quarta-feira, abril 23, 2008
CURIOSIDADES
quarta-feira, abril 16, 2008
QUEBREI A TIGELA

Faz poucos dias estreei uma camisa. Ao me ver com a camisa, minha mulher disse: "hi, quebrou a tigela!" Quebrar a tigela. Há séculos não ouvia essa expressão, muito usada na minha infância e adolescência. Embora originária do Nordeste, é possível que os habitantes do Sul e Sudeste a conheçam por ela estar no Aurélio. Quem consultou o dicionário, viu que quebrar a tigela significa que uma pessoa usa uma roupa, ou um objeto, pela primeira vez. Como sinônimo, o Aurélio registra também "quebrar a panela", que nunca ouvi. Sei que não é possível, mas que bom seria se o dicionário pudesse revelar a origem dessas expressões. Penso em Marco, do Antigas Ternuras. Como eu, ele gosta muito dessas saborosas expressões e vai à cata da origem delas. Quem sabe se ele não sabe de onde veio quebrar a tigela e faça uma daquelas postagens cheias de humor, irreverente, às vezes, que muito aprecio?
Estava com cinco anos quando nasceu Bosco, o meu irmão caçula. Se meus pais não inventassem de ter mais um filho, encerrando uma série de 11 (o primogênito, uma mulher, morreu com pouco tempo de nascido), eu permaneceria como o caçula. E, assim, não teria ficado no canto. Usava-se a expressão "ficar no canto" naquela época para a criança que perdera a condição de filho mais novo, com o nascimento de um seu irmão. A expressão não consta do Aurélio. Como só disponho desse dicionário (nessa especialidade), não sei se outros do mesmo gênero a registram. Deve ser também exclusiva da região nordestina.E tal como "quebrar a tigela" , fico doido pra saber a sua origem, a exemplo de tantas outras.
Essas expressões, ou palavras, nascidas no Nordeste desapareceram, ou estão em processo de extinção. E a culpa é da televisão, via novelas. Um adolescente, de ambos os sexos, mesmo morando numa cidade das mais atrasadas deste país, prefere falar como os jovens das novelas da Globo. Tantas e tantas expressões que fizeram parte da minha infância, adolescência e juventude se perderam no esquecimento das pessoas.
Mas isso não ocorreu apenas nas cidades do interior. Falei aqui uma vez da expressão "o cão chupando manga" e de outras, que eram comumente usadas quando cheguei a Natal nos anos sessenta. Onde estão elas? Mesmo pessoas da minha idade, até mais velhas, talvez com umas poucas exceções, as desprezaram, por certo para não ouvirem que elas "são de 12" (cadê esta também?), isto é, de um tempo muito antigo. Não sou contra o emprego de palavras importadas do Sudeste (principalmente), assim como os nativos daquela região utilizam algumas do Nordeste. O carioca Machado usou mais de uma vez a expressão "vender azeite às canadas", ao falar de um personagem que está furioso, muito irritado. É um dito aqui do Nordeste, mais especificamente de Pernambuco, conforme descobri há poucos anos.
Acho importante esse intercâmbio. Não vejo nada demais nisso, são palavras faladas em um mesmo país (até a alguns estrangeirismos sou receptivo), mas que não joguemos no lixo, como um objeto imprestável, as expressões e palavras da nossa região.
A minha filha mais nova está esperando o segundo filho. Quando este nascer, o seu primogênito, ao contrário do avô, não vai ouvir das pessoas que ficou no canto. Ainda que morando no interior do Estado.
terça-feira, abril 08, 2008
PAI E FILHA (Banshun/1949)

quarta-feira, abril 02, 2008
UM EPISÓDIO NA DITADURA MILITAR
quarta-feira, março 26, 2008
A CARRUAGEM DE OURO (Le Carrosse d'Or/1952)

Com a eclosão da Segunda Guerra, Jean Renoir mudou-se para os Estados Unidos. Ao contrário de seus compatriotas René Clair e Julien Duvivier, sua experiência americana não foi bem-sucedida. Talvez por ser o mais francês dos diretores, na afirmação de Georges Sadoul, ele não tenha conseguido se adaptar à cultura daquele país, nem ao processo de produção de filmes em Hollywood. Ele só voltaria ao cinema europeu, não na França, mas na Itália, com "A Carruagem de Ouro", e entre este e seu último filme americano, realizou, na Índia, "The River", que Andrè Bazin alçou à altura de obra-prima.
Pelo que se depreende do depoimento de Renoir nos Extras do DVD, a peça "Le Carrose de Saint Sacrement", de Prosper Mérimée, serviu, digamos, apenas como um ponto de partida para a concepção de "A Carruagem de Ouro". Na verdade, um amante do teatro, Renoir foi movido pelo propósito de prestar uma homenagem à "Commedia dell' Arte", um popularíssimo gênero teatral originário da Itália. Ele pretendeu fazer um filme que absorvesse o espírito do gênero, isto é, que a trama tivesse que se despojar de qualquer resquício de realismo, ou naturalismo. E além disso, eliminasse a fronteira entre o que se passa no palco e na realidade - realidade aqui no sentido da trama do filme. Quer dizer: que as apresentações realizadas pela trupe italiana que vai parar numa colônia espanhola (não identificada) na América do Sul se confundissem com a história (realidade) do filme. É o que ocorre com Colombina (Anna Magnani) no palco e, fora deste, Camila, cortejada por três homens: o Vice-Rei (Duncan Lamont), que lhe presenteia a carruagem de ouro que mandara buscar na Itália e transportada no mesmo navio em que Camila viera; o oficial espanhol Felipe (Paul Campbell), que a acompanhara na excursão, e o toureiro Ramon (Riccardo Rioli). No envolvimento com este, aliás, há um momento em que Camila passa de atriz para espectadora. Uma cena de belo efeito cinematográfico, iniciada com um "close" do rosto dela, seguida por um "traveling" que vai até à arena.
Por falar em Anna Magnani, não se pode deixar de relevar o desafio de Renoir ao escolhê-la para viver um personagem tão diverso, até mesmo antagônico, dos que ela interpretara até então. E devido à natureza do seu personagem, La Magnani contém certos excessos que marcaram os seus desempenhos, a despeito do seu inquestionável talento interpretativo. Ela, inclusive, teve que aprender inglês (o filme tem uma versão nesse idioma, que é a deste disco, com vistas a atingir o mercado anglo-americano), porque Renoir pretendia que o inglês falado pela atriz, impurificado pelo forte acento italiano, tivesse um efeito expressivo, confrontado com o dos intérpretes nativos da Inglaterra, que compõem a maioria do elenco.
Com uma carreira iniciada ainda no cinema mudo, apenas pela segunda vez Renoir fazia uso da cor, sendo a primeira no já mencionado "The River". E ela constitui-se em um elemento fundamental no resultado do filme. Contando com a colaboração valiosa do fotógrafo e seu sobrinho Claude (com quem trabalhou em tantos filmes), o diretor empenhou-se em que a cor casasse perfeitamente com o cenário, os figurinos e a iluminação. Há outro importante colaborador, e, como diz Renoir em tom de "blague", é do tipo que não dá problema, que concorda com o realizador em tudo, pois já não está neste mundo. Trata-se de Vivaldi, que com seu peculiar estilo musical contribui para que o filme tenha a leveza de outros tantos do diretor.
Pelas qualidades artísticas e pela atração do enredo, "A Carruagem de Ouro" talvez seja o filme em que Renoir tenha conseguido promover a união dessas duas categorias geralmente inconciliáveis, ou seja, a crítica e o público.
terça-feira, março 18, 2008
A SEMANA SANTA DA MINHA INFÂNCIA
Todos os anos, quando chega a Semana Santa, eu me lembro da minha infância naquele período. As lembranças se acumulam, principalmente as da Sexta-Feira Santa: as imagens de santos cobertas por um pano preto ou roxo (não me recordo com precisão), o sacristão percorrendo o pátio da Basílica, em intervalos de quinze a vinte minutos, se muito, carregando a matraca e fazendo-a soar um ruído alto e enervante; a imagem de Cristo deitado, exposta no centro da igreja para receber o ósculo dos fiéis, ordenados em fila indiana; a procissão à tarde, com a Verônica, representada por uma moça, exibindo em um pano a face ensanguentada de Jesus.
Me lembro, ah, se me lembro, de que em uma certa hora (a memória não me deixa dizê-la), anunciada pelo relógio da Basílica, minha mãe, a voz alterada pela emoção, afirmava que naquele momento começava a agonia de Jesus.
Muitas pessoas, especialmente as mais humildes, não tomavam banho naquele dia, um hábito talvez ainda preservado nas cidades mais atrasadas deste imenso país. E as rádios só tocavam músicas fúnebres.
Já o Sábado de Aleluia era outro dia, e não apenas no sentido cronológico. À tarde uma multidão se reunia na praça do mercado público para ouvir de alguém a leitura do testamento de Judas. A cada objeto legado por Judas a um habitante da cidade, as risadas explodiam. (Um dos meus irmãos, que não perdia por nada esse espetáculo, ao voltar para casa, relembrava alguns desses legados e os respectivos herdeiros.)
No outro dia era o Domingo da Páscoa, da ressurreição de Cristo. Terminava a Semana Santa e na segunda-feira os cristãos voltavam a "pecar".
quarta-feira, março 12, 2008
AS MANGAS

quarta-feira, março 05, 2008
UM DEBATE SOBRE BOCCACCIO 70

Em 1966 Gilberto Stabili e eu, membros do Cineclube Tirol, de Natal (ele presidira a entidade no ano anterior) , escrevíamos uma coluna no jornal Correio do Povo. Eu escrevia num dia, ele no outro. Uma feita, Gilberto me propôs fazermos um debate sobre "Boccaccio 70", filme constituído de 3 episódios, dirigidos por Fellini ("As Tentações do Dr. Antônio), Visconti ("O Trabalho") e De Sica ("A Rifa"). Aceitei o desafio e uma noite fui à casa da irmã de Gilberto, onde ele residia. Ficamos no quarto dele. Ele passava para um papel tanto as suas opiniões sobre os 3 episódios, quanto as minhas. Depois datilografou. Foi um debate curto, devido às limitações do espaço de que díspunhamos no jornal. Achei que podia ser de interesse divulgar esse "confronto" entre dois jovens na casa dos vinte anos (ele mais velho um pouco do que eu, mas com uma vivência de cinema de já um veterano, comparada com a minha). Eis o que escrevemos naquela noite já distante, que saiu no jornal uns dois a três dias depois.
quarta-feira, fevereiro 27, 2008
O BEIJO DE UM JOVEM EM MACHADO DE ASSIS
quarta-feira, fevereiro 20, 2008
A PANTERA

quarta-feira, fevereiro 13, 2008
MEDOS PRIVADOS EM LUGARES PÚBLICOS (Coeurs/2006)

quarta-feira, fevereiro 06, 2008
CURIOSIDADES

quarta-feira, janeiro 30, 2008
2 POEMAS DE CARNAVAL DE CARLOS PENA FILHO (PE)
Pierrô, Arlequim e Colombina, óleo sobretela de Di Cavalcanti (1922)
A mesma rosa amarela (*)
Você tem quase tudo dela,
o mesmo perfume, a mesma cor,
a mesma rosa amarela,
só não tem o meu amor.
Mas nestes dias de carnaval
para mim, você vai ser ela.
O mesmo perfume, a mesma cor,
a mesma rosa amarela.
Mas não sei o que será
quando chegar a lembrança dela
e de você apenas restar
a mesma rosa amarela,
a mesma rosa amarela.
Soneto principalmente do carnaval
Do fogo à cinza fui por três escadas
e chegando aos limites dos desertos,
entre furnas e leões marquei incertos
encontros com mulheres mascaradas.
De pirata da Espanha disfarçado
adormeci panteras e medusas.
Mas, quando me lembrei das andaluzas,
pulei do azul, sentei-me no encarnado.
Respirei as ciganas inconstantes
e as profundas ausências do passado,
porém, retido fui pelos infantes
que me trouxeram vidros do estrangeiro
e me deixaram só, dependurado
nos cabelos azuis de fevereiro.
(*) - Segundo revela o crítico e pesquisador Ricardo Cravo Albim, "A mesma rosa amarela" foi escrito por Carlos Pena Filho (morto em acidente de carro em 1960, com apenas 31 anos de idade) para o carnaval daquele ano. Apresentado a Capiba para musicá-lo, o compositor de"Maria Betânia" gostou tanto do poema que achou que ele não deveria ser cantado apenas nos quatro dias de carnaval e fez um samba-canção. "A mesma rosa amarela" foi gravado pelo cantor Claudionor Germano (também pernambucano, como os autores, e intérprete preferido de Capiba), mas não obteve sucesso. O sucesso veio quando Maysa a gravou, uns 2 anos depois. Com o passar dos anos, vários outros cantores regravaram a música, inclusive Nelson Gonçalves.
NOTA - Os 2 poemas fazem parte do livro "POEMAS - Carlos Pena Filho" (Global Editora, 1983).
quarta-feira, janeiro 23, 2008
MACHADO DE ASSIS & WILLIAM WORDSWORTH

Quem leu "Memórias Póstumas de Brás Cubas" deve se lembrar de um capítulo intitulado "O menino é o pai do homem". Ali pela quinta ou sexta linha do primeiro parágrafo, Machado escreveu: "Um poeta dizia que o menino é o pai do homem". Quem era o poeta, o escritor não diz. É estranha a omissão do nome do autor da frase, principalmente por não ser um costume de Machado, que não deixava de informar a fonte de um uma frase, ou uma palavra. Às vezes, se não creditava o autor, o fazia com a obra, certamente por ser esta muito conhecida, como alguma peça famosa de Shakespeare, "A Divina Comédia", "Dom Quixote", etc. Mas nesse caso, o personagem-narrador menciona apenas e vagamente "um poeta". Nem a nacionalidade do poeta é dita. Qual o motivo? Machado não se lembrava do nome do poeta e entendeu que não era importante procurar o livro, que, provavelmente, ele possuía? Ou preguiça de procurá-lo? É possível.
quarta-feira, janeiro 16, 2008
OS MELHORES ANOS DAS NOSSAS VIDAS (The Best Years of Our Lives/1946)
Este artigo saiu num jornal de Natal, onde eu mantinha uma coluna semanal sobre cinema, na primeira metade dos anos 1990. Tendo revisto o filme há poucos dias, resolvi publicá-lo aqui, com algumas alterações em relação ao texto original.quarta-feira, janeiro 09, 2008
TRÊS VELAS

Foto extraída de www.studyoanasouza.com/
Pois é. Na próxima sexta, dia 11, o "Luzes da Cidade" estará com três velas. São três anos que edito este blogue, falando de cinema , de literatura, um ou outro assunto fora desses dois, e , vez por outra, contando minhas lembranças da infância. Três anos. E eu que, quando ingressei na blogosfera, duvidava de que este espaço chegasse a um ano de existência. É verdade que, durante esse período, pensei por várias vezes em parar. E continuo a pensar, vez por outra. De uns tempos pra cá já não tenho o mesmo entusiasmo dos primeiros meses. Até há uns dois meses tinha estabelecido uma data redonda para apagar estas luzes: justamente no aniversário dos seus três aninhos. Acabei mudando de idéia. E vou tocar o "Luzes" enquanto der. No dia em que achar que "já estou por aqui", paro. Paro e sem volta. Nem que me arrependa da decisão. Mas, por enquanto, vou editando o bichinho. Há outros motivos, além da falta de entusiasmo, mas prefiro não citá-lo.
Irei sentir saudades, porque gostei da experiência. Além de divulgar os meus livros, o que redundou no interesse de vários visitantes por adquiri-los (e para todos esses enviei, com o maior prazer, um livro da preferência deles), tive a oportunidade de conhecer muitas pessoas da melhor espécie humana. E talentosas, inteligentes, sensíveis. Com muitas delas aprendi muitas coisas. E lhes ganhei a amizade. É até possível que tenha sido elas o principal responsável por eu continuar aqui, três anos depois de estrear na blogosfera. Podem não ser muitas, mas o que me importa é o valor humano e intelectual que elas possuem. Agradeço do fundo do coração a essas pessoas pelas visitas gratificantes que têm feito ao "Luzes", umas com mais assiduidade, outras com menos assiduidade. Mas eu procuro entender as razões de algumas não virem aqui com muita frequência. E agradeço até aqueles que aqui vieram por um certo tempo e depois desapareram. Agradeço até a quem veio uma única vez.
Não poderia deixar, no entanto, de registrar uma queixa no final desse texto. Uma coisa me aborrece demais. É a atitude de certos(as) blogueiros(as) de, não sei por que razão, não retribuirem a visita que lhes faço pela primeira vez. Acho isso uma falta de educação. Mesmo que a pessoa não goste do meu blogue, deveria, pelo menos, me agradecer por ter aparecido por lá. Eu nunca deixei de retribuir uma visita que alguém me fez pela primeira vez. Já me deparei com alguns blogues desinteressantes, ao lhes retribuir a visita, mas não deixei de agradecer a vinda do editor ao meu. Felizmente, foram poucas pessoas. Mas ainda hoje me deixam até mesmo magoado.
Por fim, um grande abraço a todos , aos quais renovo os votos de um 2008 ainda melhor do que lhes possa ter sido 2007.
quarta-feira, janeiro 02, 2008
UMA VELHA FOTO

Futebol , quadro de Portinari.
No dia de Natal recebi um telefonema do Quinca. É aquele amigo de infância que em uma noite de 2005 me telefonou, depois de mais de quarenta anos sem termos contato, e não quis se identificar, esperando que eu lhe descobrisse a identidade com o lançamento de pistas, o que acabou acontecendo. (Relatei o fato neste espaço.) Desta vez ele me ligou mais para me desejar um feliz ano novo, mas, em meio à breve conversa, Quinca revelou que possuía uma foto em que ele está comigo e mais três meninos. Também tenho essa foto, disse a ele. E, rapidamente, falamos sobre os outros fotografados. A foto foi tirada antes de um jogo de futebol. Não foi uma pelada, mas uma partida "oficial", pois estamos de camisa. Se não estou enganado, foi um jogo no campo do convento dos frades franciscanos, contra os alunos internos. Curioso o fato de estarem ali apenas os atacantes. Eu estou agachado, as mãos pousadas na bola, ladeado pelo Nei e Tonico. De pé, o Quinca e o Boroca, este com uma mão apoiada no meu ombro. Ao fundo aparece uma árvore frondosa. Nei, dos quatro, o menino com quem tive menos contato, era filho de uma professora, dona Nilda, uma mulher alta e muito simpática e comunicativa. Tonico, filho de Raimundo Marreiro, proprietário de uma casa comercial no mercado de Canindé. Embora me desse com ele, era mais amigo de um dos seus irmãos, o Marreirinho. Tonico tinha mais dois irmãos e uma irmã. A mãe, dona Laura, sofria de uma doença mental e vivia enclausurada em casa. Boroca era um pretinho, de uma família de uma situação financeira razoavelmente boa, pois o pai (Zé de Lima) era dono de uma agência de passagens de ônibus. Zé de Lima tinha as unhas das mãos muito crescidas, quase do tamanho das do cineasta José Mojica Marins. Era um tanto pernóstico e, por causa disso, fazia parte do anedotário da cidade. Boroca era o melhor de nós cinco e, talvez, o melhor de todos os seus companheiros de peladas. Me lembro do seu domínio de bola, dos seus belos dribles, dos seus lançamentos. Tinha futuro como jogador. Mas deve ter optado por outra profissão, pois não ingressou num time da capital, como era de se esperar. Não sei que fim levou. Vou procurar saber notícias dele, quando me encontrar com o Quinca, provavelmente ainda este semestre em Fortaleza.
Esse foi um dos raros jogos "oficiais" que fizemos. Jogávamos mesmo era pelada, que, naquela época, não tinha esse nome. Todo "santo dia" eu jogava. E quase sempre saía com os pés feridos. E à noite, antes de dormir, a mamãe passava Asseptol nos pés, sempre reclamando do meu "vício" e ameaçando contar sobre ele ao papai. Mas acho que o papai sabia que eu jogava, mas fingia que não sabia. Por conta do futebol, levei umas duas surras da mamãe, uma delas de ficar na memória.
De tanto jogar, tive um dia um problema muito grave em um dos joelhos. Não sei em qual dos dois. É capaz de ter sido no esquerdo, onde sofro de uma artrose que me aporrinha há mais de 20 anos. Mas como dizia, foi um problema grave. O joelho doía e eu andava mancando. É possível que a mamãe tenha me levado ao doutor Aramis, o médico da cidade, que, como os médicos daquela época, tinham que entender de todo tipo de enfermidade. Ele chegou a se eleger prefeito. Sei que tomei remédio em cima de remédio e nada. Já estava preocupado e a mamãe também. A preocupação dela era ainda maior porque combinada com o medo de o papai descobrir a causa da doença. Ele deve ter me perguntado alguma vez por que eu andava mancando e eu, certamente instruído pela mamãe, inventei uma história. Até que um dia apareceu lá em casa uma mulher pobre, que morava um pouco longe da cidade. Parece que a mamãe era madrinha de um filho dela. Pois essa mulher humilde foi que acabou curando o meu mal. Ouvindo mamãe relatar, já aflita, o meu caso, recomendou o uso de um tipo de planta, cujo nome não me lembro. Fazia-se uma infusão dessa planta, que essa senhora trazia. E toda noite a mamãe aplicava a infusão no meu joelho. Não me lembro quantas vezes usei o "remédio". Só sei que, em poucos dias, ele começou a surtir efeito. Até desaparecerem a dor e a dificuldade de caminhar. E já não era sem tempo, tanta a falta que sentia do meu jogo diário. E apesar da advertência da minha mãe, que não queria que eu voltasse a jogar, logo que me vi curado, voltei aos campinhos de areia. E haja Asseptol!
quarta-feira, dezembro 26, 2007
MELHORES FILMES VISTOS E REVISTOS EM 2007
Cena de "A Dália Negra".Eis os filmes que mais me agradaram no ano que está se findando, obedecendo àqueles critérios de todo aquele que faz uma lista, principalmente o do gosto pessoal. Os filmes estão relacionados em ordem alfabética, tal como em 2006. Mas este ano, seguindo o exemplo de Moacy Cirne, resolvi, em meio a essa ordem, dar para os filmes as cotações de Excelente (***), Ótimo (**) e Especialmente Bom (*). É que alguns filmes por uma, ou algumas razões , levam uma superioridade sobre outros. Ei-los.
- O Alucinado (Buñuel/1953) **
- Ama-me Esta Noite (Mamoulian/1932) ***
- Bom Dia, Noite (Bellocchi/2003) **
- Brutalidade (Dassin/1947) *
- Cinema, Aspirinas e Urubus (Marcelo Gomes/2005) *
- A Dália Negra (De Palma/2006) ***
- Desde Que Otar Partiu (Julie Bertucelli/2003) **
- Estrela Solitária (Wenders/2006) *
- Flores do Amanhã (Zhang Yang/2005) ***
- Noites de Lua Cheia (Rohmer/1984) **
FILMES REVISTOS
- Chaga de Fogo (Wyler/1951) **
- Fahrenheit 451 (Truffaut/1966) **
- A Mulher do Tenente Francês (Karel Reisz/1981) *
- Nunca te Vi, Sempre te Amei (David Jones/1987) *
- Paixão dos Fortes (Ford/1946) ***
- Persona (Bergman/1966) ***
- Os Profissionais (Richard Brooks/1966) **
- A Regra do Jogo (Renoir/1939) ***
NOTA - Ontem, dia de Natal, fez 30 anos que morreu o gênio Charles Chaplin.
terça-feira, dezembro 18, 2007
TRAÍDOS PELO DESEJO (The Crying Game/1992)
terça-feira, dezembro 11, 2007
PRAÇA DA BASÍLICA

Foto da Basílica de Canindé vista da praça, retirada de
http://www.paroquiadecaninde.com.br/
Eu me reunia todas as noites com os meus amigos na praça da Basílica, exceto quando ia à sessão do Cine Canindé, ou ficara em casa de "castigo" por alguma travessura que cometera. Sentados num banco, ou em mais de um, conforme o número de meninos, comentávamos, basicamente, sobre cinema e futebol. Falávamos dos nossos heróis da tela, o Durango Kid, Johnny Mac Brown (os irreverentes o chamavam de Johnny bate bronha), Roy Rogers e outros mais. Ríamos das palhaçadas dos "doidinhos", como eram conhecidos os atores cômicos daqueles faroestes. Cada mocinho tinha o seu "doidinho" e o mais popular era Smiley Burnette, que trabalhava com o Durango Kid. Era um pouco estrábico e usava o chapéu de uma maneira engraçada. Comentávamos os seriados e tentávamos descobrir como o mocinho iria se livrar do perigo no último episódio assistido. Ansiosos, roendo as unhas, aguardávamos a semana seguinte para saber como ele se safaria. No futebol torcíamos pelos quatro grandes do Rio, então capital do país. Os de maior torcida eram Flamengo e Vasco. Raros os que torciam pelo Botafogo e pelo Fluminense. Houve o caso do Francisco José, filho de Seu Edmundo, dentista da cidade. Conheci-o torcendo pelo Botafogo, mas de uma hora pra outra ele virou a casaca para o Vasco. As más linguas diziam que ele fora aliciado por um rapaz fanático pelo Vasco, em troca de uma bola. Não sei. Só sei que por um certo tempo ele se tornou uma persona non grata entre os torcedores do Bota e, principalmente, do Fla. Se quase nunca discutíamos quando o assunto era cinema, no futebol alguns chegavam quase às chamadas vias de fato em defesa do seu time. Muitas vezes deixávamos o banco e íamos apostar corrida ao redor da praça. Nem todos iam. Mas alguns, como eu, não dispensavam a corrida. E chegava em casa suado, cansado, mas satisfeito, porque quase sempre saía vencedor nas disputas.
Mas o tempo ia passando, fomos crescendo e começávamos a prestar atenção nas moças que circulavam pela praça, ou que ficavam num banco acompanhadas dos namorados. Uma noite estava com alguns amigos e perto do nosso banco um casal namorava. O rapaz era Luís Paiva, que morava numa fazenda perto da cidade, mas não me recordo da moça. Ficamos observando atentamente os dois. Os namoros daqueles tempos. Se bem me lembro, Luís estava com uma mão pousada no ombro da moça e a outra entrelaçada com uma mão dela. E um de nós disse algo assim: "quando eu começar a namorar, vou fazer igual ao Luís". Já nessa época tínhamos a companhia de adultos no banco, ou quando ficávamos em pé, numa das laterais da praça, vendo as moças darem voltas. E algum dos adultos soltava um galanteio para uma das moças ou comentava as formas anatômicas de algumas. Uma vez, estava num banco, veio à tona entre dois rapazes uma discussão sobre quem teria mais valor, o homem rico, ou o homem culto. Ah, foi uma discussão longa e nem um dos dois, como ocorre quando duas pessoas defendem uma questão, foi convencido pelo outro. Não satisfeitos com os próprios argumentos, recorriam a pessoas que passavam. Um deles foi um dos meus irmãos, que volteava com amigos. E o meu irmão ficou mais ou menos em cima do muro.
E havia as músicas do serviço de alto-falante. Eram sempre as mesmas, uma vez na vida , outra na morte, aparecia uma música nova. (Mas quando ouço qualquer daquelas músicas, tocadas toda noite, me vem a lembrança daqueles tempos, acompanhada de uma grande saudade.) E havia as mensagens musicais. "Alguém oferece a alguém"...
Não sei se já falei nisso, se falei, vou repetir. Meu pai estabelecia a hora de os filhos voltarem pra casa. Não podíamos passar das nove e meia. Já estudava em Fortaleza, usava o meu reloginho, quando uma noite participava de um animado papo na praça. Em dado momento, olhei o rosquofe: estava perto da hora fatal. Disse que ia embora, então o Pezim me perguntou por quê. Nunca soube o nome dele. Era chamado de Pezim, porque tinha um pé menor do que o outro e ainda com um defeito que o fazia andar mancando. Era mais velho do que eu, bem mais velho. E disse o motivo. Com a autoridade de uma pessoa mais velha, falou um pouco duro pra mim, que eu já era um rapaz, não podia mais me submeter a uma imposição daquela. Fiquei calado e ao mesmo tempo hesitante entre cumprir a exigência do meu pai ou desrespeitá-la. A conversa estava tão boa. E a hora se aproximava. Foi quando falou mais alto a autoridade paterna. Eu sabia que se passasse da hora, iria ser punido com a proibição de ficar uns dias sem ir para a praça da Basílica. E eu não podia passar sem a praça. Faltava pouco para as nove e meia, mas a minha casa não era longe. Deixei apressado os amigos, que devem ter me achado um babaca. Talvez, no entanto, os pais deles não fossem severos como o meu. Ao me aproximar de casa, avistei o "velho" encostado ao portãozinho, a mamãe na cadeira sobre a calçada, como fazia todas as noites. Ao me avistar, papai puxou o relógio do bolso do pijama. Olhei também o meu e vi que passava um pouquinho das nove e meia. Tive a certeza de que iria reclamar do atraso mínimo. Mas ele não disse nada, eu entrei, fui trocar de roupa e fiquei no meu quarto.
Praça da Basílica de Canindé. Uma "madeleine" da minha infância.
quarta-feira, dezembro 05, 2007
DESDE QUE OTAR PARTIU... (Depuis Qu' Otar Est Parti.../2003)

A francesa Julie Bertucelli demonstra talento na sua estréia no cinema (já tinha dirigido um filme para a tevê) neste "Desde Que Otar Partiu"..., uma produção franco-belga. Antes ela fora assistente de alguns diretores, como Bertrand Tavernier ("Um Sonho de Domingo") e Kielowski ("A Dupla Vida de Veronique", entre outros grandes filmes). E o seu pai Jean-Louis Bertucelli também é diretor. É com firmeza, mas sobretudo com sensibilidade e delicadeza, os silêncios, os gestos, as expressões faciais substituindo as palavras em certos momentos, que Julie Bertucelli narra essa história de três mulheres de gerações diferentes, a avó, a filha viúva e a neta, que moram juntas num apartamento em Tbilisi, capital da Geórgia, um dos países que integravam a União Soviética.
O Otar do título é filho da velha Eka (Esther Gorintin), que vive em Paris, para onde fora com o objetivo de seguir a carreira de médico, porém lá só consegue se manter no ofício de pedreiro. Embora sem aparecer, e isso já ocorreu em outros filmes, ele é um personagem importante. A sua presença se faz sentir nas cartas que manda para a mãe (às quais junta um dinheirinho) e por um eventual telefonema. E pela rivalidade que desperta na irmã Marina (Nino Khomasuridze) na disputa (que só está na cabeça dela) pelo amor da mãe, que claramente o prefere à filha.
O roteiro, co-escrito pela diretora, privilegia a participação da jovem Ada (Dinara Drukarova). Ela intervém nas constantes discussões entre a avó e a mãe, que, às vezes, são originadas por diferenças políticas, pois a velha Eka conserva a sua admiração por Stalin. Sem este, na visão dela, o seu país não estaria passando por problemas, inclusive de administração. Lê para a avó as cartas enviadas pelo filho e livros de autores franceses e faz-lhe massagens nos pés. É Ada que está em casa quando chega de Paris o amigo de Otar, com a mala deste, que contém os seus pertences. Sem ser vista pela avó, guarda a mala e quando a avó surge para ver quem é o visitante, ela, através de gestos, o faz entender que a velha não sabe da morte do filho.
Aliás, a parte mais significativa do roteiro é a decisão tomada por Marina de esconder da mãe a morte de Otar. Para isso, ela se dispõe a escrever as cartas que o irmão continuaria escrevendo se estivesse vivo. Essa atitude de Marina, no entanto, faz aflorar um sentido de ambiguidade, pois pode ter sido determinada não apenas pelo desejo de poupar a velha mãe da dor da perda do filho querido. E é justamente por Ada que o espectador é alertado para isso, quando a jovem acompanha Marina e o amante à casa de campo da avó. Num momento de raiva (não se sabe exatamente por quê), acusa Marina de ter em mente um objetivo na sua atitude: ao iludir Eka de que Otar continua vivo, ela pretenderia, na verdade, lutar para um dia conquistar o coração da mãe. Para Ada, com Otar morto, isso seria impossível.
Já perto do final a ação do filme se transfere para Paris, com a ida da três mulheres àquela cidade, determinada por Eka que quer visitar o filho. E, lá, o roteiro, que já era bom, evolui na qualidade. É quando a velha, sozinha, vai procurar o apartamento onde morava Otar. E ao saber de um vizinho que o filho está morto e recebe dele uma carta que destinara a Otar, descobre, então, toda a trama armada pela filha. É, talvez, o grande momento de "Desde Que Otar Partiu"... A velha fica um pouco sentada no topo da escada do apartamento, observando a porta vermelha do apartamento de Otar. Depois vai a uma praça, onde senta num banco. Em certo momento, retira do bolso a carta e é aí, talvez, que toma a decisão de participar também do jogo. Ou seja, o filho está vivo. E ao voltar para o hotel, diz à filha e à neta (preocupadas com a sua ausência) que fora visitar Otar, mas não o encontrou, pois ele fora embora para os Estados Unidos, em busca de melhores oportunidades de trabalho.
O filme termina com Ada (e só poderia terminar mesmo com ela) deixando o aeroporto de Paris. Resolvera ficar na França. É uma resolução súbita, impulsiva e inesperada, tomada quando, afastada da mãe e da avó, está numa livraria e ouve o aviso de embarque. Bem realizada a cena em que ela, através do vidro da sala de embarque, por meio de gestos, comunica a Eka e Marina a sua decisão. Não há falas por parte de ambas e há um pequeno afago de Eka em Marina, que não resiste às lágrimas. Nesse ato de Eka fica a esperança de que Marina possa vir, no futuro, a conquistar o coração da mãe. Ambas perderam os filhos, e esse fato poderá uni-las na dor e na saudade e fazer cessarem os desentendimentos, as discussões entre elas.
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Uma curiosidade. A atriz Esther Gorintin (georgiana, como os demais integrantes do elenco) estava com 89 anos durante as filmagens. E estreara no cinema há apenas 4 anos antes, portanto com 85 anos nas costas. E pelo que me informei, continua em atividade.






