quarta-feira, abril 23, 2008

CURIOSIDADES

O último dos auto-retratos de Vincent Van Gogh, in Google

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1) É fato suficientemente sabido que Vincent Van Gogh vendeu um único quadro em sua curta vida de 37 anos. Mas quem adquiriu esse quadro, "A Vinha Encarnada", ou "A Vinha Vermelha", ou, ainda, "O Vinhedo Vermelho", conforme a tradução do título original nos sítios pesquisados? E é relevante se saber a identidade do comprador? Como curiosidade, creio que sim. E, afinal, estamos tratando de alguém tido como um dos maiores expoentes da forma de arte que adotou, que não conseguia vender o que criava, apesar do empenho do irmão Theo. Hoje, quando um quadro de Van Gogh é arrematado em um leilão por uma fortuna não existe mais o interesse em saber a identidade do comprador, já que é dos pintores que mais atraem a cobiça dos colecionadores.

Mas quem foi que "fez essa caridade" a um dos mais torturados artistas que já existiram? Há coisa de dois meses ocorreu, em Londres, uma exposição de quadros só de pintoras, uma das quais era Anna Boch, da Bélgica, um país vizinho da Holanda de Van Gogh. A matéria sobre a exposição, que li no sítio da BBC Brasil, informava, de passagem, que foi ela que comprou o quadro.
2) O livro "Abdias", de Cyro dos Anjos (edição do Círculo do Livro, s/data), autor de "O Amanuense Belmiro", é narrado em forma de diário pelo personagem-título. Na página 14, Abdias fala da possibilidade de passar a guardar o diário no seu local de trabalho, para proteger o manuscrito de uma possível descoberta da esposa. E revela um estratagema criado por Tolstoi quando escrevia o seu diário. Transcrevo suas palavras: "Contam que o velho Tolstoi resolveu engenhosamente o problema do diário, fazendo dois simultâneos. Um, escrevia-o às claras e esquecia-o de propósito por todos os compartimentos da casa, para que a família nele saciasse a curiosidade; o outro, o verdadeiro, que continha confidências mais íntimas, era escrito em segredo e escondido nas botas". Muito sabidinho o autor de "Anna Karenina", não?
3) Alagoano de nascimento, mas radicado no Rio do século XIX, o poeta Guimarães Passos passou boa parte de sua vida lutando contra a tuberculose que o acometeu. Apesar da doença, ele continuava produzindo e chegou a escrever um livro, cujo título era Tratado de Versificação. Contemporâneo de Passos, o poeta Emílio de Menezes, que adotava a linha do poema satírico, ao saber, boêmio que era, em um bar, do próximo lançamento do seu colega, não se conteve e soltou este trocadilho: "Coitado do Guimarães! Há muito tempo ele tem tratado de ver se fica são.
4) "Domingo pé-de-cachimbo". Eis uma expressão que vem de longe e é grafada erroneamente. Até por escritores, como já vi em um livro de um autor aqui do Estado, que a utilizou como uma das epígrafes da obra. O correto é "Domingo pede cachimbo", o verbo pedir na acepção de querer, necessitar, e cachimbo na de ócio, descanso; ou seja, domingo é dia de a pessoa não trabalhar, mas se estirar em uma rede, fumando cachimbo. Ou cigarro, se preferir.

quarta-feira, abril 16, 2008

QUEBREI A TIGELA




Faz poucos dias estreei uma camisa. Ao me ver com a camisa, minha mulher disse: "hi, quebrou a tigela!" Quebrar a tigela. Há séculos não ouvia essa expressão, muito usada na minha infância e adolescência. Embora originária do Nordeste, é possível que os habitantes do Sul e Sudeste a conheçam por ela estar no Aurélio. Quem consultou o dicionário, viu que quebrar a tigela significa que uma pessoa usa uma roupa, ou um objeto, pela primeira vez. Como sinônimo, o Aurélio registra também "quebrar a panela", que nunca ouvi. Sei que não é possível, mas que bom seria se o dicionário pudesse revelar a origem dessas expressões. Penso em Marco, do Antigas Ternuras. Como eu, ele gosta muito dessas saborosas expressões e vai à cata da origem delas. Quem sabe se ele não sabe de onde veio quebrar a tigela e faça uma daquelas postagens cheias de humor, irreverente, às vezes, que muito aprecio?
Estava com cinco anos quando nasceu Bosco, o meu irmão caçula. Se meus pais não inventassem de ter mais um filho, encerrando uma série de 11 (o primogênito, uma mulher, morreu com pouco tempo de nascido), eu permaneceria como o caçula. E, assim, não teria ficado no canto. Usava-se a expressão "ficar no canto" naquela época para a criança que perdera a condição de filho mais novo, com o nascimento de um seu irmão. A expressão não consta do Aurélio. Como só disponho desse dicionário (nessa especialidade), não sei se outros do mesmo gênero a registram. Deve ser também exclusiva da região nordestina.E tal como "quebrar a tigela" , fico doido pra saber a sua origem, a exemplo de tantas outras.
Essas expressões, ou palavras, nascidas no Nordeste desapareceram, ou estão em processo de extinção. E a culpa é da televisão, via novelas. Um adolescente, de ambos os sexos, mesmo morando numa cidade das mais atrasadas deste país, prefere falar como os jovens das novelas da Globo. Tantas e tantas expressões que fizeram parte da minha infância, adolescência e juventude se perderam no esquecimento das pessoas.
Mas isso não ocorreu apenas nas cidades do interior. Falei aqui uma vez da expressão "o cão chupando manga" e de outras, que eram comumente usadas quando cheguei a Natal nos anos sessenta. Onde estão elas? Mesmo pessoas da minha idade, até mais velhas, talvez com umas poucas exceções, as desprezaram, por certo para não ouvirem que elas "são de 12" (cadê esta também?), isto é, de um tempo muito antigo. Não sou contra o emprego de palavras importadas do Sudeste (principalmente), assim como os nativos daquela região utilizam algumas do Nordeste. O carioca Machado usou mais de uma vez a expressão "vender azeite às canadas", ao falar de um personagem que está furioso, muito irritado. É um dito aqui do Nordeste, mais especificamente de Pernambuco, conforme descobri há poucos anos.
Acho importante esse intercâmbio. Não vejo nada demais nisso, são palavras faladas em um mesmo país (até a alguns estrangeirismos sou receptivo), mas que não joguemos no lixo, como um objeto imprestável, as expressões e palavras da nossa região.
A minha filha mais nova está esperando o segundo filho. Quando este nascer, o seu primogênito, ao contrário do avô, não vai ouvir das pessoas que ficou no canto. Ainda que morando no interior do Estado.

terça-feira, abril 08, 2008

PAI E FILHA (Banshun/1949)




Em seu Dicionário de Cinema, Jean Tulard transcreve estas palavras do diretor japonês Yasujiro Ozu: "Os filmes de enredo elaborados demais me aborrecem. Naturalmente, um filme deve ter uma estrutura própria, de outro modo não seria um filme, mas acho que para que ele seja bom é preciso renunciar ao excesso do drama e ao excesso da ação". Essa visão que Ozu tinha do cinema está bem caracterizada em "Pai e Filha". Se na recusa de Noriko (Setsuko Hara) em se casar (já com 27 anos), para poder dedicar-se ao pai viúvo Shukichi (Chishu Ryu), atitude que não é aceita pela tia Masa (Haruko Sugimura) e pela amiga Aya (Yumeji Tsukioka), existe uma situação dramática, esta, no entanto, é mostrada com sobriedade, sem permitir uma discussão acalorada, mesmo quando se percebe o aborrecimento , o enfado de Noriko com as investidas casamenteiras das duas, principalmente da primeira. Mas, para mim, o exemplo maior dessa contenção da dramaticidade é dado na cena em que Noriko está se preparando para o casamento (sim, ela acaba por capitular, porém, por obra de um estratagema do pai). Já vestida de noiva, prestes a sair para a cerimônia matrimonial, Noriko se ajoelha diante do pai e lhe agradece pelo cuidado e o amor que teve por ela. Um momento de forte emoção, transmitido apenas pela expressividade dos rostos de Noriko e Shukichi. Ressalte-se também que o casamento não é mostrado (aliás, o noivo só é visto uma única vez, de relance, quando ainda não namorava Noriko), nem se vêem a noiva, o pai e a tia saindo para tomarem o carro estacionado à frente da casa, apenas curiosos em volta do carro. Como o faz ao longo do filme, o diretor opta pelo destaque aos pequenos detalhes, aos silêncios, à contemplação, relegando, portanto, a ação a um plano inferior.
O cinema de Ozu, como afirmam os conhecedores de sua obra, está visceralmente ligado à tradição, às raízes culturais do seu país, havendo quem lhe colasse o rótulo de o mais japonês dos diretores. (O seu entranhado japonesismo é até responsabilizado pelo reconhecimento tardio de seu talento e de sua importância no Ocidente, ao contrário de seus pares Kurosawa e Mizoguchi, com os quais ele forma a Santíssima Trindade do cinema nipônico.) Em "Pai e Filha" o seu apego à cultura, à tradição, aos costumes do Japão se faz presente em vários momentos, como, por exemplo, no espetáculo musical a que Noriko e Shukichi vão assistir; ou, ainda, na carteira de cédulas encontrada na rua por Masa e que ela guarda, pois isso lhe irá trazer sorte - no caso, a concretização do desejo de ver a sobrinha casada, pelo qual luta com obstinação. E é bem possível que a original maneira de Ozu filmar, com a câmera bem perto do chão, o operador se pondo de cócoras, resulte do seu posicionamento nacionalista. Pois, segundo o crítico André Setaro, ao posicionar assim a câmera, ele pretendia "enquadrar os personagens conforme a visão de uma pessoa sentada no chão, como é hábito e costume das casas nipônicas tradicionais, da cultura japonesa, antes dela se transfigurar e se descaracterizar com a ocidentalização de Tóquio".
No entanto, em uma oposição (ou, uma invasão) ao tradicional, percebe-se a presença da modernidade. É esclarecedor, por exemplo, o diálogo entre Shukichi e a cunhada Masa, em que esta reprova a gula de uma noiva após a cerimônia do casamento, um comportamento inconcebível no tempo em que ela casou. Essa intromissão do moderno é mais agravada pela influência da cultura americana no país, a qual é mostrada, de modo sutil, como convém a Ozu, em duas ocasiões: uma placa com um anúncio da Coca Cola, em inglês, na estrada por onde Noriko e o assistente do pai passeiam, e um restaurante em cuja fachada estão escritas, também em inglês, as palavras café e chá.
Com o lançamento deste belíssimo filme, A Lume, nova produtora de DVD, dá um grande presente ao cinéfilo. Torçamos para que ela lance outros filmes desse mestre do cinema, como "Viagem a Tóquio", que, dizem os que o conhecem, é ainda melhor.

quarta-feira, abril 02, 2008

UM EPISÓDIO NA DITADURA MILITAR

Este artigo foi aqui publicado em 13.06.06. Sai pela segunda vez, na ocasião em que, há 44 anos, estava se iniciando a implantação da ditadura militar no Brasil, um terrível pesadelo que durou mais de 20 anos.
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Há poucos dias Moacy Cirne comentou, no seu Balaio Vermelho, que chegou a ser caçado pelas forças da repressão da ditadura militar, um dos períodos que mais mancharam a história do Brasil no decurso de mais de vinte anos. Felizmente, o nosso amigo não chegou a ser preso e torturado, pelo menos não tenho informação disso. Já outros amigos e conhecidos meus não tiveram a mesma sorte, e um ou outro pagou com o sacrifício da própria vida o fato de contestar o regime militar. Comigo não houve problemas, até porque não dei motivos para tal, o que não quer dizer que fosse favorável à presença daqueles milicos no poder. Evidente que não concordava com toda aquela situação pela qual o país estava passando, discutia-a com os amigos, mas tive o cuidado de não me expor demais, principalmente quando escrevia nos jornais. Sobre cinema. Apesar dos meus cuidados, houve uma vez em que, por um triz, não fui preso. É um episódio que jamais me saiu da cabeça.
Foi assim. Num certo dia, em 1972 (no governo de Médici, o mais sanguinário de todos), precisei ir a Fortaleza, para tratar de um negócio. O ônibus saía à meia-noite. A viagem seguia tranqüila, mas aí pela metade do percurso, de repente o ônibus parou. Era no meio da estrada escura, o que já causou estranheza nos passageiros. O ônibus, pois, pára, as luzes se acendem e, então, surgem dois homens, com toda a pinta de agentes policiais. Ficam por alguns segundos em pé, à frente da porta que dá acesso ao posto do motorista, e, com os olhos, examinaram os viajantes. Logo em seguida um deles se afasta e vem diretamente para o lugar onde eu estava. Devia ser na terceira ou quarta fileira. Me pede a carteira de identidade e examina-a atentamente. Ao ver a fotografia, certamente, olha meu rosto com atenção. Por fim me devolve o documento, com um obrigado. Sem um pedido de desculpas. A mim e aos demais viajantes. Quando o ônibus se pôs de novo em movimento, as pessoas não tiravam os olhos de mim. Se não me falha a memória, alguém chegou a me perguntar o que eu fizera para ser submetido àquele incômodo exame. Mas se eu próprio não saberia dizer o motivo! Sem nenhuma dúvida, aqueles homens estavam à caça de alguém e me acharam parecido com ele.
No início eu disse que, por um triz, escapei de ser preso. O caso é que eu quase viajava sem a minha carteira de identidade. Durante o dia, no meu trabalho, tive que entregá-la à Seção de Pessoal, para uma atualização de dados na minha ficha funcional. Cheguei a alertar o colega que ia precisar do documento, pois iria viajar naquele mesmo dia. Ele prometeu devolvê-lo dentro de pouco tempo, mas o certo é que o expediente se encerrou e não o recebi de volta. Como a minha viagem era inadiável, mesmo preocupado, tinha que ir a Fortaleza. Mas aí por volta de umas oito horas da noite, eis que chega o colega à minha residência com a carteira de identidade.
Pelo que relatei, se estivesse sem ele, teria sido arrastado do ônibus, talvez tivesse ficado preso e até sido torturado. Talvez nem estivesse contando aqui esse episódio de uma época que, só os que a viveram, sabem dos seus inúmeros e enormes malefícios.

quarta-feira, março 26, 2008

A CARRUAGEM DE OURO (Le Carrosse d'Or/1952)



Com a eclosão da Segunda Guerra, Jean Renoir mudou-se para os Estados Unidos. Ao contrário de seus compatriotas René Clair e Julien Duvivier, sua experiência americana não foi bem-sucedida. Talvez por ser o mais francês dos diretores, na afirmação de Georges Sadoul, ele não tenha conseguido se adaptar à cultura daquele país, nem ao processo de produção de filmes em Hollywood. Ele só voltaria ao cinema europeu, não na França, mas na Itália, com "A Carruagem de Ouro", e entre este e seu último filme americano, realizou, na Índia, "The River", que Andrè Bazin alçou à altura de obra-prima.
Pelo que se depreende do depoimento de Renoir nos Extras do DVD, a peça "Le Carrose de Saint Sacrement", de Prosper Mérimée, serviu, digamos, apenas como um ponto de partida para a concepção de "A Carruagem de Ouro". Na verdade, um amante do teatro, Renoir foi movido pelo propósito de prestar uma homenagem à "Commedia dell' Arte", um popularíssimo gênero teatral originário da Itália. Ele pretendeu fazer um filme que absorvesse o espírito do gênero, isto é, que a trama tivesse que se despojar de qualquer resquício de realismo, ou naturalismo. E além disso, eliminasse a fronteira entre o que se passa no palco e na realidade - realidade aqui no sentido da trama do filme. Quer dizer: que as apresentações realizadas pela trupe italiana que vai parar numa colônia espanhola (não identificada) na América do Sul se confundissem com a história (realidade) do filme. É o que ocorre com Colombina (Anna Magnani) no palco e, fora deste, Camila, cortejada por três homens: o Vice-Rei (Duncan Lamont), que lhe presenteia a carruagem de ouro que mandara buscar na Itália e transportada no mesmo navio em que Camila viera; o oficial espanhol Felipe (Paul Campbell), que a acompanhara na excursão, e o toureiro Ramon (Riccardo Rioli). No envolvimento com este, aliás, há um momento em que Camila passa de atriz para espectadora. Uma cena de belo efeito cinematográfico, iniciada com um "close" do rosto dela, seguida por um "traveling" que vai até à arena.
Por falar em Anna Magnani, não se pode deixar de relevar o desafio de Renoir ao escolhê-la para viver um personagem tão diverso, até mesmo antagônico, dos que ela interpretara até então. E devido à natureza do seu personagem, La Magnani contém certos excessos que marcaram os seus desempenhos, a despeito do seu inquestionável talento interpretativo. Ela, inclusive, teve que aprender inglês (o filme tem uma versão nesse idioma, que é a deste disco, com vistas a atingir o mercado anglo-americano), porque Renoir pretendia que o inglês falado pela atriz, impurificado pelo forte acento italiano, tivesse um efeito expressivo, confrontado com o dos intérpretes nativos da Inglaterra, que compõem a maioria do elenco.
Com uma carreira iniciada ainda no cinema mudo, apenas pela segunda vez Renoir fazia uso da cor, sendo a primeira no já mencionado "The River". E ela constitui-se em um elemento fundamental no resultado do filme. Contando com a colaboração valiosa do fotógrafo e seu sobrinho Claude (com quem trabalhou em tantos filmes), o diretor empenhou-se em que a cor casasse perfeitamente com o cenário, os figurinos e a iluminação. Há outro importante colaborador, e, como diz Renoir em tom de "blague", é do tipo que não dá problema, que concorda com o realizador em tudo, pois já não está neste mundo. Trata-se de Vivaldi, que com seu peculiar estilo musical contribui para que o filme tenha a leveza de outros tantos do diretor.
Pelas qualidades artísticas e pela atração do enredo, "A Carruagem de Ouro" talvez seja o filme em que Renoir tenha conseguido promover a união dessas duas categorias geralmente inconciliáveis, ou seja, a crítica e o público.

terça-feira, março 18, 2008

A SEMANA SANTA DA MINHA INFÂNCIA

Quadro Cristo Morto, de Andrea Mantegna (1431-1506).

Todos os anos, quando chega a Semana Santa, eu me lembro da minha infância naquele período. As lembranças se acumulam, principalmente as da Sexta-Feira Santa: as imagens de santos cobertas por um pano preto ou roxo (não me recordo com precisão), o sacristão percorrendo o pátio da Basílica, em intervalos de quinze a vinte minutos, se muito, carregando a matraca e fazendo-a soar um ruído alto e enervante; a imagem de Cristo deitado, exposta no centro da igreja para receber o ósculo dos fiéis, ordenados em fila indiana; a procissão à tarde, com a Verônica, representada por uma moça, exibindo em um pano a face ensanguentada de Jesus.

Me lembro, ah, se me lembro, de que em uma certa hora (a memória não me deixa dizê-la), anunciada pelo relógio da Basílica, minha mãe, a voz alterada pela emoção, afirmava que naquele momento começava a agonia de Jesus.

Muitas pessoas, especialmente as mais humildes, não tomavam banho naquele dia, um hábito talvez ainda preservado nas cidades mais atrasadas deste imenso país. E as rádios só tocavam músicas fúnebres.

Já o Sábado de Aleluia era outro dia, e não apenas no sentido cronológico. À tarde uma multidão se reunia na praça do mercado público para ouvir de alguém a leitura do testamento de Judas. A cada objeto legado por Judas a um habitante da cidade, as risadas explodiam. (Um dos meus irmãos, que não perdia por nada esse espetáculo, ao voltar para casa, relembrava alguns desses legados e os respectivos herdeiros.)

No outro dia era o Domingo da Páscoa, da ressurreição de Cristo. Terminava a Semana Santa e na segunda-feira os cristãos voltavam a "pecar".


quarta-feira, março 12, 2008

AS MANGAS



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Sábado, fim de tarde, bebia em um bar que descobrira da primeira vez em que estivera naquela cidade. Encantara-se com o ambiente, ao ar livre, duas frondosas mangueiras na entrada, a área suficientemente espaçosa para quem desejasse isolar-se dos outros clientes. Não frequentara outro bar, durante os dias em que permanecera na cidade, e, ao voltar, após muito tempo, procurou-o e ficou feliz por ele ainda estar funcionando.
O ambiente (mas sobretudo a hora, quando diminuía bastante o número de frequentadores) estimulava a meditação a quem estivesse ali sozinho - e ele estava absorvido em pensamentos que se sucediam em uma intensa celeridade, como se o próprio cérebro se recusasse a reter cada um deles por mais de uns dois minutos. De repente, foi desviado dos pensamentos por um barulho de vozes. E o que lhe despertou a atenção é que o barulho não era igual ao de pessoas envolvidas em uma altercação, tão comum em mesa de bar. O tom das vozes era alegre, de animação, mais identificado com a bulha de crianças quando estão brincando. Percebeu que as vozes procediam do lugar onde se erguiam as mangueiras, e, impresssionado, além de curioso, deixou a mesa e caminhou para lá. Ao se aproximar, teve uma enorme surpresa: três marmanjos atiravam pedras nos frutos pendentes de uma das mangueiras, tentando derrubá-los. Três homens de meia-idade brincando feito crianças, em um lugar para adultos. Imaginou que eles, ainda há pouco, estivessem a ponto de se digladiar em uma estéril e desgastante discussão sobre os políticos, e, de repente, tinham-na abandonado, ao descobrirem aquelas mangas maduras oferecendo-se para serem colhidas.
A cena, insólita, era capaz de atiçar a zombaria, mas, ao mesmo tempo, havia nela um elemento de nostalgia da infância, que lhe calou fundo. Observando aqueles homens de idades batendo mais ou menos com a sua, que buscavam, talvez inconscientemente, recuperar um momento do tempo de meninos, ele se viu também menino, galgando muros proibidos para roubar mangas, subindo em árvores, atirando pedras nos frutos. E, então, veio-lhe intensa a vontade de reunir-se aos coroas, e, de posse de uma pedra, atirá-la contra as mangas. Depois de derrubá-las, as juntaria em um saco plástico, levando-as para chupá-las no quarto do hotel.
Mas, inesperada, alguma coisa o tolheu. Talvez o receio de não ser bem acolhido pelos homens; ou, quem sabe, parecer a si mesmo ridículo, ainda que não tivesse dos estranhos a mesma impressão. Certo é que, resignado, voltou para a mesa e os pensamentos.

quarta-feira, março 05, 2008

UM DEBATE SOBRE BOCCACCIO 70



Em 1966 Gilberto Stabili e eu, membros do Cineclube Tirol, de Natal (ele presidira a entidade no ano anterior) , escrevíamos uma coluna no jornal Correio do Povo. Eu escrevia num dia, ele no outro. Uma feita, Gilberto me propôs fazermos um debate sobre "Boccaccio 70", filme constituído de 3 episódios, dirigidos por Fellini ("As Tentações do Dr. Antônio), Visconti ("O Trabalho") e De Sica ("A Rifa"). Aceitei o desafio e uma noite fui à casa da irmã de Gilberto, onde ele residia. Ficamos no quarto dele. Ele passava para um papel tanto as suas opiniões sobre os 3 episódios, quanto as minhas. Depois datilografou. Foi um debate curto, devido às limitações do espaço de que díspunhamos no jornal. Achei que podia ser de interesse divulgar esse "confronto" entre dois jovens na casa dos vinte anos (ele mais velho um pouco do que eu, mas com uma vivência de cinema de já um veterano, comparada com a minha). Eis o que escrevemos naquela noite já distante, que saiu no jornal uns dois a três dias depois.
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Sobreira - "Boccaccio 70" é um filme de finalidade comercial, apesar de assinado por três grandes nomes do cinema italiano. Em busca de lucro para os seus empreendimentos, os produtores parecem ter verificado que já não bastam um bom elenco e um bom enredo, mas também que o filme seja dirigido por um cineasta famoso.
- Stabili - Que a finalidade é comercial basta ver que o inspirador - Giovanni Boccaccio - foi um satírico popularesco, justamente famoso também pelo conteúdo erótico das suas narrativas. Mas não importa a intenção comercial se a idéia é boa e os diretores têm a liberdade de dizer.
Sobreira - E porque por trás de tudo está o dedo do homem que financiou, tais filmes em geral nunca são bem realizados, existindo sempre desarmonia entre as histórias tratadas por diferentes realizadores, alguns deles saindo-se bem da empreitada, outros decepcionando. Pessoalmente, prefiro a parte de Visconti. A meu ver, ele foi, dos três diretores, o único que resistiu à finalidade comercial do filme. Por isso conservou-se fiel a si mesmo, fazendo uma história séria, sem fugir à sua temática ou ao seu estilo.
Stabili - As diferenças são mais resultantes das peculiaridades de estilo, cabendo as dissonâncias em relação ao tom geral à responsabilidade de cada diretor. Salvo quanto ao nível de qualidade de cada episódio, que depende, naturalmente, da competência de cada autor. Na minha opinião, é Visconti o destoante do espírito de "Boccaccio 70", precisamente por adotar uma linguagem séria para tratar de um tema de ironia cruel, um "entreato cínico e depravado", na expressão de certo crítico. Não precisava Visconti fugir à sua temática e sim adaptar o seu estilo ao espírito do episódio.
Sobreira - "O Trabalho", na minha opinião, é um episódio inteiramente viscontiano, de maneira que o espectador familiarizado com o estilo do autor de "Rocco e Seus Irmãos" não tem dificuldades em identificá-lo. Nele estão presentes o plano bem elaborado, a preocupação pelo detalhe, o extremo bom gosto, o estilo fino e requintado, a elegância formal. Acresce a isso a classe ao tratar cenas mais ousadas (o strip-tease de Romy Schneider) e a expressividade dos grandes planos de rostos.
Stabili - Por ser "viscontiano", não impede também de ser destoante e meio-frustrado. Todos os valores e características que você mencionou estão em "O Trabalho" servindo insatisfatoriamente ao espírito e ao clima dramático do episódio. O tratamento teria de ser mais leve e isso só seria possível mediante uma forma menos elaborada, pesada e um tanto teatral como é.
Sobreira - Com relação a algum teatralismo, isso se vê em todos os filmes de Visconti (até em "Rocco") , e se explica pelo fato de ele pertencer tanto ao teatro quanto ao cinema, sentindo, por isso, a influência de um sobre o outro.
Stabili - Em "Rocco" o clima pesado era exigência da história. Em "O Trabalho", não.
Sobreira - A parte de Fellini é muito boa tecnicamente e está servida brilhantemente pelo desempenho de Peppino de Filippo, no papel do Dr. Antônio. O que a prejudica é o tom de certo exagero como Fellini assesta as suas baterias contra as pessoas que o criticaram pelo seu filme "A Doce Vida". A vingança da sua resposta atinge, algumas vezes, o delírio, o que diminui, em consequência, o efeito da sátira.
Stabili - Em "As Tentações do Dr. Antônio", Fellini usou seu talento prodigioso e a técnica cinematográfica, que domina como poucos, para expor ao ridículo os falsos moralistas que condenaram "A Doce Vida" e continuam a fazer a censura moral. Mas não somente para isso. O desabafo de Fellini atinge toda a hipocrisia - nos costumes, moral, instituições, até na arte - e é a favor da liberdade. Sua sátira caricaturesca é terrível, de uma crueldade muitas vezes injusta, e isso de fato diminui a validade da crítica, mas ela é, sem dúvida, a coisa mais inteligente (e mais cinematográfica) de "Boccaccio 70".
Sobreira - O último episódio, dirigido por De Sica, é muito inferior aos demais. Além de apresentar uma narrativa ultrapassada, "A Rifa" peca, sobretudo, pela grosseria e pelo extremo mau gosto, presentes tanto nas situações humorísticas de baixa categoria, como nos diálogos.
Stabili - Concordo inteiramente com você. Chamo a atenção para aquela comparação dos homens de Lugo com animais, quando a câmera passa sucessivamente de um grupo de porcos a um grupo de homens, no começo do episódio.
Sobreira - E como se isso não bastasse, houve a intenção de explorar Sophia Loren não como atriz, mas como mulher possuidora de inegáveis atributos físicos. É uma pena que De Sica e Zavattini tenham caído tanto. Salva-se a apresentação do problema social, que leva uma mulher a submeter-se à humilhante situação de oferecer-se como prêmio de uma rifa.
Stabili - A exploração dos atributos físicos de Sophia se faz dentro da anedota picaresca, e isso não contraria a empresa (inspirada em Boccaccio). A grosseria não é a erótica, e sim a ideológica, e pior do que isso, a da expressão.
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NOTA - "Boccaccio 70" é constituído de 4 episódios. O quarto, de Mario Monicelli ("Renzo e Luciana") foi interditado pela censura da ditadura militar, quando o filme foi lançado neste pobre país. Mas está presente no DVD do filme, lançado já há algum tempo.




quarta-feira, fevereiro 27, 2008

O BEIJO DE UM JOVEM EM MACHADO DE ASSIS


Vale a pena relatar, no ano em que transcorre o centenário de falecimento de Machado, um episódio envolvendo o autor de "Dom Casmurro" e um jovem de quase dezoito anos. O rapaz, sabendo através do "Jornal do Commercio", que Machado estava à beira da morte e querendo conhecer o escritor que admirava, partiu às pressas para a casa dele. Lá chegando, encontrou alguns escritores que faziam vigília a Machado na sala de estar, entre os quais estava Euclides da Cunha. Apesar dos seus apelos, os presentes não lhe queriam satisfazer o desejo. Machado dormia no seu quarto, mas o barulho de vozes o despertou, e, tomando conhecimento do que ocorria, permitiu que o jovem fosse até a ele. O jovem chegou ao lado da cama em que Machado estava, e, sem dizer palavra, ajoelhou-se e lhe beijou a mão. Ainda em silêncio, levantou-se e foi embora. Sem se identificar também aos presentes, aos quais dissera, ao chegar, ser "um grande admirador do escritor".
Isso se deu em 28 de setembro de 1908. No dia seguinte Machado morreria. Em artigo no mesmo jornal, dois dias depois da morte do escritor, intitulado "A Última Visita", Euclides relatou o ocorrido e escreveu : "Naquele meio segundo em que ele estreitou o peito moribundo de Machado de Assis, aquele menino foi o maior homem de sua terra", acrescentando que "qualquer que seja o destino desta criança, ela nunca mais subirá tanto na vida". Quatorze anos depois, "o menino", "a criança", seria um dos fundadores do Partido Comunista Brasileiro. Seu nome: Astrojildo Pereira.
Nascido em Rio Bonito (RJ) em 1890, Astrojildo conservou a admiração por Machado até morrer em 1965, chegando, inclusive, a escrever um livro sobre este, que o jornalista Sérgio Augusto chamou de "um precioso estudo sociológico" em artigo publicado no "Estadão". Também conservou-se comunista, apesar de ter sido expulso do Partidão, pela acusação de ser "um intelectual pequeno-burguês". (Aliás, por manter-se partidário da doutrina comunista, Astrogildo, já um homem enfartado, foi preso pela ditadura militar, em 1964. Solto três meses depois, graças ao empenho de jornalistas, escritores e artistas, no ano seguinte sofreria outro enfarte, dessa vez fatal.)
Ainda segundo Sérgio Augusto, por sua formação literária, apesar de ter abandonado os estudos formais em plena adolescência, Astrojildo atraiu a admiração de "intelectuais tão díspares quanto Otto Maria Carpeaux (que discursou no sepultamento dele) , Gilberto Freyre, Oswald de Andrade e Antonio Candido. Até o ferrenho anti-comunista Nelson Rodrigues reverenciava a figura e a opinião de Astrojildo" E era um homem de fino trato. Antonio Carlos Vilaça, que o conheceu já velho, descreve-o em "Os Saltimbancos da Porciúncula" (Record 1996) , como um homem extremamente doce, gentil, suave e muito discreto.
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NOTA - O artigo de Sérgio Augusto ("O Comunista Que Beijou Machado", de 2001, salvo engano) , está no saite www.digestivocultural.com/, cedido gentilmente a este pelo autor.

quarta-feira, fevereiro 20, 2008

A PANTERA



Conto já publicado neste blogue em novembro de 2006.
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Bonita. Muito bonita. Os olhos bem abertos, agateados, que davam ao rosto um ar de pantera, a boca parecendo ter o tamanho certo - nem grande, nem pequena. Os braços - e aí um pequeno senão na sua beleza - eram um pouco musculosos, assim formados, certamente, por exercícios em uma academia. Quando a viu pela primeira vez, ela surgindo de repente, com o olhar provocador, foi tomado por uma sensação estranha. Um impacto. Ou, antes, um susto pelo inesperado da presença da moça, como algo ameaçador, embora revestido de beleza. Ela estava colada à vitrine da parte lateral de uma perfumaria, localizada num centro comercial. O que sentiu, de tão forte, quase como se percebesse uma ameaça de agressão (e a beleza dela tinha um quê de agressivo), o fez olhar rapidamente para a moça e continuar a caminhada de todo final de tarde, dando várias voltas pelos dois longos quarteirões, no primeiro dos quais se situava aquele centro comercial. Seguiu com a imagem da moça na cabeça. Atingiu o fim do segundo quarteirão, dobrou à direita, passou em frente a um antigo colégio, depois pegou outra vez a direita e foi percorrendo os dois quarteirões do lado oposto, até alcançar outra vez o centro comercial. Era assim todas as tardes, quando começava a escurecer. Ao se aproximar da perfumaria, já se sentia preparado para não sofrer o mesmo efeito de minutos antes e foi até à vitrine, para examinar a moça. E, embora tocado pela agressividade de sua beleza, permaneceu uns dois a três minutos observando detalhadamente o rosto e a mão que segurava um frasco de perfume de nome inglês.
Ao voltar para o apartamento vazio, desfez-se da bermuda, do tênis, da camiseta, enxugou o suor do corpo, escolheu um cd, deitou-se na cama para ouvi-lo. Como fazia todas as tardes, antes de tomar banho e depois o jantar frugal. Mas daquela vez ocorreu uma quebra na rotina. Ouvia as músicas, mas sem a mesma concentração. Em algumas músicas até que a concentração era inteira (talvez porque fossem as de que gostasse mais) , já em outras a imagem da moça se sobrepunha e ele não tinha força para rejeitá-la. Quando mais tarde foi ler, em muitos momentos parecia "ver" a moça presente no relato. Houve uma vez que ao ler a descrição dos olhos de um personagem feminino, imaginou que eles fossem iguais aos dela. Interrompeu a leitura e, com o livro seguro na mão, pôs-se a pensar na moça. E pelo resto da noite não conseguiu livrar-se da sua imagem e teve a certeza, ao deitar-se, de que ela apareceria num sonho. Mas isso não ocorreu.
No dia seguinte, ao despertar o primeiro pensamento foi para ela. Rápido, veio a resolução de tomar a providência de evitá-la, alterando o itinerário da caminhada. Ficou cada vez mais distante da perfumaria, na certeza de que, não vendo a moça, ela sairia da sua cabeça.
A providência deu resultado, mas não imediato, por alguns dias a imagem da moça, o ar de pantera, o rosto de uma beleza perfeita surgiam, de repente, por entre as páginas de um livro, no meio de uma música, na tela da televisão.
Até que um dia ela desapareceu, afinal. Experimentou uma grande satisfação, como se tivesse ganho um prêmio. Com o passar do tempo, livre dela, chegou a pensar em vê-la outra vez, pois acreditava que não iria lhe acontecer mais nada, a não ser a indiferença. Saiu uma tarde disposto a retomar o antigo itinerário, mas, ao chegar a poucos metros da perfumaria, algo estranho o dominou, impedindo-o de seguir. Voltou, então, pela caminho que o levara até ali, continuando a caminhada no sentido das outras tardes. Enquanto andava, percebeu, num misto de decepção e raiva, que não estava de todo livre da presença dela.
Um dia foi ao centro da cidade. Fazia anos que não ia lá, para não ser incomodado pelo barulho dos carros de propagando e do número excessivo de pedintes e de pessoas oferecendo cartões de crédito, empréstimos, entregando papeizinhos de serviços diversos. Mas um amigo lhe dissera que tinha visto numa grande loja o cd que ele procurara, sem sucesso, em outros locais da cidade. Encontrou o cd, após uma busca que levou uns dez minutos, uma única unidade, escondido por outros discos, como se estivesse à sua espera. Pagou-o e, em vez de sair pela entrada, preferiu a porta dos fundos.
Ao passar pela seção de perfumaria, sem uma razão que justificasse o ato, como impelido por alguma coisa da qual não pudesse escapar, desviou a vista para a parede ao lado. E viu. No alto da parede, ela, os olhos parecendo mais agateados, a expressão no rosto parecendo ainda mais agressiva, olhando desafiadora para ele, como se quisesse saltar do pôster para cima dele. Virou-se com tanta rapidez que o corpo perdeu um pouco o equilíbrio e precisou apoiar-se numa prateleira para não cair. Logo em seguida, retomou a caminhada, apressado, esbarrando nas pessoas, sem se desculpar, ansioso para encontrar a saída. E mesmo depois de sair da loja, continuar a andar veloz, quase correndo, como se achasse que a moça tinha saltado do pôster e, tão rápida quanto ele, quisesse alcançá-lo. Nem quando entrou no carro, sentiu-se livre. Em disparada voltou para o apartamento.
E, à noite, sonhou com ela.
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- A mulher da foto é a atriz Simone Simon, no filme "Sangue de Pantera" (Jacques Tourneur/1942)
- O selinho acima, o segundo concedido ao "Luzes da Cidade"por ele, é mais um produto da generosidade do amigo Marco Santos, do blogue Antigas Ternuras

quarta-feira, fevereiro 13, 2008

MEDOS PRIVADOS EM LUGARES PÚBLICOS (Coeurs/2006)


Aos 84 anos, quando parecia já acabado para o cinema, Alain Resnais consegue surpreender com um filme que perturba o espectador e ao mesmo tempo o estimula à reflexão. Adaptado de uma peça teatral que tem o mesmo título do filme em português, Resnais nos apresenta a seis pessoas (três homens e três mulheres) solitárias (mesmo quando envolvidas num relacionamento amoroso, como Dan/Lambert Wilson e Nicole/Laura Montale) , perdidas, em busca de algo que dê um valor significativo a suas vidas, sempre confinadas em ambientes fechados (não há em todo o filme uma única cena externa) , como isoladas do mundo lá fora. Mas não têm êxito na sua busca quase desesperada. Nem mesmo um apartamento que a satisfaça Nicole consegue. Ela vive com Dan, um ex-militar à cata de um emprego, num apartamento de hotel, em cujo bar ele se embebeda todas as noites.
E há a neve. Incessante, vista dos interiores, ela acentua o fardo que aquelas pessoas carregam. A neve funciona também como um elemento de ligação entre as cenas. E já perto do fim, na conversa entre Lionel (Pierre Arditi) e Charlotte (Sabine Azéma) , no apartamento de Lionel, a neve parece estar junto deles, como se ali tivesse penetrado, mercê de um notável efeito técnico, que ainda torna a cena visualmente bela.
É talvez o maior momento do filme, porque além da presença do elemento técnico-estético, naquela conversa Lionel revela um pouco do seu passado; aliás, o único personagem a fazê-lo, já que se se sabe que Dan deixara a carreira militar, o motivo não é explicitado. Além de sabermos que Lionel era dominado pela mãe, uma mulher de temperamento forte, que chegou a expulsar de casa o marido, ocorre algo mais sobre ele: ao falar de um amigo de juventude, com quem aparece numa foto emoldurada que a câmera focaliza rapidamente, deixa a impressão de ser um homossexual.
Esses "corações" , amargurados pela frustração dos desejos, se cruzam no desenrolar da história. Nicole tem mais de um contato com o corretor imobiliário Thierry (André Dussolier) , que trabalha com Charlotte, por quem se sente fortemente atraído. Debruçada sobre a Bíblia, quando não tem cliente para atender, mas alimentando desejos lascivos, Charlotte se chega a Lionel, que a leva para, à noite, tratar do pai enfermo, um velho rabugento e desbocado, do qual só se ouve a voz. E um pouco por causa do seu desejo, e um pouco para se vingar do velho, ela o faz ir parar no hospital. Dan, por sua vez, tem um rápido envolvimento com Gaelle (Isabelle Carré) , irmã de Thierry, mas com idade para ser sua filha. Ela sai à noite com a desculpa de que vai se reunir com amigas, mas, na verdade, vai se encontrar com algum homem, a quem atraiu por um anúncio de jornal.
Se não fica bem próximo dos maiores filmes de Resnais, "Medos Privados em Lugares Públicos" é muito bom, possivelmente o melhor do cineasta desde "Meu Tio da América" (1980) . Que bom seria que ele parasse agora, rematando de forma digna uma bela carreira. No entanto, já está preparando outro.

quarta-feira, fevereiro 06, 2008

CURIOSIDADES


Catedral de São Basílio, em Moscou, in Google.



- A Catedral de São Basílio foi construída entre 1555 e 1561. Depois de pronta, o Czar que governava a Rússia, na época, mandou furar os olhos do arquiteto que a projetou para que este não pudesse criar outra obra da mesma beleza. O nome do Czar era Ivan, cognominado O Terrível. Um építeto muito apropriado para quem cometeu monstruosidades como essa.


- Leio em "Antes do Fim", memórias do argentino Ernesto Sabato (Companhia das Letras/2000) , que o escritor espanhol Miguel de Unamuno preferia usar a palavra Mátria, ao invés de Pátria, "uma vez que é a mãe o verdadeiro fundamento da existência".


- Já o cineasta francês Robert Bresson ("Um Condenado à Morte Escapou") só chamava o cinema de "cinematógrafo". "Cinema", para ele, é o local onde os filmes são exibidos.


- Foi Millor Fernandes que chamou a atenção para esta particularidade no nome do compositor, ator e escritor Mario Lago: Mar, Rio, Lago. Um nome muito aquoso. Ou aquático?


- O cineasta russo Eisenstein, que fez um filme sobre Ivan, o Terrível, revela em seu livro "Reflexões de um Cineasta" (Zahar Editores/1969) , que Chaplin lhe confessou uma vez que detestava criança. Essa confissão ocorreu quando Eisenstein passou uma temporada em Hollywood e os dois se tornaram amigos. Não duvido da revelação do russo, mas da confidência de Chaplin, que o deixou chocado. Tenho pra mim que o criador de Carlitos queria justamente isso: chocar o genial amigo. Fazer uma brincadeira (de mau gosto) . Afinal, se Chaplin detestava criança, não teria tido tantos filhos.


- "JOSUEU". Era assim que Rachel de Queiroz chamava Josué Montello, em alusão ao ego do seu colega, o qual superava a quantidade (mais de 100) de livros que escreveu.


- O carnaval de 1941 foi marcado por um fato inusitado. Em meio a marchinhas, sambas e frevos (em Pernambuco) , foi composta uma valsa. Sim, uma valsa. E fez sucesso. Intitulava-se "Nós Queremos Uma Valsa", da autoria de Nássara e Frazão, na voz de Carlos Galhardo.
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OBSERVAÇÃO - O amigo "Eremita", do blogue http://eremiterioblogspot.blogspot.com/, me deu o presente acima, escolhendo o "Luzes da Cidade" entre os seus 7 blogues preferidos, pelo que me sinto honrado e muito grato a ele.

quarta-feira, janeiro 30, 2008

2 POEMAS DE CARNAVAL DE CARLOS PENA FILHO (PE)

Pierrô, Arlequim e Colombina, óleo sobre
tela de Di Cavalcanti (1922)

A mesma rosa amarela (*)

Você tem quase tudo dela,

o mesmo perfume, a mesma cor,

a mesma rosa amarela,

só não tem o meu amor.

Mas nestes dias de carnaval

para mim, você vai ser ela.

O mesmo perfume, a mesma cor,

a mesma rosa amarela.

Mas não sei o que será

quando chegar a lembrança dela

e de você apenas restar

a mesma rosa amarela,

a mesma rosa amarela.

Soneto principalmente do carnaval

Do fogo à cinza fui por três escadas

e chegando aos limites dos desertos,

entre furnas e leões marquei incertos

encontros com mulheres mascaradas.

De pirata da Espanha disfarçado

adormeci panteras e medusas.

Mas, quando me lembrei das andaluzas,

pulei do azul, sentei-me no encarnado.

Respirei as ciganas inconstantes

e as profundas ausências do passado,

porém, retido fui pelos infantes

que me trouxeram vidros do estrangeiro

e me deixaram só, dependurado

nos cabelos azuis de fevereiro.

(*) - Segundo revela o crítico e pesquisador Ricardo Cravo Albim, "A mesma rosa amarela" foi escrito por Carlos Pena Filho (morto em acidente de carro em 1960, com apenas 31 anos de idade) para o carnaval daquele ano. Apresentado a Capiba para musicá-lo, o compositor de"Maria Betânia" gostou tanto do poema que achou que ele não deveria ser cantado apenas nos quatro dias de carnaval e fez um samba-canção. "A mesma rosa amarela" foi gravado pelo cantor Claudionor Germano (também pernambucano, como os autores, e intérprete preferido de Capiba), mas não obteve sucesso. O sucesso veio quando Maysa a gravou, uns 2 anos depois. Com o passar dos anos, vários outros cantores regravaram a música, inclusive Nelson Gonçalves.

NOTA - Os 2 poemas fazem parte do livro "POEMAS - Carlos Pena Filho" (Global Editora, 1983).


quarta-feira, janeiro 23, 2008

MACHADO DE ASSIS & WILLIAM WORDSWORTH


Quem leu "Memórias Póstumas de Brás Cubas" deve se lembrar de um capítulo intitulado "O menino é o pai do homem". Ali pela quinta ou sexta linha do primeiro parágrafo, Machado escreveu: "Um poeta dizia que o menino é o pai do homem". Quem era o poeta, o escritor não diz. É estranha a omissão do nome do autor da frase, principalmente por não ser um costume de Machado, que não deixava de informar a fonte de um uma frase, ou uma palavra. Às vezes, se não creditava o autor, o fazia com a obra, certamente por ser esta muito conhecida, como alguma peça famosa de Shakespeare, "A Divina Comédia", "Dom Quixote", etc. Mas nesse caso, o personagem-narrador menciona apenas e vagamente "um poeta". Nem a nacionalidade do poeta é dita. Qual o motivo? Machado não se lembrava do nome do poeta e entendeu que não era importante procurar o livro, que, provavelmente, ele possuía? Ou preguiça de procurá-lo? É possível.
Bem. Há uns dois meses, mais ou menos, lendo o blogue de Marcelo Coelho na Folha Online, há um texto do editor em que ele fala sobre a frase escrita em "Memórias Póstumas de Brás Cubas" e revela o nome do poeta. Trata-se do romântico inglês William Wordsworth. Marcelo Coelho ainda faz mais. Informa o título do poema ("My Hearth Leaps up When I Behold") e publica no blogue. Não sei se de forma integral, ou apenas a parte do poema de que faz parte parte a frase do livro de Machado. Transcrevo-o a seguir.
My heart leaps up when I behold
A rainbow in the sky:
So was it when my life began;
So is it now I am a man;
So be it when I shall grow old,
Or let me die!
The Child is father of the Man;
I cloud wih my days to be
Bould each to each by natural piety.
De todo modo, Machado, cujo centenário de morte ocorre este ano, ainda que devesse ter citado Wordsworth, pelo menos não deu para si a autoria da frase. Já Guimarães Rosa não procedeu da mesma forma. Sabem a famosa frase "viver é muito perigoso", que aparece no seu "Grande Sertão:Veredas"? Ela pertence a Goethe. Já contei isso aqui, mas vou contar de novo. A revelação é de Rubem Braga numa pequena crônica (não me recordo de qual livro dele). Um escritor mineiro, que não é mencionado (talvez ele estivesse vivo, na época, e Rubem evitou uma possível polêmica), lendo Goethe, descobriu a frase. "Viver é muito perigoso". O nosso maior cronista não informa se o dito faz parte de um romance , ou de um poema do escritor alemão. E para não acusar Rosa de plágio, ele encerra a crônica dizendo mais ou menos assim (cito de memória e a minha memória já anda me pregando algumas peças) : que era próprio de Rosa, por exemplo, misturar Goethe com o sertão mineiro.

quarta-feira, janeiro 16, 2008

OS MELHORES ANOS DAS NOSSAS VIDAS (The Best Years of Our Lives/1946)

Este artigo saiu num jornal de Natal, onde eu mantinha uma coluna semanal sobre cinema, na primeira metade dos anos 1990. Tendo revisto o filme há poucos dias, resolvi publicá-lo aqui, com algumas alterações em relação ao texto original.
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Um dos mais graves problemas da guerra é que os seus malefícios continuam mesmo depois de ela chegar ao fim. Ou seja, os seus efeitos sobre a nação envolvida no conflito, sobre a população e sobre os homens que estiveram no campo de batalha. Sabe-se como ficou quase toda a Europa depois da Segunda Guerra e das grandes dificuldades que a sua população enfrentou. Por não senti-la dentro do seu território, o povo americano sofreu bem menos os efeitos sociais e econômicos da Segunda Guerra. Já os americanos que foram lutar, muitos deles, na volta, tiveram que enfrentar uma outra guerra.
É de três desses homens que trata "Os Melhores Anos de Nossas Vidas". De volta para casa e para as suas vidas de civis, Al Stephenson (Fredric March), Fred Derry (Dana Andrews) e Homer Parrish (Harold Russel) encontram sérias dificuldades para se readaptarem à sociedade. E como se pudessem prevê-las, Al e, principalmente Homer, são tomados por uma apreensão quando o táxi em que viajam se aproximam de suas casas. (A apreensão é acentuada pelo detalhe de os rostos dos três ex-combatentes serem vistos, em duas ocasiões, apequenados no espelho retrovisor.) A do segundo é ainda maior porque ele não tem idéia de como se comportarão os seus pais e a namorada Wilma (Cathy O'Donnel), ao reencontrarem-no usando ganchos em lugar das mãos. E, infelizmente, Homer estava certo em seus receios: desde o instante em que a mãe não consegue dominar um curto soluço de dor quando olha o filho acenando com um gancho para o táxi que parte, ele passa a viver um desconforto psicológico, como uma vítima da curiosidade de adultos e crianças, e objeto de constrangimento do pai, que, na presença do filho, evita fazer coisas que exijam o uso das mãos. Somente Wilma não parece nem um pouco afetada pela mutilação de Homer, demonstrando-lhe o mesmo amor que sentia antes de ele partir.
É exatamente aí que ele tem mais sorte do que Fred, que não terá motivos de satisfação ao reencontrar a frívola esposa Marie (Virginia Mayo). Ela que, praticamente, viu o marido sair da lua-de-mel para a guerra, e, por causa do temperamento volúvel, não pôde impedir que a longa separação comprometesse o casamento, crê, ingenuamente, que a volta de Fred, envergando o vistoso uniforme da Força Aérea, possa fazê-la recuperar o amor por ele. Mas, na verdade, o seu interesse é apenas no status de Fred como um herói de guerra, cujo símbolo é representado por aquele uniforme. Quando ele troca a farda pelos trajes civis, ela sente um travo de decepção com o marido, e a partir daí, começam os problemas para ele. Frustrado por voltar ao mesmo trabalho que fazia antes de ir para a guerra, e com um salário muito inferior ao que ganhava como capitão, Fred acaba se demitindo do emprego, ao tempo em que é abandonado por Marie. Por ironia, o seu próximo trabalho é numa empresa que constrói casas pré-fabricadas, com o aproveitamento de material de sucata de aviões.
Também Al não está totalmente confortável no seu trabalho no banco. Responsável pela carteira que financia empréstimos aos desmobilizados, Al gostaria de socorrer os ex-companheiros que recorrem ao banco, mas sem poder oferecerem garantia (como fez uma vez com um deles) , mas é obrigado a se curvar às normas da instituição.
"Os Melhores Anos das Nossas Vidas" atinge perfeitamente o objetivo de expor os obstáculos enfrentados pelos civis, que foram para a guerra, em se readaptarem à vida no tempo de paz. Entre os quais a hostilidade que sofrem de pessoas que não foram convocadas para lutar e têm medo de perder o emprego para aqueles que, eles julgam, voltaram cobertos de glória. A direção de William Wyler ("O Colecionador", "Ben-Hur") é muito boa, sabendo explorar os momentos tensos, dramáticos, românticos e até os (esporadicamente) humorísticos. Ele adota, em quase todo o filme, o método de usar a câmera muito próxima dos atores, como se pretendesse conquistar a cumplicidade, a adesão do espectador. A qualidade da sua direção faz-se sentir também no rendimento dos intérpretes, todos muito bem, a começar pelo tarimbado e excelente Fredric March, e até Harold Russel, que nunca havia representado. Os dois, aliás, ganharam o Oscar de Melhor Ator e Melhor Ator Coadjuvante.
Pena que o vigor e a firmeza do roteiro amoleçam no final. O casamento de Homer e Wilma parece implausível, depois de se ver que Homer, consciente de que o amor deles não poderia dar certo, tenta esquivar-se ao assédio da namorada. É uma solução que dá a impressão de ter sido arranjada para levar uma mensagem de esperança aos inúmeros mutilados de guerra, entre os quais se incluía o próprio Russel, que teve as mãos decepadas durante um treinamento de batalha. E a "concessão" do final não pára por aí. O ardente beijo trocado entre Fred e Peggy (Teresa Wright), a filha de Al, depois da cerimônia, prenuncia outro casamento.
Apesar desse deslize, o filme se mantém de pé por todas as qualidades já apontadas.

quarta-feira, janeiro 09, 2008

TRÊS VELAS


Foto extraída de www.studyoanasouza.com/


Pois é. Na próxima sexta, dia 11, o "Luzes da Cidade" estará com três velas. São três anos que edito este blogue, falando de cinema , de literatura, um ou outro assunto fora desses dois, e , vez por outra, contando minhas lembranças da infância. Três anos. E eu que, quando ingressei na blogosfera, duvidava de que este espaço chegasse a um ano de existência. É verdade que, durante esse período, pensei por várias vezes em parar. E continuo a pensar, vez por outra. De uns tempos pra cá já não tenho o mesmo entusiasmo dos primeiros meses. Até há uns dois meses tinha estabelecido uma data redonda para apagar estas luzes: justamente no aniversário dos seus três aninhos. Acabei mudando de idéia. E vou tocar o "Luzes" enquanto der. No dia em que achar que "já estou por aqui", paro. Paro e sem volta. Nem que me arrependa da decisão. Mas, por enquanto, vou editando o bichinho. Há outros motivos, além da falta de entusiasmo, mas prefiro não citá-lo.
Irei sentir saudades, porque gostei da experiência. Além de divulgar os meus livros, o que redundou no interesse de vários visitantes por adquiri-los (e para todos esses enviei, com o maior prazer, um livro da preferência deles), tive a oportunidade de conhecer muitas pessoas da melhor espécie humana. E talentosas, inteligentes, sensíveis. Com muitas delas aprendi muitas coisas. E lhes ganhei a amizade. É até possível que tenha sido elas o principal responsável por eu continuar aqui, três anos depois de estrear na blogosfera. Podem não ser muitas, mas o que me importa é o valor humano e intelectual que elas possuem. Agradeço do fundo do coração a essas pessoas pelas visitas gratificantes que têm feito ao "Luzes", umas com mais assiduidade, outras com menos assiduidade. Mas eu procuro entender as razões de algumas não virem aqui com muita frequência. E agradeço até aqueles que aqui vieram por um certo tempo e depois desapareram. Agradeço até a quem veio uma única vez.
Não poderia deixar, no entanto, de registrar uma queixa no final desse texto. Uma coisa me aborrece demais. É a atitude de certos(as) blogueiros(as) de, não sei por que razão, não retribuirem a visita que lhes faço pela primeira vez. Acho isso uma falta de educação. Mesmo que a pessoa não goste do meu blogue, deveria, pelo menos, me agradecer por ter aparecido por lá. Eu nunca deixei de retribuir uma visita que alguém me fez pela primeira vez. Já me deparei com alguns blogues desinteressantes, ao lhes retribuir a visita, mas não deixei de agradecer a vinda do editor ao meu. Felizmente, foram poucas pessoas. Mas ainda hoje me deixam até mesmo magoado.
Por fim, um grande abraço a todos , aos quais renovo os votos de um 2008 ainda melhor do que lhes possa ter sido 2007.

quarta-feira, janeiro 02, 2008

UMA VELHA FOTO



Futebol , quadro de Portinari.

No dia de Natal recebi um telefonema do Quinca. É aquele amigo de infância que em uma noite de 2005 me telefonou, depois de mais de quarenta anos sem termos contato, e não quis se identificar, esperando que eu lhe descobrisse a identidade com o lançamento de pistas, o que acabou acontecendo. (Relatei o fato neste espaço.) Desta vez ele me ligou mais para me desejar um feliz ano novo, mas, em meio à breve conversa, Quinca revelou que possuía uma foto em que ele está comigo e mais três meninos. Também tenho essa foto, disse a ele. E, rapidamente, falamos sobre os outros fotografados. A foto foi tirada antes de um jogo de futebol. Não foi uma pelada, mas uma partida "oficial", pois estamos de camisa. Se não estou enganado, foi um jogo no campo do convento dos frades franciscanos, contra os alunos internos. Curioso o fato de estarem ali apenas os atacantes. Eu estou agachado, as mãos pousadas na bola, ladeado pelo Nei e Tonico. De pé, o Quinca e o Boroca, este com uma mão apoiada no meu ombro. Ao fundo aparece uma árvore frondosa. Nei, dos quatro, o menino com quem tive menos contato, era filho de uma professora, dona Nilda, uma mulher alta e muito simpática e comunicativa. Tonico, filho de Raimundo Marreiro, proprietário de uma casa comercial no mercado de Canindé. Embora me desse com ele, era mais amigo de um dos seus irmãos, o Marreirinho. Tonico tinha mais dois irmãos e uma irmã. A mãe, dona Laura, sofria de uma doença mental e vivia enclausurada em casa. Boroca era um pretinho, de uma família de uma situação financeira razoavelmente boa, pois o pai (Zé de Lima) era dono de uma agência de passagens de ônibus. Zé de Lima tinha as unhas das mãos muito crescidas, quase do tamanho das do cineasta José Mojica Marins. Era um tanto pernóstico e, por causa disso, fazia parte do anedotário da cidade. Boroca era o melhor de nós cinco e, talvez, o melhor de todos os seus companheiros de peladas. Me lembro do seu domínio de bola, dos seus belos dribles, dos seus lançamentos. Tinha futuro como jogador. Mas deve ter optado por outra profissão, pois não ingressou num time da capital, como era de se esperar. Não sei que fim levou. Vou procurar saber notícias dele, quando me encontrar com o Quinca, provavelmente ainda este semestre em Fortaleza.

Esse foi um dos raros jogos "oficiais" que fizemos. Jogávamos mesmo era pelada, que, naquela época, não tinha esse nome. Todo "santo dia" eu jogava. E quase sempre saía com os pés feridos. E à noite, antes de dormir, a mamãe passava Asseptol nos pés, sempre reclamando do meu "vício" e ameaçando contar sobre ele ao papai. Mas acho que o papai sabia que eu jogava, mas fingia que não sabia. Por conta do futebol, levei umas duas surras da mamãe, uma delas de ficar na memória.

De tanto jogar, tive um dia um problema muito grave em um dos joelhos. Não sei em qual dos dois. É capaz de ter sido no esquerdo, onde sofro de uma artrose que me aporrinha há mais de 20 anos. Mas como dizia, foi um problema grave. O joelho doía e eu andava mancando. É possível que a mamãe tenha me levado ao doutor Aramis, o médico da cidade, que, como os médicos daquela época, tinham que entender de todo tipo de enfermidade. Ele chegou a se eleger prefeito. Sei que tomei remédio em cima de remédio e nada. Já estava preocupado e a mamãe também. A preocupação dela era ainda maior porque combinada com o medo de o papai descobrir a causa da doença. Ele deve ter me perguntado alguma vez por que eu andava mancando e eu, certamente instruído pela mamãe, inventei uma história. Até que um dia apareceu lá em casa uma mulher pobre, que morava um pouco longe da cidade. Parece que a mamãe era madrinha de um filho dela. Pois essa mulher humilde foi que acabou curando o meu mal. Ouvindo mamãe relatar, já aflita, o meu caso, recomendou o uso de um tipo de planta, cujo nome não me lembro. Fazia-se uma infusão dessa planta, que essa senhora trazia. E toda noite a mamãe aplicava a infusão no meu joelho. Não me lembro quantas vezes usei o "remédio". Só sei que, em poucos dias, ele começou a surtir efeito. Até desaparecerem a dor e a dificuldade de caminhar. E já não era sem tempo, tanta a falta que sentia do meu jogo diário. E apesar da advertência da minha mãe, que não queria que eu voltasse a jogar, logo que me vi curado, voltei aos campinhos de areia. E haja Asseptol!

quarta-feira, dezembro 26, 2007

MELHORES FILMES VISTOS E REVISTOS EM 2007

Cena de "A Dália Negra".

Eis os filmes que mais me agradaram no ano que está se findando, obedecendo àqueles critérios de todo aquele que faz uma lista, principalmente o do gosto pessoal. Os filmes estão relacionados em ordem alfabética, tal como em 2006. Mas este ano, seguindo o exemplo de Moacy Cirne, resolvi, em meio a essa ordem, dar para os filmes as cotações de Excelente (***), Ótimo (**) e Especialmente Bom (*). É que alguns filmes por uma, ou algumas razões , levam uma superioridade sobre outros. Ei-los.

- O Alucinado (Buñuel/1953) **

- Ama-me Esta Noite (Mamoulian/1932) ***

- Bom Dia, Noite (Bellocchi/2003) **

- Brutalidade (Dassin/1947) *

- Cinema, Aspirinas e Urubus (Marcelo Gomes/2005) *

- A Dália Negra (De Palma/2006) ***

- Desde Que Otar Partiu (Julie Bertucelli/2003) **

- Estrela Solitária (Wenders/2006) *

- Flores do Amanhã (Zhang Yang/2005) ***

- Noites de Lua Cheia (Rohmer/1984) **

FILMES REVISTOS

- Chaga de Fogo (Wyler/1951) **

- Fahrenheit 451 (Truffaut/1966) **

- A Mulher do Tenente Francês (Karel Reisz/1981) *

- Nunca te Vi, Sempre te Amei (David Jones/1987) *

- Paixão dos Fortes (Ford/1946) ***

- Persona (Bergman/1966) ***

- Os Profissionais (Richard Brooks/1966) **

- A Regra do Jogo (Renoir/1939) ***

NOTA - Ontem, dia de Natal, fez 30 anos que morreu o gênio Charles Chaplin.

terça-feira, dezembro 18, 2007

TRAÍDOS PELO DESEJO (The Crying Game/1992)




Este texto foi publicado num jornal de Natal, na década de 1990. Republico-o aqui, após rever o filme em DVD, há poucos dias, pois continuo com a mesma impressão que tive dele quando o assisti no seu lançamento em vídeo.


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É possível perceber um distintivo temático em pelo menos dois filmes de Neil Jordan, este "Traídos pelo Desejo" e "Mona Lisa", de 1986. É o caso de duas pessoas, em posições diferentes, até mesmo antagônicas, na sociedade, as quais as circunstâncias obrigam a conviver juntas, mas que acabam por descobrir uma afinidade entre elas, da qual irá florescer uma grande amizade. E a preservação desse sentimento, artigo raro no mundo egoístico e insensível em que se vive, por parte de uma dessas pessoas não será mantida sem a exigência de sacrifícios, que envolvem até a própria sobrevivência. Assim acontece tanto com o motorista da prostituta de luxo do gângster ("Mona Lisa"), quanto com o guerrilheiro do IRA em "Traídos pelo Desejo". E é preciso salientar que é uma amizade entre pessoas sem a mesma identidade de cor.


Mas em "Traídos pelo Desejo" surge a presença de um terceiro, que irá concorrer para que a amizade entre o branco Jimmy Fergus (Stephen Rea) e o negro Jody (Forest Whitaker) permaneça mesmo depois da estúpida morte do segundo. No princípio a lembrança que Dil (Jaye Davidson) guarda do seu relacionamento com o soldado morto, conservando roupas e fotografias dele, faz com que Jimmy vacile em manifestar a atração que sente por ela, como se sentisse estar cometendo uma traição ao amigo. O retrato deste, vestido com o uniforme de corredor, é como se ele estivesse fisicamente na casa, impedindo o outro de consumar o desejo. Uma "presença" que se faz sentir até nos sonhos de Jimmy.


Quando Jimmy descobre a verdade identidade sexual de Dil, é assaltado por uma sucessão de sentimentos e reações, que vão da aversão, do desapontamento, da sensação de esbulho, até culuminar na amizade, inspirada na que existia (existe) entre os dois homens. A última visão que ele tem de Dil, antes de se entregar à polícia, é a de Dil caminhando pelo gramado, quase a mesma com que o soldado aparecia em seus sonhos.

Esse é um belo e poético filme e de uma ousadia que, no entanto, em nenhum momento resvala na grosseria ou na vulgaridade, por causa da delicadeza da direção e do roteiro, também de Jordan. Ao travestimento de Dil, ignorado apenas por Jimmy, não se ouve a mínima alusão entre os que participam da sua convivência, como se ele fosse encarado com naturalidade e mesmo com respeito. Interessante é que a reação daquele amante de Dil, quando é repelido, não se manifesta com agressões verbais, mesmo quando Dil atira pela janela as roupas e outros pertences dele.

Mas qualquer resenha sobre o filme não pode omitir a interpretação de Jaye Davidson. Não dá pra entender por que o Oscar de ator coadjuvante foi parar nas mãos de Gene Hackman, um ótimo ator, mas cujo papel em "Os Imperdoáveis" exige parcos recursos interpretativos. Ao contrário do papel de Dil, de grande complexidade, cheio de nuanças, com o qual Jaye Davidson diz ao que veio em sua estréia no cinema.
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NOTA ATUAL (1) - Ao que parece, Jaye Davidson desistiu da carreira de ator, pois fez apenas 2 filmes depois de "Traídos pelo Desejo", o último deles em 1995.
NOTA ATUAL (2) - A historinha do escorpião e da rã, narrada por Jody a Jimmy e por este a Dil (por coincidência, os narradores estão como prisioneiros) já tinha sido contada no filme "Grilhões do Passado", de Orson Welles (1955).

terça-feira, dezembro 11, 2007

PRAÇA DA BASÍLICA



Foto da Basílica de Canindé vista da praça, retirada de

http://www.paroquiadecaninde.com.br/

Eu me reunia todas as noites com os meus amigos na praça da Basílica, exceto quando ia à sessão do Cine Canindé, ou ficara em casa de "castigo" por alguma travessura que cometera. Sentados num banco, ou em mais de um, conforme o número de meninos, comentávamos, basicamente, sobre cinema e futebol. Falávamos dos nossos heróis da tela, o Durango Kid, Johnny Mac Brown (os irreverentes o chamavam de Johnny bate bronha), Roy Rogers e outros mais. Ríamos das palhaçadas dos "doidinhos", como eram conhecidos os atores cômicos daqueles faroestes. Cada mocinho tinha o seu "doidinho" e o mais popular era Smiley Burnette, que trabalhava com o Durango Kid. Era um pouco estrábico e usava o chapéu de uma maneira engraçada. Comentávamos os seriados e tentávamos descobrir como o mocinho iria se livrar do perigo no último episódio assistido. Ansiosos, roendo as unhas, aguardávamos a semana seguinte para saber como ele se safaria. No futebol torcíamos pelos quatro grandes do Rio, então capital do país. Os de maior torcida eram Flamengo e Vasco. Raros os que torciam pelo Botafogo e pelo Fluminense. Houve o caso do Francisco José, filho de Seu Edmundo, dentista da cidade. Conheci-o torcendo pelo Botafogo, mas de uma hora pra outra ele virou a casaca para o Vasco. As más linguas diziam que ele fora aliciado por um rapaz fanático pelo Vasco, em troca de uma bola. Não sei. Só sei que por um certo tempo ele se tornou uma persona non grata entre os torcedores do Bota e, principalmente, do Fla. Se quase nunca discutíamos quando o assunto era cinema, no futebol alguns chegavam quase às chamadas vias de fato em defesa do seu time. Muitas vezes deixávamos o banco e íamos apostar corrida ao redor da praça. Nem todos iam. Mas alguns, como eu, não dispensavam a corrida. E chegava em casa suado, cansado, mas satisfeito, porque quase sempre saía vencedor nas disputas.

Mas o tempo ia passando, fomos crescendo e começávamos a prestar atenção nas moças que circulavam pela praça, ou que ficavam num banco acompanhadas dos namorados. Uma noite estava com alguns amigos e perto do nosso banco um casal namorava. O rapaz era Luís Paiva, que morava numa fazenda perto da cidade, mas não me recordo da moça. Ficamos observando atentamente os dois. Os namoros daqueles tempos. Se bem me lembro, Luís estava com uma mão pousada no ombro da moça e a outra entrelaçada com uma mão dela. E um de nós disse algo assim: "quando eu começar a namorar, vou fazer igual ao Luís". Já nessa época tínhamos a companhia de adultos no banco, ou quando ficávamos em pé, numa das laterais da praça, vendo as moças darem voltas. E algum dos adultos soltava um galanteio para uma das moças ou comentava as formas anatômicas de algumas. Uma vez, estava num banco, veio à tona entre dois rapazes uma discussão sobre quem teria mais valor, o homem rico, ou o homem culto. Ah, foi uma discussão longa e nem um dos dois, como ocorre quando duas pessoas defendem uma questão, foi convencido pelo outro. Não satisfeitos com os próprios argumentos, recorriam a pessoas que passavam. Um deles foi um dos meus irmãos, que volteava com amigos. E o meu irmão ficou mais ou menos em cima do muro.

E havia as músicas do serviço de alto-falante. Eram sempre as mesmas, uma vez na vida , outra na morte, aparecia uma música nova. (Mas quando ouço qualquer daquelas músicas, tocadas toda noite, me vem a lembrança daqueles tempos, acompanhada de uma grande saudade.) E havia as mensagens musicais. "Alguém oferece a alguém"...

Não sei se já falei nisso, se falei, vou repetir. Meu pai estabelecia a hora de os filhos voltarem pra casa. Não podíamos passar das nove e meia. Já estudava em Fortaleza, usava o meu reloginho, quando uma noite participava de um animado papo na praça. Em dado momento, olhei o rosquofe: estava perto da hora fatal. Disse que ia embora, então o Pezim me perguntou por quê. Nunca soube o nome dele. Era chamado de Pezim, porque tinha um pé menor do que o outro e ainda com um defeito que o fazia andar mancando. Era mais velho do que eu, bem mais velho. E disse o motivo. Com a autoridade de uma pessoa mais velha, falou um pouco duro pra mim, que eu já era um rapaz, não podia mais me submeter a uma imposição daquela. Fiquei calado e ao mesmo tempo hesitante entre cumprir a exigência do meu pai ou desrespeitá-la. A conversa estava tão boa. E a hora se aproximava. Foi quando falou mais alto a autoridade paterna. Eu sabia que se passasse da hora, iria ser punido com a proibição de ficar uns dias sem ir para a praça da Basílica. E eu não podia passar sem a praça. Faltava pouco para as nove e meia, mas a minha casa não era longe. Deixei apressado os amigos, que devem ter me achado um babaca. Talvez, no entanto, os pais deles não fossem severos como o meu. Ao me aproximar de casa, avistei o "velho" encostado ao portãozinho, a mamãe na cadeira sobre a calçada, como fazia todas as noites. Ao me avistar, papai puxou o relógio do bolso do pijama. Olhei também o meu e vi que passava um pouquinho das nove e meia. Tive a certeza de que iria reclamar do atraso mínimo. Mas ele não disse nada, eu entrei, fui trocar de roupa e fiquei no meu quarto.

Praça da Basílica de Canindé. Uma "madeleine" da minha infância.

quarta-feira, dezembro 05, 2007

DESDE QUE OTAR PARTIU... (Depuis Qu' Otar Est Parti.../2003)




A francesa Julie Bertucelli demonstra talento na sua estréia no cinema (já tinha dirigido um filme para a tevê) neste "Desde Que Otar Partiu"..., uma produção franco-belga. Antes ela fora assistente de alguns diretores, como Bertrand Tavernier ("Um Sonho de Domingo") e Kielowski ("A Dupla Vida de Veronique", entre outros grandes filmes). E o seu pai Jean-Louis Bertucelli também é diretor. É com firmeza, mas sobretudo com sensibilidade e delicadeza, os silêncios, os gestos, as expressões faciais substituindo as palavras em certos momentos, que Julie Bertucelli narra essa história de três mulheres de gerações diferentes, a avó, a filha viúva e a neta, que moram juntas num apartamento em Tbilisi, capital da Geórgia, um dos países que integravam a União Soviética.
O Otar do título é filho da velha Eka (Esther Gorintin), que vive em Paris, para onde fora com o objetivo de seguir a carreira de médico, porém lá só consegue se manter no ofício de pedreiro. Embora sem aparecer, e isso já ocorreu em outros filmes, ele é um personagem importante. A sua presença se faz sentir nas cartas que manda para a mãe (às quais junta um dinheirinho) e por um eventual telefonema. E pela rivalidade que desperta na irmã Marina (Nino Khomasuridze) na disputa (que só está na cabeça dela) pelo amor da mãe, que claramente o prefere à filha.
O roteiro, co-escrito pela diretora, privilegia a participação da jovem Ada (Dinara Drukarova). Ela intervém nas constantes discussões entre a avó e a mãe, que, às vezes, são originadas por diferenças políticas, pois a velha Eka conserva a sua admiração por Stalin. Sem este, na visão dela, o seu país não estaria passando por problemas, inclusive de administração. Lê para a avó as cartas enviadas pelo filho e livros de autores franceses e faz-lhe massagens nos pés. É Ada que está em casa quando chega de Paris o amigo de Otar, com a mala deste, que contém os seus pertences. Sem ser vista pela avó, guarda a mala e quando a avó surge para ver quem é o visitante, ela, através de gestos, o faz entender que a velha não sabe da morte do filho.
Aliás, a parte mais significativa do roteiro é a decisão tomada por Marina de esconder da mãe a morte de Otar. Para isso, ela se dispõe a escrever as cartas que o irmão continuaria escrevendo se estivesse vivo. Essa atitude de Marina, no entanto, faz aflorar um sentido de ambiguidade, pois pode ter sido determinada não apenas pelo desejo de poupar a velha mãe da dor da perda do filho querido. E é justamente por Ada que o espectador é alertado para isso, quando a jovem acompanha Marina e o amante à casa de campo da avó. Num momento de raiva (não se sabe exatamente por quê), acusa Marina de ter em mente um objetivo na sua atitude: ao iludir Eka de que Otar continua vivo, ela pretenderia, na verdade, lutar para um dia conquistar o coração da mãe. Para Ada, com Otar morto, isso seria impossível.
Já perto do final a ação do filme se transfere para Paris, com a ida da três mulheres àquela cidade, determinada por Eka que quer visitar o filho. E, lá, o roteiro, que já era bom, evolui na qualidade. É quando a velha, sozinha, vai procurar o apartamento onde morava Otar. E ao saber de um vizinho que o filho está morto e recebe dele uma carta que destinara a Otar, descobre, então, toda a trama armada pela filha. É, talvez, o grande momento de "Desde Que Otar Partiu"... A velha fica um pouco sentada no topo da escada do apartamento, observando a porta vermelha do apartamento de Otar. Depois vai a uma praça, onde senta num banco. Em certo momento, retira do bolso a carta e é aí, talvez, que toma a decisão de participar também do jogo. Ou seja, o filho está vivo. E ao voltar para o hotel, diz à filha e à neta (preocupadas com a sua ausência) que fora visitar Otar, mas não o encontrou, pois ele fora embora para os Estados Unidos, em busca de melhores oportunidades de trabalho.
O filme termina com Ada (e só poderia terminar mesmo com ela) deixando o aeroporto de Paris. Resolvera ficar na França. É uma resolução súbita, impulsiva e inesperada, tomada quando, afastada da mãe e da avó, está numa livraria e ouve o aviso de embarque. Bem realizada a cena em que ela, através do vidro da sala de embarque, por meio de gestos, comunica a Eka e Marina a sua decisão. Não há falas por parte de ambas e há um pequeno afago de Eka em Marina, que não resiste às lágrimas. Nesse ato de Eka fica a esperança de que Marina possa vir, no futuro, a conquistar o coração da mãe. Ambas perderam os filhos, e esse fato poderá uni-las na dor e na saudade e fazer cessarem os desentendimentos, as discussões entre elas.
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Uma curiosidade. A atriz Esther Gorintin (georgiana, como os demais integrantes do elenco) estava com 89 anos durante as filmagens. E estreara no cinema há apenas 4 anos antes, portanto com 85 anos nas costas. E pelo que me informei, continua em atividade.