domingo, maio 07, 2006

CAETANO E SEUS IRMÂOS


"Eu quero tocar fogo neste apartamento,
Você não acredita".
Os pés e a cabeça apoiados em almofadas, ouvia os angustiados versos de Caetano. Era assim todas as noites. Antes, lia um pouco, ou via televisão, se houvesse um programa que o interessasse. Ouvia outros compositores, porém Caetano era o favorito. Às vezes, punha apenas o disco que continha aquela faixa, que, por ser a preferida, repetia exaustivamente. Não havia noite em que não a ouvisse. Vanda - sua mulher - já lhe confessara que não suportava mais escutá-la. E, pelo síndico, já soubera que os vizinhos também partilhavam da mesma opinião. Defendeu-se: ouvia música em volume baixo, portanto, não estava infringindo nenhuma norma do regulamento do edifício. E continuou com o hábito (ou necessidade?).
A constância com que ouvia a música fazia-o, comumente, lembrar-se do que uma irmã lhe contara: uma mulher enlouquecera de tanto ouvir Bolero. Já na ocasião discordara de que fora esse o motivo da loucura. Tinha arraigada a opinião de que a obra de arte não conduz ninguém à loucura. Ao contrário, torna mais lúcidas as pessoas.
O toca-discos solta o estalido que adverte sobre o término da última faixa. Levanta-se e vai recolocar o disco. Antes, resolve servir-se de uma dose de uísque. O televisor do vizinho está informando sobre o currículo de um concorrente às eleições. Saturado, sim, estava da campanha eleitoral. E enojado pelo nível rasteiro em que estava sendo conduzida, os adversários trocando insultos e acusações, os muros da cidade emporcalhados de piche e de expressões indecorosas, os trios elétricos trafegando com um som que ultrapassa a capacidade auditiva das pessoas.
Os versos de Caetano rodavam outra vez. Agora estava sentado sobre uma almofada, o copo ao lado. Até ele chegava o ressonar de Vanda. Invejava-lhe a facilidade para conciliar o sono. Caía na cama e em pouco tempo já dormia. Com ele não era assim. Não foram poucas as noites em que passara insone, buscando todas as posições para dormir - em vão. O médico lhe receitara um sonífero que, no início, produzira efeito. Mas depois de algum tempo, nem com o remédio conseguia dormir. Passou a adicioná-lo ao uísque e só assim obteve algum resultado.
"Eu quero tocar fogo neste apartamento,
Você não acredita".
Genial Caetano, ele pensou. Devia estar numa grande fossa quando escreveu esses versos. Com eles, tornou-se o porta-voz de milhares de irmãos que padeciam de uma angústia invencível. E que, para atenuá-la, recorriam a diversas espécies de terapia: o remédio receitado pelo analista, o álcool, o tóxico, a leitura, o filme, o pranto.
Depois de beber o uísque, sentiu uma súbita vontade de sair. Eram pouco mais de dez horas. Não sentia motivado para a leitura e já escutara música por muito tempo. Coxo, o sono demoraria a chegar. Caminhar seria a melhor maneira de esperá-lo. Deu boa-noite ao vigia, que conversava com dois homens. Andou lentamente pela rua que passa em frente ao edifício. Ainda não havia sido retirada a faixa que aludia à visita do Presidente, ocorrida há dois dias. Lembrou uma vez mais o que um jornal publicara acerca do diálogo do Presidente com o historiador da cidade, estabelecido através de bilhetinhos, por causa da surdez do segundo. Dessa conversa manuscrita, um trecho o deixara chocado - a defesa que o visitante fizera do palavrão. Não que fosse um puritano, nem gostasse de soltar uma palavra obscena de vez em quando. Era a forma grosseira com que foi exposta a necessidade do seu uso e por uma pessoa, cujo cargo o obrigava a portar-se com recato. Pelo menos, diante dos cidadãos.
Havia alguns fregueses no bar do outro lado da rua, onde tocava um frevo rasgado de Moraes Moreira. Chegou ao cruzamento da rua com a que dá acesso à praia. Dirigiu-se para a amurada em frente. Recostado à parede, deitou a vista para os múltiplos colares luminosos. Provindo do mar, o vento brincava com seus cabelos e fazia baixar a temperatura que, durante o dia, já atingia graus elevados naquela época do ano. Resolveu descer até ao mar. À medida que dele se aproximava, o vento aumentava a força e a temperatura diminuía cada vez mais. No caminho, defrontava-se com um ou outro carro, subindo a ladeira. Um homem de barba espessa e cabelos nos ombros o fez parar, pedindo-lhe fogo. Acendeu com a chama do seu cigarro o cigarro do homem, em quem descobriu um adolescente disfarçado pela barba e os cabelos compridos que se agitavam com o vento. Sentiu um odor estranho exalado pelo cigarro daquele quase garoto. Que lhe disse valeu cara e seguiu em frente.
Ao tomar o calçadão, parou um pouco e pôs-se a observar o balanço das ondas. Tirou os chinelos e desceu para a areia. Andou um longo percurso, em que encontrou casais que se amavam sobre o leito arenoso. Desabituado a caminhar, logo se sentiu cansado. Sentou na areia. O vento chicoteava-lhe o corpo, o frio fazia-o tremer, mas não se importou. Um som de vozes amorosas chegava-lhe aos ouvidos. E, de repente, experimentou uma grande sensação de paz interior, que há muitos anos lhe tinha sido roubada. Ali ficou por um tempo indeterminado. Sem pensar em nada, apenas fruindo aquele instante de paz. Não. Ele pensou, sim. Pensou em nunca mais deixar aquele lugar. Em não ter que retornar ao apartamento, ao qual Caetano queria tocar fogo. Em não ter que se aboletar num carro e enfrentar o trânsito e as neuroses dos motoristas. E, depois, emparedar-se no escritório, entrar de novo no carro e emparedar-se também no apartamento. E comer comer comer. Todo dia, todo dia. Toda noite. Tudo tediosamente igual. Como desabafou Caetano.
Conto extraído do meu livro O Tempo Está Dentro De Nós, 1989.

quarta-feira, maio 03, 2006

VELHO NUMA MANHÃ DE DOMINGO

Solitário está o velho na ante-sala da casa.
Seu olhar abrange o pequeno trecho da rua,
paisagem que a retina fixou há muitos anos.
Mas talvez não seja para a rua
nem para os raros transeuntes
que o velho estenda os olhos dispensados de lentes.
Quem sabe se neles não permaneça um resto de brilho
provindo da lembrança de remotos domingos.
E não se sinta sozinho entre a algazarra dos familiares
que o deixaram isolado naquele domingo.



CINEMA - Os 90 anos de Glenn Ford

No último primeiro de maio o ator Glenn Ford chegou aos noventa. Ótimo ator, seu talento não foi bem aproveitado por Hollywood. Li uma vez um artigo de Paulo Francis em que, de pássagem, este se referia a um detalhe na expressão do rosto de Glenn Ford, que só ele sabia fazer. Não são muitos os seus filmes memoráveis, entre os pouco mais de cem que fez, incluindo trabalhos na TV. Seu filme mais famoso é "Gilda", em que atuava ao lado de uma esplendorosa Rita Hayworth. (Ele fez par com Rita em mais 4 filmes.) O mais cultuado, mas não o melhor de sua carreira. Para mim, o melhor é "Os Corruptos", de Fritz Lang. Outros filmes de destaque foram "Desejo Humano", também de Lang, baseado no romance "A Besta Humana", de Émile Zola", que já havia sido transposto para o cinema por
Renoir; "Sementes da Violência" (Richard Brooks), "Como Nasce um Bravo" (Delmer Daves), "Cimarron" (Anthony Mann). Gosto também do thriller "Escravas do Medo", dirigido por Blake Edwards, que se especializou em comédias (foi o diretor de todos os filmes sobre o atrapalhado Inspetor Closeau, na interpretação dlo grande Peter Sellers). Talvez um ou outro mais, de que não me lembro. Glenn Ford fez uma aparição especial no primeiro dos três "Superman" estrelados por Christopher Reeve. Talvez pouca gente saiba que ele não nasceu nos Estados Unidos, mas no Canadá. Aposentou-se em 1991, num filme para a tevê. Seu nome verdadeiro é Gwyllin Samuel Newton Ford.

domingo, abril 30, 2006

3 POEMAS


Um Amor

Quando ela entrou na minha vida,
O seu corpo, não apenas a voz,
era receptáculo do mais doce mel.
Com o passar do tempo,
ela foi soltando as abelhas.


O Espectador e a Atriz

Sempre que vejo a atriz sozinha em cena,
me lembro daquele filme de Buster Keaton.
E tenho vontade de penetrar na tela.



Drummond revisitado

Ah, este choro de Pixinguinha,
esta cerveja mofada de gelo,
me deixam comovido como o diabo.
E eu nem preciso olhar a lua.

quarta-feira, abril 26, 2006

SOBRE UM BENFEITOR DA HUMANIDADE


Este artigo foi publicado num jornal de Natal em 5/7/1987. É aqui republicado com mínimas alterações de datas, nomes de filmes e de linguagem.
Numa longa entrevista ao jornalista Giovanni Grazzini (transformada no livro Fellini - Entrevista sobre o Cinema), Fellini, em mais de uma ocasião, refere-se ao ator cômico como um benfeitor da humanidade. Para ele, esses artistas que possuem o talento de fazer as pessoas se aliviarem de suas cargas de sofrimentos e tensões com a liberação do riso reparador, são tão importantes para o destino da humanidade, quanto um cientista que se dedica ao trabalho de descobrir a cura de uma enfermidade letal. Pode-se até presumir que a admiração do cineasta italiano por esses atores encubra uma certa inveja pelo bem que eles fazem ao espectador, quando ele revela o desejo de ter nascido para fazer rir.
O ano de 1987 assinala o trigésimo aniversário da morte de um desses benfeitores da humanidade - um dos maiores. Foi em 1957 que faleceu Oliver Hardy, que se tornou conhecido e amado em todo o mundo como "O Gordo". Estava afastado da tela há seis anos, desde A Ilha da Bagunça, que marcou a aposentadoria da maior dupla que teve o cinema, em cujo rastro inúmeras outras surgiram, até mesmo no cinema brasileiro. No ano anterior, O Gordo teve uma aparição episódica no filme de Capra, Nada Além de um Desejo, com Bing Crosby. Mas o seu nome não apareceu nos créditos.
Os dados biográficos do Gordo dão-no como tendo abandonado o curso de Direito, para abrir um cinema. E impressionado com o trabalho dos atores, resolveu tentar a interpretação. É em 1914, como "Babe" Hardy, que o seu nome aparece pela primeira vez numa tela, no filme A Tango Tragedy. Os fãs de cinema teriam que aguardar treze anos anos para vê-lo ao lado de Stan Laurel, "O Magro" , em 45 Minutes from Hollywood, iniciando uma carreira que durou 23/ 24 anos. (Em 1921 eles atuaram em A Lucky Day. mas sem formarem uma dupla.) Ambos integravam a famosa equipe de Hal Roach, que os teve sob contrato até 1940. Nesse ano fundaram a sua própria companhia, "Laurel and Hardy Feature Produtions". Curioso: não produziram um só filme, preferindo excursionar pelos EUA com um show intitulado The Laurel and Hardy Revue, que era, invariavelmente, encerrado com um esquete da dupla.
Mais do que parceiros, Hardy e Laurel foram grandes amigos. Há quem assegure que a morte do Gordo foi causada, sobretudo, pelo desgosto de ver o amigo preso a uma cadeira de rodas, em consequência de um enfarte. Quando ele morreu, Paulo Mendes Campos (se não estou enganado) escreveu uma crônica em que dizia que não queria estar no lugar da pessoa que foi levar ao Magro a notícia da morte de Hardy. Até morrer em 1965, Laurel sempre cuidou para que nunca faltassem flores no túmulo do amigo.

domingo, abril 23, 2006

UM POUCO DA POESIA DE MOACY CIRNE



Em Caicó,
mel e rapadura,
apaixonei-me por Ava Gardner,
por Brigitte Bardot,
por Gilda, a que nunca houve.
Em Caicó,
mel e puxa-puxa,
o mundo e o Fluminense nasceram
para mim.
E eu ainda não conhecia Nevers.



O Cineclube Tirol,
aos sábados,
sabia
dos nossos sonhos solitários.
O Rio Grande,
aos domingos,
era mais do que um cinema.
Depois,
nos outros dias,
havia tempo para tudo:
para Sartre Camus ou Pessoa na Ponta do
Morcego,
jazz ou samba na casa dos amigos.
Havia tempo
para às 5 da tarde
passar na Universitária
beber um conhaque na Palhoça
ou em Nemésio
jogar conversa fora no Grande Ponto.
Havia tempo para ler
Zila, ouvir Tita vibrar com o ABC.
Havia tempo.


Do Iara Bar,
em Areia Preta,
sedentários
embalávamos o nascer do sol.
Os pescadores,
pastores do imprevisível,
conversavam com os peixes
azuis
da manhã.


Os poemas, sem título, como os demais, foram extraídos do livro Rio Vermelho, edição Fundação José Augusto/Departamento Estadual de Imprensa, 1998.

quarta-feira, abril 19, 2006

MARCAS DA VIOLÊNCIA (A History of Violence/2005)


Há neste filme de David Cronenberg (A Mosca, Gêmeos - Mórbida Semelhança) uma imagem que assinala o aprisionamento do personagem Tom Stall (Viggo Mortensen), em um passado, do qual não consegue escapar. É a cena em que Edie (a bela Maria Bello) observa da janela da sua casa o marido lutar contra os 3 homens que o vêm perseguindo. O enquadramento da cena faz uma parte da janela se assemelhar à forma de uma cruz - uma cruz que Tom terá de carregar talvez pelo resto da vida. Bem que ele tentou construir uma vida nova ao lado da mulher e do casal de filhos. Uma vida tranquila, relativamente feliz, gozando de uma boa situação financeira, até que uma tentativa de assalto em seu restaurante desperta os fantasmas do passado. Ao matar os dois assaltantes, Tom converte-se em um herói, cuja fama ultrapassa as fronteiras da pequena cidade. A sua exposição na mídia (uma crítica que o filme não perde a oportunidade de fazer), no entanto, irá abalar o relacionamento com a mulher e o filho adolescente, quando chega à cidade Carl Fogarty (Ed Harris, ótimo, como sempre), que tem contas a ajustar com Tom. (De um grande impacto o momento em que Carl tira os óculos escuros, pondo à mostra a horrenda cicatriz, causada por ferimentos que Tom lhe infligiu.) Há, pois, uma drástica mudança na relação do casal, depois da luta, quando, instado pela mulher, Tom revela , sucinto, o seu passado, inclusive o verdadeiro nome, Joey Cusack; e essa mudança fica bem evidenciada no ato sexual que eles praticam na escada da casa, em que o prazer é substituído pela violência, em oposição ao praticado no motel, antes de tudo aquilo acontecer.
Um filme excelente, repleto de grandes momentos, teria que terminar com um final de antologia. São três minutos sem uma única palavra, quando Tom/Joey volta para casa e dá com a família reunida à mesa de refeições. Ele tinha saído para reencontrar o irmão Richie (William Hurt),. Mais do que um reencontro, um ajuste de contas entre os dois, marcado pela violência e morte. Em vez de palavras, o silêncio, os rostos contraídos da esposa (vestida de preto, como se já se considerasse uma víuva) do filho, o gesto da garotinha, meio sorrindo para o pai e indo buscar um prato para ele. Há uma troca de olhares entre o casal, e a expressão ambígua da mulher, confrontando-se com a de um homem abatido pela vergonha e o sofrimento, transfere para o espectador a decisão do futuro daquela família.

domingo, abril 16, 2006

INFÂNCIA


Cine Infância

Charles Starrett se vestia de preto e colocava a máscara.
Tornava-se o Durango Kid para enfrentar o vilão.
Nos intervalos das brigas e dos tiroteiros,
Roy Rogers cantava e tocava violão.
Weismuller já não usava a diminuta veste de Tarzan,
mas o silaque de Jim das Selvas.
"Volte na próxima semana":
era uma ordem ao final de cada seriado,
e por sete dias roíamos as unhas,
para saber como o mocinho ia se livrar do perigo.
Tantos outros heróis, outras tantas aventuras
na tela da minha infância.
Tudo isso desapareceu.
Restou a saudade.


O Dentista da Minha Infância

Um homem bom o dentista da minha infância.
A voz carinhosa, os ditos brincalhões
eram formas de me atenuar o medo daquela cadeira.
Às vezes, ainda me presenteava com um bombom.
O meu dentista, hoje, é um homem frio e formal
e os seus honorários adoçariam a boca de milhares de crianças.

quarta-feira, abril 12, 2006

PERSONAGENS


Quando trabalhei em Fortaleza, de maio/72 a junho/74, tive como colega José Moura, tratado por Mourinha. Era o contínuo da Seção. De uma fealdade que chamava a atenção: corpo mal-ajambrado, olhos esbugalhados e o nariz torto despencando para a boca. Mas uma figura humana muito interessante, pronta para fazer parte de um texto de ficção. Uma de suas facetas era o de mudar o nome de alguns colegas. Não o fazia com todos, especialmente com os comissionados. Poucos dias depois que comecei a trabalhar na Seção, ele me achou com cara de Romualdo e assim me chamou durante os dois anos em que ali fiquei. Um colega, Esdras, foi por ele "batizado" de Luís. Mas nem sempre era bem-humorado. Tinha, às vezes, atritos com algum colega, sempre por questão de serviço. Eu fui um deles. Passamos uns dias sem nos falar, mas depois voltamos às boas. Duas ou três vezes deixou o birô dele e veio tirar dois dedos de prosa comigo. Numa delas, não me lembro a propósito de quê, começou a falar sobre a ex-esposa. Revelou que mantinham um bom relacionamento, se visitando regularmente. Pelo que depreendi das suas palavras, ainda conservavam, se não amor, um carinho especial um pelo outro. E se era assim, não entendi por que haviam se separado. E perguntei, não podendo conter a curiosidade: "Mourinha, e por que vocês se separaram"? E Mourinha, com um meio-sorriso, respondeu com a maior naturalidade. "Porque não gostava das comidas dela". Pode uma coisa dessa?
Tive outro colega de personalidade muito interessante, esse em Natal. Nestor guardava, parece que na carteira de cédulas, uma carta antiga, para afugentar algum colega que lhe viesse pedir um empréstimo. Mal o coitado terminava de falar, Nestor tirava a carta e o mandava ler. Naquele papel eram arroladas as justificativas para a sua recusa em não emprestar dinheiro. Não sei quais eram, nunca tive acesso à carta. Calvo, de volta de umas férias, apareceu de peruca. Foi uma diversão para todos. E ele contava por que, afinal, resolvera esconder a careca. Mas não usou a peruca por mais de uma semana, talvez nem isso. Um dia chega Nestor sem ela, e, do mesmo modo como procedera ao aparecer com a peruca, deu várias justificativas para deixar de usá-la. Era um fã dos faroestes italianos, na época em que estes estavam em voga. E quase sempre que assistia a um deles, vinha no dia seguinte me contar parte do filme, divertindo-se, às risadas, com as cenas inverossímeis. Adotou um outro nome, de origem espanhola, que não sei de onde foi desencavar: Don Martinez Y Algar. Usava-o quando era apresentado a uma pessoa e quando enviava um documento de serviço para algum colega. E certa vez, ao emitir um cheque, assinou Don Martinez Y Algar, em vez do nome de batismo. Segundo ele, por distração, mas creio que o fez por brincadeira.
Na minha cidade havia um barbeiro chamado Isaías. Como todo barbeiro que se preza, Isaías conversava mais do que o homem da cobra. Além de barbeiro, exercia, por vezes, as funções de leiloeiro nas festas religiosas. E se gabava de ser bom nessa modalidade. Uma vez eu e uns amigos estávamos num banco da praça principal, onde se realizava um leilão. Isaías não tinha sido convidado. Ele chegou perto da gente e começou a fazer críticas ao rival. Ao mesmo tempo, ensinava as regras para ser um bom leiloeiro. Em tudo aquilo havia a ponta de um despeito por ter sido preterido em lugar de outro.
Mas o que eu queria mesmo era falar de um fato , que o papai não se cansava de contar. Uma feita uma romeira entrou com o filho pequeno na barbearia de Isaías. O menino devia estar com o cabelo muito crescido e a mãe, certamente, não queria que ele fosse assim visitar São Francisco de Canindé, como os romeiros chamam o Santo de Assis. Isaías mandou a mulher se sentar e colocou o garoto na cadeira. Mal começou o trabalho, perguntou à mãe: "Que mal pergunte, vosmecê é de onde"? "De Teresina", respondeu a mulher. "De Teresina"? Como se a mulher tivesse dito que morava na lua, Isaías parou, virou-se para ela, com a tesoura na mão. e falou: "É verdade que lá tem uma devassidão danada"? E a mulher: "Meu senhor, eu não sei dessas coisas, não. Sou uma mulher casada, que vivo na minha casa". Isaías retomou o corte de cabelo e entrou noutro assunto.
Três personagens à procura de um ficcionista.

domingo, abril 09, 2006

"QUAL O FILME QUE VOCÊ GOSTARIA DE TER DIRIGIDO"?


Em 1953 uma revista da Itália fez essa pergunta a dez cineastas daquele país. Eis os diretores e, resumidamente, o filme escolhido por cada um, feito por outro de seus pares. Na verdade, apenas sete dos consultados responderam a pergunta exatamente como foi formulada. Pois Pietro Germi e Giuseppe de Santis disseram que queriam fazer de novo um de seus próprios filmes: Germi , "Caminho de Esperança", justificando que nunca desejou tanto fazer um filme como este, que ele achava que não poderia ser superado por qualquer outro que viesse a fazer: e De Santis, "Arroz Amargo" (aqui comentado há uma semana), por acreditar que, com a experiência que tinha adquirido (ATENÇÃO) , "... penso que agora não repetiria os erros que encontrei no meu original". E Visconti respondeu seco e lacônico: "Não acho que a pergunta seja interessante.
Agora os sete restantes. Alberto Lattuada, com a ressalva de ser difícil responder a pergunta, "porque equivale a perguntar a uma pessoa se desejaria ser outra", disse ser agradável para um diretor ter feito as obras-primas de Chaplin, Von Stroheim e Pabst, acabou optando por "A Marcha Nupcial" , de Stroheim. Rosselini escolheu uma obra de Chaplin, mas, curiosamente, nenhuma das maiores do criador de Carlitos. A sua escolha recaiu sobre "Luzes da Ribalta" (Limelight). Por que, ele mesmo se fez a pergunta e respondeu, "porque é a obra-prima de Chaplin". (Vá entender esses diretores, principalmente os maiores.) Vittorio De Sica escolheu "Dom Quixote", de Pabst, "porque está mais próximo daquele humorismo que tenho tentado, pelo seu bom gosto, pela sua vivacidade: tudo , naquele filme, é harmonioso e brilhante". Alessandro Blasetti, o mais velho de todos, que iniciou a carreira em 1930 (e trabalhou como ator em "Belíssima", de Visconti", interpretando a si mesmo), gostaria de ter feito "Due Soldi di Speranza", de Renato Castellani, um dos consultados. Castellani, que fez ainda uma versão de "Romeu e Julieta" , revelou que sua grande aspiração era dirigir um filme de Chaplin, acrescentando, no entanto, "que é uma felicidade não ter dirigido nenhum, porque, do contrário, não seria um filme de Chaplin". (E não seria mesmo.) Outro que escolheu "Due Soldi di Speranza" foi Luigi Zampa. Mario Soldati, ootro veterano, preferiu "O Anjo Azul", de Von Sternberg.
Não sei o motivo, a revista não informa, Fellini e Antonioni não deram a sua opinião.

quarta-feira, abril 05, 2006

ACHADO POÉTICO = Conto de Bartolomeu Correia de Melo (RN)

Afinal, se a vida se resolve/a poesia acaba (Hildeberto Barbosa Filho)

DIA desses, nos fundos da venda de Simão Curioso - mistura de bodega, oficina elétrica, botica de ervas e sebo malsortido - seu Leonel do Cartório, escrevente e poeta bissexto, cascavilhava prateleiras, atrás dalguma leitura. Mexia noutros livros quando, sem-que-nem-mas, aquele despencou. E ali restou, escambichado no assoalho, num abandono de fêmea entregue, mostrando a lombada encardida: TIGIPIÓ. Sabia daquela palavra, mas não assim escrita, somente cantada. Cantada numa gostosa marchinha, evocação dos blocos de longes carnavais, já quase aquietada nos confins da memória. Saudade dos idos tempos de estudos fora- de- casa,
haja quarent'anos... Queria que fosse tejipió - fala de índio gosta de jota - soando quase teje pior. Nome mesmo de troça suburbana, com sotaque recifense, bem chiado nos plurais: Pirilamposh de Tejipió. Dizer vaga-lumes pegava melhor, mas eram aqueles carnavais parnasianos... Navegando nos quantos lembrares, soletrava aquele pedaço de cantiga: "... os Corações Futuristas/Bobos em Folia/Pirilampos de Tejipió..."
E disso lhe chegava a lembrança - como tangida por vagos clarins, detrás duma cortina de confetes - uma cena sem data. Figura de muluta lazarina frevando no frege do corsol. Maneira e ligeira, trejeteitos de serpentina; requebros picando lantejoulas, como vestida de vaga-lumes. Bonita que nem flor de magnólia. Quiçá, algum dia, assim mesmo avistada na Rua da Aurora ou da Saudade...
Apanhou tal livro. Desemcapado, empardecido, coisa assim de quarta ou quinta mão. Edição antiga em papel barato; ainda de quando prefácio era proêmio. Herman Lima, autor cearense - gente mais rezadeira que foliona. Contos regionais premiados pela Academia... (roído de traça... de Letras. Na folha-de-rosto, em tinta-de-pena, com desjeitoso capricho, estava escrito: Terezinha X. da Silva / Recife, 19333. Adiante uma epígrafe ensinava: "Tigipió: frutinha agreste, pardusca e roliça, adocicada, mas ofensiva.podendo causar intensa embriaguez."
Voltou-lhe a passista, talvez nunca deveras avistada, numa incerta e movediça relembrança. Nos negaceios da dança, reviu-lhe a doçura trigueira, no jeitinho gracioso - quase venenoso - de sorrir e requebrar. Embora papa-jerimum, acudiu-lhe um nem-sei-que de pernambucanidade, feito arrupio escorrendo no tutano do espinhaço. Aquele bem-sentir de terr e povo - havido por nascença ou farnezim de simpatia. Coisa d' alma que chega, assim esquisita, arrupiando qual sopro de pifre, beliscando malencolias, qual acorde de pau-e-corda, a espritar os sentires, batendo fundo que nem toque de maracatu.
E a modinha reteimando no juízo: "...Pedro Dourado, Camelo de Ouro e Bebé/os queridos Batutas da Boa Vista/e os Turunas de São José..."
No aqui-acolá do livro, tinham rabiscado a lápis: Têca. Apelido bem cabido em cabrocha serelepe, raceada com cabinda e caeté. Noutras paisagens, nordeste arriba, tal nome perde esse dom. Fica mais pra cabocla fornida, quartos de jia e peitos de cabaça; olhar de espreita e sorriso de espera na cara de lua cheia. Com destreza para bilros e tino para temperos, mas sem ginga no passo nem frevura no sangue. Daí logo se engraçou na redondez da letrinha destraquejada. A cada três ou quatro folhas - decerto marcando paradas de na leitura - assentada na margem, lá estava: Têca. Pelo visto, coisa lida no enquanto doutras tarefas. Caixeira, copeira ou modista? Teria também sido ali deixado por sinal de marcação, aquele fiozinho de cabelo cacheado? Folheava, mais vendo que lendo. E se rindo de algumas notinhas curtas, na mesma caligrafia. Comentos singelos, pouco letradas, mas bem deleitosos. Belesa assim escrita, paxão assim também. Rabiscos de ligeiras contas, contando modestas despesas. Retalho de papel-de-carta com trecho de soneto copiado.
"E aceite, assim sem juras, esse amor/que apenas dura, intenso qual poema/enquanto passa, frágil como flor."
Num porém de ciumeira descabida, achou o terceto bisonho; praqueles tempos, até que meio indecente.
Pensares tornaram a revoar esquisitices. Tanto que, de novo e mais de pertinho, como que avistou a dita moça. Agora, sem fantasia, nem ruge ou batom, apartada e esquecida da folia. Imaginada na tardinha duma praça antiga, talvez esperando bonde. Corpo arrimado no tronco dum goitizeiro, pezinho despido em riba doutro calçado, sem dança nem lantejoulas, ainda por demais vistosa. Toda entretida, mexia sem dengo os beicinhos carnudos, na leitura do mesmo livro - Tigipió. Encantado nessa estranha presença, como em brando desvario, até sentia a brisa cheirosa a goiti ternurando nos cabelos dela. Reatinou-se e seguiu folheando. Com agrado, curiosava outras coisinhas. Achou pétala seca de rosa, mordiscada por dentes miúdos; notou manchinha de choro pingada em página mais penosa, além doutras pequenas deixas. Na folha final, um coraçãozinho desenhado; sem enfeites nem floreios, vazio de letra ou flecha. Como assim, livre e leve, falto de dores e ardores, também fosse o coração de Teca.
Nisso, bateu-lhe uma danada vontade de poesia. Um verso ainda bambo inchava o peito, já outro comichava no juízo. Aí, mais pelo ficado encanto dela, que mesmo por qualquer outra valia, enfim comprou tal livro. Num avexame ressabiado, mouco pras perguntas de Simão, nem esperou embrulho ou troco. Assim, meio que zonzo e maneiro, logo se botou pra casa. Andava anzolado, driblando os passante, abraçando o livro no peito, como escondesse segredo ou vergonha. Ladeira abaixo, encandeado nas cores da manhã, assobiava a musiquinha dos velhos blocos recifenses.
"...Príncipe dos Príncipes brilhou/Lira da Noite também vibrou/E o Bloco da Saudade/assim recordo aquilo que passou."
Rimas esquivas rodopiano na cabeça, adivinhava sonhares jamais acarinhados. Romoía um mesmo par de versos melindrosos, alma angustiada nas rebuscas da poesia. E contam que, derna disso, somente risca e rabisca. Pois nunca mais lhe acudiu qualquer versejo que assim baste pra dizer desse sofrido anseio. Diz-que se queixa que tais penares somente beiram insosso gozo, sem nunca acharem desafogo nem contento.
Vai daí que, no caso de algum dia, num sebo qualquer da vida, alguem como você, chegado à poesia, folheando um velho livro, lembrar coisas de antigos carnavais... Esconjure a tentação; não compre!
Pois periga serem amavios de musa parda, deusinha brega chamada Têca; dona do condão da desinquieta e fugidia inspiração... Tome tento nos malencantos de olhares que brilham como lantejoulas, sorrisos manhosos qual volteios de serpentina; promessa de afagos que arrupiam que nem clarins de frevo, suspiros cheirosos a lança-perfume...
E se recuide dos adocicados beijos, que trazem gosto - talvez efeito - de tejipió.
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Conto extraído livro Estórias Quase Cruas, Edições Bagaço, Recife/2002.

sábado, abril 01, 2006

ARROZ AMARGO (Riso Amaro/1949)



"Panela em que muitos mexem, ou sai insossa, ou sai salgada". Me lembrei desse antigo ditado, depois de rever, nesta semana, Arroz Amargo. Muitos mexeram no seu roteiro, seis ao todo, entre eles o diretor Giuseppe De Santis. Disso resultou um filme que chega a decepcionar. Feito no apogeu do Neo-Realismo, Arroz Amargo pretendia abordar a temporada de 40 dias das "mondinas", mulheres que, todos os anos, realizam o pesado serviço do cultivo de arroz numa determinada região da Itália. São mulheres de diversas profissões, mas que, sem conseguirem trabalho para exercer as próprias profissões, vão se submeter ao da monda de arroz, contratadas sem vínculo empregatício. Se digo "pretendia" é porque a meia dúzia de roteiristas preferiu deixar em segundo a denúncia do problema social da Itália do pós-guerra, uma das balizas da Escola Neo-Realista , para priorizar o enfoque no quadrilátero amoroso envolvendo Walter (Vittorio Gassman), Francesca (Doris Dowling), Silvana (Silvana Mangano) e Marco (Raf Vallone).
Quando o filme começa, Walter e Francesca formam o casal, ele fugindo da polícia pelo roubo de um colar, com a cumplicidade da amante. Depois que Walter e Silvana se conhecem, há uma atração mútua. Deixada de lado e decepcionada com Walter, Francesca se interessa por Marco, que, sem o perceber (ou fingir), cai de amores pela bela e sensual Silvana. Daí para frente, Arroz Amargo assume o drama amoroso que vai culminar com o final trágico de Silvana, que, traída na expectativa de um promissor futuro com Walter, comete suicídio. Se no ato de Silvana já paira a sombra do melodrama, este se instala de vez no final do filme, mostrando as mulheres, que não tinham bom relacionamento com Silvana, jogando punhados de areia sobre o cadáver dela e o estabelecimento da união entre Francesca e Marco, os dois caminhando um ao lado do outro.
Arroz Amargo marcou a estréia de Silvana Mangano no cinema. No frescor dos seus l8/19 anos, Silvana esbanja beleza e sensualidade. Com um short curto e bem colado ao corpo, delineando suas formas esculturais, além da beleza do rosto, ela é o principal atrativo do filme, assim como o foi Rita Hayworth em Gilda. O filme explora, como pode, os atributos físicos daquela que foi uma das 10 mulheres mais fascinantes do cinema, o que se torna mais um ponto negativo desse arroz mal cozinhado, embora, para o espectador, seja uma festa para os olhos.

quarta-feira, março 29, 2006

4 POEMAS



Formigas

Uma seguindo a outra,
Vão as formigas ao encontro do torrão de açúcar.
Um pé, à espreita, aguarda o momento de esmagar a procissãozinha.


Neném

Era assim, mãe, que te chamavam.
E, talvez, nunca o deixaste de ser.


Discordância

Perdoe a ousadia de discordar de você
Alguém que, na poesia, ainda anda de gatinhas.
E, ademais, ama tanto os versos
Que o seu gênio de vozes múltiplas criou.
Mas, Fernando, não acho que o poeta seja um fingidor.


Circo

Hoje não tem espetáculo:
O palhaço fugiu com o leão.


sábado, março 25, 2006

AGATHA CHRISTIE & CLARICE LISPECTOR

Em 1940, enquanto Londres era atingida por bombardeios da aviação alemã, Agatha Christie escrevia Curtain, que, no Brasil, recebeu o título de "Cai o Pano" (Nova Fronteira/2005). Nesse romance, Agatha Christie decidiu que o detetive Hercule Poirot deveria morrer. Segundo informa Carlos Augusto Lacerda, apresentador do livro, ela temia morrer com aquele bombardeamento intenso e não queria que o personagem, tão bem criado por ela, viesse a ser utilizado por outros escritores do gênero policial. "Cai o Pano", pois, marca a despedida de Poirot, mas esse é apenas um dado a mais para se ler esse que é um dos melhores trabalhos da grande dama do crime.
Poirot aparece muito debilitado, preso a uma cadeira de rodas, mas com o cérebro funcionando em perfeitas condições. A história é narrada pelo capitão Hastings, amigo e colaborador do detetive. Não me lembro de ter lido algum livro em que esse personagem fizesse parte da trama, mas, pelo que se deduz do que ele diz, isso ocorreu. E talvez tivesse sido uma espécie de Doutor Watson para Poirot. Desenrolado num hotel de uma cidadezinha inglesa, o enredo, como sempre ocorre com os livros de Christie, tem muitos personagens e alguns deles são um exercício para o leitor descobrir quem é o autor do assassinato da esposa de um médico. Poirot aparece pouco na trama, , sempre conversando com Hastings, com uma ou outra exceção. E como sempre acontece nos livros da autora, a trama é bem urdida, até se descobrir quem foi o autor do crime. E, interessante, é a maneira como Christie criou esse criminoso. Não vou entrar em detalhes, para não estragar a surpresa de quem estiver interessado em ler o livro. Só digo que não foi ele que cometeu o crime, como, aliás, ocorreu, anteriormente, com cinco outros homicídios, nos quais ele teve participação.
É, digamos, o "autor intelectual", mas o faz de uma maneira (que não vou dizer) que leva uma pessoa a cometer o assassinato. É uma bela sacada da autora, que reserva ainda uma surpresa com relação a Poirot, inimaginável num homem que está do lado da lei.
Como se não bastasse a qualidade de "Cai o Pano", existe um outro elemento que torna a sua leitura indispensável. É que a tradução é de ninguem menos do que Clarice Lispector. Sim, Clarice Lispector. Quando soube disso, há cerca de um mês, fiquei num pé e noutro para adquirir o livro, movido pela curiosidade de ler um livro de Agatha Christie traduzido por Clarice. (Além, é claro, de ser um fã de carteirinha da autora inglesa.) Foi na década de 1970 que Clarize traduziu "Cai o Pano". Conforme diz o apresentador, naquele período, até sua morte em 1977, Clarice exerceu intensamente essa atividade (certamente por razões financeiras), chegando a tradizor uma média de 3 livros por ano.
E, pelo visto, ela gostou do livro. Eis o que ela disse, num depoimento: "Prazer engraçado tive ao traduzir um livro de Agatha Christie. Em vez de lê-lo antes no original, como sempre faço, fui lendo à medida que ia traduzindo. Era um romance policial e eu não sabia quem era o criminoso, e traduzi com a maior pressa, pois não suportava a tensão da curiosidade". Pois é, Agatha Christie e Clarice Lispector reunidas num mesmo livro. Duas grandes escritoras, cada uma naquilo se propôs a fazer, com o seu próprio universo, com sua maneira de ver o mundo, com o seu estilo.

terça-feira, março 21, 2006

AUTÓGRAFOS


Em toda a minha vida, que já vai se aproximando da chamada terceira idade, obtive apenas três autógrafos de pessoas famosas. Das três, uma gozava de muita fama (desde os anos 1960), as outras foram (uma ainda vive) bem menos agraciadas pelo aplauso público. Tive, mais do que o autógrafo, a dádiva de receber um livro de Jorge Amado, em cuja página em branco ele fez uma rápida apreciação do meu primeiro livro. Mas, autógrafo com a pessoa "de corpo presente" , só essas três.
O primeiro foi de Glauce Rocha. Aqueles que são de gerações anteriores à minha talvez não tenham ouvido falar dessa grande atriz que atuou no cinema (Terra em Transe, de Glauber Rocha, entre muitos outros filmes), no teatro e, menos , na televisão. Eu a vi duas vezes no palco, uma em Natal e a outra em Fortaleza, onde passava a lua-de-mel. Foi em Fortaleza que colhi o seu autógrafo. Ela apresentava um monólogo, Um Uísque para o Rei Saul, se não me falha a memória. Depois do espetáculo, acompanhado da esposa, fui para um local do teatro, onde ela estava recebendo os cumprimentos de alguns espectadores. Ao chegar a minha vez, disse àquela mulher alta, simpática e suave, que não chegava a ter um rosto bonito, que a tinha visto em Natal. Ela elogiou a cidade e eu lhe pedi o autógrafo, que ela concedeu no próprio programa da peça. (Desgraçadamente, perdi esse papel.) Alguns meses depois ela morreria de um ataque cardíaco, com apenas 41 anos.
O segundo autógrafo ocorreu também em Fortaleza, onde estava residindo. Foi de Sérgio Ricardo, compositor (é autor e intérprete das canções de Deus e o Diabo na Terra do Sol), cantor e cineasta. Ele estava em Fortaleza para uma apresentação e um veterano cineclubista local promoveu, em sua residência, um encontro dele com alguns intelectuais. Fui um dos convidados. Depois de muita conversa (onde não podia faltar o assunto de censura, estávamos no governo de Médici), bebida e comida, me levantei, fui ao encontro de Sérgio Ricardo, com o seu último elepê, cuja capa mostrava o compositor com um esparadrapo tapando a boca. Lhe perguntei se ele ´conhecia aquele disco. Ele deu uma olhada e, sorrindo, respondeu "é. eu já andei vendo ele pelas lojas". Pedi que o autografasse. De caneta, emprestada por alguém, perguntou o meu nome e por alguns segundos ficou buscando palavras que não dissessem aquele seco "um abraço". Um dos presentes , talvez percebendo isso, foi em seu socorro e lhe disse que eu era "um dos bons contistas do Ceará". Ele disse, ah, é? e , de imediato, escreveu: "Ao Sobreira, de um modesto 'contista' musical, com um abraço". (a) Sérgio Ricardo.
Foi de Nara Leão, uma das minhas cantoras preferidas, o terceiro autógrafo. Aí foi em Natal, para onde tinha regressado. Ela ia se apresentar no Teatro Alberto Maranhão e fui vê-la, carregando ,não um violão, como diz uma de suas músicas, mas o seu último disco, Nasci para Bailar. Nara está linda, envolta por um véu. Quando cheguei, vencendo uma crônica timidez, perto daqueae mulher que admirava , acima de tudo, pela coragem em desafiar a ditadura militar, foi quase como se estivesse diante de uma Deusa. Ela foi muito simpática. Ao sorrir, mostrou os dentes ressaídos, que lhe tirava um pouco da graça e da simpatia que inspirava. Ao lhe dizer o meu nome, ela informou que tinha um filho também chamado Francisco. (Na verdade, eu já sabia disso, porque no filme Chuvas de Verão, de Cacá Diegues, então marido de Nara, ele o dedica aos seus filhos Francisco e Isabel . Não tenho bem certeza se é esse o nome da filha.) Saí do teatro nas nuvens: tinha conhecido Nara, trocando umas poucas palavras com ela e ganhara o seu autógrafo, que até hoje guardo com o maior carinho. Dias depois, encontrei um amigo que me disse que, na sua estada em Natal, Nara tivera um problema de saúde. Deve ter sido o mesmo que o levou à morte poucos anos depois. Glauce e Nara, que a terra lhes seja leve.

sábado, março 18, 2006

30 ANOS SEM VISCONTI

Ontem, 17 de março, fez 30 anos que Luchino Visconti morreu. Esse milanês, nascido em 2 de novembro de 1906 (neste ano, portanto, se dará o seu centenário de nascimento), foi um dos gigantes da arte cinematográfica. Assistente de direção de Jean Renoir no inacabado "Une Partie de Campagne", estreou na direção em 1942, com Ossessione, uma adaptação do livro "O Destino Bate à Porta", de James Cain. Esse filme é considerado o inaugurador do Neo-Realismo. Seis anos depois, ele realizaria aquele que é o seu maior filme, La Terra Trema, Um semi-documentário, já que se, por um lado caminha a exposição veraz das condições de vida dos pescadores de uma comunidade, explorados pelos que verdadeiramente lucram com o seu duro e arriscado trabalho, por outro cria uma história centrada numa família, cujo filho mais velho se rebela contra a situação, consegue que saiam dela por algum tempo, mas o implacável destino os faz retornar à "vidinha" de sempre. Daí para frente, Visconti construiria uma admirável carreira no cinema (apesar de um ou outro fracasso), alternando-a com a atividade teatral, chegando , inclusive, a dirigir óperas, tendo a cantora Maria Callas como estrela principal. Aliás, essa sua participação no palco o tornou alvo de ataques de alguns críticos, que enxergavam em sua produção cinematográfica a forte influência da linguagem teatral. O escritor Alberto Moravia, que foi também crítico de cinema, declarou certa vez que Visconti não era um diretor de cinema e sim um diretor de teatro. Uma infeliz opinião do grande escritor, para dizer o mínimo. Mas Visconti nem estava aí para esse tipo de crítica. Achava natural que o cinema poderia acolher elementos teatrais, da mesma forma que o teatro poderia receber influência do cinema. Esse intercâmbio só faria promover o enriquecimentos das duas formas de arte.
Um grande apaixonado também pela literatura, não foi por acaso que Visconti tenha se valido de obras literárias para fazar vários de seus filmes, Além do americano James Cain (cujo livro "O Destino Bate à Porta", dizem, fora lhe recomendado por Renoir), ele adaptou Dostoiewski ("Um Rosto na Noite"), Camus ("O Estrangeiro"), Camilo Boito ("Sedução da Carne")Thomas Mann ("Morte em Veneza"), D' Annunzio ("O Inocente", seu último filme), Giuseppe Tomasi Di Lampedusa ("O Leopardo"). Talvez mais um ou outro.
A sua biografia registra uma curiosidade (talvez se pudesse dizer melhor um paradoxo): pertencente à classe aristocrática (era conde), bandeou-se para o Partido Comunista. E na Segunda Guerra, juntou-se às forças de resistência ao nazi-fascismo, chegando a ser preso e a sofrer torturas. Além disso, uma das características do seu cinema é a preocupação social. Mas a linhagem aristocrática, pela vivência e pela compreensão da classe foi benéfica a Visconti na adaptação do livro "O Leopardo" (cujo autor era também um nobre), possibilitando-lhe realizar o seu segundo maior filme. Pois se como afirma Moacy Cirne, ele não era o diretor mais capacitado para transpor para o cinema o universo camusiano, não creio que nenhum de seus pares pudesse captar com perfeição a mensagem do livro de Lampedusa, que mostra a chegada da burguesia para substituir a aristocracia. A proximidade da morte do Príncipe de Salinas simbolizando a morte daquela classe. E isso feito com o apuro plástico e o requinte visual, tão presentes no cinema de Visconti.
E por falar em morte, ela foi muito cruel com o cinema italiano na década de 1970. Além de Visconti, "a indesejada das gentes" levou De Sica, Rosselini, Pasolini e Germi, este um diretor do segundo time, que, contudo, deu uma elogiável contribuição ao cinema, seja na comédia (sobretudo), seja em outros gêneros.

quarta-feira, março 15, 2006

OUTROS POEMAS DE HORÁCIO PAIVA

PEDRAS
Pedras
guardais
o som imóvel das serras
e em silêncio ficais.

E de supor
não se haveria
que vos reveste
a pele de Deus.

NA TORRE AZUL
Moro numa torre azul
e tenho o mar ao meu lado
não aos meus pés.

Do alto posso contemplar
dois mistérios
dois caminhos infinitos
e paralelos:

a praia de curvas ondulantes
e a rua de asfalto negro.

O primeiro leva a Netuno
e às vastidões oceânicas.

O segundo, a Plutão
e aos seus domínios subterrâneos.

O ESPELHO
No espelho não procures
o retorno de tua alma
ou de teu corpo.

Crês no que vês, é certo -
mas imagens são miragens
que no deserto enganan
os teus olhos fatigados.

NOTÍCIAS DO LOBO
O vento uiva em minha porta.

Traz-me notícias do lobo
perdido e faminto
nas florestas da infância...

A ÚLTIMA CEIA
À mesa tomam assento os convidados
e pães verdes são servidos -

pães e vinho verdes
na última homenagem à esperança.

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(Do livro O SOM IMÓVEL inédito.)

sábado, março 11, 2006

5 POEMAS


Velhice
Mas o teu rosto na foto emoldurada
Conserva o viço e a beleza de outrora
E livre ficarás da crueldade do tempo.


Beijo
O rubro do teu batom deixou-me vaidoso
E com um rubor pelas troças dos outros.


Pasárgada?
O rei foi destronado.
As prostitutas preferem os donos de dólares e euros.
Bicicletas no trânsito se encolhem com medo dos veículos pesados.
Celulares ressoam por todos os recantos.
Sujas de detritos ficaram as águas.
A violência faz aposta com a desfaçatez dos políticos.
Poeta, se estivesses vivo, aonde irias te refugiar?


Poeta
Quando um poeta morre,
Vai compor poemas para os anjos.


Contraste
Crianças brincam de adulto.
Um homem quer brincar de criança.

quarta-feira, março 08, 2006

"Com certeza"


Amigo, Amiga, que visitam este blogue, me respondam uma coisa: quantas vezes, durante o dia, em contato com pessoas, ou vendo televisão, vocês ouvem a expressão "com certeza"? Quinze, vinte, trinta vezes? Ou mais? Já perdi a conta. Você liga a tevê, um jogador de futebol é entrevistado e, tão certo como Lula estava ciente da imoralidade do seu partido e dos partidos aliados no caso do mensalão, a uma pergunta do jornalista, lá vem a resposta: "com certeza". Mas não ocorre apenas com jogador, uma categoria na qual são muito poucos os que conseguem ter um discurso articulado e que fuja da mesmice das palavras e das idéias. Também políticos, ministros, o presidente, juristas, médicos, o diabo a quatro. Até de escritores já ouvi essa expressão, que já vem sendo usada há muitos anos. O abuso já chegou a um ponto que até um boteco, aqui perto de casa, foi batizado de "Com Certeza". Parece que foi a Leda Nagle, aquela que interrompe a todo instante o entrevistado do "Sem Censura", que divulgou essas duas palavrinhas que, parece, vieram para ficar. Não tenho esperança de deixar de ouvi-la antes de morrer. Um dia desses um encanador veio fazer um serviço num banheiro do meu apartamento. Em uns dez minutos, no máximo, que conversamos, eu querendo saber a causa do problema, o encanador, aliás, muito competente, a cada pergunta que eu lhe fazia, ele iniciava a resposta com um "com certeza". Com certeza, Seu Francisco.
Houve um tempo em que se abusava de "inclusive". Ainda se usa, mas com certa parcimônia. Me lembro que meu pai só faltava ter um ataque de nervos ao ouvir essa palavra em excesso. A implicância dele era, principalmente, quando "inclusive" iniciava uma frase. Uma vez estávamos vendo tevê e um jornalista entrou pra falar sobre futebol. Papai detestava futebol, tanto quanto detestava cinema (não puxei a ele), mas ficou ouvindo atentamente a fala do jornalista, que durou cerca de dez minutos. Ao final, papai não conteve a satisfação (quase , poderia dizer, a felicidade): "Cabra bom. Não usou uma só vez 'inclusive'". E, imitando-o, quando vejo alguém ser entrevistado na tevê e, em nenhum momento, o ouço pronunciar "com certeza", me lembro do velho e digo pra mim mesmo "cabra bom".

domingo, março 05, 2006

NOITES DE CIRCO (Gycklarnas Afton/1953)


Sabe-se que um dos propósitos da arte é provocar, incomodar, remexer os sentimentos mais íntimos das pessoas, deixá-las refletir sobre o que lhes foi mostrado e revelado. É claro que o artista, às vezes, se excede, carrega demais nas tintas, e o seu intento perde muito da eficácia pretendida. "Noites de Circo", de Bergman, agora lançado em DVD, é um filme exemplar nesse desígnio da arte, sem, no entanto, pecar pelo exagero, pelo excesso. Essa história de uma companhia de um circo mambembe é composta de personagens humilhadas, sem perspectivas de melhoria em suas vidas, exploradas, expostas ao ridículo e à zombaria, e com uma tendência para o masoquismo. Embora o enfoque narrativo se concentre nas figuras do diretor do circo, Albert (Ake Gronberg), e sua jovem amante Anna (Harriet Andersson), é, a meu ver, o palhaço Frost (Anders Ex) o personagem-símbolo desses pobres viventes, vítima da infidelidade da esposa. Quando o filme começa, a leviana mulher já abandonou o marido. E numa sequência em flashback, ficamos sabendo da vergonha e humilhação a que submeteu o marido, ao se banhar, despida, num rio na companhia de oficiais do exército. E a cena em que ele retira a esposa do rio e leva-a de volta ao lugar onde o circo está armado, é uma das mais fortes já mostradas pelo cinema. O palhaço conduz a mulher, como se estivesse carregando uma cruz, e a expressão do rosto dela é a de alguém que, mais do que condenação, inspira compaixão.
Sobre "Noites de Circo" falou-se, na época do seu lançamento, da presença de um expressionismo tardio. De fato, as figuras de Albert, feio, de uma gordura balofa, de Frost, que sempre aparece com a indumentária de palhaço, do anão, do ator de teatro (com quem Anna trai o amante), seja nos gestos, seja nas expressões faciais, e ainda como presas de um destino cruell, inelutável, lembram personagens da Escola surgida nos anos vinte na Alemanha. E Anna, em certo moment, usa uma forma de penteado que chega a lembrar a Lulu de "A Caixa de Pandora", de Pabst.
Esse filme também é, hoje, considerado o marco inicial da evolução de Bergman, até às alturas em que hoje é colocado na história do cinema. No entanto, um ano antes, ele já mostrara em "Mônica e o Desejo" (com a mesma bonita Harriet Andersson), "Quando as Mulheres Esperam" e "Juventude" (o mais fraco dos três) as qualidades e as preocupações temáticas que anunciavam o nascimento do grande artista que viria a ser.
Para terminar, uma curiosidade. "Noites de Circo" representa o início da parceria de Bergman com Sven Nykvist, um dos gigantes da fotografia no cinema, que emprestou também o seu grande talento a outros (poucos) diretores, como Woody Allen, na época em que este intentou imitar o cineasta sueco.

quarta-feira, março 01, 2006

CURIOSIDADES CINEMATOGRÁFICAS

1) Um dia desses citei , aqui, exemplos de membros de famílias que trabalham (ou trabalharam) no cinema. Hoje vou mostrar alguns casos de familiares que trabalharam juntos em filmes. Em alguns casos, atuando como atores, em outros um por trás da câmera e o outro à frente da câmera. E há até os casos de Welles e Woody Allen (entre outros), em que eles exerceram as duas funções: Welles em "A Dama de Shangai". dirigindo a sua então esposa Rita Hayworth e com ela contracenando: Allen fazendo o mesmo em vários filmes com a esposa da época Mia Farrow. Eis alguns exemplos, entre tantos e tantos. Marlon Brando atuando com a irmã Jocelyn em !Quando os Irmãos se Defrontam"; Henry Fonda (em seu último filme) trabalhando com a filha Jane em "Num Lago Dourado"; os irmãos John e Lionel Barrymore em "Grande Hotel"; John Wayne atuando com o filho Patrick em "Rastros de Ódio", entre outros filmes; Charles Chaplin dirigindo o filho Sidney em "Luzes da Ribalta"; Gerard Depardieu e o filho Guillaume em "Todas as Manhãs do Mundo"; Humphrey Bogart e a esposa Lauren Bacall em "À Beira do Abismo", "Prisioneiro do Passado" e "Paixões em Fúria"; Ryan O' Neal e a filha Tatum em "Lua de Papel"; Francis Coppola dirigindo a filha Sofia (hoje diretora) em "O Poderoso Chefão 3"; Mel Ferrer dirigindo a então esposa Audrey Hepburn em "A Flor que não Morreu"; Vincente Minelli dirigindo a filha Liza em "Questão de Tempo", último filme dele (também no mesmo filme atuaram Ingrid Bergman e Isabella Rosselini, mãe e filha); Gregory Peck atuando com a filha Cecilia em "O Retrato", filme feito para a tevê; Paul Newman e a esposa Joanne Woodward em "´Delícia de um Dilema", entre outros filmes; Hitchcock dirigindo a filha Patricia em "Pacto Sinistro" e "Psicose"; Huston dirigindo o pai Walter em "O Tesouro de Sierra Madre" e a filha Anjelica em "A Honra dos Poderosos Prizzi" e em mais outros 2 filmes; Jean Renoir dirigindo o irmão Pierre em alguns filmes, entre eles "La Nuit du Carrefour"; Fellini dirigindo o irmão Riccardo em "Os Boas-Vidas"; Ford dirigindo o irmão Francis Ford em vários filmes, entre os quais o encantador "Depois do Vendaval"; e Pasolini dirigindo a mãe em "O Evangelho Segundo São Mateus". E por aí vai.
2) Em sua edição de 7 de setembro de 1952, a revista inglesa "Sight and Sound" publicou uma lista dos 10 filmes que eram os preferidos de Orson Welles. Eis , para o diretor de "Cidadão Kane", os filmes de que ele mais gostava;
1 . Luzes da Cidade (Chaplin)
2 . Intolerância (Griffith)
3 . Sciuscià/Vítimas da Tormenta (De Sica)
4. - A Mulher do Padeiro (Pagnol)
5 . No Tempo das Diligências (Ford)
6 . Greed/Ouro e Maldição (Stroheim)
7 . Nanook, o Esquimó (Flaherty)
8 . O Encouraçado Potenkim (Eisenstein)
9 . A Grande Ilusão (Renoir)
10. O Pão Nosso (King Vidor)
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Obs. (1) - Dessa lista não conheço "Sciuscià", "A Mulher do Padeiro", "Greed", "Nanook, o Esquimó" e "O Pão Nosso", exatamente a metade.
Obs. (2) Welles faleceu 33 anos depois de divulgar essa lista. Teria sido muito interessante saber se três décadas depois ele manteria os mesmos filmes relacionados naquela época. Não sei, mas tenho cá comigo que ele modificaria 2 , no máximo , 3 filmes. Ou, talvez, até mantivesse a lista.