quarta-feira, junho 25, 2008

CANTANDO NA CHUVA (Singin' in the Rain/1952)


Este texto foi aqui publicado em março de 2005. Resolvi republicá-lo como uma homenagem à atriz e dançarina Cyd Charisse, falecida na semana passada, que tem uma participação pequena, mas importante, no musical dos musicais Cantando na Chuva.
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Cantando na Chuva, de Stanley Donen & Gene Kelly, é o maior musical da história do cinema. Críticos e cinéfilos, creio, não têm dúvida quanto a essa afirmativa. Uma sucessão de belas músicas (principalmente a que dá título ao filme) e uma primorosa coreografia formam uma união
perfeita. Se não tivesse outros momentos inspirados de dança e música, Cantando na Chuva ainda assim se manteria no topo dos filmusicais, graças a duas sequências antológicas. A primeira, mais lembrada, é aquela em que Don Lockwood (Gene Kelly) canta e dança sob a chuva, que é uma das maiores seqüências já realizadas pelo cinema. A segunda, menos famosa, mas de grande brilho, é a dança de Kelly com a bela e sensual Cyd Charisse. É uma dança, inclusive, a que não falta um ingrediente de erotismo, não só por alguns movimentos, como pelo corpo da dançarina.
É preciso ressaltar, no entanto, que a grandeza de Cantando na Chuva deve-se também à sua adesão à comédia, até mesmo à comédia pastelão, na cena em que Katty Selden (Debbie Reynolds) atira uma torta no rosto de Lina Lamont (Jean Hagen), mas que era destinada a Lockwood. E entre os momentos mais engraçados está na pré-estréia do primeiro filme sonoro pelo estúdio onde trabalham Lockwood e Lamont. Aliás, na exibição do filme infiltra-se outro elemento que transcende o gênero musical, ou seja, as dificuldades e problemas enfrentados nos primeiros momentos em que o cinema começou a falar. Entre esses se destaca a voz de Lina Lamont, tão inadequada ao cinema sonoro que ela precisa ser dublada por Katty Selden. (A título de curiosidade: alguns atores do cinema mudo, por causa da voz, não se adaptaram ao cinema falado, sendo o caso mais célebre o de John Gilbert, que teve que abandonar a carreira, falecendo pouco depois.)
O elemento crítico estende-se ao cinema na sua função de magia, de ilusionismo, de escamoteação da realidade (observem-se a seqüência em que Don Lockwood leva Katty Selden para conhecer um "set" de filmagem, e a outra em que Lockwood e Lamont ensaiam uma cena de amor, em meio a um clima de hostilidade entre os dois.
Nessa junção de musical, comédia e crítica satírica ao cinema, Cantando na Chuva ultrapassa os limites do gênero e inscreve-se entre os maiores filmes de todos os tempos, realizado numa época em que o cinema americano, mesmo sem perder de vista o objetivo comercial, vivia uma grande fase criativa, tão distante do que acontece hoje em dia.

quarta-feira, junho 18, 2008

OS FILMES E SEUS MOMENTOS INESQUECÍVEIS

Woody Allen e Diane Keaton em Noivo Neurótico, Noiva
Nervosa (Annie Hall/1977)

Nos filmes a que assistimos guardamos deles momentos inesquecíveis. Pode acontecer que até um filme ruim contenha uma cena, um momento, um gesto de um ator, uma frase de humor, ou qualquer outra coisa, que nos fiquem para sempre na lembrança. Muitas vezes, a lembrança é reforçada por algo semelhante que vemos ou praticamos na vida real. Uma situação, um objeto, uma gargalhada, um rosto de uma pessoa que se pareça com o de um ator pouco conhecido, tudo isso e muito mais contribui para que um determinado filme (mesmo, repito, que não possua qualidades) se perpetue em nossa memória.

Todos os dias quando me levanto da cama, antes de fazer os asseios matinais, vou para a janela do quarto e fico um pouco olhando pessoas praticando o seu Cooper. Vêm algumas em grupos de três ou quatro, outras sozinhas, algumas trotando, até as que formam um casal. E é impossível não me lembrar de Noivo Neurótico, Noiva Nervosa, de Woody Allen. Numa cena, Woody e Diane Keaton estão num local, me parece que num parque, enquanto algumas pessoas fazem a sua caminhada diária. E Woody se dirige à noiva, comentando, em tom de ironia, sobre algumas delas, no modo de praticarem aquele exercício, não poupando nem os idosos, pelo empenho em preservarem a saúde e, com isso, fazerem retardar a chegada da morte.

Em O Selvagem da Motocicleta (Rumble Fish /1983), de Coppola, há uma cena em que o personagem de Mickey Rourke observa um aquário numa loja. Ao jovem irmão, que o ocompanha, ele se manifesta contra a situação dos peixinhos, aprisionados naquele espaço limitado, apartados do seu habitat. E à noite ele penetra na loja fechada para libertar os animaizinhos e devolvê-los à imensidão do mar, mas é flagrado pela polícia e acaba morrendo.

Pois bem. Durante um certo tempo freqüentei uma pizzaria, onde existe um aquário. Sempre ficava perto do aquário e cheguei uma vez ou outra a me sentar à mesa encostada a ele. E observando os peixinhos, me lembrava da cena e do personagem daquele filme.

Acontece, não raro, você encontrar no dia-a-dia uma pessoa que o faça lembrar um personagem de um filme. E nem é preciso que haja entre ambos uma semelhança física. Na década de 1960 passou em Natal Servidão Humana, de Ken Hughes/1964, baseado no romance de Somerset Maugham. Estrelado por Kim Novak e Lawrence Harvey, era a terceira versão realizada daquela obra. Havia aqui um homem de seus trinta e tantos anos (deve ter morrido, ou mudou de cidade, pois nunca mais o vi), que sofria de um problema numa perna, que o levava a andar mancando. O personagem de Lawrence Harvey carregava o mesmo aleijão. Fora isso, não havia a mínima semelhanca entre o ator e o homem comum. Mas o defeito físico de ambos fazia com que um amigo meu se lembrasse de Harvey (e, claro, do filme) e comentasse o fato comigo toda vez que encontrávamos o coitado, o que ocorria com freqüência.




quarta-feira, junho 11, 2008

TUDO PASSA - E DEPRESSA

Este espaço é hoje ocupado pelo jornalista e crítico de cinema potiguar Valério Andrade. Valério é um nome conhecido nacionalmente pelos cinéfilos da minha geração por ter trabalhado durante muitos anos no Correio da Manhã e na Manchete. Na década de 1980 voltou para Natal, onde escreve na imprensa local. É o criador e o organizador do Festival de Cinema de Natal, que já passou da vigésima edição. O artigo, com o título acima citado, foi publicado no Jornal de Hoje e, a pedidos, na Tribuna do Norte, e sai aqui com a sua autorização. Ei-lo.
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Ao ser perguntado por que estava tão feliz no dia do seu aniversário, o velho chinês respondeu: "Porque estou um ano mais perto da minha morte". Em um de nossos últimos encontros, Roberto Campos resumiu numa frase curta o drama da idade: "A velhice é um naufrágio". E poderia ter acrescentado: inadiável, inevitável, sem sobreviventes.
Alguém já observou que a "juventude é um dom precioso demais para ser desperdiçado pelos jovens". Ao ver o marido afundado numa poltrona e incapaz de evitar a incontinência urinária, Simone de Beauvoir teve a certeza de que para Jean-Paul Sartre a cerimônia do adeus havia começado.
A fugacidade do tempo é uma realidade que apesar de estar ao alcance de nossos olhos, somente costumamos perceber quando já adentrou por nossas vidas. Aí, então, vemos a verdade das frases tipo "a vida passa depressa". Ou da advertência: "aproveite enquanto é tempo". Mas, aí, também já e tarde demais.
A velhice é o pior dos castigos a que o homem é submetido antes da visita da Dama de Negro. É doloroso ver na tela da televisão ou do cinema a destruição física da beleza. Estátuas de carne e osso cobiçadas por homens e mulheres, despojadas da antiga sedução carnal e ostentando na face e no corpo as cicatrizes do tempo. O recurso da cirurgia plástica é um refúgio mais ilusório do que real, que, às vezes, em vez de ocultar, acentua os estragos da idade. Veja as nossas atrizes das telenovelas - com seus rostos de boneca plastificados.
No mundo fantasioso das idealizações românticas, Vicente Serejo[jornalista norte-rio-grandense] elegeu duas musas: Greta Garbo e Sônia Braga. A esfinge sueca, numa atitude tão drástica quanto inusitada, retirou-se de cena na plenitude física dos 40 anos, sem passar pelos tormentos da decadência física e do declínio artístico. Sônia Braga, cuja imagem eternizou-se através da Gabriela, erotização juvenil da beleza brasileira, fez uma reaparição deprimente no programa de Daniel Filho. Chocante, não por estar envelhecida, mas, ao contrário, por causa da artificialidade rejuvenescedora de cirurgias e da utilização de botox.
Recomendo a Serejo que não vá ver a Sônia que vi na televisão. É melhor para a mente e o coração, imaginá-la como ela já foi. Afinal, já que não podemos dar adeus às ilusões da vida real, evitemos a despedida dos mitos físicos de nossa juventude. O castigo dos deuses não se limita à sentença da velhice. É extensivo às cabeças pensantes e às celebridades políticas. Como esquecer a imagem de Jânio Quadros, esquelético, entrevado, aparentemente senil, sendo carregado nos braços por um enfermeiro? Ou saber que Franklin Roosevelt, vítima de apagões da memória, às vezes falava com um membro do governo sem identificá-lo. Ou Roberto Campos, ainda na plenitude intelectual, emudecido e impossibilitado de escrever.
Esse vendaval de lembranças veio à tona por ocasião do meu aniversário. Entretanto, como não tenho como deter a descida do tempo ladeira abaixo, a comemoração serviu de pretexto para reencontrar os amigos, o que para nós, fordianos, que cultivamos e priorizamos a amizade, é o que melhor sobrou dos tempos idos e vividos.

quarta-feira, junho 04, 2008

AS TARDES DE DOMINGO FORAM FEITAS PARA LEMBRANÇAS?

Foto tirada de olhares.aeiou.pt


O domingo se arrasta monótono e quente. Estirado na rede, conservo o hálito do vinho e do peixe saboreados no almoço. A televisão está ligada no Santo Sílvio. O rádio do vizinho transmite um jogo de futebol. Não sinto ânimo para fazer coisa alguma. Apenas ficar deitado, ouvindo os ruídos de uma tarde de domingo. No jornal da manhã li a notícia da morte de um colega de escola. E não sei explicar por que a morte de Pirrita não me saiu da cabeça.Talvez pela forma trágica de que morreu: num tiroteio com a polícia. Seu nome e retrato freqüentavam quase diariamente as páginas policiais. Até que lhe chegou o fim violento. Deve ter sido por isso que lamentei tanto a sua morte, já que, no colégio, nem chegamos a ser amigos. Tornara-se traficante de drogas e era caçado há muito tempo pela lei.
Porque, por exemplo, quando morreu o Doca Cunha eu senti - menino e senti. Mas Doca Cunha foi um dos heróis da minha infância, por seu destemor. Um bravo que se acabou por uma bala traiçoeira do Zé Feitosa, ao meio-dia de um domingo. Estava numa mercearia do mercado público, onde, uma vez, agredira um cunhado. Contam que a irmã lhe rogara uma praga, de que ele teria o seu fim naquele mesmo local.
Uma morte que por muito tempo vivificou em minha memória e em meu coração. O mesmo, acho, aconteceu aos meus amigos. Ela era um assunto predominante em nossos papos.E afirmava-se - alguns quase chegando a jurar - que o seu filho Amauri lhe vingaria a morte quando se tornasse adulto. Que maus profetas! Amauri, rapaz, tornou-se assassino, não do matador do pai, mas do próprio irmão.
Já era adulto quando Seu Edmundo morreu. Conheci-o já corroído pela bebida, mas ainda um bonito homem. Acompanhei, penalizado, a progressiva decadência física e moral de um homem respeitado e querido. De uma viagem que fiz em sua companhia nunca me esqueci. Foi há tanto tempo, eu era garoto, mas me lembro bem dele, bêbado, importunando o motorista e ironizando a história de um livrinho que trazia comigo. Era bem chato quando bebia. Numa manhã, na fazenda de um amigo, contava uma história quando o coração parou.
Toinho Jacinto o vi um dia desses. Mal vestido, fedendo a álcool, cantando uma putinha. Uma caricatura do Toinho saudável, elegante nas proporções de sua condição financeira e da nossa cidadezinha. Toinho, o craque de futebol que jogava de uma maneira que dava gosto ver. Não compreendíamos por que nunca foi atraído para um time da capital. Hoje me parece mais fácil entender a razão: naquela época abundavam os grandes jogadores, ao contrário do que ocorre atualmente. Talvez ele até hoje ignore que nos tenha propiciado momentos de felicidade, no dia em que participou de uma pelada com a minha turma.
O momento não estimula a ação. Sem vontade de deixar a rede, sequer para ir ao banheiro, só me resta relembrar as figuras que me enriqueceram a infância. Ah! o velhinho Vitorino. Um homem sempre bem humorado, apesar de a vida o ter tratado com desprezo. Parece-me que o estou vendo de rosto escancarado para alardear a amabilidade e a simpatia de Juscelino e compondo uma carranca com que arremedava a sisudez de Juarez. E reproduzindo os sons dos instrumentos da bandinha de música. Ao morrer, terá sido velado com a mesma abnegação com que velava os corpos dos indigentes? Penso que não. Pior para os que nunca puderam apreender a sua beleza espiritual. Mas meu avô, também da linhagem dos simples, descobriu-lhe a riqueza humana logo no primeiro contato entre os dois. Tendo acontecido ser apresentado pela mamãe, na mesma ocasião, a um figurão da cidade, confessou à filha que gostara bem mais do humilde Vitorino.
Era sargento. Hoje não sei a sua patente. Por isso continuarei a chamá-lo de Sargento Adauto. Revi-o um outro dia. Velho, quase surdo, mas ainda conservando o vozeirão aprimorado nas instruções aos recrutas. Um soldado em quem a vivência na caserna não embotou os princípios de urbanidade, nem o enquadrou na disciplina que rege o relacionamento entre superiores e subalternos. Dele não posso esquecer (viva mil anos) arrancando-me a tempo de ser pisado pelas rodas de um carro. Correra do papo com os amigos - uma reunião na calçada do hotel - para me salvar da morte buzinante.
O rádio do vizinho solta um grito de gol. Não ouço euforia no homem. Talvez o gol seja do time adversário; talvez o vizinho não seja dado a rompantes de alegria. Até a mim chega a risada televisiva do Sílvio. Não recobrei o ânimo. O vinho e o peixe ainda pesam. Não só eles: a rede também. Como se todos os meus heróis tivessem se deitado comigo.
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Conto do meu livro "Um Dia... os Mesmos Dias" (1983) , publicado aqui com pequenas alterações na linguagem original.


quarta-feira, maio 28, 2008

OUTRO EPISÓDIO NA DITADURA MILITAR

Henry Fonda e Victor Mature em uma cena de "Paixão dos
Fortes" ("My Darling Clementine"/1946)
(Texto já publicado aqui em 2006).
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Não faz muito tempo eu relatei um episódio ocorrido durante a ditadura militar, em que fui confundido com alguém caçado pelos agentes da repressão. Os que me leram naquela ocasião devem estar lembrados. Por muito pouco não fui preso e, provavelmente, teria desaparecido. Hoje vou contar outro episódio. Neste não existiu o mínimo risco de eu ser preso, apesar de ter me encontrado, por acaso, com um amigo de Natal que tivera de fugir para não ser apanhado. Eis o episódio.
Em um dia de 1969 viajei a Recife, impelido por um motivo especial: conhecer, finalmente, "Paixão dos Fortes", um dos mais belos filmes de John Ford. Entrei no cinema com o filme em andamento e tive que aguardar a sessão seguinte para vê-lo desde o início. Naquela época os filmes eram exibidos em sessões contínuas, terminava uma sessão e, com um pequeno intervalo, a seguinte era iniciada. O espectador não precisava sair da sala e comprar outro ingresso, para ver o filme de novo. Num mesmo dia, você o assistia tantas vezes quisesse, pagando apenas uma vez.
Pois bem. Nem bem as luzes foram acesas, aparece Juliano Siqueira na minha frente. Fiquei surpreso, tanto quanto emocionado, pela presença de Juliano, pois jamais me passaria pela cabeça encontrá-lo ali, ou em qualquer outro local de Recife. Juliano era um dos milhares de brasileiros que, naqueles tempos de trevas, eram caçados pelo regime militar. Durante o breve intervalo, ele conversou sem parar, sempre interessado em saber notícias dos ex-companheiros do Cineclube Tirol. E me confessou que fora ao cinema, não só pelo filme, que já conhecia, mas na esperança de me encontrar, ou a Gilberto Stabile, dois fordianos assumidos e de carteirinha assinada.
Mas a alegria, a emoção daquele reencontro perdiam-se um pouco pela apreensão que nem um dos dois conseguia disfarçar, devido à circunstância de um dos interlocutores ser procurado pelos agentes policiais. Quem viveu aquele período da nossa História há de se lembrar de que o medo e a tensão eram presenças constantes quando as pessoas, mesmo sem estarem com a cabeça a prêmio, se reuniam para uma simples conversa. Felizmente não aconteceu o pior, até o intervalo terminar. E, ao nos despedirmos, disse a Juliano para tomar cuidado.
O filme recomeçou, assisti-o até o final. Saí do cinema duplamente emocionado: pela grandiosidade de "Paixão dos Fortes" e pelo inesperado encontro com Juliano. Voltei a Natal um ou dois dias depois. Mas Juliano não deve ter seguido o meu conselho, ou os brucutus da repressão foram mais eficientes. Pouco tempo depois soube que ele fora apanhado. Passou cinco anos na prisão. Menos mal que conseguiu sobreviver. E hoje está morando em Natal, depois de passar uma longa temporada no Rio.
Foi isso.

terça-feira, maio 20, 2008

OS GUARDA-CHUVAS DO AMOR (Les Parapluies de Cherbourg/1964)



Se "Os Guarda-Chuvas do Amor" é uma homenagem, como parece ser, ao musical americano, essa homenagem do diretor francês Jacques Demy é prestada sem se subordinar aos padrões do gênero. Ao invés de intercalar músicas às falas, o seu filme é cantado do começo ao fim, os diálogos, seja uma pequena fala, como a de um carteiro trazendo uma mensagem, seja alguém pedindo ao empregado de um posto de gasolina para lhe abastecer o carro, são apresentados em forma de canto. Aí está a diferença de "Os Guarda-Chuvas do Amor" dos seus congêneres hollywoodianos, aí a sua originalidade, que transforma numa quase obra-prima o que poderia ser apenas mais um musical e de qualidade inferior àqueles.
É um exemplo de como pela forma é realizada uma grande obra, debruçando-se sobre um conteúdo já muito explorado, sobretudo por outros gêneros. A história é a do clássico triângulo amoroso. Geneviève (Catherine Deneuve), filha de uma viúva, proprietária de um loja de guarda-chuvas e Guy (Nino Castelnuovo), um mecânico de uma oficina de carros, se amam. Guy parte para a guerra na Argélia, entra em cena Roland (Marc Michel), um rapaz rico que se apaixona por Geneviève. A ausência do namorado, agravada com a falta de notícias dele, motiva o assédio da mãe (Anne Vernon) a Geneviève para que ela se case com Roland, que já chegara a pedir-lhe a mão da filha. Afinal, Geneviève sucumbe às investidas e consente em casar. Quando Guy retorna da guerra, com uma perna avariada, descobre que a namorada a trocara por outro e até se mudara de Cherbourg, acompanhada da mãe, que vendera a loja, e termina por casar com uma conhecida sua.
Outra diferença dos seus similares americanos é a ausência da dança, constante naqueles filmes, formando uma parceria com a música. Apenas uma vez, se vê numa boate Guy e Geneviève dançando, em meio a outros casais. Por outro lado, há a presença diversificada (e bem utilizada) da cor, com uma certa predominância do lilás. Muito boa a fotografia, a música de Legrand, que, além das outras músicas, compôs uma bela canção que sublinha o romance do casal. Tudo bem conduzido pela mão leve e sensível de Demy. Um dos melhores momentos do filme ocorre na partida de Guy: um traveling acompanha o trem deixando a estação, mostrando Geneviève ao fundo, à semelhança de uma silhueta.
No meio das qualidades de "Os Guarda-Chuvas do Amor" intromete-se, porém, um defeito. O nome da Esso é visto inúmeras vezes no desenrolar da história. Sou levado a crer que a intenção é a de denunciar o poder econômico como causador de muitos males, inclusive o de destruir um amor (a mãe de Geneviève passava por graves dificuldades financeiras, que iriam resultar na perda do seu comércio), esse poder representado por Roland. Até aí tudo bem. O problema está na aparição em excesso dessa marca de combustível. Além de inscrito numa placa de posto de gasolina, o nome da Esso surge uma vez em uma grande quantidade de latinhas dispostas num móvel da casa de Guy quando este já está casado. Demy deveria ter seguido o exemplo de Ozu em "Pai e Filha". Ao mostrar a invasão americana ao Japão ainda na década de 1940, ele faz apenas aparecer, rapidamente, uma placa com a frase publicitária Drink Coca Cola e, escritas em inglês, as palavras chá e café na fachada de um restaurante. Só isso. E não bastaria mais nada.

quarta-feira, maio 14, 2008

MEUS PRIMEIROS ANOS EM NATAL

Cheguei a Natal em 30 de julho de 1965. Acho que não exagero em dizer que a capital do Rio Grande do Norte era uma cidade grande do interior, com uma população estimada em 207.000 habitantes, segundo me informa um amigo que trabalha no IBGE. As famílias ainda se reuniam nas calçadas de suas residências à noite, não havia um só canal de televisão (a Tupi chegava através de uma retransmissora de Recife, numa imagem de má qualidade), o quarteirão da João Pessoa, em uma parte da área no centro chamada de O Grande Ponto, era povoado de pessoas formadas em grupinhos falando de tudo, especialmente da vida alheia. Localizada na Av. Rio Branco, a principal da cidade, a "Sempre Alerta", a única banca de revista que vendia jornais do Rio. Um grupinho de rapazes, geralmente os mesmos, ficavam à noite em frente a ela discutindo futebol. Me lembro de um tipo baixinho, feinho, muito engraçado, que torcia pelo Vasco. Pouquíssimos os edifícios. Cinemas havia 5: Nordeste, Rex, Rio Grande, no centro, o Poti, não longe do centro, podendo-se chegar a ele caminhando, e o São Luís, no Alecrim. (O Poti se diferençava dos demais por exibir apenas reprises. Foi lá que vi "Os Amores de Pandora", com Ava Gardner no esplendor de sua beleza, e James Mason, o primeiro na minha lista de atores preferidos.) Em 1966, ou 67, foi inaugurado o Panorama, no bairro das Rocas. Mais longe do centro, o acesso a ele tinha que se dar através de um meio de transporte (no meu caso e dos meus amigos, por ônibus). No Rex, nas manhãs de sábado, era apresentado o filme promovido pelo Cineclube Tirol, sessão chamada de Cinema de Arte. O primeiro filme que vi no Cinema de Arte foi "O Médico e o Monstro", a segunda versão adaptada para o cinema do livro de Stevenson, dirigida por Victor Fleming, inferior à primeira, de Rouben Mamoulian, com Fredric March.
Não demorou muito e a sessão foi transferida para o Nordeste, ainda nos sábados. Se não estou enganado, só no ano seguinte ela passou de vez para os domingos. As reuniões dos sócios do Cineclube Tirol estavam condicionadas ao dia daquelas sessões, ou seja, aos domingos pela manhã, quando aqui cheguei, e depois aos sábados à noite. Já informei como eram essas reuniões em um texto aqui publicado sobre o Cineclube Tirol.
Logo nas primeiras sessões no Nordeste, pela metade, mais ou menos, de "Abismo de um Sonho", de Fellini, a energia pifou. Como o cinema não dispunha de um gerador de energia, os espectadores foram se acotovelar na sala de espera, aguardando o restabelecimento dela. Quando fomos informados de que isso não ocorreria tão cedo, a sessão foi suspensa. E assim quem ali estava naquele dia, só iria ver integralmente o primeiro filme solo de Fellini há uns 5, 6 anos, quando ele foi lançado em DVD.
Na pequenina praça Kennedy, vizinha ao Nordeste, havia uns blocos de pedra superpostos, que eram chamadas de "cocadas". Nunca descobri o autor, ou autores dessa denominação, que se popularizou ao ponto de aquele logradouro ser conhecido por praça das cocadas. Lá me juntava a amigos e conhecidos (alguns eram companheiros de cineclubismo) nas noites em que não ia ao cinema. Embora os temas principais fossem cinema e literatura, falávamos de outros assuntos, inclusive de política, mas com cautela, pois o país vivia sob uma ditadura militar.
Quando o Cinema de Arte passou para os domingos, era certo o encontro com amigos e conhecidos na Livraria Universitária (a melhor e, praticamente, a única de Natal na época), conversando e vendo as mulheres passar. Lá para as onze horas, muitos de nós procurávamos os bares, onde permanecíamos por um bom tempo. Nos domingos à tarde havia a pelada na praia do Forte, basicamente jogada por sócios do Cineclube, aos quais se acrescentavam uns poucos rapazes. Depois da pelada, o banho de mar. Com o passar do tempo, alguns foram se desinteressando desse saudável divertimento, preferindo a cervejinha depois do Cinema de Arte, para falar do filme exibido, até chegar o dia em que o joguinho e o banho de mar foram abolidos.
Não só inevitável, como indispensável, o progresso trouxe muitos benefícios para Natal, inclusive na área cultural. Em contrapartida, há o preço a se pagar ao progresso. A cidade está atulhada de edifícios, de shoppings, tem problemas graves de segurança e de trânsito, pela quantidade excessiva de veículos, desproporcional ao número de habitantes (em torno de 800.000), dirigidos por um monte de estressados e mal-educados.
E não restou um só cinema de rua.

quarta-feira, maio 07, 2008

"POEMA À MÃE"


Foto in Google, autoria desconhecida.
Em uma homenagem ao Dia das Mães, a ser celebrado no próximo domingo, aqui vai um poema de Eugénio de Andrade, poeta português (1923-2005) , de título acima mencionado, o qual me foi enviado pelo amigo e poeta Horácio Paiva.
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No mais fundo de ti,
eu sei que traí, mãe.
Tudo porque já não sou
o menino adormecido
no fundo dos teus olhos.
Tudo porque tu ignoras
que há leitos onde o frio não se demora
e noites rumorosas de águas matinais.
Por isso, às vezes, as palavras que te digo
são duras, mãe,
e o nosso amor é infeliz.
Tudo porque perdi as rosas brancas
que apertava junto ao coração
no retrato da moldura.
Se soubesses como ainda amo as rosas,
talvez não enchesses as horas de pesadelo.
Mas tu esqueceste muita coisa;
esqueceste que as minhas pernas cresceram,
que todo o meu corpo cresceu,
e até o meu coração
ficou enorme, mãe!
Olha - queres ouvir-me? -
às vezes ainda sou o menino
que adormeceu nos teus olhos;
ainda aperto contra o coração
rosas tão brancas
como as que tens na moldura;
ainda oiço a tua voz
Era uma vez uma princesa
no meio de um laranjal...
Mas - tu sabes - a noite é enorme,
e todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura,
dei às aves os meus olhos a beber.
Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te as rosas.
Boa noite. Eu vou com as aves.

terça-feira, abril 29, 2008

A PERVERSIDADE DO TEMPO

Foto retirada do Google

Há poucos dias Brigitte Bardot teve que ir à policia, para prestar depoimento sobre declarações racistas contra os muçulmanos. Foi a quinta vez em que a ex-atriz compareceu a uma delegacia policial pelo mesmo motivo. Nesse mesmo dia, sintonizando o canal francês TV5, pude ver a reportagem sobre o caso. E o que mais me impressionou foi ver como ela envelheceu. É óbvio que, a poucos meses de completar 74 anos, Brigitte teria que mostrar as marcas da idade, mesmo com todos os recursos de rejuvenescimento à disposição das mulheres da sua situação econômica, mas me parece que, no seu caso , o tempo foi mais perverso do que com outras colegas da sua geração, como, por exemplo, Sophia Loren, que, aliás, é do mesmo ano de Brigitte.

Mas o tempo não alisa. E pouco depois de ver a reportagem, me lembrei de uma crônica do potiguar Berilo Wanderley (1934-1979), também crítico de cinema, em que ele faz um indignado e contundente protesto contra o que o tempo fez com atrizes de gerações anteriores à de Bardot. Tudo indica que a crônica é dos anos 1970. Quem sabe se não foi escrita pouco tempo antes de Berilo falecer? Está no livro Cine Lembrança (Sebo Vermelho, 2004), organizado por sua viúva. Eis o texto:

GRITO

Oh tempo, por que marcaste tanto o rosto de AVA GARDNER? Por que maltrataste tanto o corpo do RITA HAYWORTH? Por que machucaste tanto as pernas de MARLENE DIETRICH? O rosto de devastadora beleza de AVA... O corpo de avassalador domínio de RITA... As pernas de MARLENE que tanto me maltrataram em o "Anjo Azul"...

Tempo que quebrou a voz de GRETA GARBO, falando pela primeira vez no cinema, para dizer "give me a whisky", que foi como um copo de cristal batendo contra outro copo de cristal. Tempo que atirou SILVANA MANGANO dentro do arrozal, chapelão na cabeça, meias pretas resvalando sobre as pernas de cetim, tão grossas, e depois matou tudo isso. Tempo que não soube preservar JUDY GARLAND cantando para a eternidade diante de nós "Meet me tonight in Dreamland"... Tempo que assassinou os olhos verdes de MICHELLE MORGAN se tornando líquidos acima de todas as misérias humanas naquela sequência da igreja de "As Grandes Manobras", de René Clair... Tempo que quebrou as pernas de CYD CHARISSE...

Tempo, miserável tempo, que um dia nos atirou diante dos olhos, da boca, dos ouvidos, do estômago, dos órgãos genitais, tudo isso que eletrizou em nossa carne e espírito todas essas mulheres... se nos deu tudo isso tão generosamente... por que nos deu, se havia de nos tirar essas vozes, esses rostos, essas pernas, esses corpos?!

Desgraçado tempo!

quarta-feira, abril 23, 2008

CURIOSIDADES

O último dos auto-retratos de Vincent Van Gogh, in Google

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1) É fato suficientemente sabido que Vincent Van Gogh vendeu um único quadro em sua curta vida de 37 anos. Mas quem adquiriu esse quadro, "A Vinha Encarnada", ou "A Vinha Vermelha", ou, ainda, "O Vinhedo Vermelho", conforme a tradução do título original nos sítios pesquisados? E é relevante se saber a identidade do comprador? Como curiosidade, creio que sim. E, afinal, estamos tratando de alguém tido como um dos maiores expoentes da forma de arte que adotou, que não conseguia vender o que criava, apesar do empenho do irmão Theo. Hoje, quando um quadro de Van Gogh é arrematado em um leilão por uma fortuna não existe mais o interesse em saber a identidade do comprador, já que é dos pintores que mais atraem a cobiça dos colecionadores.

Mas quem foi que "fez essa caridade" a um dos mais torturados artistas que já existiram? Há coisa de dois meses ocorreu, em Londres, uma exposição de quadros só de pintoras, uma das quais era Anna Boch, da Bélgica, um país vizinho da Holanda de Van Gogh. A matéria sobre a exposição, que li no sítio da BBC Brasil, informava, de passagem, que foi ela que comprou o quadro.
2) O livro "Abdias", de Cyro dos Anjos (edição do Círculo do Livro, s/data), autor de "O Amanuense Belmiro", é narrado em forma de diário pelo personagem-título. Na página 14, Abdias fala da possibilidade de passar a guardar o diário no seu local de trabalho, para proteger o manuscrito de uma possível descoberta da esposa. E revela um estratagema criado por Tolstoi quando escrevia o seu diário. Transcrevo suas palavras: "Contam que o velho Tolstoi resolveu engenhosamente o problema do diário, fazendo dois simultâneos. Um, escrevia-o às claras e esquecia-o de propósito por todos os compartimentos da casa, para que a família nele saciasse a curiosidade; o outro, o verdadeiro, que continha confidências mais íntimas, era escrito em segredo e escondido nas botas". Muito sabidinho o autor de "Anna Karenina", não?
3) Alagoano de nascimento, mas radicado no Rio do século XIX, o poeta Guimarães Passos passou boa parte de sua vida lutando contra a tuberculose que o acometeu. Apesar da doença, ele continuava produzindo e chegou a escrever um livro, cujo título era Tratado de Versificação. Contemporâneo de Passos, o poeta Emílio de Menezes, que adotava a linha do poema satírico, ao saber, boêmio que era, em um bar, do próximo lançamento do seu colega, não se conteve e soltou este trocadilho: "Coitado do Guimarães! Há muito tempo ele tem tratado de ver se fica são.
4) "Domingo pé-de-cachimbo". Eis uma expressão que vem de longe e é grafada erroneamente. Até por escritores, como já vi em um livro de um autor aqui do Estado, que a utilizou como uma das epígrafes da obra. O correto é "Domingo pede cachimbo", o verbo pedir na acepção de querer, necessitar, e cachimbo na de ócio, descanso; ou seja, domingo é dia de a pessoa não trabalhar, mas se estirar em uma rede, fumando cachimbo. Ou cigarro, se preferir.

quarta-feira, abril 16, 2008

QUEBREI A TIGELA




Faz poucos dias estreei uma camisa. Ao me ver com a camisa, minha mulher disse: "hi, quebrou a tigela!" Quebrar a tigela. Há séculos não ouvia essa expressão, muito usada na minha infância e adolescência. Embora originária do Nordeste, é possível que os habitantes do Sul e Sudeste a conheçam por ela estar no Aurélio. Quem consultou o dicionário, viu que quebrar a tigela significa que uma pessoa usa uma roupa, ou um objeto, pela primeira vez. Como sinônimo, o Aurélio registra também "quebrar a panela", que nunca ouvi. Sei que não é possível, mas que bom seria se o dicionário pudesse revelar a origem dessas expressões. Penso em Marco, do Antigas Ternuras. Como eu, ele gosta muito dessas saborosas expressões e vai à cata da origem delas. Quem sabe se ele não sabe de onde veio quebrar a tigela e faça uma daquelas postagens cheias de humor, irreverente, às vezes, que muito aprecio?
Estava com cinco anos quando nasceu Bosco, o meu irmão caçula. Se meus pais não inventassem de ter mais um filho, encerrando uma série de 11 (o primogênito, uma mulher, morreu com pouco tempo de nascido), eu permaneceria como o caçula. E, assim, não teria ficado no canto. Usava-se a expressão "ficar no canto" naquela época para a criança que perdera a condição de filho mais novo, com o nascimento de um seu irmão. A expressão não consta do Aurélio. Como só disponho desse dicionário (nessa especialidade), não sei se outros do mesmo gênero a registram. Deve ser também exclusiva da região nordestina.E tal como "quebrar a tigela" , fico doido pra saber a sua origem, a exemplo de tantas outras.
Essas expressões, ou palavras, nascidas no Nordeste desapareceram, ou estão em processo de extinção. E a culpa é da televisão, via novelas. Um adolescente, de ambos os sexos, mesmo morando numa cidade das mais atrasadas deste país, prefere falar como os jovens das novelas da Globo. Tantas e tantas expressões que fizeram parte da minha infância, adolescência e juventude se perderam no esquecimento das pessoas.
Mas isso não ocorreu apenas nas cidades do interior. Falei aqui uma vez da expressão "o cão chupando manga" e de outras, que eram comumente usadas quando cheguei a Natal nos anos sessenta. Onde estão elas? Mesmo pessoas da minha idade, até mais velhas, talvez com umas poucas exceções, as desprezaram, por certo para não ouvirem que elas "são de 12" (cadê esta também?), isto é, de um tempo muito antigo. Não sou contra o emprego de palavras importadas do Sudeste (principalmente), assim como os nativos daquela região utilizam algumas do Nordeste. O carioca Machado usou mais de uma vez a expressão "vender azeite às canadas", ao falar de um personagem que está furioso, muito irritado. É um dito aqui do Nordeste, mais especificamente de Pernambuco, conforme descobri há poucos anos.
Acho importante esse intercâmbio. Não vejo nada demais nisso, são palavras faladas em um mesmo país (até a alguns estrangeirismos sou receptivo), mas que não joguemos no lixo, como um objeto imprestável, as expressões e palavras da nossa região.
A minha filha mais nova está esperando o segundo filho. Quando este nascer, o seu primogênito, ao contrário do avô, não vai ouvir das pessoas que ficou no canto. Ainda que morando no interior do Estado.

terça-feira, abril 08, 2008

PAI E FILHA (Banshun/1949)




Em seu Dicionário de Cinema, Jean Tulard transcreve estas palavras do diretor japonês Yasujiro Ozu: "Os filmes de enredo elaborados demais me aborrecem. Naturalmente, um filme deve ter uma estrutura própria, de outro modo não seria um filme, mas acho que para que ele seja bom é preciso renunciar ao excesso do drama e ao excesso da ação". Essa visão que Ozu tinha do cinema está bem caracterizada em "Pai e Filha". Se na recusa de Noriko (Setsuko Hara) em se casar (já com 27 anos), para poder dedicar-se ao pai viúvo Shukichi (Chishu Ryu), atitude que não é aceita pela tia Masa (Haruko Sugimura) e pela amiga Aya (Yumeji Tsukioka), existe uma situação dramática, esta, no entanto, é mostrada com sobriedade, sem permitir uma discussão acalorada, mesmo quando se percebe o aborrecimento , o enfado de Noriko com as investidas casamenteiras das duas, principalmente da primeira. Mas, para mim, o exemplo maior dessa contenção da dramaticidade é dado na cena em que Noriko está se preparando para o casamento (sim, ela acaba por capitular, porém, por obra de um estratagema do pai). Já vestida de noiva, prestes a sair para a cerimônia matrimonial, Noriko se ajoelha diante do pai e lhe agradece pelo cuidado e o amor que teve por ela. Um momento de forte emoção, transmitido apenas pela expressividade dos rostos de Noriko e Shukichi. Ressalte-se também que o casamento não é mostrado (aliás, o noivo só é visto uma única vez, de relance, quando ainda não namorava Noriko), nem se vêem a noiva, o pai e a tia saindo para tomarem o carro estacionado à frente da casa, apenas curiosos em volta do carro. Como o faz ao longo do filme, o diretor opta pelo destaque aos pequenos detalhes, aos silêncios, à contemplação, relegando, portanto, a ação a um plano inferior.
O cinema de Ozu, como afirmam os conhecedores de sua obra, está visceralmente ligado à tradição, às raízes culturais do seu país, havendo quem lhe colasse o rótulo de o mais japonês dos diretores. (O seu entranhado japonesismo é até responsabilizado pelo reconhecimento tardio de seu talento e de sua importância no Ocidente, ao contrário de seus pares Kurosawa e Mizoguchi, com os quais ele forma a Santíssima Trindade do cinema nipônico.) Em "Pai e Filha" o seu apego à cultura, à tradição, aos costumes do Japão se faz presente em vários momentos, como, por exemplo, no espetáculo musical a que Noriko e Shukichi vão assistir; ou, ainda, na carteira de cédulas encontrada na rua por Masa e que ela guarda, pois isso lhe irá trazer sorte - no caso, a concretização do desejo de ver a sobrinha casada, pelo qual luta com obstinação. E é bem possível que a original maneira de Ozu filmar, com a câmera bem perto do chão, o operador se pondo de cócoras, resulte do seu posicionamento nacionalista. Pois, segundo o crítico André Setaro, ao posicionar assim a câmera, ele pretendia "enquadrar os personagens conforme a visão de uma pessoa sentada no chão, como é hábito e costume das casas nipônicas tradicionais, da cultura japonesa, antes dela se transfigurar e se descaracterizar com a ocidentalização de Tóquio".
No entanto, em uma oposição (ou, uma invasão) ao tradicional, percebe-se a presença da modernidade. É esclarecedor, por exemplo, o diálogo entre Shukichi e a cunhada Masa, em que esta reprova a gula de uma noiva após a cerimônia do casamento, um comportamento inconcebível no tempo em que ela casou. Essa intromissão do moderno é mais agravada pela influência da cultura americana no país, a qual é mostrada, de modo sutil, como convém a Ozu, em duas ocasiões: uma placa com um anúncio da Coca Cola, em inglês, na estrada por onde Noriko e o assistente do pai passeiam, e um restaurante em cuja fachada estão escritas, também em inglês, as palavras café e chá.
Com o lançamento deste belíssimo filme, A Lume, nova produtora de DVD, dá um grande presente ao cinéfilo. Torçamos para que ela lance outros filmes desse mestre do cinema, como "Viagem a Tóquio", que, dizem os que o conhecem, é ainda melhor.

quarta-feira, abril 02, 2008

UM EPISÓDIO NA DITADURA MILITAR

Este artigo foi aqui publicado em 13.06.06. Sai pela segunda vez, na ocasião em que, há 44 anos, estava se iniciando a implantação da ditadura militar no Brasil, um terrível pesadelo que durou mais de 20 anos.
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Há poucos dias Moacy Cirne comentou, no seu Balaio Vermelho, que chegou a ser caçado pelas forças da repressão da ditadura militar, um dos períodos que mais mancharam a história do Brasil no decurso de mais de vinte anos. Felizmente, o nosso amigo não chegou a ser preso e torturado, pelo menos não tenho informação disso. Já outros amigos e conhecidos meus não tiveram a mesma sorte, e um ou outro pagou com o sacrifício da própria vida o fato de contestar o regime militar. Comigo não houve problemas, até porque não dei motivos para tal, o que não quer dizer que fosse favorável à presença daqueles milicos no poder. Evidente que não concordava com toda aquela situação pela qual o país estava passando, discutia-a com os amigos, mas tive o cuidado de não me expor demais, principalmente quando escrevia nos jornais. Sobre cinema. Apesar dos meus cuidados, houve uma vez em que, por um triz, não fui preso. É um episódio que jamais me saiu da cabeça.
Foi assim. Num certo dia, em 1972 (no governo de Médici, o mais sanguinário de todos), precisei ir a Fortaleza, para tratar de um negócio. O ônibus saía à meia-noite. A viagem seguia tranqüila, mas aí pela metade do percurso, de repente o ônibus parou. Era no meio da estrada escura, o que já causou estranheza nos passageiros. O ônibus, pois, pára, as luzes se acendem e, então, surgem dois homens, com toda a pinta de agentes policiais. Ficam por alguns segundos em pé, à frente da porta que dá acesso ao posto do motorista, e, com os olhos, examinaram os viajantes. Logo em seguida um deles se afasta e vem diretamente para o lugar onde eu estava. Devia ser na terceira ou quarta fileira. Me pede a carteira de identidade e examina-a atentamente. Ao ver a fotografia, certamente, olha meu rosto com atenção. Por fim me devolve o documento, com um obrigado. Sem um pedido de desculpas. A mim e aos demais viajantes. Quando o ônibus se pôs de novo em movimento, as pessoas não tiravam os olhos de mim. Se não me falha a memória, alguém chegou a me perguntar o que eu fizera para ser submetido àquele incômodo exame. Mas se eu próprio não saberia dizer o motivo! Sem nenhuma dúvida, aqueles homens estavam à caça de alguém e me acharam parecido com ele.
No início eu disse que, por um triz, escapei de ser preso. O caso é que eu quase viajava sem a minha carteira de identidade. Durante o dia, no meu trabalho, tive que entregá-la à Seção de Pessoal, para uma atualização de dados na minha ficha funcional. Cheguei a alertar o colega que ia precisar do documento, pois iria viajar naquele mesmo dia. Ele prometeu devolvê-lo dentro de pouco tempo, mas o certo é que o expediente se encerrou e não o recebi de volta. Como a minha viagem era inadiável, mesmo preocupado, tinha que ir a Fortaleza. Mas aí por volta de umas oito horas da noite, eis que chega o colega à minha residência com a carteira de identidade.
Pelo que relatei, se estivesse sem ele, teria sido arrastado do ônibus, talvez tivesse ficado preso e até sido torturado. Talvez nem estivesse contando aqui esse episódio de uma época que, só os que a viveram, sabem dos seus inúmeros e enormes malefícios.

quarta-feira, março 26, 2008

A CARRUAGEM DE OURO (Le Carrosse d'Or/1952)



Com a eclosão da Segunda Guerra, Jean Renoir mudou-se para os Estados Unidos. Ao contrário de seus compatriotas René Clair e Julien Duvivier, sua experiência americana não foi bem-sucedida. Talvez por ser o mais francês dos diretores, na afirmação de Georges Sadoul, ele não tenha conseguido se adaptar à cultura daquele país, nem ao processo de produção de filmes em Hollywood. Ele só voltaria ao cinema europeu, não na França, mas na Itália, com "A Carruagem de Ouro", e entre este e seu último filme americano, realizou, na Índia, "The River", que Andrè Bazin alçou à altura de obra-prima.
Pelo que se depreende do depoimento de Renoir nos Extras do DVD, a peça "Le Carrose de Saint Sacrement", de Prosper Mérimée, serviu, digamos, apenas como um ponto de partida para a concepção de "A Carruagem de Ouro". Na verdade, um amante do teatro, Renoir foi movido pelo propósito de prestar uma homenagem à "Commedia dell' Arte", um popularíssimo gênero teatral originário da Itália. Ele pretendeu fazer um filme que absorvesse o espírito do gênero, isto é, que a trama tivesse que se despojar de qualquer resquício de realismo, ou naturalismo. E além disso, eliminasse a fronteira entre o que se passa no palco e na realidade - realidade aqui no sentido da trama do filme. Quer dizer: que as apresentações realizadas pela trupe italiana que vai parar numa colônia espanhola (não identificada) na América do Sul se confundissem com a história (realidade) do filme. É o que ocorre com Colombina (Anna Magnani) no palco e, fora deste, Camila, cortejada por três homens: o Vice-Rei (Duncan Lamont), que lhe presenteia a carruagem de ouro que mandara buscar na Itália e transportada no mesmo navio em que Camila viera; o oficial espanhol Felipe (Paul Campbell), que a acompanhara na excursão, e o toureiro Ramon (Riccardo Rioli). No envolvimento com este, aliás, há um momento em que Camila passa de atriz para espectadora. Uma cena de belo efeito cinematográfico, iniciada com um "close" do rosto dela, seguida por um "traveling" que vai até à arena.
Por falar em Anna Magnani, não se pode deixar de relevar o desafio de Renoir ao escolhê-la para viver um personagem tão diverso, até mesmo antagônico, dos que ela interpretara até então. E devido à natureza do seu personagem, La Magnani contém certos excessos que marcaram os seus desempenhos, a despeito do seu inquestionável talento interpretativo. Ela, inclusive, teve que aprender inglês (o filme tem uma versão nesse idioma, que é a deste disco, com vistas a atingir o mercado anglo-americano), porque Renoir pretendia que o inglês falado pela atriz, impurificado pelo forte acento italiano, tivesse um efeito expressivo, confrontado com o dos intérpretes nativos da Inglaterra, que compõem a maioria do elenco.
Com uma carreira iniciada ainda no cinema mudo, apenas pela segunda vez Renoir fazia uso da cor, sendo a primeira no já mencionado "The River". E ela constitui-se em um elemento fundamental no resultado do filme. Contando com a colaboração valiosa do fotógrafo e seu sobrinho Claude (com quem trabalhou em tantos filmes), o diretor empenhou-se em que a cor casasse perfeitamente com o cenário, os figurinos e a iluminação. Há outro importante colaborador, e, como diz Renoir em tom de "blague", é do tipo que não dá problema, que concorda com o realizador em tudo, pois já não está neste mundo. Trata-se de Vivaldi, que com seu peculiar estilo musical contribui para que o filme tenha a leveza de outros tantos do diretor.
Pelas qualidades artísticas e pela atração do enredo, "A Carruagem de Ouro" talvez seja o filme em que Renoir tenha conseguido promover a união dessas duas categorias geralmente inconciliáveis, ou seja, a crítica e o público.

terça-feira, março 18, 2008

A SEMANA SANTA DA MINHA INFÂNCIA

Quadro Cristo Morto, de Andrea Mantegna (1431-1506).

Todos os anos, quando chega a Semana Santa, eu me lembro da minha infância naquele período. As lembranças se acumulam, principalmente as da Sexta-Feira Santa: as imagens de santos cobertas por um pano preto ou roxo (não me recordo com precisão), o sacristão percorrendo o pátio da Basílica, em intervalos de quinze a vinte minutos, se muito, carregando a matraca e fazendo-a soar um ruído alto e enervante; a imagem de Cristo deitado, exposta no centro da igreja para receber o ósculo dos fiéis, ordenados em fila indiana; a procissão à tarde, com a Verônica, representada por uma moça, exibindo em um pano a face ensanguentada de Jesus.

Me lembro, ah, se me lembro, de que em uma certa hora (a memória não me deixa dizê-la), anunciada pelo relógio da Basílica, minha mãe, a voz alterada pela emoção, afirmava que naquele momento começava a agonia de Jesus.

Muitas pessoas, especialmente as mais humildes, não tomavam banho naquele dia, um hábito talvez ainda preservado nas cidades mais atrasadas deste imenso país. E as rádios só tocavam músicas fúnebres.

Já o Sábado de Aleluia era outro dia, e não apenas no sentido cronológico. À tarde uma multidão se reunia na praça do mercado público para ouvir de alguém a leitura do testamento de Judas. A cada objeto legado por Judas a um habitante da cidade, as risadas explodiam. (Um dos meus irmãos, que não perdia por nada esse espetáculo, ao voltar para casa, relembrava alguns desses legados e os respectivos herdeiros.)

No outro dia era o Domingo da Páscoa, da ressurreição de Cristo. Terminava a Semana Santa e na segunda-feira os cristãos voltavam a "pecar".


quarta-feira, março 12, 2008

AS MANGAS



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Sábado, fim de tarde, bebia em um bar que descobrira da primeira vez em que estivera naquela cidade. Encantara-se com o ambiente, ao ar livre, duas frondosas mangueiras na entrada, a área suficientemente espaçosa para quem desejasse isolar-se dos outros clientes. Não frequentara outro bar, durante os dias em que permanecera na cidade, e, ao voltar, após muito tempo, procurou-o e ficou feliz por ele ainda estar funcionando.
O ambiente (mas sobretudo a hora, quando diminuía bastante o número de frequentadores) estimulava a meditação a quem estivesse ali sozinho - e ele estava absorvido em pensamentos que se sucediam em uma intensa celeridade, como se o próprio cérebro se recusasse a reter cada um deles por mais de uns dois minutos. De repente, foi desviado dos pensamentos por um barulho de vozes. E o que lhe despertou a atenção é que o barulho não era igual ao de pessoas envolvidas em uma altercação, tão comum em mesa de bar. O tom das vozes era alegre, de animação, mais identificado com a bulha de crianças quando estão brincando. Percebeu que as vozes procediam do lugar onde se erguiam as mangueiras, e, impresssionado, além de curioso, deixou a mesa e caminhou para lá. Ao se aproximar, teve uma enorme surpresa: três marmanjos atiravam pedras nos frutos pendentes de uma das mangueiras, tentando derrubá-los. Três homens de meia-idade brincando feito crianças, em um lugar para adultos. Imaginou que eles, ainda há pouco, estivessem a ponto de se digladiar em uma estéril e desgastante discussão sobre os políticos, e, de repente, tinham-na abandonado, ao descobrirem aquelas mangas maduras oferecendo-se para serem colhidas.
A cena, insólita, era capaz de atiçar a zombaria, mas, ao mesmo tempo, havia nela um elemento de nostalgia da infância, que lhe calou fundo. Observando aqueles homens de idades batendo mais ou menos com a sua, que buscavam, talvez inconscientemente, recuperar um momento do tempo de meninos, ele se viu também menino, galgando muros proibidos para roubar mangas, subindo em árvores, atirando pedras nos frutos. E, então, veio-lhe intensa a vontade de reunir-se aos coroas, e, de posse de uma pedra, atirá-la contra as mangas. Depois de derrubá-las, as juntaria em um saco plástico, levando-as para chupá-las no quarto do hotel.
Mas, inesperada, alguma coisa o tolheu. Talvez o receio de não ser bem acolhido pelos homens; ou, quem sabe, parecer a si mesmo ridículo, ainda que não tivesse dos estranhos a mesma impressão. Certo é que, resignado, voltou para a mesa e os pensamentos.

quarta-feira, março 05, 2008

UM DEBATE SOBRE BOCCACCIO 70



Em 1966 Gilberto Stabili e eu, membros do Cineclube Tirol, de Natal (ele presidira a entidade no ano anterior) , escrevíamos uma coluna no jornal Correio do Povo. Eu escrevia num dia, ele no outro. Uma feita, Gilberto me propôs fazermos um debate sobre "Boccaccio 70", filme constituído de 3 episódios, dirigidos por Fellini ("As Tentações do Dr. Antônio), Visconti ("O Trabalho") e De Sica ("A Rifa"). Aceitei o desafio e uma noite fui à casa da irmã de Gilberto, onde ele residia. Ficamos no quarto dele. Ele passava para um papel tanto as suas opiniões sobre os 3 episódios, quanto as minhas. Depois datilografou. Foi um debate curto, devido às limitações do espaço de que díspunhamos no jornal. Achei que podia ser de interesse divulgar esse "confronto" entre dois jovens na casa dos vinte anos (ele mais velho um pouco do que eu, mas com uma vivência de cinema de já um veterano, comparada com a minha). Eis o que escrevemos naquela noite já distante, que saiu no jornal uns dois a três dias depois.
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Sobreira - "Boccaccio 70" é um filme de finalidade comercial, apesar de assinado por três grandes nomes do cinema italiano. Em busca de lucro para os seus empreendimentos, os produtores parecem ter verificado que já não bastam um bom elenco e um bom enredo, mas também que o filme seja dirigido por um cineasta famoso.
- Stabili - Que a finalidade é comercial basta ver que o inspirador - Giovanni Boccaccio - foi um satírico popularesco, justamente famoso também pelo conteúdo erótico das suas narrativas. Mas não importa a intenção comercial se a idéia é boa e os diretores têm a liberdade de dizer.
Sobreira - E porque por trás de tudo está o dedo do homem que financiou, tais filmes em geral nunca são bem realizados, existindo sempre desarmonia entre as histórias tratadas por diferentes realizadores, alguns deles saindo-se bem da empreitada, outros decepcionando. Pessoalmente, prefiro a parte de Visconti. A meu ver, ele foi, dos três diretores, o único que resistiu à finalidade comercial do filme. Por isso conservou-se fiel a si mesmo, fazendo uma história séria, sem fugir à sua temática ou ao seu estilo.
Stabili - As diferenças são mais resultantes das peculiaridades de estilo, cabendo as dissonâncias em relação ao tom geral à responsabilidade de cada diretor. Salvo quanto ao nível de qualidade de cada episódio, que depende, naturalmente, da competência de cada autor. Na minha opinião, é Visconti o destoante do espírito de "Boccaccio 70", precisamente por adotar uma linguagem séria para tratar de um tema de ironia cruel, um "entreato cínico e depravado", na expressão de certo crítico. Não precisava Visconti fugir à sua temática e sim adaptar o seu estilo ao espírito do episódio.
Sobreira - "O Trabalho", na minha opinião, é um episódio inteiramente viscontiano, de maneira que o espectador familiarizado com o estilo do autor de "Rocco e Seus Irmãos" não tem dificuldades em identificá-lo. Nele estão presentes o plano bem elaborado, a preocupação pelo detalhe, o extremo bom gosto, o estilo fino e requintado, a elegância formal. Acresce a isso a classe ao tratar cenas mais ousadas (o strip-tease de Romy Schneider) e a expressividade dos grandes planos de rostos.
Stabili - Por ser "viscontiano", não impede também de ser destoante e meio-frustrado. Todos os valores e características que você mencionou estão em "O Trabalho" servindo insatisfatoriamente ao espírito e ao clima dramático do episódio. O tratamento teria de ser mais leve e isso só seria possível mediante uma forma menos elaborada, pesada e um tanto teatral como é.
Sobreira - Com relação a algum teatralismo, isso se vê em todos os filmes de Visconti (até em "Rocco") , e se explica pelo fato de ele pertencer tanto ao teatro quanto ao cinema, sentindo, por isso, a influência de um sobre o outro.
Stabili - Em "Rocco" o clima pesado era exigência da história. Em "O Trabalho", não.
Sobreira - A parte de Fellini é muito boa tecnicamente e está servida brilhantemente pelo desempenho de Peppino de Filippo, no papel do Dr. Antônio. O que a prejudica é o tom de certo exagero como Fellini assesta as suas baterias contra as pessoas que o criticaram pelo seu filme "A Doce Vida". A vingança da sua resposta atinge, algumas vezes, o delírio, o que diminui, em consequência, o efeito da sátira.
Stabili - Em "As Tentações do Dr. Antônio", Fellini usou seu talento prodigioso e a técnica cinematográfica, que domina como poucos, para expor ao ridículo os falsos moralistas que condenaram "A Doce Vida" e continuam a fazer a censura moral. Mas não somente para isso. O desabafo de Fellini atinge toda a hipocrisia - nos costumes, moral, instituições, até na arte - e é a favor da liberdade. Sua sátira caricaturesca é terrível, de uma crueldade muitas vezes injusta, e isso de fato diminui a validade da crítica, mas ela é, sem dúvida, a coisa mais inteligente (e mais cinematográfica) de "Boccaccio 70".
Sobreira - O último episódio, dirigido por De Sica, é muito inferior aos demais. Além de apresentar uma narrativa ultrapassada, "A Rifa" peca, sobretudo, pela grosseria e pelo extremo mau gosto, presentes tanto nas situações humorísticas de baixa categoria, como nos diálogos.
Stabili - Concordo inteiramente com você. Chamo a atenção para aquela comparação dos homens de Lugo com animais, quando a câmera passa sucessivamente de um grupo de porcos a um grupo de homens, no começo do episódio.
Sobreira - E como se isso não bastasse, houve a intenção de explorar Sophia Loren não como atriz, mas como mulher possuidora de inegáveis atributos físicos. É uma pena que De Sica e Zavattini tenham caído tanto. Salva-se a apresentação do problema social, que leva uma mulher a submeter-se à humilhante situação de oferecer-se como prêmio de uma rifa.
Stabili - A exploração dos atributos físicos de Sophia se faz dentro da anedota picaresca, e isso não contraria a empresa (inspirada em Boccaccio). A grosseria não é a erótica, e sim a ideológica, e pior do que isso, a da expressão.
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NOTA - "Boccaccio 70" é constituído de 4 episódios. O quarto, de Mario Monicelli ("Renzo e Luciana") foi interditado pela censura da ditadura militar, quando o filme foi lançado neste pobre país. Mas está presente no DVD do filme, lançado já há algum tempo.




quarta-feira, fevereiro 27, 2008

O BEIJO DE UM JOVEM EM MACHADO DE ASSIS


Vale a pena relatar, no ano em que transcorre o centenário de falecimento de Machado, um episódio envolvendo o autor de "Dom Casmurro" e um jovem de quase dezoito anos. O rapaz, sabendo através do "Jornal do Commercio", que Machado estava à beira da morte e querendo conhecer o escritor que admirava, partiu às pressas para a casa dele. Lá chegando, encontrou alguns escritores que faziam vigília a Machado na sala de estar, entre os quais estava Euclides da Cunha. Apesar dos seus apelos, os presentes não lhe queriam satisfazer o desejo. Machado dormia no seu quarto, mas o barulho de vozes o despertou, e, tomando conhecimento do que ocorria, permitiu que o jovem fosse até a ele. O jovem chegou ao lado da cama em que Machado estava, e, sem dizer palavra, ajoelhou-se e lhe beijou a mão. Ainda em silêncio, levantou-se e foi embora. Sem se identificar também aos presentes, aos quais dissera, ao chegar, ser "um grande admirador do escritor".
Isso se deu em 28 de setembro de 1908. No dia seguinte Machado morreria. Em artigo no mesmo jornal, dois dias depois da morte do escritor, intitulado "A Última Visita", Euclides relatou o ocorrido e escreveu : "Naquele meio segundo em que ele estreitou o peito moribundo de Machado de Assis, aquele menino foi o maior homem de sua terra", acrescentando que "qualquer que seja o destino desta criança, ela nunca mais subirá tanto na vida". Quatorze anos depois, "o menino", "a criança", seria um dos fundadores do Partido Comunista Brasileiro. Seu nome: Astrojildo Pereira.
Nascido em Rio Bonito (RJ) em 1890, Astrojildo conservou a admiração por Machado até morrer em 1965, chegando, inclusive, a escrever um livro sobre este, que o jornalista Sérgio Augusto chamou de "um precioso estudo sociológico" em artigo publicado no "Estadão". Também conservou-se comunista, apesar de ter sido expulso do Partidão, pela acusação de ser "um intelectual pequeno-burguês". (Aliás, por manter-se partidário da doutrina comunista, Astrogildo, já um homem enfartado, foi preso pela ditadura militar, em 1964. Solto três meses depois, graças ao empenho de jornalistas, escritores e artistas, no ano seguinte sofreria outro enfarte, dessa vez fatal.)
Ainda segundo Sérgio Augusto, por sua formação literária, apesar de ter abandonado os estudos formais em plena adolescência, Astrojildo atraiu a admiração de "intelectuais tão díspares quanto Otto Maria Carpeaux (que discursou no sepultamento dele) , Gilberto Freyre, Oswald de Andrade e Antonio Candido. Até o ferrenho anti-comunista Nelson Rodrigues reverenciava a figura e a opinião de Astrojildo" E era um homem de fino trato. Antonio Carlos Vilaça, que o conheceu já velho, descreve-o em "Os Saltimbancos da Porciúncula" (Record 1996) , como um homem extremamente doce, gentil, suave e muito discreto.
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NOTA - O artigo de Sérgio Augusto ("O Comunista Que Beijou Machado", de 2001, salvo engano) , está no saite www.digestivocultural.com/, cedido gentilmente a este pelo autor.

quarta-feira, fevereiro 20, 2008

A PANTERA



Conto já publicado neste blogue em novembro de 2006.
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Bonita. Muito bonita. Os olhos bem abertos, agateados, que davam ao rosto um ar de pantera, a boca parecendo ter o tamanho certo - nem grande, nem pequena. Os braços - e aí um pequeno senão na sua beleza - eram um pouco musculosos, assim formados, certamente, por exercícios em uma academia. Quando a viu pela primeira vez, ela surgindo de repente, com o olhar provocador, foi tomado por uma sensação estranha. Um impacto. Ou, antes, um susto pelo inesperado da presença da moça, como algo ameaçador, embora revestido de beleza. Ela estava colada à vitrine da parte lateral de uma perfumaria, localizada num centro comercial. O que sentiu, de tão forte, quase como se percebesse uma ameaça de agressão (e a beleza dela tinha um quê de agressivo), o fez olhar rapidamente para a moça e continuar a caminhada de todo final de tarde, dando várias voltas pelos dois longos quarteirões, no primeiro dos quais se situava aquele centro comercial. Seguiu com a imagem da moça na cabeça. Atingiu o fim do segundo quarteirão, dobrou à direita, passou em frente a um antigo colégio, depois pegou outra vez a direita e foi percorrendo os dois quarteirões do lado oposto, até alcançar outra vez o centro comercial. Era assim todas as tardes, quando começava a escurecer. Ao se aproximar da perfumaria, já se sentia preparado para não sofrer o mesmo efeito de minutos antes e foi até à vitrine, para examinar a moça. E, embora tocado pela agressividade de sua beleza, permaneceu uns dois a três minutos observando detalhadamente o rosto e a mão que segurava um frasco de perfume de nome inglês.
Ao voltar para o apartamento vazio, desfez-se da bermuda, do tênis, da camiseta, enxugou o suor do corpo, escolheu um cd, deitou-se na cama para ouvi-lo. Como fazia todas as tardes, antes de tomar banho e depois o jantar frugal. Mas daquela vez ocorreu uma quebra na rotina. Ouvia as músicas, mas sem a mesma concentração. Em algumas músicas até que a concentração era inteira (talvez porque fossem as de que gostasse mais) , já em outras a imagem da moça se sobrepunha e ele não tinha força para rejeitá-la. Quando mais tarde foi ler, em muitos momentos parecia "ver" a moça presente no relato. Houve uma vez que ao ler a descrição dos olhos de um personagem feminino, imaginou que eles fossem iguais aos dela. Interrompeu a leitura e, com o livro seguro na mão, pôs-se a pensar na moça. E pelo resto da noite não conseguiu livrar-se da sua imagem e teve a certeza, ao deitar-se, de que ela apareceria num sonho. Mas isso não ocorreu.
No dia seguinte, ao despertar o primeiro pensamento foi para ela. Rápido, veio a resolução de tomar a providência de evitá-la, alterando o itinerário da caminhada. Ficou cada vez mais distante da perfumaria, na certeza de que, não vendo a moça, ela sairia da sua cabeça.
A providência deu resultado, mas não imediato, por alguns dias a imagem da moça, o ar de pantera, o rosto de uma beleza perfeita surgiam, de repente, por entre as páginas de um livro, no meio de uma música, na tela da televisão.
Até que um dia ela desapareceu, afinal. Experimentou uma grande satisfação, como se tivesse ganho um prêmio. Com o passar do tempo, livre dela, chegou a pensar em vê-la outra vez, pois acreditava que não iria lhe acontecer mais nada, a não ser a indiferença. Saiu uma tarde disposto a retomar o antigo itinerário, mas, ao chegar a poucos metros da perfumaria, algo estranho o dominou, impedindo-o de seguir. Voltou, então, pela caminho que o levara até ali, continuando a caminhada no sentido das outras tardes. Enquanto andava, percebeu, num misto de decepção e raiva, que não estava de todo livre da presença dela.
Um dia foi ao centro da cidade. Fazia anos que não ia lá, para não ser incomodado pelo barulho dos carros de propagando e do número excessivo de pedintes e de pessoas oferecendo cartões de crédito, empréstimos, entregando papeizinhos de serviços diversos. Mas um amigo lhe dissera que tinha visto numa grande loja o cd que ele procurara, sem sucesso, em outros locais da cidade. Encontrou o cd, após uma busca que levou uns dez minutos, uma única unidade, escondido por outros discos, como se estivesse à sua espera. Pagou-o e, em vez de sair pela entrada, preferiu a porta dos fundos.
Ao passar pela seção de perfumaria, sem uma razão que justificasse o ato, como impelido por alguma coisa da qual não pudesse escapar, desviou a vista para a parede ao lado. E viu. No alto da parede, ela, os olhos parecendo mais agateados, a expressão no rosto parecendo ainda mais agressiva, olhando desafiadora para ele, como se quisesse saltar do pôster para cima dele. Virou-se com tanta rapidez que o corpo perdeu um pouco o equilíbrio e precisou apoiar-se numa prateleira para não cair. Logo em seguida, retomou a caminhada, apressado, esbarrando nas pessoas, sem se desculpar, ansioso para encontrar a saída. E mesmo depois de sair da loja, continuar a andar veloz, quase correndo, como se achasse que a moça tinha saltado do pôster e, tão rápida quanto ele, quisesse alcançá-lo. Nem quando entrou no carro, sentiu-se livre. Em disparada voltou para o apartamento.
E, à noite, sonhou com ela.
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- A mulher da foto é a atriz Simone Simon, no filme "Sangue de Pantera" (Jacques Tourneur/1942)
- O selinho acima, o segundo concedido ao "Luzes da Cidade"por ele, é mais um produto da generosidade do amigo Marco Santos, do blogue Antigas Ternuras

quarta-feira, fevereiro 13, 2008

MEDOS PRIVADOS EM LUGARES PÚBLICOS (Coeurs/2006)


Aos 84 anos, quando parecia já acabado para o cinema, Alain Resnais consegue surpreender com um filme que perturba o espectador e ao mesmo tempo o estimula à reflexão. Adaptado de uma peça teatral que tem o mesmo título do filme em português, Resnais nos apresenta a seis pessoas (três homens e três mulheres) solitárias (mesmo quando envolvidas num relacionamento amoroso, como Dan/Lambert Wilson e Nicole/Laura Montale) , perdidas, em busca de algo que dê um valor significativo a suas vidas, sempre confinadas em ambientes fechados (não há em todo o filme uma única cena externa) , como isoladas do mundo lá fora. Mas não têm êxito na sua busca quase desesperada. Nem mesmo um apartamento que a satisfaça Nicole consegue. Ela vive com Dan, um ex-militar à cata de um emprego, num apartamento de hotel, em cujo bar ele se embebeda todas as noites.
E há a neve. Incessante, vista dos interiores, ela acentua o fardo que aquelas pessoas carregam. A neve funciona também como um elemento de ligação entre as cenas. E já perto do fim, na conversa entre Lionel (Pierre Arditi) e Charlotte (Sabine Azéma) , no apartamento de Lionel, a neve parece estar junto deles, como se ali tivesse penetrado, mercê de um notável efeito técnico, que ainda torna a cena visualmente bela.
É talvez o maior momento do filme, porque além da presença do elemento técnico-estético, naquela conversa Lionel revela um pouco do seu passado; aliás, o único personagem a fazê-lo, já que se se sabe que Dan deixara a carreira militar, o motivo não é explicitado. Além de sabermos que Lionel era dominado pela mãe, uma mulher de temperamento forte, que chegou a expulsar de casa o marido, ocorre algo mais sobre ele: ao falar de um amigo de juventude, com quem aparece numa foto emoldurada que a câmera focaliza rapidamente, deixa a impressão de ser um homossexual.
Esses "corações" , amargurados pela frustração dos desejos, se cruzam no desenrolar da história. Nicole tem mais de um contato com o corretor imobiliário Thierry (André Dussolier) , que trabalha com Charlotte, por quem se sente fortemente atraído. Debruçada sobre a Bíblia, quando não tem cliente para atender, mas alimentando desejos lascivos, Charlotte se chega a Lionel, que a leva para, à noite, tratar do pai enfermo, um velho rabugento e desbocado, do qual só se ouve a voz. E um pouco por causa do seu desejo, e um pouco para se vingar do velho, ela o faz ir parar no hospital. Dan, por sua vez, tem um rápido envolvimento com Gaelle (Isabelle Carré) , irmã de Thierry, mas com idade para ser sua filha. Ela sai à noite com a desculpa de que vai se reunir com amigas, mas, na verdade, vai se encontrar com algum homem, a quem atraiu por um anúncio de jornal.
Se não fica bem próximo dos maiores filmes de Resnais, "Medos Privados em Lugares Públicos" é muito bom, possivelmente o melhor do cineasta desde "Meu Tio da América" (1980) . Que bom seria que ele parasse agora, rematando de forma digna uma bela carreira. No entanto, já está preparando outro.