terça-feira, agosto 18, 2009

NOITES BRANCAS (Le Notti Bianche/1957)




"Noites Brancas", que foi exibido nos cinemas brasileiros com o título de "Um Rosto na Noite", marcou o rompimento em definitivo de Visconti com o neo-realismo. O filme foi rodado em um teatro localizado na Cinecittá, o que significava que o diretor infringia uma das normas do movimento, ou seja, a preferência pela filmagem externa. Em seguida, ele punha de lado os problemas sociais e políticos para, em lugar destes, enveredar pelo universo intimista de um homem e uma mulher. Visconti foi se inspirar em Dostoiewski, no seu conto "Noites Brancas", para narrar uma história de um triângulo amorososo entre Natalia (Maria Schell), Mario (Marcello Mastroianni) e o anônimo forasteiro interpretado por Jean Marais. Como geralmente ocorre na adaptação para o cinema de obras literárias, o cineasta (autor do roteiro, em parceria com Suso Cecchio D'Amico) fez algumas modificações do original, entre elas a de espaço e tempo: a história é passada numa pequena cidade da Itália, na segunda metade dos anos 1950. Mas essas modificações e as liberdades tomadas por Visconti não traem o tema e o propósito do conto do escritor russo. Ao contrário, o diretor soube preservar a natureza humana e existencial de dois seres solitários, à procura do sonho, do ideal de um grande amor. Mario (no conto, o seu personagem, como o do forasteiro, não tem o nome revelado e é quem faz a narrativa) chega, perto do final, a se convencer de que conquistou, naqueles três ou quatro encontros noturnos que tiveram, o coração de Natalia, quando ela julga que foi enganada pelo homem que ama, que lhe prometera voltar à cidade no prazo de um ano; no local determinado, ao qual ela vai no dia em que se completa o prazo e ele não aparece.
Tal como no conto, o filme prioriza a relação entre Mario e Natalia. Com uma participação relativamente curta, o forasteiro aparece quando Natalia conta como o conheceu (na condição de inquilino da sua avó) e aflorou o amor entre os dois, e no final, quando, finalmente, ele retorna como lhe prometera. E aí fica a impressão de que, só por uma questão de despeito, ou de vingança, Natalia deixa Maria com a ilusão de que o ama, quando, na verdade, lhe oferece apenas a amizade.
Mostrando a diferença entre a literatura e o cinema, o final do filme é superior ao do conto, embora os elementos que o compõem sejam os mesmos. Há um grito de extravazamento da alegria de Natalia, que, de imediato, corre para os braços do amado que avista parado sobre a ponte; há o olhar desolado de Mario ao ver a cena e o sobretudo preto salpicado de flocos de neve que lhe emprestara ("o seu vestido de noiva", ele dissera momentos antes) atirado no chão; e até as palavras, com uma ou outra alteração, que um diz ao outro: Natalia volta e pede que a perdoe, mas que sempre amara o outro, e ele, mesmo arrasado, retruca que ela é abençoada pelo minuto de felicidade que proporcionara ao seu coração solitário e acrescenta "não é pouco para a vida inteira de um homem".
Na concepção e realização desse filme que pode ser considerado como um divisor de águas em sua obra, Visconti pôde cercar-se de colaboradores excepcionais, além da roteirista Suso Cechio D'Amico. O cenógrafo Mario Garbuglia que recriou parcialmente uma Livorno que desse a impressão de um certo irrealismo, próximo do sonho, que convinha ao perfil psicológico e existencial daquele casal solitário. O diretor de fotografia Giuseppe Rotunno, que complementa bem esse clima de irrealidade, o compositor Nino Rota, que, anos depois, se tornaria uma presença assídua nos filmes de Fellini. E há a atuação de Marcello Mastroianni e Maria Schell, principalmente esta, que, em alguns momentos, com o seu rosto alvo, a expressão suave e meiga, às vezes, soltando uma risada de adolescente, dá um toque angelical ao seu personagem, contrastando com a figura da prostituta - um personagem criado pelos roteiristas e vivido por Clara Calamai, protagonista do filme de estreia do diretor, "Ossessione" (1942), considerado o marco inicial do neo-realismo.
Enfim, "Noites Brancas" é um dos grandes filmes de Visconti, que, não sei por que, não é valorizado como deveria. Já o vi qualificado de apenas "interessante". E no "Dicionário de Cinema - Os Cineastas", de Jean Tulard, não há sequer uma linha sobre ele.

terça-feira, agosto 11, 2009

3 POEMAS DE NAPOLEÃO DE PAIVA SOUSA

BANANA

emerge da casca

em riste.

como coxa, ora falo, dá-se

acetinada

à língua

a lábios

a tudo

que como ela julgue

de cetim ou mucosa.

despreza antes

as vestes enxovalhadas

no canto da mesa

ou cama.

A PALAVRA

"As coisas são seu nome"

Octávio Paz

dor se se chamasse amor

objeto de desejo seria

e até nome de flor.

pedra se se quisesse nuvem

faria chuva, vento, tudo

que só a leveza flui.

a língua, a sílaba

a palavra, a letra

- se pura ficção -

muito bem usam

a cangalha da sujeição.

a submissão é quanta que

quando se diz tamarina

a boca se faz moringa

ou tanta,

ela se foi embora

a lágrima ligeiro aflora.

MEU PAI FRIO

não consegui contudo

passados quase seis anos

dessentir o frio

inominável

que a sua testa de morto

pregou

nos meus lábios.

- Napoleão de Paiva Sousa é norte-rio-grandense de Alexandria. É também compositor, e, de profissão, médico pediatra. Estes poemas fazem parte do seu primeiro livro "Apenas Chegaram", de 1999. Publicou um segundo livro de poesias, "Depois Comigo", escrito em um celular, do qual já publiquei 3 poemas neste espaço. Ambos os livros me foram gentilmente dados pelo autor.








terça-feira, agosto 04, 2009

ALGUNS PERSONAGENS INESQUECÍVEIS DO CINEMA

Personagem/Atriz em grand finale: "Crepúsculo dos Deuses"

- Carlitos

- Hulot/Jacques Tati

- O casamenteiro/Barry Fitzgerald de "Depois do Vendaval" (John Ford)

- Gelsomina/Giulieta Masina de "A Estrada da Vida" (Federico Fellini)

- Norma Desmond/Gloria Swanson de "Crepúsculo dos Deuses" (Billy Wilder)

- O personagem-título/Maisim Munzuk de "Dersu Uzala" (Akira Kurosawa)

- O projecionista Alfredo/Philippe Noiret de "Cinema Paradiso" (Giuseppe Tornatore)

- O avô/Lionel Barrymore daquela família "louca" de "Do Mundo Nada Se Leva" (Frank Capra)

- O boxeador Stoker/Robert Ryan de "Punhos de Campeão" (Robert Wise)

- A velhinha/Katie Johnson de "Quinteto da Morte" (Alexander Mackendrick)

- O professor Sinigaglia/Marcello Mastroianni de "Os Companheiros" (Mario Monicelli)

- Alvin Straight/Richard Farnsworth de "História Real" (David Lynch)

- O viúvo e aposentado Afonso/Jofre Soares de "Chuvas de Verão" (Carlos "Cacá" Diegues)


terça-feira, julho 28, 2009

DIA DE CHUVA


Foto em ultrafolet.blogspot.com/

Há uma meia hora parara de chover, mas ele sabia que era apenas uma pequena trégua dada pela chuva, não demoraria muito tempo para ela voltar. Assim vinha sendo desde o início do dia. Levantou-se da cama, foi ao banheiro, urinou pouco, depois abriu a torneira. O contato da água com o rosto e as mãos o fez sentir mais frio. Ao voltar ao quarto observou, por um instante, as gotas da chuva congeladas no vidro da janela. Foi até lá. Pôs-se a olhar para a rua quase deserta naquela tarde que começava a escurecer. Um ou outro transeunte passava apressado, protegido por um casaco, o guarda-chuva preso no braço. Um ou outro carro, às vezes um ônibus, trafegava lentamente por entre as poças dágua. Dia horrível, pensou. Deixou a janela, sentou na cadeira de balanço e ligou a televisão. No canal passava um filme que já vira. Demorou-se uns cinco minutos, até a atriz , de que gostava (e, praticamente, o único atrativo que o fizera ver aquele filme anos atrás) desaparecer de cena. Outro canal apresentava um desses programas bobos e vulgares de variedades, mudou outra vez, havia um jogo de futebol. Os times não eram bons, ficou ainda menos tempo do que no canal do filme. Desligou a televisão. Pensou em ouvir música, mas logo desistiu da ideia. Permaneceu ali sentado, olhando sem interesse para a janela. Como previsto, a chuva voltava. O telefone tocou. Não havia mais ninguém em casa, mas não foi atender. O telefone parou, logo em seguida voltou a tocar. Ali preso à cadeira, vendo a chuva, que voltara intensa, molhar a janela, deixou-o dar as sete chamadas. Tinha certeza de que a pessoa iria tentar uma terceira vez e não deu outra. Ela liga e eu não atendo, disse com um arremedo de sorriso - quase uma careta. A pessoa desistiu. Levantou-se, dirigiu-se à cozinha, tomou meio copo dágua gelada que irritou levemente a garganta. A garrafa de café sobre a mesa. Tomou uns dois dedos de café, acendeu um cigarro e deu uma longa tragada. Sentiu algum prazer com a tragada. A chuva parecia ter aumentado de intensidade e, de repente, um raio clareou a cozinha. Afastou-se em direção ao combogó da área de serviço. As luzes dos postes da rua em frente já estavam acesas e através delas observou a chuva derramar-se sobre o calçamento. Terminou de fumar, jogou o cigarro no chão e o apagou com a sola da chinela. Retornava para o quarto quando o telefone tocou mais uma vez. Passou como um raio pelo telefone, como se este fosse um bicho repelente. Dessa vez deitou na cama. E ficou ouvindo o barulho do telefone, até a última chamada. Se for a mesma pessoa, não vai mais ligar, disse para si mesmo. Devia ser, pois o aparelho emudeceu. E ali na cama, o barulho que ouvia era o da chuva. Persistente, enervante. O apartamento mergulhou na escuridão. Como se a água da chuva tivesse invadido a janela e caído sobre os seus olhos, começou a chorar.


terça-feira, julho 21, 2009

UM POEMA PARA A ASPIRINA

O poeta João Cabral de Melo Neto (1920-1999) padeceu a maior parte de sua vida (desde os 16 anos, segundo Joel Silveira no livro "A Milésima Segunda Noite da Avenida Paulista", Companhia das Letras/2003) de uma dor de cabeça diária. Um mal de causa jamais diagnosticada nos inúmeros e minuciosos exames feitos por Cabral, conforme ele revelou a Joel em uma entrevista de 1971. "Minha cabeça e partes vizinhas, incluindo a garganta, já foram fotografadas de todos os ângulos e esmiuçadas nos mínimos detalhes. Mas a dorzinha continua a resistir bravamente e a esconder dos médicos os motivos por que dói. E por que dói? Minha opinião é que se trata de uma dorzinha de fundo neurótico". O jornalista, no entanto, se apressa a desmentir que o poeta seja um neurótico, pois "quem conversa com João Cabral não distingue nada que lembre um neurótico. A fala é mansa, os gestos parcos, a atenção total ao que lhe dizem".
Para combater a "dorzinha", Cabral converteu-se em um consumidor persistente da aspirina. Por anos a fio ingeriu diariamente um comprimido de hora em hora do medicamento. Já em 1971 a ingestão do analgésico diminuira para um comprimido de 4 em 4 horas. É de admirar que o poeta tenha vivido até quase os 80 anos, levando em conta os efeitos colaterais e as reações adversas no seu organismo que o remédio devia causar. E essa convivência diária e por longos anos com a aspirina, como se fosse ela uma mulher que lhe minorasse a dor da alma, fez com que Cabral escrevesse um poema sobre a aspirina - uma espécie de homenagem ao medicamento. O poema chama-se "Num Monumento à Aspirina" e integra o livro "A Educação pela Pedra", publicado pela Editora do Autor em 1966, que transcrevo a seguir.
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Num Monumento à Aspirina.
Claramente: o mais prático dos sóis,
o sol de um comprimido de aspirina:
de emprego fácil, portátil e barato,
compacto de sol na lápide sucinta.
Principalmente porque, sol artificial,
que nada limita a funcionar de dia,
que a noite não expulsa, cada noite,
sol imune às leis de meteorologia,
a toda hora em que se necessita dele
levanta e vem (sempre num claro dia):
acende, para secar a aniagem da alma,
quará-la, em linhos de um meio-dia.
*
Convergem: a aparência e os efeitos
da lente do comprimido de aspirina:
o acabamento esmerado desse cristal,
polido a esmeril e repolido a lima,
prefigura o clima onde ele faz viver
e o cartesiano de tudo nesse clima.
De outro lado, porque lente interna,
de uso interno, por detrás da retina,
não serve exclusivamente para o olho
a lente, ou o comprimido de aspirina:
ela reenfoca, para o corpo inteiro,
o borroso de ao redor, e o reafina.


terça-feira, julho 14, 2009

TIPOS POPULARES

Velho Guitarrista Cego
Óleo sobre madeira
Picasso (1903)
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Em toda cidade existem aquelas figuras que fazem o divertimento das crianças mais velhas e dos adultos movidos pela maldade. São, em geral, vindas das classes baixas, e o motivo que as as fazem vítimas dos outros é quase sempre um apelido que carregam desde a infância e com o qual nunca se conformaram. Mas entre esses pobres coitados há aqueles em que o móvel da brincadeira não é o apelido. É que em tais indivíduos há algo anormal, que se percebe num instante que eles não giram bem, e esse componente dá azo às brincadeiras que sofrem.
Nos meus primeiros anos em Natal conheci um desses tipos. A natureza não o favorecera. Pequenino, um tanto gordo, zarolho, e, para completar, carregava uma corcunda, quase como a do Quasímodo do Victor Hugo. O seu problema era com relação ao dia da semana. Assim: digamos que fosse uma segunda-feira. Quando ele passava, alguém às suas costas dizia, hoje é terça. Ele parava, se virava e dizia, na voz fanhosa, ora terça, hoje é segunda. Se o malvado insistisse que era terça, ele também insistia que era segunda, que terça seria no dia seguinte. Se a pessoa dissesse que era domingo, o coitado replicava na bucha, ora domingo, domingo foi ontem, hoje é segunda. Ele continuava a caminhada e mais adiante lá vinha outro para alterar o dia da semana e o coitado a dizer o dia correto.
Voltando ao apelido. Em Natal havia o Garapa, que não cheguei a conhecer, mas ouvi falar dele. Esse era agressivo, se o brincalhão não fugisse ou se escondesse, era certo levar uma bordoada de um pedaço de pau que ele portava. Houve uma vez em que vinham dois rapazes e, de repente, deram de cara com o Garapa. Eram dos que mexiam com o pobre homem, mas às suas costas, escondidos. Mas daquela vez ficaram os três frente a frente. Então, ao passarem pelo Garapa, um disse "água" e o outro acrescentou "açúcar". Apressaram o passo, mas Garapa os alcançou e então disse, brandindo o pedaço de pau: "Misturem, felas da puta. Misturem que eu quero ver".
Já cego Raimundo não tinha apelido, nem era alvo de brincadeiras, além de ser estimado pelas pessoas. Aparecia toda tarde no banco onde eu trabalhava e lá demorava um bocado de tempo. Vivia de vender bilhetes de loteria, mas dos funcionários poucos os compravam, preferiam lhe dar um dinheirinho. Media em torno de 1,50m, usava um chapeuzinho e não tinha guia. Poucas pessoas conheci tão alegres, tão bem humoradas, tão brincalhonas. Sua risada cheia, ruidosa, era a de alguém que vivia a melhor das vidas. Brincava com a própria deficiência visual. Quando lhe perguntavam se conhecia alguém, ele respondia "de vista". No passado fizera parte de um conjunto musical composto só de cegos. Tocava gaita. Uma gaita bonita que um colega meu lhe trouxera de uma viagem ao exterior. Por sinal, que uma das maiores emoções que senti na vida foi um dia em que indo a uma seção resolver um assunto, encontrei-o executando "Barril de Chope". Ao final, todos os presentes o aplaudiram.
Morreu aí pelo início dos anos 1980. Já deixara de aparecer no banco, pois a nova direção da agência proibira a presença de pessoas que nao fossem lá a não ser para negócios. Mas antes de morrer, cheguei a vê-lo algumas vezes andando ligeirinho, com o toquetoque da bengala. Falava com ele, que há muito tempo me reconhecia pela voz. E sempre eu saía satisfeito do nosso encontro.
Ah, sim, gostava de uma caninha e chegava ao banco já com algumas na cabeça.

terça-feira, julho 07, 2009

O CÉU DE SUELY (2006)



Se o vermelho é a cor predominante em "Gritos e Sussurros", de Bergman, neste filme de Karim Ainouz ("Madame Satã") é o azul em diversos matizes. Além do céu de Iguatu, cidade do interior do Ceará, a cor está presente nas paredes da casa da avó de Hermila/Suely (Hermila Guedes), em sua sacola, em uma peça de vestuário, na cabine de telefone público, em um brinquedo da criança. De um azul que parece pintado, expondo, às vezes, uma limpidez manchada por umas poucas nuvens (aplausos para a expressivamente bela fotografia de Walter Carvalho), uma forte claridade, o céu é uma presença constante no filme, primeiro como consequência de um fator climático, depois como se fosse um elemento de aproximação com o "céu" a que Suely aspira alcançar.

E que "céu" é esse? É a mudança para outro lugar, dessa vez em definitivo, no qual ela acredita em uma vida melhor. Deixara Iguatu com o namorado Mateus para morarem temporariamente em São Paulo e retornarem com uma situação financeira decente. Ela regressa com o filho pequeno, ficando à espera do namorado, que viria um mês depois para estabelecer um comércio de gravação de cd e dvd. Mas Mateus nunca irá voltar e aí começa a batalha de Hermila para conseguir o dinheiro necessário para atingir o seu objetivo.

Com o pulso forte do diretor, servido por um bem elaborado roteiro (do qual ele participa com mais dois roteiristas), o filme descreve essa batalha de Hermila, começando com a venda de bilhetes para uma fictícia rifa de um uísque, até ela própria ser o objeto da rifa, quando conhece Georgina (Georgina Castro), uma garota de programa. Tornam-se amigas e Hermila, que, antes, mantinha uma relação com o mototaxista João (João Miguel), segue os passos de Georgina, adotando o nome de Suely. Um dos muitos momentos bons de "O Céu de Suely" é o diálogo entre elas, quando Hermila indaga Georgina a respeito dos seus rendimentos. E aí observa-se a naturalidade das falas entre duas prostitutas (uma já iniciada, a outra por iniciar-se naquele tipo de profissão), que só podem chocar às pessoas de ouvidos puritanos. (Há, contudo, uma diferença entre as duas. Georgina é alegre, expansiva, chegada a um copo, e, que, se não chega a gostar da vida que leva, parece resignada a ela; enquanto Hermila, já como Suely, tem uma expansividade e uma alegria que não são naturais, mas impostas pela profissão.)

À menção desse diálogo, vale destacar que a maneira de falar dos atores de "O Céu de Suely" não contém a falsificação, resultante de um certo exagero e até alguma afetação, que se observa nas telenovelas que mostram personagens do Nordeste. Aqui o "nordestinês" é legítimo e isso se deve ao fato de o diretor e os intérpretes serem originários da região.

"O Céu de Suely" é um filme de muitas qualidades e, aparentemente, sem defeitos. As qualidades avultam até no fato de os personagens terem o mesmo prenome dos intérpretes, um recurso que o diretor utilizou pouco antes de começarem as filmagens, modificando o nome dos personagens já com o roteiro concluído, conforme se fica sabendo através dos depoimentos nos "Extras" do disco. À primeira vista, parece ser um mero detalhe, sem importância. Mas examinando-o melhor, tem, sim, a sua importância. Como diz um dos intérpretes (acho que João Miguel), essa irmanação dos nomes do ator e do personagem dá ao primeiro uma condição de intimidade com o segundo, de conhecê-lo melhor, e, assim, tornar mais produtiva a atuação.

O final apresenta um achado que faz manter a qualidade do filme - se não a elevar. Já no ônibus que a está levando de Iguatu, Hermila, com a expressão pensativa, relembra momentos de sua permanência na cidade. O ônibus é seguido por João, que, em dado momento, se emparelha ao veículo - ele e ela cruzam os olhares - depois volta a acompanhá-lo. Quando o ônibus e João desaparecem de vista, a câmera se fixa um minuto, um pouco mais, no letreiro exposto no semi-arco que se ergue na entrada e saída da cidade: "AQUI COMEÇA A SAUDADE DE IGUATU". A frase de apelo turistico pode também refletir um dilema no íntimo de Hermila, que está abandonando o torrão natal, o filho, a avó, a tia solteirona, a amiga. E, em consequência desse dilema, o espectador é tomado pela expectativa de se Hermila continua a viagem, ou se retorna à cidade com o mototaxista. Decorrido esse tempo, a expectativa é satisfeita.

E aqui eu paro. A fim de não entregar o desfecho desse belo "O Céu de Suely" àqueles que ainda não o viram.

terça-feira, junho 30, 2009

A V I S O


O editor vai passar uns dias ausente de Natal. Assim, este blogue só será atualizado no próximo dia 7 de julho. Se Deus não mandar o contrário, como dizia um colega de profissão. Até lá. Uma excelente semana para todos que por aqui passam.

domingo, junho 21, 2009

RAPIDINHAS (EPA!)


A atriz Jane Duprez no papel da Princesa no
filme "O Ladrão de Bagdá" (1940), dirigido
por Michael Powell e outros.
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- Das 3 chamadas virtudes teologais, a Fé eu já perdi, a Esperança há tempos morreu, restou a Caridade: uma cidade vizinha à minha Canindé.
- É prudente não acreditar muito nos ditos populares. Um conhecido meu enviuvou com poucos anos de casado. E a esposa se chamava Esperança.
- "Amo as mulheres, mas não as admiro", diz o personagem-título de "Monsieur Verdoux" (Chaplin/1947). Seria a opinião do genial criador de Carlitos?
- Sujeito educado estava ali. Toda vez que se deitava com um parceiro, desculpava-se por ter que lhe virar as costas.
- Tivesse eu o talento de Manoel Bandeira, dançava um tango argentino com a Penélope Cruz; como não tenho o talento de Manoel Bandeira, o jeito é dançar "Pisa na Fulô" com a Ideli Salvati.
- Resposta de Bob Hope a um jornalista que lhe perguntou a idade: "Estou numa idade em que as velas custam bem mais caro do que o bolo".
- Se a ameaça de Sarney de largar a política for de vera, não é bom soltar tanto foguete. Aí ele vai ter tempo de sobra para se dedicar à literatura.
- Sinto saudade daquele tempo em que Bagdá era apenas uma cidade que atraía pelo exotismo do nome e onde vivia uma linda princesa morena que roubara o olhar de Nelson Gonçalves. (*)
- No último dia 12 foi feito um serviço de dedetização e de desratização na biblioteca do Senado. Mas por que só na biblioteca?
- De Joel Silveira, no livro "A Camisa do Senador" (Mauad/2000): "Me dizia o velho sertanejo da margem do São Francisco, já chegando aos noventa anos: - A gente sente que está envelhecendo quando começa a gostar mais de carne-de-sol do que de mulher".
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(*) No carnaval de 1948 (perem aí, eu tinha somente 5 anos) foi lançada a marcha "Princesa de Bagdá", de Haroldo Lobo e David Nasser, na voz de Nelson Gonçalves. A primeira parte da letra diz:
"Ô Alá, ô Alá,
Eu quero, quero, quero encontrar
Aquela que roubou o meu olhar,
Pois ela é a Princesa morena mais linda de Bagdá".

terça-feira, junho 16, 2009

LOA PARA UMA DAMA HONORÁRIA

Este espaço é hoje ocupado pelo potiguar João Charlier Fernandes. Poeta sem livro publicado, participou, no entanto, de algumas antologias de poesia no RN., a primeira delas na década de 1960, quando ainda era adolescente. Cinéfilo sensível, participou do livro "Clarões da Tela - O cinema dentro de nós" (EDUFRN/2006) , uma coletânea de críticas sobre filmes, sob a organização de Bené Chaves e Marcos Silva. O artigo acima intitulado foi publicado em março/2004, em homenagem à sua mãe, que estava completando 90 anos. Saiu no "Diário de Natal", onde Charlier escrevia com certa frequência. Ei-lo.
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Alguém já observou - e observou bem - que, quando me meto a escrever, constantemente chamo em meu auxílio a primeira pessoa do plural. É verdade. Trata-se de uma escolha que me agrada, até porque acabo evitando aquele tom individualista que se apossa do texto quando ele é regido pela primeira pessoa do singular. Mas neste instante especial, em que pretendo homenagear uma pessoa a quem devo tudo, e que tem sido a principal razão das poucas alegrias que ainda é possível experimentar nesta etapa do meu caminhoexistencial carregado de escolhos, neste momento especial, repito, invoco a minha individualidade mais intransferível e secreta para celebrar a excelsitude de uma mulher que me ensinou a receber a vida como uma dádiva de Deus. Que me educou no princípio de que o coração humano, maltratado por tantas desilusões, só pode encontrar alento e sossego quando, liberto das amarras da ufania, começa a navegar nas águas tranquilas que conduzem ao porto seguro da fé. E que sempre estava presente no quarto de dormir da minha infância, quando pequenas dores do corpo - as da alma viriam depois - começavam a plantar no meu ser as primeiras sementes do sofrimento.
Na ação confortadora, no apego à família, na força do exemplo, no recato de tantas vigílias, na consciência de que nascemos para morrer, mas, enquanto não morremos vivemos para renascer, na intuição de que o "estar-no-mundo" pressupõe o "estar-no-mundo-para servir", na afabilidade, na alegria e na tristeza, na lágrima e no sorriso, em tudo e por tudo essa senhora amorosa transformou a sua existência numa cotidiana prática de desvelo, beneficiando primeiramente o meu pai Reinaldo Fernandes Pimenta, com quem, durante mais de sessenta anos, conviveu na dimensão material, finita e tangível, até o advento daquela dolorosa madrugada do dia 12 de outubro de 1995, quando, pela suprema vontade do Criador, esse trato diário transfigurou-se para a dimensão espiritual, infinita e teocêntrica. Os beneficiários seguintes foram os filhos - Kerginaldo, Salete, Anchieta, Mirian, Iaponira (a doce Iaponira, que partiu tão cedo desta vida descontente), eu, Fernando, Irene e Celis - , amados e criados sob uma aura de abnegação, bondade, sabedoria e ternura, valores que continuam delineando o perfil moral dessa mestra que tem derramado sobre mim, desde os meus verdes anos (e, naturalmente, tem derramado sobre meus irmãos e sobre todos que dela se aproximam), os raios de sua luminosidade interior, e esse fulgor me aquieta e inspira, tal como a chama do amor absoluto iluminou para sempre o coração de Dante, desde que ele avistou Beatriz pela primeira vez, aos nove anos de idade, conforme revela o poeta em Vita nuova.
Poderia, neste instante, dizer muito mais. Mas a palavra, seja a mais forte e mais pura, apenas dá conta de sua transitoriedade, enquanto o silêncio, tirando de sua própria grandeza o que há de eterno no indizível, tem o poder de confortar a criatura humana - na prece, na reflexão, no exercício do amor. Assim sendo só me resta encerrar esse breve louvor, cantiga de bendizer, fio do meu tear de afeto, fruto que procurei cultivar na sementeira da gratidão. Oferenda que dedico à minha mãe Giselia Gurgel Fernandes, que neste dia 05 de março de 2004, com a graça de Deus estará chegando aos noventa anos de idade.

terça-feira, junho 09, 2009

DECAMERON (Il Decamerone/1972)


"Decameron" é o primeiro filme da denominada "Trilogia da Vida" feita por Pier Paolo Pasolini, complementada por "Contos de Canterbury" (1973) e "As 1001 Noites de Pasolini" (1974). Das cem histórias do clássico de Giovanni Boccaccio, Pasolini aproveitou nove. Na maior parte destas ele privilegiou o erotismo em forte dosagem, com cenas de sexo explícito, onde é exposta a nudez, mas permeadas de um humor irreverente, atingindo até o escrachado. Humor em que é percebível a crítica ao clero (em dois episódios: o das freiras que seduzem um jovem humilde que vai trabalhar como jardineiro no convento e que se finge de surdo-mudo, e o do matreiro padre, que se vale da credulidade do casal, fazendo os dois crerem que ele transformaria a esposa em uma égua, para vê-la nua e se aproveitar dela, na presença do marido), à burguesia nascente, enfatizando a ganância material.
Mesmo nas histórias a que faltam o erotismo e a prática sexual, o humor comparece em meio à malícia dos personagens, à esperteza (confrontando-a com uma ingenuidade quase infantil), à cobiça e até ao escatológico, como na primeira história. Vemos aqui um Pasolini debochado, impiedoso na crítica às pessoas (de algumas destas destacando defeitos físicos) e aos costumes, mostrando-se ainda mais irreverente do que em certos filmes anteriores. Era uma nova fase de sua carreira, e, para inaugurá-la, não poderia escolher ninguém melhor do que um autor da linhagem de Boccaccio.
Entre os personagens fictícios infiltra-se um personagem real: o pintor Giotto di Bondone, interpretado pelo diretor. Contratado para pintar o interior de uma igreja, a sua presença, talvez, sirva como uma espécie de contraponto às nove histórias que compõem o filme. E é possível que ela represente uma homenagem de Pasolini a Giotto, amigo de Boccaccio, e, segundo se diz, citado por este no seu livro. Durante o processo de criação da pintura, Giotto tem sonhos com santos e até com Maria, personificada por Silvana Mangano, ainda esbanjando beleza do alto dos seus 42 anos, os quais irão lhe irão servir de inspiração.
Seja por qual motivo for, essa presença do pintor, no entanto, passa a impressão de ser um elemento estranho em um filme cuja pontaria mira nos alvos já mencionados. Ainda mais porque faz também parecer que, através dela, Pasolini pretendeu fazer uma (leve) análise do processo da criação artística (observe-se que "Decameron" se encerra com esta indagação de Giotto, depois de concluído o trabalho: "Por que criar uma obra de arte, se sonhar com ela é tão mais doce"?), análise, a meu ver, inapropriada à proposta e ao espírito do filme, que, apesar disso, não chega a ser prejudicado e constitui-se em um dos melhores do cineasta.

terça-feira, junho 02, 2009

O ESPECTADOR E A ATRIZ

Quando a atriz está sozinha em cena
me lembro daquele filme de Buster Keaton
e sinto desejo de penetrar na tela.


COMO SE FAZ UM POEMA?
Um poema se faz como o minucioso processo de produção
da rapadura?
Um poema se faz com a paciência do relojoeiro
ao consertar um relógio?
Um poema se faz com o desvelo de uma mãe
pelo filho enfermo?
Um poema deve-se deixá-lo livre como uma criança
que está descobrindo o mundo?
Um poema se faz com "sangue suor e lágrimas"?
Ou se faz com o mesmo deleite
de quando se come um prato saboroso?

E eu sei?
Pergunte a um poeta.

terça-feira, maio 26, 2009

AQUELE FILME

Foto de Fortaleza em meados da década de 1950.
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E à medida que o ônibus avançava pela cidade , em direção à agência, ia aumentando o fluxo de automóveis e ônibus. Ao mesmo tempo a cidade se revelava para mim, exibindo casas de estilos arquitetônicos que eram novidade para os meus olhos, assim como os edifícios. Estirava o pescoço para não perder nada daquele espetáculo que me era apresentado pela primeira vez, enquanto Stela o olhava com o ar indiferente de quem se habituara a vê-lo. Em alguns cruzamentos de ruas chamou-me a atenção a presença de um guarda, a fazer movimentos com os braços que obrigavam os veículos a parar ou seguir. Pessoas apressadas atravessavam as ruas.
Quando chegamos à agência, descemos, Stela pegou a bagagem e a conduzimos até um automóvel estacionado próximo do ônibus. Stela ajustou o preço da corrida com o motorista e em seguida nos aboletamos no banco traseiro. Era um carro pequeno, marca Prefect, parecendo já um tanto usado, e talvez a minha irmã o tenha escolhido por causa do preço mais baixo da corrida.
Era um carrinho bem modesto aquele, mas o fato não fez nenhuma diferença para quem nunca tinha entrado num automóvel. Me encostei à janela e novamente grudei os olhos na paisagem, enquanto o Prefect percorria as ruas.
Nos hospedamos na casa do tio Alberto, irmão da mamãe. Era lá onde a minha família ficava quando ia a Fortaleza. Meu tio estava trabalhando quando chegamos e fomos recebidos por tia Íris. Stela tornara-se hóspede habitual da casa, por causa das frequentes viagens que fazia a Fortaleza. Daquela vez, no entanto, iria demorar-se, para poder assistir-me nos dias que eu ia passar em Fortaleza; Stela seria, digamos assim, a minha cicerone na cidade, já que meu tio era um homem muito ocupado e sua mulher também, já que se encarregava das tarefas domésticas. (Meu outro irmão já vivia em Fortaleza, mas quase não dispunha de tempo, trabalhando durante o dia e estudando à noite.)
A primeira vez que saí com Stela, logo no outro dia, foi para conhecer o mar. Fomos até lá caminhando, pois a casa de titio não era muito distante da praia. Tudo nele me deixou maravilhado. A cor, a imensidão, o vaivém das ondas, o som delas. Contemplando aquele mundão dágua, me dei conta de como era acanhado o rio da minha cidade, que só enchia na época das chuvas.
Em companhia de Stela conheci o centro de Fortaleza, andando por calçadas povoadas de pessoas apressadas. Atravessei a Praça do Ferreira, que achei enorme. Viajei nos ônibus, em tudo diferentes dos ônibus que conhecia, com fileiras de assentos de um lado e de outro, os quais eram reservados só para dois passageiros.
Tive uma surpresa no primeiro ônibus em que viajei: pouco tempo depois de deixarmos a parada, apareceu no início do corredor um rapazote de boné, vestido com calça e camisa de um verde desbotado, e começou a cobrar as passagens. Entre dois dedos de uma mão ele prendia as cédulas dobradas, enquanto com a outra mão recebia o dinheiro, passava o troco e entregava a cada passageiro uma pecinha de cor e redonda como uma moeda. A rapidez e a habilidade do cobrador me deixaram impressionado. Ele entregou a Stela duas daquelas pecinhas. Stela ficou com uma e me deu a outra. A minha era de uma cor diferente da de Stela e perguntei a ela a razão daquilo, ela me disse que era porque eu só pagava meia-passagem. Quando fomos descer, depositamos as "moedas" numa urna perto do motorista.
As lembranças que tenho do meu primeiro contato com Fortaleza, todas elas me são muito caras, cada uma ocupando um lugar destacado em minha memória. Há, no entanto, aquela de recorrência mais freqüente, como se quisesse sobrepujar as demais. E porque isso? Suponho que seja porque jamais pude ter um novo contato com o agente dessa lembrança. Explico melhor: enquanto renovava o contato com o móbil das demais lembranças, em outras vezes que visitei Fortaleza e quando fui morar com o tio Alberto, o mesmo não ocorreu com o filme que vi numa manhã de domingo.
Não foi com Stela que o assisti, mas com o meu irmão. Stela não se interessava por cinema, então pediu ao nosso irmão que fosse comigo, quando disse a ela que estava curioso por conhecer um daqueles cinemas em cuja frente passei quando andamos pelo centro de Fortaleza.
Meu irmão levou-me ao Cine Diogo. Tive logo uma idéia das dimensões do prédio quando entramos no enorme saguão. Vi, impressionado, vitrines espalhadas pelas paredes laterais, atrás das quais se expunham fotos e cartazes de filmes. Meu irmão examinou-as todas e depois subimos uns degraus e fomos em direção a um homem uniformizado que recebia os ingressos. Ao pôr os pés na sala de projeção, me senti muito mais criança diante das dimensões daquele espaço e da profusão de luz. E tal como acontecera quando me vi de frente para o mar e o comparei com o acanhado rio de São Januário, assim também procedi, ao ingressar no Diogo, em relação ao cinemazinho da minha cidade.
Do filme quase nada me lembro, além do título: Segredo de Estado. Me lembro, vagamente, de um homem sendo seguido através de ruas de uma grande cidade. E de uma cena em que ele entra numa cabine telefônica. E, no entanto, esse filme, cuja trama permanece por mim ignorada, do qual só gravei aquela cena, ficou para sempre na minha memória. Quem pode explicar isso? Será que foi porque nunca o revi?
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- Segundo capítulo do meu romance "Infância do Coração" (2002).
NOTA - Conservei a grafia da época em que o livro foi escrito.

terça-feira, maio 19, 2009

UM TEXTO DE MARIO BENEDETTI (14.9.1920-17.5.09)



Foto in diversao.terra.com.br/




Os Galarza


A casa de Capurro também tinha códigos e mistérios. Por exemplo, eu notava que às vezes, geralmente na hora da sesta, quando o meu pai se aproximava da minha mãe e começava a cercá-la com carícias, beijos e abraços furtivos, em algumas ocasiões minha mãe sorria, devolvia-lhe um beijo ou outro e depois os dois se trancavam por um longo tempo no quarto. Mas outras vezes, quando meu pai começava com seus chamegos, mamãe ficava séria e apenas dizia: "Hoje não posso, querido. Os Galarza chegaram". Para mim aquela resposta era um enigma, porque eu passara a manhã inteira em casa e não tinha chegado ninguém: nem os Galarza nem qualquer outra família. Além disso, eu não conhecia ninguém que se chamasse daquele jeito. Só vários anos depois fui saber que Galarza era o nome de um chefe colorado dos tempos da guerra civil e, pelo que diz a lenda, quando seus homens passavam por algum povoado os derramamentos de sangue eram inevitáveis. Ou seja, o que mamãe estava avisando ao meu pai (em código, claro, devido à minha indiscreta presença) era que ela estava com as regras e portanto sem nenhuma disponibilidade erótica.

O outro mistério era uma espécie de porta-alçapão, situada num dos quartos internos. Uma vez ouvi minha mãe dizer que aquele quadrado de madeira era a entrada do porão. Eu fora proibido de tentar abri-lo; interdição que podia ter sido evitada porque os porões sempre me produziram um medo irracional, e não apenas jamais me propus a abri-lo como nunca me arrisquei quando entrava no quarto, a pisar naquele terrível quadrado de tábuas.

Entre as lembranças mais bonitas de Capurro, guardo as da hora de acordar, missão que normalmente cabia aos inquilinos da figueira. Quando mamãe gritava da cozinha para eu me levantar e ir tomar café, já fazia um bom tempo que os pássaros tinham se encarregado de me acordar. Alguns haviam perdido o medo, e até a prudência, e entravam no quarto e se aproximavam da minha cama, sabedores de que eu sempre reservava para eles uma refeição de migalhas. E havia um visitante adicional, sobre o qual nunca, é claro, informei à minha mãe: um ratinho minúsculo, um filhotinho de camundongo que quase sempre, quando eu abria os olhos, estava junto à cama, esperando os pedacinhos de queijo, restos de minha quota na dieta especial para compensar meu déficit de proteínas. É óbvio que o camundongo e eu tivemos naquele período uma elevação protéica nada desprezível.


- Capítulo do romance "A Borra do Café", de 1992, lançado no Brasil pela Record/1998, traduzido por Ari Roitman e Paulina Wacht.


- Falecido no último domingo, o uruguaio Mario Benedetti foi um dos escritores mais representativos da literatura latino-americana, embora muito pouco conhecido no Brasil. Escreveu, segundo se informa, mais de 80 livros, abrangendo poesia, romance, conto e ensaio. Também escreveu roteiros para cinema.

terça-feira, maio 12, 2009

UM POEMA DE FERNANDO PESSOA PARA CRIANÇAS

O Poeta aos 10 anos.
in
biografia.wiki.br/

POEMA PIAL

Casa Branca - Barreiro a Moita

(Silêncio ou estação, à escolha do freguês)

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Toda gente que tem as mãos frias

Deve metê-las dentro das pias.

Pia número UM,

Para quem mexe as orelhas em jejum.

Pia número DOIS

Para quem bebe bifes de bois.

Pia número TRÊS,

Para quem espirra só meia vez.

Pia número QUATRO,

Para quem manda as ventas ao teatro.

Pia número CINCO,

Para quem come a chave do trinco.

Pia número SEIS,

Para quem se penteia com bolos-reis.

Pia número SETE,

Para quem canta até que o telhado se derrete.

Pia número OITO,

Para quem parte nozes quando é afoito.

Pia número NOVE,

Para quem se parece com uma couve.

Pia número DEZ,

Para quem cola selos nas unhas dos pés.

E, como as mãos já não estão frias,

Tampa nas pias!



terça-feira, maio 05, 2009

VICKY CRISTINA BARCELONA (2008)

Nesta cena, Penélope Cruz, Javier Bardem eScarlett Johansson.




Em "Match Point" (2005), Woody Allen deixava Nova York - onde eram ambientados quase todos os seus filmes anteriores - e se mudava para Londres. Embora tenha gostado moderadamente de "Match Point", não há dúvida de que ele representava um sopro de revitalização na carreira do diretor, seriamente abalada por filmes como "O Escorpião de Jade", "Dirigindo no Escuro", "Assaltantes", entre outros que vi. Como não conheço o outro filme que ele rodou em Londres, não sei se ele manteve, pelo menos, o mesmo nível de qualidade do anterior.

A experiência na Europa deve ter agradado a Allen, pois ele escolheu a Espanha para cenário de um novo filme. Mas se ele se dera relativamente bem em Londres, não se pode dizer o mesmo com relação a Barcelona. Esse "Vicky Cristina Barcelona" apresenta alguns graves defeitos no roteiro. A mudança de sentimentos da americana Vicky (Rebeca Hall) para com o pintor Juan Antonio (Javier Bardem) não é só previsível, mas ocorre com uma certa rapidez, principalmente se se levar em conta que ela está noiva. Enquanto a amiga Cristina (Scarlett Johansson) sente de imediato atração pelo espanhol e adere com entusiasmo à sua proposta de passarem uns dias em Oviedo, para, entre outras coisas, fazerem amor com ele, Rebeca rejeita com veemência o convita, mas, forçada por Cristina, acaba fazendo a viagem. Lá em Oviedo, por um desses acasos que ocorrem em roteiros convencionais, Cristina vai ao quarto de Juan Antonio, mas, de repente, antes de irem para a cama, é acometida de uma crise de úlcera, que a deixa sob cuidados médicos até sairem de Oviedo. O espectador, que nem precisa ser um estudioso de cinema, bastando-lhe ter uma razoável rodagem cinematográfica, não ficará surpreso quando Vicky e o espanhol fazem amor logo depois de sairem da apresentação de um guitarrista; nem que essa relação irá mexer com os sentimentos dela, mesmo depois de casar com Doug (Chris Messina), que vem de Nova York para essa finalidade.

Outro defeito do roteiro é a inserção de situações que em nada contribuem para a fluidez natural da história. Qual a necessidade do aparecimento daquele estudante americano que se sente atraído por Vicky? Eles vão ao cinema assistir a "Sombra de Uma Dúvida", de Hitchcock, e, depois, num supermercado, ele assedia Vicky, que o rejeita, e depois dessa cena, o rapaz some tão de repente como apareceu. Outro exempo, a cena em que Vicky flagra a amiga Judy (Patricia Clarkson), em cuja casa ela e Cristina se hospedam ao chegarem a Barcelona, beijando um desconhecido. O propósito da cena fica evidente na conversa que as duas mulheres têm pouco depois: Judy confessa que não sente mais atração pelo marido e incentiva Vicky a abandonar Doug e retomar a fugaz relação com Juan Antonio, para que, no futuro, não se veja na situação dela. Ora, sabendo Judy desse envolvimento da amiga, essa conversa poderia se dar normalmente, sem necessidade da cena anterior, que parece forçada, artificial.

Tal como relação sexual que têm uma vez Cristina e Maria Elena (Penélope Cruz), a desequilibrada ex-esposa de Juan Antonio, num intervalo do "ménage-à-trois" que se estabelece entre eles. (Aliás, o relacionamento entre Juan Antonio e Maria Elena, numa dualidade entre amor e ódio, atração e repulsão, mostrando dois seres que "foram feitos e não foram feitos um para o outro", como diz ele a Vicky, é, a meu ver, um dos únicos, se não o único, elementos positivos do roteiro.)

Para piorar, esses furos no roteiro não são compensados pela direção de Woody Allen - sem brilho, pouco inspirada, sem a "entrega" que vimos nos seus grandes filmes - que o tornaram durante alguns anos um dos diretores mais importantes do cinema contemporâneo. A impressão que passa é que ele não está muito à vontade em terras espanholas.

E, assim, "Vicky Cristina Barcelona" o faz retornar aos baixos de sua filmografia, forçando-nos à pergunta se já não estaria na hora de ele começar a pensar nos rumos que a sua carreira vem tomando de alguns anos para cá.








terça-feira, abril 28, 2009

A MULHER, SEGUNDO RACHEL DE QUEIROZ

Retrato da escritora quando jovem.

in Google.



Há muitos anos li numa revista uma frase atribuída à escritora Rachel de Queiroz, que me deixou funda impressão. Não me lembro exatamente das palavras, tanto tempo decorrido, mas elas expressavam a satisfação, o júbilo de Rachel de pertencer ao sexo feminino, pois isso a impossibilitava de ter que casar com uma mulher. Como não era uma entrevista, só uma frase, talvez no meio de frases de outros autores, não era revelado o motivo da hostilidade de Rachel às companheiras de sexo. E com a experiência adquirida no decorrer dos anos, de que a imprensa escrita nas entrevistas coloca frases que uma pessoa (geralmente famosa) não disse, ou não disse exatamente o que sai impresso, cheguei a pôr em dúvida a autenticidade das palavras da escritora cearense.
Ocorreu, então, que há poucos dias vi a reprise de uma longa entrevista que Rachel concedeu ao canal da Câmara, ou do Senado. Não deve ter sido muito tempo antes da sua morte, pois já estava um bocado velha, mas revelando uma grande memória e não menos lucidez. Peguei o programa já pela metade, mas ouvi ainda Rachel falar de José Lins do Rego, do Padre Cícero e do Marechal Castelo Branco, que era seu parente, entre outras personalidades. Perto do final, o entrevistador deve ter lhe perguntado algo sobre a mulher (preciso esclarecer que a entrevista seguia o modelo criado por Fernando Faro no programo "Ensaio", da TV Cultura, no qual não se vê o entrevistador, nem se lhe ouve a voz). E aí Rachel pegou pesado. Disse que as suas amizades eram com homens e usou umas três palavras fortes contra a mulher, das quais só me lembro de uma, que era "traiçoeira". "A mulher é muito traiçoeira", afirmou.
Ah, então era mesmo dela aquela frase antiga, falei para mim mesmo. E fiquei como se não tivesse ouvido aquela opinião sobre a mulher, partida de outra mulher. Olhei para a minha esposa, ao meu lado, não percebi nela a mínima reação. Porque é comum uma mulher falar mal de outra, o mesmo acontece com o homem. Isso ocorre muito entre as atrizes, as cantoras (Nara Leão, por exemplo, chegou a revelar publicamente sua antipatia por Elis Regina). Mas nunca ouvi, ou li, nenhuma delas manifestar uma ojeriza contra a mulher em geral. E não cabe dizer que Rachel estava querendo chocar, ou atrair para ela os holofotes. Há décadas já se consagrara como escritora, não precisaria usar de artifícios como esse. Além disso, ela era conhecida por sua franqueza, por dizer o que pensava, por não ter papas na língua. O que se pode, talvez, especular, é que Rachel, na juventude, tenha tido experiências traumáticas no relacionamento com mulheres. Pode ter ocorrido isso. Ou não?

segunda-feira, abril 20, 2009

DONA NENÉM (1909-1988)

Nesta foto, minha mãe estava a poucos dias de fazer 62 anos.

Me lembro dela sentada toda noite na calçada. Nunca sozinha. Um filho, uma filha a acompanhavam. E duas ou três vizinhas vinham conversar com ela, entre elas Dona Julinha, mulher de César Campos, o homem mais rico de Canindé. Meu pai que ficava lá pra dentro, às vezes aparecia, geralmente quando uma dessas amigas da mamãe estava presente, mas não se sentava, ficava recostado ao muro baixo que separava a calçada da casa. Permanecia ali até pouco mais das nove e meia, pois a luz apagava às dez e meia e ela tinha que puxar o terço e fazer os últimos preparativos antes de a casa mergulhar na escuridão. Me lembro dela lá nos fundos da casa pintando o cabelo. Extremamente religiosa, frequentando a igreja diariamente, minha mãe era muito vaidosa. O papai mexia vez por outra com o cabelo tingido da esposa: "ô cabelinhoo tão pretinho". Ela não gostava da brincadeira.

Tenho muitas outras lembranças dela. Fumando cachimbo, também lá para os fundos da casa, pedalando na Singer, rezando no oratório cheio de pequenas imagens de santos e santas, cantando benditos. E em certas noites, passando Asseptol nos meus pés feridos nas peladas de futebol. Enquanto aplicava o líquido, ficava me recriminando pelo meu "vício", às vezes, ameaçando de contá-lo ao papai. E quando o remédio ardia e eu reclamava da dor, ela dizia "é pra doer mesmo, vá jogar bola, vá". Quando arrumava a minha mala, na véspera de eu viajar para assumir o meu emprego num banco, interrompeu, de repente, a tarefa e, virando-se pra mim, disse: "meu filho, eu queria lhe fazer um pedido". Devo ter dito pois não, mamãe, e ela falou: "não se case logo, não". Ainda ia fazer 20 anos e só fui casar com quase 29. Não vou falsear a verdade, dizendo que só casei com essa idade para atender ao seu pedido, prefiro achar que isso só tenha ocorrido porque demorei a encontrar a mulher que escolhi para esposa. Seja esse o motivo, de qualquer modo satisfiz a vontade da mamãe.

Casou aos quinze anos. Nascida há exatos cem anos em Juazeiro do Norte, onde pontificava o padim Ciço, foi morar em Canindé, muito distante da sua terra. Teve 11 filhos. O primogênito, uma mulher (Adeilde), morreu com poucos meses de nascido. Filhos que vieram em intervalos curtos. Entre o primeiro e o último um espaço de 22 anos.

Dona Neném, chamada Antônia, tinha umas coisas engraçadas. Se algo que estava procurando demorasse a ser localizado, começava a dizer "dou-te, Cão, pelo amor de Deus". Na minha curiosidade de menino (que não arrefeceu no adulto), um dia lhe perguntei o porquê daquelas palavras. Ainda hoje me faz rir a explicação dela: sendo o demônio inimigo de Deus, iria devolver o objeto que, supostamente, teria surrupiado. Ah, Dona Neném.

Em várias vezes a ouvi dizer a algum dos seus filhos: "você pensa que o Céu é perto"? Não me lembro direito por que dizia aquilo. Parece que era quando queríamos uma coisa que ela achava muito difícil de conseguir. Ou, talvez, algum ato mau que tivéssemos praticado, que poderia dificultar a nossa ida para o Céu.

Seus ídolos musicais eram Luiz Gonzaga e Carlos Galhardo - dois cantores tão diferentes entre si, na voz e no repertório. Mas ela gostava um pouco mais do segundo, presumo que por ser um homem bonito. Houve até um fato divertido sobre a admiração da mamãe por Carlos Galhardo. Um dia ela disse que se o cantor fosse a Canindé, mataria um peru para lhe oferecer um almoço. O papai, que sabia ser irônico, e movido, quem sabe, por uma ponta de ciúme, passou a chamar o ídolo da esposa de "o homem do peru". Sempre que o nome do cantor era mencionado, lá vinha o "velho" dizendo, "ah, sim, o homem do peru que Neném quer dar um almoço pra ele". Mas Galhardo não pôde provar esse famoso peru, jamais apareceu na nossa cidade. Apresentou-se algumas vezes em Fortaleza, que não fica distante de nossa cidade, e não sei por que mamãe não foi conhecê-lo. Ah, Dona Neném.

Queria me fazer padre, e, se a memória não estiver me traindo, o seu desejo não se realizou por interferência do papai. A ideia também não me atraía nem um pouco.

Na última vez em que estive com mamãe, encontrei-a já muito doente. Não me reconheceu, passava a maior parte do tempo deitada numa rede armada perto do seu oratório, ela que fora uma mulher trabalhadora, tão disposta. Quando fui me despedir dela, me olhou sem dizer nada. Uns 2 meses depois recebi a notícia da sua morte. (Aliás na década de 1980, ocorreram 3 mortes na minha família. O papai em 1981, a Sônia, a mais nova das minhas irmãs, que, com menos de 50 anos, faleceu de uma doença misteriosa, que não foi diagnosticada, em 1986, e a mamãe em 1988.) Na companhia de 3 irmãos (os outros 3 não puderam comparecer) e das duas irmãs,enterrei-a.

Desde então não fui mais a Canindé.

terça-feira, abril 14, 2009

PÁSSAROS CATIVOS




Com os filhos não fora tão difícil, apesar das reclamações deles, às vezes tendo a mãe como intermediária. Já com os netos não estava conseguindo. Eram três os netos, o mais velho já quase chegando à adolescência, filhos de sua única filha. Desde que vira aquelas três gaiolas, com um pássaro dentro de cada uma, que tentara convencê-los de que o pássaro não pode ficar aprisionado, fora do seu habitat natural, mas os netos não lhe deram ouvidos. Tentara o apoio dos pais, a filha até que demonstrou interesse em ajudá-lo, mas o genro, um homem bom, mas sem um mínimo de sensibilidade para certas coisas, achava aquilo muito natural. Ora, Seu Luiz, todo menino gosta de criar passarinho em gaiola. O senhor quando era menino, deve ter tido os seus. Reagiu com certa veemência, dizendo que o seu pai não permitia essa crueldade com os pássaros. Mas o senhor bem que tinha vontade, ou não? Preferiu se calar.
E passou a frequentar cada vez menos aquela casa. Queria muito bem à filha, queria muito bem aos netos, os primeiros que tivera, e os únicos que moravam na mesma cidade. Mas se sentia incomodado quando chegava lá e via as três gaiolas enfileiradas com aqueles pássaros mudos, que lhe pareciam tristes na sua condição de prisioneiros.
Numa noite de insônia, chegou-lhe, de repente, a lembrança de um poema de Olavo Bilac, que lera na juventude e que lhe calara fundo na mente e no coração. E o título veio de imediato: "O Pássaro Cativo". Fez um enorme esforço para se lembrar de alguns versos, em vão; a memória, no entanto, preservara a lembrança de que era um poema destinado às crianças, no qual o tema era o crime de tornar um pássaro cativo em uma gaiola. Não se levantou de um salto para procurar o poema porque sabia que não o tinha, mas no dia seguinte, depois do café, telefonou para um seu amigo desde os tempos de jovens. Perguntou-lhe se lembrava do poema e se o tinha. A memória do amigo não retivera sequer o título e estava convicto que não o tinha. Mas vou pesquisar na Internet e, encontrando-o, ou não, ligo pra você. Telefonou ainda cedo da noite. Descobrira, sem trabalho, o poema, e, à medida que o lia, os versos foram se lhe tornando familiares e a emoção tomou conta dele. Conversaram um bom tempo sobre o poema, e, antes de se despedirem, combinaram que Seu Luiz iria à casa dele na manhã do dia seguinte.
Lá chegando, o amigo já estava com o poema impresso. Seu Luiz leu o título e ficou em silêncio, segurando o papel, como se tivesse recuperado um objeto raro e precioso que lhe fora tirado há muitos anos. Depois, como se acostumara a fazer, leu o poema em voz alta, e, tal como o amigo, não pôde conter a emoção, que se intensificou na parte em que o poeta dá voz ao pássaro cativo para se dirigir à criança que o aprisionara. Ao terminar, perguntou ao amigo se ele podia tirar mais três cópias, para dá-las aos netos.
No outro dia, um domingo, foi à casa da filha. Como sempre, a visão das três gaiolas causou-lhe mal estar, mas ocorreu algo estranho: sentiu, ao mesmo tempo, uma ponta de esperança de que um dia elas poderiam ser jogadas fora. Juntou-se com os três netos no quarto deles e lhes pediu muita atenção ao que iria ler-lhes. Outra vez a emoção lhe tomou conta. Terminada a leitura, agora respaldado pela força do poema, alertou-os mais uma vez para a maldade que estavam praticando. Em seguida, entregou a cada neto uma cópia do poema, recomendando a eles que o lessem uma vez ou outra, sem se desfazer jamais daquele papel.
O tempo foi voando, voando, a cada vez que Seu Luiz ia visitar os netos, perguntava pelo poema, se o liam de vez em quando, se não o tinham rasgado. Lê-lo é provável que não o fizessem, mas, pelo menos, o conservavam, como faziam questão de mostrar ao avô.
Até que chegou o dia de mais um aniversário de Seu Luiz. A manhã já ia adiantada, quando os netos irromperam em sua casa para lhe dar os parabéns. Cada um com a sua gaiola, os três disseram, vovô, viemos trazer o nosso presente. Vendo o "presente", o avô ficou tão irritado que pela primeira vez foi grosseiro com os netos. Vocês estão me faltando com o respeito. Saiam já daqui. Ora, fazerem isso com o seu velho avô. Aí o mais velho falou, não é o que o senhor está pensando, vovô Luiz. Vamos para aquela janela. Ainda aborrecido, acompanhou os meninos. Chegaram à janela, que se abria para um largo e extenso terreno baldio. Olhe só, vovô, continuou o mais velho. Pousou a gaiola no parapeito, abriu-lhe a portinha, pegou o pássaro com mãos cuidadosas e soltou-o para a imensidão do espaço. Em seguida foi a vez do segundo neto abrir a portinha, retirar com o mesmo cuidado o pássaro e soltá-lo. Por fim, o mais novo imitou a ação dos outros. Pronto, vovô, este é o nosso presente para o senhor, falou como sempre o mais velho dos netos. Seu Luiz estava recostado num canto do parapeito, olhando para fora e sem dizer palavra. Assim ficou por uns três minutos. Os netos o olhavam atentamente. Foi então que viram, em dado momento, o avô puxar um lenço do bolso e levá-lo aos olhos.


- Este texto foi baseado numa história, por ele vivenciada, que me contou o meu amigo João Wilson Mendes Melo, escritor potiguar e professor aposentado da UFRN.

terça-feira, abril 07, 2009

A EMBRIAGUEZ DO SUCESSO (Sweet Smell of Success/1957)




Lançado agora em DVD, "A Embriaguez do Sucesso" conserva o impacto e o vigor da crítica ao tipo de jornalismo sensacionalista, 52 anos depois de chegar ao cinema. A personificação maior desse lado sujo da imprensa é J.J. Hunsecker (Burt Lancaster), definido por um colega como "um homem com escrúpulos de um porquinho da índia e princípios de um mafioso". Um homem poderoso, por causa da coluna que escreve e apresenta na televisão, que é consumida por milhões de pessoas, com ligações com a política e a polícia. E se J.J. simboliza o poder, a fama e o prestígio conquistados pelo tipo de jornalismo que pratica, Sidney Falco (Tony Curtis), igualmente inescrupuloso, representa a ambição de chegar ao topo do sucesso do outro. Publicitário de profissão, Sidney é, na prática, um assessor de J.J, o homem encarregado de fornecer matéria para a coluna.
Dois personagens "antipáticos", perversos, que manipulam, chantageiam pessoas. J.J. faz chantagem até mesmo com Sidney, deixando por muitos dias de publicar as notícias que este lhe fornece, porque Sidney ainda não conseguira uma forma de desfazer o namoro da irmã de J.J, Susie (Susan Harrison) com Steve (Marty Milner), guitarrista de um conjunto de "jazz". A obstinação (que chega à obsessão) com que o colunista persegue esse objetivo, buscando separar o casal, não configura uma preocupação com a condição social e profissional do rapaz, isso não é percebido em nenhum momento do filme. Na verdade o que se percebe é uma atração dele pela irmã, com quem mora, que é sugerida em duas cenas: uma, quando J.J. entreabre a porta do quarto dela e, como um "voyeur", a observa dormindo; e a outra, já quase no final, quando, de sua janela, ele a olha caminhando em direção ao hospital, onde está internado Steve. A expressão dele é de quem sofreu uma perda.
Steve aparece como uma espécie de "mocinho" em oposição ao "vilão" J.J. e seus acumpliciados. Confronta-se com Sidney em mais de uma ocasião - na boate, a quem acusa de o estar espionando, e no escritório do publicitário os dois quase chegam a se atracar, depois de uma calorosa discussão. E no seu único encontro com J.J. no auditório da televisão, tem a coragem de desafiá-lo, ao questionar o seu poder, o seu prestígio. Pela primeira vez afrontado na sua privilegiada condição pessoal e profissional, o ego de J.J. sofre um abalo e o leva a tomar uma decisão drástica: obriga Sidney, em troca de este substituí-lo na redação da coluna no período em que pretende viajar com a irmã, a combinar com um conhecido truculento policial a eliminação de Steve.
O fato de não se saber se Steve escapará da morte (ao contrário de Sidney, que é morto pelo policial e o seu parceiro, a mando de J.J., como resultado de uma situação que reforça a percepção da atração do irmão pela irmã) é mais um trunfo do filme, ao não mostrar o encontro dos namorados no hospital, fazendo-o escapar do risco de um final feliz que poderia causar danos à proposta do filme.
A direção de Alexander Mackendrick, o mesmo de "Quinteto da Morte" (1955), é admirável, inclusive por poder revelar que Tony Curtis possuía potencial como ator e não era apenas um rosto bonito. Sua atuação é tão boa quanto a de Burt Lancaster e talvez a supere em um ou outro momento. E depois desse filme, Curtis reafirmou a posse de recursos interpretativos, até para a comédia, na qual brilhou em filmes como, por exemplo, "Quanto Mais Quente Melhor", de Wilder.
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NOTA - Realizado em preto e branco, "A Embriaguez do Sucesso" foi colorizado na transposição para DVD. Isso causou um grande prejuízo à fotografia de James Wong Howe, "o mestre do claro-escuro", conforme o chamou Antônio Moniz Vianna em sua crítica quando o filme foi lançado. Trata-se de um crime contra a integralidade de uma obra, cujos autores deveriam ser punidos.