terça-feira, outubro 27, 2009

A DITADURA E A PARANÓIA



Já se disse que o maior dano causado pela ditadura militar foi o de ter introduzido a paranóia na mente das pessoas. Qualquer estranho, que aparecesse no meio de um agrupamento de pessoas, era visto com suspeita. Era assim na nossa Faculdade, era assim em qualquer outro local fechado. (Lembro Nélio me contando que alguns de seus companheiros do Cine Clube Tirol estavam com o pé atrás em relação a um sócio recém-admitido, vindo de outro Estado. Só depois de alguns meses verificaram que o coitado era inocente.) Nas ruas, nos bares, ficava-se incomodado com a presença, por perto, de alguém que estivesse sozinho. Mas, como naquele caso contado por Nélio, muitas a suspeita era infundada.
Por uma dessas ironias de que a vida está cheia, fui eu em certa ocasião também vítima desse tipo de suspeita. Logo eu que procurava estar sempre atento à presença desses informantes em nosso meio. Foi num sábado, fim de tarde. Estava sentado no batente da entrada do meu edifício, à espera de um colega de turma. Ele vinha me apanhar para jantar em sua casa e em seguida estudaríamos a matéria da qual faríamos exame na segunda-feira. O final do ano letivo se aproximava.
Vizinho ao edifício funcionava um café, assim chamado, mas que servia também bebidas. Café da Mocidade era o nome nem um pouco inspirado do estabelecimento. Além de, conforme ouvi um cliente dizer certa vez ao proprietário, conter esse nome o risco de afugentar os fregueses que já tivessem passado pela juventude. Ao que o dono (um sujeito magrinho, risonho e que desmunhecava um pouco) replicou que, ao contrário, aquele nome seria um chamariz para atraí-los ao seu café, por lhes dar a ilusão de que ainda eram jovens. Quando fui morar no edifício, ali funcionava uma marcenaria, onde, aliás, mandei fazer uma pequena estante, logo depois de ocupar o apartamento.
Três homens estavam bebendo à primeira mesa localizada à esquerda de quem penetrava no café. Um deles era presença assídua nos bares, sempre dava com ele, ao entrar num. Ocupava uma cadeira ao lado da parede, de frente para um dos acompanhantes, enquanto o outro ficara à sua esquerda, na cabeceira. Ficando a mesa logo à entrada do café, era possível a quem estivesse na posição em que me encontrava, ver aquele papudinho, bastando-lhe apenas virar o rosto para o interior do bar. Ele, por sua vez, poderia me ver com nitidez, desde que se interessasse em olhar na minha direção.
Ali sozinho, aguardando o colega, de vez em quando, para me distrair, olhava na direção do sujeito. Olhava um pouco e voltava o rosto para a rua. Nas primeiras vezes ele não pareceu dar pela minha presença. Até que numa hora em que olhava em sua direção, ele, de repente, virou o rosto para mim e me encarou, obrigando-me a desviar o rosto.Pela reação estampada no olhar do papudinho, percebi que ele não tinha gostado nada de me ver ali por perto. Assim, o melhor a fazer era parar de olhar o sujeito. Mas o que devia ter feito era simplesmente ter dado o fora dali. Eu teria sido poupado de ouvir as palavras duras e feias do papudinho, que não foram dirigidas a mim diretamente, mas era como se tivesse sido, já que ele falou bem alto para que eu pudesse escutar. Ele me confundira com um informante, um dedo-duro. Falava aos companheiros de mesa, como se fosse comigo. Um deles, foi o que pressenti, pois continuava com o rosto virado para o outro lado, veio até à porta e ficou me observando. O destempero verbal daquele desgraçado acabou chamando a atenção do proprietário do café, que, ao ficar sabendo do que se tratava, livrou a minha cara. Eu estava ali porque morava no edifício. Ele tinha me visto sentado no batente, numa ocasião em que apareceu na entrada do café, e até me cumprimentara. Apesar do esclarecimento do dono do café, fiquei arrasado. Precisei desabafar com o colega, que chegou logo depois.
Ao contar o episódio a Laura no dia seguinte, ao nos encontrarmos no Cinema de Arte, mostrei a ela a que grau de paranóia as pessoas haviam chegado. Até um sujeito como aquele, que levava o tempo a freqüentar os bares, se sentira espionado.

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- Trecho do meu romance A Venda Retirada, EDUFRN, 1998.
- Mantive a forma ortográfica da época em que o livro foi publicado.

terça-feira, outubro 20, 2009

15 FILMES DE GRANDE FINAL (*)


A fotografia, a cor, a pintura, a poesia: final de Gritos e Sussurros


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- Oito e Meio (Federico Fellini)
- A Doce Vida (Fellini)
- Rastros de Ódio (John Ford)
- Crepúsculo dos Deuses (Billy Wilder)
- Luzes da Cidade (Charles Chaplin)
- Blow-Up (Michelangelo Antonioni)
- Lola Montés (Max Ophuls)
- O Tesouro de Sierra Madre (John Huston)
- Deus e o Diabo na Terra do Sol (Glauber Rocha)
- O Leopardo (Luchino Visconti)
- Shane/Os Brutos Também Amam (George Stevens)
- Cinema Paradiso (Giuseppe Tornatore)
- Pickpocket ( Robert Bresson)
- De Punhos Cerrados (Marco Bellocchio)
- Gritos e Sussurros (Ingmar Bergman)

(*) Ordem não preferencial.

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LIVRO SOBRE O CINEMA BRASILEIRO

Hoje, a partir das 16 horas, no auditório do Departamento de Enfermagem do campus da UFRN., ocorrerá o lançamento do livro "CENAS BRASILEIRAS - O cinema em perspectiva multidisciplinar (1928-1988)" - Sessenta anos de cinema brasileiros analisados através de filmes comentados por vários cinéfilos/críticos. Este blogueiro é um dos participantes, como também Moacy Cirne, do blogue Balaio Porreta, e Bené Chaves, do desativado blogue O Apanhador de Sonhos. Aliás, Bené é um dos organizadores da coletânea, juntamente com Marcos Silva, potiguar que leciona na USP. A edição do livro é da EDUFRN.










terça-feira, outubro 13, 2009

O MAIOR AMOR DE CAMÕES


Folha de rosto da primeira edição de "Os Lusíadas"
Foto em www.unicamp.br/



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Sabem aquele belo e conhecidíssimo soneto de Camões que começa com os versos "alma minha gentil que te partiste, tão cedo desta vida descontente"? Pois bem, há uma história por trás dele. A mulher a quem ele se dirige não só existiu, como é considerada o maior amor do poeta, que os teve muitos. Tantos que, para o escritor cearense Airton Monte (*), comparado com ele, Vinicius de Moraes" é o mais casto dos seminaristas".
O fato assim aconteceu. Nomeado pelo rei de Portugal da época, Camões foi trabalhar na Ásia, em uma região onde é hoje o Vietnam de amarga lembrança para os americanos do Norte. Chefiava um órgão que administrava os casos de heranças sem a existência de herdeiros. Consta que problemas financeiras levaram o poeta a meter a mão no dinheiro que pertencia ao reino ao qual servia, e, por conta disso, foi intimado a regressar a Portugal para se explicar e se defender. Embarcou levando uma bela asiática que conquistara enquanto ficou na região. Além da mulher, levou o manuscrito de "Os Lusíadas". No meio da viagem, abateu-se uma tempestade, que faria o navio naufragar. E aí o poeta confrontou-se com uma luta interior, tão intensa quanto a fúria do mar: ou se salvava (e com ele o manuscrito), ou salvava o seu grande amor. Não é preciso dizer qual foi a sua decisão. Mais tarde compõe o soneto em que, na medida em que chora a perda da amada, expõe o remorso pela culpa da morte dela.
O ato de Camões dá ensejo a uma questão. Uma obra literária, por maior que seja, é mais importante do que a vida de uma pessoa? E mais ainda se se tratava de alguém que ele tanto amava, a ponto de levá-la para Portugal? Não é exagero, nem impróprio, considerá-lo um criminoso. Por outro lado, o poeta (e, por extensão, o artista), é um ser diferente dos demais mortais, não é uma pessoa "normal", é alguém que vê e sente as coisas de um outro ponto de vista. A sua obra é o que mais lhe importa. Não deveria ser assim, mas, infelizmente, é assim. Pode haver exceções, mas, no geral, o homem a quem foi dado o dom de criar coisas belas e imorredouras, é assim.
E se existe algo que, não digo possa absolvê-lo, mas que seja uma atenuante para o seu ato, é que o que ele preservou foi uma obra da grandiosidade de "Os Lusíadas"; e, de quebra, ele produziu esse soneto belíssimo em homenagem à mulher que mais amou. Muito mais grave seria se tivesse acontecido algo idêntico a Sarney, para que não se perdessem os originais daquele tal de "Marimbondos de Fogo".

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(*) O fato aqui narrado, com alterações de linguagem, foi extraído da crônica "Ninguém é Perfeito", publicada por Airton Monte no jornal "O Povo", de Fortaleza (CE), em 23.9.09.

terça-feira, outubro 06, 2009

UM APELIDADOR DIFERENTE



Em Canindé havia um rapaz chamado Wilson Monteiro. Sua grande paixão era o futebol. Torcedor do Flamengo. Chegou a formar um time de garotos. Algumas vezes reunia em torno dele, num banco da praça da Basílica, um grupo de meninos, entre eles eu, para falar de futebol. Houve uma noite em que ocupou o serviço de alto-falantes para assumir a função de um narrador esportivo (quem sabe se não era essa a sua vocação?). Tinha ocorrido no dia anterior uma partida de dois times de Canindé, esses de adultos. Ele narrou os gols, desde o início da jogada até à entrada da bola na rede.
Mas não quero destacar aqui o grande apaixonado pelo futebol, mas o seu talento especial para colocar apelidos. Um apelidador diferente de todos que conhecemos. No apelidar, não usava o recurso de se valer de um defeito físico da pessoa, de um hábito, uma mania esquisitos que ela tivesse, ou ainda um tique nervoso. Essas formas perversas que provocam a ira dos apelidados, como se a eles não bastasse o estigma de ter uma anomalia, principalmente no corpo.
O método de Wilson Monteiro era o de alterar o nome da pessoa, identificando-o com o de outra pessoa famosa ou prestigiada. Assim. Edmundo Soares (de quem já falei aqui uma vez) era por ele chamado de Macedo, por causa de uma figura de projeção nacional, o Edmundo Macedo Soares. Um meu companheiro de infância, Batista, era o Luzardo, numa analogia com o político e embaixador gaúcho Batista Luzardo. Já o meu irmão Haroldo foi apelidado de Juaçaba, nesse caso a fonte foi um muito conceituado médico de Fortaleza, Haroldo Juaçaba, que faleceu recentemente aos 90 anos.
E por aí ia. Mas ele não punha apelido em todo mundo. Aliás, não era muito grande o número de apelidados. Talvez ele não o fizesse por uma falta de intimidade com a pessoa. E também houvesse dificuldade para conseguir essa conciliação de nomes.
Outro irmão meu tinha um apelido, mas não me lembro qual era. Já eu "escapei", talvez por ele não saber que não me chamo apenas Francisco, mas Francisco de Paula. O nome de um santo italiano, o mesmo do presidente da República Rodrigues Alves. Não teria sido apelidado de Rodrigues Alves? Ou Rodrigues?
Wilson Magalhães Monteiro - grande figura.

terça-feira, setembro 29, 2009

NO TEMPO DAS DILIGÊNCIAS, 70

Realizado em 1939, "No Tempo das Diligências" ("Stagecoach) está completando 70 anos neste 2009. Para assinalar a data, divulgo aqui, com algumas alterações, um artigo que publiquei no Diário de Natal na década de 1990, quando o filme foi lançado em VHS. Ei-lo.
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À época do surgimento de "No Tempo das Diligências", o "western" já estava com 36 anos. Adulto na idade cronológica, não o era na idade intelectual e artística. Até então, os exemplares do gênero, ou se enquadravam na categoria de produções modestas, servindo de veículo para os caubóis populares da época (Tom Mix, Buck Jones, Hopalong Cassidy, entre outros), ou na de produções caras, como "Aliança de Aço", de Cecil B. De Mille. O filme de Ford, apesar de este já ser um nome respeitado em Hollywood, com um Oscar na bagagem, não tinha um alto orçamento, nem uma única estrela no elenco (John Wayne era um ator pouco menos que obscuro, e sua escolha para o principal papel masculino, dizem, foi uma conquista que Ford obteve depois de uma luta árdua com o produtor Walter Wanger), e apresentava uma proposta temática não convencional. Sim, é verdade que, como observa J.L. Rieupeyrout em seu "O Western, ou o Cinema Americana por Excelência", o filme "respeitava todos os elementos consagrados pelo uso, conservando os tiroteios e as galopadas, e, em suma todos os temas dramáticos do gênero", mas, por outro lado, o autor ressaltava, "enriquecia-os com um conteúdo moral, social e psicológico que, sem desnaturá-los, lhes confere uma dignidade intelectual e artística, com a qual até então o "western" não se preocupava.
"No Tempo das Diligências", de fato, à medida que procedia ao desnudamento dos passageiros de uma viagem de diligências, representando diversas categorias sociais (que sofrem um ataque de índis, o qual propicia uma sequência que entraria para a antologia das maiores do cinema), tocava em questões, como o farisaísmo, a discriminação social, a dignidade humana e profissional de pessoas postas na marginalidade.
O roteiro de Dudley Nichols e Ben Hecht (este não creditado) inspirou-se no conto (ou novela?) "Bola de Sebo", de Maupassant. Essa identificação com a obra do escritor francês torna-se acentuada na importância que é dada à figura da prostituta Dallas (Claire Trevor). É o personagem principal. Ela acaba revestida de uma dimensão humana, que a coloca em posição superior às beatas que a expulsaram da cidade e à jovem esposa do oficial de Exército, que lhe torcera o nariz empinado durante a viagem. E não por acaso, a afinidade que se estabelece entre ela e Ringo Kid (Wayne) é originada por ele ser também um pária social, já que é um pistoleiro que acabara de cumprir pena na prisão. A segregação que sofrem dos demais passageiros, com exceção do médico alcoólatra (na primeira parada da diligência, ficam separados dos outros durante a refeição), os conduz a essa afinidade que evolui para o amor.
Essa simpatia, essa generosidade por pessoas ou etinias postas à margem do Sistema é um dos temas caros a John Ford. Recorde-se, a propósito, que foi ele o primeiro diretor a dar voz ativa ao índio em "Fort Apache", isso em 1948.
Outro tema sempre presente em sua obra é a amizade. Em "No Tempo das Diligências", esse sentimento, que Jorge Luis Borges definiu como uma das formas assumidas pelo amor, aflora entre o médico (Thomas Mitchell, por sinal, ganhador do Oscar pelo papel, juntamente com Claire Trevor) e o xerife (George Bancroft). E a imagem final, com os dois caminhando em direção ao bar, leva-nos a pensar se não inspirou a que encerra "Casablanca", em que aparecem, também andando juntos, Humphrey Bogart e Claude Rains.
"No Tempo das Diligências", pois, mantém-se ainda hoje de pé por suas diversas qualidades , ao mesmo tempo que se firma, cada vez mais, como desbravador de uma trilha temática pela qual transitaram inúmeros "westerns" que o sucederam, ajudando o gênero a adquirir o status artístico.

terça-feira, setembro 22, 2009

ISADORA, CARMEM E MARILYN VISTAS POR EDUARDO GALEANO

Foto in Google

ISADORA

Descalça, despida, envolvida apenas pela bandeira argentina, Isadora Duncan dança o hino nacional.

Comete esta ousadia numa noite de 1916, num café de estudantes em Buenos Aires, e na manhã seguinte todo mundo sabe: o empresário rompe o contrato, as boas famílias devolvem suas entradas ao Teatro Colón e a imprensa exige a expulsão imediata desta pecadora norte-americana que veio à Argentina para macular os símbolos pátrios.

Isadora não entende nada. Nenhum francês protestou quando ela dançou A Marselhesa com um xale vermelho como traje completo. Se é possível dançar uma emoção, se é possível dançar uma ideia, por que não se pode dançar um hino?

A liberdade ofende. Mulher de olhos brilhantes, Isadora é inimiga declarada da escola, do matrimônio, da dança clássica e de tudo aquilo que engaiole o vento. Ela dança porque dançando goza, e dança o que quer, quando quer e como quer, e as orquestras se calam frente à música que nasce de seu corpo.

CARMEM

Toda brilhosa de lantejoulas e colares, coroada por uma torre de bananas, Carmem Miranda ondula sobre um fundo de paisagem tropical de cartolina.

Nascida em Portugal, filha de um fígaro pobretão que atravessou o mar, Carmem é hoje em dia o principal produto de exportação do Brasil. O café vem depois.

Esta baixinha safada tem pouca voz, e a pouca voz que tem desafina, mas ela canta com as cadeiras e as mãos e com o piscar dos olhos, e com isso tem de sobra. É a mais bem paga de Hollywood; possui dez casas e oito poços de petróleo.

Mas a empresa Fox se nega a renovar seu contrato. O senador Joseph MacCarty denunciou-a como obscena, porque durante uma filmagem, em plena dança,um fotógrafo delatou intoleráveis nudezas debaixo de sua saia voadora. E a imprensa revelou que já em sua mais tenra infância Carmem tinha recitado para o rei Alberto da Bélgica, acompanhando os versos com descarados gestos e olhares que provocaram escândalo nas freiras e uma prolongada insônia no monarca.

MARILYN

Como Rita, esta moça foi corrigida. Tinha pálpebras gordas e papada, nariz de ponta redonda e dentes demasiados: Hollywood cortou a gordura, suprimiu cartilagens, limou seus dentes e transformou seus cabelos castanhos e bobos numa maré de ouro fulgurante. Depois os técnicos a batizaram de Marilyn Monroe e lhe inventaram uma patética história de infância para que ela contasse aos jornalistas.

A nova Vênus fabricada em Hollywood já não precisa se meter em cama alheia para conseguir contratos para papéis de segunda em filmes de terceira. Já não vive de salsichas e café, nem passa frio no inverno. Agora é uma estrela, ou seja: uma pessoinha disfarçada que gostaria de recordar, mas não consegue, certo momento em que simplesmente quis ser salva da solidão.

- Textos do livro "Mulheres" (L&PM POCKET/2009, tradução de Eric Nepomuceno).


terça-feira, setembro 15, 2009

NOMES



Quando ela disse que se chamava Meiriely (com ípsilon no final, fez questão de frisar), um risinho de mofa, impossível de ser contido, assomou aos lábios dele. Essas donas nunca dizem o nome verdadeiro, pensou. Mas além de não acreditar que a mulher tinha esse nome, achou-o tão incomum, exótico até, que ficou curioso. Por que se chama assim? Hi, todo mundo pergunta isso. A mamãe diz que viu num livro. Sua mãe gosta de ler? Virgem Maria! Aquela ali parece que nasceu com um livro nas mãos. Ele ficou matutando em qual livro a mãe dela tinha visto aquele nome. Tinha a mania pelos nomes próprios inusitados, que só eram dados a uma pessoa. Não poderia existir outra mulher com o nome de Meiriely, ou que viesse a existir. E você, qual é o seu nome? Ah, o meu nome é tão usado, que é capaz de você adivinhar. Ela pensou um instante e disse José? Tá vendo como é fácil de saber? Mas como você é chamado? Zequinha. Mas podia ser Zezinho, Zeca, Zé, e até Juca (tem alguns Josés que são chamados de Juca). Mas nem a sua família lhe chama de José (ela estava ficando curiosa)? Só os meus pais. E você? Todo mundo lhe chama de Meiriely? Positivo. Ele sorriu, ela perguntou por quê. Não é nada com você. É que me lembrei de uma namorada que tive. Devia ser um nome muito engraçado. Ele voltou a sorrir. Sabe como ela se chamava? Sim? Primitiva. Primitiva? e soltou uma risada que chamou a atenção de algumas pessoas sentadas próximas à mesa deles. Primitiva, ela repetiu e riu, mas dessa vez com comedimento. Francamente! Era pelo menos bonita? O pior é que não era. E por que, Zequinha, você foi justo namorar essa Primitiva? Sei lá. Mas era boa gente. Até fiquei com pena quando terminei com ela, ela chorou. Bem, com um nome desse, o que você tinha mesmo era que terminar o namoro. Mas era boa gente, tão boa gente que ficou minha amiga. Ah, bom. E você? Nunca namorou um cara com um nome assim? Nunca. Ele interrompeu de repente a conversa, para pedir outra cerveja. Enquanto isso, ela ficou pensativa, como se estivesse querendo se lembrar de algum homem de nome estranho que passara pela sua vida. Mas não disse nada. Ele voltou à conversa e perguntou se podia chamá-la só de Meiri. Se você quer assim, que assim seja, mas não ia gostar. Ele sorriu, tá bem, que seja Meiriely. E eu fico lhe chamando de José, tá bem? Você que sabe. Se quiser pode ser Zequinha, como você me chamou há pouco, eu já não me importo mais, mas olhe, vamos virar o disco. Virar o disco? Mudar de assunto, esse papo já tá pra lá de Marrakesh, como diz aquela música do Caetano. Puxa, essa expressão deve ser do tempo da minha mãe. Eu sou do tempo da sua mãe.
Despertou com o ronco dela. Estava de costas para ele. O lençol não cobria todo o seu corpo e uma parte da bunda estava exposta. Uma bunda bonita, ele já a tinha visto inteira, antes mesmo de irem para a cama, quando ela se despira na frente dele. Ficou algum tempo olhando praquele lado, em certo momento tentou, com cuidados para não acordá-la, afastar mais o lençol, mas não conseguiu. Um pensamento lhe veio de repente. Levantou-se silenciosamente, com passos de lã foi até onde ela deixara a roupa e a bolsa. Remexeu na bosa, até encontrar a carteira. Achou o RG e pôs os olhos no nome dela. Tomou um susto: ela se chamava mesmo Meiriely. Não era, então, um nome de guerra, como as outras faziam. Foi para o banheiro.
Ela acordou, olhou para o lado e não o viu. Logo ouviu o ruído da água do chuveiro. Espreguiçou-se e, tão de repente como ocorrera com ele, veio-lhe o mesmo pensamento. Levantou-se, também nua, apesar da temperatura do ar condicionado. Foi também para o local onde ele depositara a roupa. Quando olhou a carteira de identidade dele, teve vontade de explodir numa gargalhada. Mas riu baixinho, para não ser ouvida. Voltou para a cama e ficou na mesma posição em que ele a vira. Mas não recuperou o sono. Ficou pensando no nome dele e rindo baixinho, enquanto repetia o nome Meirelaz.

terça-feira, setembro 08, 2009

DÚVIDA (Doubt/2008)


O mérito maior desse filme é não se posicionar a respeito do relacionamento entre o padre Brendan Flynn (Philip Seymour Hoffman) e o garoto negro Donald Miller (Joseph Foster), tendo por cenário uma escola católica no bairro Bronx, em Nova York, em 1964, pertencente a uma paróquia pela qual o padre é o responsável. Houve mesmo uma relação anormal entre eles, como suspeita a Jovem Irmã James (Amy Adams), professora do garoto, que transmite a suspeita à Irmã Aloysius (Meryl Streep), a diretora? Ou se tratou apenas de uma afeição natural do padre pelo garoto, originada pela intenção do padre de protegê-lo da discriminação dos seus colegas de cor branca? Fica a suspeita, que, no caso da despótica Irmã Aloysius, evolui para a quase certeza de que o padre Flynn seduziu o aluno, e se empenha, com sucesso, em fazer com que ele se transfira para outra paróquia.
Estamos diante de um filme em que ao espectador é dada a incumbência de decidir pela anormalidade, ou não, daquela relação. O que o filme faz é fornecer alguns elementos que deem ou não a certeza de que a conduta do pároco é a que ele defende, com veemência, no confronto com a diretora. Exemplos. Ele se mostra orgulhoso de ter as mãos sempre limpas, mostrando-as para os alunos e exigindo de um deles que lhe siga o exemplo - e nessa atitude não estaria simbolizada a intenção do padre de se limpar de uma "sujeira", que seria a relação com Donald? Sujeira que se encontra numa peça de vestuário de Donald, que o padre Flynn deposita no armário destinado ao garoto, cena testemunhada pela Irmã James. E na conversa que têm a diretora e a Senhora Miller, esta revela a homossexualidade do filho, que, por isso, é maltratado pelo pai.
Por outro lado, na única vez em que os dois são vistos sozinhos é num momento de brincadeira do padre. Ele faz funcionar um brinquedo que mostra uma dançarina seminua em frente a um espelho e que executa a dança ao se mexer o brinquedo, o qual é dado ao menino. Na outra vez em que eles aparecem é quando Donald leva um esbarrão proposital de um garoto, desaba no chão, juntamente com o material escolar que conduzia e o brinquedo. O padre é o único presente a prestar-lhe ajuda, que é rematada com um abraço comovido no garoto.
A questão da dúvida é o tema do filme. Ainda que a dúvida se concentre na natureza daquela relação, há a intenção de torná-la mais abrangente. É sobre a dúvida o sermão do padre Flynn nos primeiros minutos do filme. E a Irmã Aloysius, como qualquer outra pessoa, não se torna imune a ela. Não apenas em relação à culpa do padre, mas outras dúvidas que, no final, diz ter à Irmã James, mas sem revelá-las. E ao não conseguir conter as lágrimas, opera-se uma humanização naquela mulher autoritária, ríspida, sarcástica. Uma cena que me fez lembrar o final de "La Strada", de Fellini, quando aquele bruto Zampanó chora ao ficar sabendo da morte de Gelsomina, a quem tanto maltratara e humilhara.
"A Dúvida" é adaptado da peça homônima de John Patrick Shanley, que é quem dirige o filme e também escreveu o roteiro. É apenas seu segundo filmes como diretor, num intervalo de 18 anos entre um e outro (sua estreia foi em "Joe Contra o Vulcão"/1990, com Tom Hanks). Direção eficiente, hábil (veja-se como ele evita que a referida cena final descambe para o sentimentalismo) ,delicada em certos momentos, em outros, intensa, como , por exemplo, no confronto entre a diretora e o padre, no qual é exibido um duelo de interpretação entre essa extraordinária Meryl Streep (um detalhe na sua composição do personagem é o tique que aparece no lábio superior da boca) e esse ótimo Philip Seymour Hoffman, que já provara o seu talento em "Capote".
Finalizando, um filme americano de qualidade, algo não comum de se ver hoje em dia no cinema produzido nos Estados Unidos.

terça-feira, setembro 01, 2009

TÍTULOS

Capa da primeira edição (Livraria
José Olímpio Editora/1957 ) .
in Google.

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Na década de 1970, ou 80, foi lançada uma peça teatral com um título curioso: "Se Porém Fosse Portanto". Não sei se a peça era boa, nem quem é o autor, mas fiquei interessado em vê-la unicamente por causa desse título. Naqueles anos chegavam a Natal muitas peças produzidas no Rio, a grande maioria de cunho comercial, como me parece ser o caso dessa, mas "Se Porém Fosse Portanto" não baixou por aqui e eu fiquei sem saber o porquê desse título.
Há peças, livros, filmes, etc. que, antes da qualidade que possam ter, atraem pela natureza do título. Estes podem chamar a atenção do leitor pelos mais diversos motivos. Até pela beleza. Um dos mais belos que conheço é o do romance "A Insustentável Leveza do Ser", de Milan Kundera, que, ao ser adaptado para o cinema, conservou na nossa língua o título original.
Falando em títulos curiosos, insólitos, extravagantes, me vêm à lembrança os dos livros do escritor mineiro, já falecido, Campos de Carvalho. Dos seus romances só li "A Lua Vem da Ásia", um título bizarro e que, aliás, não tem nenhuma ligação com a história narrada. Pelo menos, não tem o mau gosto de "Vaca de Nariz Sutil". (De repente, me lembro que conheço outro romance dele, um bonito título, a que não falta um certo tom poético: "A Chuva Imóvel".)
O também mineiro, que se radicou no Rio, Aníbal Machado (pai da teatróloga Maria Clara Machado) escreveu "Cadernos de João". Embora comum, não é um título feio, mas pode enganar o leitor, que será levado a pensar em um romance, cujo personagem principal se chama João.
Trata-se da reunião de reflexões, conceitos, visões de Aníbal sobre a vida, as artes, as pessoas, etc., apresentando, ainda, poemas em prosa e em verso e uns poucos contos, ele que foi um excelente contista.
Essa questão de títulos é rica , é apaixonante, e a pessoa pode explorá-la sob muitos aspectos. Ocorrem casos, por exemplo, em que o autor escolhe o título a partir de uma frase de um outro; casos em que o título de um livro é uma apropriação do de um outro, famoso, mas fazendo uma variação, como fez Cortázar, com o seu "A Volta ao Dia em Oitenta Mundos". Às vezes se dá que dois livros tenham o mesmo título, sem que os autores tenham copiado um ao outro. Este blogueiro já passou por essa experiência. Quando em 1995 publiquei a coletânea de contos "Grandes Amizades", fiquei sabendo que havia um livro de Raissa Maritain também assim chamado, com uma minúscula diferença de que no dela havia o acréscimo do artigo. Eu, sequer, ouvira falar dessa obra, mas fiquei um pouco preocupado por sentir que as pessoas, que me deram a informação, achavam que eu havia bebido na fonte da mulher de Jacques Maritain. Fiquei mais aliviado quando contei o caso a uma escritora amiga, que me disse num tom brincalhão: "Não se preocupe, Sobreira. Ela tinha as amizades dela, você tem as suas".

terça-feira, agosto 25, 2009

A SAMARITANA

"O Bom Samaritano" (1904), do pintor
inglês George Frederic Watts.
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Era uma mulher de vinte e poucos anos, de boa altura, morena clara, um rosto que, se não muito bonito, tinha os seus atrativos. O vestido era longo. Não sei se casada, não olhei para as mãos. Eu estava num supermercado mamando uma cervejinha, ela chegou, olhei pra ela, ela me olhou furtiva e rapidamente e não me cumprimentou. Sentou à mesa ao lado esquerdo da minha e pediu ao garçom um pastel e uma coca. Eu fiquei bebendo devagarinho, vez por outra lançava um olhar rápido para a mulher. Em todas as vezes encontrei-a com o olhar pousado a sua frente, mas como se nada visse a que prestar atenção. Como se olhasse sem ver.
Foi então que chegou o amigo com quem geralmente me encontro naquele supermercado, num determinado dia da semana. É um senhor que está se aproximando dos noventa, mas bem conservado e ainda muito lúcido. Uma amizade mais ou menos recente. Ele é escritor e um grande leitor, e as nossas conversas são mais centradas na literatura, especialmente em obras de autores já falecidos. Em uma pausa que sempre ocorre na conversa entre duas pessoas, olhei para a nossa vizinha, que já estava comendo um pastel grande. Antes dessa pausa observei que o amigo, sentado de frente pra mim e para a mulher, também, aqui, acolá, a olhava.
Retomamos o diálogo e com pouco ela terminou o lanche, pagou ao garçom e foi embora. Tão logo ela se afastou, ele interrompeu bruscamente o assunto que abordávamos e me surpreendeu com a afirmação de que a mulher estava com algum problema. Por que você acha isso, perguntei. Porque ela estava com uma expressão de tristeza. Eu disse, então, que ela chegara, nos olháramos rapidamente e ela virara o rosto sem um cumprimento formal, e da maneira como se comportara enquanto esperava pelo pastel e a coca. Ela está com algum problema, ele repetiu. Fez um pequenina pausa e acrescentou, se (disse o nome, que não guardei, de uma mulher) estivesse aqui, iria falar com aquela moça.
É uma conhecida sua de longa data. Quando ela está num local e vê alguém, homem, ou mulher, solitário e o percebe com uma expressão de preocupação, ou de tristeza, aproxima-se dele e pergunta se pode sentar à mesa. Se a pessoa lhe der a permissão, a mulher lhe esclarece que quis se juntar a ela, porque acha que ela está passando por algum problema e gostaria de ajudá-la. Dependendo da reação da pessoa, ela, ou volta para a sua mesa, ou fica ali conversando com a estranha, à busca de uma maneira de resolver, ou, pelo menos, minimizar, o problema que ela está vivendo.
O curioso é que essa mulher não é psicóloga, psiquiatra, psicanalista, nem pertence a nenhuma seita religiosa que tem como missão auxiliar as pessoas com problemas da alma. Ela é... uma musicista.

terça-feira, agosto 18, 2009

NOITES BRANCAS (Le Notti Bianche/1957)




"Noites Brancas", que foi exibido nos cinemas brasileiros com o título de "Um Rosto na Noite", marcou o rompimento em definitivo de Visconti com o neo-realismo. O filme foi rodado em um teatro localizado na Cinecittá, o que significava que o diretor infringia uma das normas do movimento, ou seja, a preferência pela filmagem externa. Em seguida, ele punha de lado os problemas sociais e políticos para, em lugar destes, enveredar pelo universo intimista de um homem e uma mulher. Visconti foi se inspirar em Dostoiewski, no seu conto "Noites Brancas", para narrar uma história de um triângulo amorososo entre Natalia (Maria Schell), Mario (Marcello Mastroianni) e o anônimo forasteiro interpretado por Jean Marais. Como geralmente ocorre na adaptação para o cinema de obras literárias, o cineasta (autor do roteiro, em parceria com Suso Cecchio D'Amico) fez algumas modificações do original, entre elas a de espaço e tempo: a história é passada numa pequena cidade da Itália, na segunda metade dos anos 1950. Mas essas modificações e as liberdades tomadas por Visconti não traem o tema e o propósito do conto do escritor russo. Ao contrário, o diretor soube preservar a natureza humana e existencial de dois seres solitários, à procura do sonho, do ideal de um grande amor. Mario (no conto, o seu personagem, como o do forasteiro, não tem o nome revelado e é quem faz a narrativa) chega, perto do final, a se convencer de que conquistou, naqueles três ou quatro encontros noturnos que tiveram, o coração de Natalia, quando ela julga que foi enganada pelo homem que ama, que lhe prometera voltar à cidade no prazo de um ano; no local determinado, ao qual ela vai no dia em que se completa o prazo e ele não aparece.
Tal como no conto, o filme prioriza a relação entre Mario e Natalia. Com uma participação relativamente curta, o forasteiro aparece quando Natalia conta como o conheceu (na condição de inquilino da sua avó) e aflorou o amor entre os dois, e no final, quando, finalmente, ele retorna como lhe prometera. E aí fica a impressão de que, só por uma questão de despeito, ou de vingança, Natalia deixa Maria com a ilusão de que o ama, quando, na verdade, lhe oferece apenas a amizade.
Mostrando a diferença entre a literatura e o cinema, o final do filme é superior ao do conto, embora os elementos que o compõem sejam os mesmos. Há um grito de extravazamento da alegria de Natalia, que, de imediato, corre para os braços do amado que avista parado sobre a ponte; há o olhar desolado de Mario ao ver a cena e o sobretudo preto salpicado de flocos de neve que lhe emprestara ("o seu vestido de noiva", ele dissera momentos antes) atirado no chão; e até as palavras, com uma ou outra alteração, que um diz ao outro: Natalia volta e pede que a perdoe, mas que sempre amara o outro, e ele, mesmo arrasado, retruca que ela é abençoada pelo minuto de felicidade que proporcionara ao seu coração solitário e acrescenta "não é pouco para a vida inteira de um homem".
Na concepção e realização desse filme que pode ser considerado como um divisor de águas em sua obra, Visconti pôde cercar-se de colaboradores excepcionais, além da roteirista Suso Cechio D'Amico. O cenógrafo Mario Garbuglia que recriou parcialmente uma Livorno que desse a impressão de um certo irrealismo, próximo do sonho, que convinha ao perfil psicológico e existencial daquele casal solitário. O diretor de fotografia Giuseppe Rotunno, que complementa bem esse clima de irrealidade, o compositor Nino Rota, que, anos depois, se tornaria uma presença assídua nos filmes de Fellini. E há a atuação de Marcello Mastroianni e Maria Schell, principalmente esta, que, em alguns momentos, com o seu rosto alvo, a expressão suave e meiga, às vezes, soltando uma risada de adolescente, dá um toque angelical ao seu personagem, contrastando com a figura da prostituta - um personagem criado pelos roteiristas e vivido por Clara Calamai, protagonista do filme de estreia do diretor, "Ossessione" (1942), considerado o marco inicial do neo-realismo.
Enfim, "Noites Brancas" é um dos grandes filmes de Visconti, que, não sei por que, não é valorizado como deveria. Já o vi qualificado de apenas "interessante". E no "Dicionário de Cinema - Os Cineastas", de Jean Tulard, não há sequer uma linha sobre ele.

terça-feira, agosto 11, 2009

3 POEMAS DE NAPOLEÃO DE PAIVA SOUSA

BANANA

emerge da casca

em riste.

como coxa, ora falo, dá-se

acetinada

à língua

a lábios

a tudo

que como ela julgue

de cetim ou mucosa.

despreza antes

as vestes enxovalhadas

no canto da mesa

ou cama.

A PALAVRA

"As coisas são seu nome"

Octávio Paz

dor se se chamasse amor

objeto de desejo seria

e até nome de flor.

pedra se se quisesse nuvem

faria chuva, vento, tudo

que só a leveza flui.

a língua, a sílaba

a palavra, a letra

- se pura ficção -

muito bem usam

a cangalha da sujeição.

a submissão é quanta que

quando se diz tamarina

a boca se faz moringa

ou tanta,

ela se foi embora

a lágrima ligeiro aflora.

MEU PAI FRIO

não consegui contudo

passados quase seis anos

dessentir o frio

inominável

que a sua testa de morto

pregou

nos meus lábios.

- Napoleão de Paiva Sousa é norte-rio-grandense de Alexandria. É também compositor, e, de profissão, médico pediatra. Estes poemas fazem parte do seu primeiro livro "Apenas Chegaram", de 1999. Publicou um segundo livro de poesias, "Depois Comigo", escrito em um celular, do qual já publiquei 3 poemas neste espaço. Ambos os livros me foram gentilmente dados pelo autor.








terça-feira, agosto 04, 2009

ALGUNS PERSONAGENS INESQUECÍVEIS DO CINEMA

Personagem/Atriz em grand finale: "Crepúsculo dos Deuses"

- Carlitos

- Hulot/Jacques Tati

- O casamenteiro/Barry Fitzgerald de "Depois do Vendaval" (John Ford)

- Gelsomina/Giulieta Masina de "A Estrada da Vida" (Federico Fellini)

- Norma Desmond/Gloria Swanson de "Crepúsculo dos Deuses" (Billy Wilder)

- O personagem-título/Maisim Munzuk de "Dersu Uzala" (Akira Kurosawa)

- O projecionista Alfredo/Philippe Noiret de "Cinema Paradiso" (Giuseppe Tornatore)

- O avô/Lionel Barrymore daquela família "louca" de "Do Mundo Nada Se Leva" (Frank Capra)

- O boxeador Stoker/Robert Ryan de "Punhos de Campeão" (Robert Wise)

- A velhinha/Katie Johnson de "Quinteto da Morte" (Alexander Mackendrick)

- O professor Sinigaglia/Marcello Mastroianni de "Os Companheiros" (Mario Monicelli)

- Alvin Straight/Richard Farnsworth de "História Real" (David Lynch)

- O viúvo e aposentado Afonso/Jofre Soares de "Chuvas de Verão" (Carlos "Cacá" Diegues)


terça-feira, julho 28, 2009

DIA DE CHUVA


Foto em ultrafolet.blogspot.com/

Há uma meia hora parara de chover, mas ele sabia que era apenas uma pequena trégua dada pela chuva, não demoraria muito tempo para ela voltar. Assim vinha sendo desde o início do dia. Levantou-se da cama, foi ao banheiro, urinou pouco, depois abriu a torneira. O contato da água com o rosto e as mãos o fez sentir mais frio. Ao voltar ao quarto observou, por um instante, as gotas da chuva congeladas no vidro da janela. Foi até lá. Pôs-se a olhar para a rua quase deserta naquela tarde que começava a escurecer. Um ou outro transeunte passava apressado, protegido por um casaco, o guarda-chuva preso no braço. Um ou outro carro, às vezes um ônibus, trafegava lentamente por entre as poças dágua. Dia horrível, pensou. Deixou a janela, sentou na cadeira de balanço e ligou a televisão. No canal passava um filme que já vira. Demorou-se uns cinco minutos, até a atriz , de que gostava (e, praticamente, o único atrativo que o fizera ver aquele filme anos atrás) desaparecer de cena. Outro canal apresentava um desses programas bobos e vulgares de variedades, mudou outra vez, havia um jogo de futebol. Os times não eram bons, ficou ainda menos tempo do que no canal do filme. Desligou a televisão. Pensou em ouvir música, mas logo desistiu da ideia. Permaneceu ali sentado, olhando sem interesse para a janela. Como previsto, a chuva voltava. O telefone tocou. Não havia mais ninguém em casa, mas não foi atender. O telefone parou, logo em seguida voltou a tocar. Ali preso à cadeira, vendo a chuva, que voltara intensa, molhar a janela, deixou-o dar as sete chamadas. Tinha certeza de que a pessoa iria tentar uma terceira vez e não deu outra. Ela liga e eu não atendo, disse com um arremedo de sorriso - quase uma careta. A pessoa desistiu. Levantou-se, dirigiu-se à cozinha, tomou meio copo dágua gelada que irritou levemente a garganta. A garrafa de café sobre a mesa. Tomou uns dois dedos de café, acendeu um cigarro e deu uma longa tragada. Sentiu algum prazer com a tragada. A chuva parecia ter aumentado de intensidade e, de repente, um raio clareou a cozinha. Afastou-se em direção ao combogó da área de serviço. As luzes dos postes da rua em frente já estavam acesas e através delas observou a chuva derramar-se sobre o calçamento. Terminou de fumar, jogou o cigarro no chão e o apagou com a sola da chinela. Retornava para o quarto quando o telefone tocou mais uma vez. Passou como um raio pelo telefone, como se este fosse um bicho repelente. Dessa vez deitou na cama. E ficou ouvindo o barulho do telefone, até a última chamada. Se for a mesma pessoa, não vai mais ligar, disse para si mesmo. Devia ser, pois o aparelho emudeceu. E ali na cama, o barulho que ouvia era o da chuva. Persistente, enervante. O apartamento mergulhou na escuridão. Como se a água da chuva tivesse invadido a janela e caído sobre os seus olhos, começou a chorar.


terça-feira, julho 21, 2009

UM POEMA PARA A ASPIRINA

O poeta João Cabral de Melo Neto (1920-1999) padeceu a maior parte de sua vida (desde os 16 anos, segundo Joel Silveira no livro "A Milésima Segunda Noite da Avenida Paulista", Companhia das Letras/2003) de uma dor de cabeça diária. Um mal de causa jamais diagnosticada nos inúmeros e minuciosos exames feitos por Cabral, conforme ele revelou a Joel em uma entrevista de 1971. "Minha cabeça e partes vizinhas, incluindo a garganta, já foram fotografadas de todos os ângulos e esmiuçadas nos mínimos detalhes. Mas a dorzinha continua a resistir bravamente e a esconder dos médicos os motivos por que dói. E por que dói? Minha opinião é que se trata de uma dorzinha de fundo neurótico". O jornalista, no entanto, se apressa a desmentir que o poeta seja um neurótico, pois "quem conversa com João Cabral não distingue nada que lembre um neurótico. A fala é mansa, os gestos parcos, a atenção total ao que lhe dizem".
Para combater a "dorzinha", Cabral converteu-se em um consumidor persistente da aspirina. Por anos a fio ingeriu diariamente um comprimido de hora em hora do medicamento. Já em 1971 a ingestão do analgésico diminuira para um comprimido de 4 em 4 horas. É de admirar que o poeta tenha vivido até quase os 80 anos, levando em conta os efeitos colaterais e as reações adversas no seu organismo que o remédio devia causar. E essa convivência diária e por longos anos com a aspirina, como se fosse ela uma mulher que lhe minorasse a dor da alma, fez com que Cabral escrevesse um poema sobre a aspirina - uma espécie de homenagem ao medicamento. O poema chama-se "Num Monumento à Aspirina" e integra o livro "A Educação pela Pedra", publicado pela Editora do Autor em 1966, que transcrevo a seguir.
* * * * * * * * * * * *
Num Monumento à Aspirina.
Claramente: o mais prático dos sóis,
o sol de um comprimido de aspirina:
de emprego fácil, portátil e barato,
compacto de sol na lápide sucinta.
Principalmente porque, sol artificial,
que nada limita a funcionar de dia,
que a noite não expulsa, cada noite,
sol imune às leis de meteorologia,
a toda hora em que se necessita dele
levanta e vem (sempre num claro dia):
acende, para secar a aniagem da alma,
quará-la, em linhos de um meio-dia.
*
Convergem: a aparência e os efeitos
da lente do comprimido de aspirina:
o acabamento esmerado desse cristal,
polido a esmeril e repolido a lima,
prefigura o clima onde ele faz viver
e o cartesiano de tudo nesse clima.
De outro lado, porque lente interna,
de uso interno, por detrás da retina,
não serve exclusivamente para o olho
a lente, ou o comprimido de aspirina:
ela reenfoca, para o corpo inteiro,
o borroso de ao redor, e o reafina.


terça-feira, julho 14, 2009

TIPOS POPULARES

Velho Guitarrista Cego
Óleo sobre madeira
Picasso (1903)
* * * * * * * * * * * *
Em toda cidade existem aquelas figuras que fazem o divertimento das crianças mais velhas e dos adultos movidos pela maldade. São, em geral, vindas das classes baixas, e o motivo que as as fazem vítimas dos outros é quase sempre um apelido que carregam desde a infância e com o qual nunca se conformaram. Mas entre esses pobres coitados há aqueles em que o móvel da brincadeira não é o apelido. É que em tais indivíduos há algo anormal, que se percebe num instante que eles não giram bem, e esse componente dá azo às brincadeiras que sofrem.
Nos meus primeiros anos em Natal conheci um desses tipos. A natureza não o favorecera. Pequenino, um tanto gordo, zarolho, e, para completar, carregava uma corcunda, quase como a do Quasímodo do Victor Hugo. O seu problema era com relação ao dia da semana. Assim: digamos que fosse uma segunda-feira. Quando ele passava, alguém às suas costas dizia, hoje é terça. Ele parava, se virava e dizia, na voz fanhosa, ora terça, hoje é segunda. Se o malvado insistisse que era terça, ele também insistia que era segunda, que terça seria no dia seguinte. Se a pessoa dissesse que era domingo, o coitado replicava na bucha, ora domingo, domingo foi ontem, hoje é segunda. Ele continuava a caminhada e mais adiante lá vinha outro para alterar o dia da semana e o coitado a dizer o dia correto.
Voltando ao apelido. Em Natal havia o Garapa, que não cheguei a conhecer, mas ouvi falar dele. Esse era agressivo, se o brincalhão não fugisse ou se escondesse, era certo levar uma bordoada de um pedaço de pau que ele portava. Houve uma vez em que vinham dois rapazes e, de repente, deram de cara com o Garapa. Eram dos que mexiam com o pobre homem, mas às suas costas, escondidos. Mas daquela vez ficaram os três frente a frente. Então, ao passarem pelo Garapa, um disse "água" e o outro acrescentou "açúcar". Apressaram o passo, mas Garapa os alcançou e então disse, brandindo o pedaço de pau: "Misturem, felas da puta. Misturem que eu quero ver".
Já cego Raimundo não tinha apelido, nem era alvo de brincadeiras, além de ser estimado pelas pessoas. Aparecia toda tarde no banco onde eu trabalhava e lá demorava um bocado de tempo. Vivia de vender bilhetes de loteria, mas dos funcionários poucos os compravam, preferiam lhe dar um dinheirinho. Media em torno de 1,50m, usava um chapeuzinho e não tinha guia. Poucas pessoas conheci tão alegres, tão bem humoradas, tão brincalhonas. Sua risada cheia, ruidosa, era a de alguém que vivia a melhor das vidas. Brincava com a própria deficiência visual. Quando lhe perguntavam se conhecia alguém, ele respondia "de vista". No passado fizera parte de um conjunto musical composto só de cegos. Tocava gaita. Uma gaita bonita que um colega meu lhe trouxera de uma viagem ao exterior. Por sinal, que uma das maiores emoções que senti na vida foi um dia em que indo a uma seção resolver um assunto, encontrei-o executando "Barril de Chope". Ao final, todos os presentes o aplaudiram.
Morreu aí pelo início dos anos 1980. Já deixara de aparecer no banco, pois a nova direção da agência proibira a presença de pessoas que nao fossem lá a não ser para negócios. Mas antes de morrer, cheguei a vê-lo algumas vezes andando ligeirinho, com o toquetoque da bengala. Falava com ele, que há muito tempo me reconhecia pela voz. E sempre eu saía satisfeito do nosso encontro.
Ah, sim, gostava de uma caninha e chegava ao banco já com algumas na cabeça.

terça-feira, julho 07, 2009

O CÉU DE SUELY (2006)



Se o vermelho é a cor predominante em "Gritos e Sussurros", de Bergman, neste filme de Karim Ainouz ("Madame Satã") é o azul em diversos matizes. Além do céu de Iguatu, cidade do interior do Ceará, a cor está presente nas paredes da casa da avó de Hermila/Suely (Hermila Guedes), em sua sacola, em uma peça de vestuário, na cabine de telefone público, em um brinquedo da criança. De um azul que parece pintado, expondo, às vezes, uma limpidez manchada por umas poucas nuvens (aplausos para a expressivamente bela fotografia de Walter Carvalho), uma forte claridade, o céu é uma presença constante no filme, primeiro como consequência de um fator climático, depois como se fosse um elemento de aproximação com o "céu" a que Suely aspira alcançar.

E que "céu" é esse? É a mudança para outro lugar, dessa vez em definitivo, no qual ela acredita em uma vida melhor. Deixara Iguatu com o namorado Mateus para morarem temporariamente em São Paulo e retornarem com uma situação financeira decente. Ela regressa com o filho pequeno, ficando à espera do namorado, que viria um mês depois para estabelecer um comércio de gravação de cd e dvd. Mas Mateus nunca irá voltar e aí começa a batalha de Hermila para conseguir o dinheiro necessário para atingir o seu objetivo.

Com o pulso forte do diretor, servido por um bem elaborado roteiro (do qual ele participa com mais dois roteiristas), o filme descreve essa batalha de Hermila, começando com a venda de bilhetes para uma fictícia rifa de um uísque, até ela própria ser o objeto da rifa, quando conhece Georgina (Georgina Castro), uma garota de programa. Tornam-se amigas e Hermila, que, antes, mantinha uma relação com o mototaxista João (João Miguel), segue os passos de Georgina, adotando o nome de Suely. Um dos muitos momentos bons de "O Céu de Suely" é o diálogo entre elas, quando Hermila indaga Georgina a respeito dos seus rendimentos. E aí observa-se a naturalidade das falas entre duas prostitutas (uma já iniciada, a outra por iniciar-se naquele tipo de profissão), que só podem chocar às pessoas de ouvidos puritanos. (Há, contudo, uma diferença entre as duas. Georgina é alegre, expansiva, chegada a um copo, e, que, se não chega a gostar da vida que leva, parece resignada a ela; enquanto Hermila, já como Suely, tem uma expansividade e uma alegria que não são naturais, mas impostas pela profissão.)

À menção desse diálogo, vale destacar que a maneira de falar dos atores de "O Céu de Suely" não contém a falsificação, resultante de um certo exagero e até alguma afetação, que se observa nas telenovelas que mostram personagens do Nordeste. Aqui o "nordestinês" é legítimo e isso se deve ao fato de o diretor e os intérpretes serem originários da região.

"O Céu de Suely" é um filme de muitas qualidades e, aparentemente, sem defeitos. As qualidades avultam até no fato de os personagens terem o mesmo prenome dos intérpretes, um recurso que o diretor utilizou pouco antes de começarem as filmagens, modificando o nome dos personagens já com o roteiro concluído, conforme se fica sabendo através dos depoimentos nos "Extras" do disco. À primeira vista, parece ser um mero detalhe, sem importância. Mas examinando-o melhor, tem, sim, a sua importância. Como diz um dos intérpretes (acho que João Miguel), essa irmanação dos nomes do ator e do personagem dá ao primeiro uma condição de intimidade com o segundo, de conhecê-lo melhor, e, assim, tornar mais produtiva a atuação.

O final apresenta um achado que faz manter a qualidade do filme - se não a elevar. Já no ônibus que a está levando de Iguatu, Hermila, com a expressão pensativa, relembra momentos de sua permanência na cidade. O ônibus é seguido por João, que, em dado momento, se emparelha ao veículo - ele e ela cruzam os olhares - depois volta a acompanhá-lo. Quando o ônibus e João desaparecem de vista, a câmera se fixa um minuto, um pouco mais, no letreiro exposto no semi-arco que se ergue na entrada e saída da cidade: "AQUI COMEÇA A SAUDADE DE IGUATU". A frase de apelo turistico pode também refletir um dilema no íntimo de Hermila, que está abandonando o torrão natal, o filho, a avó, a tia solteirona, a amiga. E, em consequência desse dilema, o espectador é tomado pela expectativa de se Hermila continua a viagem, ou se retorna à cidade com o mototaxista. Decorrido esse tempo, a expectativa é satisfeita.

E aqui eu paro. A fim de não entregar o desfecho desse belo "O Céu de Suely" àqueles que ainda não o viram.

terça-feira, junho 30, 2009

A V I S O


O editor vai passar uns dias ausente de Natal. Assim, este blogue só será atualizado no próximo dia 7 de julho. Se Deus não mandar o contrário, como dizia um colega de profissão. Até lá. Uma excelente semana para todos que por aqui passam.

domingo, junho 21, 2009

RAPIDINHAS (EPA!)


A atriz Jane Duprez no papel da Princesa no
filme "O Ladrão de Bagdá" (1940), dirigido
por Michael Powell e outros.
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- Das 3 chamadas virtudes teologais, a Fé eu já perdi, a Esperança há tempos morreu, restou a Caridade: uma cidade vizinha à minha Canindé.
- É prudente não acreditar muito nos ditos populares. Um conhecido meu enviuvou com poucos anos de casado. E a esposa se chamava Esperança.
- "Amo as mulheres, mas não as admiro", diz o personagem-título de "Monsieur Verdoux" (Chaplin/1947). Seria a opinião do genial criador de Carlitos?
- Sujeito educado estava ali. Toda vez que se deitava com um parceiro, desculpava-se por ter que lhe virar as costas.
- Tivesse eu o talento de Manoel Bandeira, dançava um tango argentino com a Penélope Cruz; como não tenho o talento de Manoel Bandeira, o jeito é dançar "Pisa na Fulô" com a Ideli Salvati.
- Resposta de Bob Hope a um jornalista que lhe perguntou a idade: "Estou numa idade em que as velas custam bem mais caro do que o bolo".
- Se a ameaça de Sarney de largar a política for de vera, não é bom soltar tanto foguete. Aí ele vai ter tempo de sobra para se dedicar à literatura.
- Sinto saudade daquele tempo em que Bagdá era apenas uma cidade que atraía pelo exotismo do nome e onde vivia uma linda princesa morena que roubara o olhar de Nelson Gonçalves. (*)
- No último dia 12 foi feito um serviço de dedetização e de desratização na biblioteca do Senado. Mas por que só na biblioteca?
- De Joel Silveira, no livro "A Camisa do Senador" (Mauad/2000): "Me dizia o velho sertanejo da margem do São Francisco, já chegando aos noventa anos: - A gente sente que está envelhecendo quando começa a gostar mais de carne-de-sol do que de mulher".
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(*) No carnaval de 1948 (perem aí, eu tinha somente 5 anos) foi lançada a marcha "Princesa de Bagdá", de Haroldo Lobo e David Nasser, na voz de Nelson Gonçalves. A primeira parte da letra diz:
"Ô Alá, ô Alá,
Eu quero, quero, quero encontrar
Aquela que roubou o meu olhar,
Pois ela é a Princesa morena mais linda de Bagdá".

terça-feira, junho 16, 2009

LOA PARA UMA DAMA HONORÁRIA

Este espaço é hoje ocupado pelo potiguar João Charlier Fernandes. Poeta sem livro publicado, participou, no entanto, de algumas antologias de poesia no RN., a primeira delas na década de 1960, quando ainda era adolescente. Cinéfilo sensível, participou do livro "Clarões da Tela - O cinema dentro de nós" (EDUFRN/2006) , uma coletânea de críticas sobre filmes, sob a organização de Bené Chaves e Marcos Silva. O artigo acima intitulado foi publicado em março/2004, em homenagem à sua mãe, que estava completando 90 anos. Saiu no "Diário de Natal", onde Charlier escrevia com certa frequência. Ei-lo.
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Alguém já observou - e observou bem - que, quando me meto a escrever, constantemente chamo em meu auxílio a primeira pessoa do plural. É verdade. Trata-se de uma escolha que me agrada, até porque acabo evitando aquele tom individualista que se apossa do texto quando ele é regido pela primeira pessoa do singular. Mas neste instante especial, em que pretendo homenagear uma pessoa a quem devo tudo, e que tem sido a principal razão das poucas alegrias que ainda é possível experimentar nesta etapa do meu caminhoexistencial carregado de escolhos, neste momento especial, repito, invoco a minha individualidade mais intransferível e secreta para celebrar a excelsitude de uma mulher que me ensinou a receber a vida como uma dádiva de Deus. Que me educou no princípio de que o coração humano, maltratado por tantas desilusões, só pode encontrar alento e sossego quando, liberto das amarras da ufania, começa a navegar nas águas tranquilas que conduzem ao porto seguro da fé. E que sempre estava presente no quarto de dormir da minha infância, quando pequenas dores do corpo - as da alma viriam depois - começavam a plantar no meu ser as primeiras sementes do sofrimento.
Na ação confortadora, no apego à família, na força do exemplo, no recato de tantas vigílias, na consciência de que nascemos para morrer, mas, enquanto não morremos vivemos para renascer, na intuição de que o "estar-no-mundo" pressupõe o "estar-no-mundo-para servir", na afabilidade, na alegria e na tristeza, na lágrima e no sorriso, em tudo e por tudo essa senhora amorosa transformou a sua existência numa cotidiana prática de desvelo, beneficiando primeiramente o meu pai Reinaldo Fernandes Pimenta, com quem, durante mais de sessenta anos, conviveu na dimensão material, finita e tangível, até o advento daquela dolorosa madrugada do dia 12 de outubro de 1995, quando, pela suprema vontade do Criador, esse trato diário transfigurou-se para a dimensão espiritual, infinita e teocêntrica. Os beneficiários seguintes foram os filhos - Kerginaldo, Salete, Anchieta, Mirian, Iaponira (a doce Iaponira, que partiu tão cedo desta vida descontente), eu, Fernando, Irene e Celis - , amados e criados sob uma aura de abnegação, bondade, sabedoria e ternura, valores que continuam delineando o perfil moral dessa mestra que tem derramado sobre mim, desde os meus verdes anos (e, naturalmente, tem derramado sobre meus irmãos e sobre todos que dela se aproximam), os raios de sua luminosidade interior, e esse fulgor me aquieta e inspira, tal como a chama do amor absoluto iluminou para sempre o coração de Dante, desde que ele avistou Beatriz pela primeira vez, aos nove anos de idade, conforme revela o poeta em Vita nuova.
Poderia, neste instante, dizer muito mais. Mas a palavra, seja a mais forte e mais pura, apenas dá conta de sua transitoriedade, enquanto o silêncio, tirando de sua própria grandeza o que há de eterno no indizível, tem o poder de confortar a criatura humana - na prece, na reflexão, no exercício do amor. Assim sendo só me resta encerrar esse breve louvor, cantiga de bendizer, fio do meu tear de afeto, fruto que procurei cultivar na sementeira da gratidão. Oferenda que dedico à minha mãe Giselia Gurgel Fernandes, que neste dia 05 de março de 2004, com a graça de Deus estará chegando aos noventa anos de idade.