Foto A Máscara, de Marco Ricca, in 1000imagens**********
Foto A Máscara, de Marco Ricca, in 1000imagens
Apresento, hoje, a vocês a poesia de Arine de Mello Jr, paulista, nascido em 1947, e formado em Direito. São 3 poemas do seu livro "Reflexões dos Momentos" (Scortecci Editora/2007). Arine publicou ainda pela mesma editora os livros "Estes Momentos" (2004) e "Outros Momentos" (2005).OLHAR COM AS MÃOS
sempre quis olhar com as mãos,
olhar sem o tato é ver.
olhar sentindo apenas com as mãos.
com as mãos delicadas para identificar,
com as mãos grosseiras para sobreviver,
assim gosto de olhar,
tocando as linhas da vida,
do amor nas saudades solitárias,
que, às vezes,
mesmo na dolorida ferroada,
no toque onde sou tocado,
nestes dedos entre letras,
nas piratarias como ladrão de desejos,
meu toque nessa contenda,
minhas mãos que vivem te olhando,
sentindo o que sente suas mãos.
olhar sem tocar é apenas ver,
principalmente quando olhamos o que
gostamos sem poder tocar,
sofro olhando para você...
você, que gostaria de me tocar.
MULHER E PECADO
mulher,
uma bela e doce mulher,
o supra-sumo da criação humana,
a vida que dá à vida mais vida,
que dá a vida o que a vida quer,
mais uma doce e bela mulher.
no olho demoníaco do mal,
doce e bela mulher,
assecla do mesmo mal,
tentação pecaminosa da alma que
leva o homem para onde quer.
antagonismo irracional,
mulher que é mulher para ser
uma bela e doce mulher,
não peca sabendo que o pecado
é seu mal,
peca, quando... seu pecado vem do
amor, da obra celestial,
assim é uma bela e doce mulher,
assim peca uma doce mulher,
assim se santifica uma bela mulher,
o resto é exagero do gosto, do jeito,
do jeito que o diabo quer.
BRINCADEIRA DE DEUS
tudo não é o início e nem o fim,
nada, só nada, é o espaço entre esses dois pontos.
iniciando ou finalizando,
considerando os aspectos materiais das
substâncias,
daqui ao mais estremado confim,
de bactérias a dinossauros,
de dinossauros aos antropóides,
das cordilheiras aos grandes mares,
desde o mais alto ao mais profundo,
dos anos aos dois primeiros segundos,
Deus soprando suas bolinhas de sabão, brincava
com a ciência, com as paixões e nossos amores.
só isso,
uma brincadeira de Deus que virou matéria,
que virou uma coisa preocupante, uma coisa séria,
uma coisa que poderá afetar até mesmo outros
mundos,
outros mundos que já se preocupam com o nosso
nada.

Ora, por outras partes do corpo da jovem Claire (Laurence de Monaghan) , mais atrativas, o barbudo diplomata Jerôme (Jean-Claude Brialy, morto há pouco tempo) foi, imprevisivelmente, sentir desejo pelo joelho. É, mas isso acontece. Os joelhos de Nara Leão eram muito apreciados pelos seus admiradoress naqueles anos de 1960. Em um conto, ou romance, de Machado de Assis, o narrador faz uma apologia dos pés de uma mulher. No caso do personagem desse filme de Eric Rohmer, porém, esse desejo parece mais impulsionado por um sentimento estético. Noivo de uma bela moça (que só aparece numa foto) , ele está de férias no campo, na casa em que passa os últimos dias de posse dela, pois já a vendeu a outra pessoa. Pois como ele confessa a Aurora (Aurora Cornu) , velha amiga que ele reencontra depois de alguns anos, e está passando uma temporada numa casa vizinha, as mulheres não mais o atraem pelo físico, mas pelo caráter. O reencontro dos dois enseja uma espécie de jogo de que, embora a contragosto, Jerôme participa. Aurora é escritora. Como alguns dos seus pares, a sua criação não provém da imaginação, mas da realidade da vida, das pessoas. Ela, então, quer escrever a próxima obra tomando o amigo como uma cobaia (é o termo que ela usa e ele o adota também) . Ou seja, ela induz Jerôme a ter um caso com a jovem Laura (Béatrice Romard) , que é meia-irmã de Claire. E nem seria difícil pra Jerôme levar o jogo adiante, pois Laura se sente atraída por ele, num exemplo de inúmeros casos em que uma jovem se apaixona por um homem maduro. Só que ele, apesar de tudo, não deseja que o caso avance e não só por já estar comprometida com outra mulher bem mais velha do que Laura. É o aparecimento de Claire com o seu joelho sedutor.
Porque na cena em que ela e Jerôme ficam sozinhos, abrigados de um temporal, a ambiguidade entre o desejo sexual e o sentimento estético marca presença. Em dado momento, ele pousa a mão no joelho de Claire e começa a alisá-lo por uns dois minutos. No ato, na expressão do rosto de Jerôme e até no respirar de Claire, existe a sugestão de uma relação sexual. Inclusive, em meio à situação, há um corte para mostrar as condições do tempo, e nesse corte, de duração não muito rápida, tem-se a imediata impressão de que os dois irão consumar o ato sexual, mas a cena seguinte mostra que não aconteceu mais nada e Jerôme já retirara a mão do joelho da moça.
"O Joelho de Claire" é o quinto dos seis "Contos Morais" realizados por Rohmer. E qual é a moral desta história? Pode ser mais de uma, de acordo com a visão de cada espectador. Terá Rohmer, numa fina ironia, querido dizer que é conversa fiada essa de que um homem, ainda relativamente jovem, não se interessa mais pelos atributos físicos da mulher, e sim dos seus dotes intelectuais, morais, etc.? Ou, então, que um escritor não deve confiar no caráter e na personalidade de seus semelhantes, acreditando que conhece bem o que vai no íntimo deles, mesmo quando se trata de um velho amigo? Pois é certo que na mente humana existem escaninhos onde se guardam segredos e mistérios impossíveis de ser devassados.
Pelo pouco que conheço da obra extensa desse diretor(apenas 4 filmes) ainda ativo já beirando os 90 , há no seu trabalho um elemento que não me agrada muito, que é o excesso de diálogos. Não há quase aqueles silêncios que, muitas vezes, são mais eloquentes do que as palavras. Nesse particular há uma semelhança com Godard, mas com a diferença de que nos diálogos dos seus filmes não existe a impressão de um exibicionismo de erudição que os filmes do seu colega passam. Essa dialogação intensa confere aos seus filmes um certo ar literário. Mas, ao mesmo tempo, para compensar (ou contrabalançar) esse defeito, Rohmer possui um apuro na forma, na maneira de enquadrar as cenas, na elegância das imagens, na beleza destas. Principalmente quando ele encontra um diretor de fotografia da categoria do cubano (já falecido) Nestor Almendros, que já emprestou o seu grande talento a outros diretores importantes.
Imagem do filme Mãe e Filho, de Alexander Sokurov (1997)


Os créditos são lidos por uma voz em "off". É uma antecipação do tema do filme, que as duas sequências iniciais irão expor. Um rapaz recebe um telefonema anônimo, em que alguém lhe diz para deixar a casa imediatamente, sem nenhuma explicação. Em seguida, uma brigada de bombeiros sai da guarnição com destino à residência do rapaz. O motivo do telefonema e da invasão dos bombeiros é então justificado pela existência de livros no local. Encontrados, entre eles uma edição condensada de "Dom Quixote" (conforme foto acima), eles são levados para fora e ali queimados, sob a presença de cidadãos. Entre estes, um garoto folheia um dos livros, um dos bombeiros lhe lança um olhar de reprovação, o pai (supostamente) do menino, de imediato, tira-lhe o livro das mãos e o atira no meio dos outros. Está-se em um país, numa época de um futuro não determinado, em que a leitura de livros é proibida e a pessoa que os possuir é levada à prisão, enquanto os seus livros vão para a fogueira.
De 1966, este filme de François Truffaut ("Os Incompreendidos", "A Noite Americana") , antes de constituir-se em uma denúncia contra o totalitarismo, é uma declaração de amor ao livro, feita por um cineasta que foi um apaixonado leitor. Mostra a importância, a necessidade, até o prazer da leitura, ao mesmo tempo que investe contra o domínio da televisão sobre os habitantes daquele país. Por sinal que na invasão à residência do rapaz, os livros estão quase todos escondidos em um móvel simulando um aparelho de televisão.
Mas, como em todo regime totalitário, há os resistentes, os que, às escondidas, lutam contra a proibição da leitura. O líder desses combatentes é a jovem Clarisse (Julie Christie). Ela mora perto de um dos incendiários de livros, Montag (Oscar Werner) e, sentindo nele uma pessoa de bons princípios, apesar de sua dedicação àquele intolerante ofício, procura, com habilidade, torná-lo um dos seus. E consegue. Truffaut mostra o início do ingresso de Montag no universo que ele combate numa cena em que, tarde da noite, aproveitando-se do sono pesado da esposa, ele retira de um esconderijo um exemplar do "David Copperfield", de Charles Dickens, e começa a lê-lo. A câmera flagra com nitidez o capítulo inicial, cujo título é justamente "I am born"...
Em entrevista a uma jornalista, Truffaut revela que só aproveitou 60% do livro homônimo do escritor americano Ray Bradbury, lançado em 1953. Os restantes 40% foram criados por ele e Jean-Louis Richard, seu parceiro de roteiro. Uma dessas invenções é o fato de as duas mulheres na vida de Montag, Clarisse e a passiva esposa Linda, serem vividas por Julie Christie. Na sua visão, não funcionaria bem a escolha de outra atriz e com características físicas opostas à de Julie para o papel de Linda. A única diferença entre as duas, no filme, é quanto ao cabelo. Curto, parecido com o de um homem, em Clarisse, longo na esposa de Montag.
Truffaut não o revela, mas acredito que um dos elementos preservados do romance de Bradbury é a existência dos homens-livros. São homens que decoram livros, indo refugiar-se num local distante no país, a salvo das garras dos incendiários, e passam os dias "lendo". Um momento comovente mostra o velho avô, já agonizante, repassando as palavras de um livro para o neto, que as vai repetindo para retê-las na memória. A esse grupo de "leitores" vai se reunir Montag, de posse de uma obra de Edgar Allan Poe. Numa homenagem a Bradbury, um dos homens escolheu o seu "Crônicas Marcianas".
É um belo e emocionante final, cada uma das pessoas dizendo as palavras do livro de sua preferência. Pela memória dos amantes da leitura, as grandes obras da literatura não serão destruídas naquele país.
Rodado na Inglaterra, com atores britânicos, à exceção do austríaco Oskar Werner, que já trabalhara com Truffaut no belíssimo "Jules e Jim", "Fahrenheit 451" (o título refere-se ao grau de combustão ideal para a queima do papel de livro), parece ser um filme subestimado do diretor, e, no entanto, é um dos seus melhores trabalhos.
Este trevo foi concedido a este blogue por uma gentileza do amigo "Eremita", como se assina o editor do blogue eremitério, pela qual sou muito grato.
Há pouco tempo remexendo em meus discos de vinil, para escolher alguns que queria passar para CD, me deparei com um de Sidney Miller, gravado na Elenco em 1967, cujo título era o próprio nome do compositor. De imediato o separei, para levar com outros ao técnico. Tantos e tantos anos não ouvia esse disco, que nem me lembrava que ele fazia parte do meu acervo. Bem recebido pela crítica, foi o primeiro dos apenas três elepês que ele gravou até morrer em 1980, com apenas 35 anos.
Nascido em 18 de abril de 1945, Sidney Miller foi mais um dos grandes talentos que surgiram na década de 1960, para revitalizar a MPB, após o esvaziamento da Bossa Nova. Como Chico, Caetano, Gil, Edu Lobo, Milton Nascimento, entre outros num nível um pouco abaixo.
Esse disco reúne músicas de grande qualidade, como O Circo, Passa, Passa, Gavião, Marré-De-Cy, Meu Violão, Pede Passagem, A Estrada e o Violeiro e Menina da Agulha. Todas as músicas são interpretadas pelo compositor, sendo que na duas últimas citadas há a participação de Nara Leão, formando um dueto com ele. Vale salientar que A Estrada e o Violeiro ganhou o prêmio de melhor letra no 3o. Festival da Record. (Era a época dos festivais de música popular, promovidos por aquela emissora de televisão, os quais, além de divulgarem o lançamento de autênticas pérolas musicais, serviram ainda como uma espécie de trincheira contra a ditadura militar.)
Num pequeno artigo sobre Sidney Miller no saite Revista Música Brasileira, os autores Fernando Toledo e Áurea Alves observam que "Sidney não era um iconoclasta como Caetano: em termos de música, estaria mais próximo de Chico, fazendo uma ponte entre um novo olhar e a herança musical e poética em seu sangue". De fato, há uma certa semelhança entre os dois, que é mais percebível nos sambas e choros de Sidney. Chico poderá ter mais talento, mas, pelo menos na qualidade da voz, é superado pelo colega e quase coetâneo (há apenas a diferença de um ano entre eles.)
Sidney também compôs para o teatro e o cinema. Suas músicas foram interpretadas por, entre outros, Nara Leão, Clara Nunes, Quarteto em Cy, Caetano, Paulinho da Viola e Dóris Monteiro. É lamentável que tenha morrido jovem, quando ainda tinha tanto a contribuir para a nossa música. E o mais lamentável é que tenha morrido por vontade própria. Por motivos que permanecem obscuros, Sidney Álvaro Miller Filho se matou em 16 de julho de 1980. Repetiu o gesto de Assis Valente, autor do clássico Boas Festas, e de Torquato Neto, seu contemporâneo daquele período de trevas em nosso páis.
A seguir, uma pequena amostra do seu talento: a letra de O Circo, a sua melhor música na minha opinião, pelo menos entre as que conheço dele.
************
Vai, vai, vai começar a brincadeira
Tem charanga tocando a noite inteira
Vem, vem, vem ver o circo de verdade
Tem, tem, tem brincadeira e qualidade.
Corre, corre, minha gente
Que é preciso ser esperto
Vai melhor quem vai na frente
Vê melhor quem vê de perto
Mas no meio da folia
Noite alta, céu aberto
Sopra o vento que protesta
Cai no teto, rompe a lona
Pra que a lua de carona
Também possa ver a festa.
Vai, vai, vai, etc.
Bem me lembro o trapezista
Que mortal era o seu salto
Navegando lá no alto
Parecia de brinquedo
Mas fazia tanto medo
Que o Zezinho do trombone
De renome consagrado
Esquecia o próprio nome
E abraçava o microfone
Pra tocar o seu dobrado.
Vai, vai, vai, etc.
Faço versos pro palhaço
Que na vida já foi tudo
Foi soldado, seresteiro
Carpinteiro, vagabundo
Sem juiz e sem juízo
Fez feliz a todo mundo
Mas no fundo não sabia
Que em seu rosto coloria
Todo o encanto do sorriso
Que seu povo não sorria.
Vai, vai, vai, etc.
De chicote e cara feia
Domador fica mais forte
Meia-volta, volta e meia
Meia-vida, meia-morte
Terminado o seu batente
De repente a fera some
Domador que era valente
Noutras feras se consome
Seu amor indiferente
Sua vida e sua fome.
Vai, vai, vai, etc.
Fala o fole da sanfona
Fala a flauta pequenina
Que o melhor vai vir agora
Que desponta a bailarina
Que seu porte é de senhora
Que seu rosto é de menina
Quem chorava já não chora
Quem cantava desafina
Porque a dança só termina
Quando a noite for embora.
Vai, vai, vai terminar a brincadeira
Que a charanga tocou a noite inteira
Morre o circo, renasce na lembrança
Foi-se embora e eu ainda era criança.

