado muito tempo sentada próximo à cama, e o desconforto da cadeira deixara-a com a coluna dolorida. Era mais para aliviar-se das dores que estava ali, pois nada de agradável tinha a oferecer aquela paisagem monótona e ruidosa.
Depois de algum tempo foi verificar o frasco de soro. Ficou olhando a queda lenta e intermitente da gotinha. A irmã permanecia naquela modorra que afeta os recém-operados. Há pouco a enfermeira mudara o saco de plástico onde era coletada a urina. A outra janela, que fica perto da cabeceira da cama, também estava aberta. Retornou à janela. Um médico entrou apressadamente no carro. Lembrou-se das palavras do cirurgião sobre o estado de saúde da irmã. A frieza com que lhe comunicara a malignidade do tumor extirpado, acentuada pelo uso da terminologia técnica. Ainda bem que regressaria ao Rio no dia seguinte. O lançamento de seu novo livro estava marcado para dali a dois dias. Não teria coragem de revelar a verdade à irmã, embora soubesse que ela receberia a notícia com serenidade e resignação.
Desde criança Magnólia apresentara uma saúde precária. Sofria de problemas respiratórios, que a prendiam vários dias na cama. Brincara muito pouco. Atrasara-se nos estudos, sendo suplantada por ela, três anos mais nova. À custa de uma firmeza insuspeitada em organismo tão frágil, concluíra o segundo grau, mas nesse ponto parou os estudos. E o admirável nisso tudo é que nunca ninguém a viu queixar-se.
O pai delas foi muito arguto quando observou que Magnólia e Felicité pertenciam à mesma família. Ele lia muito e tentou transmitir aos filhos o gosto pela leitura, mas só teve êxito com Orquídea. Um dia ele entregou a Orquídea um volume encadernado de novelas francesas e lhe disse: leia com atenção Um Coração Simples. Você vai ver que a personagem Felicité é uma irmã espiritual da nossa Magnólia.
Figura mais curiosa o seu pai! Outra paixão sua eram as flores. Cultivava as mais diferentes espécies no jardim. E tratava-as com um carinho que jamais exprimiu pelos filhos. Apesar de terem nomes de flor: Orquídea, Magnólia, Gardênia e Lírio, o único homem.
Até ela chegava o ressonar de Magnólia. Pensou nos roncos da irmã, que lhe agravavam a insônia. E naquele dia que se seguiu a uma noite inteira sem dormir, em que afinal explodiu: não iria mais dormir no mesmo quarto. A mãe e Gardênia defenderam Magnólia, que nada falou. Empalideceu, arremedou um sorriso, como se fosse um mudo pedido de desculpa. Orquídea passou a se deitar no sofá, mas não conseguiu dormir melhor. Magnólia continuou a perturbar-lhe o sono. Já não eram os roncos: o peso do remorso por ter agredido uma pessoa tão indefesa. No quarto dia lhe pediu que a perdoasse. Magnólia quase sorriu e lhe falou não tem de que se desculpar, mana. E Orquídea voltou para o quarto.
A enfermeira vem verificar a temperatura da doente. Orquídea vai até à cama. A enfermeira consulta o relógio. Depois de retirar o termômetro da axila, agita-o e examina. "Como está ela"? pergunta Orquídea. "Um pouquinho febril. Vou aplicar um antitérmico".
Orquídea sentou-se. Sorriu para Magnólia. Ela olhava em sua direção, as pálpebras quase cerrando os olhos. A moça reapareceu com o medicamento. Quando saiu, Orquídea dirigiu-se ao sanitário. Ao voltar, deteve-se no espelho oval, de gasta moldura amarela. Retirou os óculos e os pousou sobre a cômoda. Aproximou o rosto da lâmina e pôs-se a examinar os sinais dos anos nele. Recolheu os óculos e tornou a sentar.
Magnólia dormia outra vez. Reteve o olhar naquele corpo que sumia sob o lençol. Dali para a frente iria ficar cada vez mais transparente até o soar da hora final. Com uma mão alçou os óculos até à testa e, com a outra, levantou a barra da saia e enxugou uma lágrima. O frasco de soro estava no fim. Apertou o interruptor e chamou a enfermeira. Pra renovar o soro, falou quando a moça apareceu. Ela se afastou e logo em seguida reapareceu com um novo frasco. Atirou o vazio num cesto. Antes de sair, examinou o saco que armazenava a urina. Ainda levaria algumas horar para ficar cheio.
Orquídea foi para a janela. O estacionamento estava quase vazio. Os carros prosseguiam no seu transitar barulhento. Amanhã teria que regressar. Só viera por causa da cirurgia de Magnólia. Seu novo livro estava a dois dias do lançamento. Sentia por ele uma expectativa talvez maior do que quando estreara na literatura. Um romance de humor - uma experiência nova em sua carreira. Na penúltima obra já realizara uma incursão pelo gênero em algumas passagens. Os críticos não gostaram. Preferiam os pequenos-grandes dramas do homem comum, que, segundo eles, Orquídea sabia transformar em arte genuína. Mas há muito tempo deixara de se interessar pela opinião dos críticos. Não é de hoje que ela pensava em escrever uma história que deixasse o leitor, se não feliz, pelo menos alegre. Uma história de pés plantados na realidade, mas essa realidade vista sob a ótica do humor. A literatura brasileira - concordava com o que escrevera um crítico certa vez - é muito carrancuda, excessivamente grave. Molière e Chaplin - um no teatro, o outro no cinema - provaram a eficácia do humor como instrumento de crítica. Sem a pretensão de igualar-se aos dois, ela buscara atingir o alvo com esse último livro. E os críticos que tentassem aceitá-la com essa nova imagem, porque estava disposta a prosseguir com a experiência.
O ruído do sono de Magnólia trouxe-lhe de volta o drama da irmã. E ela ali pensando no seu novo livro! Mas o que é que podia fazer? Menos que nada. Se pudesse, concederia a Magnólia aquilo que as pessoas se acostumaram a desejar aos aniversariantes: muitos e muitos anos de vida. Mas nada poderia fazer. Nem ficar ao seu lado por mais um dia. Não era apenas o livro. O emprego, o filho, a direção da casa. Pobre Magnólia. Seus numerados dias teria que passá-los em companhia de Bilu, a criada que as viu nascer e nunca as abandonou. Gardênia virara grã-fina e no momento percorria a Europa com o marido. Lírio fora embora para São Paulo e nunca mais dera notícias. Os pais falecidos. Só restava a preta Bilu, já de cabelos embranquecidos, mas ainda vigorosa. Maravilhosa Bilu. O que iria ser dela quando Magnólia morresse, se não tinha nenhum parente vivo? Não alimentava a certeza de que Gardênia a amparasse. Mas lutaria para que a velha Bilu não fosse abandonada depois de servir tanto à família.
Foi interrompida pela criada, que lhe trazia o jantar. Pediu que deixasse a bandeja sobre a cômoda. Depois daria uma olhadela nos pratos. A noite chegara. As luminárias da rua já estavam acesas. No pátio um solitário carro. O quarto parcialmente coberto pela escuridão. Orquídea permaneceu ali por muito tempo. Sem pensar em nada. Vagando o olhar pelo pátio, ouvindo o barulho dos carros e o ressonar de Magnólia. Até as trevas amortalharem o pátio e o quarto.
(Do meu livro Um dia... os mesmos dias, 1983)

sábado, maio 07, 2005

LOUIS MALLE

Outro dia numa matéria sobre a Nouvelle Vague na Internet, o nome de Louis Malle aparece como um dos participantes daquele Movimento. Eis um equívoco em que ainda incorrem alguns cinéfilos/críticos mal informados. Creio que isso tem a ver com o fato de Malle ter estreado no longa quase na mesma época do nascimento da NV., embora o seu primeiro filme, um curta, date de 1953. Sim, é verdade que no livro Os Filmes de Minha Vida, (Nova Fronteira, 1989), na parte intitulada "Meus Companheiros da Nouvelle Vague", François Truffaut comente dois filmes de Malle, mas é possível que tenha considerado todos os filmes ali analisados, de diretores comtemporâneos seus, como empenhados em uma nova forma de fazer cinema, em oposição aos filmes de diretores da "Vieille Vague", e não apenas os de seus verdadeiros pares da NV.. Se assim não fosse, é o caso de se perguntar o que ali estava fazendo Roger Vadim. O certo é que Louis Malle nunca foi bei aceito pela turna da NV., certamente por manter uma independência em relação ao Movimento. E, aliás, em seu Zazie dans le Metro (1960), há numa fala de um personagem uma referência maliciosa à Nouvelle Vague.
E o cinema de Malle possui uma característica inconfundível que não não devia atrair as simpatias daquele grupo. Quero aludir à queda que ele sempre demonstrou pelo ousado, o escandaloso, o polêmico, desde quando no distante ano de 1958 mostrou, em Os Amantes, uma variação do ato sexual, chocando os puritanos da época. E ao revelar isso, Malle procurava atingir aquele que, segundo o crítico Ricardo Cota, era o alvo principal de seu ataque, isto é, "os arraigados costumes burgueses", encobertos pelo manto do puritanismo, da hipocrisia, do falso moralismo. Na fuga do personagem de Jeanne Moreau com o amante, ela (mal) casada com um homem riquíssimo, é feita a defesa da liberação da mulher, quando o feminismo era uma palavra que não constava do dicionário.
E daí pra frente ele expôs a relação incestuosa entre a mãe e o filho adolescente em O Sopro no Coração (1970), o colaboracionismo à ocupação nazista, uma mancha indelével no orgulho francês (Lacombe Lucien , 1973), a paixão abrasadora entre a noiva e o pai do noivo em Perdas e Danos (1992, seu penúltimo filme), neste ainda tendo de volta a presença do incesto, entre irmã e irmão, só que o incesto não é mostrado, mas revelado pela irmã numa conversa dela com o amante e quase futuro sogro. E há ainda em Pretty Baby, 1978, sua estréia no cinema americano, a iniciação na prostitutuição de uma garota criada em um bordel, onde sua mãe trabalhava. Mas, atenção. Não se pense que Malle, no propósito de pôr o dedo na ferida, tivesse apenas em mente o desejo de passar a sua "mensagem", com o único objetivo de causar escândalo, de provocar polêmica. Não. Seus filmes eram bem realizados, demonstrando o conhecimento que ele possuía da técnica e da linguagem cinematográficas. Sem falar da sensibilidade e de uma certa delicadeza imprimidas à narrativa. Inesquecível, para citar um exemplo ao acaso, a antológica sequência em que o casal de Os Amantes passeia, de mãos dadas, em plena madrugada, na qual se aliam o lirismo, a magia e um quê de onirismo.
Se nunca realizou uma obra-prima (em dois ou três filmes raspou a trave), sempre manteve um nível de qualidade entre os mais de trinta filmes que dirigiu. Poucos os tropeços (Viva Maria. O Ladrão Aventureiro, A Baía do Ódio, até certo porto Perdas e Danos, mais um ou outro) . Louis Malle estudou Ciência Política na Sorbonne. Antes de experimentar a direção, foi assistente de Bresson. Morreu em 23.11.95, na Califórnia, onde residia deste os anos de 1970. Estava com 63 anos.

quarta-feira, maio 04, 2005

OS DEZ MAIORES FILMES DE FEDERICO FELLINI




1 . Oito e Meio (1963)

2 . Amarcord (1973)

3 . A Doce Vida (1960)

4 . A Estrada da Vida (1954)

5 . Os Boas-Vidas (1953)

6 . Noites de Cabíria (1957)

7 . E La Nave Va (1983)

8 . As Tentações do Doutor Antônio (1962)

9 . Ginger e Fred (1985)

10. Abismo de um Sonho ( 1952)