sábado, outubro 27, 2007

TANTOS ANOS (Postagem feita nesta Quarta, 31.10.07)

Foto A Máscara, de Marco Ricca, in 1000imagens
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Fazia uns dois a três minutos que estavam calados. Aquele silêncio que num dado momento, assim de repente, baixa numa conversa entre duas pessoas. Como se os assuntos comecem a faltar, depois de um período longo e ininterrupto de conversa. O olhar do homem não se fixava em nenhum ponto, parecia não encontrar nada que o interessasse, enquanto a mulher curvara um pouco a cabeça. Até que um casal de jovens, num banco próximo, despertou a atenção dele. O rapaz, pernas estiradas, fazendo de cavalgadura para a namorada, os rostos e bocas colados. Olhou para a mulher, que também observava a cena. Ela disse, virando o rosto para ele: "Era tão diferente na nossa juventude". "Pois é"... E retornaram à mudez.
Estavam ali, vindos de uma loja próxima. Ela já ia saindo, com uma sacola, enquanto ele ia entrando, para ir à seção de dvd e cd. Passaram um pelo outro, como dois desconhecidos, até que ele a ouviu perguntar: "É o Carlinhos"? Ele se virou imediatamente, respondeu sim e aproximou-se da mulher de óculos escuros, um pouco gorda, o rosto moreno bem conservado. "Não está me reconhecendo"? Ele examinou o rosto atentamente, não disse palavra, nem precisava dizê-la. Ela levantou os óculos até o início dos cabelos e ali os pousou. Ele continuou o exame e, de repente, como se iluminado por uma luz vinda de um passado distante, a reconheceu. "Letícia, irmã de Leila, não"? Ela sorriu e repôs os óculos. "Tantos anos que não nos vemos". "Tantos". Ele estendeu a mão para ela, que foi recebida com um aperto e uma duração que lhe pareceram além do normal. Com as mãos livres, cada um perguntou como ia o outro e foi aí que ele se lembrou de que ouvira falar em Letícia não fazia muito tempo, ao encontrar um amigo à saída de um banco. "Soube que perdeu o marido, aceite os meus pêsames". E logo se arrependeu do que dissera, pois, detrás dos óculos, vieram lágrimas de Letícia e o tom de voz se alterou. Embaraçado, percebendo que as suas palavras foram inoportunas, pousou-lhe uma mão no braço e se sentiu na obrigação de se desculpar. "Tudo bem", ela disse ainda com a voz chorosa, e, depressa, ele buscou um assunto.
Era um entra-e-sai de pessoas, sempre apressadas, algumas esbarrando neles, uma ou outra sem pedir desculpa. "Está com pressa, Letícia"? "Não, já fiz as compras". "Que tal ficarmos um pouco naquela pracinha"?
E ali estavam há bem uma hora. Letícia ficara sabendo que ele se separara da primeira mulher e vivia com outra. "Naturalmente uma mais nova do que a primeira". Ele deu um sorriso e achou por bem dizer um gracejo: "Cavalo velho, capim novo". "Vocês homens"... "Vocês também não estão ficando atrás. Não vê aquela atriz da televisão que está casada com um homem que tem idade pra ser filho dela"? "Direitos iguais, meu filho". "Ah, o velho feminismo". Surpreendeu-se com a risada de Letícia. Achava que ela iria replicar e iniciar a defesa da igualdade dos direitos do homem e da mulher, mas ela se limitara a rir. Pensou que talvez tenha sido a maneira como falara.
Houve esses momentos de descontração. Mas houve outro momento mais embaraçoso do que quando ele tocara na morte do marido. Carlinhos tinha terminado de falar outra vez sobre Leila, quando Letícia falou um tanto ríspida. "Leila, Leila, Leila. Até parece que não foi você que terminou o noivado. Aliás, ainda hoje é um mistério por que você a largou às vésperas do casamento". Ele não soube o que dizer e, por um momento, ficaram mais uma vez calados. Foi ela que retomou a conversa. "Você nunca notou, não, Carlinhos"? Ele a olhou e de novo o olhar fixo por trás dos óculos. E percebeu o sentido da pergunta, sem a necessidade de uma única palavra.
"Eu era apaixonada por você. Sabe que quando você terminou com a Leila, eu fiquei feliz? Cheguei a pensar que você também estava apaixonado por mim e por isso tinha tomado aquela decisão. Meu Deus, como fui ingênua e burra. E fui a única pessoa da minha família a não recriminar você. Todos lá de casa ficarram possessos com a sua atitude. E, convenhamos, com razão. Um dos meus irmãos disse que se o encontrasse, lhe dava uma surra de você nunca esquecer".
Carlinhos ouvia calado e já sem olhar para Letícia. Às vezes olhava para o casal de jovens, que continuava na mesma posição, incansáveis no seu desejo. Alguns transeuntes sorriam, outros olhavam a cena com indiferença - um fato rotineiro, banal. Depois da confissão de Letícia, não tinha coragem de olhar para ela. Não sabia se ela estava virada para ele, ou se curvara um pouco a cabeça, como há pouco tempo. Uma olhadela rápida no relógio. "Já está ficando tarde. Acho que tenho que ir, Letícia". Desviou o rosto para ela. E foi ela que se levantou primeiro. Ele se levantou e então os seus olhos se encontraram. Aqueles óculos muito escuros o fitavam de uma maneira que o deixou perturbado. (Já na loja, eles tinham lhe provocado a mesma reação.) "Até logo, Letícia". Estendeu-lhe a mão (impossível lhe passar pela cabeça a idéia de dar-lhe um beijinho formal) e acrescentou prazer em rever você. "Igualmente", ela disse e não prendeu a sua mão, como ele chegou a pensar. E os dois se afastaram em direções opostas.

sexta-feira, outubro 26, 2007

A POESIA DE ARINE DE MELLO JR.

Apresento, hoje, a vocês a poesia de Arine de Mello Jr, paulista, nascido em 1947, e formado em Direito. São 3 poemas do seu livro "Reflexões dos Momentos" (Scortecci Editora/2007). Arine publicou ainda pela mesma editora os livros "Estes Momentos" (2004) e "Outros Momentos" (2005).

OLHAR COM AS MÃOS

sempre quis olhar com as mãos,

olhar sem o tato é ver.

olhar sentindo apenas com as mãos.

com as mãos delicadas para identificar,

com as mãos grosseiras para sobreviver,

assim gosto de olhar,

tocando as linhas da vida,

do amor nas saudades solitárias,

que, às vezes,

mesmo na dolorida ferroada,

no toque onde sou tocado,

nestes dedos entre letras,

nas piratarias como ladrão de desejos,

meu toque nessa contenda,

minhas mãos que vivem te olhando,

sentindo o que sente suas mãos.

olhar sem tocar é apenas ver,

principalmente quando olhamos o que

gostamos sem poder tocar,

sofro olhando para você...

você, que gostaria de me tocar.

MULHER E PECADO

mulher,

uma bela e doce mulher,

o supra-sumo da criação humana,

a vida que dá à vida mais vida,

que dá a vida o que a vida quer,

mais uma doce e bela mulher.

no olho demoníaco do mal,

doce e bela mulher,

assecla do mesmo mal,

tentação pecaminosa da alma que

leva o homem para onde quer.

antagonismo irracional,

mulher que é mulher para ser

uma bela e doce mulher,

não peca sabendo que o pecado

é seu mal,

peca, quando... seu pecado vem do

amor, da obra celestial,

assim é uma bela e doce mulher,

assim peca uma doce mulher,

assim se santifica uma bela mulher,

o resto é exagero do gosto, do jeito,

do jeito que o diabo quer.

BRINCADEIRA DE DEUS

tudo não é o início e nem o fim,

nada, só nada, é o espaço entre esses dois pontos.

iniciando ou finalizando,

considerando os aspectos materiais das

substâncias,

daqui ao mais estremado confim,

de bactérias a dinossauros,

de dinossauros aos antropóides,

das cordilheiras aos grandes mares,

desde o mais alto ao mais profundo,

dos anos aos dois primeiros segundos,

Deus soprando suas bolinhas de sabão, brincava

com a ciência, com as paixões e nossos amores.

só isso,

uma brincadeira de Deus que virou matéria,

que virou uma coisa preocupante, uma coisa séria,

uma coisa que poderá afetar até mesmo outros

mundos,

outros mundos que já se preocupam com o nosso

nada.


quarta-feira, outubro 17, 2007

O JOELHO DE CLAIRE (Le Genou de Claire/1970)













Ora, por outras partes do corpo da jovem Claire (Laurence de Monaghan) , mais atrativas, o barbudo diplomata Jerôme (Jean-Claude Brialy, morto há pouco tempo) foi, imprevisivelmente, sentir desejo pelo joelho. É, mas isso acontece. Os joelhos de Nara Leão eram muito apreciados pelos seus admiradoress naqueles anos de 1960. Em um conto, ou romance, de Machado de Assis, o narrador faz uma apologia dos pés de uma mulher. No caso do personagem desse filme de Eric Rohmer, porém, esse desejo parece mais impulsionado por um sentimento estético. Noivo de uma bela moça (que só aparece numa foto) , ele está de férias no campo, na casa em que passa os últimos dias de posse dela, pois já a vendeu a outra pessoa. Pois como ele confessa a Aurora (Aurora Cornu) , velha amiga que ele reencontra depois de alguns anos, e está passando uma temporada numa casa vizinha, as mulheres não mais o atraem pelo físico, mas pelo caráter. O reencontro dos dois enseja uma espécie de jogo de que, embora a contragosto, Jerôme participa. Aurora é escritora. Como alguns dos seus pares, a sua criação não provém da imaginação, mas da realidade da vida, das pessoas. Ela, então, quer escrever a próxima obra tomando o amigo como uma cobaia (é o termo que ela usa e ele o adota também) . Ou seja, ela induz Jerôme a ter um caso com a jovem Laura (Béatrice Romard) , que é meia-irmã de Claire. E nem seria difícil pra Jerôme levar o jogo adiante, pois Laura se sente atraída por ele, num exemplo de inúmeros casos em que uma jovem se apaixona por um homem maduro. Só que ele, apesar de tudo, não deseja que o caso avance e não só por já estar comprometida com outra mulher bem mais velha do que Laura. É o aparecimento de Claire com o seu joelho sedutor.


Porque na cena em que ela e Jerôme ficam sozinhos, abrigados de um temporal, a ambiguidade entre o desejo sexual e o sentimento estético marca presença. Em dado momento, ele pousa a mão no joelho de Claire e começa a alisá-lo por uns dois minutos. No ato, na expressão do rosto de Jerôme e até no respirar de Claire, existe a sugestão de uma relação sexual. Inclusive, em meio à situação, há um corte para mostrar as condições do tempo, e nesse corte, de duração não muito rápida, tem-se a imediata impressão de que os dois irão consumar o ato sexual, mas a cena seguinte mostra que não aconteceu mais nada e Jerôme já retirara a mão do joelho da moça.


"O Joelho de Claire" é o quinto dos seis "Contos Morais" realizados por Rohmer. E qual é a moral desta história? Pode ser mais de uma, de acordo com a visão de cada espectador. Terá Rohmer, numa fina ironia, querido dizer que é conversa fiada essa de que um homem, ainda relativamente jovem, não se interessa mais pelos atributos físicos da mulher, e sim dos seus dotes intelectuais, morais, etc.? Ou, então, que um escritor não deve confiar no caráter e na personalidade de seus semelhantes, acreditando que conhece bem o que vai no íntimo deles, mesmo quando se trata de um velho amigo? Pois é certo que na mente humana existem escaninhos onde se guardam segredos e mistérios impossíveis de ser devassados.


Pelo pouco que conheço da obra extensa desse diretor(apenas 4 filmes) ainda ativo já beirando os 90 , há no seu trabalho um elemento que não me agrada muito, que é o excesso de diálogos. Não há quase aqueles silêncios que, muitas vezes, são mais eloquentes do que as palavras. Nesse particular há uma semelhança com Godard, mas com a diferença de que nos diálogos dos seus filmes não existe a impressão de um exibicionismo de erudição que os filmes do seu colega passam. Essa dialogação intensa confere aos seus filmes um certo ar literário. Mas, ao mesmo tempo, para compensar (ou contrabalançar) esse defeito, Rohmer possui um apuro na forma, na maneira de enquadrar as cenas, na elegância das imagens, na beleza destas. Principalmente quando ele encontra um diretor de fotografia da categoria do cubano (já falecido) Nestor Almendros, que já emprestou o seu grande talento a outros diretores importantes.

sábado, outubro 13, 2007

A MÃE E O FILHO

I Imagem do filme Mãe e Filho, de Alexander Sokurov (1997)

Este texto foi publicado em 17.5.06. Sai outra vez, não apenas por falta de um assunto novo, mas para uma avaliação dos que não o leram na ocasião, ou uma reavaliação dos que o leram.
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Lygia Fagundes Telles tem um conto em que a mãe vai ao cinema com o filho pequeno. Pouco depois de iniciado o filme, um homem senta ao lado da mulher. Ele não é um estranho, que ocupou por acaso aquela poltrona. Aos cochichos, começam uma conversa, com brevíssimas pausas. Parece, não tenho certeza, há tantos anos li esse conto já meio antigo, que os dois chegam a entrelaçar as mãos. Ou o homem pousa a mão no ombro da mulher. O filho está muito atento ao que se passa na tela, mas, em dado momento, começa a estranhar a atitude da mãe. O interesse pelo filme é diminuído, e o garoto o vai alternando entre o filme e o que ocorre ao seu lado. Na sua pouca idade, sente que há algo errado na atenção que a mãe dispensa ao homem. Este despede-se dela poucos minutos antes do término da sessão. Na volta para casa, a mãe diz ao filho para não contar ao pai o que ocorreu no cinema. Não me lembro se lhe promete algum presente (é possível que sim) em troca do seu silêncio. O garoto promete, mas, ao entrar em casa, vai ao encontro do pai e lhe dá um abraço apertado, comovido abraço, exclamando, creio, "papai, papai". Não lhe diz nada. Nem a autora também. É suficiente a reação do garoto. E assim termina esse belo conto de LFT.
Há poucos dias me lembrei desse conto, ao testemunhar um caso semelhante na praça de alimentação de um supermercado. Estava bebendo chope, enquanto esperava minha mulher, ocupada em fazer umas compras. A uma mesa defronte à minha, uma mesa separando as nossas, uma jovem mulher e o filho pequeno almoçavam. Era uma mulher pouco atraente, um pouco gorda, usava óculos, mas possuía a graça da juventude e exibia um decote que, anos atrás, se chamava de generoso. Percebi que comia apenas legumes com arroz, devia estar fazendo regime para perder alguns quilinhos. O garoto, de costas para mim, comia com vontade. Devia ter uns 8 a 10 anos, vestia uma calça comprida e era espigadinho.
Logo observei um rapaz almoçando, sozinho, a uma mesa na mesma fileira da mesa da mulher, separados por uma pequena distância. Ele comia com o mesmo gosto do garoto, mas, embora concentrado no prato, aqui, acolá, dava uma olhadela para a mulher, que parecia não perceber. E aí ocorreu o inesperado: ele interrompeu a refeição, levantou-se e dirigiu-se para a mesa da mulher. O local estava quase lotado, havia um burburinho de vozes, então não pude ouvir o que o rapaz, de pé, dizia à jovem mãe, mas me pareceu que ele a achara muito parecida com outra mulher e lhe perguntava se eram parentes. O rapaz era alto, um pouco corpulento, mas, se não era especialmente bonito, possuía um certo charme. Era atraente. (Gostaria de dizer que a mulher era mais bonita do que ele, mas que fazer? É um relato que aconteceu, não há espaço para a ficção.) Ele deve ter perguntado se podia ocupar a mesa e ela concordou, pois, de repente, voltou à sua mesa, pegou o prato e o suco e foi sentar ao lado do garoto.
E o rapaz e a mulher começaram a conversar animadamente e sem darem descanso às línguas. E foi então que notei. Notei que o garoto espigadinho, com frequência, começou a desviar os olhos do prato para dirigi-los ora à mãe, ora ao homem. Como se, de repente, achasse que alguma coisa não batia bem naquela conversa. (Preciso dizer que a mãe conversava com os olhos fixos no interlocutor, que, certamente, fazia o mesmo.) E a conversa continuou até quando terminaram de comer. Não sei quanto tempo os três ficaram ali, pois logo depois a minha mulher apareceu, terminei o chope e fomos embora.
Mas desde então fiquei pensando no garoto. Será que lhe aconteceu o mesmo que o garoto do conto? A mãe lhe terá pedido que não dissesse ao pai nada sobre a presença do rapaz na mesa? Terá ele também abraçado o pai, quando chegou em casa? É que, como se sabe, a vida, muitas vezes, imita a arte. Mas são apenas hipóteses. Talvez a mãe seja uma mulher separada. Ou viúva, apesar de nova. Não se sabe. Mas, confesso, senti pena do menino.






sexta-feira, outubro 05, 2007

UM FILME, UMA MÚSICA, UMA QUADRINHA


Foto retirada do saite http://expresso.clix.pt/

1) A morte recente do mímico francês Marcel Marceau me remeteu à lembrança do filme de Mel Brooks "Silent Movie" (1976), que, no Brasil, recebeu o título "A Última Loucura de Mel Brooks". É um filme com uma proposta curiosa, que, se não fosse pela irreverência do diretor, poderia ser vista como uma homenagem ao cinema mudo, já expressa no título. E talvez até o seja. É que o filme é sonoro, mas não é falado. Não há falas dos personagens na trama, mas a inserção de intertítulos, como ocorria nos filmes mudos. E por que "Silent Movie" me fez lembrar de Marcel Marceau? Porque ele tem uma participação especial no filme, ao lado de Burt Reynolds, James Caan, Liza Minnelli, Paul Newman e Anne Bancroft, então esposa de Brooks. E a presença de Marceau enseja a maior sacada de "Silent Movie". Ele aparece ao telefone, substituindo a fala pela mímica. Até que em um determinado momento ele grita um "NÃO". É a única fala do filme, dita ironicamente por um artista que se expressava pela mímica. Sem dúvida, um lance inteligente de Brooks, que também escreveu o roteiro. É o seu melhor trabalho como diretor e a curta participação de Marcel Marceau é um dos elementos responsáveis pela qualidade de "Silent Movie".
2) No gigantesco cancioneiro da MPB, não me lembro de uma música de uma fortuna humana, que chega a comover, como "Amigo É Pra Essas Coisas", de Sílvio Silva Júnior e Aldir Blanc. E a estrutura da letra é bem original, ao criar um diálogo entre dois amigos que há muito tempo não se viam, à mesa de um bar. Um deles passa por um momento muito delicado, está despencando para o fundo do poço, envelhecido, desempregado e tendo perdido o amor de Rosa. O outro, melhor de vida, lhe paga bebida, chega a lhe oferecer dinheiro e procura confortá-lo, levantar-lhe o ânimo. Há um momento da conversa em que não vendo uma perspectiva de recuperar o amor de Rosa, o coitado confessa que gostaria de morrer, na esperança de que a sua morte a fizesse sofrer, ao que prontamente o outro reage contra a idéia: "vá atrás"... (A expressão indica que não é para ele ir procurar a mulher, mas que o ato dele não irá surtir o efeito esperado.) O título provém de uma frase do amigo em melhor situação, após o outro lhe agradecer por ter sido ouvido. Que nada, "amigo é pra essas coisas". Um grande exemplo de amizade, de solidariedade a quem está na pior.
Agora me lembro de "Antonico", um samba de Ismael Silva, em que um homem pede a esse Antonico "uma viração pro Nestor, que está vivendo em grande dificuldade". Menciona as qualidades do amigo, integrante de uma escola de samba. É também uma música de forte conteúdo humano, de grande solidariedade, mas sem possuir o vigor de "Amigo È Pra Essas Coisas". E enquanto a música de Ismael, um dos nossos melhores compositores, é um monólogo, já que o interlocutor permanece mudo, a outra é um comovente diálogo entre dois amigos, valorizada pela interpretação do MPB 4.
3) Não sei se os amigos/amigas deste blogue conhecem a quadrinha. Eu a ouvi uma única vez, dita por uma das minhas irmãs, na minha infância, e nunca a esqueci. Não sei se é de um poeta popular, ou se de um anônimo. Há tantas delas de cujos autores não se tem conhecimento. Uma quadrinha simplezinha, como ocorre com todos elas, mas de uma agudeza de conteúdo, que a torna cativante. Ela diz assim:
"Um surdo ouviu
Um mudo dizer
Que um cego viu
Um coxo correr".


sexta-feira, setembro 28, 2007

FAHRENHEIT 451




Os créditos são lidos por uma voz em "off". É uma antecipação do tema do filme, que as duas sequências iniciais irão expor. Um rapaz recebe um telefonema anônimo, em que alguém lhe diz para deixar a casa imediatamente, sem nenhuma explicação. Em seguida, uma brigada de bombeiros sai da guarnição com destino à residência do rapaz. O motivo do telefonema e da invasão dos bombeiros é então justificado pela existência de livros no local. Encontrados, entre eles uma edição condensada de "Dom Quixote" (conforme foto acima), eles são levados para fora e ali queimados, sob a presença de cidadãos. Entre estes, um garoto folheia um dos livros, um dos bombeiros lhe lança um olhar de reprovação, o pai (supostamente) do menino, de imediato, tira-lhe o livro das mãos e o atira no meio dos outros. Está-se em um país, numa época de um futuro não determinado, em que a leitura de livros é proibida e a pessoa que os possuir é levada à prisão, enquanto os seus livros vão para a fogueira.

De 1966, este filme de François Truffaut ("Os Incompreendidos", "A Noite Americana") , antes de constituir-se em uma denúncia contra o totalitarismo, é uma declaração de amor ao livro, feita por um cineasta que foi um apaixonado leitor. Mostra a importância, a necessidade, até o prazer da leitura, ao mesmo tempo que investe contra o domínio da televisão sobre os habitantes daquele país. Por sinal que na invasão à residência do rapaz, os livros estão quase todos escondidos em um móvel simulando um aparelho de televisão.

Mas, como em todo regime totalitário, há os resistentes, os que, às escondidas, lutam contra a proibição da leitura. O líder desses combatentes é a jovem Clarisse (Julie Christie). Ela mora perto de um dos incendiários de livros, Montag (Oscar Werner) e, sentindo nele uma pessoa de bons princípios, apesar de sua dedicação àquele intolerante ofício, procura, com habilidade, torná-lo um dos seus. E consegue. Truffaut mostra o início do ingresso de Montag no universo que ele combate numa cena em que, tarde da noite, aproveitando-se do sono pesado da esposa, ele retira de um esconderijo um exemplar do "David Copperfield", de Charles Dickens, e começa a lê-lo. A câmera flagra com nitidez o capítulo inicial, cujo título é justamente "I am born"...

Em entrevista a uma jornalista, Truffaut revela que só aproveitou 60% do livro homônimo do escritor americano Ray Bradbury, lançado em 1953. Os restantes 40% foram criados por ele e Jean-Louis Richard, seu parceiro de roteiro. Uma dessas invenções é o fato de as duas mulheres na vida de Montag, Clarisse e a passiva esposa Linda, serem vividas por Julie Christie. Na sua visão, não funcionaria bem a escolha de outra atriz e com características físicas opostas à de Julie para o papel de Linda. A única diferença entre as duas, no filme, é quanto ao cabelo. Curto, parecido com o de um homem, em Clarisse, longo na esposa de Montag.

Truffaut não o revela, mas acredito que um dos elementos preservados do romance de Bradbury é a existência dos homens-livros. São homens que decoram livros, indo refugiar-se num local distante no país, a salvo das garras dos incendiários, e passam os dias "lendo". Um momento comovente mostra o velho avô, já agonizante, repassando as palavras de um livro para o neto, que as vai repetindo para retê-las na memória. A esse grupo de "leitores" vai se reunir Montag, de posse de uma obra de Edgar Allan Poe. Numa homenagem a Bradbury, um dos homens escolheu o seu "Crônicas Marcianas".

É um belo e emocionante final, cada uma das pessoas dizendo as palavras do livro de sua preferência. Pela memória dos amantes da leitura, as grandes obras da literatura não serão destruídas naquele país.

Rodado na Inglaterra, com atores britânicos, à exceção do austríaco Oskar Werner, que já trabalhara com Truffaut no belíssimo "Jules e Jim", "Fahrenheit 451" (o título refere-se ao grau de combustão ideal para a queima do papel de livro), parece ser um filme subestimado do diretor, e, no entanto, é um dos seus melhores trabalhos.

sábado, setembro 22, 2007

LEMBRANDO SIDNEY MILLER



Este trevo foi concedido a este blogue por uma gentileza do amigo "Eremita", como se assina o editor do blogue eremitério, pela qual sou muito grato.

pouco tempo remexendo em meus discos de vinil, para escolher alguns que queria passar para CD, me deparei com um de Sidney Miller, gravado na Elenco em 1967, cujo título era o próprio nome do compositor. De imediato o separei, para levar com outros ao técnico. Tantos e tantos anos não ouvia esse disco, que nem me lembrava que ele fazia parte do meu acervo. Bem recebido pela crítica, foi o primeiro dos apenas três elepês que ele gravou até morrer em 1980, com apenas 35 anos.

Nascido em 18 de abril de 1945, Sidney Miller foi mais um dos grandes talentos que surgiram na década de 1960, para revitalizar a MPB, após o esvaziamento da Bossa Nova. Como Chico, Caetano, Gil, Edu Lobo, Milton Nascimento, entre outros num nível um pouco abaixo.

Esse disco reúne músicas de grande qualidade, como O Circo, Passa, Passa, Gavião, Marré-De-Cy, Meu Violão, Pede Passagem, A Estrada e o Violeiro e Menina da Agulha. Todas as músicas são interpretadas pelo compositor, sendo que na duas últimas citadas há a participação de Nara Leão, formando um dueto com ele. Vale salientar que A Estrada e o Violeiro ganhou o prêmio de melhor letra no 3o. Festival da Record. (Era a época dos festivais de música popular, promovidos por aquela emissora de televisão, os quais, além de divulgarem o lançamento de autênticas pérolas musicais, serviram ainda como uma espécie de trincheira contra a ditadura militar.)

Num pequeno artigo sobre Sidney Miller no saite Revista Música Brasileira, os autores Fernando Toledo e Áurea Alves observam que "Sidney não era um iconoclasta como Caetano: em termos de música, estaria mais próximo de Chico, fazendo uma ponte entre um novo olhar e a herança musical e poética em seu sangue". De fato, há uma certa semelhança entre os dois, que é mais percebível nos sambas e choros de Sidney. Chico poderá ter mais talento, mas, pelo menos na qualidade da voz, é superado pelo colega e quase coetâneo (há apenas a diferença de um ano entre eles.)

Sidney também compôs para o teatro e o cinema. Suas músicas foram interpretadas por, entre outros, Nara Leão, Clara Nunes, Quarteto em Cy, Caetano, Paulinho da Viola e Dóris Monteiro. É lamentável que tenha morrido jovem, quando ainda tinha tanto a contribuir para a nossa música. E o mais lamentável é que tenha morrido por vontade própria. Por motivos que permanecem obscuros, Sidney Álvaro Miller Filho se matou em 16 de julho de 1980. Repetiu o gesto de Assis Valente, autor do clássico Boas Festas, e de Torquato Neto, seu contemporâneo daquele período de trevas em nosso páis.

A seguir, uma pequena amostra do seu talento: a letra de O Circo, a sua melhor música na minha opinião, pelo menos entre as que conheço dele.

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Vai, vai, vai começar a brincadeira

Tem charanga tocando a noite inteira

Vem, vem, vem ver o circo de verdade

Tem, tem, tem brincadeira e qualidade.

Corre, corre, minha gente

Que é preciso ser esperto

Vai melhor quem vai na frente

Vê melhor quem vê de perto

Mas no meio da folia

Noite alta, céu aberto

Sopra o vento que protesta

Cai no teto, rompe a lona

Pra que a lua de carona

Também possa ver a festa.

Vai, vai, vai, etc.

Bem me lembro o trapezista

Que mortal era o seu salto

Navegando lá no alto

Parecia de brinquedo

Mas fazia tanto medo

Que o Zezinho do trombone

De renome consagrado

Esquecia o próprio nome

E abraçava o microfone

Pra tocar o seu dobrado.

Vai, vai, vai, etc.

Faço versos pro palhaço

Que na vida já foi tudo

Foi soldado, seresteiro

Carpinteiro, vagabundo

Sem juiz e sem juízo

Fez feliz a todo mundo

Mas no fundo não sabia

Que em seu rosto coloria

Todo o encanto do sorriso

Que seu povo não sorria.

Vai, vai, vai, etc.

De chicote e cara feia

Domador fica mais forte

Meia-volta, volta e meia

Meia-vida, meia-morte

Terminado o seu batente

De repente a fera some

Domador que era valente

Noutras feras se consome

Seu amor indiferente

Sua vida e sua fome.

Vai, vai, vai, etc.

Fala o fole da sanfona

Fala a flauta pequenina

Que o melhor vai vir agora

Que desponta a bailarina

Que seu porte é de senhora

Que seu rosto é de menina

Quem chorava já não chora

Quem cantava desafina

Porque a dança só termina

Quando a noite for embora.

Vai, vai, vai terminar a brincadeira

Que a charanga tocou a noite inteira

Morre o circo, renasce na lembrança

Foi-se embora e eu ainda era criança.

sábado, setembro 15, 2007

COISAS DO CEARÁ





O primeiro selinho foi concedido a este blogue por gentileza de Marco Santos, editor do excelente "Antigas Ternuras". O segundo saiu por um equívoco meu. Peço desculpas a Marco pela "intrusão" do "thinking blogger AWARD" e aproveito para agradecer a Bené Chaves, de "O Apanhador de Sonhos", por me orientar a "colar" o selinho.








Composta por Guio de Moraes e interpretada por Luiz Gonzaga, dois pernambucanos, a música "No Ceará Não Tem Disso Não" fez sucesso no início dos anos 1950. A letra fala das queixas de um cearense estabelecido no Rio de Janeiro, então capital do país, de coisas que o incomodam naquele lugar e da sua intenção de voltar para a sua terra. Poque "no Ceará não tem disso não". Na forma de um refrão, essas palavras são repetidas ao longo da letra. Não me lembro de que coisas eram essas que aconteciam no Rio e não no Ceará, na visão do meu conterrâneo (tinha 8 anos quando a música foi lançada, tendo me ficado na memória apenas o refrão) e não me dei ao trabalho de pesquisar a composição, por achar desnecessário para o propósito deste texto. Porque lá no Ceará existem coisas que parecem ser exclusivas daquela terra. Como se diz, ao falar em futebol, que há coisas que só acontecem ao Botafogo.

Ora, imaginem um lugar onde o Sol foi vaiado numa manhã, me parece, da década de 1940. Não é uma invencionice, um produto do imaginário anedótico cearense, mas um fato real. Inspirou, inclusive, uma peça de um teatrólogo de lá. Durante três dias choveu sem parar em Fortaleza, inibindo a aparição do sol. No quarto dia, ao alvorecer, uma pequena multidão se reuniu na Praça do Ferreira, no centro da cidade, esperando que o sol, afinal, desse o ar da sua graça. E quando, depois de três dias, ele surgiu, foi recebido sob uma estrondosa vaia.

No feriado de 7 de setembro estava em Fortaleza. Perto do fim da tarde fui com um amigo à orla marítima, conhecida por Beira-Mar, talvez o point mais frequentado da cidade, repleto de restaurantes e bares, para conversarmos embalados por uma cerveja amiga. E foi no meio da conversa que ele me informou que ali perto de onde estávamos existe uma praça dos estressados e me convidou pra irmos até lá, depois que findássemos o bate-papo.

Pois é, em Fortaleza existe uma praça dos estressados. No duro, no duro, não é uma praça, mas um pequeno local, saindo um pouco do calçadão, com alguns bancos, de frente para um restaurante, a poucos metros da praia. Uma placa grande pendurada num poste indica que ali é a "Praça dos Stressados" (assim grafado), com um esboço de um desenho de uma boca sorrindo, uma frase "caminhe sorrindo" e a informação de que o local é mantido por um grupo de estressados. Conforme o meu amigo, os "stressados" , cujo número vem aumentando dia a dia, se reúnem todas as manhãs ali na "praça", depois de fazerem o Cooper. Chegam até a medir a pressão arterial, decerto com o aparelho respectivo levado por algum deles (provavelmente um médico).

É, tem dessas coisas o Ceará.


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UMA MISTURA QUE NÃO DEU CERTO


"O Labirinto do Fauno" (El Labirinto del Fauno/2006), recém-lançado em DVD, passa-se na Espanha de 1944, quando a Guerra Civil Espanhola já chegara ao fim com a vitória das forças franquistas. Um grupo de guerrilheiros ainda opõe resistência numa certa região do país e para combatê-lo encastela-se no local uma milícia comandada pelo endemoninhado capitão Vidal (Sergi López). O diretor mexicano Guillermo Del Toro, também autor do roteiro dessa co-produção entre a Espanha e seu país, achou por bem não abordar apenas esse foco temático. Talvez por entender que o tema já tivesse sido muito explorado, ou pela pretensão de fazer algo novo, diferente, introduziu no roteiro um conto de fadas, com a presença de um fauno, que mantém um, digamos, relacionamento com a menina Ofélia (Ivana Baquero), enteada do capitão. E o filme alterna cenas da vida real com cenas do conto de fadas vivido pela garota, com a pretensão de mostrar, igualando-os, os horrores da guerra (embora já encerrada) com os da fantasia. A mistura não deu certo. A questão não é a opção do diretor-roteirista, mas a forma por ele proposta. Não é crível a presença de personagens de um conto infantil (no caso do fauno, mitológico) fazendo parte da realidade, como se o fauno e um homem horrendo, sem olhos, fossem humanos tanto quanto os personagens do outro lado de labirinto. (Aliás, a presença de um labirinto naquela região já é uma forçação de barra.) Seria mais verossímil que as situações vividas por Ofélia fossem fruto de sua imaginação estimulada pela excessiva leitura de histórias infantis, ou de um sonho-pesadelo. Não é o que acontece, e o filme chega quase ao ridículo quando mostra o capitão no labirinto, presenciando o encontro entre Ofélia e o personagem sem olhos, que exige que ela lhe dê em sacrifício o irmãozinho recém-nascido que carrega nos braços e com ele quer fugir daquela região. Da forma concebida por del Toro, "O Labirinto do Fauno" está longe de ser o grande filme que ele está convencido de ter realizado, como afirma, jubiloso, nos "Extras" do disco.

domingo, setembro 09, 2007

O PRISIONEIRO

Este conto foi aqui publicado em 12.04.05. Faz parte do meu livro "Não Enterrarei Os Meus Mortos", editado pela Fundação José Augusto, de Natal, em 1980.
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Eu tinha dormido mal na noite anterior. Por sorte era um sábado, assim eu podia recuperar as horas de sono perdidas. Então, pedi à minha mulher, quando ela se levantou, que trancasse a porta e jogasse a chave pela fresta. Pedi também que depois que as crianças tomassem o café, fossem levadas para passear. Ela fazem muito barulho e não devia ser perturbado. Eu ainda não estava dormindo, ouvi nitidamente a chave ser passada e atirada para dentro do quarto. Ainda ouvi algum barulho das crianças e a advertência da minha mulher de que não deviam perturbar o sono de papai. Pouco depois não ouvi mais nada, então adormeci de vez. Já passava das onze quando acordei. Ainda permaneci deitado uns dez minutos, depois me levantei e me encaminhei para o banheiro. De volta ao quarto, troquei de roupa e calcei os sapatos. Eu cantarolava, estava de bom humor, com o sono em dia e um banho reparador. Estava em forma para a cervejada dos sábados, com um grupo de amigos. Já passava das doze, tinha que me apressar, eles já estariam me esperando. Corri para a porta, me abaixei para apanhar a chave e não a achei por ali. Podia ser a pressa, que nos cega os olhos nessas ocasiões. Sofreei a ansiedade e, lentamente, procurei a chave pelo quarto inteiro. Até debaixo dos móveis esquandrinhei. Babau. Pensei: talvez sonhasse que a chave fora atirada pela fresta da porta, como havia pedido à minha mulher. Quem sabe ela não a tivesse guardado, no caso de precisar retirar alguma coisa do quarto? Ia ser isso. Então, chamei minha mulher. Ela custou a me ouvir, mesmo que gritasse a ao mesmo tempo batesse na porta, pois as crianças faziam barulho e, ainda por cima, o televisor estava ligado. Eu lhe perguntei se havia ficado com a chave, porque não a encontrava. Ela respondeu que jogara a chave pela fresta, do jeito que lhe recomendara. Bem, aqui no quarto é que não está, disse um pouco nervoso. Já procurei embaixo da cama, do guarda-roupa e do penteador, já procurei pelo quarto todo e nada. Pois eu fiz do jeito que você mandou, ela tornou a dizer. A gente era capaz de passar o dia nesse puxa-encolhe, eu dizendo que a chave não estava no quarto, ela repetindo que a havia jogado pela fresta. O certo era providenciar para sair dali.
Então eu lhe pedi que experimentasse outra chave. Ela se afastou, com pouco voltou com outras chaves, que passou a meter na fechadura. Nenhuma serviu. Sugeri que tentasse com as chaves do vizinho. Enquanto isso, imaginava uma maneira de sair. Através das duas janelas - a do quarto e a do banheiro - era impossível, por serem cercadas por uma grade de ferro, externamente. A não ser que se derrubasse a grade de uma das janelas, mas isso resultaria numa solução apenas parcial, já que eu conseguiria sair, mas, com a porta fechada, continuaríamos sem manter ligação com o quarto. A minha mulher reapareceu com um molho de chaves, experimentando-as, sem êxito. Já começava a me enervar. Por desencargo de consciência, dei outra busca minuciosa. Em vão. A minha mulher também estava se enervando e ameaçou surrar as crianças, se continuassem a fazer zoada. Lhe pedi que procurasse manter a calma, para não complicar ainda mais a situação. Foi aí que me lembrei do revólver. Ora, por que não tinha pensado nele antes? Com um tiro ou dois, arrebentava a porta, como vi milhões de vezes no cinema. Eu guardava o revólver no meu escritório, numa das gavetas do birô, trancada, fora do alcance das crianças. Pedi à minha mulher que me desse ele através da janela, mas depressa ela apagou o meu fogo, me lembrando que o havia emprestado ao compadre Atílio. É mesmo. O compadre Atílio teve que fazer uma viagem inesperada e me pediu o revólver. Já nem me lembrava mais.
As horas voavam. Os amigos já estavam reunidos em nossa mesa cativa. Há muitos anos nos reuníamos naquele bar, frequentado por pessoas que gostavam de uma boa música. Cantávamos, batíamos belos papos, saíamos com disposição para enfrentar os cinco dias chocos que tínhamos pela frente. Não fosse por esses momentos felizes, aguardados ansiosamente, minha vida e a dos meus amigos (e de muita gente, creio) perderia toda a motivação. Por aí se vê que não devia estar gostando nem um pouquinho da condição de prisioneiro. A mulher e as crianças estavam almoçando. Não tinha um tico de fome, só queria sair dali e continuava a bolar planos de fuga. Não podia nunca supor que, além da minha mulher, a nossa empregada estava preocupada com a minha prisão e até chegara a ter uma idéia, que comunicou a sua patroa. A mocinha pensou logo no Homem de Aço. Esse tal era um tarzan que estava se exibindo na cidade, capaz, segundo a publicidade, de arrastar um jipe desses antigos e partir um bloco de pedra com as mãos, além de outros prodígios de força física. Para a nossa empregadinha, no homem estava a solução, e o pior é que a minha mulher aceitou a sugestão. Foi duro convencê-la do trabalho que seria localizar o Homem de Aço e que, depois de tudo, ele podia achar uma humilhação ser chamado para botar abaixo uma simples porta.
Pouco depois, o meu vizinho apareceu com uma faca e um martelo. Ao chegar em casa, a mulher lhe contara sobre mim. Um seu conhecido tinha ficado uma vez preso num quarto e alguém abrira a porta com o auxílio de uma faca e um martelo. Vamos ver se dá certo com você também, ele me disse. Apenas por polidez, eu lhe pedi que não se incomodasse, mas ele disse que não era incômodo nenhum me ajudar a sair da enrascada e que estávamos no mundo para nos ajudarmos mutuamente. Taí um cara raro hoje em dia. Fiquei envergonhado por não ter me esforçado para que nosso relacionamento nunca tivesse ido além de um bom dia. Talvez me achasse um grandessíssimo besta, enfurnado em casa ao voltar do trabalho, a cara colada nos livros, em vez de fazer amizade com os vizinhos. Tinha toda a razão de ficar lá na casa dele, se divertindo com a minha sorte, e, no entanto, estava ali suando para abrir aquela porta. O som do martele batendo no cabo da faca repercutia no quarto e eu pensava numa maneira de me penitenciar, por ter desprezado a amizade daquele vizinho. Dagora em diante ele seria um dos amigos que se sentariam à nossa mesa aos sábados, à qual só têm acesso as pessoas por nós escolhidas rigorosamente. E nem seria necessário que ele partilhasse de nossos gostos e de nossas idéias, ele só não participaria de nossos encontros se não quisesse.
Outros vizinhos tinham também deixado suas casas e estavam ajudando o homem, na base de sugestões e no revezamento das marteladas. O corredor devia estar cheio de gente. Pelo tom de voz das pessoas, dava para sentir que elas estavam tensas, tanto quanto eu. Quando finalmente a porta abriu-se, ouvi um grito uníssono de alegria, mais ou menos como acontece quando a energia elétrica retorna aos lares à noite. O meu vizinho escancarou a porta e uma rajada de vento invadiu o quarto, como a anunciar a chegada da liberdade. Minha mulher caiu nos meus braços, as crianças me fizeram festas, os vizinhos também me abraçaram. Eu não disse uma palavra, nem esbocei o menor gesto de retribuição àquelas efusões de carinho. Parecia uma estátua, de tão emocionado.
Natal, 1978.

sexta-feira, agosto 31, 2007

TRIO


1) Foi no lançamento do livro de um contista cearense, radicado em Mossoró, no interior do Estado. Depois de obter o autógrafo do autor, fui me reunir com Bené Chaves, Bartolomeu Correia de Melo e esposa. Conversa puxando conversa, em dado momento entrei no assunto desse chamado politicamente correto. Essa invenção de substituir o uso de certas palavras por outras, com a intenção de não ferir ou melindrar pessoas, ou até de eliminar, se é que isso é possível, preconceitos. Como no caso de chamar de negro alguém de cor. Sei que existe preconceito de cor (ou racial) neste país cada vez mais cheio de bandalheiras, mas muitas vezes se diz "nego", ou "neguinho", ou "nega", ou "neguinha" sem que haja o intuito de ofender. Bom. O certo é que cego passou a ser "deficiente visual", surdo, "deficiente auditivo" e por aí vai. Que me perdoem os que não pensam como eu, mas acho isso , além de bobo, pedante. E foi então que Bartolomeu, que além de excelente contista, (os amigos/amigas visitantes deste blogue já tiveram a chance de apreciar a sua prosa) , a maior revelação de ficcionista no RN nestes últimos anos, é muito brincalhão, divertido, uma pessoa com quem vale a pena conversar, saiu-se com esta: "E corno agora não é mais corno. É chamado de terceirizador de serviços conjugais". "Como é, Bartola", perguntei. Ele repetiu: "Terceirizador de serviços conjugais". Não pude controlar a risada.
2) Ao sairmos de casa, nos deparamos com coisas das mais variadas espécies. E não raro com a má educação daqueles que se sentem donos do mundo quando estão dirigindo. Esta semana presenciei uma cena curiosa. Próximo do final da tarde me dirigia para o centro da cidade, através da rua Trairi, quando fui obrigado a parar o carro em frente a uma escola. Um carro já estava parado à frente do meu. Um grupo de criancinhas, de 3 pra 4 anos, no máximo, iam saindo da escola para atravessarem a rua. Deviam ser umas quinze, dos dois sexos, por aí. Elas caminhavam em fila indiana, cercadas por uma corda, que era puxada por uma professora. De tão curioso vendo aquelas coisinhas (perdoem o "politicamente incorreto") caladas, levadas pela mulher, tive vontade de saltar do carro pra satisfazer a minha curiosidade. Mas era impossível, a rua é movimentada e já havia outros carros atrás. Mas até agora fiquei com aquela cena na cabeça e me perguntando o que ela significava.
3) Passam semanas, passam meses, e a programação dos cinemas dos shoppings Midway e Praia Shopping continua ruim. Já nem me lembro qual foi o último filme que vi na telona. E 99,99% constituída de filmes americanos. Só um ou outro filme brasileiro, quase sempre de uma qualidade que não nos anima a sair de casa. Filme europeu, ou asiático, nem pensar. Só se for um de Almodóvar. Até uns 3, 4 anos atrás, um dos 2 cinemas do Natal Shopping apresentava uma chamada sessão de arte, às terças, 21 horas. Nem sempre eram filmes "de arte", mas, de todo modo o filme ali exibido era uma opção para pessoas que não apreciam baboseiras. Mas resolveram fechar os dois cinemas. E, então, ficamos órfãos de filmes de qualidade. Como não há solução à vista, o jeito é recorrermos às vídeolocadoras ou adquirir DVDs. É uma lástima, como gostava de dizer o meu pai.

sábado, agosto 25, 2007

O ALUCINADO (El/1953)


É junto com "If"... (1968), de Lindsay Anderson, o título de filme mais diminuto da história do cinema, o mesmo, aliás, do livro da escritora espanhola Mercedes Pinto, do qual o filme é adaptado. E o mais bizarro. Como se sabe, "El" corresponde ao nosso "O". "O" o quê? No caso, refere-se ao personagem Francisco Galvan (Arturo de Córdova), e o fato de não haver nenhuma palavra que complete o artigo, como no título em português, oferece ao espectador a oportunidade de situar Francisco em algumas características próprias de um homem mental e psiquicamente enfermo. Não é apenas a questão do ciúme doentio. Na verdade, à medida em que a história se desenvolve, ele vai se desvendando ao espectador como um paranóico, um fetichista, e com uma frequente oscilação de humor no relacionamento com a esposa Gloria (a bonita e fina Delia Garcés), que num piscar de olho pode passar do afeto para a agressividade até física. Além disso, Francisco é vítima de uma idéia fixa, a de recuperar antigos terrenos da família desapropriados.
"O Alucinado" começa numa igreja. É a época da Semana Santa e está sendo realizada a cerimônia de lava-pés. Francisco está entre os homens que auxiliam o padre, colocando a água na bacia. A câmera flagra o olhar atento de Francisco para os pés que são lavados e, em seguida, desloca o seu olhar para os sapatos de Gloria, primeiramente juntos com os de outras mulheres e depois se detendo nos dela.
É bem de Buñuel que a paixão de Francisco por Gloria se inicie numa igreja e que ele seja um homem religioso. O seu anticlericalismo leva-o a criticar a outra face daqueles homens que têm a religião como uma fachada para merecerem o respeito e a admiração das pessoas, sobretudo as do clero. O padre jamais irá acreditar em Gloria quando ela vai lhe relatar a conduta cruel, perversa e violenta do marido. Nem a própria mãe dá credito às suas queixas. Somente Raul (Luís Beristáin), o ex-noivo, acredita nela. Aliás, o reencontro dos dois, a partir do qual, por meio de um flashback, Gloria conta o seu relacionameno com Francisco, me parece algo artificial, inclusive com um toque de melodrama (ela é quase atropelada pelo carro que ele dirige), um escorrego do roteiro escrito por Buñuel, em parceria com Luís Alcoriza.
É na mesma igreja que o estado psíquico e mental do personagem atinge o grau máximo. Em um casal que avista entrando na igreja ele acredita que são Gloria e Raul e vai atrás deles. Vendo que se enganara, deixa-se ficar num banco e, a partir de um dado momento, começar a "ouvir" e a "ver" dos fiéis risadas e gestos zombeteiros. Quando "percebe" que o velho padre, tão seu amigo, participa também da assuada, não se contém e parte para agredir o sacerdote. É quando este conclui que o seu amigo está muito enfermo.
"O Alucinado" é um filme na medida para os que se dedicam à psiquiatria e à psicanálise. Jacques Lacan, por exemplo, tinha um grande apreço por ele, conforme o demonstrou numa longa conversa com Buñuel. Lacan, inclusive, participou de uma sessão do filme, cujos espectadores eram todos seus colegas. É o que o diretor revela no seu livro "O Meu Último Suspiro".
Não podemos saber até que ponto a construção do personagem pertence à autora do romance e a parte que cabe a Buñuel, já que não conhecemos o livro. Mas pelo que conhecemos da filmografia do espanhol, que passou grande parte da sua vida no México e lá faleceu, ele certamente acrescentou ingredientes à composição desse doente Francisco Galvan. E a sua marca autoral é percebível, sobretudo, no propósito de, através do personagem, incomodar, perturbar, causar impacto no espectador, o que ele fez desde o seu primeiro filme, "Um Cão Andaluz", em 1928. Se isso é uma das funções da arte, Buñuel é um dos seus mais expoentes arautos.
Pode-se dizer, sem medo de errar, que a presença forte da religião no filme, que começa e termina num local religioso (no caso do final, num mosteiro, onde Francisco foi parar, depois de se tratar numa clínica), é da responsabilidade dele. E a cena que encerra "O Alucinado", com Francisco vestido de monge, com o capuz cobrindo a cabeça, caminhando em ziguezague, é buñueliana por excelência.

sábado, agosto 18, 2007

20 ANOS SEM CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE


Completaram-se, ontem, 20 anos da morte de Drummond. Não vou falar do poeta, que grande parte da crítica considera o maior da literatura brasileira; não só porque tudo já foi dito sobre a sua poesia, mas também por me faltar a autoridade de inúmeros exegetas que sobre ela se debruçaram. Acho necessário falar alguma coisa do homem, que foi também extraordinário, do pouco que sei dele.
Há poucos dias li no saite do Estadão uma matéria que tratava da amizade de Drummond com o marido da sua filha Julieta, uma amizade que continuou mesmo depois da separação do casal. E que teve início quando o argentino Manuel Graña Etcheverry escreveu a Drummond comunicando a decisão de se casar com a filha dele. É uma carta em que o insólito, o inusitado, o imprevisível dão o tom. É que ao se dirigir ao já consagrado poeta, ao invés de assinalar as suas qualidades, Etcheverry optou por revelar ao futuro sogro todos os seus defeitos. Uma só das suas qualidades, que tivesse, foi omitida. Pois bem. A atitude daquele homem retratando apenas o seu lado negativo conquistou o coração do poeta e este o demonstrou na resposta imediata à carta. Ainda vivo, com 91 anos, Etcheverry fala comovido do amigo. Do respeito deste pela vida até de um inseto ("quando aparecia uma barata, ele a empurrava suavemente com um jornal, até que ela saísse para a rua") e do gesto com que Drummond o distringuiu, escolhendo-o para tradutor da sua poesia para o espanhol.
Drummond, o simples. Uma vez um colega, também mineiro, que viera transferido para Natal, me disse que quando trabalhava no Rio, viu muitas vezes o Poeta esperando pacientemente numa fila enorme para ser entendido. Aqui nesta cidade do Natal existe poeta que não tem condição de amarrar os cordões dos sapatos de Drummond que jamais passaria pelo desconforto de passar muito tempo numa fila. E ele há muito um nome consagrado, reverenciado até pela crítica estrangeira. Quando quiseram colocar uma placa com o seu nome na rua onde morava em Copacabana, não houve quem o fizesse aceitar essa pequena, mas justa, homenagem. Também recusou o prêmio de Intelectual do Ano que lhe outorgaram em certa ocasião. E convidado dezenas de vezes para ingressar na Academia Brasileira de Letras, manteve-se firme na sua decisão de não se tornar um "imortal".
Drummond, o corajoso. Em 1965, ou 66, Nara Leão, outra corajosa, criticou a ditadura militar e correu o risco de ser enquadrada na chamada Lei de Segurança Nacional. Ele, nas páginas do Jornal do Brasil, em que escrevia a sua crônica semanal, fez um longo poema defendendo Nara e prestando-lhe a sua valiosa solidariedade. Quando completou oitenta anos, recebeu um balaio de cartas parabenizando-o pela data e respondeu a todas. Um pouco antes este beradeiro de Canindé lhe enviou um livro e dele recebeu uma cartinha, pouco mais de um bilhete, agradecendo a remessa do livro e me estimulando com um generoso elogio.
Em meio a várias comemorações pelos vinte anos da morte de Drummond, será lançado, no próximo ano, um documentário sobre ele, concebido e realizado pelo neto Pedro e Maria de Andrade, filha do cineasta Joaquim Pedro de Andrade, o mesmo que, inspirado num poema de Drummond, realizou o seu melhor filme, "O Padre e a Moça".
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Drummond e "A Aventura", de Antonioni.
O Poeta era um grande cinéfilo. Greta Garbo era o seu xodó entre as atrizes. Adorava Chaplin, sobre quem escreveu o belíssimo "Canto ao Homem do Povo Charlie Chaplin". A título de curiosidade, veja-se abaixo o que ele escreveu sobre o filme do cineasta recentemente falecido. O comentário faz parte do livro "O Observador no Escritório" (Editora Record/2006), uma publicação de um diário que ele manteve entre os anos de 1943 a 1977.
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"Outubro, 29 [1961] - L' Avventura, de Antonioni, no Art-Palácio. Sem dúvida um filme excepcional, mas que nos deixa insatisfeitos. A mestria técnica e a beleza das imagens servem a uma história que não chega a impressionar, como se faltasse um elemento de vida autêntica às personagens ou ao diretor que as movimenta. A busca de Ana, na ilha, não é uma busca, mas um e vir inconvincente. De resto, em nenhum momento do filme tive a sensação de busca. Antonioni descreve os movimentos do amor sem participar deles nem pretender, aparentemente, que os espectadores participem. Não obstante a extensão do filme e a monotonia de algumas cenas, mantive-me interessado - não sei como consegui. Talvez nos sintamos obrigados a admirar um criador de arte, mesmo quando ele não nos satisfaz plenamente".

sábado, agosto 11, 2007

A POESIA DE LI PO


O amigo Horácio Paiva, poeta, de quem já publiquei aqui diversos poemas, me enviou 4 poemas do poeta chines LI PO (701-762), com tradução de José Jorge de Carvalho. Ei-los.
O TEMPLO DO CUME
Passo esta noite no Templo do Cume.
Aqui eu poderia apanhar as estrelas com a minha mão.
Não ouso alçar a voz em meio ao silêncio,
com medo de perturbar os habitantes do céu.
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A MONTANHA CHING-TING
Bando de pássaros revoaram alto e distante;
um floco solitário de nuvens cruzou o azul.
Eu me sento sozinho com o Pico Ching-Ting,
imponente em seu cume.
Jamais nos cansamos um do outro,
a montanha e eu.
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OLHANDO AS CATARATAS NO MONTE LU
A luz do sol queima o Pico do Incenso
e faz surgir uma fumaça violeta.
De um ponto distante observo a catarata
mergulhar no rio imenso.
Vejo as águas em vôo descendo mil metros em linha reta
e me pergunto se não é a Via Láctea que se precipita
da nona esfera do céu.
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BEBENDO À LUZ DA LUA
Um jarro de vinho entre as flores,
bebo sozinho - nenhum amigo me acompanha.
Alço minha taça, convido a lua
e minha sombra - agora somos três.
A lua não bebe
e minha sombra apenas imita meus gestos.
Mesmo assim, são elas as minhas companhias.
É primavera, tempo de festa -
canto, a lua escuta e cintila;
danço, minha sombra se agita, animada.
Enquanto estou sóbrio, juntos estamos os três;
quando me embriago, cada um segue seu rumo.
Selamos uma amizade que nenhum mortal conhece.
E juramos nos encontrar no mundo além das nuvens.

sábado, agosto 04, 2007

BERGMAN E ANTONIONI


Conheci primeiro o cinema de Antonioni, com aquele que é considerado por muita gente o seu maior filme: "A Aventura". E não gostei. Por certo porque carecia do conhecimento estético e da visão crítica daquele tipo de filme, embora já tivesse o interesse voltado para filmes que não visassem apenas ao sucesso comercial. Isso ocorreu quando ainda morava no Ceará e só uns 40 anos depois fui revê-lo em DVD, e aí pude perceber a sua grandiosidade. A única restrição que faço a ele, nas duas vezes em que o revi, é quanto à extensão da sequência na ilha, que me parece um tanto longa. Com poucos dias da minha chegada a Natal, vi "A Noite", que foi debatido numa reunião dos sócios do Cineclube Tirol. Não fiquei tão entusiasmado quanto os meus colegas pelo filme, mas a impressão foi infinitamente mais favorável do que sobre "A Aventura", visto 2 ou 3 anos antes. E vieram "O Eclipse", "O Grito" (que coloco logo depois de "A Aventura"), "Blow-Up" (exibido na sessão do Cinema de Arte promovido pelo Cineclube Tirol, antes de ser lançado no circuito comercial), "O Dilema de Uma Vida" e outros.
Deve ter sido em 1966 que fui apresentado a Bergman. Era "A Fonte da Donzela", que, se não me decepcionou, não me entusiasmou. Esperava muito mais de um cineasta de quem ouvia as melhores referências. E quando o revi em vídeo, a impressão foi quase a mesma. Tenho a convicção, e acho que não é só minha, que é um dos filmes menores dele.
Bergman e Antonioni. Qual foi o maior? Difícil dizer. Aí é uma questão subjetiva, pessoal. A mim, por exemplo, agrada bem mais o cinema do sueco, mas gosto de alguns filmes do italiano, inclusive de sua estréia no longa, "Crimes d'Alma", que vi em vídeo. O que é inquestionável é que ambos fazem parte do Olimpo cinematográfico. Sem eles, o cinema-arte teria sido menos rico. Quais outros dos seus pares seriam capazes de criar obras como as já citadas de Antonioni, e, de Bergman, "Morangos Silvestres", "O Silêncio", "O Sétimo Selo", "Persona", "Gritos e Sussurros", "Noites de Circo", "Fanny e Alexandre", além de outras inferiores a estas, mas, ainda assim, de qualidade?
Um fato que chama a atenção em Bergman é que sendo também um artista de teatro, tendo dirigido, segundo consta, 125 peças, os seus filmes não tenham a influência da linguagem teatral, como acontecia com alguns filmes de Visconti, também ligado ao teatro, inclusive o operístico. E curioso: o Bergman de filmes que abordavam temas como a morte, a velhice, os conflitos familiares e amorosos, os sentimentos, foi capaz também de fazer rir quando tentou a comédia. Só conheço uma delas, mas é um belo exemplo daquele tipo de humor fino, inteligente. Estou me referindo a "Sorrisos de Uma Noite de Amor". Já Antonioni me parece improvável que se saísse bem numa obra de humor e acredito que essa experiência jamais lhe passou pela cabeça.
Por outro lado, uma certa parte da filmografia de Antonioni, a começar pelos curtas, revela uma preocupação social (em "O Grito", p ex, já perto do fim, há um movimento dos habitantes da cidadezinha contra a construção de uma pista para aviões, infiltrando-se no drama existencial do personagem principal), e até política, a qual não interessava a Bergman. (Só em "O Ovo da Serpente", rodado na Alemanha, ele se engajou num projeto político, ao mostrar o embrião da barbárie nazista. E se em "Vergonha" existe um posicionamento anti-belicista, este é assumido pelo efeito moral que uma guerra, nunca mostrada e sem local nem época identificados, causa a um casal de artistas, que é progressivamente envolvido pelo conflito.)
Qual o maior Bergman? Aí de novo a questão subjetiva. Pode ser "Persona", um exemplar confronto entre uma enfermeira que assiste uma atriz-paciente que abdica do uso da voz e do contato com o mundo, com interpretações das maiores já vistas no cinema de Bibi Andersson e Liv Ulmann, feito com um rigor formal e estilístico - um filme em que, inclusive, é exposto o processo da criação artística. Pode ser "Gritos e Sussurros", uma obra perturbadora que, em alguns momentos, chega a causar mal-estar, com um maravilhoso emprego da cor vermelha. Esta, como muito bem observou Moacy Cirne em seu livro "Luzes, Sombras e Magias - Os filmes que fazem a história do cinema" (Sebo Vermelho/2005), se converte em um personagem, revestido de uma "significação emblemática". Personagem, sim, por envolver a vida daquelas três irmãs, uma já condenada à morte. Uma cena de maior impacto da presença do vermelho é aquela em que Ingrid Thulin, na cama e fitando provocadoramente o marido à sua frente, lambuza o rosto com o sangue retirado da vagina que ela ferira com um pedaço de vidro. Uma cena que comporta mais de um tipo de interpretação.Pode ser "Morangos Silvestres", uma análise da velhice e da morte, concentradas na figura de um velho professor, talvez o seu filme mais lírico, e, certamente, o mais "popular". E podem ser outros. A cada um o seu. Para ele, segundo li num blogue, os seus preferidos eram "Persona" e "Gritos e Sussurros".
Esses dois grandes artistas, por um desses acasos da vida, faleceram no mesmo dia, na última segunda-feira; Bergman pela manhã, Antonioni à noite. Entrevistado por um jornal italiano, Woody Allen, tiete de Bergman, revelou que este não desejava morrer num dia ensolarado. Teria se realizado o seu desejo?

sábado, julho 21, 2007

O CÃO CHUPANDO MANGA

Esta é uma expressão usada aqui em Natal. Aliás, quase não mais usada. Há muito tempo que não ouço alguém dizê-la "O cão chupando manga" é a pessoa que faz coisas de que até Deus duvida, algumas que não são exatamente admiráveis. Um sujeito esperto, inteligente , entre outros talentos. Também uma expressão que já não ouço é "de rosca". Rosca, aquela parte de um parafuso. Diz-se de uma coisa que está demorando a ser executada. Me lembro que a ouvia, ainda nos anos 1960, quando estava numa lanchonete. O freguês pedia o seu sanduíche, o bicho demorava a chegar, aí o sujeito, com uma fome daquelas, reclamava do garçom. "Puxa, como tá demorando. É de rosca"?
Sou um apaixonado por essas expressões populares. E sempre que, lendo um livro, encontro alguma que não conheço, não só a sublinho, como a anoto. Porque os escritores gostam de usar palavras ou expressões que estão na rua, nos bares, nas conversas de pessoas, das menos letradas às cultas. E grandes escritores. Machado, o nosso maior deles, às vezes fazia um intervalo na sua linguagem elegante e colocava uma frase popular. Em mais de uma ocasião, parecia ser a sua preferida, ele citou esta: "vender azeite às canadas". Essa expressão diz-se de alguém furioso com algo que lhe aconteceu. Curioso é que ela é de origem pernambuca. Soube disso uma vez no balaiovermelho, (hoje chamado de Balaio Porreta 1986) de Moacy Cirne. Estranhei a menção a ela do carioca Machado, que, pelo que me consta, nunca esteve em Pernambuco. Acho que, a exemplo de Nelson Rodrigues, nunca saiu do Rio. Sou forçado a acreditar que ele a tenha ouvido do amigo Joaquim Nabuco, que era daquelas bandas. Outro grande escritor, o velho Graça, que não tinha a elegância de Machado, era mais afeito a palavras e expressões populares. Uma que ele usou com alguma frequência foi "ossos de minhoca". José J. Veiga, o fabuloso goiano que escreveu, entre outros, o belíssimo livro de contos "Os Cavalinhos de Platiplanto", também gostava de fazer isso.
Outro dia, lendo o último livro de Luiz Vilela, "Boris e Doris" (uma novela toda escrita em diálogos), deparei-me com esta pergunta que Boris faz a Doris: "Você está com a avó atrás do toco"? Sem nunca ter lido ou ouvido essa expressão, corri para o Aurélio e, por sorte, ela estava lá. "Amanhecer com a avó atrás do toco" refere-se a alguém que acordou de mau humor, irritado. É originária de Minas, terra de Vilela. E me lembrei de Claudinha, de transmimentosdepensações, que é também daquele Estado. Será que ela conhece esse dito popular? Como é uma expressão que parece ter caído em desuso (Doris ri com a pergunta , afirmando que há muitos anos não a ouvia), pode ser que não. Mas creio que os seus pais a conhecem.
Voltando a Natal, havia outra expressão popular que ouvia com certa frequência, mas, a exemplo das outras duas citadas, deixou de ser dita. "Casar Bebé com Memé", ou seja, quando há uma forte afinidade entre duas pessoas, ou, o mais apropriado, quando duas coisas combinam à perfeição.
É uma pena que essa fala do povo, principalmente do nordestino, esteja desaparecendo. Hoje a pessoa que mora na cidade mais atrasada fala a gíria, as expressões do Rio e de São Paulo (as deste em menor escala), que ela ouve nas novelas que a Globo anestesia cada vez mais o telespectador analfabeto ou semi-analfabeto. E o governo (não é só o atual) "nem tem ligo".
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Amigos e Amigas visitantes deste blogue. Na próxima segunda estarei fazendo uma cirurgia de catarata num dos olhos. Na segunda seguinte, será a vez do outro olho. Assim, o "Luzes da Cidade" ficará sem ser atualizado até a minha completa recuperação. Até a volta.

sábado, julho 14, 2007

UMA MULHER CHORANDO


Este conto foi aqui publicado em 7.11.05. Sai outra vez, não apenas por não ter um assunto novo, mas para uma avaliação ou reavaliação dele. Vamos lá.
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Três vezes perguntara por que ela estava tão calada. E ela sempre a responder que não era nada. Na terceira vez, quando perguntou se estava ressentida com algo que lhe fizera, Helena denotou, no tom ríspido de voz, um começo de irritação com a inquirição dele. Sentindo a reação dela, Ramiro achou prudente parar com aquelas perguntas. O certo seria buscar algum assunto, por mais trivial que fosse, para tirá-la daquele mutismo que o desconfortava. Como tinha sido o dia dela no trabalho? Bem, ela respondeu, lacônica. Afinal convencido de que não podia arrancar mais nenhuma palavra de Helena, ele resolveu também se calar. Assim mudos passaram o restante do jantar, um só abrindo a boca para pedir um prato que estivesse mais ao alcance do outro.
Ao deixarem a mesa, Helena foi escovar os dentes, enquanto ele foi ligar a televisão. Depois ela iria para junto dele. Era assim todas as noites, até mesmo quando iam sair. Mas naquela noite, quando voltou do banheiro, ela disse que tinha um "horror" de provas para corrigir e não podia perder tempo. "Mas não dá pra você ficar nem um pouco"? "Não dá. Eu tenho que devolver as provas amanhã". A atitude dela deixou-o ainda mais preocupado. Ela nunca procedera daquela maneira. Algum problema a estava perturbando, mas ela não queria revelá-lo. E enquanto as imagens do telejornal iam passando a sua frente, ele não se dava conta do que elas mostravam, nem ouvia direito as falas, pois o pensamento se concentrara na busca de um ato seu, um gesto, uma palavra áspera, que a tivessem magoado. Vasculhou a mente, tentando rememorar fatos do dia, da noite anterior, até mesmo quando estavam na cama nos momentos de amor. Em vão. Nada. O melhor é esperar até amanhã, talvez ela me diga o que está acontecendo. E continuou vendo, sem ver, o que se passava na televisão.
Ao entrar no quarto, Helena trancou a porta, mas não foi para o birô. Dirigiu-se para a janela. Mas, como o marido diante da tevê, ela não "via" a profusão de luzes iluminando aquela pequena parte da cidade. Meditava sobre a sua vida. A bem dizer, continuava uma meditação que começara já há algum tempo. E a cada dia que passava, mais tomava consciência da falta de sentido em que a sua vida se transformou com a irrealização de sonhos por tantos anos acalentados, a morte das ilusões, a perda da esperança. E o pior: sem vislumbrar um aceno sequer de mudança. E o casamento? Todos os conhecidos, amigas, os familiares colocavam Ramiro num altar, ela tirara a sorte grande ao encontrar um homem de muitas qualidades, trabalhador, bem-educado, excelente profissional e, por cima, sempre apaixonado pela esposa. Sim, Ramiro podia ser tudo isso, mas havia algo nele que Helena não sabia discernir (e nem eram os pequenos defeitos que toda pessoa, mesmo as melhores, tem), que a fazia não se sentir a mulher tão invejada. Quem sabe se a culpa não era dela? E das outras coisas era também culpada? Da profissão que já não a satisfazia, da falta de estúmulo para continuar lecionando? Do convívio com a maioria dos colegas e das amigas? Teria ela toda a culpa por não encontrar mais naquelas pessoas o que buscava para uma existência mais fácil de ser levada?
Tudo isso tinha se incrustado à vida de Helena, como uma dor persistente, e nesses últimos dias ela vinha se sentindo cada vez mais infeliz, embora procurasse disfarçar, sobretudo de Ramiro, todo o sofrimento. Mas naquela noite nem a ele conseguira enganar. Que assim seja, disse para si mesma.
E, de repente, enquanto olhava a parte da cidade inundada de luz, voltou-lhe à lembrança um fato que presencisara em sua adolescência. Um fato ocorrido há muitos anos na vida de uma pessoa, que nunca saíra de sua mente. Vez por outra se via a recordá-lo e não foram poucas as pessoas, através dos anos, às quais contou o sucedido. Até a Ramiro ela contou. Era uma mulher da sua cidade. Uma fina doceira. Seus doces, das mais variadas espécies, eram motivo de comentários não só naquela cidade, mas nas cidades vizinhas. Até à capital do estado a sua fama havia chegado. Solteira, devia ter, na época, quarenta e poucos anos. A família de Helena era, como as demais famílias da mesma classe social, freguesa de Amália. E uma tarde a mãe de Helena mandou-a à casa de Amália, para comprar o doce de leite de que o marido tanto gostava. Lá chegando, Helena bateu palmas três vezes, ninguém apareceu. Nem Amália, nem uma sobrinha que morava com ela, tampouco a empregada. A porta da frente estava só encostada. Helena, acostumada a frequentar a casa para visitar a sobrinha de Amália, foi entrando enquanto dizia sou eu Amália. Tão logo pôs os pés dentro da casa, deparou-se com uma cena que a deixou entre chocada e penalizada. À mesa das refeições estava Amália. A cabeça curvada, as mãos tapando quase todo o rosto (só os olhos descobertos), a doceira chorava. E o choro não era silencioso - a mulher chorava como uma criança quando apanha. De tão intenso o choro, os braços tremiam. "Amália, o que foi que houve"? Helena chegou para perto dela e repetiu a pergunta, mas Amália parecia não dar pela presença dela e continuava a chorar. "Aconteceu alguma coisa com Eliane"? E Amália sem responder. Helena pôs a mão sobre a cabeça dela e fez um afago. Durante um minuto ou mais manteve a mão sobre a cabeça de Amália, como se a leve pressão da mão pudesse aliviar a dor da mulher. Depois foi saindo devagarinho, olhando para a pobre mulher, a quem sempre vira alegre e tão disposta.
E ao recordar mais uma vez a cena lastimável, Helena pôde compreender, depois de tantos anos, o sofrimento daquela mulher numa tarde longínqua. E sentiu-se na pela de Amália, a fina doceira, a mulher tão elogiada e respeitada pela sua arte na culinária. Então, de repente, veio-lhe, incontrolável, a vontade de repetir o ato de Amália. E lágrimas lhe vieram ao rosto. Helena chorava. Mas, ao contrário do choro de Amália, o seu era silencioso. E assim ficou por muito tempo, deixando as lágrimas banharem-lhe o rosto.

sábado, julho 07, 2007

UM FILME-ROMANCE

Em seu livro "O Cinema" (Brasiliense/1991), escreveu André Bazin que "Paisá [Rosselini] é provavelmente o primeiro filme que equivale rigorosamente a uma antologia de contos". E acrescenta: "A duração de cada história, a estrutura, sua matéria, sua direção nos dão pela primeira vez a impressão exata de um conto". Já "Hannah e Suas Irmãs" ("Hannah and Her Sisters"/1986), de Woody Allen, passa a impressão de que foi concebido como um romance. A narrativa é constituída de partes bem delimitadas, cada uma delas contendo um título. E o fato de um "capítulo" ter por título um verso de um poema de e.e. Cummings e outro uma frase de Tolstoi reforça essa impressão. Acrescente-se que é possível que o roteiro tenha se inspirado na peça "As Três Irmãs", de Tchecov, que foi também um escritor de contos, alguns dos quais contendo as dimensões de uma novela (ou um romance curto).

Reafirmando o destaque no próprio título, Hannah (Mia Farrow) é o personagem central do filme. É a líder daquela família, ora apartando uma briga entre os velhos pais, ora servindo de confidente ou conselheira para as irmãs Lee (Barbara Hershey) e Holly (Dianne Wiest), mas uma pessoa doce, amável, que, apesar de amar o segundo marido Elliot (Michael Caine), mantém uma boa relação com Mickey, o primeiro marido (Allen). O seu personagem é importante até por uma tensão (involuntária de sua parte) no seu casamento com Michael, quando este tem uma paixão avassaladora pela cunhada Lee, que vive com o insociável pintor Frederick (Max Van Sidow). (Uma cena marcante, pelo toque de lirismo e ternura, mostra os dois dançando em um apartamento de um hotel no "capítulo" Tardes.)

Estamos diante de uma comédia romântica, como aquelas que o cinema americano fazia tão bem nas décadas de 1930 e 1940, inclusive com o final feliz. Mas há também aquele humor inerente aos filmes de Allen, principalmente naquela época em que os seus filmes tinham um vigor criativo que foi arrefecendo ali pela metade dos anos 1990. O personagem de Allen , então, é de nos levar às risadas, com a sua insuperável hipocondria. E não faltam as piadas inteligentes, sempre mirando no modo de viver e de se comportar do americano.

Allen ainda presta algumas homenagens. A Bergman, de quem é, sabidamente, uma tiete, na escolha do ator Max Von Sidow, que trabalhou em vários filmes do mestre sueco. Aos Irmãos Marx, exibindo uma parte de um dos seus filmes, ao qual Michey vai assistir depois de uma tentativa de suicídio (por achar que está sofrendo de uma doença incurável) e sai do cinema com a alma leve e achando que a vida merece ser vivida. (Aí também poder-se-ia aventar a hipótese de que a homenagem se estenderia ao próprio cinema.) E sobre o título? Seria uma homenagem ao Visconti de "Rocco e Seus Irmãos"? Embora me parece que seja Fellini o diretor italiano preferido de Allen, pode ser que ele tenha querido reverenciar o esteta Visconti, inclusive porque há, no filme, a apresentação de uma ópera de Puccini. E, como sabemos, Visconti, que empregou o seu gênio no teatro dramático, também o fez no operístico.


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CURIOSIDADES/INFORMAÇÕES SOBRE O FILME


1. Maureen O'Sullivan que interpreta a mãe de Hannah era mãe de Mia Farrow. Mia, cujo nome é Maria de Lourdes, é fruto do casamento de Maureen com o diretor John Farrow. Nos primeiros anos de sua carreira, Maureen trabalhou em filmes de Tarzan, fazendo o papel da Jane.

2. Este foi o derradeiro filme de Lloyd Nolan, que atua como pai de Hannah. Nolan foi um bom coadjuvante, que apareceu, com frequência, em filmes das décadas de 1940/50.

3. "Hannah e Suas Irmãs" ganhou os Oscars de Melhor Ator Coadjuvante (Michael Caine), Melhor Atriz Coadjuvante (Dianne Wiest) e Melhor Roteiro Original, escrito pelo próprio Woody Allen.

sexta-feira, junho 29, 2007

TRIO


1) Semana passada vendo o blogue do crítico de cinema Luiz Zanin, no Estadão, me deparei com uma matéria que revela o avassalador domínio do cinema americano no Brasil. Os dados são impressionantes. Segundo o crítico, o nosso país possui 2.050 salas de cinema. Pois bem. Naquela semana, dessas 2.050 salas, 582 exibiam "Piratas do Caribe 3", 320 salas exibiam "Homem Aranha 3" e 705 (setecentas e cinco!) "Shrek 3". Portanto, apenas 438 salas restavam para exibir outros filmes, dos quais a grande maioria se supõe era de origem da terra de Mister Bush. O título do texto do Sr. Zanin era "Será que ninguém reage"? Pois é. Será que ninguém reage contra essa enxurrada de filmes americanos em nosso país? E o pior é que, uns oitenta a noventa por cento dessas produções de Hollywood são de má a péssima qualidade.
2) Sou um apaixonado pela literatura policial. E entre os meus autores preferidos está o belga Georges Simenon. Simenon que, ao contrário dos seus pares (exceção, talvez, de Agatha Christie) escreveu obras fora do gênero policial. É um autor elogiado por, entre outros, André Gide e Henry Miller.
Há poucos dis terminei de ler um livro interessantíssimo de Simenon: "Memórias de Maigret". Maigret, como sabem os leitores do autor, é o personagem dos seus livros policiais. Uma grande criação, assim como o Poirot, de Agatha Christie, e o Sherlock Holmes, de Conan Doyle. É um livro interessantíssimo, curiosíssimo e, presumo, original na sua estrutura. Publicado em 1951, o livro mostra Maigret como se fosse, não o personagem de Simenon, mas uma figura real. O autor belga se põe na pele do seu personagem, que se dispõe a narrar fatos de sua vida pessoal e profissional. Entre as revelações mais interessantes estão o primeiro encontro de Maigret com Simenon na delegacia em que o primeiro trabalhava, o relato de como Maigret conheceu a moça que viria a se tornar sua esposa e os atores que intepretaram Maigret no cinema. Ele fala de Pierre Renoir, irmão de Jean, Harry Baur, Albert Préjean e o grande Charles Laughton. Pierre Renoir fez o papel de Maigret no filme do seu irmão , "La Nuit Du Carrefour". Há outras revelações atraentes. O livro é editado pela L & PM, em formato de bolso, de 2006.
3) Também no blogue de Luiz Zanin vi o resultado de uma consulta feita pelo American Film Institute a críticos e cinéfilos sobre quais seriam os 100 (cem) maiores filmes americanos de todos os tempos. Deu "Cidadão Kane" na cabeça, como já havia dado há 10 anos anos quando aquela entidade promoveu idêntica consulta. Impossível citar, aqui, todos eles. Vou listar apenas os 12 primeiros, mas, antes, quero fazer uma ressalva. Discordo da inclusão, entre os dez, de "Casablanca", ainda que goste muito desse filme, mas não ao ponto de colocá-lo nem entre os 50 ou 60 maiores filmes americanos já realizados, "E O Vento Levou" , "A Lista de Schindler" e "O Mágico de Oz". Eis os 12.
- Cidadão Kane
- O Poderoso Chefão 1
- Casablanca
- Touro Indomável
- Cantando na Chuva
- E O Vento Levou
- Lawrence da Arábia
- A Lista de Schindler
- Um Corpo Que Cai
- O Mágico de Oz
- Luzes da Cidade
- Rastros de Ódio.
EM TEMPO - Tinha me esquecido de "Lawrence da Arábia". Também não o incluiria, talvez nem entre os 100, em que pese a sua beleza visual/plástica, Enfim, lista é aquilo que todo mundo sabe. Questão de gosto y otras cositas más.